Catarina Eufémia

 

 

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

 

Catarina Eufémia

 

Assassinada pelo regime Salazarista a 19 de Maio de 1954

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro


 

«No dia 19 de Maio de 1954, em plena época da ceifa do trigo, Catarina e mais treze outras ceifeiras foram reclamar com o feitor da propriedade onde trabalhavam para obter um aumento de 2 escudos pela jorna.»
«Catarina fora escolhida pelas suas colegas para apresentar as suas reivindicações. A uma pergunta do tenente da guarda, Catarina terá respondido que só queriam "trabalho e pão". Como resposta teve uma bofetada que a enviou ao chão. Ao levantar-se, terá dito: "Já agora mate-me." O tenente da guarda disparou três balas que lhe estilhaçaram as vértebras.»
«De acordo com a autópsia, Catarina foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima.»

 

 

 

ZECA AFONSO - Canta Catarina



 Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer


Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou


Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti


Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

 

 


Memória viva de uma tragédia
Em Maio de 1954 uma rajada de metralhadora derrubou por terra a jovem Catarina Eufémia. Os contornos da tragédia, nalguns aspectos, carecem ainda de uma explicação mais clara. O médico bejense Henriques Pinheiro, membro da equipa que autopsiou a camponesa, apresenta um interessante depoimento sobre todo o processo.
A autópsia da jovem camponesa derrubada a tiro de metralhadora.
Coincidindo com a trágica realidade da morte de Catarina Eufémia, de forma abrupta surgiu e tomou forma o rumor do seu assassinato em estado de gravidez "de dois a três meses", rumor que terá tido origem nas notícias divulgadas "por algumas das suas amigas mais íntimas". O certo é que o povo da sua aldeia, que se juntou no largo da Sé de Beja, aguardando o resultado da necropsia que estava a ser realizada a poucos metros numa dependência do Hospital da Misericórdia, em clamor de desespero e revolta, gritava em uníssono: "Não foi uma, foram duas mortes!". Estava em marcha a lenda da morte de Catarina com um seu filho gerado, mas não nascido e não seria de estranhar que a possível gravidez "pudesse assumir foros de verdade", e a lenda passasse de imediato a enraizar-se no imaginário social do povo de Baleizão e não só. Mas terá de facto a lenda da morte de Catarina com um seu nascituro surgido subitamente, apenas mercê de espontâneo e genuíno palpite popular? É de crer que sim e será por demais suspeita e atrevida a intenção de atribuir-se aos políticos tal maquinação logo e precisamente, um dia depois da sua morte. Se, porém, as manifestações públicas do povo contra morte de Catarina com o seu nascituro se verificaram no próprio dia da sua morte, repetidas um dia depois em coro quando foi executada a autópsia, não me parece que em rigor se possa deixar de colocar em causa a espontaneidade da manifestação. Porém, e quanto a mim, e enquanto não tiver provas em contrário, prefiro prevalecer na hipótese da espontaneidade popular de preferência à da maquinação de cariz político.
Contudo, o que os peritos médicos à simples vista do "hábito externo" do corpo da jovem camponesa alentejana que jazia sobre a mesa de autópsias, rapidamente concluíram foi que, a existir gravidez, tal situação só poderia ser a de uma gravidez recentíssima, e o que de imediato também verificaram e ficou a constar do relatório que subscreveram, foram os orifícios de entrada dos projecteis que atingiram a vítima. Mas de facto nem uma gravidez recentíssima foi verificada no rigoroso exame feito. Dado o melindre da situação, foi-se ao extremo de se proceder a uma muito meticulosa observação que, pelo respeito que é devido à memória da jovem barbaramente abatida a tiro pelo tenente da GNR, não desejo aqui pormenorizar. A incontornável