Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
A Batalha do Salado, foi um confronto que teve lugar em Espanha, junto ao rio do
mesmo nome, a 30 de Outubro de 1340, entre as forças cristãs de Afonso XI de
Castela e o exército muçulmano comandado por Abul-Hassane. Numa expedição
equiparada a uma cruzada, apoiaram o rei castelhano, Afonso IV de Portugal e
Pedro IV de Aragão.
Proclamada pelo papa Bento XII, foi a última cruzada contra os muçulmanos na
Península Ibérica.
A Batalha do Salado consistiu num enorme exército Mouro que invadiu Castela com
o objectivo de reconquistar a Península Ibérica.
Surge no reinado do rei português, D. Afonso IV que decidiu ajudar o rei de
Castela, Afonso XI, seu genro, com o qual não tinha boas relações.
Ajudou-o não só pelo pedido feito por sua filha D. Maria de Portugal - a
Formosíssima Maria, mas também por questões políticas e estratégicas, visto que
se Castela fosse reconquistada pelos Mouros, teria Portugal que enfrentar o
exército africano sozinho, o que dificultava ainda mais a vitória.
A Batalha do Salado
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A Batalha do Salado foi travada a 30 de Outubro de 1340, entre Cristãos e
Mouros, junto da ribeira do Salado, na província de Cádis (sul de Espanha).
História:
Abul-Hassan, rei de Fez e de Marrocos, aliado com o emir de Granada, decidira
reapossar-se a todo o custo dos domínios cristãos, e as forças muçulmanas já
haviam entrado em acção contra Castela. A frota do prior de S. João do Hospital,
almirante castelhano, que tentara opor-se ao desembarque dos mouros, foi
completamente destroçada por uma tempestade, e esse desastre obrigou Afonso XI
de Castela a humilhar-se, mandando pedir à esposa - a quem tanto desrespeitara
com os seus escandalosos amorosos com Leonor de Gusmão - que interviesse junto
de seu pai, o rei português Afonso IV de Portugal, para que este enviasse uma
esquadra de socorro.
Estava D. Maria recolhida num convento em Sevilha e, apesar dos agravos que
sofrera, acedeu ao pedido. Todavia, Afonso IV, no intuito de humilhar ainda mais
o genro, respondeu ao apelo dizendo, verbalmente, ao enviado da filha, que se o
rei de Castela precisava de socorro o pedisse directamente. Vergando o seu
orgulho ao peso das circunstâncias, Afonso XI de Castela repetiu pessoalmente -
por carta - o pedido foi feito, e o soberano português enviou-lhe imediatamente
uma frota comandada pelo almirante genovês Manuel Pessanha (ou Pezagno) e por
seu filho Carlos. Mas era cada vez mais desesperada a situação de Afonso XI, a
quem o papa censurava asperamente.
Além da frota portuguesa, Castela recebia um reforço de doze galés cedidas pelo
rei de Aragão, mas tudo isto nada era em comparação com o número incontável dos
contingentes mouros. O rei de Granada, Yusef-Abul-Hagiag, tomou em Setembro de
1340, o comando das tropas, às quais pouco depois se juntou, em Algeciras, um
formidável exército sob as ordens de Abul-Hassan. A ameaça muçulmana era
apavorante os mouros, embora repelidos nas primeiras tentativas de ataque a
Tarifa, não deixavam prever a possibilidade de vantagens futuras para as hostes
cristãs.
Reconhecendo quanto lhe seria útil a ajuda efectiva do rei de Portugal, Afonso
XI de novo rogou a intervenção de D. Maria. Esta acedeu uma vez mais e foi-se
encontrar com D. Afonso IV, em Évora. O soberano português atendeu as súplicas
da filha, e logo esta foi dar a boa notícia a seu marido, que ansioso, a fora
esperar a Juromenha.
