Novela de Carlos Leite Ribeiro

 

Categoria: “Comédia”

 

 

Segundo Capítulo:

 

 

 

ARRASTE A SETA PARA

ACOMPANHAR

A LEITURA

 

 

Nesse momento o Ramos Quintas regressa inesperadamente, e...
 
- Ramos Quintas: - Maria de Lurdes, alguém telefonou para mim?
- Maria da Graça: - Ninguém telefonou...
- Ramos Quintas: - É curioso, mas você estava a telefonar...
- Maria da Graça: - Pois estava. Estava a atender uma Clotilde não sei quê. Mas não se preocupe, pois, eu disse-lhe que o senhor não estava.
- Ramos Quintas: - Mas eu estava ou estou...
- Ramos Quintas: - Claro que estava e está, mas como me disse que ia sair...  Mas não esteja preocupado, pois a Clotilde me disse que era assunto particular, e como era particular, eu tomei a liberdade de lhe dizer que não estava...
- Ramos Pires: - Maria de Lurdes, por favor, explique-se melhor, pois já estou a ficar…
- Maria da Graça: - Então o senhor Ramos Quintas, não se lembra, que proibiu o atendimento de seus telefonemas particulares?
- Ramos Quintas: - E daí ?...É certo que proibi, mas, como é evidente... Não proibi as chamadas para mim, pela simples razão de eu ser o patrão! Percebeu. Ou não me fiz entender?
- Maria da Graça: - Agora percebi sim, patrão!
- Ramos Quintas: - Eu, dentro da minha firma industrial, posso fazer tudo o que quiser  porque sou o patrão. Ouviu e percebeu?
- Maria da Graça: - Percebi sim, patrão, e também ouvi tudinho o que me disse.
- Ramos Quintas: - Que fique muito bem assente na sua cabecinha: eu é que atendo as minhas chamadas particulares!
- Maria da Graça: - O senhor Ramos Quintas, até tem toda a razão, pois, até é o patrão!
 
Nesse momento toca a campainha do telefone.
 
- Maria da Graça: - Estou... Empresa Comercial em Expansão... Quem fala?... Muito bem, o senhor Ramos Quintas está aqui mesmo ao pé de mim. É só um momento, por favor... É para o senhor Ramos Quintas, telefona-lhe o senhor Pires Matias.
- Ramos Quintas: - Mas eu não quero atender esse chato... Diga-lhe que eu já saí e não sabe quando volto!
- Maria da Graça: - Não desligue senhor Pires Matias, pois, o senhor Ramos Quintas vai atendê-lo já...
- Ramos Quintas: - Estou sim, olá, Pires Matias!...Peço-te imensa desculpa, mas não te posso atender neste momento... Telefona outro dia, está bem...?...Prazer em ouvir-te  -  com licença...
Assim que desligou o telefone, o patrão olhou a empregada com um olhar furioso…
- Ramos Quintas: - Maria de Lurdes! Você é teimosa! Despachava-o logo, como eu lhe disse! Eu nem quero acreditar, no que me está a acontecer!
- Maria da Graça: - Mas o patrão disse-me que queria atender todos os telefonemas, que sejam dirigidos a si, não se lembra?
- Ramos Quintas: - Pois disse, mas só os telefonemas de mulheres... De homens, pode e deve a Maria de Lurdes atender, percebeu desta vez?!
- Maria da Graça: .- Sim, patrão, desta vez eu compreendi, embora dificilmente.
 
 Toca novamente a campainha do telefone...
 
