Novela de Carlos Leite Ribeiro

 

Categoria: “Comédia”

 

 

Terceiro Capítulo:

 

 

 

 

 

ARRASTE A SETA PARA

ACOMPANHAR

A LEITURA

 

- Pinto João: - “(…) e tu, minha querida amiga, como é que tens passado? ... o Ramos Quintas ? ainda te lembras dele ? Cada vez tenho mais pena daquele moço. Todo o dia me telefona, a perguntar se eu sei alguma coisa de ti! ! ... Queres saber a melhor? uma empregada da limpeza, viu-te nos balneários, sem peruca e sem óculos, e disse-lhe que tu eras muito jovem e lindíssima!... Parece-me que ficou com remorsos de te ter considerado de meia-idade!... É muito bom rapaz, e o que tu me contas, fazem parte dos fulgores da juventude... O que ele mais precisava, era de uma mulher que o ajudasse... Mudando de assunto, quando é que pensas regressar a Portugal?... Curioso, curioso, é que no dia seguinte, o Ramos Quintas faz 26 anos... pois claro que são coincidências... um beijo também para ti e feliz regresso, adeus”.
 
Depois de ter telefonado à Maria da Graça, Pinto João telefona ao Ramos Quintas…
 
- Pinto João: - Olá ! já tinha pensado em tié agora resolvi telefonar-te, amigo Ramos Quintas... Notícias tenho, mas não são nada agradáveis... a Maria de Lurdes morreu no sertão brasileiro... foi mordida por uma serpente venenosa, e, já sabes como é... Infelizmente, é impossível recuperar seu corpo, por que... Porque, foi engolida por um jacaré... amigo Ramos Quintas, por favor, te peço, que não voltes a falar-me deste triste caso. A pobre Maria de Lurdes morreu e pronto, está morta... Ramos Quintas, por favor, não insistas mais. Ela morreu paz à sua alma! ...pensa é que dentro de breves dias, vais fazer 26 anos, e temos de ir preparando uma festinha para os amigos... é impossível, pois ela morreu já te disse... por favor, não estejas para aí a chorar, pois também já estou a ficar comovido... Olha lá, onde é que vais hoje almoçar?...Agora almoças aí na firma?... Nem oito nem oitenta, pois, a nossa vida deve ser pautada como o sal: nem muito, nem pouco, só o necessário... Prazer em ouvir-te, até logo e dispõe sempre.

Depois de ter telefonado ao amigo, Pinto João mostra remorsos de estar a mentir ao amigo…
Pinto João: - Ai, ai, em que sarilho eu me meti, meu Deus! Tenho a sensação que estão apaixonados um pelo outro...até era engraçado...por vezes, não se pode brincar com o amor!...quem sabe ? ... “Mas eu sou o grande responsável por esta situação, e estou a fazer sofrer um grande amigo, o Ramos Quintas...”.
 
Dias depois, no dia do aniversário do Ramos Quintas, este recebe...
 
