

Bocage
Nasceu a 15 de
Setembro
de 1765
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
Manuel Maria de Barbosa l´Hedois Du
Bocage, poeta português entre os
maiores. Brigão, é ainda hoje mal
conhecido. Em 1779, Bocage é cadete
no 7º de Infantaria de Setúbal.
Acaba por partir para Goa. Admirava
Camões e sentia-se irmanado com ele
nas desventuras amorosas e nas
viagens pelo Oriente, tendo estado
em Damão e Macau. Pré-romântico, foi
amigo da Duquesa de Alorna e de
Filinto Elísio, todos da Nova
Arcádia. Em 1790, estava de regresso
a Lisboa, que era onde se sentia
bem. Ao aproximar-se a hora da
morte, escreveu: (...) Rasga meus
versos. Crê na eternidade.
(auto-retrato)
Magro,
de olhos azuis, carão moreno,
Bem
servido de pés, meão na altura,
Triste
de facha, o mesmo de figura,
Nariz
alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais
propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça
escura
De
zelos infernais letal veneno:
Devoto
incensador de mil deidades,
(Digo
de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades:
Eis
Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram
dele mesmo estas verdades
Num
dia, em que se achou cagando ao
vento.
Manuel
Maria Barbosa du Bocage
É
considerado como um dos nossos
melhores poetas, e depois de Camões
o mais popular e celebrado de todos.
Nasceu
em Setúbal a 15 de Setembro de 1765
e morreu em Lisboa a 21 de Dezembro
de 1805. Era filho do bacharel José
Luís Soares de Barbosa, antigo juiz
de fora, ouvidor, e depois advogado,
e de D. Mariana Joaquina Xavier
Lestof du Bocage. A ascendência da
sua família é a mesma do Dr. José
Vicente Barbosa du Bocage. Sua mãe
era segunda sobrinha da célebre
poetisa francesa, madame Marie Anne
Le Page du Bocage, tradutora do
Paraíso de Milton, imitadora da
Morte de Abel, de Gessner, e autora
da tragédia As Amazonas e do poema
épico em dez cantos A Columbiada,
que lhe mereceu a coroa de louros de
Voltaire e o primeiro premio da
academia de Rouen.
Passados os anos da perícia nos
primeiros estudos, com um mestre que
o maltratava, entrou na aula régia
de gramática do padre espanhol D.
João de Medina, e ali aprendeu a
língua latina. Era então moda a
educação humanista, ainda pouco
acompanhada pelo estudo das ciências
naturais. No país havia, contudo,
dois homens que a par duma
cultivavam a outra: José Anastácio
da Cunha e José Monteiro da Rocha,
ambos lentes da Universidade de
Coimbra, novamente fundada pelo
Marquês de Pombal, e ambos poetas de
elevado merecimento. 0 primeiro,
militar infeliz, vítima do seu génio
brusco e das ideias da época; o
segundo, jesuíta insigne, reitor
daquele estabelecimento de
instrução, e preceptor dos
príncipes. Bocage, que sentia
admiração por tudo que é grande e
belo, extasiava-se ao ler as poesias
daqueles sábios, e até aos estranhos
as inculcava por muito superiores às
suas; procedimento raro, que define
o seu excelente carácter.
No ano
de 1779 assentou praça de cadete no
regimento n.º 7 de infantaria de
Setúbal, vindo estudar para Lisboa
aos 14 anos de idade. 0 desprezo
constante pelos actos do ex-ministro
de D. José, levara os conselheiros
da rainha D. Maria Iª a criar em
Lisboa, em 5 de Agosto de 1779, uma
instituição, a que chamaram Academia
Real de Marinha, dando aos que a
frequentavam as mesmas regalias que
tinham o estudantes da Universidade.
Foi nesse instituto que Bocage
recebeu a sua educação científica,
indo talvez mais tarde aperfeiçoá-la
na Academia dos guardas marinhas,
criada em 14 de Agosto de 1782. Sete
anos passou Bocage em Lisboa a
estudar ciência e a compor versos.
