Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
Seguindo o modelo do romance
folhetinesco, publicado em jornais,
a obra de Camilo tem uma primeira
fase marcada pelo tom dramático de
intrigas em que a violência e a
vingança servem de pano de fundo à
acção. Este tipo de narrativa terá
seu expoente em “Amor de Perdição”
(*) que tem todos os ingredientes da
tragédia misturados com o clima
romântico, desembocando na
impossibilidade final do amor. No
entanto, além dessas obras que
satisfazem o desejo de sonho e de
evasão da burguesia, encontra-se em
outro veio na prosa camiliana,
influenciado pela “Comédie Humaine
de Balzac”: o retrato sistemático da
sociedade da época, que vai já em
certos momentos na linha de uma
preocupação realista, e que dá um
quadro completo da evolução dessa
sociedade desde o século XVII até ao
século XIX. Assiste-se mesmo a uma
crítica de costumes, em romances
como Aventura de Basílio Fernandes
Enxertado, em 1863 ou a Queda Dum
Anjos, de 1866. Dois aspectos
caracterizam a obra de Camilo: a
idealização da mulher, que vai até à
sua caracterização angélica, e o
sacrifício total que o amor exige ao
homem, levando-o a combater tos os
preconceitos e poderes para
conquistar o seu objectivo. O
desfecho corresponde sempre a um
extremo: ou o casamento feliz, que
corresponde a uma recompensa no
plano moral, que reconcilia o leitor
com o mundo romancesco agitado e
conflitual, ou a catástrofe, que
traduz o espírito ultra-romântico,
que se compraz no sofrimento e no
negrume das emoções. A linguagem
concilia e retórica excessiva com
uma mestria da língua que impediu o
seu envelhecimento, apesar de
necessárias concessões ao gosto da
época. Por outro lado, há uma
concisão em Camilo que impede as
digressões penosas e adjectivação
desnecessária que toma, hoje, quase
insuportável muita literatura
ultra-romântica. Mas essa economia
da linguagem contribui para dar vida
às suas figuras.Camilo
Castelo Branco, nasceu em Lisboa a
16 de Março de 1825 e pôs fim à vida
em São Miguel de Ceide, em 1 de
Junho de 1890, com um tiro de
pistola, amargurado pela cegueira
inevitável que o impedia de
continuar a escrever. Educado junto
de parentes devido à morte dos pais,
vive em Trás-os-Montes a sua
infância e adolescência,
principiando aí a sua existência
aventurosa, que passa por um breve
casamento, em 1841, com Joaquina
Pereira, antes da sua ida para o
Porto e, depois, Coimbra, na sua
tentativa de tirar o curso de
Medicina. De regresso ao Norte,
rapta, em Vila Real, uma jovem,
Patrícia Emília, que leva para o
Porto, e, com quem vive por pouco
tempo. Terá participado nas lutas da
Patuleira até que, em 1848, se fixa
no Porto, onde inicia a actividade
de escritor e colaborador de
jornais. Depois de ligações efémeras,
apaixona-se por Ana Augusta Plácido,
noiva do abastardo Pinheiro Alves, e
com quem virá a casar, provocando em
Camilo uma crise espiritual, que o
leva a alinhar com sectores
clericais e políticos mais
conservadores. Começa então a ser
reconhecido como romancista, sendo
já um autor consagrado quando, em
1859, consuma o adultério com Ana
Plácido, que abandona o marido para
se lhe juntar. Depois da fuga para
Lisboa e das dificuldades económicas
em que vivem, são ambos presos na
Cadeia da Relação do Porto, onde o
próprio, D. Pedro V, visita Camilo,
sendo absolvidos em 1861. A partir
de 1864 instalam-se em São Miguel de
Ceide, onde vive instantes de
grandeza e de tragédia. O sucesso
faz dessa casa um lugar de
peregrinação para escritores e
intelectuais, porém, a loucura do
filho Jorge e a estroinice do filho
mais novo amarguram-lhe a
existência. Escrevendo como um
forçado, para vencer as dificuldades
materiais, é feito visconde e, pouco
antes de morrer, casa com Ana
Plácido.