- Vaz Miguel: - Senhor Ramos Quintas, está aqui esta magnífica flor. É uma bela orquídea. Vieram entregá-la à pouco...
- Ramos Quintas: - Obrigado, Vaz Miguel. Ponha-a aí, que eu depois a vejo, pois  neste momento, estou muito ocupado.
- Vaz Miguel: - Senhor Ramos Quintas, a flor traz um cartão que diz assim: "Feliz Aniversário", e tem uma rubrica...
- Ramos Quintas: - Vaz Miguel tenha paciência, mas como vê, neste momento estou cheio de trabalho. Prometo ver a flor e o cartão, mais tarde...
- Vaz Miguel: - Desculpe a insistência, senhor Ramos Quintas, mas, o cartão tem uma rubrica que é... Da D. Maria de Lurdes...
- Ramos Quintas: - Aaannnnnn!  Da Maria de Lurdes?... Não pode ser não pode ser, pois ela morreu. Isto é um sonho ou um pesadelo…
- Vaz Miguel : - Se ela morreu, alguém tem a rubrica completamente igual à dela, o que não é nada vulgar…
- Ramos Quintas : - É impossível... É impossível!...
- Vaz Miguel:  - Comparámos esta rubrica que está aqui neste cartão, com outras que ela assinava as "Ordens de Serviço". São completamente iguais, como pode verificar. Analise bem…
- Ramos Quintas: - Então... Então  quer dizer que a Maria de Lurdes está viva?... Não pode ser… o Pinto João não me ia mentir…
- Vaz Miguel: - Se mentiu, não sei… Mas estou convencido que não deve ser o fantasma dela, que fez esta rubrica.  Quando recebemos a flor, e depois de ver o autocolante com o nome da florista, fui pessoalmente ao estabelecimento, e lá me disseram que tinham recebido a encomenda através do estafeta das Empresas Reunidas Industriais. Na posse dessa informação, desloquei-me aos escritórios dessa grande empresa, onde uma empregada de lá, reconheceu logo a rubrica...
- Ramos Quintas: - O que quer dizer que a Maria de Lurdes está lá empregada?...
- Vaz Miguel: - Não será bem assim, porque a tal empregada, disse-me que aquela rubrica era da... Da engenheira Maria da Graça!
- Ramos Quintas: - Ãhhhaaannnnnnnnnn?! Com certeza que eu não ouvi bem!...
- Vaz Miguel: - Ouviu sim. Melhor, até ouviu muito bem!
- Ramos Quintas: - Você deve é de estar doido, completamente doido, Vaz Miguel!... A rubrica da engenheira Maria da Graça, diz você?!... Isso é impossível, é impossível. Infelizmente, a D. Maria de Lurdes morreu... Ou então?... Será que o Pinto João me tivesse mentido?...Confesso que começo a desconfiar. Será que aquele… aquele que nem digo o nome, me tivesse mentido?...É absurdo, mas quem sabe?...Mas lá que começo a desconfiar dele, começo... E desconfiar muito...
- Vaz Miguel: - O senhor Pinto João deve vir cá hoje, por causa daquele projecto da variante de Leiria. Talvez esteja mesmo a chegar...
 
Nesse momento chega o “amigo” Pinto João...
 
