Novela de Carlos Leite Ribeiro

 

Categoria: “Comédia”

 

 

Quarto e Último

Capítulo:

 

 

 

ARRASTE A SETA PARA

ACOMPANHAR

A LEITURA

 

Sempre gostava de saber, porque é que você e o Apolinário, estão para aí com essa cara de  gozo; não estou a achar graça nenhuma à situação…
- Pinto João: - Maria da Graça, nunca te vi tão nervosa como hoje. Estás a tomar atitudes de quem está mesmo apaixonada. No fundo, até desejavas que ele chegasse aqui neste momento, que te abraçasse, que te beijasse...
- Maria da Graça: - Não sejas ridículo e para, para com esse disparate, Pinto João!...  Eu não o amo, aliás, nunca o amei. Só quis divertir-me e consegui até certo ponto. Mas acabou, terminou, acabou, acabou, percebeu?!...Não esteja para aí a fazer essa cara de dúvida, pois acabou, ouviu bem?... Ou será necessário repetir mais uma vez?
- Pinto João: - Tu é que sabes. Para mim, podes repetir as vezes que quiseres!
- Maria da Graça: - Quer então dizer que não acredita em mim?
- Pinto João: - Desta vez acertaste, pois não estou mesmo nada a acreditar nesse "nervoso miudinho"! E sabes por quê? Porque estás a tentar enganar-te a ti mesma, pois, tu amas, e muito, o Ramos Quintas!
- Maria da Graça: - É certo, mas ninguém, a não ser você aqui o Apolinário, jamais saberá este meu segredo. Mas eu vou já resolver rapidamente, este assunto...
- Pinto João: - Não me digas que vais desaparecer!
- Maria da Graça: - A nossa fábrica do Brasil precisa de quem a vá dirigir e, essa pessoa, vou ser eu, e nunca mais virei a Portugal, nunca mais. Agora, eu quero, melhor, eu preciso esquecê-lo. A ele e àquelas suas horríveis amiguinhas. Não, não estou com ciúmes... Mas chama lá o que quiseres que eu não me importo. Partirei esta madrugada para o Brasil. Vou já pedir que me reservem a passagem... Telefonista... Já sei que o senhor Ramos Quintas ainda não apareceu, mas, mantenham-se alerta, pois, ele pode  aparecer a todo o momento, e é muito perigoso... Entretanto, ligue para uma agência de aviação e marque uma passagem para o Brasil. claro que é em meu nome. Não se esqueça...
- Pinto João: - Maria da Graça espera um pouco, não te precipites. Raciocina bem. A tua fuga, não vai resolver nada. Para um homem apaixonado, como o Ramos Quintas, não existe barreiras, e olha que eu conheço muito bem o Ramos Quintas. Ele é bem capaz de ir ter contigo ao Brasil!
- Ramos Quintas: - Ou até mesmo ao fim do mundo!
- Pinto João: - Como vês até o nosso "amigo" Apolinário, que por sinal também conhece o Ramos Quintas, confirma o que eu acabei de dizer...
- Maria da Graça: - Vocês até podem ter razão… telefonista, não ligue ainda para a agência de aviação, aguarde que eu depois lhe digo qualquer coisa...
Olhe lá, Pinto João, tem a certeza que o Ramos Quintas é capaz de me perseguir até ao Brasil?!
- Pinto João: - Ele vai-te perseguir, nem que seja até ao fim do mundo, quanto mais ao Brasil! Se não acreditas em mim, pergunta aqui ao Apolinário...  
- Maria da Graça:  - E agora, o que é que eu vou fazer?... Que situação tão bizarra... Receio mesmo que ainda venha a enlouquecer!
- Pinto João: - Deixa-me rir!  Minha amiga, enlouquecer ainda mais, é quase impossível. Sê mas é realista...
- Maria da Graça: - Não me digas que já se nota que eu estou a ficar louca?...
- Pinto João: - Podes crer que se nota e muito. Estás completamente louca pelo Ramos Quintas!... Minha amiga permite-me um conselho: encara a realidade!
- Maria da Graça: - Se eu pudesse, matava-o, assim, espetava-o com esta faca, pois ele é o grande causador de tudo que me está a acontecer; mas não matava só a ele, pois o Pinto João, também não está isento!
- Pinto João: - Por favor, Maria da Graça, não encostes essa faca ao meu pescoço. Isto é que está bonito, depois de uma pistola apontada à cabeça, tenho agora uma faca encostada ao pescoço, é preciso ter azar!... Confesso que também estou a ficar completamente desorientado.
- Maria da Graça: - Eu nem o ouço, pois, a minha vontade é matá-lo. O Pinto João é que quase me "obrigou" a eu entrar nesta brincadeira, e a Gabriela também...

