Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
D. João, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves foi o
título do herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, entre
1808 e 1822. O título foi criado pelo futuro D. João VI, após ter elevado o
Brasil à categoria de reino, unido ao de Portugal, ainda em 1808. Destinou-o aos
herdeiros da coroa, substituindo o título de Príncipe do Brasil. Ele próprio,
ainda como Príncipe Regente, foi o primeiro a assumir o título. Porém, o novo
título foi extinto poucos anos depois, devido à declaração de independência do
Brasil, em 1822, sendo substituído pelo de Príncipe Real de Portugal para os
herdeiros do trono português, e pelo de Príncipe Imperial do Brasil para os do
trono brasileiro.
(…) Quando Junot entrou em Lisboa e soube que a Família Real tinha partido para
o Brasil, mostrou-se profundamente desiludido, e com razão, porque via, desta
forma, desfeitos os planos de Napoleão Bonaparte. Se o Príncipe regente não
tivesse tomado aquela atitude, seria obrigado, como aconteceu a outros soberanos
europeus, a aceitar todas as condições que lhe quisessem impor. Livre, porém, o
governo português, este ficou em situação de continuar a luta contra o invasor e
manteve a independência de que necessitava para estabelecer alianças com povos
amigos, de acordo com a Inglaterra e os outros antagonistas da França.
Salvaguardando a continuidade da monarquia, D. João VI salvou, ao mesmo tempo, a
Europa inteira do imperialismo francês, que tentava subverter os Estados, cujos
monarcas eram prisioneiros ou reféns de Napoleão (…).
Na busca de outras maneiras para derrotar ou enfraquecer os ingleses, o Império
Francês decretou o Bloqueio Continental em 1806, onde Napoleão determinava que
todos países europeus deveriam fechar seus portos para o comércio com a
Inglaterra, enfraquecendo as exportações do país e causando uma crise
industrial.
Um problema que afectou muitos países que participaram do Bloqueio era que a
Inglaterra, que já havia passado pela Revolução Industrial, estava com uma
consolidada produção de produtos industriais, e muitos países europeus ainda não
possuíam produção industrial própria, e dependiam da Inglaterra para importar
este tipo de produto, em troca de produtos agrícolas.
A França procurou beneficiar do Bloqueio com o aumento da venda dos produtos
produzidos pelos produtores franceses, ampliando as exportações dentro da Europa
e no mundo. A fraca quantidade de produtos manufacturados deixou alguns países
sem recursos industriais.
Tratado de Fontainebleau
Em 1806, depois do fracasso na tentativa de invasão à Inglaterra, Napoleão
decretou o Bloqueio Continental. Portugal, tradicional aliado da Inglaterra, se
nega a acatá-lo. Napoleão então decide invadir Portugal. Mas, para isso,
Napoleão precisava levar as suas tropas até o território português. Então, em 27
de Outubro de 1807, Manuel Godoy e Napoleão firmam o Tratado de Fontainebleau,
por ele que se permitia o passar de tropas francesas pelo território espanhol a
fim de invadir Portugal.
TRATADO SECRETO ENTRE A ESPANHA E A FRANÇA EM FONTAINEBLEAU AOS 27 DE OUTUBRO DE
1807
Nós Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei
da Itália e protector da confederação do Reno, tendo visto e examinado o
tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de
1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio,
grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc, ele., em virtude de plenos poderes
conferidos por nós para este fim, com D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun,
conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade o rei de Espanha, o
qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é
na forma seguinte : Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e
protector da confederação do Reno, e sua majestade católica, o rei da Espanha,
desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e
determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a
boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros
plenipotenciários, a saber: sua majestade o imperador dos franceses, rei da
Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc,
grão-marechal do palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e sua majestade
católica, rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu
conselheiro honorário de estado e da guerra, os quais ministros, havendo ambos
mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte:
Artigo 1. A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se
trespassará em plena propriedade e soberania para sua majestade, o rei da
Etrúria, com o título de rei da Lusitânia setentrional.