- Ramos Quintas: - Olha quem está mesmo a chegar… Falámos no “Diabo” e ele apareceu! Entra, entra “grande” meu “enorme” amigo Pinto João!
- Pinto João: - Boa tarde! Olá, amigo Vaz Miguel, e, tu, Ramos Quintas, estás hoje com um óptimo aspecto! Como eu gosto de te ver com esse ar alegre e confiante. O mau tempo já lá vai amigo – não é verdade?
- Ramos Pinto: - Ainda bem que notaste a minha alegria, o meu grande contentamento. És um “amigo” verdadeiro! Vê lá tu que, um grande amigo meu, que há muitos anos anda pelos sertões brasileiros, encontrou o corpo da Maria de Lurdes! As suas cinzas, já vêm a caminho de Portugal, por via aérea. É ou não uma boa notícia?!
- Pinto João: - As cinzas da Maria de Lurdes (estranho…)?... Uma boa notícia?... Mas é… É impossível! Tu deves de estar é completamente doido ou foste enganado por algum vigarista! já te disse que um... Lagarto  -  nem é bem um lagarto, será? Um...
- Vaz Miguel: - Talvez queira dizer um jacaré, quem sabe?
- Pinto João: - É isso tudo, um jacaré! Aqui, o nosso bom amigo, Vaz Miguel, é que percebe bem destes assuntos. Parabéns.
- Vaz Miguel: - Eu, perceber de lagartos, jacarés e de outros répteis?... Nem por isso, não percebo, mesmo nada, deste assunto. Mesmo nadinha! Nem sequer de flores eu entendo.
- Ramos Quintas: - Vaz Miguel, muito obrigado pela sua colaboração. Quando quiser, pode-se retirar.
- Vaz Miguel: - O que eu vou já aproveitar, pois, este caso atrasou muito o meu trabalho normal. Com licença sua licença...
- Pinto João: - Estou a ver que estás a franzir o sobreolho… posso perguntar por que, amigo Ramos Quintas? 
- Ramos Quintas: - Eu, a franzir o sobreolho?... É impressão tua ou estás a ver muito mal.
- Pinto João: - Espera aí, porque é que estás a fechar as portas à chave?... Não te estou a compreender?...
- Ramos Quintas: - Sabes, é porque não quero ser interrompido, melhor, nem sequer quero testemunhas do que aqui se vai passar... Senta-te aí nessa cadeira, e ouve-me com muitas, mas muita atenção...
- Pinto João: - Agradeço-te, pois já estava a ficar com as pernas cansadas, de estar tanto tempo em pé. E tu,  não te sentas também porquê?...
- Ramos Quintas: - Já me sento. Agora, olha cá para mim, olhos nos olhos. Assim mesmo sem desviar o olhar...
- Pinto João: - Cada vez percebo menos deste teu mistério...  Não te entendo, mas, que se passa? ...tu, mas tu estás a apontar-me uma pistola?! ... 
- Ramos Quintas: - É como estás a ver “amigo” Pinto João. Estou a apontar-te esta pistola que tem oito balas. Vou tirar seis... Não, sete balas. Agora vamos jogar à roleta russa...
- Pinto João: - Tira-me lá isso da frente, pois já estou a ficar com suores frios...  Confesso que não estou a gostar, nem a compreender, nada desta brincadeira. Primeiro, fechas as portas à chave, e, depois me apontas uma pistola à cabeça. Tu não deves estar bom; deves de estar com problemas psicológicos. Para já, vira esse cano de pistola, para outro lado, e diz-me, concretamente, qual é o teu problema. O que se passa contigo?
- Ramos Quintas: - Falando muito a sério, tu sabes muito bem, Pinto João, que a pobre Maria de Lurdes, morreu, não é assim?...
- Pinto João: - Certo. Até aí, sei eu. A pobrezinha morreu, apagou o maçarico, ou seja, entregou a alma a Deus e o corpo à terra fria. Pronto, facto consumado e não se fala mais nisso.
- Ramos Quintas: - Pois é, a Maria de Lurdes, a secretária, a pobre que morreu sabe-se lá como, nos sertões brasileiras, nunca existiu. Quem existiu, foi sempre a engenheira Maria da Graça, não foi?
- Pinto João: - Aaannnhhhh ... Eu não sabia, e mais te digo, nem quero acreditar. Ai, como este mundo está!... Mas eu vou-me calar em memória dela…
- Ramos Quintas: - Então, agora não queres dizes nada?... Vá lá, não me digas que perdeste a língua… Está quietinho e não te levantes da cadeira.; Já te disse para estares aí sossegadinho. Olha “amigo” que ainda levas um tiro, se não ficares quietinho... Bem, agora, vais-me contar, timtim por timtim, como é que tiveste a coragem de engendrares toda esta embrulhada. Começa a falar antes que eu perca a paciência.
- Pinto João: - Já estou a ficar muito nervoso. Ai o meu coração que sinto a parar... Entretanto, vira para lá esse “bacamarte”, que sem querer, pode disparar.
- Ramos Quintas: - Só não dispara se começares  já, mas já a contar a tua história... Vá, vá conta tudo, mas tudo, ouvistes e compreendeste bem?
- Pinto João: - Ouvi e compreendi muito bem. Tem tu também muita calma, de acordo? Como sabes, sou muito amigo da Maria da Graça. Ela estava prestes a gozar um merecido período de férias. Mas desta vez, queria umas férias especiais, fora do vulgar. Ir para o estrangeiro, não a estava a seduzir-lhe muito, pois, ao serviço das Empresas Reunidas Industriais, conhece praticamente todo o mundo.
- Ramos Pinto: - Até agora e pelo que me estás a contar, confesso, que não estou a ver o que é que eu entrei nos vossos planos. Mas continua, continua pois sou todos ouvidos.
- Pinto João: -Continuando, certo dia, a Maria da Graça e a secretária, sugeriram-me que eu lhe arranjasse as tais férias fora do vulgar.
- Ramos Pinto : - Estou mesmo a ver, foi quando tu te lembras-te de mim, do teu “amigo” Ramos Quintas, para ser a vítima do vosso jogo…
- Pinto João: - Ora, como me tinhas pedido que te arranjasse uma boa secretária,  eu pensei em ser-te útil e arranjei-te uma secretária muito boa.
- Ramos Quintas: - Pois foi, a tua “gentileza”,  até comove-me muito… tu arranjaste-me foi um lindo sarilho... tu és mesmo perverso. Merecias bem, levares agora um tiro. E olha que eu ainda não sei se te vou dar um tiro ou não, pois vontade não me falta!
- Pinto João: - Mais uma vez te peço que vires essa “artilharia” para outro lado. Repara, com o mal já está feito, agora, só me resta pedir-te desculpa, pelos transtornos que te causei. Mas diz-me: como é que tu descobriste tudo isto?
- Ramos Quintas: - Elementar, meu caro Pinto João! Foi só comparar as rubricas que a Maria da Graça deixou cá, em alguns documentos, e a de um simpático cartão de "Feliz Aniversário", que acompanhou esta bela flor, fez o resto.
- Pinto João: - Mas... Mas a Maria da Graça mandou-te uma flor?!...É curioso... É muito curioso e estragou tudo! E eu com estes problemas todos, quase me esquecia que hoje fazes anos. Desejo-te...
- Ramos Quintas: - Dispenso os teus votos de "Bom Aniversário". Continuo indeciso se te hei-de ou não dar-te um tiro, ou então, dar-te outro castigo. O que é que preferes: um tiro ou outro castigo? A decisão é tua... 
- Pinto João: -  Tiro?! ...Castigo?!... Tu deves é estares doido! não, e não, não quero nenhum castigo…
- Ramos Quintas: - Então preferes levar um tiro?
- Pinto João: - Levar um tiro é que não! Já te disse para virares essa pistola para outro lado. Estás teimoso.
- Ramos Quintas: - Está certo, tu antes preferes um castigo. Deixa-me cá pensar... Pensar... Já sei! vai-me arranjar um emprego na empresa da Maria da Graça!
- Pinto João: - Tu deves de estar a sonhar!  Um emprego para ti, junto da Maria da Graça?... é impossível, é impossível!
- Ramos Quintas:  - Tu é que sabes se é ou não impossível. Mas, se for impossível, já sabes, levas um tiro! Como deves de calcular, eu não sou nada esquisito, o emprego pode ser, digamos, por exemplo, o de contínuo...
- Pinto João: - Já te disse que é IMPOSSÍVEL! nem a Maria da Graça te queria na empresa dela. Mas olha, tive uma ideia, uma grande ideia: vais tu ter com ela e pede-lhe o tal emprego...
- Ramos Quintas: - Não me faças rir. Isso é que não vou, pois, até perdia o encanto de uma vingança. Tu é que tens de me arranjar lá um emprego!
- Pinto João: - Mas como, não me dizes?
- Ramos Quintas: - Eu não sei, mas tu és perito e tens habilidade de arranjar soluções para tudo. Para a tua "brilhante" cabecinha, não existe nada que seja impossível de conseguir, não é assim, “amigo”?
- Pinto João: - Desculpa, mas não posso fazer isso. Tens de pensar em outra forma de resolveres este assunto.
- Ramos Quintas: - Repara, o problema é teu! Vou dar-te uma hora, nota bem, uma hora para tu para tu, resolveres este assunto. Caso contrário, já sabes... Um tiro na cabeça!
- Pinto João: - O que me estás a fazer é uma autentica chantagem!...
- Ramos Quintas: - Talvez seja, talvez. Eu vou sair e daqui a uma hora regresso. Escusado será dizer-te que, te deixo fechado à chave...
Pinto João: - E o que é que eu posso fazer aqui fechado no teu escritório?!... Não me dizes? Além de chantagem é um autêntico seqüestro que estás a fazer…
- Ramos Quintas: - Que exagero estás para aí a dizeres! Eu não sei o que possas fazer, porque tu é que és o homem das grandes soluções. O telefone fica à tua inteira disposição. E já sabes, tens uma hora, nota bem: uma hora! Para mostrares o que na realidade vales, senão... Levas um tiro na cabeça, ponto final!
- Pinto João: - Desaparece rapidamente da minha vista. Vai... Vai e, oxalá que não voltes mais, pelo menos vivo!

