UNIVERSALIDADE E OBJETO FORMAL DA
FILOSOFIA
Quando se afirma que a Filosofia é a
ciência que estuda “todas as coisas”,
tal universalidade pode causar
estranheza na mente de muitos leitores.
De fato, como determinada ciência
poderia abarcar toda realidade
existente?
É necessário, antes de tudo, que se
distinga o objeto material do objeto
formal de uma ciência.
O objeto material
é a própria matéria com que uma ciência
se ocupa. O mundo animado e inanimado
são objetos de estudo da pluralidade das
ciências. Assim, sob o ponto de vista
material, várias ciências podem ter o
mesmo objeto material. O homem, por
exemplo, é objeto material da
Sociologia, da Psicologia, da Medicina,
etc., além da própria Filosofia. Cada
ciência que estuda o homem (objeto
material) o faz sob aspecto diferente e
determinado (objeto formal). O mesmo
deve-se dizer das ciências cujo objeto
material é a natureza inanimada do
mundo.
O que distingue uma ciência da outra
não é o objeto material, mas o
objeto formal,
isto é, aquilo com que determinada
ciência se ocupa especificamente como
área de estudo.
Sem o objeto formal nenhuma ciência
poderia existir.
A Matemática, por exemplo, tem, como
objeto formal, o número; a
Biologia, os seres vivos;
a Astronomia, os corpos celestes,
a História, o fato histórico...
Desta forma, cada ciência possui seu
objeto próprio de estudo, com o que,
repito, se distingue das demais
ciências.
Quanto à Filosofia, tem, por objeto
material, “todas as coisas”,
e, por objeto formal “os primeiros
princípios de todas as coisas”.
Por isso, se diz que a Filosofia é a
ciência de todas as coisas.
Apresenta-se como verdadeira ciência
universal que se aplica, entretanto,
“não a tudo de todas
as coisas”, mas aos
“primeiros princípios de todas as
coisas”.
Como nos sugere Régis Jolivet, por mais
que as ciências se ocupem das matérias
que lhes são próprias, deixam sempre à
margem a questão da natureza mais
profunda, do valor intrínseco, do fim
último e do conhecimento das essências
das coisas.
Pode-se dizer que a Filosofia possui
amplo universo de estudo que vai muito
além dos múltiplos e amplos volumes que
já foram escritos.
A Filosofia organiza-se em tratados,
conforme a natureza do conteúdo, o que
torna mais fácil e racional o seu
estudo.
TRATADOS
DA FILOSOFIA
Toda realidade existente está contida
num dos seguintes tratados que compõem a
Filosofia: Lógica, Gnoseologia,
Cosmologia, Psicologia Racional,
Metafísica (Ontologia e Teodicéia),
Ética e Estética.
01.
A
LÓGICA
é a ciência que ensina a arte de
raciocinar corretamente, a fim de que,
mais facilmente, se possa atingir a
verdade.
Por ser instrumento indispensável ao
conhecimento dos tratados filosóficos, a
Lógica é propedêutica. Por isso, o
estudo da Filosofia deve começar com a
Lógica.
O raciocínio é o ponto culminante da
Lógica filosófica, também chamada Lógica
Formal.
O verdadeiro autor da Lógica é
Aristóteles (384-322 A.C), o único homem
da História da Humanidade que teve o
privilégio de dar à posteridade uma
ciência praticamente completa. O
filósofo Emanuel Kant (1724-1804) é
categórico: “A Lógica, depois de
Aristóteles, não teve que dar nenhum
passo para trás, e, nenhum
passo para frente”. Isso é
deveras impressionante, uma vez que
muitos autores, ainda hoje, fazem eco
àquela afirmação de Kant.
02. A GNOSEOLOGIA
é o estudo filosófico do conhecimento e
do real valor das faculdades humanas,
principalmente da inteligência, enquanto
tem competência para atingir a verdade
com a evidência da certeza.
Questões como o realismo do
conhecimento, a objetividade da certeza
e o valor absoluto da verdade são
estudadas com apurada aplicação.