Artigo 2. A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em
plena propriedade e soberania para o príncipe da Paz, para serem por ele
gozados, debaixo do titulo de príncipe dos Algarves.
Artigo 3. As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa,
ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as
circunstancias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes.
Artigo 4. O reino da Lusitânia setentrional será tido pelos descendentes de sua
majestade, o rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão,
estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.
Artigo 5. O principado dos Algarves será lido pelos descendentes do príncipe da
Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que
ocupa o trono da Espanha.
Artigo 6. Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do rei da Lusitânia
do norte, ou do príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do rei de
Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se
anexarão à coroa de Espanha.
Artigo 7. O reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves
reconhecerão como protector sua majestade católica, el-rei de Espanha, e em
nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu
consentimento.
Artigo 8. No caso de que as províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura
portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à casa de Bragança, em
troca de Gibraltar, Trindade e outras colónias, que os ingleses têm conquistado
à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente
a sua majestade católica, el-rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o rei
da Lusitânia setentrional e o príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das
mesmas condições.
Artigo 9. Sua majestade, o rei da Etrúria, cede o reino da Etrúria em plena
propriedade e soberania a sua majestade, o imperador dos franceses e rei da
Itália.
Artigo 10. Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas,
os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários
para verificar os seus limites naturais.
Artigo 11. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, garante a
sua majestade católica, el-rei de Espanha, aposse dos seus domínios no
continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus.
Artigo 12. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, se obriga a
reconhecer a sua majestade católica, o rei da Espanha, como imperador das duas
Américas, quando tudo estiver pronto para sua majestade assumir este titulo, que
pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar três anos depois daquela
época.
Artigo 13. As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual
divisão das ilhas, colónias e outras possessões ultramarinas de Portugal.
Artigo 14. O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em
Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura. Dado em
Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807. = Napoleão. = O ministro dos negócios
estrangeiros,
Champagny. = O secretario de estado, Maret.
CONVENÇÃO SECRETA, ENTRE A ESPANHA E FRANÇA DE 27 DE OUTUBRO DE 1807, TENDO POR
FIM REALIZAREM A PROMETIDA DIVISÃO E OCUPAÇÃO DE PORTUGAL, ESTIPULADO NO
PRECEDENTE TRATADO. Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador
dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno; tendo visto e
examinado a convenção concluída, arranjada e assinada em Fontainebleau, aos 27
de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso
palácio, grão-cordão da Legião de Honra, etc., etc., em virtude dos plenos
poderes que nós lhe conferimos, de uma parte; e da outra parte D. Eugenio
Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua
majestade, o rei de Espanha, igualmente munido com plenos poderes pelo seu
soberano, o teor da qual convenção era o seguinte: Sua majestade, o imperador
dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua
majestade, o rei de Espanha, desejando entrar em um arranjamento, relativamente
à ocupação e conquista de Portugal, conforme as estipulações do tratado assinado
na data de hoje, têm nomeado, a saber: sua majestade, o imperador dos franceses,
rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel
Duroc, grão-marechal do seu palácio, grão-cordão da Legião de Honra, e sua
majestade católica, el-rei de Espanha, D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun,
seu conselheiro de estado honorário e da guerra, os quais, depois de haverem
mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram nos seguintes artigos:
Artigo 1 Um corpo de tropas imperiais francesas de 25:000 homens de infantaria e
3:000 de cavalaria, entrará em Espanha, e marchará directamente para Lisboa;
unir-se-ão a estas um corpo de 8:000 homens de infantaria espanhola, e 3:000 de
cavalaria, com 30 peças de artilharia.
Artigo 2 Ao mesmo tempo uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10:000
homens, tomará posse da provinda de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e
outra divisão de 6:000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do
Alentejo e do reino dos Algarves.