A secretária da engenheira, a Gabriela, entra no gabinete...
 
- Gabriela: - Senhora engenheira, posso entrar?...
- Maria da Graça: - Entra Gabriela, entra... Precisamos falar. Tu também não estás isenta, de um grande problema que Pinto João me meteu!
- Gabriela: - Mas, mas o que é que se passa aqui?... A senhora engenheira está tão pálida e tão nervosa?
- Maria da Graça: - Deve ser impressão tua, pois, eu estou muito bem. Melhor do que nunca. Espera, com a tua entrada, tive uma ideia. Sei que tu, Gabriela, és bastante minha amiga, e também sei que és capaz de fazeres tudo para me ajudares…
- Gabriela: - A senhora engenheira sabe muito bem, que pode contar sempre comigo. No que estiver ao meu alcance, já sabe. Mas noto que a senhora engenheira está hoje muito misteriosa...
- Maria da Graça: - Gabriela, minha boa Gabriela, tu és das poucas pessoas que sabe daquele, daquele, nem sei como hei-de chamar. Talvez o caso com o Ramos Quintas...
- Gabriela: - Sim, lembro-me dessa brincadeira, mas...
- Maria da Graça: - É um assunto em que tu também tens certa quota de culpa, por eu me ter transformado, durante 30 dias, como secretária do Ramos Quintas, certo?...
- Gabriela: - A senhora engenheira, aceitou a minha ideia, ou melhor, a ideia do senhor Pinto João.
- Maria da Graça: - Pois foi, tens toda a razão. Mas esse assunto, presentemente, está a causar-me muitas preocupações. Por isso, peco-te que te transformes em Maria da Graça, e que vás ter com o Ramos Quintas, e que lhe pecas muitas desculpas, por todos os transtornos que lhe causaste.
- Gabriela: - Eu transformar-me na engenheira, Maria da Graça?... Mas isso é impossível!
- Pinto João: - Isto está cada vez mais divertido! Enlouquecer ainda mais do que já estás, é quase impossível!
- Maria da Graça: - Gabriela, tu és uma boa actriz amadora, e, como tal, és bem capaz de desempenhares bem esse papel. Olha que eu conto contigo!
- Pinto João: - Cada vez estou mais divertido com este assunto (ou este problema) como queiram chamar. É pena o Apolinário, não estar aqui neste momento, pois, com certeza que também estaria muito divertido! Maria da Graça, sinceramente, pensas que o Ramos Quintas é parvo?... Pensas que ele não vê logo que o pretendes enganar?
- Maria da Graça: - Por favor, não me desmoralizes, pois, esta minha ideia tem que dar resultado. Tenho muita confiança na Gabriela, e tudo vai correr bem.
- Pinto João: - Oxalá, oxalá que sim, mas duvido e muito...
- Maria da Graça: - Vão ver, no final, todos me vão dar os parabéns, pela brilhante ideia que tive. O Ramos Quintas, não me conhece pessoalmente e, isso conta muito a meu favor. Como podem ver, sou esperta!
- Gabriela: - E senhora engenheira, aonde é que eu vou encontrar o Ramos Quintas?...
Maria da Graça: - Como é lógico, vais procurá-lo na firma dele.
- Gabriela: - E quando?
- Maria da Graça: - Hoje, melhor, agora mesmo, pois, quanto mais depressa se resolver este caso, melhor será para todos nós!
 
Ramos Quintas regressa novamente ao gabinete da Maria da Graça...
 