Carpindo acerbas mágoas, e sofrendo
cruciantes dores, que o seu viver
demasiado livre lhe acarretava
continuamente, aquela musa
brilhantíssima expandia-se em
lágrimas, em suspiros e em queixumes
amorosos, ora de ternura
inexcedível, ora de aspereza
selvática. Assim descansava o vate
enamorado, para quem as paixões
levianas eram tudo. As damas que
julgava requestar, constituíam o seu
único pensamento. Por elas fazia
sacrifícios, que somente a sua alma
de poeta podia compreender, e
enlevado nas mais doces ilusões
quase nunca a realidade aparecia ao
seu brilhante espírito. Confiando
nos seus dotes de claro
entendimento, estava tão certo de
agradar às belas, que notava com
espanto a resistência dalguma, que
porventura se esquivava aos seus
galanteios. Tomava como
correspondência amorosa o aplauso
unânime que obtinha nas salas ao
recitar os seus versos. E assim
viveu sempre em toda esta primeira
fase das suas aventuras, a amar e a
padecer. 0 nome de Gertruria que
muitas vezes invocava apaixonado,
tornava-se o seu pensar constante;
anagrama imperfeito de Gertrudes,
ficção poética ou realidade
histórica; foi este nome que por
muito tempo e mais profundamente o
inspirou.
Era
estreitíssimo; asfixiante, o
ambiente que então se respirava na
capital. Por um lado os medos da
propagação das doutrinas filosóficas
traziam empenhados o tribunal da
Inquisição, a polícia e o intendente
Pina Manique, seu chefe, na
indagação minuciosa dos factos,
ainda os de menor alcance, que
pudesse cada indivíduo praticar com
intuitos liberais; e já para escapar
à perseguição havia emigrado para
França em 1778 o padre Francisco
Manuel do Nascimento, Filinto
Elísio, acusado pela espionagem ao
Santo Ofício. Por outro lado não
estava ainda extinta a luta dos
ódios contra o marquês de Pombal, a
quem as famílias dos nobres, por ele
castigados, acusavam violentamente,
imputando-lhe acções desonrosas,
delitos infamantes, e tentando
reabilitar-se como inocentes no
atentado contra el-rei D. José.
Época de incertezas, de dúvidas, de
receios e de perseguições. Como
poderia florescer no mais elevado
grau a literatura portuguesa, embora
tivesse por cultor um génio como
Barbosa du Bocage? 0 gosto de então,
a moda predominante, eram as canções
brasileiras, cantadas à guitarra ou
à viola, desde as reuniões de
família, até ás orgias dos
botequins. Todos os poetas davam à
porfia letras para estas árias, e
Manuel Maria, como Bocage era
ordinariamente conhecido, não foi
dos menos pródigos. Demais, o poeta,
que sempre sonhava parecer-se o seu
destino com o de Camões, que só
invejava a imorredoura glória do
grande épico, comparava a sua
mocidade livre com a que ele tivera,
e pensava porventura que também este
na corte compunha e recitava versos,
requestava donzelas, e cantava a
Natércia. Camões tinha ido ao
Oriente, Bocage foi também.
Em
1786, antes de terminar um mês
depois de alcançado o despacho de
guarda-marinha, por decreto de 4 de
Fevereiro daquele ano, partia o
nosso poeta a visitar as terras que
inspiraram o imortal cantor dos
Lusíadas. A nau de viagem, Nossa
Senhora da Vida, Santo António e
Madalena, comandada por José
Rodrigues Magalhães, transportava a
seu bordo o vate enamorado, que na
força da vida e no vigor do talento
ia procurar novos horizontes para
melhor desenvolver as suas
formosíssimas concepções poéticas. A
nau de viagem arribou ao Rio de
Janeiro, por causa de tempestade que
se levantou. Bocage ali se demorou,
sendo muito bem recebido pelo
vice-rei do Brasil, Luís de
Vasconcelos e Sousa, e pela melhor
sociedade fluminense. Voltando ao
país, em Abril de 1786, tornava a
partir na mesma nau, Nossa Senhora
da Vida, Santo António e Madalena, e
chegava finalmente a Goa a 29 de
Outubro deste referido ano. 0
portentoso engenho de Bocage poderia
elevar-se imenso, se houvesse tido
outra educação literária e
científica, e soubesse subtrair-se à
influência do meio social em vez de
buscar nele efémera popularidade.