Depois de o Ramos Quintas ter saído, o Pinto João começou a pensar na melhor maneira de sair daquela situação embaraçosa que tinha criado...
 
- Pinto João: - “Eu estou metido numa grande alhada  -  ah, isso é que estou!... vou telefonar às autoridades... mas... não posso!... pois, seria um escândalo enorme  -  e depois, a minha reputação?... E se eu falar com a Maria da Graça… Parece-me que será a melhor maneira de u me safar… vou telefonar-lhe. Vou-lhe telefonar, mas, mas… ai a minha vidinha…”
Pega no telefone, e...
- Pinto João: - Está?... a senhora engenheira, Maria da Graça, está ?...Fala Pinto João... eu aguardo sim (os deuses que me inspirem e me protejam) ... Estou Maria da Graça? como é que tu estás, garota linda?...O Ramos Quintas?!... Não, não sei como é que ele está, porque hoje ainda não falei com ele. Mas posso-te dizer que ele ainda não morreu!... Enviaste-lhe uma linda flor? … pois, pois, é pena ser uma daquelas flores que matam!...Não, não é nada especial, eu, é que estava a divagar, melhor, a brincar...olha, ainda não sei se ele faz ou não festa de aniversário... Éramos, ou melhor, ainda, somos muito, “muito amigos”... Responde por favor: se o Ramos Quintas fizer alguma festa, tu estavas interessada em assistires?...Não, ou sim?!... Até me parece que estás muito interessada nele... Maria da Graça será, por acaso, que estás apaixonada por ele?...   Pronto, pronto, não te zangues, pois eu perguntei por perguntar, e, na mais pura brincadeira... como sabes, sou muito brincalhão... Pois, a finalidade deste telefonema, é que um "simpático" velhinho meu amigo, quer empregar-se, por um ou dois meses, ou seja, o tempo que falta para poder reformar-se... Sabes, na minha empresa, não tenho nenhum lugar apropriado para ele... Pois, ele é muito sensível, muito educado... Um lugar para ele, talvez o de contínuo... Aceitas?...Vais ver que vais gostar muito dele, pois, até é muito castiço! ... Já sabia que podia contar contigo... Está bem, se eu for à festa de aniversário do Ramos Quintas, beberei um Whisky por ti... Obrigado, e até depois... Beijinhos.