- Ramos Quintas: - Desculpem, mas tive que me ausentar por uns instantes. Tive o cuidado de mandar vir café para todos...
- Pinto João: - Ainda bem que voltaste Apolinário! Queres saber uma grande novidade? Não fiques para aí de boca aberta!
- Ramos Quintas: - Pois claro que quero saber a novidade e, sou todo ouvidos... 
- Pinto João: - Imagina que a Gabriela, vai ter com o Ramos Quintas, como sendo ela a senhora engenheira Maria da Graça. Qual é a tua opinião, velho amigo?
- Ramos Quintas: - Eu não quero meter-me em assuntos que não entendo e, nem sequer os quero entender. Para mim, a senhora engenheira, é muito inteligente, e sabe muito bem o que faz!
- Maria da Graça: - Muito bem, Apolinário, muito bem,  tu és a única pessoa, que, neste momento, me apóias. Até tenho vontade de te dar um beijinho; toma lá um beijo, meu querido amigo, que bem o mereces!
- Pinto João:  - Oh seu toleirão, até recebeu um beijinho da senhora engenheira!
- Gabriela: .- Bem, e para mim, chegou a hora da partida. Oxalá que tudo corra bem. Adeus, e até ao meu regresso...
- Maria da Graça: - Como vês já estás a representar magnificamente!
- Gabriela: - Uma pergunta, senhora engenheira, o Ramos Quintas é bonitão?...
- Maria da Graça: - Gabriela, isso é um assunto que não está agora em causa.
- Pinto João: - Por favor, Maria da Graça, não te exaltes com a Gabriela, pois, tu é que estás a provocar esta situação!
- Maria da Graça: - Eu, exaltada e nervosa? Repara bem pois estou completamente calma!
 
O telefone toca nesse momento. Maria da Graça vai atender e...
 
- Maria da Graça: - Estou... O quê?!... Mas isso é impossível, não o deixem entrar!  ... cumpram as minhas ordens, nem que tenham de chamar as
Autoridades!...  Evidentemente que não quero escândalo... Olhe, desligue e espere…
- Meus amigos, tenho uma grande novidade a dar-vos: o Ramos Quintas entrou na empresa e anda por aí à minha procura! o que é que eu vou fazer, digam-me!... Gabriela, Gabriela, fica aqui na minha secretária e, desempenha o teu papel…
- Gabriela: - Ai, que emocionada que eu estou ai, que emoção. É o melhor papel como actriz amadora que já desempenhei, na minha vida!  
- Maria da Graça: - Quando o senhor Ramos Quintas entrar, por favor, não lhe facas olhos bonitos, ouviste?!... Olha que isto é muito importante... Pinto João podia ficar aqui ao pé da Gabriela, para lhe dar todo o apoio que ela possa precisar – está bem?...
- Pinto João: - Não posso não, pois, eu não quero mais complicações. Mas estou muito, mas mesmo muito admirado com o Ramos Quintas... O que lhe teria passado pela cabeça? Não estou a gostar nada disto...
- Maria da Graça: - Agora é que eu não te compreendo, pois, tu já  contavas que ele viesse aqui à minha procura...
- Pinto João: - Lá contar, contava, mas não esperava que fosse assim desta maneira e tão rápido. Se não te importas, fico ali naquele gabinete, aqui ao lado.
- Maria da Graça: - Eu também vou para lá. O Apolinário é que podia ficar aqui junto da Gabriela?
- Ramos Quintas:  - Eu?!... Eu não! Como sabem, eu não entendo mesmo nada deste assunto, e, nem quero compreender. Se me permitem, eu também vou com vocês para aquele gabinete, e assim poderei ver tudo de longe...
- Maria da Graça: - Está bem. Agora depressa, depressa, pois, o Ramos Quintas pode estar perto, e a qualquer momento pode entrar aqui. Gabriela, minha amiga, olha que conto contigo, nesta situação tão difícil!
 