Camões era não só um génio, mas o
primeiro sábio da sua época, Bocage
aprendera bem as línguas, o latim, o
francês e o italiano, trocara,
porém, pelo culto exclusivo das
musas os conhecimentos de ciências
naturais, que alcançara nas
academias de marinha. Foi por tudo
isto, certamente, que ao chegar a
Goa nem se impressionou com a
luxuriante vegetação oriental, nem
com as religiões, raças, línguas e
costumes daqueles povos, e continuou
cantor da arcádia preso ás regras
horacianas, e não conseguiu produzir
um poema. Satirizou primorosamente
os índios, lamentou em magníficos
versos a decadência de Goa e das
possessões portuguesas, e o seu
espírito não descansou enquanto
esteve ausente da pátria. Em Goa
encontrou muita estima no
desembargador Sebastião José
Ferreira Barroco, também poeta, e um
dos maiores amigos de Filinto
Elísio, conhecido em Lisboa pelo
nome arcádico de Albano, quando
fazia versos à bela Alcipe, marquesa
de Alorna, nos celebrados outeiros
de Chelas. Em 25 de Fevereiro de
1789 havia sido promovido a tenente,
de infantaria da 5.ª companhia da
guarnição da praça de Damão, onde
chegou a 6 de Abril do mesmo ano,
mas logo dois dias depois dali
desapareceu em companhia doutro
oficial da mesma praça, indo ter,
pela Porta do Campo, a Macau, onde
sofreu inclemências, em resultado
desta arrojada aventura. 0 que
obrigaria Bocage a desaparecer tão
precipitadamente da praça de Damão,
e a apresentar-se na colónia de
Macau? Move-lo-ia ainda o desejo de
imitar Camões, o prazer de visitar
todos os lugares que ele percorrera?
Seria apenas excentricidade do seu
temperamento irrequieto, ou
extravagância do seu espírito
volúvel? Ninguém o poderá dizer,
talvez nem ele o soubesse. Nestas
paragens foi ainda mais infeliz do
que nas possessões da Índia, e só
teve dois homens que lhe valeram:
Lázaro da Silva Ferreira, governador
de Macau, que o não pronunciou por
haver desertado de Damão, e o
negociante Joaquim Pereira de
Almeida, que recebendo-o e dando-lhe
agasalho o apresentou na sociedade
macaense. Mas absolvida a culpa, o
poeta não descansava com saudades da
pátria, dos amigos e dos amores.
Tratou
logo de partir, e em Agosto de 1790
entrava a barra do Tejo. Chegava
então a Lisboa o eco da revolução
francesa de 1789. A liberdade era o
hino que se cantava às escondidas
por toda a parte, porque a polícia
estava cada vez mais intransigente.
0 poeta cantou logo contra o
despotismo, chamando-lhe sanhudo,
inexorável, monstro que em pranto,
em sangue a furia ceva, mas que não
tiranisa do livre coração a
independência, e compôs muitos
sonetos em honra da liberdade. Eram
estes os sentimentos políticos de
Bocage e de todos os sócios da Nova
Arcádia, salvas poucas excepções.
Nem escapava ao influxo o padre José
Agostinho de Macedo, ex-frade
graciano, amigo do vate no seu
regresso ao país, mais tarde seu
declarado inimigo, e por fim
reconciliado com ele no período
curto da fatal doença que o
prostrou. A Nova Arcádia, chamava-se
uma sociedade de poetas daquela
época, para onde Bocage entrara em
1791, tomando o nome pastoril de
Elmano Sadino, e contra a qual se
indispôs em 1793. Em todo o tempo
que durou esta guerra com os seus
colegas, levantada por vaidades de
poetas e de literatos, jogaram-se as
mais acerbas sátiras e vibraram-se
epigramas os mais frisantes. 0 Dr.