Depois do telefonema, Pinto João levantou-se da cadeira e ensaiou uns passos de dança, murmurando em voz audível:
- Pinto João: - “Bem, por esta vez, parece que estou safo!... Mas o finório do Ramos Quintas, vai ter que se exceder... vai ser engraçado, e até parece que já estou a gozar com o panorama: o Ramos Quintas, mascarado de velhinho! Hahahahaha!... lá vem ele... já está a abrir a porta…”
Entrando de rompante no escritório, logo de uma maneira brusca, interpela o “amigo”…

- Ramos Quintas:  - Já passou mais de uma hora. Olha lá menino, conseguiste arranjar-me um emprego na empresa da Maria da Graça!...
- Pinto João: - Pois claro que consegui!... é que eu (felizmente!) tenho amigos, neste caso amigas, que são para as ocasiões de aperto… Meu caro (pistoleiro barato), amanhã, antes das 9 horas, apresentas-te à senhora engenheira Maria da Graça. Já deves saber (mas será sempre bom recordar, pois és um “cabeça de vento) que, a senhora engenheira, é muito pontual e não desculpa atrasos!
- Ramos Quintas : -Por favor, deixa para lá essa cara de gozo, que eu não suporto...olha lá, mas apresento-me, como?
- Pinto João : - Na figura de um simpático e bondoso velhinho, ao qual, faltam dois ou três meses, para se poder reformar.
- Ramos Quintas: - Como?!...mas que grande complicação essa! por acaso, não me dizes como é que eu vou fazer, para parecer que tenho essa idade? ... por acaso sabes que eu...
- Pinto João: - Elementar, meu caro “amigo” Ramos Quintas, elementar. Terás de usar uns disfarces muito bem feitos e tu tens de te caracterizar muito bem!
- Ramos Quintas: - Que complicação essa...não sei se vou conseguir...
- Pinto João: - Agora, o problema é teu, a bola está do teu lado. Se não conseguires disfarçar-te, aconselho-te (e é um conselho de amigo),que dês um tiro na cabeça (na tua cabeça ,claro. Bem, vou retirar-me, digamos, com a consciência tranquila. Olha, se puderes, passa muito bem, e não te esqueças que amanhã, antes das 9 horas, tem de te apresentar à senhora engenheira, D. Maria da Graça!
- Ramos Quintas: - Espera aí, Pinto João, espera aí...
O “amigo, fingindo que não ouvia, saiu rapidamente do gabinete. Ramos Quintas, sentou-se à sua secretária e com as mãos na cabeça, começou a pensar na figura que ia interpretar…

- Ramos Quintas: Imaginem bem, eu disfarçado de "simpático  e bondoso velhinho”!... Mas por ti (só por ti) Maria da Graça, vou tentar ser o melhor actor do mundo. Amanhã, estarei ao teu serviço, nem que seja só por uma hora!...

Alguns dias depois, quando o Ramos Quintas já estava acostumado de mascarado do velhinho “Apolinário”. Cabeleira e bigode brancos; lentes escuras a simular grossas lentes verdadeiras; andar um pouco curvado e por vezes até usar bengala para manter o equilíbrio, até a voz tinha mudado (estava um “espanto”!).
 