Entra uma personagem desconhecida, de nome Jorge, que se faz passar pelo Ramos Quintas. Dirige-se em gestos teatrais para a secretária onde estava a Gabriela, que ele pensava que seria a Maria da Graça…
 
- Jorge: - Até que enfim que te encontro meu querido amor, minha querida Maria da Graça! Não fales, por favor... Deixa – me admirar-te, embriagar- me  com o teu perfume, com a tua presença, com a tua beleza, amor meu, por ti, até era capaz de...
- Gabriela: - Por favor, Ramos Quintas, peço-te que me compreendas. O que se passou, passou. Só me resta pedir-te desculpa, desculpa muita desculpa, por todos os transtornos que te causei...
- Jorge: - O que me pedes é completamente impossível, Maria da Graça, é impossível, porque eu te amo muito, muito. Olha para mim e lê, lê nos meus olhos, no meu coração, o amor que te tenho!
- Gabriela: - Ramos Quintas, estou a ler... A ler...
- Jorge: - Então lê mais, e mais, mais. Para ti, o meu amor é um verdadeiro livro aberto... Lê mais, e mais ... Assim...
- Gabriela: - Por favor, por favor...não me beijes...não...não ...
- Jorge: - Amor, tu não sabes como eu te amo, como eu te quero, como eu te desejo. Deixa-me o demonstrar aqui mesmo...
- Gabriela: - Estou a ver, ou estou a ler...não...não...não, não me beijes mais...não me apertes...muito... Mais...
- Jorge: - Oh, meu amor...estou incontrolável. Aperto-te, aperto e. Beijo-te... meu grande e único amor... Ai como eu estou... Estou...
- Gabriela: - Mas... Mas... Não pode ser... Embora com muita pena minha. O nosso grande amor tem de acabar... Acabar... Agora mesmo!... Agora mesmo!
 
Esta cena era vista no outro gabinete, pela Maria da Graça, Pinto João e Ramos Quintas...
 
- Maria da Graça: - Mas ... Mas aquele homem, não é o Ramos Quintas! É um impostor!
- Pinto João: - E aquela, não é a engenheira Maria da Graça!...
- Ramos Pires: - Ai, no meu tempo não havia cenas como esta. Até parece que estamos num teatro ou em outro mundo. Cada vez percebo menos disto, mas cada vez também estou mais divertido. Ele, é o Ramos Quintas, que não é o Ramos Quintas; ela é a Maria da Graça, que não é a Maria da Graça. Já nem tenho a certeza que eu próprio, seja o Apolinário!
- Maria da Graça: - A Gabriela está cada vez mais doida e excitada com aquele homem. Mas quem será o homem, aquele impostor?!
- Pinto João: - Não faço a mínima ideia. Só posso confirmar que, aquele não é o Ramos Quintas. Mas também não faço ideia de quem seja.  Ai, este assunto cada vez, está a ficar mais confuso!
- Ramos Quintas: - O homenzinho está todo "derretido" com a Gabriela. Olhem, olhem, está a ajoelhar-se aos pés dela!...Até parece uma cena do "Romeu e Julieta"!
- Maria da Graça: - Tenho que intervir e, acabar com esta farsa.
- Pinto João: - Farsa que tu começaste a organizar e, que, inesperadamente, surgiu um imprevisto. Atenção: a Gabriela está chamar o Apolinário...
- Gabriela: - Apolinário, oh Apolinário...
Ramos Quintas sai de um gabinete e entra no outro.
- Ramos Quintas: - Pronto, cá estou eu, minha senhora...
- Gabriela: - Olha. Apolinário, manda que nos tragam dois cafezinhos...
- Ramos Quintas: - Dois cafezinhos?!...Este senhor, por acaso, não quer antes um cházinho?!
- Jorge: - Meu amor, quem é este homem, que até parece que é parvo?... O raio do velho está para ali a fazer uns sinais muito esquisitos, que eu não entendo nada. E o parvo continua a fazer sinais... Maria da Graça, quem é este "patusco, este castiço"?
- Gabriela: - É o Apolinário  -  o contínuo. É um bom sujeito...
- Jorge: - Oh Apolinário, ou quem é você, vá lá buscar os cafés, e, veja se tem mais respeito, aqui pela senhora engenheira!