- Maria da Graça: - Estou sim… olá, D. Matilde, como está a senhora?...O seu sobrinho, o senhor Ramos Quintas, vai já atendê-la... Neste momento, não está muito ocupado, não... Passo já a ligação muito prazer em ouvi-la... Senhor Ramos Quintas, a sua tia Matilde ao telefone.
- Ramos Quintas: - A minha tia Matilde?!...Mas eu não a quero atender. É uma grande chata!
- Maria da Graça: - Sim, sim, D. Matilde, o seu sobrinho vai já atendê-la, é só um momento. Senhor Ramos Quintas, atenda, por favor, a sua tia...
- Ramos Quintas: - Olá tia! Telefonou-me numa altura muito má, sabe?...Pois é, mas as secretárias nunca têm a percepção do trabalho que os patrões têm... Não, não é por mal ou esquecimento (antes pelo contrário, tiazinha) que a não tenho procurado ou telefonado. É só por falta de tempo... Então agora que estou a fazer uns cálculos muito complicados para construir uma ponte sobre o Sado... Prometo que assim que me for possível, irei visitá-la... Adeus, e também um beijinho... Adeus.
Mais uma vez o patrão olhou furiosamente para a empregada.
- Ramos Quintas: - Maria de Lurdes, eu não queria atender a tia Matilde. Eu tinha-lhe dito...
- Maria da Graça: - Perdão, o senhor disse-me que queria atender todas as chamadas telefónicas, feitas por mulheres.
- Ramos Quintas: - Mas a minha tia, não é mulher...
- Maria da Graça: - Ah, não?!
- Ramos Quintas: - Bem, não é uma mulher pequena, mas sim, uma grande mulher!
- Maria da Graça: - Então, o patrão tem de me dar “as” alturas mínimas e as alturas máximas, das mulheres que lhe podem telefonar, para que eu dentro desses parâmetros, saiba quem devo atender, ou não!...
- Ramos Quintas: - Basta! Ainda bem que você não é a minha mãe! ...
- Maria da Graça: - Infelizmente, não sou.
- Ramos Quintas: - Infelizmente, por quê?
- Maria da Graça: - Porque se fosse já lhe teria dado uns bons açoites, pois, não presta à sua firma, a devida atenção!
- Ramos Quintas: - A Maria de Lurdes pensa que quando eu não estou na firma, que ando a passear por aí e que não trabalho e que não me preocupo? É o que eu digo, as secretárias não sabem avaliar o grande trabalho que os patrões têm... Já agora, diga-me Maria de Lurdes, o que é que você tem feito?... Diga-me.
- Maria da Graça: - Muita coisa, senhor Ramos Quintas. Olhe, por exemplo, já tenho os cálculos para a ponte sobre o Sado, prontos. Agora estou a calcular o material necessário para a obra...
- Ramos Quintas: - O quê?!... Com certeza que não ouvi bem! Você fez os cálculos?!... Mas diga-me lá, quem é você, para poder fazer cálculos de construção civil?!
- Maria da Graça: - Eu? Como sabe, sou uma simples empregada!
- Ramos Quintas: - E sabe fazer cálculos, onde é que aprendeu?... Vamos lá esclarecer isto de uma vez.
- Maria da Graça: - Na verdade, eu não sei. Mas vou-lhe contar como é que consegui fazer estes cálculos. Perguntei a meu pai, e ele disse-me como se fazia. Depois, pedi à minha particular e querida amiga, a engenheira Maria da Graça Vasconcelos, que assinasse o projecto, e ela fez-me esse favor. Como o senhor vê, foi tudo muito fácil.
- Ramos Quintas: - A engenheira Maria da Graça, das Empresas Reunidas Industriais, SA? esse "borrachinho", essa linda gatinha?...
- Maria da Graça: - Sim, essa mesmo. Por acaso o senhor Ramos Quintas conhece a minha amiga?
- Ramos Quintas: Conheço-a só de vista. Então vocês são amigas?
- Maria da Graça: - Sim, por acaso até andamos as duas na mesma escola até ela ir para o Superior Técnico.
- Ramos Quintas: - Vocês andaram ao mesmo tempo na escola?!... Mas como isso é possível, se, a Maria da Graça é mais ou menos da minha idade... e a Maria de Lurdes é muito mais velha?
- Maria da Graça: - Pois...pois, andámos as duas na escola...mas, na escola de música ! Mas no que diz respeito às idades, a Maria da Graça é um pouco mais nova do que eu.
- Ramos Quintas: - Só um pouco?!...Mas diga-me: quanto é que a engenheira Maria da Graça levou (dinheiro) por assinar o projecto?
- Maria da Graça: - Não levou nada. Como já lhe disse, ela é muito minha amiga, e entre amigas, como sabe...
