Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
Quando D. Pedro Iº do Brasil (
IVº de Portugal), nas margens do
Ipiranga, deu o grito de Independência,
não houve derramamento de sangue. Foi no
Piauí, nas margens do Rio Jenipapo, na
cidade de Campo Maior, que os
portugueses perderam a esperança de ter
a colónia do Brasil, sendo afastados
definitivamente das terras brasileiras.
A Batalha do Jenipapo, luta e glória do
povo piauiense, assegurou a unidade
territorial do Brasil.
Na então Província do Piauí, tradicional
produtora de gado, a burguesia comercial
e mesmo os proprietários de terras,
estavam ligados a Portugal, inclusive
por laços de sangue. Aqui, a adesão à
Independência do Brasil foi proclamada
na vila de Parnaíba. O interior e a
capital, Oeiras (*), permaneceram sob o
controle de tropas do Exército português
sob o comando do Governador das Armas do
Piauí, major João José da Cunha Fidié.
Mesmo diante do recebimento de reforços
vindos da então Província do Ceará, as
tropas brasileiras foram inicialmente
derrotadas na Batalha do Jenipapo a 13
de Março de 1823, ocorrida no actual
município de Campo Maior, às margens do
rio Jenipapo. Outras localidades,
entretanto, manifestaram a sua adesão à
Independência, alcançando a vitória
quando José Fidié (**) se deslocou para
apoiar a resistência portuguesa na vila
de Caxias, no Maranhão.
(*) Oeiras: O início do povoamento do
Estado do Piauí se deu pela antiga
capela funda pelo Padre Miguel de
Carvalho, em 1697 sob jurisdição da
freguesia de Cabrobó, de Pernambuco, que
seria erguida em vila vinte anos mais
tarde, com a denominação de Mocha,
depois passando a se chamar Oeiras. É
notório que, primitivamente, o
território que se constituiria na
Capitania de São José do Piauí,
correspondia à própria antiga Capital de
Oeiras e era por ela representado, a
partir de 1694 até 1762, data esta de
sua elevação à cidade com aquele nome,
em homenagem ao Iº Conde de Oeiras de
Portugal, Iº Marquês de Pombal de seu
nome Sebastião José de Carvalho e Melo.
Outros nome iguais a terras lusitanas:
Campo Maior e Caxias.
(**) - Fidié João José da Cunha:
Assentou praça como cadete em Janeiro de
1809 no regimento de infantaria n.º 10,
tomou parte na guerra da península,
assistindo às batalhas do Buçaco,
Albuera, Vitória, Pirinéus, Nivelle,
Nive, Orthez e Tolouse, aos sítios de
Olivença e Badajoz, e a diversos
combates e acções que se feriram até ao
fim da campanha. Ofereceu-se depois para
ir na divisão dos voluntários de el-rei
a Montevideu, mas não foi admitido por
ser tenente moderno. Em 1817 embarcou
para o Brasil uma divisão portuguesa, e
como o seu regimento não havia sido
nomeado para essa expedição, trocou com
um oficial de infantaria n.º 15,
conseguindo assim partir para a América,
onde serviu em 1817 e 1818. Foi ajudante
de ordens do governador da ilha da
Madeira em 1819 e 1820, sendo nomeado em
Dezembro de 1821 governador das armas da
província de Piáui. Voltando então de
novo ao Brasil tomou posse daquele cargo
em Agosto de 1822, e marchando logo para
a vila de Parnaíba sustentou uma
renhida luta com os partidários da
independência. Chamado pelas autoridades
de Caxias, foi dirigir a defesa dessa
vila, mas crescendo as forças dos
revoltosos ao passo que as dos
defensores iam diminuindo pelas
privações e pelo desalento, a praça
rendeu-se e Fidié foi preso e mandado
oito meses depois entre uma escolta para
a cidade de Oeiras. Transferido para a
Baía, passou ao Rio de Janeiro onde
ficou encarcerado na fortaleza da Vila
Ganhão, até que D. Pedro lhe deu
liberdade, permitindo-lhe que
regressasse a Portugal. Em 1825 foi
nomeado primeiro comandante do Real
Colégio Militar, e por vezes durante a
ausência do director, ficou encarregado
da direcção deste estabelecimento até
que, saindo de Lisboa e apresentando-se
no Porto ao duque de Bragança, foi por
ele nomeado subdirector do arsenal
daquela cidade. Regressando depois a
Lisboa, foi director efectivo do Colégio
Militar desde 183 7 a 1848, ano em que
teve a sua exoneração, reformando-se em
1854 no posto de tenente-general.