realidade dos factos não poderia favorecer a sólida e definitiva implantação da lenda/mito. Contudo, Catarina Eufémia começou a aparecer figurada em desenhos e pinturas, jazendo no chão, em decúbito dorsal, com um abdómen significativamente volumoso, e em romances, peças de teatro, poemas, imagens e canções e assim a sua tragédia foi cantada, contada e desenhada como uma tragédia ataviada com uma lenda despida de valor histórico, mas que veio servir para fantasiar a tragédia e fazer sobressair, romanticamente enaltecido, o mérito da corajosa camponesa abatida a tiro, com um filho ao colo e outro prestes a nascer. Para além da inexistência da gravidez de Catarina Eufémia uma outra circunstância concreta sobre a sua morte referirei. A jovem ceifeira foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima".
Porém a "tragédia seria continuada, horas depois da autópsia, com outras cenas de violenta brutalidade". Perante o ambiente que caracterizou o estado de espírito do povo de Baleizão que aguardava o resultado da autópsia, alguém que estava de posse do resultado do exame necrópsico, pretendendo, ao que fui informado, acalmar o nervosismo e a revolta dos populares concentrados no Largo da Sé, fez-lhes chegar a notícia de que eu garantira que Catarina Eufémia não estava grávida. Soube depois por testemunha de um dos agentes da PSP hoje ainda vivo, e que esteve presente nesse local, que o meu nome terá sido propositadamente citado por eu ser considerado pessoa de esquerda, circunstância essa que poderia ter o efeito apaziguador dos ânimos exaltados. Contudo tal não aconteceu e os gritos de que não era uma, mas sim duas mortes, soaram ainda mais fortes, mantendo-se os populares em grande número neste estado de espírito pela noite, madrugada, e no dia seguinte enquanto esperavam pelo funeral a caminho de Baleizão. "Temendo a reacção dessa grande mole de gente, as autoridades resolveram, estupidamente, antecipá-lo para uma hora antes daquela que tinham feito constar, pelo que, quando se preparavam para iniciar a sua saída às escondidas, por uma porta de serviço do hospital, o povo correu para o caixão com gritos de protesto, manifestação que a força da PSP reprimiu violentamente espancando, com cega fúria, não só os rurais de Baleizão como pessoas de Beja e de outras localidades que pretendiam associar-se a essa homenagem fúnebre. As violentas cenas de grande brutalidade protagonizadas pela PSP continuaram nas ruas próximas do Hospital, e no Largo 1° de Maio" tendo o caixão sido levado à pressa, e sob escolta da Polícia, não para o cemitério de Baleizão, a aldeia donde era natural Catarina Eufémia, mas para o cemitério de Quintos donde, 20 anos após, os seus restos mortais foram trasladados para Baleizão. Segundo testemunha de professora ainda viva, curiosamente todas as alunas da classe média que frequentavam um colégio de Beja responsabilizaram a jovem pelo que tinha acontecido, ("ela é que teve culpa") e a mesma professora, que leccionava também no Liceu ouviu comentários opostos de algumas suas alunas que, lamentando o sucedido, não se esqueceram também de lamentar o facto do filho que Catarina tinha ao colo se ter ferido na cara quando a mãe foi derrubada pelo tenente da GNR.
Dois médicos de dissemelhante pensamento político se responsabilizaram pelo relatório que, naturalmente, teria que obedecer à descrição da realidade objectiva do que foi observado. Quem teve a petulância ou ainda hoje a tem, de, com absurdo desplante, pôr em causa a conclusão dos peritos legistas, tal posição resulta ou de uma total ignorância sobre a integridade ético-profissional dos médicos intervenientes no acto necrópsico efectuado, ou de uma propositada e malévola invencionice, posições impróprias para o tempo de hoje que deve ser o tempo da serena e responsável pesquisa e da honesta informação, predicados alheios a subjectivismos de arroubamentos políticos alienantes.