Artigo 3 As tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha, e o seu
pagamento providenciado por França, durante o tempo empregado na sua marcha por
Espanha.
Artigo 4 Ao momento em que as tropas combinadas entrarem em Portugal, o governo
e administração das províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa
(que devem ficar em estado de sequestro), serão investidos no general comandante
das tropas francesas, e as contribuições impostas nas mesmas províncias serão em
beneficio da França. As províncias, que devem formar o reino da Lusitânia
setentrional e o principado dos Algarves, serão administradas e governadas pelos
generais comandantes das divisões espanholas que entrarem nas mesmas, e as
contribuições impostas nelas serão a beneficio da Espanha.
Artigo 5 O corpo central estará debaixo das ordens do comandante das tropas
francesas, a quem também obedecerão as tropas espanholas unidas a este exército.
Contudo se o rei da Espanha, ou o príncipe da Paz, julgar conveniente ir ao
exército, as tropas francesas com o general que as comandar, ficarão sujeitas as
suas ordens.
Artigo 6 Outro corpo de 40:000 homens de tropas francesas se ajuntará em Bayonna,
cerca dos 20 de Novembro próximo futuro ao mais tardar, estando pronto para
entrar na Espanha, para o fim de marchar para Portugal, no caso em que os
ingleses lá mandassem reforços, ou ameaçassem com um ataque. Este corpo
adicional porém não entrará em Espanha até que as duas altas partes contratantes
tenham concordado sobre este ponto.
Artigo 7 A presente convenção será ratificada, e as ratificações trocadas ao
mesmo tempo que o tratado desta data.
Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubros de 1807.;= (Assinados) Duroc=E.
lzquierdo.
Invasões Francesas
Primeira Invasão Francesa
Sob o comando do General Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de
Outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno Inverno,
e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Sem encontrar
resistência, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes a 24, em busca de
provisões. Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor do Inverno, o exército
francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém a
28, de onde partiu no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou a 30, à frente de
dois regimentos em mau estado. No dia anterior, a Família Real e a Corte
portuguesa haviam largado ferros da barra do rio Tejo, rumo ao Brasil, levando
em 34 navios de guerra portugueses, cerca de 15.000 pessoas, deixando o governo
de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos
invasores.
No ano seguinte, em Agosto, uma força britânica sob o comando do general Arthur
Wellesley (mais tarde duque de Wellington), desembarcava em Portugal, avançando
sobre Lisboa. Travaram-se, na sequência, a batalha de Roliça e a batalha do
Vimeiro, vencidas pelos aliados Portugal/Reino Unido da Grã-Bretanha e da
Irlanda do Norte, forçando à Convenção de Sintra.
Convenção de Sintra
A Convenção de Sintra, foi um acordo entre Inglaterra e França, assinado no
Palácio de Queluz a 30 de Agosto de 1808, encerrou a primeira invasão francesa a
Portugal, no contexto da chamada Guerra Peninsular.
Após a derrota das tropas napoleónicas na batalha de Roliça (17 de Agosto) e na
batalha do Vimeiro (21 de Agosto), o general Junot propôs aos ingleses um
armistício. Após as negociações decorridas em Sintra, chegou-se à forma final do
documento pelo qual se permitia a retirada das tropas francesas, embarcadas em
navios ingleses, transportando as suas armas, bagagens e o produto dos saques
efectuados em Portugal.
O acordo traduzia-se em benefícios mútuos: Junot, sem linhas de comunicação
confiáveis com a França, retirava suas tropas sem maiores perdas e em segurança.
Os ingleses ganhavam o controle da capital, Lisboa, e da temida linha de defesa
da barra do rio Tejo, sem necessidade de combate.
Com este acordo, os franceses ganharam tempo e voltariam a invadir Portugal um
ano mais tarde.
