VERDADE DOS SERES
Tive grande oportunidade de
discorrer anteriormente sobre o realismo da
verdade, que se apresentara sob o tríplice
aspecto: Verdade Lógica, verdade ontológica
e verdade moral.
Com muita atenção, foram feitas
considerações oportunas sobre a verdade
lógica.
Com igual diligência, tratarei, agora, da
verdade ontológica, aquela que reside na
íntima constituição dos seres, dando
atenciosa continuidade ao realismo da
verdade.
VERDADE ONTOLÓGICA
Se a verdade lógica é a conformidade da
inteligência com o objeto, a verdade
ontológica pode ser definida como sendo a
conformidade do objeto com a inteligência.
Na verdade ontológica, há de se considerar,
de um lado, o ser, e do outro, a
inteligência que o criou.
A verdade ontológica é a que existe na
íntima constituição da coisa.
Funda-se no princípio de razão suficiente:
"Todo ser possui sua razão de ser". Todo
ente tem razão de ser aquilo que é.
O princípio de razão suficiente é uma
aplicação imediata do "princípio de não
contradição", que assim se enuncia:
"Impossível ser e não ser ao mesmo tempo".
Dizer que um ente é verdadeiro é dizer que
ele tem, em si, tudo aquilo que se requer
para ser tal. Toda categoria de ser tem uma
estrutura determinada. Por isso, a verdade
ontológica é a intrínseca racionalidade do
ente.
Essa intrínseca racionalidade importa uma
dupla relação: de conformidade com alguma
inteligência e de cognoscibilidade por
alguma inteligência.
Antes, porém, de constituir realidade, a
verdade ontológica existe numa mente
idealizadora e criativa. Por isso, os seres
do universo refletem a racionalidade da
Inteligência Criativa.
As coisas são como que obras de arte,
expressas pela mente poderosa de algum
artista. Uma casa, por exemplo, antes de
existir na realidade, existe na mente de
quem a projetou. E depois de edificada,
estará conforme as regras projetadas por seu
idealizador. Assim, a verdade da casa
consiste em estar de acordo com o projeto do
artista. Diante disso, fica evidente que a
verdade ontológica tem conformidade com
alguma inteligência, como também é
conhecida, pelo menos, pela inteligência que
a criou.
Na verdade ontológica, outrossim, existe
unidade das partes constitutivas. A unidade
já indica ordem no ente composto de partes,
pois elas devem estar unidas e harmonizadas
de tal maneira que formam um só ente. Por um
lado, a verdade indica integridade, porque
no ente deve haver tudo o que é necessário
para ser o que é. Mas, além disso, indica
também harmonia, porque todos os elementos
devem existir de tal modo que um não destrua
o outro.
Como se viu, a verdade ontológica supõe uma
inteligência, onde uma idéia representa a
estrutura requerida para cada ente.
Portanto, o ente é verdadeiro na medida em
que realiza em si a idéia de uma
inteligência. E a verdade ontológica é a
conformidade do ente com essa idéia. "As
coisas não são chamadas verdadeiras a não
ser enquanto são conformes ao intelecto
(criador). Portanto, antes de ser encontrada
na inteligência humana, a verdade é
encontrada nas coisas"
(Santo Tomás de Aquino).
A VERDADE ONTOLÓGICA E AS CIÊNCIAS
Diante da infinda complexidade do universo,
onde os entes se fazem presentes com
impressionantes e organizadas estruturas
internas, não é possível que não se chegue a
conclusão lógica e evidente:
A multiplicidade dos seres, que compõem a
magnitude do universo, só pode ser efeito de
uma inteligência superior infinitamente
criativa – Deus.
Descobrir a estrutura íntima dos seres do
universo é função preponderante das
inteligências humanas.
À medida, que os seres humanos avançam em
conhecimento, as ciências vão se
organizando. Os homens não criam as
ciências, mas compilam descobertas sobre
verdades já contidas no universo, ali postas
de maneira ordenada e, por isso,
inteligente.
Cabe aos seres humanos, portanto, através do
labor intelectual, descobrir as verdades
ontológicas, criadas por uma inteligência
infinita e eterna e não pelo absurdo do
acaso.
Desta forma, os seres humanos, através dos
tempos e da cooperação mútua, adquirem
conhecimentos científicos, isto é,
conhecimentos verdadeiros por estar conforme
a realidade anteriormente existente no
universo objetivo.
Assim, as verdades ontológicas possibilitam
as verdades lógicas, através do conhecimento
humano.
Por conseguinte, as ciências contêm verdades
ontológicas, enquanto que a mente dos
cientistas, verdades lógicas.
Descobrindo e conhecendo a natureza (verdade
ontológica) dos seres vivos, através dos
homens, nasceu a Biologia; conhecendo a
natureza do movimento dos corpos, criaram a
Física; conhecendo a estrutura física do
organismo humano, determinaram a
Antropologia; conhecendo a transformação da
matéria e a energia que provocou tais
transformações, criaram a Química. Assim,
foram surgindo as inúmeras ciências que
representam a objetividade das descobertas
ou criatividades sobre realidades (verdades
ontológicas) já existentes de alguma forma
na natureza.