- Ramos Quintas: - Então, diga-me como lhe vou agradecer.
- Maria da Graça: - Não é preciso que lhe agradeça, pois, eu até lhe disse que o senhor Ramos Quintas, não sabia de nada.
- Ramos Quintas: - E a seu pai?...Gostava de lhe agradecer o favor que me fez.
- Maria da Graça: - Pois, é... O meu pai é uma pessoa muito, muito esquisita;  intratável mesmo, e não gosta que ninguém lhe agradeça o que faz de boa vontade... Compreende, é feitio dele!...Será melhor deixar as coisas como elas estão.
- Ramos Quintas: - Confesso que estou a ficar muito confuso, com estas situações...
- Maria da Graça: - E ainda não tive ocasião de lhe dizer que, a Hidráulica do Sul, nos consultou no sentido de a nossa firma entrar num concurso para a construção de outra ponte.
- Ramos Quintas: - Conto, que a Maria de Lurdes que os informou, que, de momento, não podemos aceitar mais obras...não foi assim?
- Maria da Graça: - Por acaso não respondi conforme está a dizer. Pois até lhes disse que o senhor Ramos Quintas, amanhã de manhã, estava nos escritórios da Hidráulica do Sul, para confirmar o interesse da nossa firma, por esse concurso!
- Ramos Quintas: - Mas como é que isso é possível? Eu... Amanhã, em Oeiras, nos escritórios dessa firma... Não me é possível.
- Maria da Graça: - Sim, sim, foi isso mesmo que lhes disse. Senhor Ramos Quintas, é conveniente estar lá antes das 10 horas. Já lhe fiz a credencial; é só necessário o senhor assinar, porque vai ser precisa para o efeito!
- Ramos Quintas: - Maria de Lurdes é-nos completamente impossível concorrer a essa obra, pois, nem máquinas apropriadas temos; e nem sequer pessoal especializado...
- Maria da Graça: - Mas eu tomei providências a esse respeito. Todos os pormenores já estão a serem tratados.
- Ramos Quintas: - O quê?!
- Maria da Graça: - Aqui tem estes catálogos das máquinas que vão ser precisas. As que me parecem que sejam as mais apropriadas e com melhores condições financeiras, estão sublinhadas com um traço a tinta vermelha. Para recrutar pessoal, o senhor Vaz  Miguel, o chefe da Secção de Pessoal, já está a tratar do assunto...
- Ramos Quintas: - Isto até parece um sonho! Ai, ai a minha cabeça... Ai ,aonde é que eu me meti! Maria de Lurdes, diga-me uma coisa: aonde é que eu vou arranjar dinheiro para pagar as máquinas?... Sim, aonde é que vou arranjar dinheiro, não me diz?
- Maria da Graça: - As máquinas podem ser amortizáveis em três anos...
- Ramos Quintas: - Por acaso, a Maria de Lurdes, não se comprometeu com mais nada?
- Maria da Graça: - Só celebrei um contrato com a Cimenteira Aljubarrota e, a partir da próxima semana, a nossa firma começa a utilizar 70% de cimento a granel, com preços muito mais vantajosos.
- Ramos Quintas: - Mas nós nem temos transporte para esse tipo de cimento!
- Maria da Graça: - Estão aqui estes catálogos para o senhor apreciar o tipo de camião, com tambor rolante. Se me permite, tomo a liberdade de aconselhá-lo este...
- Ramos Quintas: - Você, você aconselha o quê?!...Como é que você se atreve a aconselhar uma coisa que não percebe mesmo nada? Não me diga que pediu novamente, conselhos ao seu paizinho e à engenheira Maria da Graça?...
- Maria da Graça: - Desta vez, o senhor, acertou, pois pedi a ambos!
- Ramos Quintas: - Logo vi, mas olhe que está aqui um modelo de camião que de forma alguma, pode servir para transporte desse tipo de cimento!
- Maria da Graça: - Deixe ver... Ah, pois não.  Esse modelo é mais indicado para transportar ferro. É que também celebrei um contrato com um grande armazém de ferro. Sabe, os preços são imensamente mais vantajosos.
- Ramos Quintas: - Mais uma vez lhe digo que não acredito no que se está a passar! Esta situação é impossível de ser real... A Maria de Lurdes põe e dispõe, como se a firma fosse sua e você a principal gerente... Só gostava de saber qual será o meu papel no meio disto tudo?
- Maria da Graça: - É muito simples: O senhor tem o papel de um empresário que tem de dirigir (e bem) a sua empresa, ao mesmo tempo confiando nos seus colaboradores! Está na hora do almoço e tenho de ir picar o cartão…
 