Luís Correia do Amaral França, o
Abade de Almoster, Joaquim Franco de
Araújo Barbosa, e Caldas Barbosa
foram os mais atingidos nesta
polémica poética. Com José Agostinho
de Macedo ainda a luta se tornou
mais acesa. 0 forte despotismo da
época não podia deixar de. perseguir
a quem possuía sentimentos liberais,
e Bocage era pouco acautelado na
manifestação das suas crenças
políticas e. religiosas. No ano de
1797 foram denunciados à intendência
da polícia, como escritos pelo
poeta, uns papeis ímpios, sediciosos
e satíricos, que apareciam
clandestinamente com o título de
Verdades duras, e continham entre
outras coisas a epístola Pavorosa
ilusão da eternidade. Bocage
soube-o, e tentou fugir, mas foi
preso a 10 de Agosto do referido
ano, a bordo da corveta Aviso, que
se destinava a partir para a Baía.
Nas suas odes pinta o infeliz poeta
os dissabores por que passou, a
entrada no Limoeiro, como ali o
apalparam, o segredo em que foi
lançado, as perguntas que lhe
fizeram, finalmente, tudo quanto
sofreu até à transferência, por
solicitação de amigos e protectores,
em 7 de Novembro, para os cárceres
da inquisição. E tão rápido aí
andaram com o processo, que a 17 de
Fevereiro de 1798 dava entrada no
mosteiro de S. Bento da Saúde, de
Lisboa, e a 22 de Março passava ao
hospício de Nossa Senhora das
Necessidades dos clérigos de S.
Filipe Nery. Os frades do Oratório
com facilidade o doutrinaram, pois
que em poucos meses ficou
desfrutando outra vez a liberdade,
que alcançou por lhe não terem
encontrado no processo motivos de
condenação, e também devido à
protecção do ministro José de Seabra
e Silva. Uma beata, Maria Teodora
Severiana Lobo Ferreira, denunciou-o
mais tarde, em 23 de Novembro de
1802, ao Santo Ofício como pedreiro
livre, mas o processo apenas
principiado não teve seguimento.
Em
1801 aceitou a proposta que lhe fez
o naturalista brasileiro, o padre
José Mariano da Conceição Veloso
para, mediante o ordenado de 24$000
réis, fazer as traduções de vários
poemas didácticos: Os Jardins de
Delille; As Plantas, de Castel; A
Agricultura, de Roset; e 0 Consorcio
das flores, epístola de Lacroix;
deste trabalho penosíssimo e de
máxima responsabilidade, se saiu
Bocage brilhantemente, e é uma das
coroas mais viçosas da sua glória de
poeta. Além dos poemas franceses,
traduziu vários poetas latinos e
italianos. Em 1791 publicou o 1.º
volume das suas Rimas, os Queixumes
do pastor Elmano, e os Idyllios
maritimos. Em 1799 publicou o 2.º
tomo das Rimas, e em 1804, o 3.º. Em
1805 declarou-se-lhe a doença, a que
devia de sucumbir. Ainda nesse ano
publicou Os improvisos e os Novos
improvisos, escritos já durante a
enfermidade. Os últimos cinco anos,
que precederam a sua morte, foram
bem dolorosos para o infeliz poeta,
agitados de terrores e ansiedades,
vendo-se pobre e doente. Tinha um
grande amigo, o dono do café das
Parras, no Rossio, José Pedro da
Silva, conhecido pela alcunhado José
Pedro das Luminarias, que tinha por
ele como que adoração, e que na sua
doença muito auxiliou com donativos
pecuniários e promovendo-lhe a venda
de livros, concorrendo também com as
despesas do funeral. Aquele café
tornara-se notável, por se reunirem
ali habitualmente os poetas, pelas
discussões e distúrbios, num
gabinete reservado, que intitulavam
o Agulheiro dos sábios. Fora este o
período mais frisante da vida de
Bocage, improvisando em outeiros, em
saraus, em partidas, com uma
desenvoltura de costumes que muito
concorreram, talvez, para lhe
abreviar a existência.
Quando
o pai do poeta faleceu, veio para
Lisboa sua irmã, D. Maria Francisca,
e na companhia do irmão viveu numa
pobre casa da travessa de André
Valente, até que a morte lho roubou.