E a verdadeira engenheira, A Maria da Graça, entra em cena, de rompante, e…
 
- Maria da Graça: - Vamos lá acabar com esta farsa! Mas qual senhora engenheira, qual carapuça! Olhe lá, homenzinho, quem é você?!
- Jorge: - Olá, esta mulher parece uma gata assanhada! Meu amor, minha querida Maria da Graça, diz-me quem é ela?
- Gabriela: - Ramos Quintas, esta mulher, esta mulher... É a senhora engenheira Maria da Graça!
- Jorge: - Que grande confusão. Mas sendo assim, quem és tu, meu amor?!
- Gabriela: - Eu?... Sou a sua secretária... 
- Maria da Graça: – Olhe lá seu homenzinho, eu já lhe perguntei quem é você,  o que faz aqui na minha empresa, e ainda não me respondeu! Ou está à espera que eu chame a polícia?
- Jorge: - Bem... Eu sou o Ramos Quintas, e, estou, ou devia de estar, apaixonado pela engenheira Maria da Graça. Mas, por favor, não me faça mais perguntas, nem chame a polícia, porque, neste momento estou muito confuso.
- Maria da Graça: - Olhe que se for preciso, eu tiro-lhe essas confusões todas!... E por favor, não duvide...  olhe lá, quem é que o mandou cá?
- Jorge: - Quem me mandou vir cá , foi o Ramos Quintas, ou melhor, o Ramos Quintas, sou eu!
- Maria da Graça: - Deixe-se de palermices, pois, eu conheço muito bem essa pessoa, o Ramos Quintas! Bem, ou conta-nos tudo e já, ou então, chamo a polícia...
- Jorge: - Por favor, senhora engenheira, não faça isso. Não chame a polícia! Tenha muita calma que eu vou contar-lhe tudo, mas tudo...
- Maria da Graça: - Comece, então rapidamente, pois, a minha paciência já se está a acabar... Por favor, comece a falar, olhe que eu...
- Jorge: - Começo por dizer- lhe que sou actor profissional... Tem aqui a minha carteira profissional...
- Maria da Graça: - Oh, homem, guarde lá essa carteira, que não me diz nada. Quero é que você continue a contar tudo, mas mesmo tudo, como isto começou...
- Jorge: - Só posso contar o que sei. Alguém contactou o meu agente artístico, no sentido de eu vir aqui a esta empresa fazer este trabalho profissional.  E é tudo...
- Maria da Graça: - Se é só isso que sabe, desapareça daqui, e rapidamente, rapidamente, disse eu!
- Jorge: - Pois é, pois é... Mas eu não posso ir-me embora, sem que primeiro me pagarem o meu trabalho...
- Maria da Graça: - Não sei quem é que tem de pagar a parvoíce que você aqui fez,  esta agitação toda que você provocou. Olhe que de certeza, que não serei eu a pagar-lhe, o “seu” trabalho…
- Jorge: - Bem, o meu agente disse-me que, quem pagava este meu trabalho, era um tal Pinto João. Até me disse mais, se  ele se recusar-se a pagar, para eu lhe torcer o pescoço...
- Pinto João: - O quê?!... O Pinto João sou eu, mas, eu pagar-lhe?!... Nem pensar nisso! ...não sei quem é você, nem me interessa saber, porque eu, nunca por nunca, requisitei os seus serviços!
- Jorge: - Pois é você pode ter muita razão, mas é você que me tem de pagar... E eu quero receber, e já, a dinheiro, pois não recebo cheques...
- Pinto João: - Você está enganado, você está louco! Eu não tenho nada a pagar-lhe!
- Jorge: - O Sr. Pinto João tenha muita cautela com o que diz, porque senão meu caro, embora me custe muito, tenho que lhe torcer o pescoço!
- Ramos Quintas: - Oh, amigo. É melhor ir-se embora, pois, nós até temos horror a pessoas já mortas, quanto mais vê-las matar! 
- Jorge: Este velho é mesmo impertinente. Ouça lá, seu velhote, você gostava de fazer um trabalho profissional, e ao fim e ao cabo, quem o mandou fazer, não lhe pagasse?
- Ramos Quintas: - Analisando bem a situação, o homem até poderá ter razão. Senhor Pinto João, o melhor será você pagar ao homem, pois, segundo ele diz que foi o senhor quem o contratou para fazer este trabalho...
