
O BONECO DE TRAPOS
– de (Carlos Leite Ribeiro)
(Este texto passou na Radiodifusão pela
voz/ interpretação da locutora/ actriz
Sandra Ferreira. Quando terminou o texto,
estava com os olhos marejados de lágrimas…)
Era uma vez um boneco de trapos...
O Natal estava à porta e, numa casa modesta,
a mãe viúva e as suas duas filhas,
trabalhavam afincadamente na confecção de
bonecos de trapos.
O último boneco da última série saiu
defeituoso: uma perna mais curta, um braço
mais comprido e até o olhar era vesgo.

- Não vamos mandar este boneco
para a loja, pois, está muito defeituoso -
disse-lhe uma das filhas.
- É um facto, este boneco ficou com muitos
defeitos - concordou a mãe, que continuou -
mas talvez passe e não seja devolvido. Nós
precisamos tanto de dinheiro...
- Sendo assim, minha mãe, vamos então mandar
também o "aleijadinho.
E o Boneco de Trapos, com uma perna mais
curta, um braço mais comprido e com o olhar
vesgo, lá foi para a loja...

Em outra casa modesta, outra mãe
falava a sua filha mais nova:
- Tu minha filha, queres oferecer uma prenda
de Natal àquela menina que mora além,
naqueles prédios novos, mas nós somos pobres
e não podemos oferecer nenhum brinquedo
caro.
- Podemos comprar qualquer coisa barata, uma
simples lembrança - disse-lhe a criança -
para mais, ela deu-nos umas roupitas que nos
fizeram muito arranjo.
- Pronto, não insistas mais. Vai à loja e
compra um brinquedo que seja barato.
E foi assim que, o Boneco de Trapos,
defeituoso, com uma perna mais curta, um
braço mais comprido e o olhar vesgo, bem
embrulhado e com um laço colorido, foi parar
a uma casa menos modesta, onde habitava uma
menina, que tinha muitos brinquedos caros e
bonitos...
- A tua amiguinha ali de baixo,
a que no outro dia deste aquelas roupas,
trouxe-te esta prenda.
- Ah, mas que boneco tão imperfeito, mamã!
que hei-de de fazer com ele? É tão feio?!
- Brinca com ele - retorqui-lhe a mãe -
Talvez depois o consideres bonito.
Pouco convencida, a menina não arranjou
outra brincadeira que não fosse colocar o
Boneco de Trapos, no centro do alvo dos
dardos, e, com uma precisão quase
matemática, começou a espetá-lo. Pouco a
pouco o boneco foi-se desfazendo, e, assim,
quase desfeito, foi parar na manhã da
véspera de Natal, a um contentor de lixo...

Nessa manhã, uma mãe levava sua
filha pela mão e, ao passar por um contentor
de lixo, a criança exclamou:
- Mãe, olha aquele boneco de trapos. É tão
bonito, deixa-me levá-lo?
- É um boneco tão imperfeito, já desventrado,
para que tu o queres? Só servia para sujar a
casa.
- Mãe, eu nunca tive um boneco, e este, até
é coxinho como eu. Tu, minha mãe, até podias
arranjá-lo, para mais, o Pai Natal nunca se
lembrou de mim!
E a criança lá levou o boneco para casa, que
à noite já estava consertado e com os
defeitos corrigidos. Até parecia outro...
Quando nessa noite, foi para a cama, a
menina aleijadinha, orgulhosamente, deitou o
Boneco de Trapos a seu lado, e disse à mãe:
- Mãe, tu que és tão habilidosa, que
concertaste tão bem este boneco, não podias
concertar também e minha perninha, para eu
ficar tão bonita como ele?
Comovida, a mãe limpou uma lágrima que,
teimosamente lhe caia pela face abaixo, e,
tristemente, respondeu-lhe:
- Infelizmente não posso, minha filha. Mas
confiemos em Deus e na boa vontade dos
Homens. Talvez para o ano que vem, possas
ser curada...

E um ano passou...
A menina aleijadinha, depois de fazer
algumas operações e de ser bem tratada,
recuperou do seu defeito físico.
- Mais um ano em que não podemos fazer uma
festinha nesta noite. Nem sequer um
brinquedo te posso dar, minha filha -
lamentava-se a mãe.
- Não te preocupes, mãe, eu já recebi uma
grande prenda, pois, estou completamente
curada e, para mais, tenho o Boneco de
Trapos, que sempre me acompanhou. Ele é tão
bonito, não é, mamã?!
O frio lá fora era intenso e talvez
nevasse...
Aquela mãe, depois de aconchegar os
cobertores a sua filha e ao seu Boneco de
Trapos, olhou-o com mais atenção, e, teve a
sensação que este lhe sorria e lhe dizia:
- Obrigado, mãe, vai descansar, pois eu
velarei pela nossa menina...
E será mesmo que... Nessa Noite em que dizem
que os animais falam, os Bonecos de Trapos,
também falam?

F I M
(Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande –
PORTUGAL