BATALHA DE
ALCÁCER-QUIBIR D. SEBASTIÃO, REI DE
PORTUGAL
O rei de Marrocos derrota o
exército português e o rei D.
Sebastião de Portugal desaparece
para nunca mais ser visto. A coroa é
herdada pelo seu tio-avô, o Cardeal
D. Henrique, abrindo caminho a uma
crise dinástica.
O século XVI foi o período mais
adverso enfrentado pela monarquia
portuguesa. Com a expectativa de
manter seu crescimento em conquistas
territoriais, o império luso se
deparou com infortúnios e decepções
já com início dos 500. No ano de
1580, Portugal perdeu a sua
independência para os castelhanos
(espanhóis), condição que só teria
fim em 1640. Durante 60 anos,
Portugal foi província espanhola.
A marcha em Agosto era pesadíssima
para os nossos soldados, que ao
chegarem a Alcácer Quibir iam já
mortos de fadigas.
Seguiu-se a batalha desastrosa de 4
de Agosto, que já está descrita
minuciosamente nesta obra, vol. I,
pág. 149; acrescentaremos que D.
Sebastião, apenas sentiu o cheiro da
pólvora, esqueceu tudo, os seus
deveres de comandante, as ordens que
dera, e arrojou se ao inimigo do
espada em punho, praticando
verdadeiros prodígios de valor.
Quando a derrota começou, D.
Sebastião nem deu por ela, mas do
repente, quando percebeu que as
hostes portuguesas estavam em
completa debandada, compreendendo
então a enormidade dos seus erros,
soube expiá-los os heroicamente. Era
um novo erro, porque a sua morte ia
deixar o trono vago, sem sucessão.
Soube morrer com brio, com uma
intrepidez verdadeiramente
extraordinária. Acompanhado apenas
por uma porção de fidalgos,
arrojou-se loucamente ao inimigo,
procurando salvar a artilharia que
os marroquinos levavam. Não o
conseguiu, e os fidalgos que o
rodeavam, esquecendo também a sua
própria salvação, resgatando lambem
heroicamente as culpas da sua
temeridade, não pensavam senão em
dar a vida para o salvar. 0 prior do
Crato, a pé, com a espada embotada
dos golpes que vibrara, todo coberto
de sangue, indicava-lhe um claro nas
fileiras muçulmanas por onde podia
ainda salvar-se, mas D. Sebastião
não o atendia. Já não tinha a
exaltação febril da coragem, mas a
resolução fria de lavar com todo o
seu sangue a sua culpa enorme. Já
não podia fugir, mas podia comprar a
vida com a perda da liberdade.
Rendei-vos, senhor, dizia-lhe D.
Francisco de Mascarenhas, e ele,
meneava trinta e negativamente a
cabeça. Só nos reata morrer, acudiu
D. João de Portugal. Morrer, sim,
respondeu o monarca com voz abafada,
morrer, sim, mas devagar. Cristóvão
de Távora, querendo salvá-lo à viva
força, acenou a um mouro que viu
próximo, para que viesse tomar-lhe a
espada, mas D. Sebastião percebendo,
disse bruscamente: Não, não a
liberdade real só se há de perder
com a vida. E metendo esporas ao
cavalo com verdadeira fúria,
sumiu-se nas fileiras muçulmanas
vibrando para um e outro lado as
mais formidáveis cutiladas. Debalde,
os fidalgos tentaram segui-lo, mas
D. Sebastião tomara-lhes tão grande
avanço, que foi impossível
alcançá-lo. Desapareceu, e da sua
sorte nunca mais se soube. O povo
não quis acreditar na sua morte, e
formou se em torno do seu nome, não
só uma lenda, mas uma seita, que
ficou conhecida por Sebastianistas.
Mas a morte do infeliz monarca foi
oficialmente reconhecida, e a coroa
caiu por infelicidade em seu tio, o
cardeal D. Henrique. Em 1582 o
cadáver suposto ou verdadeiro, veio
para Portugal, e foi enterrado num
túmulo da igreja de Belém, onde se
escreveu um pequeno epitáfio em
latim, que deixa transparecer a
dúvida, porque diz: Aqui jaz, si
vera est fama ...
(Portugal - Dicionário Histórico,
Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e
Artístico, Volume VI, págs. 778-782)
A batalha de Alcácer-Quibir
http://www.eternos.org
Em 1576, o sultão de Marrocos, Mulei
Maamede é deposto pelo seu tio,
Mulei Moluco. Entusiasmado com uma
vitória alcançada em Tânger,
Sebastião decide apoiar Maamede, que
em troca lhe ofereceria Arzila.
