LOAS À FILOSOFIA – Março/2007

Lairton Trovão de Andrade

 

 

 

UNIVERSALIDADE E OBJETO FORMAL DA FILOSOFIA

 

Quando se afirma que a Filosofia é a ciência que estuda “todas as coisas”, tal universalidade pode causar estranheza na mente de muitos leitores. De fato, como determinada ciência poderia abarcar toda realidade existente?

É necessário, antes de tudo, que se distinga o objeto material do objeto formal de uma ciência.

O objeto material é a própria matéria com que uma ciência se ocupa. O mundo animado e inanimado são objetos de estudo da pluralidade das ciências. Assim, sob o ponto de vista material, várias ciências podem ter o mesmo objeto material. O homem, por exemplo, é objeto material da Sociologia, da Psicologia, da Medicina, etc., além da própria Filosofia. Cada ciência que estuda o homem (objeto material) o faz sob aspecto diferente e determinado (objeto formal). O mesmo deve-se dizer das ciências cujo objeto material é a natureza inanimada do mundo.

 O que distingue uma ciência da outra não é o objeto material, mas o objeto formal, isto é, aquilo com que determinada ciência se ocupa especificamente como área de estudo.

Sem o objeto formal nenhuma ciência poderia existir.

A Matemática, por exemplo, tem, como objeto formal, o número; a Biologia, os seres vivos; a Astronomia, os corpos celestes,  a História, o fato histórico... Desta forma, cada ciência possui seu objeto próprio de estudo, com o que, repito, se distingue das demais ciências.

Quanto à Filosofia, tem, por objeto material, “todas as coisas”, e, por objeto formal “os primeiros princípios de todas as coisas”. Por isso, se diz que a Filosofia é a ciência de todas as coisas.

Apresenta-se como verdadeira ciência universal que se aplica, entretanto, “não a tudo de todas as coisas”, mas aos “primeiros princípios de todas as coisas”.

Como nos sugere Régis Jolivet, por mais que as ciências se ocupem das matérias que lhes são próprias, deixam sempre à margem a questão da natureza mais profunda, do valor intrínseco, do fim último e do conhecimento das essências das coisas.

Pode-se dizer que a Filosofia possui amplo universo de estudo que vai muito além dos múltiplos e amplos volumes que já foram escritos.

A Filosofia organiza-se em tratados, conforme a natureza do conteúdo, o que torna mais fácil e racional o seu estudo.

 

 TRATADOS DA FILOSOFIA

 

Toda realidade existente está contida num dos seguintes tratados que compõem a Filosofia: Lógica, Gnoseologia, Cosmologia, Psicologia Racional, Metafísica (Ontologia e Teodicéia), Ética e Estética.

01. A LÓGICA é a ciência que ensina a arte de raciocinar corretamente, a fim de que, mais facilmente, se possa atingir a verdade.

Por ser instrumento indispensável ao conhecimento dos tratados filosóficos, a Lógica é propedêutica. Por isso, o estudo da Filosofia deve começar com a Lógica.

O raciocínio é o ponto culminante da Lógica filosófica, também chamada Lógica Formal.

O verdadeiro autor da Lógica é Aristóteles (384-322 A.C), o único homem da História da Humanidade que teve o privilégio de dar à posteridade uma ciência praticamente completa. O filósofo Emanuel Kant (1724-1804) é categórico: “A Lógica, depois de Aristóteles, não teve que dar nenhum passo para trás, e, nenhum passo para frente”. Isso é deveras impressionante, uma vez que muitos autores, ainda hoje, fazem eco àquela afirmação de Kant.

02. A GNOSEOLOGIA é o estudo filosófico do conhecimento e do real valor das faculdades humanas, principalmente da inteligência, enquanto tem competência para atingir a verdade com a evidência da certeza.

Questões como o realismo do conhecimento, a objetividade da certeza e  o valor absoluto da verdade são estudadas com apurada aplicação.