D. Afonso IV reuniu então em Elvas o maior número possível de cavaleiros e
peões, e à frente do exército, que ía aumentando durante o caminho com os
contingentes formados em vários pontos, dirigiu-se a Espanha, onde por ordens do
genro foi recebido com todas as honras. Em Sevilha, o próprio Afonso XI acolheu
festivamente o rei de Portugal e sua filha, a rainha D. Maria. Ali se desfizeram
quanto menos momentaneamente, os ressentimentos de passadas discórdias.
Assente entre os dois monarcas o plano estratégico, não se demoraram em sair de
Sevilha a caminho de Tarifa, tendo chegado oito dias depois a Pena del Ciervo
avistava-se o extensíssimo arraial muçulmano. Em 29 de Setembro, reunido o
conselho de guerra, foi decidido que Afonso XI de Castela combateria o rei de
Marrocos, e Afonso IV de Portugal enfrentaria o de Granada. Afonso XI designou
D. João Manuel para a vanguarda das hostes castelhanas, onde íam também D. João
Nunes de Lara e o novo mestre de Sant'Iago, irmão de Leonor de Gusmão. Com D.
Afonso IV viam-se o bispo de Braga, o prior do Crato, o mestre da Ordem de Avis
e muitos denodados cavaleiros.
No campo dos cristãos e dos muçulmanos tudo se dispunha para a batalha, que
devia travar-se ao amanhecer do dia seguinte. A cavalaria castelhana,
atravessando o Salado, iniciou a peleja. Logo saiu, a fazer-lhe frente, o escol
da cavalaria muçulmana, não conseguindo deter o ataque. Quase em seguida avançou
Afonso XI, com o grosso das suas tropas, defrontando então as inumeráveis forças
dos mouros. Estava travada, naquele sector, a ferocíssima luta. O rei de
Castela, cuja bravura não comportava hesitações, acudia aos pontos onde o perigo
era maior, carregando furiosamente sobre os bandos árabes até os pôr em
debandada.
Nessa altura a guarnição da praça de Tarifa, numa surtida inesperada para os
mouros, caía sobre a retaguarda destes, assaltando o arraial de Abul-Hassan e
espalhando a confusão entre os invasores. No sector onde combatiam as forças
portuguesas, as dificuldades eram ainda maiores, pois os mouros de Granada, mais
disciplinados, combatiam pela sua cidade sob o comando de Yusef-Abul-Hagiag, que
via em risco o seu reino. Mas D. Afonso IV, à frente dos seus intrépidos
cavaleiros, conseguiu romper a formidável barreira inimiga e espalhar a
desordem, precursora do pânico e da derrota entre os mouros granadinos. E não
tardou muito que numa fuga desordenada, africanos e granadinos abandonassem a
batalha, largando tudo para salvar a vida. O campo estava juncado de corpos de
mouros vítimas da espantosa mortandade.
E o arraial enorme dos reis de Fez e de Granada, com todos os seus despojos
valiosíssimos em armas e bagagens, caiu finalmente em poder dos cristãos, que
ali encontraram ouro e prata em abundância, constituindo tesouros de valor
incalculável. Ao fazer-se a partilha destes despojos, assim como dos
prisioneiros, quis Afonso XI agradecer ao sogro, pedindo-lhe que escolhesse
quanto lhe agradasse tanto em quantidade como em qualidade. Afonso IV, porém num
dos raros gestos de desinteresse que praticou em toda a sua vida, só depois de
muito instado pelo genro escolheu, como recordação, uma cimitarra cravejada de
pedras preciosas e, entre os prisioneiros, um sobrinho do rei Abul-Hassan. A 1
de Novembro ao principio da tarde, os exércitos vencedores abandonaram
finalmente o campo de batalha, dirigindo-se para Sevilha onde o rei de Portugal
pouco tempo se demorou, regressando logo ao seu país.