- Pinto João: - Oh, Apolinário, Apolinário. Já começo a desconfiar de ti, sim, de ti, não faças essa cara de espanto…
- Maria da Graça: - Olha lá, Pinto João, você está a desconfiar do querido Apolinário,   porquê ?!... Ele só está a aconselhá-lo a pagar a este homem, para não ficar (eventualmente) com o pescoço torcido. Como vê, ele até está a ser seu amigo, um verdadeiro amigo!
- Pinto João: - Ai, ai que eu ainda rebento, rebento, rebento!  Primeiro, uma pistola apontada à cabeça, depois, uma faca encostada ao pescoço, e,  agora, uma ameaça de ficar com o pescoço torcido... Sabem uma coisa?...? Vocês são todos doidos, doidos varridos, ouviram bem?! Vou-me embora, e, não quero saber mais nada deste assunto!
- Jorge: - Sr. Pinto João, calma aí. Você só se pode ir embora depois de me pagar e a dinheiro... Senão, fica com o pescoço torcido!
- Ramos Quintas: - Vá lá, senhor Pinto João, pague lá ao homem, para evitar mais chatices e, ficar com o pescoço inteiro!
- Pinto João: - Apolinário, Apolinário, tu estás cá a meter - me uma raiva, que nem calculas!... Olha que daqui a pouco, arreio a bronca. Ai, arreio, e arreio mesmo. No teu próprio interesse, não te armes em esperto comigo! 
- Maria da Graça: - Oh, Pinto João, eu não permito que fales nesse tom para o querido Apolinário. Exijo que o trates com muito respeito  -  com muito respeito mesmo!
- Ramos Quintas: - E eu também exijo que o senhor Pinto João, me trate com muito respeito, muito respeito, mesmo, quanto mais não seja pela minha avançada idade!
- Pinto João: - Ai que raiva, que raiva, este a armar-se em santinho!... Só não foi santinho, quando me apontou aquela pistola à minha cabeça...
- Maria da Graça: - O Pinto João, não deve de estar bom da cabeça. Como é possível, o Apolinário, ter apontado uma pistola  à  sua cabeça?...Você deve de estar completamente louco, louco!
- Jorge: - Um momento, um momento. A mim, não me interessa a vossa conversa. Eu,  além de quer receber o dinheiro pelo meu trabalho, também quero levar comigo a minha querida Gabriela!
- Maria da Graça: - Por mim, pode-a levar, se ela quiser... Mas não sei aonde se meteu a minha secretária?... Mas repito, esse assunto terá de ser resolvido por vocês os dois.
Ramos Quintas: - Na minha modesta opinião, e cá para mim, este homem, bem merece levar a Gabriela, como prémio!
- Pinto João: - Oh, Apolinário, Apolinário, tu não tens é vergonha nenhuma nessa cara, pois, se a tivesses, estavas para aí caladinho... Mas, tu tens cá uma prosápia, uma grande descontração natural!
- Maria da Graça: - Tenho cá estado a pensar, e, cada vez estou mais intrigada só de pensar, que… Olhe lá, porque é que o Apolinário lhe apontou uma pistola à cabeça, Pinto João?
- Pinto João: - Tu, Maria da Graça perguntas e eu não posso mais calar, pois a vingança, a vingança, é um atributo dos deuses e eu, neste momento, sinto-me como um deus... Vingança, vingança... Aqui vai a grande bronca: O Apolinário, o Apolinário, apontou-me uma pistola à cabeça, porque, eu não lhe queria arranjar este lugar de contínuo. Tu, minha amiga, nem calculas o que ele é de mau!
- Maria da Graça: - Não acredito, não posso acreditar no que o Pinto João está para aí a dizer.  O Apolinário era incapaz de tomar atitudes dessas!
- Pinto João: - Em parte, Mas só em parte, dou-te razão, pois, o Apolinário era incapaz de me dar um tiro na cabeça, mas um homem apaixonado por ti era bem capaz de fazê-lo. Melhor ainda, em vez de um tiro, era bem capaz de me dar meia dúzia de tiros!
- Maria da Graça: - Pinto João, tu estás a pôr-me muito nervosa. Cada vez sinto mais vontade de te cortar o pescoço, com esta faca...  