03. A COSMOLOGIA é o tratado filosófico que tem por objeto o corpo em geral, enquanto busca a compreensão dos princípios constitutivos da substância corpórea inanimada.

A quantidade e sua natureza, o espaço e o tempo, a qualidade corpórea, a atividade e passividade dos corpos, as leis físicas, a matéria e a forma, o princípio de individuação, etc. são objetos de estudo da Cosmologia.

04. A PSICOLOGIA RACIONAL é a ciência filosófica que trata dos primeiros princípios dos seres animados. Estuda, portanto, a alma como  princípio vital dos seres vivos e suas operações específicas, chegando ao ser humano, no qual, a alma é parte substancial da sua existência.

05. A METAFÍSICA é a ciência das realidades que se encontram além das coisas físicas. Constitui o coração da Filosofia,  a culminância do seu estudo. Na Metafísica, realidades inteligíveis são alcançadas pelo exercício talentoso da inteligência humana.

A rigor, a Metafísica é composta pela Ontologia que abrange o ser finito e a Teodicéia, ciência do ser infinito.

a). A ONTOLOGIA, segundo o próprio Aristóteles, é a ciência do ser enquanto ser.   

Conforme nos ensina Paulo Carosi, a “Ontologia estuda a perfeição mesma do ser, aquela perfeição que é a mais simples, fundamental e comum, e da qual todas as outras são derivações e determinações”.

Em síntese, a Ontologia trata do ser em geral (objeto material), levando sempre em conta os primeiros princípios e últimas conseqüências de tudo (objeto formal).

b).  A TEODICÉIA é o tratado metafísico que estuda a causa eficiente e final dos entes do universo. Ora, conforme as demonstrações das provas, a causa eficiente do universo é Deus. Portanto, trata de Deus e sua natureza.

A Teodicéia distingue-se da Teologia, que estuda Deus, através da própria Revelação Divina. A Teodicéia é labor da razão humana e vai até onde o raciocínio pode chegar.

A Teologia, portanto, supõe o concurso da luz sobrenatural da fé; a Teodicéia, o exercício da luz natural da razão.

06. A ÉTICA é a ciência que tem por objeto os atos morais do ser humano. Trata do bom uso da liberdade que o homem deve fazer para atingir seus fins superiores. A lei natural e positiva, o direito e o dever, a justiça e a caridade são algumas das questões deste importante tratado filosófico.

07. A ESTÉTICA, também chamada Filosofia da Arte, tem por objeto o belo.

A arte é uma virtude intelectual. Antes de existir na realidade sensível, é concebida pela inteligência do artista.

A Estética distingue as artes úteis e as belas-artes. As primeiras compreendem a materialização de uma idéia, através da própria habilidade da ação humana. Visa geralmente um fim útil, sem deixar de lado a beleza que, no caso, é apenas complemento da coisa realizada. A harmonia das partes componentes distinguem as artes úteis. É assim que vemos e apreciamos , por exemplo, uma poltrona, uma casa,  um automóvel, etc.

As belas-artes visam unicamente a produção de uma obra, onde a beleza é essencial aos sentidos e à inteligência. Assim, contemplamos, por exemplo, a beleza da Santa Ceia de Da Vinci, ou a harmonia agradável da 7ª. Sinfonia de Beethoven, ou os poemas de Drummond.

 

CONCLUSÃO

Feliz de quem tem a oportunidade de estudar e viver a Filosofia. Terá oportunidade de usufruir das supremacias inteligíveis, que transformam o mundo real nas maravilhas de um mundo fantástico.

A Filosofia, por ser conhecimento das essências, é alimento saboroso à curiosidade natural da inteligência humana. É o que basta, para justificar a sua altíssima excelência.

 

 

 

 
 
 

 

Livro de Visitas

 Índice

Formatação, Criação e Arte: Iara Melo

Mid: O Bailado da Colméia

Compositor: Lairton Trovão de Andrade

 

 

 

 

 

Copyright © 2006 - 2008  Portal CEN - Cá Estamos Nós Web Page

Todos os Direitos Reservados