Cecília Meireles nasceu no Rio de
Janeiro, em 7 de Novembro de 1901, mesma
cidade em que morreu, a 9 de Novembro de
1964. Diplomada pela Escola Normal do
Rio de Janeiro, estreou-se em
literatura, muito jovem, como o livro de
sonetos “Espectros”, após o que seguiu a
carreira de magistério. Em 1934, fundou
a primeira biblioteca infantil do Brasil
e, nesse mesmo ano, visitou Portugal.
Ensinou na Universidade do Distrito
Federal, de 1936 a 1938 e, em 1940, na
Universidade do Texas. Muito viajada,
colaborou na imprensa, foi uma
autoridade em questões de folclore e tem
publicados vários volumes de prosa, bem
como antologias. Porém, é a sua obra
poética que faz dela a maior figura da
poesia feminina brasileira e a leva a
ser hoje considerada por muitos críticos
a maior da Língua portuguesa.
Inicialmente parnasiana com “Espectros”
os livros seguintes são já de tom
simbolista e a partir de “Viagem” de
1939, Cecília Meireles é uma poetisa
“moderna” que não passou pela ruptura do
Modernismo, entre 1922 a 1930.
Verdadeiro “caso de poesia absoluta”,
tem como disse David Mourão-Ferreira,
uma obra surpreendente pela rigorosa
fidelidade a um número muito restrito de
temas e pela grande diversidade de
formas e motivos. Admirável é a sua
linguagem poética, extremamente
plástica, fluida, disponível. Além de
poetisa, foi professora, pedagoga e
jornalista. Nessas três profissões
desenvolveu trabalhos de grande valor.
Na poesia, escreveu algumas das melhores
de toda nossa literatura; como
jornalista actuou com seriedade em
frente a uma imprensa dominada pela
repressão e censura do governo Vargas,
apesar disso soube defender os seus
ideais; como professora e pedagoga
sempre lutou por uma educação
democrática e igualitária. Desde cedo
aprendeu a conviver com a solidão e com
a morte, por isso mesmo defendeu em seus
temas algumas das suas melhores poesias.
A paixão pelos livros e a leitura
norteiam o caminho da jovem Cecília. Aos
16 anos, ela se diploma professora. A
vontade e o fascínio pelo "saber" a
conduzem, então, para o estudo de outros
idiomas e para o Conservatório Nacional
de Música, onde tem aulas de canto e
violino. Ainda que "fizesse versos" e
compusesse cantigas para os seus
brinquedos desde a escola primária, é na
adolescência que Cecília Meireles começa
a "escrever poesias", segundo sua
própria definição. Em 1919, aos 18 anos,
ela publica seu primeiro livro de
poemas: Espectros, iniciando um período
de grande produção. Sua obra marcada
didacticamente pelo Modernismo, não
deixou de ter a influência do Simbolismo
e de técnicas encontradas no
classicismo, gongorismo, romantismo,
parnasianismo, realismo e surrealismo.
Como se vê, Cecília não tinha uma
estética específica, pois sua obra sofre
influência dos mais diferentes estilos
de época. Mas se existe algo que ela
soube trabalhar com muito domínio e
sensibilidade foi o lirismo, não
qualquer lirismo, mas um profundo
lirismo de fazer-nos ler e reler sua
obra. Seu pai, Carlos Alberto de
Carvalho Meireles, funcionário do Banco
do Brasil, morreu aos 26 anos de idade,
três meses antes de a filha nascer. Sua
mãe, a professora municipal Matilde
Benevides, morreu quando ela tinha 3
anos. Sozinha no mundo com a única
remanescente da família, sua avó materna
Jacinta Garcia Benevides, Cecília foi
obrigada a manter "uma tal intimidade
com a Morte que docemente aprendi essas
relações entre o Efémero e o Eterno que,
para outros, constituem aprendizagem
dolorosa e, por vezes, cheia de
violência". No entanto, lembrava sua
infância de menina sozinha, que aprendia
a cultivar como dons o silêncio e a
solidão, como uma época maravilhosa – um
fecundo tempo de aprendizado da
realidade, o armazenamento de memórias,
impressões e sensações que perdurariam,
dando-lhe o material de sua imensa obra
("Grande aula, a do silêncio"). A avó
Jacinta, açoriana – "que me cantava
rimances e me ensinava parlendas" –, foi
ao mesmo tempo seu esteio afectivo e a
transmissora de uma riquíssima tradição
cultural que transportava para o Rio de
Janeiro do início do século 20,
revivescida e "impregnada do mar da ilha
de São Miguel, nos Açores", a poesia
lírica galaico-portuguesa.
