LOAS À FILOSOFIA

Setembro de 2008

Lairton Trovão de Andrade

 

Formatação e Arte Final: Iara Melo

 

 

VERDADE DOS SERES
 

Tive grande oportunidade de discorrer anteriormente sobre o realismo da verdade, que se apresentara sob o tríplice aspecto: Verdade Lógica, verdade ontológica e verdade moral.
 
Com muita atenção, foram feitas considerações oportunas sobre a verdade lógica.
 
Com igual diligência, tratarei, agora, da verdade ontológica, aquela que reside na íntima constituição dos seres, dando atenciosa continuidade ao realismo da verdade.
 
VERDADE ONTOLÓGICA
 
Se a verdade lógica é a conformidade  da inteligência com o objeto, a verdade ontológica pode ser definida como sendo a conformidade do objeto com a inteligência.
 
Na verdade ontológica, há de se considerar, de um lado, o ser, e do outro, a inteligência que o criou.
 
A verdade ontológica é a que existe na íntima constituição da coisa.
Funda-se no princípio de razão suficiente: "Todo ser possui sua razão de ser". Todo ente tem razão de ser aquilo que é.
 
O princípio de razão suficiente é uma aplicação imediata do "princípio de não contradição", que assim se enuncia: "Impossível ser e não ser ao mesmo tempo".
 
Dizer que um ente é verdadeiro é dizer que ele tem, em si, tudo aquilo que se requer para ser tal. Toda categoria de ser tem uma estrutura determinada. Por isso, a verdade ontológica é a intrínseca racionalidade do ente.
 
 Essa intrínseca racionalidade importa uma dupla relação: de conformidade com alguma inteligência e de cognoscibilidade por alguma inteligência.
 
Antes, porém, de constituir realidade, a verdade ontológica existe numa mente idealizadora e criativa. Por isso, os seres do universo refletem a racionalidade da Inteligência Criativa.
 
As coisas são como que obras de arte, expressas pela mente poderosa de algum artista. Uma casa, por exemplo, antes de existir na realidade, existe na mente de quem a projetou. E depois de edificada, estará conforme as regras projetadas por seu idealizador. Assim, a verdade da casa consiste em estar de acordo com o projeto do artista. Diante disso, fica evidente que a verdade ontológica tem conformidade com alguma inteligência, como também é conhecida, pelo menos, pela inteligência que a criou.
 
Na verdade ontológica, outrossim, existe unidade das partes constitutivas. A unidade já indica ordem no ente composto de partes, pois elas devem estar unidas e harmonizadas de tal maneira que formam um só ente. Por um lado, a verdade indica integridade, porque no ente deve haver tudo o que é necessário para ser o que é. Mas, além disso, indica também harmonia, porque todos os elementos devem existir de tal modo que um não destrua o outro.
 
Como se viu, a verdade ontológica supõe uma inteligência, onde uma idéia representa a estrutura requerida para cada ente.
 
Portanto, o ente é verdadeiro na medida em que realiza em si a idéia de uma inteligência. E a verdade ontológica é a conformidade do ente com essa idéia. "As coisas não são chamadas verdadeiras a não ser enquanto são conformes ao intelecto (criador). Portanto, antes de ser encontrada na inteligência humana, a verdade é encontrada nas coisas"
(Santo Tomás de Aquino).
 
A VERDADE ONTOLÓGICA E AS CIÊNCIAS
 
Diante da infinda complexidade do universo, onde os entes se fazem presentes com impressionantes e organizadas estruturas internas, não é possível que não se chegue a conclusão lógica e evidente:
A multiplicidade dos seres, que compõem a magnitude do universo, só pode ser efeito de uma inteligência superior infinitamente criativa – Deus.
 
Descobrir a estrutura íntima dos seres do universo é função preponderante das inteligências humanas.
 
À medida, que os seres humanos avançam em conhecimento, as ciências vão se organizando. Os homens não criam as ciências, mas compilam descobertas sobre verdades já contidas no universo, ali postas de maneira ordenada e, por isso, inteligente.
 
Cabe aos seres humanos, portanto, através do labor intelectual, descobrir as verdades ontológicas, criadas por uma inteligência infinita e eterna e não pelo absurdo do acaso.
 
Desta forma, os seres humanos, através dos tempos e da cooperação mútua, adquirem conhecimentos científicos, isto é, conhecimentos verdadeiros por estar conforme a realidade anteriormente existente no universo objetivo.
 
Assim, as verdades ontológicas possibilitam as verdades lógicas, através do conhecimento humano.
 
Por conseguinte, as ciências contêm verdades ontológicas, enquanto que a mente dos cientistas, verdades lógicas.
 
Descobrindo e conhecendo a natureza (verdade ontológica) dos seres vivos, através dos homens, nasceu a Biologia; conhecendo a natureza do movimento dos corpos, criaram a Física; conhecendo a estrutura física do organismo humano, determinaram a Antropologia; conhecendo a transformação da matéria e a energia que provocou tais transformações, criaram a Química. Assim, foram surgindo as inúmeras ciências que representam a objetividade das descobertas ou criatividades sobre realidades (verdades ontológicas) já existentes de alguma forma na natureza.
 