Pode-se imaginar sem custo a impressão desmoralizadora que a vitória dos
cristãos, na Batalha do Salado, causou em todo o mundo muçulmano, e o entusiasmo
que se espalhou entre o cristianismo europeu. Era ao cabo de seis séculos, uma
renovação da vitória de Carlos Martel em Poitiers. Afonso XI para exteriorizar o
seu regozijo, apressou-se a enviar ao Papa Benedito XII uma pomposa embaixada
portadora de valiosíssimos presentes, constituídos por uma parte das riquezas
tomadas aos mouros, vinte e quatro prisioneiros portadores de bandeiras que
haviam caído em poder dos vencedores, muitos cavalos árabes ricamente ajaezados
e com magníficas espadas e adagas pendentes dos arções, e ainda o soberbo corcel
em que o rei castelhano pelejara.
Quanto ao auxílio prestado por Portugal, que sem dúvida fora bastante importante
para decidir a vitória dos exércitos cristãos, deixou-o Benedito XII excluído
dos louvores que, em resposta, endereçou a Afonso XI em consequência da opulenta
«lembrança» enviada pelo rei de Castela. D. Afonso IV, que durante o seu reinado
praticou as maiores crueldades, ficaria na História com o cognome de «o Bravo»,
em consequência da sua acção na Batalha do Salado.
Ao romper da alva de 30 de Outubro de 1340, as longas cristãs e os tambores
mouriscos acordaram os acampamentos, chamando ao combate. Os Mouros foram muitos
postos ao longo do rio Salado para defenderem o passo aos cristãos. Estes,
depois de confessados e comungados, foram ocupar as suas posições - os
castelhanos em frente das tropas africanas de Abdul-Hassan, e os Portugueses
defronte do exército granadino do rei Yussuf.
Iniciou a peleja Afonso XI à testa da cavalaria castelhana, forçando a passagem
do rio e arremessando-se contra a flor da cavalaria moura que ao seu encontro
viera. Logo ali se feriu entre as duas lustrosas cavalarias a mais feroz
refrega.
Entretanto, na ala esquerda, a hoste portuguesa, com Afonso IV à frente,
entoando o salmo Exurgat Deus e tocando as caixas e trombetas, investia pela
planura contra os esquadrões granadinos, que, em disciplina, táctica e
resistência, se avantajavam às tropas africanas. Transposto o rio, sob um
chuveiro de flechas, com tal fúria Afonso IV acometeu os de Granada que em breve
os forçou a recuar lentamente.
Já na ala direita, castelhana, a cavalaria de Afonso XI levava de vencida a
cavalaria moura, e, pondo-a em fuga, ia levar a confusão às tropas de reserva
mouriscas. Neste mesmo momento, Afonso XI, ao tomar uma colina que dominava o
campo de batalha, teria perdido a vida se o pronto e denodado socorro dos seus
melhores cavaleiros lhe não tivesse então valido.
Quando já em toda a linha os sarracenos recuavam, a guarnição de Tarifa,
reforçada durante a noite com 1000 lanças e 4000 peões, fez uma audaciosa
sortida que, surpreendendo pela retaguarda os corpos mouros de reserva, acabou
de os pôr em desordenada fuga e decidiu da vitória.
Começou então a perseguição «seguindo os reys catolicos o alcance com muyta
parte de cavalaria e aquela infantaria que os poude acompanhar por distancia de
duas leguas sem levantar as lanças nem abater as espadas». Os acampamentos do
emir de Marrocos e do rei de Granada, com todas as suas riquezas - tendas de
seda e ouro, alfanges com pedras preciosas, vasos lavrados, etc.-, caíram em
poder dos cristãos e «então os soldados a sangue frio cortaram por hum e outro
sexo, por huma e outra idade...».
A mortandade foi, com efeito, enorme. Tal terror se apoderou dos mouros, que
Abdul-Hassan, tendo-se acolhido a Gibraltar, passou logo à África, e o rei
Yussuf, receando-se da viagem por terra, recolheu aos seus estados por mar
A Batalha do Salado
(Do Terceiro livro de Linhagens: Batalha travada entre Cristãos e
Mouros, em 30 de Outubro de 1340, junto da ribeira do Salado, na
província de Cádis, no sul de Espanha)
(...) Os reis cristãos houverom seu acordo que fossem partidos em duas partes:
el-rei de Castela pela riba do mar, el-rei de Portugal per antre as montanhas e
o campo. E ordinharom e defenderom que nenhuns nom se apartassem a pelejar, nem
jogassem gineta, e que todos fossem ferir nas maiores azes a mantenente.