Segunda Invasão Francesa
Enquanto a invasão de Portugal sucedia, Napoleão forçou a abdicação do rei
Carlos IV de Espanha e de seu herdeiro, D. Fernando (Baionne, 1808), conduzindo
ao trono espanhol o seu irmão José Bonaparte. Os espanhóis revoltaram-se contra
os usurpadores franceses, obtendo apoio das tropas Britânicas estacionadas no
norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, os Britânicos passam a fronteira
no início de 1809, para serem derrotados, na Corunha, pelo Marechal Soult.
Obrigadas a retirar, deixaram a descoberto a fronteira com Portugal, permitindo
a Soult, invadir o país pela fronteira do Minho em Março de 1809, avançando até
à cidade do Porto, cidade que ocupam a 24 desse mês, fixando fronteira no rio
Douro. Em Maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General
Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Beresford,
vencem a chamada batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto (29 de Maio)
e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as
tropas de Wellesley travaram a batalha de Talavera em território espanhol e
regressaram a Portugal.
É de salientar ainda a importância da escaramuça de Serém, Concelho do Vouga —
região pantanosa do rio Vouga e do rio Marnel, actualmente pertencente ao
Concelho de Águeda —, em que o Capitão-Mor do Vouga, José Pereira Simões, travou
o avanço para o Sul do Marechal Soult, até à chegada do Coronel Nicholas Trant e
do Batalhão Académico e, posteriormente, do General Arthur Wellesley, com
reforços. Como consequência, as hostes do Marechal Soult não conseguiram
atravessar o rio Vouga, perderam a escaramuça de Serém e foram obrigados a
retirar-se para o Norte, tendo-se acantonado na cidade do Porto.
Terceira Invasão Francesa e Contra-Ofensiva
Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o
comando do Marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal,
conquistou a Praça-forte de Almeida (Agosto), na fronteira, marchando em seguida
sobre Lisboa. Interceptado pelas forças Luso-Britânicas, foi derrotado na
batalha do Buçaco (27 de Setembro). Reagrupando as suas forças, retomou a
marcha, flanqueando as tropas Luso-Britânicas e forçando-as a recuarem para
defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de Outubro,
erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas Luso-Britânicas os
aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte.
Contra-Ofensiva
A campanha dos exércitos Britânico, Português e Espanhol, entre Maio e Agosto de
1813, culminou na batalha de Vitória, seguida um mês depois pela batalha dos
Pirenéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600
quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da
história Europeia foi modificado de forma decisiva. Seguiram-se uma série de
batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de Abril de 1814),
que colocou fim à Guerra Peninsular.
Batalha do Buçaco (considerações acerca da Batalha)
A batalha de Buçaco teve uma importância capital para o resultado da campanha
pela acção moral que exerceu nos dois exércitos contrários.
O exército anglo-luso perdeu o medo às águias napoleónicas, que ameaçavam
dilacerar a Península
os ingleses reconheceram que os soldados portugueses eram dignos émulos no valor
e brio militar, com os quais podiam e deviam contar. O moral do exército dos
aliados foi exaltado.
Os franceses reconheceram que não eram invencíveis ao medirem-se com as tropas
inimigas, que até então tinham em pouca conta:
As desinteligências que lavravam entre os generais franceses mais se acentuaram;
e a incapacidade de Massena, já apontada por Ney antes da batalha do Buçaco,
tornou-se frisante.
Massena sentiu-se golpeado no seu amor próprio: a Vitória abandonava o seu filho
querido.
E, quando este julgava fazer calar os descontentes e insofridos por um
estrondoso triunfo, viu que, ao contrário, a sua derrota mais ia insuflar a
indisciplina dos generais seus subordinados.
Não estava de todo perdido o exército, podia haver ainda probabilidades de uma
vitória; mas era preciso proceder com ponderação.
No Buçaco vira ele quanto Wellington. se soubera aproveitar das propriedades
defensivas do terreno.