- Ramos Quintas: - A senhora engenheira, Maria da Graça, precisa de mais alguma coisa deste seu criado Apolinário?
- Maria da Graça: - Não, querido Apolinário, não preciso de mais nada. Olha que tu és um empregado excepcional, muito pontual, muito trabalhador, muito educado, por isso, estou muito contente com o teu trabalho. Mas cuidado, não quero que tu te canses muito, pois, já tens uma idade muito avançada. Cuida bem de ti! 
- Ramos Quintas: - Mas eu não me canso, pois até tenho muito prazer em trabalhar para a senhora engenheira, que é muito bonita, muito gentil e muito bem educada!
- Maria da Graça: - Eu sei, eu sei, não sejas bajulador. A propósito, sabes quem é que vem cá hoje?
- Ramos Quintas: - Não sei, não, senhora engenheira ainda não me disse…
- Maria da Graça: - É aquele senhor que me pediu para eu te empregar, o senhor Pinto João.
- Ramos Quintas: - Ah, aquele “senhor”, já sei…
- Maria da Graça: - Até parece que não ficaste muito contente com a notícia, por quê?
- Ramos Quintas: - Por nada, deve ser impressão da senhora engenheira, porque eu até fiquei muito contente. Já há muito tempo que não vejo esse senhor, até tenho saudades dele.
- Maria da Graça: - Ele é muito simpático e muito bondoso; é assim como tu!
- Ramos Quintas: - Ele é muito simpático e também bondoso?... Fico muito contente em saber, pois, não lhe conhecia esses predicados todos!
- Maria da Graça: - É como eu digo, podes crer. Tu talvez é que não o conheças bem. Também te posso dizer que ele gosta muito de ti!
- Ramos Quintas: - - Não sabia que era assim tão apreciado pelo senhor Pinto João…  por acaso, não haverá uma pontinha de exagero da parte da senhora engenheira.? 
Nesse momento o telefona toca, e...