Concluindo, adquirir conhecimentos
científicos significa: Conhecer com
objetividade a constituição íntima dos seres
do universo. Ao se descobrir a verdade
ontológica, está-se fazendo ciência.
Quanto maior for a extensão dessas
descobertas, mais perfeito será o
conhecimento científico.
Não será demais, o ser humano declinar um
pouco do seu pedestal de glória e fazer
gestos de adoração ao Criador, pela
inteligência que tem e que lhe permite
descobertas valiosas sobre as eloqüentes
verdades ontológicas.
Os cientistas deveriam louvar ao Senhor do
Universo pela felicidade de poderem
contemplar, como ninguém, a beleza interna
de cada ente que compõe a grandiosidade do
mundo em que vivemos.
Eles têm o privilégio de constatar, com
realismo, o micro-universo que se concentra
no âmago de cada ser deste macro universo.
Enfim, graças a Deus, criador das maravilhas
deste mundo, o ser humano pode alcançar,
ainda nesta vida, elevado índice de
perfeição, através do conhecimento que não
aprisiona, mas liberta.
A VERDADE E SUA EXTENSÃO TRANSCENDENTAL
Todo ente é verdadeiro. Ente e verdadeiro
são termos conversíveis. O ser é
inteligível.
Por outro lado, todas as partes ou aspectos
do ente existem, sem se contradizerem, sem
que um aspecto impeça o outro, do contrário
o ente deixaria novamente de estar
constituído. Portanto, em cada ente
exclui-se o absurdo, o inconcebível e o
irracional. Existe em toda parte um
complemento e uma harmonia substanciais.
De outra forma, o ente diz relação com algum
intelecto. O ente infinito, Deus, é a sua
própria idéia, é o próprio intelecto sempre
em ato. Logo, o ente infinito é a mesma
inteligibilidade absoluta, sempre atuada, a
mesma infinita racionalidade.
Por outro aspecto, cada ser é cognoscível
por algum intelecto, justamente por não ser
absurdo e irracional. Na medida em que é
ente, logicamente verdadeiro, o ente é
cognoscível de modo correspondente ao que é.
Na verdade ontológica do ente, funda-se a
verdade lógica do conhecimento. E, se existe
o erro, não é ele causado pelo ente. A
inteligência é que, por precipitação ou
paixão do sujeito cognoscente, afirma algo
mais do que a coisa é, ou algo que a coisa
não é.
Todo ente é cognoscível ainda no sentido de
que é explicável. Se, conforme o princípio
de razão suficiente, há tudo que se requer
para constituir um ente, há também tudo que
se requer para explicá-lo.
Todo ente é explicável, embora não o seja
por qualquer inteligência.
Disto decorrem duas regras aplicáveis a
qualquer investigação científica:
a). Para explicar um fato ou uma realidade
deve-se investigar tudo aquilo que for
necessário para ministrar a razão
suficiente.
b). Ainda que um homem não consiga explicar
um fato seguramente verificado, não há
motivo para rejeitá-lo ou pô-lo em dúvida.
Se em algum ente se apresentam contradições,
deve-se dizer sempre que elas são apenas
aparentes, ma não reais. Há sempre no
próprio ente ou fora dele alguma coisa que
supera essas aparentes contradições. E o
fato de que uma contradição aparente não
tenha sido ainda resolvida por nós não
significa que não venha ser amanhã. E, caso
se demonstre que a nossa inteligência não
pode resolvê-la, nem por isso se demonstra
que nenhum intelecto o possa.
AS COISAS FALSAS
Não existe coisa falsa, uma vez que toda
coisa é verdadeiramente aquilo que é.
Joaquim Silvério dos Reis, falso amigo de
Tiradentes, foi verdadeiramente um traidor.
As falsas esmeraldas encontradas pelo
bandeirante Fernão Dias eram verdadeiras
turmalinas. E os exemplos seguem-se
indefinidamente.
Atribui-se a falsidade às certas coisas
somente na medida em que tais coisas, pela
semelhança com outras, podem dar ocasião de
errar à uma inteligência apressada e
incompetente.
Os entes podem apenas ser ocasião "per
accidens" de fazer errar uma inteligência.
Mas a verdadeira causa do erro é sempre
aquele que julga negligentemente ou sem a
devida competência.
Portanto, as coisas denominam-se falsas
quando podem "per accidens" ser ocasião de
um juízo falso. É a falsidade lógica do
juízo que se atribui às coisas que
ocasionam. Porém, a verdade ontológica das
coisas permanecem inquestionável.
***
Na
próxima oportunidade, falaremos sobre a
verdade moral, questão esta de grande
interesse da sociedade que deseja galgar os
degraus crescentes da evolução, em busca de
uma perfeição maior.
CEN SEMPRE!