Atacar novamente em terreno análogo seria uma temeridade, porque uma nova
derrota poderia trazer consigo uma capitulação, mancha vergonhosa que viria
empalidecer e murchar os verdejantes louros do herói de Rivoli, de Zurique, de
Génova, de Caldiero e de Essling.
Era necessário ser-se prudente; ponderado.
A derrota do Buçaco cortou as asas a Massena e impediu que voasse até aos cerros
de Alhandra, do Sobral de Monte Agraço, de Torres.
Se não fora a derrota do Buçaco, Massena teria sido mais ousado em frente das
Linhas de Torres, e quem sabe, se não teria saído vitorioso.
A vitória do Buçaco teve, portanto; consequências imediatas e materiais; e mais
ainda, consequências morais e futuras.
Apreciando agora a batalha em si, vamos fazer algumas considerações
relativamente aos dois partidos.
Os reconhecimentos mandados executar por Massena foram muito incompletos. Os
oficiais que os realizaram não souberam desempenhar-se da sua missão.
Daí resultou o erro de Massena. Julgando o flanco esquerdo do exército
anglo-luso em Sula, e ignorando que se prolongava até ao ninho de Águia,
adoptara os dispositivos para envolver a posição de Sula, o que não sucedeu.
O ponto escolhido para o ataque, do 2." Corpo - a portela de Santo António do
Cântaro - era judicioso e de uma grande importância, pois a posse daquela parte
da serra separaria as forças anglo-lusas. Uma parte do exército seria lançado
sobre o Mondego e retira ria nas mais precárias circunstâncias; a outra parte
seria cortada da estrada do Botão a Coimbra, sendo obrigada a efectuar uma
retirada excêntrica, e permitindo aos franceses chegarem primeiro àquela cidade
que o exército anglo-luso.
Destas considerações resulta que o ataque a Santo António do Cântaro deveria ter
sido o principal, porque era o decisivo, e para isso Massena deveria ter
empregado o 6." corpo e não 0 2.°, visto que aquele tinha três divisões e este
duas.
O ataque a Sula seria secundário. Mas estes dois ataques deveriam ter sido
simultâneos para deixar o inimigo na indecisão. Não sucedeu, porém, assim.
Ney atacou 1h 30 m depois de Reynier, e quando este já tinha sido derrotado.
Esta falta de coordenação de esforços resultou da falta de ligação entre os dois
corpos de exército.
E certo que Massena ordenara que esses ataques fossem simultâneos; mas não
bastava ordenar, seria necessário tomar as disposições necessárias para garantir
a execução dessa ordem.
Reynier cometeu também a falta de só empregar uma divisão na 1.ª linha, deixando
uma outra como reserva; e quando esta foi chamada a intervir, apenas uma brigada
avançou.
No 6.° corpo a divisão, que servia de reserva geral não chegou a enviar força
alguma a apoiar as outras duas. As reservas parciais das duas divisões avançadas
também. não foram judiciosamente empregadas.
Houve, pois, da parte dos franceses: má preparação, boa concepção e má execução.
Examinando agora o que se passou do lado do exército anglo-luso, vemos que
Wellington, ainda que vencedor, não pôde efectuar a perseguição, última, mas
imprescindível fase de uma batalha, para se tirar todo o proveito da vitória.
Isto era consequência da posição ocupada; pois a posição do Buçaco não permitia
tomar a ofensiva.
Por isso na própria Inglaterra se disse «que a batalha do Buçaco fora uma
batalha política e não uma batalha militar».
Mas se Wellington não pôde efectuar a perseguição, ainda pior foi o deixar-se
surpreender tacticamente, visto que foi forçado a abandonar a posição duma
maneira precipitada, tendo de efectuar a retirada sem ordem, e vendo-se obrigado
a abandonar grande parte das suas munições, fardamentos, víveres e feridos.
E incompreensível que um exército vitorioso não tivesse a energia suficiente
para se ir opor nos desfiladeiros do Boialvo a um inimigo derrotado!