- Ramos Quintas: - E eu, a dar-lhe um tiro na cabeça, pois, nunca se deve dizer à senhora engenheira, o que o Pinto João, está para aí a dizer.
- Jorge: - Já agora, se me derem licença, tenho muito prazer em torcer-lhe o pescoço. Aproxime-se, por favor…
- Pinto João: - Mas que graça que vocês têm... Então para começar, o amigo Apolinário, comece por tirar os óculos de grossas lentes, depois o bigode postiço, de seguida a peruca.  Quando acabar de tirar esses disfarces todos, a Maria da Graça, vai reconhecer na figura do velho Apolinário, o homem que a ama, pois, verá o Ramos Quintas!
- Maria da Graça: - Devo, mas devo de estar a sonhar… digam-me, digam-me, por favor, que eu estou a sonhar... Digam-me, por favor!... O Apolinário não pode ser o Ramos Quintas! ... Ai, o meu coração, ai, que eu vou desmaiar...
- Ramos Quintas: - E a Maria da Graça caiu mesmo, está desmaiada... Maria da Graça sou mesmo eu... Acorda querida Maria da Graça...
- Pinto João: - Ela está a ficar com falta de ar. O melhor é fazer-lhe um tratamento "boca a boca". Olha, aproveita agora, enquanto ela está desmaiada...
Gabriela, regressa à cena…
- Gabriela:- Senhor Ramos Quintas, dê-lhe este copo de água...
- Pinto João: - Ela já está a começar a recuperar... Maria da Graça...
- Maria da Graça: - Ai... Aonde é que eu estou?...
- Pinto João: - Tu deves de estar no paraíso!...
- Ramos Quintas: - No paraíso, não direi, mas estás nos meus braços, minha querida Maria da Graça, meu amor! 
- Maria da Graça: - Ah... Não!...
- Ramos Quintas: - Olha, voltou a adormecer...
- Pinto João: - Oxalá que não esteja com nenhum pesadelo, a pensar que está em teus braços. Não a apertes muito!
- Ramos Quintas: - Pinto João! Tu calas-te, ou queres levar um tiro na cabeça?
- Jorge: - Mas antes de lhe dar um tiro, se me dão licença, torço-lhe o pescoço, no caso de ele não me pagar...
- Pinto João: - Você é um grande chato. Tome lá o dinheiro do seu reles trabalho, e, desapareça rapidamente daqui. Mas rapidamente!
- Jorge: - Eu quero e vou desaparecer rapidamente, mas, também quero levar a Gabriela comigo.
- Gabriela: - Mas, mas tu não és o Ramos Quintas. E até recebeste dinheiro para fingires que me amavas... 
- Jorge: - É certo. Mas deves compreender meu amor que,  inicialmente, vim só para ganhar dinheiro, mas depois de te conhecer, apaixonei-me perdidamente por ti. Querida, vamos embora, pois assim, podemos juntar o útil ao agradável, ou seja, o dinheiro com o amor!
- Pinto João: - E eu também me vou embora. Meus amigos, a partir de hoje, para contactarem comigo, só por escrito. Em casos muito urgentes, podem utilizar o fax ou o e-mail. Pessoalmente, não atendo ninguém. Mas mesmo ninguém!
- Ramos Quintas: - Cala-te, velho rabugento!
- Maria da Graça: - O Pinto João vai ser o nosso padrinho de casamento!
- Pinto João: - Isso nunca! Comigo não contem nunca, mas nunca mais...
- Ramos Quintas: - Está calado, olha que ainda levas um tiro na cabeça!
- Maria da Graça: - Ou então, fica com o pescoço cortado!
- Pinto João: - Com tão bons e convincentes argumentos, prometo que, irei reconsiderar a minha atitude, anteriormente assumida!
- Ramos Quintas / Maria da Graça: - Até ao nosso casamento!
- Pinto João: - E até lá, muito juízinho nessa cabeça que deve de estar sempre controlada... Pois, eu não estou interessado em ser só padrinho de baptismo... 

 
F I M
 
Novela / comédia de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 
 

 

 

 

 

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Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

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