Depois de
termos visto algumas características
marcantes do ceticismo, demoremo-nos
um pouco sobre o Idealismo.
Não se trata,
entretanto, daquele idealismo
luminoso e próspero, quotidianamente
apregoado nas salas de aula, nos
seios das empresas sadias, ou no
intimo das mais sérias instituições,
onde idealismo é sinônimo de busca
por objetivos edificantes e
duradouros na conquista de bens
materiais ou espirituais que
enriquecem cada vez mais a
humanidade. Não!
Este Idealismo
a que nos referimos é menos
edificante do que aquele, e nos
causa estranheza mental. Trata-se de
uma corrente filosófica que surgiu
no seio da História da Filosofia, a
partir da Idade Moderna, embora
tenha buscado seu fundamento na
Teoria das Idéias do filósofo
Platão.
George Berkeley,
Emanuel Kant, Johann Fichte,
Friedrich Schelling, Jorge Hegel e
Giovanni Gentile são os mais
importantes idealistas da História
da Filosofia.
Surge o
Idealismo com todo afoito,
principalmente, para confrontar "tete-à-tete"
o materialismo, outra corrente
filosófica não menos insipiente por
limitar a realidade.
O Idealismo,
então, é a corrente filosófica
esdrúxula que afirma ser o sujeito
cognoscente a única realidade
existente, que não é capaz de
atingir nenhuma outra realidade
extra-subjetiva, mas somente seus
fenômenos internos, isto é, seus
pensamentos, suas idéias.
Para seus
seguidores, as únicas realidades que
se conhece são as próprias idéias
que não possuem correspondências
externas. Este é o princípio da
imanência.
Na verdade, nem
os próprios idealistas se entendem
em seus conceitos, havendo muita
discrepância entre eles.
Para aqueles
mais radicais, nada do mundo
material existe – tudo não passa de
mero fenômeno ou aparência sem
conteúdo algum.
Analisando os
fundamentos históricos, conclui-se
que certos idealistas desejaram
supervalorizar o espiritualismo e
para tanto esforçaram-se em destruir
toda matéria, negando-lhe
exageradamente a existência. Não
perceberam, entretanto, que ,
através das mesmas armas, os
materialistas poderiam negar
radicalmente a existência do
espírito, apregoando a existência
única do materialismo. Foi
exatamente o que fizeram.
Não podemos, de
forma alguma, negar o espírito, e,
da mesma forma, é-nos plenamente
evidente que o mundo material é
realidade insofismável. Assim como
existe o espírito, existe também a
matéria. E os dois mundos, o
espiritual e o material, convivem em
perfeita harmonia.
Historicamente,
o Idealismo divide-se em dois ramos:
O solipsismo, cujo sujeito
cognoscente é o "eu individual", e o
transcendente, mais difundido, em
que se toma por sujeito o "eu
transcendental" , que é impessoal e
universal.
Como se vê, o
Idealismo é contra o Realismo,
porque não aceita a verdade objetiva,
mas constrói subjetivamente a "sua
própria verdade". Para ele, não tem
sentido falar de raciocínio, esforço
intelectual, de percepção,
ignorância, erro. Ele já nasce com
conhecimento infuso, tudo sabe, como
fenômeno miraculoso de seu
pensamento. Assim, o cão que lhe
morde, a chuva que lhe molha, o
espinho que lhe fere etc. são apenas
fenômenos subjetivos.
O idealista
solipsista é como o "louco" que
acredita somente em si mesmo, como
muito bem afirma o filósofo e poeta
inglês Gilberto Chesterton: "Quando
o benéfico mundo que nos rodeia se
tiver enegrecido como uma mentira,
quando os amigos se esvaírem como
fantasmas, quando os alicerces do
mundo se desmoronarem, quando o
homem que não acredita em coisa
alguma ficar sozinho no meio do seu
pesadelo, ver-se-á escrita sobre
ele, numa ironia vingadora, a grande
legenda individualista. As estrelas
serão apenas pontos na escuridão de
seu cérebro, e a face de sua mãe não
será mais que um simples esboço
traçado pelo lápis de um louco na
parede de sua cela. E por sobre essa
mesma cela estará escrita esta
terrível verdade: Ele acredita
somente em si mesmo".
O
idealista solipsista, discutindo com
outros, terá logicamente de dizer
que eles, assim como seus parentes,
amigos, alunos, etc., são fenômenos
internos da sua consciência, coisa
que talvez não agrade os outros. É
supérfluo notar que, para o
solipsista, tampouco tem sentido
falar de religião, de deveres
morais, de criações artísticas.
O Idealismo
peca gravemente contra a evidência,
destruindo-a. Quem segue os
princípios idealistas está condenado
a morrer no ceticismo. Portanto,
renegar o absurdo do ceticismo e o
perigo do Idealismo é dever de todos
aqueles que almejam e procuram
apaixonadamente a evidência da
verdade .
Desta forma, o
Idealismo não tem razão em
subjetivar exclusiva e totalmente a
verdade.
À margem,
existe outro tipo de idealismo,
muito comum em nosso dia-a- dia, que
não deixa de ser pernicioso ao
convívio social. Trata-se de julgar
a realidade, conforme suas
impressões subjetivas. É um juízo a
priori que dele se conclui pela
realidade. Muitas vezes, essa
maneira de pensar não passa de juízo
temerário, sem nenhum fundamento na
veracidade do ser.
Essa atitude de
pensamento está ligada, muitas
vezes, às questões de moralidade.
Passa-se a julgar negativamente o
semelhante, tendo por base
unicamente aquilo que gratuitamente
se acredita como verdadeiro, ainda
que possivelmente não o seja. Surge,
assim, a maledicência, outra praga
muito comum no seio das sociedades.
Para concluir e
dar um ponto final a esta questão,
vale lembrarmos daquela sentença do
Evangelho de Jesus Cristo:
"Nolite
judicare, ut non judicemini"! (Não
devemos julgar em vão, para não
sermos julgados).