Depois do almoço, a conversa continuou…

- Ramos Quintas: - Até dá-me vontade de rir! Bem, então, na escolha dos camiões, estou mesmo a ver que você é que as quer escolher. Não estou enganado pois não?
- Maria da Graça: - Se for da sua vontade, eu terei muito gosto em escolher, o que de mais vantajoso for para a nossa firma, mas a decisão terá de ser sua!
- Ramos Quintas: - Até aí sei eu. Sim, porque o pagamento desse investimento todo será da minha inteira responsabilidade. Ora, Maria de Lurdes, você deve pensar que eu tenho poucas preocupações.
- Maria da Graça: - É lógico que o pagamento desse investimento, seja da sua responsabilidade. O que o senhor Ramos Quintas tem a fazer, é rentabilizar o investimento. Só é pena que, em vez de dois camiões, não sejam preciso também dois barcos e dois aviões. Era sinal que a nossa firma estava a ter um sensacional êxito.
- Ramos Quintas: - A Maria de Lurdes, ou está sonhar, ou então, deve de estar louca.
- Maria da Graça: - Louca, talvez não. Era bom se isso acontecesse, pois assim, a sua empresa seria uma das melhores, não do mundo, mas sim de Portugal.
- Ramos Quintas: - Teoria tem você muita! Deve ter pedido a opinião do seu paizinho, ou então, da engenheira Maria da Graça...
- Maria da Graça: - Talvez, talvez, quem sabe?
- Ramos Quintas: - Eu vou-me embora. Eu tenho de sair e já, senão, ainda rebento!
- Maria da Graça: - Não queira rebentar, pois, ainda é muito jovem! Não sei se sabe, mas o senhor Ramos Quintas, ainda vai ser um grande empresário!
- Ramos Quintas: - Creio que há aí um pequeno erro na sua interpretação. Com certeza que a Maria de Lurdes, queria dizer, que eu, já sou um grande empresário!
- Maria da Graça: - Não se esqueça que amanhã, antes da 10 horas, tem de estar em Oeiras, nos escritórios da Hidráulica do Sul.
- Ramos Quintas: - Muito bem! Você quer ordenar mais alguma coisa, a este vosso pobre subordinado, que por acaso é o seu patrão, senhora Secretária?! 
- Maria da Graça: - Se por acaso, telefonar, alguma das suas amiguinhas, o que é que o senhor Ramos Quintas, quer que diga o quê?
- Ramos Quintas: - Queira saber, que, de certeza que hoje, nenhuma delas me vai telefonar, pois, hoje, vou almoçar com elas. Portanto...
- Maria da Graça: - Com elas todas?!... O senhor Ramos Quintas tem a certeza?!
- Ramos Quintas: - Com todas, não direi, mas, vou almoçar com a Guidinha, com a Luízinha e também com a Carlinha. Peço-lhe imensa desculpa, mas a mesa só dá para quatro pessoas, senão era bem capaz de convidá-la também a si!
- Maria da Graça: - Ai, não se preocupe senhor Ramos Quintas, pois a mim, não me faz qualquer diferença, pois, tenho o saudável hábito de almoçar, só em companhia de pessoas que valem, pelo menos, alguma coisa!
Ramos Quintas: - Que gracinha!...
Voltando-lhe as costas, saiu dizendo em voz alta:
- Ramos Quintas: - Que raiva, estas secretárias de agora, são impossíveis... 
 
Um mês depois

Logo pela manhã Ramos Quintas entra no seu gabinete, e...
 
- Ramos Quintas: - Maria de Lurdes, Maria de Lurdes! Aonde é que você se meteu?!... Despache-se porque preciso de já você...