03. A COSMOLOGIA
é o tratado filosófico que tem por
objeto o corpo em geral, enquanto busca
a compreensão dos princípios
constitutivos da substância corpórea
inanimada.
A quantidade e sua natureza, o espaço e
o tempo, a qualidade corpórea, a
atividade e passividade dos corpos, as
leis físicas, a matéria e a forma, o
princípio de individuação, etc. são
objetos de estudo da Cosmologia.
04. A PSICOLOGIA RACIONAL
é a ciência filosófica que trata dos
primeiros princípios dos seres animados.
Estuda, portanto, a alma como princípio
vital dos seres vivos e suas operações
específicas, chegando ao ser humano, no
qual, a alma é parte substancial da sua
existência.
05. A METAFÍSICA
é a ciência das realidades que se
encontram além das coisas físicas.
Constitui o coração da Filosofia, a
culminância do seu estudo. Na
Metafísica, realidades inteligíveis são
alcançadas pelo exercício talentoso da
inteligência humana.
A rigor, a Metafísica é composta pela
Ontologia que abrange o ser finito e a
Teodicéia, ciência do ser infinito.
a). A ONTOLOGIA,
segundo o próprio Aristóteles, é a
ciência do ser enquanto ser.
Conforme nos ensina Paulo Carosi, a
“Ontologia estuda a perfeição mesma
do ser, aquela perfeição que é a mais
simples, fundamental e comum, e da qual
todas as outras são derivações e
determinações”.
Em síntese, a Ontologia trata do ser em
geral (objeto material), levando sempre
em conta os primeiros princípios e
últimas conseqüências de tudo (objeto
formal).
b). A TEODICÉIA
é o tratado metafísico que estuda a
causa eficiente e final dos entes do
universo. Ora, conforme as demonstrações
das provas, a causa eficiente do
universo é Deus. Portanto, trata de Deus
e sua natureza.
A Teodicéia distingue-se da
Teologia, que estuda Deus,
através da própria Revelação Divina. A
Teodicéia é labor da razão humana e vai
até onde o raciocínio pode chegar.
A Teologia, portanto, supõe o concurso
da luz sobrenatural da fé; a
Teodicéia, o exercício da luz natural
da razão.
06. A ÉTICA
é a ciência que tem por objeto os atos
morais do ser humano. Trata do bom uso
da liberdade que o homem deve fazer para
atingir seus fins superiores. A lei
natural e positiva, o direito e o dever,
a justiça e a caridade são algumas das
questões deste importante tratado
filosófico.
07. A ESTÉTICA,
também chamada Filosofia da Arte, tem
por objeto o belo.
A arte é uma virtude intelectual. Antes
de existir na realidade sensível, é
concebida pela inteligência do artista.
A Estética distingue as
artes úteis e as
belas-artes. As primeiras
compreendem a materialização de uma
idéia, através da própria habilidade da
ação humana. Visa geralmente um fim
útil, sem deixar de lado a beleza que,
no caso, é apenas complemento da coisa
realizada. A harmonia das partes
componentes distinguem as artes úteis. É
assim que vemos e apreciamos , por
exemplo, uma poltrona, uma casa, um
automóvel, etc.
As belas-artes visam unicamente a
produção de uma obra, onde a beleza é
essencial aos sentidos e à inteligência.
Assim, contemplamos, por exemplo, a
beleza da Santa Ceia de Da Vinci, ou a
harmonia agradável da 7ª. Sinfonia de
Beethoven, ou os poemas de Drummond.
CONCLUSÃO
Feliz de quem tem a oportunidade de
estudar e viver a Filosofia. Terá
oportunidade de usufruir das supremacias
inteligíveis, que transformam o mundo
real nas maravilhas de um mundo
fantástico.
A Filosofia, por ser conhecimento das
essências, é alimento saboroso à
curiosidade natural da inteligência
humana. É o que basta, para justificar a
sua altíssima excelência.