Sua Obra:
Criança, meu amor, 1923; Nunca mais...,
1923; Poema dos Poemas, 1923; Baladas
para El-Rei, 1925; O Espírito Vitorioso,
1935; Viagem, 1939; Vaga Música, 1942;
Poetas Novos de Portugal, 1944; Mar
Absoluto, 1945; Rute e Alberto, 1945;
Rui — Pequena História de uma Grande
Vida, 1948; Retrato Natural, 1949;
Problemas de Literatura Infantil, 1950;
Amor em Leonoreta, 1952; 12 Noturnos de
Holanda e o Aeronauta, 1952; Romanceiro
da Inconfidência, 1953; Poemas Escritos
na Índia, 1953; Batuque, 1953; Pequeno
Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia,
Cemitério Militar Brasileiro, 1955;
Panorama Folclórico de Açores, 1955;
Canções, 1956; Giroflê, Giroflá, 1956;
Romance de Santa Cecília, 1957; A
Bíblia na Literatura Brasileira, 1957;
A Rosa, 1957; Obra Poética,1958; Metal
Rosicler, 1960; Antologia Poética,
1963; Solombra, 1963; Ou Isto ou
Aquilo, 1964; Escolha o Seu Sonho,
1964; Crônica Trovada da Cidade de San
Sebastian do Rio de Janeiro, 1965; O
Menino Atrasado, 1966; Poésie (versão
francesa), 1967; Obra em Prosa - 6
Volumes - Rio de Janeiro, 1998;
Inscrição na areia.
"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro,
três meses depois da morte de meu pai, e
perdi minha mãe antes dos três anos.
Essas e outras mortes ocorridas na
família acarretaram muitos contratempos
materiais, mas, ao mesmo tempo, me
deram, desde pequenina, uma tal
intimidade com a Morte que docemente
aprendi essas relações entre o Efêmero e
o Eterno.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei
por ganhar nem me espantei por perder. A
noção ou o sentimento da transitoriedade
de tudo é o fundamento mesmo da minha
personalidade".
(...) Minha infância de menina sozinha
deu-me duas coisas que parecem
negativas, e foram sempre positivas para
mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre
a área de minha vida. Área mágica, onde
os caleidoscópios inventaram fabulosos
mundos geométricos, onde os relógios
revelaram o segredo do seu mecanismo, e
as bonecas o jogo do seu olhar. Mais
tarde foi nessa área que os livros se
abriram, e
deixaram sair suas realidades e seus
sonhos, em combinação tão harmoniosa que
até hoje não compreendo como se possa
estabelecer uma separação entre esses
dois tempos de vida, unidos como os fios
de um pano”.
Poesia de Cecília
Meireles:
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia
um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do
ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Prosa de Cecília
Meireles:
Giroflê-Giroflá
Tempo do Giroflê A vida vai sendo levada
para longe, como um livro, que tristes
querubins contemplam, resignados. (...)
Ah, mas as pálidas imagens ainda
resistem: saem dos seus primitivos
lugares, aparecem onde não as
esperávamos, desdobram-se de outras
figuras que nos apresentam, acordam as
primeiras experiências, as indeléveis
curiosidades do nosso amanhecer no
mundo. (...) A bondade está ali - detrás
daquela porta que se abre em silêncio,
na sala onde a mesa está sempre posta -
Inutilmente o relógio marca o dia e a
noite, pois a vida é sem fim. Ninguém
estremece. Ninguém pensa nas horas muito
a sério. Todos se sucedem, todos se
lembram uns dos outros. Todos estão ali
à espera dos que chegam.(...)