Fonte: Portugal - Dicionário
Histórico, Coreográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e
Artístico.
Enquanto Fidié vivia as delícias do
litoral piauiense, em Oeiras, de onde
ele partira para sufocar o levante
libertário em Parnaíba, começava também
o movimento separatista, tendo à frente
o brigadeiro Manoel de Sousa Martins.
Diferentemente dos parnaibanos, que
agiram por impulso, o brigadeiro
trabalhava silenciosamente a causa da
independência do Piauí. Em 24 de Janeiro
de 1823, Oeiras declarou-se
independente, rompendo os laços que
mantinha com Portugal.
Quando Fidié soube do ocorrido em Oeiras,
ficou enfurecido. Considerou uma grande
traição. No dia 28 de Fevereiro de 1823,
convocou novamente a tropa, desta vez
composta por 1.100 homens, onde a partir
dessa data declarou os piauienses como
inimigos de Portugal. Com muito júbilo
partiu de Parnaíba numa viagem de volta
para Oeiras, chegando em Campo Maior no
dia 1º de Março de 1823.
No caminho de volta ocorre um pequeno
confronto na Lagoa do Jacaré entre os
independentes piauienses e o exército
português, com perdas apara ambos os
lados. Após isso os portugueses
marchavam com mais cautela. Em
Piracuruca a independência tinha sido
declarada em 22 de Janeiro por Leonardo
Castelo Branco. O mesmo Leonardo também
proclamou a independência de Campo
Maior, em 5 de Março de 1823. A
concretização da liberdade aflorava no
coração dos piauienses. Fidié tinha de
ser barrado em Campo Maior de qualquer
jeito porque, se chegasse a Oeiras, a
independência seria jogada por “água à
baixo” e assim os portugueses
consolidariam uma colónia portuguesa no
norte do Brasil, mesmo com o Grito do
Ipiranga.
Em Piracuruca, Fidié encontrou a cidade
abandonada. Os habitantes tinham fugido
na noite anterior. Sem ter com quem
lutar, seguiu em frente deixando para
trás uma cidade fantasma, sem nenhum
sinal de vida. A população de Campo
Maior, ao saber que Fidié vinha de
Parnaíba com destino a Oeiras e passaria
ali, se mobilizou com intuito de
impedi-lo de continuar viagem. Na noite
de 12 de Março, os homens da cidade e
das redondezas foram arregimentados.
Todos queriam lutar para livrar o Piauí
do domínio português. As mulheres
estimularam os seus maridos, parentes e
amigos, arrumaram o que puderam,
venderam suas jóias; todos estavam
empenhados a se unirem em só ideal:
lutar.
O amanhecer do dia 13 de Março de 1823
prenunciava um dia claro, com poucas
nuvens e muito calor. Era um ano em que
a seca castigava a nordestino. Ao sinal
de comando, todos os homens se reuniram
em frente à Igreja de Santo António. Os
combatentes piauienses e cearenses não
vestiam fardas. Na saída da cidade, para
encontrar-se com Fidié, houve uma
apresentação com a banda de música na
qual houve um desfile militar. A massa
de combatentes que iam lutar pelo Brasil
saiu exultante ao som dos tambores.
Mesmo sem acertarem os passos eles
levavam consigo a chama da liberdade
queimando no peito. A certeza da morte
não tirou o ânimo dos que iam morrer
pela pátria. Cerca de dois mil homens
marcharam para o combate. As armas que
eles usaram foram espadas velhas,
chuços, machados, facas e foices, paus e
pedras e algumas espingardas usadas. Sem
nenhuma experiência em guerras, os
piauienses chegaram às margens do Rio
Jenipapo , de onde pretendiam impedir a
passagem de Fidié. Como o riacho estava
quase seco, a maioria dos patriotas
ocultou-se no próprio leito do riacho,
enquanto a outra parte se escondeu nas
moitas de mato ralo perto da ribanceira.
E ficaram esperando o exército
português, que, com certeza, tinha de
passar por ali. De onde estavam dava
para ver quando os portugueses se
aproximassem do palco da luta porque o
terreno era bem plano, com várzeas
imensas, abertas sem amparo algum. O
povo com espírito de tornar-se
independente estava entrincheirado e
sabiam que à frente deles havia uma
estrada que se dividia em duas, uma pela
direita e outra pela esquerda. Só que
estavam em dúvidas em qual dos caminhos
vinha Fidié. Logo após às oito horas, o
capitão Rodrigues Chaves mandou uma
patrulha sondar o lugar onde seria
travada a batalha. Fidié ao chegar no
local onde a estrada se dividia resolveu
mandar uma metade do exercito por um
lado e outra metade pelo outro lado. Ele
foi junto com uma das metades pela
esquerda e a cavalaria foi pela direita.