Os reis partirom-se ali; e um foi a destro e o outro a sestro. E el-rei Dom
Afonso de portugal era de grandes feitos e, quanto mais olhava pelos Mouros,
tanto lhi mais e mais crecia e esforçava o coraçom, como homem que era de
grandes dias e tinha que Deus lhi fezera grã mercê em o chegar àquele tempo u
podia fazer emenda de seus pecados por salvaçom de sa alma e receber morte por
Jesus Cristo. Ele de todo bom contenente falou ali com os seus e disse-lhes assi:
- Meus naturais e meus vassalos, sabedes bem em como esta terra da Espanha foi
perduda por rei Rodrigo e ganhada pelos Mouros e em como outra vez entrou
Almançor e em como os vossos avós donde descendedes, por grão seu trabalho e por
mortes e lazeiras, ganharom o reino de Portugal; em como el-rei dom Afonso
Anrequiz, com que a eles ganharom, lhis deu honras e coutos e liberdades e
contias, por que vivessem honrados, e nom tanto solamente fez esto a eles, mais
por a sua honra dava os maravedis aos filhos que jaziam nos berços e os padres
serviam por eles, em como os reis que depós ele vieram aguardarom esto. Eu,
depois que vim a este logo, fiz aquele que estes reis fezerom e, se alguma cousa
i há pera emendar, eu o corregerei, se me Deus daqui tira. Olhade por estes
Mouros que vos querem ganhar a Espanha, de que dizem que estão forçados, e hoje
este dia a entendem de cobrar, se nós nom formos vencedores. Poede em vossos
corações de usardes do que usarom aqueles donde vindes, como nom percades vossas
mulheres nem vossos filhos, e o em que hão de viver aqueles que depois vós
vierem; os que i morrerem e viverem serão salvos e nomeados pera sempre.
Os fidalgos portugueses lhi responderom:
- Senhor, os que aqui estão hoje este dia vos farão vencer ou i todos
prenderemos morte.
El-rei foi desto mui ledo. Disse a Dom Álvaro Gonçalves de Pereira, priol da
Ordem da Cavalaria de São João, no reino de Portugal, que fezesse mostrar a vera
Cruz do Marmelar, que lhi ele mandara trager. E o priol dom Álvaro de Pereira
mandou vestir um crérigo de missa em vestimentas alvas e a vera Cruz em uma
hasta grande, que a pudessem ver de todas as partes, e fez o crérigo cavalgar em
um mu muito alvo, e trouxe a vera Cruz ante el-rei.
E disse-lhi o priol dom Álvaro:
- Senhor, vedes aqui a vera Cruz. Orade-a e poede em ela fiúza e pedide-lhi que
Aquele que prendeu morte e paixom em ela, por vos salvar, que vos faça vencedor
destes que som contra a sua fé. E nom dultedes que, pela sua vertude e por os
bons fidalgos vossos naturais que aqui tendes, havedes de vencer estas lides e
vós havedes de vencer primeiro.
El-rei e aqueles que com ele estavam forom mui ledos e esforçados destas
palavras do priol dom Álvaro e disserom:
- Assi o cumpra Jesu Cristo.
E fezerom sua oraçom à vera Cruz muito humildosamente.
Alcarac, o turco, viu como se partiam os Cristãos; mandou dizer a Ali Albofacem
que os Cristãos eram partidos em duas partes e a uma queria entrar pela costa
das montanhas, pera darem na saga; e que este saber, que os Cristãos faziam, que
bem cuidava ordinhar que fosse a seu dano deles. E que ele fezesse sa lide como
os que iam pela riba do mar, ca ele em pequena hora venceria aqueles cristãos e
seriam logo com ele a ferir na saga daqueles que com ele lidassem.