 

Catarina Eufémia  -

Diário do Alentejo, 21 de Maio de 1954
Catarina fora escolhida pelas suas colegas para apresentar as suas reivindicações. A uma pergunta do tenente da guarda, Catarina terá respondido que só queriam "trabalho e pão". Como resposta teve uma bofetada que a enviou ao chão. Ao levantar-se, terá dito: "Já agora mate-me." O tenente da guarda disparou três balas que lhe estilhaçaram as vértebras. Catarina não terá morrido instantaneamente, mas poucos minutos depois nos braços do seu próprio patrão (entretanto chegado), que a levantou da poça de sangue onde se encontrava, e terá dito: Oh senhor tenente, então já matou uma mulher, o que é que está a fazer?. O patrão, Francisco Nunes, que é geralmente descrito como uma pessoa acessível, foi caracterizado por Manuel de Melo Garrido em "A morte de Catarina Eufémia —A grande dúvida de um grande drama" como "o jovem lavrador da região que menos discutia os salários a atribuir aos rurais e que, nas épocas de desemprego, os ajudava com larga generosidade". O menino de colo, que Catarina tinha nos braços ficou ferido na queda. Uma outra camponesa teria ficado ferida também.
De acordo com a autópsia, Catarina foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima". Ainda segundo o relatório da autópsia, Catarina Eufémia era "de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-marmórea, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido".  
Catarina Efigénia Sabino Eufémia (Alentejo, 13 de Fevereiro de 1928 — Monte do Olival, Baleizão, 19 de Maio de 1954) foi uma ceifeira portuguesa que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada a tiros, pelo tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana. Com vinte e seis anos de idade, analfabeta, Catarina tinha três filhos, um dos quais de oito meses, que estava no seu colo no momento em que foi baleada.
A trágica história de Catarina acabou por personificar a resistência ao regime salazarista, sendo adoptada pelo Partido Comunista Português como ícone da resistência no Alentejo. Sophia de Mello Breyner, Carlos Aboim Inglez, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel Duarte, José Carlos Ary dos Santos, Maria Luísa Vilão Palma e António Vicente Campinas dedicaram-lhe poemas. O poema de Vicente Campinas "Cantar Alentejano" foi musicado por Zeca Afonso no álbum "Cantigas de Maio" editado no Natal de 1971
Factos
No dia 19 de Maio de 1954, em plena época da ceifa do trigo, Catarina e mais treze outras ceifeiras foram reclamar com o feitor da propriedade onde trabalhavam para obter um aumento de dois escudos pela jorna. Os homens da ceifa foram, em princípio, contrários à constituição do grupo das peticionárias, mas acabaram por não hostilizar a acção destas. As catorze mulheres foram suficientes para atemorizar o feitor que foi a Beja chamar o proprietário e a guarda.
Na imprensa da época:
Anteontem, numa questão entre trabalhadores rurais, ocorrida numa propriedade agrícola próximo de Baleizão, e para a qual foi pedida a intervenção da G.N.R. de Beja, foi atingida a tiro Catarina Efigénia Sabino, de 28 anos, casada com António do Carmo, cantoneiro em Quintos. Conduzida ao hospital de Beja, chegou ali já cadáver. A morte foi provocada pela pistola-metralhadora do sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R. No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho, que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe. O funeral realizou-se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanharem o préstito, verificando-se impressionantes cenas de dor e de desespero. Segundo nos consta, o oficial causador da tragédia foi mandado apresentar em Évora.
Após a autópsia, temendo a reacção da população, as autoridades resolveram realizar o funeral às escondidas, antecipando-o de uma hora em relação àquela que tinham feito constar. Quando se preparavam para iniciar a sua saída às escondidas, o povo correu para o caixão com gritos de protesto, e as forças policiais reprimiram violentamente a populaça, espancando não só os familiares da falecida, outros rurais de Baleizão, como gente simples de Beja que pretendia associar-se ao funeral. O caixão acabou por ser levado à pressa, sob escolta da polícia, não para o cemitério de Baleizão, mas para Quintos (a terra do seu marido cantoneiro António Joaquim do Carmo, o Carmona, como lhe chamavam) a cerca de dez quilómetros de Baleizão. Vinte anos depois, em 1974, os seus restos mortais foram finalmente transladados para Baleizão.
Na sequência dos distúrbios do funeral, nove camponeses foram acusados de desrespeito à autoridade; a maioria destes foi condenada a dois anos de prisão com pena suspensa. O tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel mas nunca veio a ser sequer julgado em tribunal. Faleceu em 1964.

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 
 
 
 
 
 

 

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