Alguém bateu na porta do gabinete

- Vaz Miguel: - Olá Bom Dia! O senhor Ramos Quintas, dá-me licença que entre?...
- Ramos Quintas: - Entre, entre, Vaz Miguel. Olhe lá, por acaso sabe onde se está a D. Maria de Lurdes?
- Vaz Miguel: - Mas... Mas... O senhor Ramos Quintas ainda não sabe que, a D. Maria de Lurdes despediu-se ontem?!
- Ramos Quintas: - O quê?!...  Com certeza que eu não estou a ouvir bem... Ora repita lá, por favor...
- Vaz Miguel: - A D. Maria de Lurdes, despediu-se ontem... Anteontem esperou até muito tarde pelo senhor Ramos Quintas, mas como não apareceu, ontem, confirmou o seu pedido de demissão, por escrito!
- Ramos Quintas: - Impossível! Isso não pode ser! Eu preciso de uma secretária,  preciso da Maria de Lurdes! Além disso, eu não autorizei para ela se despedir…
- Vaz Miguel: - Mas o facto, é que ela despediu-se mesmo, alegando que o pai estava muito doente, e por isso tinha de ir para junto dele.
- Ramos Quintas: - Ora, ora, isso são desculpas dela... Sim, desculpas! Telefone ou mande alguém a casa dela para trazê-la de qualquer maneira. Você, como Chefe da Secção de Pessoal, é que terá de tratar destes assuntos. E tome atenção, a firma não pode dar-se ao luxo de perder bons colaboradores, tão bons como a D. Maria de Lurdes! Ofereça-lhe mais ordenado, mais regalias; enfim, o que ela pedir. Tome boa nota no que eu lhe vou dizer: o que ela pedir!!! Mas traga-me de volta. Se o pai estiver muito doente, ponha-o numa boa casa de saúde. Tudo por conta da firma. Olhe que fica tudo ao seu cuidado, mas seja lá como for, traga-me de volta a Maria de Lurdes!
- Vaz Miguel: - Eu vou tentar, vou tentar... Mas é bem capaz de ser muito difícil ou mesmo impossível, senhor Ramos Quintas...
- Ramos Quintas: - Vá, vá rápido, e faça o que eu lhe disse, porque, eu quero cá novamente a D. Maria de Lurdes, custe o que custar!
- Vaz Miguel: Então, vou tratar do assunto. Com licença, senhor Ramos Quintas...

Depois de o empregado sair do gabinete, Ramos Quintas ficou falando sozinho:

- Ramos Quintas: - (...) Era só o que me faltava, perder uma secretária desta categoria! Custe o que custar, ela tem de regressar... Vou falar com o Pinto João, pois, foi ele que ma mandou...   
Pega no telefone e depois de discar o número:
- Ramos Quintas: - Pinto João?!...Olha que eu não estou nada bem... Ainda me perguntas por quê?! … então tu não sabes que a Maria de Lurdes, despediu-se ontem, sem me dizer nada?... Não sabes que é a Maria de Lurdes?!... Não me digas que não sabes o nome da secretária que me mandaste... Estou mesmo a ver que a tua cabeça está ainda pior do que a minha!... Olha lá: por acaso sabes aonde é que ela mora?...Não acredito que não saibas... Então me faz o favor de perguntares a essa tua amiga, se sabe onde é que mora a Maria de Lurdes... Não te esqueças, por favor. Fico a aguardar, ansiosamente, pelo teu telefonema... Até breve e, mais uma vez, peço-te que não te esqueças, amigo Pinto João!
- Vaz Miguel: - Posso entrar senhor Ramos Quintas?
- Ramos Quintas: - Entre, entre, Vaz Miguel. Então conseguiu saber alguma coisa da D. Maria de Lurdes?
- Vaz Miguel: - Muito pouco, ou melhor, nada. A morada que ela nos deu, não existe: assim como o número de telefone. Também ligámos para Peso de Régua, de onde ela dizia ser natural, mas também lá, ninguém a conhece. Francamente, senhor Ramos Quintas, não sei mais onde a possa procurar?
- Ramos Quintas: - Tente publicar um anúncio em vários jornais nacionais, assim: "Maria de Lurdes, queira entrar em contacto, urgentemente, com a Empresa Comercial em Expansão, para assunto do seu interesse. Maria de Lurdes, (mais ou menos) 45 anos de idade, loura.. etc. etc ...
- Vaz Miguel: - Não pode ser, senhor Ramos Quintas! ...
- Ramos Quintas: - Não pode ser, porquê?!
- Vaz Miguel : - Porque ela usava peruca! Não era loura, não!
- Ramos Quintas: - Quer então o Vaz Miguel dizer que ela era careca?!...mas olhe, mesmo que seja careca, eu preciso dela!
- Vaz Miguel: - Bem, eu não lhe disse que ela era careca. A Rosalina, a empregada da limpeza, noutro dia viu-a nos balneários e disse-me que ela tinha uns belos cabelos negros…
- Ramos Quintas: - E por acaso ela não lhe disse mais nada a respeito da D. Maria de Lurdes?
- Vaz Miguel: - Por acaso até me disse, que ela era muito bela e muito jovem!
- Ramos Quintas: - Curioso, eu nunca tinha reparado nesse pormenor. Agora me lembro … ela, tinha um perfil lindíssimo!...
- Vaz Miguel: - Antes de ela se ir embora, entregou-me estes documentos. São referentes àquele pagamento da última obra internacional que construímos, e que há muito que estava bloqueado.
- Ramos Quintas: - Mas que mulher formidável!... tenho de encontrar essa mulher, tenho de a encontrar, custe o que custar!
- Vaz Miguel: - Se o senhor soubesse mais alguma coisa da vida dela, alguém que ela conhecesse, onde esteve anteriormente empregada, etc...
- Ramos Quintas: - Tem razão...espere, é isso tudo!... A D. Maria de Lurdes, parece que é muito amiga da engenheira Maria da Graça, das Empresas Reunidas Industriais. Vaz Miguel, ligue para essa firma e, pergunte à senhora engenheira, se sabe onde mora a amiga dela, a Maria de Lurdes. Escusa de dizer quem é que está interessado em saber, percebeu?... Vá lá, Vaz Miguel, e depois diga-me qualquer coisa, não se esqueça!

Ficando sozinho, Ramos Quintas dizia em voz baixa:
- Ramos Quintas: “E o Pinto João não me telefona a dizer qualquer coisa...”
Nesse momento o telefone toca e...
Ramos Quintas: - Estou... Quem?!... Ah, és tu, querida... Hoje me é inteiramente impossível almoçar e passear contigo... porque, porque tenho muito que fazer... Escusas de ligar, pois, quando eu estiver disponível, telefono-te... Passa muito bem, adeus… também para ti… desculpa, mas tenho que desligar.
 
Voltando a ficar sozinho, Ramos Quintas não pensava noutra coisa que não fosse na Maria de Lurdes:
- Ramos Quintas: - “nem o Pinto João, nem o Vaz Miguel me dizem nada. Com que então a Maria de Lurdes usava peruca, e é muito bonita... preciso, desesperadamente, dessa mulher!”
 
Alguém bate na porta do gabinete…

- Vaz Miguel: - Senhor Ramos Quintas, posso entrar?
- Ramos Quintas: - Entre, entre, Vaz Miguel. Conseguiu saber alguma coisa da D. Maria de Lurdes?!
- Vaz Miguel: - Nada feito. A engenheira Maria da Graça partiu esta madrugada para a Líbia, onde se deve demorar algumas semanas.
- Ramos Quintas: - Foi para a Líbia, fazer o quê?
- Vaz Miguel: - Como sabe a Empresa Reunida Industriais, tem obras espalhadas por quase todo o mundo…
- Ramos Quintas: - Por acaso não perguntou à telefonista, se conhecia a D. Maria de Lurdes?
- Vaz Miguel: - Perguntar, perguntei só que ela não a conhece. Por esse lado, também não vamos conseguir nada.
 