Enquanto que o exército de Massena retirava para Mortágua pelo mau caminho de
Boialvo, o exército anglo-luso podia, por um caminho mais curto, ir ocupar o
Boialvo e deter, se não aniquilar, o exército francês que ousava fazer uma
marcha de flanco em presença dum inimigo vitorioso.
Wellington não julgava que Massena efectuasse a retirada pelo Boialvo e confiava
que Trant com os seus milicianos tivesse ocupado aqueles desfiladeiros, como ele
determinara. Trant, porém, só pôde chegar ao Sardão no dia 28 à tarde e apenas
com 1.600 a 1.700 homens.
Wellington, porém, devia com a sua cavalaria, que estava sobre o estrada da
Mealhada, procurar informar-se do que se passava para aqueles lados.
Na guerra devem ser previstas e prevenidas todas as hipóteses.
A retirada do exército anglo-luso fez-se sem consequências graves, porque o
exército francês perdeu por várias vezes o contacto, em virtude da lentidão da
marcha. As tropas francesas careciam de calçado, de fardamento, de víveres e
tinham poucas munições.
Quando teve lugar a batalha do Buçaco, havia três ou quatro dias que o exército
francês não comia pão. «N'avons pas de pain depuis quatre jours» dizia Junot em
uma carta enviada no dia 28 de Setembro a sua mulher.
Há quem tenha também atribuído o triunfo do exército anglo-luso no Buçaco à
superioridade da táctica inglesa sobre a táctica francesa, o que já se tinha
evidenciado na batalha do Vimeiro.
De facto, o exército inglês tinha passado por uma grande transformação, desde
que o duque de York fora nomeado comandante em chefe. O regulamento táctico
mandado publicar em 1798, e que era o resultado dum profundo estudo do
regulamento francês de 1791 e dos regulamentos alemães, era muito superior
àquele.
Além disso tinham sido criados campos de instrução para se ministrar o ensino
prático, tendo já muitos regimentos recebido essa instrução.
Enquanto a infantaria francesa formava ainda em três fileiras, a infantaria
inglesa adoptou a formação em duas fileiras, o que permitia maior rapidez nos
movimentos e aumento da reserva, quando se não queria aumentar as frentes de
combate, ou cobrir a frente principal com fortes postos avançados.
Foi até este último dispositivo o adoptado por Wellington, que mandara ocupar os
grupos de árvores e casas ou depressões de terrenos, ao alcance da artilharia,
com postos avançados que sustentaram um fogo enérgico contra as colunas
francesas, obrigando-as prematuramente a desenvolver-se e tornando mais difícil
e perigoso o avanço pelas ásperas encostas da serra.
A artilharia, ocupando os, salientes, cooperou de uma maneira activa e judiciosa
com .a infantaria, o que não sucedeu aos franceses, cuja artilharia não pôde
sustentar as colunas de ataque.
A artilharia anglo-lusa representou um papel importante na batalha do Buçaco.
A infantaria, coberta como dissemos, por postos avançados, formava à retaguarda
da crista do terreno, sustentada nalguns pontos por artilharia, que ocupava os
intervalos, ou os flancos.
Em geral, os postos. avançados eram constituídos pelas 2 companhias extremas dos
batalhões (1.ª e 10.ª) que eram formadas de atiradores de elite - granadeiros e
caçadores. Como cada batalhão tinha 10 companhias., segue-se que 1/5 do seu
efectivo era empregado nos postos avançados da posição.
Foi com este dispositivo táctico que o exército anglo-luso teve uma manifesta
superioridade sobre o exército francês. As colunas francesas, precedidas por
atiradores, chegavam exaustas à crista, tendo consumido os atiradores as suas
munições no combate contra os postos avançados, e, quando se julgavam senhores
do terreno, eis que surgia a linha principal dos defensores, executando uma
descarga a 2o ou 35 metros e carregando imediatamente à baioneta. As colunas
francesas não podiam resistir a esse choque, desapoiadas como estavam da sua
artilharia, que não podia tomar posição na zona de terreno batida pelos fogos
dos postos avançados e da artilharia avançada que ocupava os salientes.