Entre 1851 e 1890, e durante
quase 40 anos, escreveu mais de
duzentas e sessenta obras, com a
média superior a 6 por ano,
redigidas à pena, logo sem qualquer
ajuda mecânica. Prolífico e fecundo
escritor deixa obras de referência
na literatura lusitana. Apesar de
toda essa fecundidade, Camilo
Ferreira Botelho Castelo Branco, não
permitiu que a intensa produção
prejudicasse a sua beleza idiomática
ou mesmo a dimensão do seu
vernáculo, transformando-o numa das
maiores expressões artísticas e a
sua figura num mestre da língua
portuguesa. De entre os vários
romances, deixou um legado enorme de
textos inéditos, comédias,
folhetins, poesias, ensaios,
prefácios, traduções e cartas – tudo
com assinatura própria ou os menos
conhecidos pseudónimos.
Sua Obra:
Anátema (1851) ; Mistérios de Lisboa
(1854) ; A Filha do Arcediago
(1854); Livro Negro de Padre Dinis
(1855) ; A Neta do Arcediago (1856)
; Onde Está a Felicidade? (1856) ;
Um Homem de Brios (1856) ; Lágrimas
Abençoadas (1857) ; Cenas da Foz
(1857) ; Carlota Ângela (1858) ;
Vingança (1858) ; O Que Fazem
Mulheres (1858) ; O Morgado de Fafe
em Lisboa (Teatro, 1861) ; Doze
Casamentos Felizes (1861) ; O
Romance de um Homem Rico (1861) ; As
Três Irmãs (1862) ; Amor de Perdição
(1862) ; Mamórias do Carcere (1862)
; Coisas Espantosas (1862) ;
Coração, Cabeça e Estômago (1862) ;
Estrelas Funestas (1862) ; Anos de
Prosa (1863) ; Aventuras de Basílio
Fernandes Enxertado (1863) ; O Bem e
o Mal (1863) ; Estrelas Propícias
(1863) ; Memórias de Guilherme do
Amaral (1863) ; Agulha em Palheiro
(1863) ; Amor de Salvação (1864) ; A
Filha do Doutor Negro (1864) ; Vinte
Horas de Liteira (1864) ; O
Esqueleto (1865) ; A Sereia (1865) ;
A Enjeitada (1866) ; O Judeu (1866)
; O Olho de Vidro (1866) ; A Queda
dum Anjo (1866) ; O Santo da
Montanha (1866) ; A Bruxa do Monte
Córdova (1867) ; A doida do Candal
(1867) ; Os Mistérios de Fafe (1868)
; O Retrato de Ricardina (1868) ; Os
Brilhantes do Brasileiro (1869) ; A
Mulher Fatal (1870) ; O Regicida
(1874) ; A Filha do Regicida (1875)
; A Caveira da Mártir (1876) ;
Novelas do Minho (1875-1877) ;
Eusébio Macário (1879) ; A Corja
(1880) ; A Brasileira de Prazins
(1882) ; A Infanta Capelista (1872)
(conhecem-se apenas 3 exemplares
deste romance porque D.Pedro II (do
Brasil) pediu a Camilo para não o
publicar, uma vez que versava sobre
um familiar da Família Real
Portuguesa e da Família Imperial
Brasileira).
(*)Sinopse de "Amor de Perdição: -
Simão Botelho e Teresa de
Albuquerque pertencem a famílias
distintas, que se odeiam. Moradores
de casas vizinhas, em Viseu, acabam
por se apaixonar e manter um namoro
silencioso através das janelas
próximas. Ambas as famílias,
desconfiadas, fazem de tudo para
combater a união amorosa. Tadeu de
Albuquerque (o pai de Teresa), após
recorrentes tentativas de casar sua
filha a um primo acaba por
interná-la num convento. Após luta
travada com os criados do primo de
Teresa, Simão Botelho permanece na
casa de um ferreiro devedor de
favores ao seu pai. A filha do
ferreiro, Mariana, acaba também por
se apaixonar por Simão, constituindo
um triângulo amoroso. Teresa e Simão
mantêm contacto por cartas. Este,
numa tentativa de resgatar Teresa do
convento, acaba por balear o primo
de Teresa, Baltasar, e é condenado à
forca. Mais tarde, as influências de
seu pai, antigo corregedor, irão
mudar a pena para dez anos de
degredo na Índia. Ao embarcar, vê
Teresa, que morre de desgosto. Nove
dias depois, doente, Simão acaba por
morrer também, e no momento em que
vão lançar o corpo ao mar, Mariana,
filha do ferreiro, lança-se ao mar.
Link de Amor de
Perdição:
http://www.biblio.com.br/conteudo/camilocastelobranco/mamorperdicaox.htm
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal
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