LOAS À FILOSOFIA

Fevereiro de 2009

Lairton Trovão de Andrade

 

 

O IDEALISMO

 
 

Depois de termos visto algumas características marcantes do ceticismo, demoremo-nos um pouco sobre o Idealismo.

Não se trata, entretanto, daquele idealismo luminoso e próspero, quotidianamente apregoado nas salas de aula, nos seios das empresas sadias, ou no intimo das mais sérias instituições, onde idealismo é sinônimo de busca por objetivos edificantes e duradouros na conquista de bens materiais ou espirituais que enriquecem cada vez mais a humanidade. Não!

Este Idealismo a que nos referimos é menos edificante do que aquele, e nos causa estranheza mental. Trata-se de uma corrente filosófica que surgiu no seio da História da Filosofia, a partir da Idade Moderna, embora tenha buscado seu fundamento na Teoria das Idéias do filósofo Platão.

George Berkeley, Emanuel Kant, Johann Fichte, Friedrich Schelling, Jorge Hegel e Giovanni Gentile são os mais importantes idealistas da História da Filosofia.

Surge o Idealismo com todo afoito, principalmente, para confrontar "tete-à-tete" o materialismo, outra corrente filosófica não menos insipiente por limitar a realidade.

O Idealismo, então, é a corrente filosófica esdrúxula que afirma ser o sujeito cognoscente a única realidade existente, que não é capaz de atingir nenhuma outra realidade extra-subjetiva, mas somente seus fenômenos internos, isto é, seus pensamentos, suas idéias.

Para seus seguidores, as únicas realidades que se conhece são as próprias idéias que não possuem correspondências externas. Este é o princípio da imanência.

Na verdade, nem os próprios idealistas se entendem em seus conceitos, havendo muita discrepância entre eles.

Para aqueles mais radicais,  nada do mundo material existe – tudo não passa de mero fenômeno ou aparência sem conteúdo algum.

Analisando os fundamentos históricos, conclui-se que certos idealistas desejaram supervalorizar o espiritualismo e para tanto esforçaram-se em destruir toda matéria, negando-lhe exageradamente a existência. Não perceberam, entretanto, que , através das mesmas armas, os materialistas poderiam negar radicalmente a existência do espírito, apregoando a  existência única do materialismo. Foi exatamente o que fizeram.

Não podemos, de forma alguma, negar o espírito, e, da mesma forma, é-nos plenamente evidente que o mundo material é realidade insofismável. Assim como existe o espírito, existe também a matéria. E os dois mundos, o espiritual e o material, convivem em perfeita harmonia.

Historicamente, o Idealismo divide-se em dois ramos: O solipsismo, cujo sujeito cognoscente é o "eu individual", e o transcendente, mais difundido, em que se toma por sujeito o "eu transcendental" , que é impessoal e universal.

Como se vê, o Idealismo é contra o Realismo, porque não aceita a verdade objetiva, mas constrói subjetivamente a "sua própria verdade".  Para ele, não tem sentido falar de raciocínio, esforço intelectual, de percepção, ignorância,  erro.  Ele já nasce com conhecimento infuso, tudo sabe, como fenômeno miraculoso de seu pensamento. Assim, o cão que lhe morde, a chuva que lhe molha, o espinho que lhe fere etc. são apenas fenômenos subjetivos.

O idealista solipsista é como o "louco" que acredita somente em si mesmo, como muito bem afirma o filósofo e poeta inglês Gilberto Chesterton: "Quando o benéfico mundo que nos rodeia se tiver enegrecido como uma mentira, quando os amigos se esvaírem como fantasmas, quando os alicerces do mundo se desmoronarem, quando o homem que não acredita em coisa alguma ficar sozinho no meio do seu pesadelo, ver-se-á escrita sobre ele, numa ironia vingadora, a grande legenda individualista. As estrelas serão apenas pontos na escuridão de seu cérebro, e a face de sua mãe não será mais que um simples esboço traçado pelo lápis de um louco na parede de sua cela. E por sobre essa mesma cela estará escrita esta terrível verdade: Ele  acredita somente em si mesmo".

            O idealista solipsista, discutindo com outros, terá logicamente de dizer que eles, assim como seus parentes, amigos, alunos, etc., são fenômenos internos da sua consciência, coisa que talvez não agrade os outros. É supérfluo notar que, para o solipsista, tampouco tem sentido falar de religião, de deveres morais, de criações artísticas.

O Idealismo peca gravemente contra a evidência, destruindo-a. Quem segue os princípios idealistas está condenado a morrer no ceticismo. Portanto, renegar o absurdo do ceticismo e o perigo do Idealismo é dever de todos aqueles que almejam e procuram apaixonadamente a evidência da verdade .

Desta forma, o Idealismo não tem razão em subjetivar exclusiva e totalmente a verdade.

À margem, existe outro tipo de idealismo, muito comum em nosso dia-a- dia, que não deixa de ser pernicioso ao convívio social.  Trata-se de julgar a realidade, conforme suas impressões subjetivas. É um juízo a priori que dele se conclui pela realidade. Muitas vezes, essa maneira de pensar não passa de juízo temerário, sem nenhum fundamento na veracidade do ser.

Essa atitude de pensamento está ligada, muitas vezes, às questões de moralidade. Passa-se a julgar negativamente o semelhante, tendo por base unicamente aquilo que gratuitamente se acredita como verdadeiro, ainda que possivelmente não o seja. Surge, assim, a maledicência, outra praga muito comum no seio das sociedades.

Para concluir e dar um ponto final a esta questão,  vale lembrarmos daquela sentença do Evangelho de Jesus Cristo:

"Nolite judicare, ut non judicemini"! (Não devemos julgar em vão, para não sermos julgados).

 


 

 
 
 
 

 

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Formatação e Arte Final: Iara Melo

Mid: O Bailado da Colméia

Compositor: Lairton Trovão de Andrade

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