Nesse momento entra em cena, algo comprometido e muito corado, o grande amigo do Ramos Quintas, o Pinto João…
 
- Pinto João: - Grande amigo Ramos Pinto, posso entrar?
- Ramos Quintas: - Olha quem é ele!... Entra, entra Pinto João. Vais-me dizer, e muito depressa, aonde se encontra a Maria de Lurdes?
- Pinto João: - Antes, se me deres licença, vou cumprimentar o amigo Vaz Miguel, e depois sentar-me. Agora vamos ter muita calma, muita calminha, ok?
- Ramos Quintas: - Muita calma? Não me venhas cá com essa de “calmas”... é fácil os outros nos dizerem para nós termos calma, mas não, para quem está cheio de trabalho como eu, e, que precisa, desesperadamente, de uma secretária como a Maria de Lurdes! "Muita calma" vem este para aqui dizer-me com grande descontração... Olha lá, senta-te aqui mais perto de mim e diz-me de uma vez para sempre, aonde se encontra a Maria de Lurdes?!
- Pinto João: - Não sei... e não sei e estás a pôr nervoso! 
- Ramos Quintas: - Como assim?... Como é que tu me vens dizer que não sabes nada dela e foste tu que a mandaste para minha secretária?
- Pinto João: - Decididamente, não sei. Segundo me contaram, a pequena sofre de perturbações mentais, e manifestou várias vezes o desejo de ir para o sertão brasileiro, portanto…
- Ramos Quintas: - Para o sertão brasileiro?...  Para o sertão brasileiro, fazer o quê, não me dizes?!
- Pinto João: - Como deves de calcular, e é óbvio, eu não sei dizer o motivo do desejo dela. Cada qual é como cada um.
- Ramos Quintas: - Mas se ela foi para o tal sertão brasileiro, em que local ela se encontra?
- Pinto João: - Sei lá! O sertão brasileiro é tão grande! A esta hora, até é bem capaz de já ter sido devorada por uma cobra, por uma serpente, por um jacaré, por uma onça, sei cá, o que lhe pode ter acontecido ...
- Ramos Quintas: - Que horror!...Por favor, cala-te com isso, não sejas agourento! Não consinto que me fales assim dela... Se foi para o Brasil, o seu nome deve constar na lista dos passageiros do avião que a transportou. Deste-me uma boa ideia, amigo Pinto João. Vaz Miguel ligue já para as Companhias de Aviação, e pergunte se alguma Maria de Lurdes embarcou para o Brasil. e, se possível, para que local. Vá, vá, depressa!
- Pinto João: - Ramos Quintas, por favor, não te precipites, pois, a Maria de Lurdes, bem podia ter optado por outro transporte...
- Ramos Quintas:  - Outro meio de transporte?... Não me digas que a Maria de Lurdes foi para o Brasil a nado!... Estou a ver que estás a fazer uma cara muito esquisita, mas confesso que não tenho nenhuma vontade de rir.
- Pinto João: - A nado, ou de barco, ou mesmo de avião, a Maria de Lurdes bem podia ter optado por outra identidade…
- Ramos Quintas: - Mas para isso fosse possível, tinha que ter arranjado documentos falsos.
- Pinto João: - Amigo Ramos Quintas, é sempre uma hipótese que temos de considerar. Da Maria da..., bem... É uma pessoa madura, e com muitos conhecimentos que ela tem, tudo pode acontecer...
- Ramos Quintas: - Madura?!... Não sei se será, pois, a empregada da limpeza viu-a nos balneários e diz que ela é jovem e lindíssima.
- Pinto João: - Sim, mas… É pena é ela já ter quarenta e cinco anos (mais ou menos), como tu dizes…
- Ramos Quintas: - Por favor, não é altura para brincar com coisas muito sérias...
- Pinto João: - Olha lá, Ramos Quintas, aqui só para nós: tu por acaso, estás apaixonado por essa Maria de Lurdes?
- Ramos Quintas: - Eu, apaixonado?!...Deves de estar maluco!...Não, claro que não estou apaixonado.
- Pinto João: - Desculpa, desculpa se me enganei!... Bem, tenho que ir andando, pois, ainda tenho muitos assuntos a tratar. Se, entretanto, souber alguma coisa da Maria de Lurdes, dir-te-ei, podes ficar descansado...

Pinto João telefona à Maria da Graça, falando-lhe no Ramos Quintas…
 

Continua no 3º Episódio

 

 

 

 

 

 

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