Concluindo, adquirir conhecimentos científicos significa: Conhecer com objetividade a constituição íntima dos seres do universo. Ao se descobrir a verdade ontológica, está-se fazendo ciência.
 
Quanto maior for a extensão dessas descobertas, mais perfeito será o conhecimento científico.
 
Não será demais, o ser humano declinar um pouco do seu pedestal de glória e fazer gestos de adoração ao Criador, pela inteligência que tem e que lhe permite descobertas valiosas sobre as eloqüentes verdades ontológicas.
 
Os cientistas deveriam louvar ao Senhor do Universo pela felicidade de poderem contemplar, como ninguém, a beleza interna de cada ente que compõe a grandiosidade do mundo em que vivemos.
 
Eles têm o privilégio de constatar, com realismo, o micro-universo que se concentra no âmago de cada ser deste macro universo.
 
Enfim, graças a Deus, criador das maravilhas deste mundo, o ser humano pode alcançar, ainda nesta vida, elevado índice de perfeição, através do conhecimento que não aprisiona, mas liberta.
 
 
A VERDADE E SUA EXTENSÃO TRANSCENDENTAL
 
Todo ente é verdadeiro. Ente e verdadeiro são termos conversíveis. O ser é inteligível.
 
Por outro lado, todas as partes ou aspectos do ente existem, sem se contradizerem, sem que um aspecto impeça o outro, do contrário o ente deixaria novamente de estar constituído. Portanto, em cada ente exclui-se o absurdo, o inconcebível e o irracional. Existe em toda parte um complemento e uma harmonia substanciais.
 
De outra forma, o ente diz relação com algum intelecto. O ente infinito, Deus, é a sua própria idéia, é o próprio intelecto sempre em ato. Logo, o ente infinito é a mesma inteligibilidade absoluta, sempre atuada, a mesma infinita racionalidade.
 
Por outro aspecto, cada ser é cognoscível por algum intelecto, justamente por não ser absurdo e irracional. Na medida em que é ente, logicamente verdadeiro, o ente é cognoscível de modo correspondente ao que é.
 
Na verdade ontológica do ente, funda-se a verdade lógica do conhecimento. E, se existe o erro, não é ele causado pelo ente. A inteligência é que, por precipitação ou paixão do sujeito cognoscente, afirma algo mais do que a coisa é, ou algo que a coisa não é.
 
Todo ente é cognoscível ainda no sentido de que é explicável. Se, conforme o princípio de  razão suficiente, há tudo que se requer para constituir um ente, há também tudo que se requer para explicá-lo.
 
Todo ente é explicável, embora não o seja por qualquer inteligência.
Disto decorrem duas regras aplicáveis a qualquer investigação científica:
 
a). Para explicar um fato ou uma realidade deve-se investigar tudo aquilo que for necessário para ministrar a razão suficiente.
 
b). Ainda que um homem não consiga explicar um fato seguramente verificado, não há motivo para rejeitá-lo ou pô-lo em dúvida.
 
Se em algum ente se apresentam contradições, deve-se dizer sempre que elas são apenas aparentes, ma não reais. Há sempre no próprio ente ou fora dele alguma coisa que supera essas aparentes contradições. E o fato de que uma contradição aparente não tenha sido ainda resolvida por nós não significa que não venha ser amanhã. E, caso se demonstre que a nossa inteligência não pode resolvê-la, nem por isso se demonstra que nenhum intelecto o possa.
 
AS COISAS FALSAS
 
Não existe coisa falsa, uma vez que toda coisa é verdadeiramente aquilo que é. Joaquim Silvério dos Reis, falso amigo de Tiradentes, foi verdadeiramente um traidor. As falsas esmeraldas encontradas pelo bandeirante Fernão Dias eram verdadeiras turmalinas. E os exemplos seguem-se indefinidamente.
 
Atribui-se a falsidade às certas coisas somente na medida em que tais coisas, pela semelhança com outras, podem dar ocasião de errar à uma inteligência apressada e incompetente.
 
Os entes podem apenas  ser ocasião "per accidens" de fazer errar uma inteligência. Mas a verdadeira causa do erro é sempre aquele que julga negligentemente ou sem a devida competência.
 
Portanto, as coisas denominam-se falsas quando podem "per accidens" ser ocasião de um juízo falso. É a falsidade lógica do juízo que se atribui às coisas que ocasionam. Porém, a verdade ontológica das coisas permanecem inquestionável.
 
***

Na próxima oportunidade, falaremos sobre a verdade moral, questão esta de grande interesse da sociedade que deseja galgar os degraus crescentes da evolução, em busca de uma perfeição maior.
 
CEN SEMPRE!

 

 

 
 
 

 

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