Mandou Alcarac reis e infantes e outros altos homens acometer os Cristãos com
ametade dos XXXII mogotes dos ginetes e arqueiros, mui rijamente, os uns na
dianteira e os outros pelas costaneiras e os outros na saga.
Ali se volveu a lide dos reis cristãos e dos mouros mui danosa e mui crua e sem
piedade.
Os Mouros eram muito esforçados e feridores de todas partes: aos uns davam
azagaiadas, ãos outros de lançadas ea mantenente e aos outros a espadadas e aos
outros de frechadas de arcos turquis, que eram tão espessas que tolhiam o sol.
Ali caíam cavaleiros e cavalos mortos, de uma e da outra parte; ali /veríades/
cavalos sem senhores andar soltos e os cavaleiros que eram em terra filhavam-se
pelos lazes das capelinas e dos bacinetes e davam-se das brochas que as poinham
da outra parte.
Os Portugueses andavam per a lide ferindo e derribando e diziam uns contra
outros:
- Senhores, este é o nosso dia em que havemos de escrarecer e este é o dia da
vitória e da honra dos fidalgos. Este é o dia da salvaçom de nossas mulheres e
filhos e daqueles que de nós descenderem. E este é o dia em que havemos semelhar
nossos avós, que ganharom a Espanha. Este é o dia da salvaçom das nossas almas;
nom se perca hoje per nossa fraqueza: firamo-los de toda crueldade.
O esforço era mui grande em eles e faziam tão bem e tão igual que todo homem que
os visse sofrer e ferir e matar em seus enmigos que os nom louvasse de todo prez
e honra de cavalaria.
Os Mouros nom se lhis olvidava aquelo por que ali vieram, ca eles refrescavam
cada vez dos mogotes que estavam folgados e feriam os Portugueses a destro e a
sestro, assi que o afincamento era tamanho de todas partes que homem nom poderia
mostrar. Os Portugueses forom ferir nas IIII azes dobradas, assi como lhis fora
mandado pelos reis. Esto lhis foi grave de fazer pelo afincamento grande dos
mogotes.
Ali se renovou a lide mui dorida de crueza e de sanha; ali se esmalhavam fortes
lorigas e britavam e especeavam e talhavam escudos, capilinas, bacinetes, per os
grandes e duros golpes que se davam. As chagas eram muitas, de que se vertia
muita sangue.
Os Portugueses assi forom aguentando e sofrendo sa batalha em tal pressa e
coita, como ouvides, mais todo seu trabalho nom lhis valia nada, porque, u
tinham maltreitos, os Mouros refrescavam cada vez dos que estavam folgados.
Aquela hora foi irada de coita e de pressa aos que estavam em tal batalha, ca a
sa coita, dos Cristãos, era tão grande com o grão trabalho que haviam, que homem
nom o poderia contar. Com toda esta pressa, seu feito deles era haverem mãos e
língua, esforçando-se uns a outros, dizendo:
- Senhores, nembrade-vos como Jesus Cristo recebeu morte por nos salvar; esto
devemos nós fazer por Ele: todos prender morte hoje este dia por salvar a sa fé.
E os que morreremos hoje seremos com Ele no seu reino celestial, u há moradas
tão nobres que se nom podem dizer por línguas. Os que daqui sairmos seremos
louvados de honra, de vitória, de prez, de bondade de toda a cristandade, que
estão em grã coita e tormenta, com muitas lágrimas por sas faces, esperando que
por nós e por os nobles cavaleiros de Castela serão hoje salvos.
Estando em este afincamento qual ouvides, os nembros com que haviam de ferir
lhis enfraqueciam, assi que os nom podiam reger senom mui gravemente. As vozes
deles eram baixas e tão mudadas que se nom entendiam uns a outros, como aqueles
que começaram a lide a hora de prima e estavam passante meio-dia.
Os Mouros refrescavam-se cada vez mais e mais dos que estavam folgados.
Mas foram vencidos. (...)