Alguns dos seus inimigos se
reconciliaram com ele,
assistindo-lhe aos últimos momentos;
Curvo Semedo, e até o próprio José
Agostinho de Macedo, que mais o
agredia com o seu génio maldizente e
invejoso. Em 15 de Setembro de 1865,
quando se completava o centenário do
nascimento do poeta popular foi
apresentado nas salas do Clube
Fluminense do Rio de Janeiro, uma
proposta, por José Feliciano de
Castilho para se lhe erigir um
monumento. Abriu-se logo uma
subscrição para esse fim, sendo as
quantias recebidas depositadas numa
casa comercial. Pouco depois, deu-se
na praça do Rio de Janeiro, uma
violenta crise, e perdeu-se grande
parte do dinheiro, salvando-se
apenas uma pequena parte. José
Feliciano de Castilho, apesar dessa
contrariedade, não desanimou, e
vindo a Portugal, conseguiu realizar
o seu patriótico pensamento. A 22 de
Novembro de 1871 a câmara municipal
de Setúbal colocava a primeira pedra
no monumento, que foi inaugurado a
21 de Dezembro seguinte. Em 1868 a
referida câmara tinha já mandado
colocar uma lápide comemorativa na
casa onde nascera o grande poeta.
(V. Setúbal.)
Para a
biografia do poeta pode consultar-se
o seguinte: Memorias sobre a vida de
Manuel Maria Barbosa de Bocage, por
António Maria do Couto; Vida de M.
M. B. du B. por José Maria da Costa
e Silva, no tomo IV das Poesias
publicadas por Marques Leão;
Biographia, que Rodrigo Felner
publicou em 1846, no Panorama, vol.
IX; Noticia da vida e obras de M. M.
de B. du B., por José Feliciano de
Castilho; Memoria biographica e
litteraria ácerca de M. M. de B. du
B., de Rebelo da Silva, e também no
Estudo biographico e litterario, na
edição completa das Poesias de
Bocage, feita, em 1853, e no tomo X
do Panorama, do mesmo ano. Os
documentos para a biographia de M.
M. de B. du B. por F. N. Xavier, no
Archivo Universal; Bocage, por
Teófilo Braga, etc.
(Portugal - Dicionário Histórico,
Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e
Artístico, Volume II, págs.
102-105).
Bocage
http://purl.pt/1276/1/liberdade.html
"Reclama o teu poder e os teus
direitos - Da Justiça despótica
extorquidos."
Bocage
viveu numa época de crise evidente.
A economia era frágil, o ouro do
Brasil esvaía-se no luxo desenfreado
da Corte, o erário público era
delapidado pelas despesas abissais
da marinha e do exército. As amplas
e radicais reformas encetadas pelo
Marquês de Pombal foram
sistematicamente subvertidas. O povo
indigente gemia a sua impotência.
Em
França, vivia-se um período
extremamente conturbado. A revolução
tinha varrido a nobreza, Luís XVI e
Maria Antonieta foram decapitados e
os ventos que apregoavam os ideais
de Liberdade, igualdade e
fraternidade faziam-se ouvir com
fragor. Os centros de convívio
lisboeta eram palco de subversão,
discutia-se acesamente nos cafés e
nos botequins as vicissitudes da
revolução francesa, criticava-se
abertamente o poder e a situação
política nacional, imprimiam-se
"papéis sediciosos", aguardava-se
com ansiedade os livros
revolucionários que chegavam a
Portugal pelos portos de Setúbal e
de Lisboa.
Devido
à impotência da rainha D. Maria I,
que enlouquecera, o poder estava
amplamente concentrado nas mãos do
Intendente, Diogo Inácio de Pina
Manique, político que instaurou um
autêntico estado policial, velando
pela "ordem", proibindo livros dos
filósofos franceses iluministas –
Diderot, Voltaire, Rousseau, entre
outros –, vigiando portos,
disseminando agentes pelos cafés, os
"Moscas", que, discretamente,
identificavam os "fautores da
subversão", os críticos mais
acérrimos da política portuguesa.
Em
1790, Bocage regressa a Portugal na
sequência de uma estada agitada pelo
Oriente. Para trás ficara uma
experiência marcante em contacto com
culturas díspares como a brasileira,
a moçambicana, a indiana, a chinesa
e a macaense. Os ideais de
solidariedade social implícitos na
revolução que se consolidava em
França exerciam sobre ele um apelo
inelutável.