- Maria da Graça: - Estou sim?...Podes mandar entrar o senhor Pinto João... 
- Entre, entre, meu querido amigo!
- Pinto João: - Com licença...Bom Dia, Maria da Graça!
- Maria da Graça : - Olá, Pinto João! Estou muito admirada por você e o Apolinário não se cumprimentarem…
- Pinto João: - Sim, sim, parece-me que estou a conhecer este senhor, mas de onde, não me recordo!
- Maria da Graça: - Pois claro que conhece, é o Apolinário, aquele empregado que o Pinto João, me recomendou!
- Pinto João: - Ah, sim... Agora parece que já o estou a conhecê-lo... Sim deve ser o, ou melhor, é o Apolinário! Como estás tu, meu rapaz, já velho?... Quase que te não conhecia, porque ultimamente envelheceste e muito. Venham cá esses ossos!...
- Ramos Quintas: - Cuidado, cuidado, não apertes muito, senão, estragas  tudo…
- Maria da Graça: - Apolinário, que modos são esses, para com o senhor Pinto João?! Tu sempre tão delicado e educado?
- Ramos Quintas: - Desculpe senhora engenheira. Sabe, é que me dói muito a coluna, e aqui, o senhor Pinto João, estava a apertar-me muito.
- Maria da Graça: - Ah,  então é ...ainda bem que é assim, porque, até parecia que vocês não eram amigos, e, segundo me disse o senhor Pinto João, já há muitos anos.
- Pinto João: - Pois é Maria da Graça, no que  me diz respeito aos amigos, cada vez estou mais desiludido com eles. Vê lá tu, minha querida amiga que, uma pessoa, das que eu mais considerava, teve a ousadia de me fechar no escritório dele e, apontar-me uma pistola à cabeça!... Aaaiiii...
- Maria da Graça: - Apolinário, tu deste um pontapé ao senhor Pinto João?!
- Ramos Quintas: - Eu, senhora engenheira?Eu nunca faria isso, juro! o que aconteceu foi, foi...Bem, eu  tropecei, e, de facto, sem querer, dei um pontapé ao senhor Pinto João...repito que foi sem querer. Eu era lá capaz uma coisa dessas, a um velho e tão querido amigo?
 - Pinto João: - Pois é, Maria da Graça, aqui o Apolinário deu-me um pontapé, mas como ele diz, sem querer. Mas temos que lhe dar um certo desconto, pois, com a idade dele, já não vê muito bem. Pelo sim pelo não, vou manter-me afastado dele, estás de acordo, não estás, Apolinário?... Escusas de me fazeres essa cara de tão zangado, pois nós dois sempre nos compreendemos muito bem. Mas temos que admitir Maria da Graça, com a idade que ele tem, já não pode ver muito bem, nem onde põe os pés!
- Maria da Graça: - Não lhe ligue Apolinário, pois, o senhor Pinto João é muito brincalhão. Vê lá tu, que ele ainda há pouco tempo nos disse, que o melhor amigo dele, lhe encostou uma pistola à cabeça. Ah, como isso fosse possível!
- Ramos Quintas: - O que o João Pinto não disse à senhora engenheira, se o tal amigo que lhe encostou a pistola à cabeça, foi a sério ou a brincar e, sobretudo, com ou sem razão, para fazê-lo.
- Maria da Graça: - Com certeza que foi a brincar, pois, nenhum amigo, daqueles que se prezam de ser, encosta ao outro uma pistola à cabeça.  Mas mudando de assunto, olha lá ,Pinto João, tens sabido alguma coisa do nosso comum conhecido, Ramos Quintas?...
- Pinto João: - Já há muito tempo que não sei nada dele. Mas segundo creio, ainda anda paranóico com o caso da Maria de Lurdes. Mas por aquilo que sei, ainda não teve coragem para se suicidar…
- Maria da Graça: - Cada vez sinto mais remorsos por aquilo que lhe fiz. Muito embora, tenha a plena consciência de tê-lo ajudado e muito profissionalmente.
- Pinto João: - É certo, mas o Ramos Quintas, continua a sofrer muito com a tua ausência. Pobre rapaz. Sinto grande pena dele, mas que posso eu fazer?
- Maria da Graça: - Não acredito, Pinto João. O Ramos Quintas, pode quanto muito, estar apaixonado pela Maria de Lurdes, aquela secretária “já de certa idade” que muito o ajudou; que lhe ensinou a ter uma certa metodologia de processos de trabalho. Pela Maria da Graça, licenciada em Engenharia, ele não pode apaixonado, pois, nem sequer a conhece!
- Pinto João: - Não sei... Não sei... É que o Ramos Quintas, embora não aparente, tem um certo grau de inteligência (não direi muito elevado)...embora raramente consiga a por em prática, por falta de metodologia e a mania que é bom e que conquista todas as mulheres que quer.
- Maria da Graça: - Eu direi mesmo que ele é bastante inteligente, e, quando lhe passar os fulgores da juventude (como você diz),será um óptimo técnico e empresário!
- Pinto João: - Maria da Graça desculpa a minha insistência, mas mais uma vez te pergunto: estás ou não apaixonada pelo Ramos Quintas?
- Maria da Graça: - Apaixonada?...Não direi, mas que tenho por ele uma grande admiração... Mesmo grande simpatia, não o nego...
- Pinto João: - Então, porque não lhe telefonas?
Maria da Graça: - Está completamente fora de hipótese. A Maria de Lurdes morreu. Se eu lhe telefonasse, não ia dar certo... Tenho de seguir a minha vida, o meu destino e ele, o dele...
- Pinto João: - Que falta de convicção no que disseste agora .No dia em que ele fez anos, mandaste-lhe uma linda flor. Olha lá, foi um impulso de amizade, ou um impulso de amor?... Não mintas a ti mesmo!
- Maria da Graça: - Não tentes confundir-me… Sei lá, digamos... Enviei a flor com muito carinho…