D. Filipe II, de Espanha, considera
a ideia da cruzada uma loucura e não
apoia o sobrinho, tentando demovê-lo
da ideia. O sultão Moluco faz uma
proposta de paz e compromete-se
mesmo a oferecer a D. Sebastião uma
parte da costa de Marrocos. Em vão.
A 25 de Junho de 1578, parte de
Lisboa uma imensa frota de 500
navios e 23 000 soldados, incluindo
mercenários oriundos de toda a
Europa e grande parte da nobreza
portuguesa.
Chegando a Arzila, juntam-se ao
exército, os homens de Mulei Maamede
e juntos partem para o interior, ao
encontro dos seus destinos.
A 4 de Agosto de 1578, chega o
momento da verdade. Mulei Moluco
está gravemente doente, e apesar do
seu exército de 100 000 homens ter
uma vantagem numérica imensa, tenta
ainda chegar a um acordo, mais uma
vez sem qualquer sucesso.
Portugal, com um exército esgotado
pelo cansaço, pela fome e pelo
calor, enfrenta então os Mouros,
comandados por Moluco. Depressa
Sebastião vê os seus homens rodeados
pelo imenso poderio do inimigo, e a
batalha caminha para o seu
inevitável desfecho. 8000 mortos, 15
000 prisioneiros, 100 sobreviventes
que conseguiram a fuga até à costa.
D. Sebastião desapareceu. Moluco
acabou por morrer também nesta
batalha, não por ferimentos, mas
pelo seu estado débil agravado pelo
esforço de cavalgar. Maamede
sobreviveu à batalha, mas acabaria
por morrer afogado num rio enquanto
tentava a fuga. Em Marrocos, a
batalha de Alcácer Quibir é
conhecida como a batalha dos três
reis.
As consequências
Com o desaparecimento de Sebastião,
é o seu tio-avô, o Cardeal D.
Henrique que sobe ao trono. O seu
curto reinado de dois anos, é
dedicado a tentar minimizar o
desaire da derrota sofrida no Norte
África. A maioria dos nobres
portugueses morreram ou foram feitos
prisioneiros, e o país precisa
endividar-se para pagar os resgates
exigidos pelos Mouros.
Finalmente, com a morte do Cardeal,
Portugal fica sem um sucessor
directo ao trono. Os pretendentes
sucedem-se, mas acaba por ser Filipe
II de Espanha, tio de Sebastião a
conquistar o trono. Pela primeira
vez desde a sua fundação, e por um
período de 60 anos, Portugal deixa
de existir como nação independente.
Lenda de D. Sebastião
Décimo-sexto rei de Portugal, filho
de Dom João de Portugal e de Dona
Joana rainha de Áustria, filha de
Carlos V. Em 1578, com 24 anos,
partiu para Marrocos com um grande
exército, dos quais cerca de um
terço eram mercenários estrangeiros.
Embora os militares mais
experimentados na guerra o
aconselhassem a não se afastar da
costa (de onde lhe poderia vir
auxílio dos navios portugueses), o
rei preferiu avançar para o interior
com as suas tropas. Encontrou o
exército muçulmano em Alcácer Quibir
e aí se travou a célebre e infeliz
batalha em que foram mortos ou
feitos prisioneiros praticamente
todos os portugueses que nela
participaram. O rei também morreu na
batalha solteiro e sem deixar
descendentes, mas nenhum dos
portugueses que regressaram disse
ter visto seu corpo. Dois anos
depois, Portugal perdeu a sua
independência política, quando
Filipe II, rei de Espanha e neto do
rei Dom Manuel I, subiu ao trono de
Portugal. Durante os anos que se
seguiram, o povo acreditava que Dom
Sebastião não tinha morrido na
batalha e iria regressar a Portugal,
numa noite de nevoeiro. Então,
reclamaria para si o trono e o reino
ganharia de novo a sua
independência. Esta crença popular
ficou conhecida na história com o
nome de "Sebastianismo". Como tema
popular, o sebastianismo assumiu
enorme importância, dando expressão
a um desejo persistente de
libertação da miséria e opressão
quotidianas. Para o povo, D.
Sebastião não morreu, apenas
desapareceu. Este vazio provocado
pelo seu desaparecimento determina a
esperança no seu regresso. D.
Sebastião torna-se, assim, o desejo
encoberto da alma do povo português.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro – Marinha Grande - Portugal