Em
Lisboa, nos dez anos subsequentes,
levou uma vida de boémia, de franco
convívio com o "bas-fond" da cidade.
A sua peculiar experiência de vida,
a irreverência, a extroversão, a
emotividade, a frontalidade, a
ironia, a percepção aguda da
realidade e o imenso talento que o
caracterizavam, de imediato, lhe
granjearam um séquito de admiradores
incondicionais. No "Botequim das
Parras", no "Café Nicola" e noutros
lugares de encontro dos noctívagos
lisboetas, Bocage foi rubricando
críticas aceradas aos múltiplos
problemas nacionais, ao despotismo
de Pina Manique, ao ambiente de
suspeição em que se vivia, à
natureza do regime e à ausência dos
direitos humanos mais elementares.
Por
outro lado, nesta fase da sua vida,
Bocage, para além da poesia lírica,
compôs poemas de carácter satírico
contemplando pessoas do regime,
tipos sociais e o clero, facto que
não agradou obviamente ao poder.
Poemas como "Liberdade, onde estás?
Quem de demora?", "Liberdade querida
e suspirada", "Pavorosa Ilusão da
Eternidade" ou um outro em que faz
explicitamente o louvor de Napoleão,
paradigma da revolução francesa, e a
crítica do Papa conduziram-no à
prisão, por crime de lesa-majestade.
No Limoeiro, vivendo em condições
infra-humanas, moveu as suas
influências e beneficiou da amizade
do ministro José de Seabra da Silva
e da sua popularidade. Três meses
mais tarde, era entregue à
Inquisição, já sem o poder
discricionário que outrora tivera,
sob a acusação de impiedade. Dos
cárceres da Inquisição passou para o
Mosteiro de S. Bento, como comprova
o respectivo "Dietário", referente a
1798:
"A 17
do presente mês de Fevereiro foi
mandado para este Mosteiro pelo
Tribunal do Santo Ofício o célebre
poeta Manuel Maria Barbosa du
Bocage, bem conhecido nesta corte
pelas suas Poesias e não menos pela
sua instrução. Tinha sido preso pela
Intendência, e ele reclamara para o
Santo Ofício, onde esteve até ser
mandado para este Mosteiro." No
mesmo livro, no capítulo relativo ao
mês de Março, é mencionado o facto
de o Abade do Mosteiro ter recebido
uma carta do Tribunal do Santo
Ofício, dando por finda a reclusão
do poeta, por determinação de sua
Majestade, e exigindo a sua
transferência para o Hospício das
Necessidades. Tudo leva a crer que o
escritor fora tratado com excessiva
brandura no Mosteiro de S. Bento,
incompatível com a "reeducação" que
Pina Manique animosamente
prescrevera. A 22 de Março de 1798,
Bocage deu entrada no Hospício das
Necessidades, em regime de
vigilância apertada, sem poder,
segundo ofício de Pina Manique,
"sair fora sem nova ordem, nem
comunicar com pessoa alguma de fora,
à excepção dos Religiosos
Conventuais [...], andando em
liberdade no mesmo Hospício, sem que
venha abaixo às Portarias e à mesma
Igreja, e nas horas de recreação
poderá ir à Cerca na companhia dos
Religiosos e Conventuais e assistir
no Coro a todos os ofícios".
Acrescentava ainda o ditador: “[...]
O Príncipe nosso Senhor espera que
com estas correcções que tem sofrido
tornará em si e aos seus deveres,
aproveitando os seus distintos
talentos com os quais sirva a Deus
nosso Senhor, a S. Majestade e ao
Estado, e útil a si, dando
consolação aos seus verdadeiros
amigos e parentes, que o vejam
entrar em si verdadeiramente,
abandonando todos os vícios e
prostituições em que vivia
escandalosamente."