- Pinto João: - Sabes, Maria da Graça, esse "carinho" até se nota a longa distância!
- Maria da Graça: - E digo-te mais, se no dia em que ele foi a Oeiras, celebrar um contrato com a Hidráulica do Sul, se ele tem regressado directamente para a empresa, não sei o que teria acontecido... Mas já passou, já passou...
- Pinto João: - Mas as tuas saudades continuam.
- Maria da Graça: - Na semana passada, viu-o na esplanada da Avª da Liberdade. Fiquei dentro do carro a admirá-lo e, muito admirada fiquei por ele se encontrar ali sozinho, sem as suas “horripilantes” amiguinhas.
- Pinto João : - Segundo me consta, o Ramos Quintas, deixou-se dessa vida de “puxa saia”. Agora pensa mais no trabalho, nos compromissos que tem o que é muito bom para ele pessoalmente e para a sua empresa.
- Maria da Graça: - Nem pode calcular como eu fico contente com essa notícia. Com esta conversa toda, até nos esquecemos do Apolinário... Apolinário! Manda trazer três cafés para nós.
- Ramos Quintas: - É para  já, senhora engenheira!...
- Maria da Graça : - Já te disse que não é preciso ires tu lá buscá-los. Telefona e da cantina, que os tragam.  Poupa as tuas pernas, porque, os teus vinte anos já passaram há muito! Pinto João estou muito contente com o Apolinário, pois, ele é um trabalhador excepcional, muito educado e pontual.
- Ramos Quintas: - Não exagere, senhora engenheira, pois, não faço mais do que o meu dever.  Os cafés já devem de estar a chegar...
- Maria da Graça: - Eficiência, eficiência. Estou quase tentada a pedir ao Apolinário que não se reforme tão cedo. Verdadeiramente, ele faz-me muita falta. Depois, Pinto João, terá de me arranjar um empregado tão bom como o Apolinário!
- Pinto João: - Embora ele seja eficiente e lhe faça muita falta (como dizes), com certeza que não te faz tanta falta com o Ramos Quintas, não é verdade, Maria da Graça?
- Maria da Graça: - São duas situações completamente distintas, amigo. Nada de confusões!
- Ramos Quintas: - Olhem, já chegou o café. Agora não o deixem arrefecer...
- Pinto João: - Obrigado pela tua gentileza, “amigo” Apolinário!... Maria da Graça, se na hipótese, portanto por, o Ramos Quintas entrasse, neste mesmo momento, por aquela porta, qual seria a tua reacção?
- Maria da Graça: - Nem quero pensar nisso, para mais, essa situação é impossível de acontecer, pois, os meus empregados não o deixariam entrar, sem a minha autorização. - O Pinto João está a dramatizar (ou a gozar) com o caso, mas repare: O Ramos Quintas, conheceu a Maria de Lurdes, e, nunca conheceu a Maria da Graça, que são duas personagens completamente diferentes!
- Pinto João: - Eu se fosse a ti, não teria assim tanta certeza...
- Maria da Graça: - Por quê?...Podes explicar-me por quê... Só se o Pinto João, falou a ele de mim? 
- Pinto João: - Que ideia a tua!...Então, eu ia falar de ti ao Ramos Quintas? Só se eu fosse maluco (o que não sou)!... Ele é que descobriu quem tu és...  Como tu já disseste, ele não é parvo de todo (é só um bocadinho)!
- Maria da Graça: - O Ramos Quintas descobriu o quê?!...Ele nem me conhece, mas que cara é essa que estás a fazer?... Pinto João, conte-me tudo, mas tudo e direitinho, pois, eu já estou a ficar desconfiada e muito nervosa...
- Pinto João: - Recordas-te, certamente, daquela flor que lhe enviaste, no dia em que ele fez anos?
- Maria da Graça: - Claro que me lembro, perfeitamente, pois, ainda há pouco falámos nisso, não foi?
- Pinto João: - Pois é, e, junto a essa flor, juntaste também um lindo cartão a felicitá-lo pelo aniversário, onde puseste a tua rubrica...
- Maria da Graça: - Até aí, está tudo certo. E daí?
- Pinto João: - Daí, o Vaz Miguel, reconheceu e comparou a tua rubrica, com outras que tu lá deixas-te. Depois foi ao florista, saber quem é que tinha mandado a dita flor. Seguidamente, veio aqui aos teus escritórios e perguntou a uma empregada se a rubrica era  tua. Como vês, até foi fácil identificar-te e localizar-te!
- Maria da Graça: - Reconheço que imprudente que eu fui!... E agora, o que é que eu vou fazer?... ele terá a ousadia e o descaramento de vir aqui ter comigo, não é verdade? …Pinto João diz-me, por favor!
- Pinto João: - Podes ter a certeza que, dia menos dia, isso vai acontecer... É tão fatal como o destino: O Ramos Quintas vai aparecer aqui à tua frente!
- Maria da Graça: - Ai, aonde é que eu me fui meter?!...Vou já telefonar, já...  ... Telefonista, telefonista tome bem atenção ao que lhe vou dizer: avise já, mas já o porteiro, os seguranças e todo pessoal que não deixem, sob pretexto algum, entrar o senhor Ramos Quintas... Sim! Ramos Quintas. Se não sabe quem é, devia de saber...   quando ele chegar, não o deixem passar e, se ele insistir, chamem as autoridades!...  ...não sei se ele vem hoje ou se vem amanhã, ou quando vem... Já sabem, em caso algum o Ramos Quintas poderá entrar, é minha ordem expressa!... Não se esqueça de avisar, todo o pessoal!

 

Continua no 4º e último Episódio

 

 

 

 

 

 

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Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

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