Os independentes, sem saber da divisão
que Fidié tinha feito no seu contigente,
foram pela estrada da direita
encontrando-se com a cavalaria
portuguesa, sendo surpreendidos. Os
mesmos avançaram bravamente contra a
cavalaria. Os portugueses espantaram-se
com a coragem e com a bravura dos
piauienses, onde eles acabaram recuando.
Neste momento os piauienses perseguiram
os portugueses estrada adentro. Os
combatentes piauienses, ouvindo o
tiroteio, acharam que o confronto havia
começado. Saíram das trincheiras na qual
utilizavam como posição defensiva e
precipitadamente foram pela estrada da
direita atrás do inimigo, só que as
tropas portuguesas não se encontravam
mais ali. Fidié ao saber do ocorrido
atravessou o rio Jenipapo pela estrada
da esquerda, construiu de forma
apressada umas barricadas, distribuiu o
armamento pesado, organizou os
atiradores em posição de frente de
combate (em linha) nas trincheiras onde
antes estavam os piauienses e esperou
que eles voltassem para lá. Antes os
piauienses estavam em posição favorável
agora tudo se reverteu. Quando os
piauienses viram a situação adversa só
encontraram uma alternativa, atacar Fidé
ao mesmo tempo e em todas as direcções
ao longo das margens do rio. No primeiro
instante do combate houve muitas baixas
por parte dos piauienses. Dezenas de
corpos caíram pelas balas do exercito
português. Os poucos que conseguiram
atravessar a linha de fogo deram o
último suspiro à boca dos canhões, com
grande destemor não temendo nada contra
a vida e sim pela pátria em tremenda
representação de amor pela mesma. Com
essa demonstração de amor pela pátria e
de bravura que os piauienses tinham, fez
com que os portugueses ficassem
assustados, devido eles nunca terem
visto tanta audácia em nenhum lugar do
mundo. Os sucessivos ataques dos
piauienses tinha como resultado muitos
mortos pelo chão. A fuzilaria e os tiros
de canhão dos portugueses varriam o
campo de luta de um lado para o outro.
Os que conseguiam passar pelo bloqueio
de fogo conseguiam lutar corpo a corpo
com os portugueses. No meio-dia, os
piauienses estavam cansados e certos de
que não venceriam os portugueses, neste
momento já não lutavam mais se
rastejavam ao encontro com a morte. Às
duas horas da tarde, depois de cinco
horas de combate, os libertadores
retiraram-se em desordem, deixando 542
prisioneiros, 200 mortos e feridos,
Fidié, que cujas perdas foram estimadas
em 116 mortos e 60 feridos, estacionou
na fazenda Tombador, à cerca de um
quilómetro de Campo Maior. Fidié e seu
exército caiam de cansaço. O sol
escaldante e o medo da valentia dos
piauienses não permitiram que as tropas
portuguesas os perseguissem, mesmo
sabendo que já tinham derrotado a eles.
Os cearenses do Capitão Nereu na hora da
retirada levaram a maior parte da
bagagem dos portugueses, composta de
comida, água, algumas armas e até mesmo
um pequeno tesouro que Fidié trazia do
saque que havia feito na cidade de
Parnaíba. Fidié passou dois dias na
cidade de Campo Maior enterrando os seus
mortos. No dia 16 de Março de 1823, saiu
da cidade indo para o Estanhado.
Meses depois Fidié foi preso em Caxias,
no Maranhão, de lá levado para Oeiras de
onde foi mandado para o Rio de Janeiro.
Do Rio ele foi mandado de volta para
Portugal, onde foi recebido com honras
militares pelos serviços prestados à
Coroa Portuguesa. Entre os títulos
recebeu o de comendador da Ordem de Avis,
a mais antiga condecoração militar
portuguesa, fundada por Afonso Henriques
em 1162. Só recebia essa comenda o
soldado que demonstrasse extrema
valentia, ousadia e coragem. No local
onde houve a Batalha foi erguido um
Monumento em memória aos piauienses que
ali morreram pela independência de nosso
país. Situado à margem esquerda do rio
é, na verdade, um grande atractivo
turístico e no local também se encontra
uma parte do acervo bélico usado pelos
combatentes.
Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
– Marinha Grande – Portugal |
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