Pouco
durou esta reclusão. Mais uma vez o
seu carisma e o seu reconhecido
talento prevaleceram. Porém, a saga
de Bocage com a Inquisição
reacendeu-se em 1802, tendo sido
aberto novo processo por denúncia
feita por Maria Theodora Severiana
Lobo que o acusava de pertencer à
Maçonaria. Por falta de provas e
provavelmente devido à saúde
fragilizada do escritor, o referido
processo, que pode ser consultado na
Torre do Tombo, foi arquivado. Um
último aspecto é digno de menção: a
censura perseguiu Bocage durante
toda a sua vida. Muitos versos foram
cortados, outros ostensivamente
alterados, poemas houve que só
postumamente viram a luz do dia.
Compreende-se plenamente o seu
anseio desesperado: "Liberdade, onde
estás? Quem te demora?"
Daniel
Pires
(extraído de Exposição
biobibliográfica comemorativa dos
230 e dos 190 anos do nascimento e
da morte de Bocage. Setúbal: C.M.S.,
1995) Bocage, poeta da liberdade.
Cidade de Setúbal
Setúbal tem registos de ocupação
humana ainda na pré-história, tendo
sido encontrados vestígios do
período Neolítico. O núcleo urbano
da cidade tem sido intensamente
ocupado desde a Idade do Ferro.
Nos
séculos I a IV da nossa era, com a
presença romana, nasceu Cetóbriga,
um importante núcleo urbano e
industrial, ligado à salga de peixe,
que se estendeu pelas duas margens
do rio Sado, integrando Tróia.
Com as
invasões bárbaras e a ocupação
muçulmana (séculos V a XII),
ter-se-á dado uma acentuada
decadência, até porque este
território não oferecia condições de
segurança consideráveis e os
invasores preferiam a ocupação das
atalaias (como Palmela), de portos
mais resguardados (como Alcácer do
Sal) e de vales férteis (como
Azeitão).
A
conquista de Palmela aos mouros e o
estabelecimento da Ordem de Santiago
de Espada, terão estado na origem do
repovoamento do território e, em
1249, Setúbal recebeu a sua primeira
carta de foral, por D. Paio Peres
Correia, mestre da Ordem.
Nesta
altura, com uma extensão territorial
carente, Setúbal teve que
afirmar-se, lutando com os concelhos
de Palmela, Santiago do Cacém e
Alcácer do Sal, já então
constituídos.
Mas só
no ano de 1343, e devido às
dificuldades apresentadas pelos
habitantes sobre a entrada e venda
de produtos trazidos de Sesimbra,
Palmela e Alcácer, o mestre de
Santiago, D. Garcia Peres, deu
execução a ordens de D. Afonso IV,
que delimitavam o termo de Setúbal,
tendo sido construída uma cortina de
muralhas.
No
decorrer do século XV, foram
desenvolvidas actividades económicas
ligadas, sobretudo, à indústria e ao
comércio, e os primeiros conventos
franciscanos foram construídos em
Setúbal durante este século.
A
época dos descobrimentos veio trazer
um grande desenvolvimento à região,
tendo D. Afonso V, em 1548, partido
do porto de Setúbal à conquista de
Alcácer Ceguer.
O
título de "notável villa" é
concedido em 1525, por D. João III,
surgindo duas novas freguesias, a de
S. Sebastião e a da Anunciada, que
se juntaram às de S. Julião e Santa
Maria.
Nos
acontecimentos de 1580, a população
tomou o partido de D. António Prior
do Crato contra Filipe de Espanha e
durante o domínio filipino, foi
edificada a Fortaleza de S. Filipe.
Segundo consta esta construção, além
de oferecer defesa contra invasores,
também teria a função de melhor
subjugar os setubalenses.
Em
1755, o terramoto destruiu muitos
edifícios e as freguesias
localizadas na zona mais baixa de
Setúbal foram as mais afectadas.
O
grande desenvolvimento económico
deu-se ao longo do século XIX e a
vila transformou-se num dos mais
importantes centros comerciais e
industriais do país.
Em
1860, Setúbal é elevada a cidade,
por carta régia, solicitação da
Câmara ao rei D. Pedro V.
Em
1926, Setúbal é elevada a sede de
distrito.
Neste
período, foi inaugurada a via férrea
Barreiro-Setúbal e, em 1863, a
iluminação a gás. Iniciaram-se
também as obras de aterro sobre o
rio, nascendo assim a Avenida Luísa
Todi.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
– Marinha Grande – Portugal |
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