Enquanto as forças atacantes chegavam cansadas e desunidas, as tropas
anglo-lusas que ocupavam a linha principal, estavam frescas, sob a completa
acção . dos chefes, e não desmoralizadas pelo fogo, nem pela vista do campo de
batalha, pois se conservavam até ao último momento a coberto das vistas e do -fogo,--.
inimigo.
As cargas à baioneta eram violentas, especialmente as realizadas pelas tropas .
portuguesas, tornando-se surpreendentes as que foram executadas pelos nossos
regimentos de infantaria n.°5 8 e 19, que ali se cobriram de glória.
Têm, pois, razão os que atribuem à táctica de combate do exército. anglo-luso
uma parte considerável para o seu triunfo.
Todas as tropas portuguesas que tomaram parte activa na batalha se comportaram
com grande valentia. Wellington e Beresford assim o reconheceram e manifestaram
nas suas ordens do dia. Foram especialmente elogiados os regimentos de
infantaria n.º 9 e 21, que formavam a brigada do coronel Champalimaud;
infantaria n.º 8, comandada pelo tenente-coronel Douglas; os regimentos de
infantaria nos. 7 e 19 e o batalhão de caçadores n.º 2, formando a brigada do
brigadeiro Colleman; os regimentos de infantaria nos. 1 e 16 e o batalhão de
caçadores n.º 4, formando a brigada Pack; os batalhões de caçadores nos. 1 e 3,
que faziam parte da divisão Craufurd; o batalhão de caçadores n.º 6, que entrara
na composição da brigada Campbell; as brigadas de artilharia, sob o comando do
major Arentichild, a brigada de artilharia, anexa à divisão Spencer e a brigada
de artilharia de montanha.
Mereceram ser citados em especial os nomes dos coronéis Champalimaud, Xavier
Palmeirim e Souto Maior; dos tenentes-coronéis Sulton, José Maria Bacelar,
Douglas, Jorge de Avilez, Nixan, Luís do Rêgo Barreto, Sebastião Pinto de
Araújo, Elder, etc.
Beresford, na sua ordem do dia de 28 de Setembro (-), e Wellington na ordem do
dia de 3o (°), elogiam e mostram-se reconhecidos para com as tropas portuguesas
que tomaram parte na batalha do Buçaco.
A sua manifestação era um justo preito à bravura dos nossos soldados.
Notas:
6. O mais notável instrutor fora J. Moore. Também os regimentos instruídos por
ele destacavam-se dos outros. Tais eram os que faziam parte da divisão Craufurd.
7. Veja-se a ordem do dia, datada do Q. G. do Buçaco, de 28 Setembro de 1810.
8. Vide o ofício de Lorde Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz, datado de
Coimbra, de 30 de Setembro de 1810, e que vem transcrito na Gazeta de Lisboa,
n.º 237, de 3 de Outubro de 1810; e também o ofício enviado pelo marechal
Beresford, de 30 de Setembro de 1810, ao mesmo D. Miguel Pereira Forjaz.
Fonte: Vitoriano José César - Batalha do Buçaco - 3.ª Ed., Lisboa - Imprensa da
Armada, 1930, págs. 28 a 35 (1.ª Ed., Ferin, 1910)
A fuga da corte para o Brasil
http://www.redescobrindoobrasil.hpg.ig.com.br
Indeciso, o príncipe regente D. João 3 adiou o quanto pôde a solução, pois
qualquer alternativa era danosa à monarquia.
Afinal, a iminente invasão francesa tornou inadiável o desfecho. A fuga da Corte
para o Rio de Janeiro, decidida na última hora, trouxe, não obstante, duas
importantes consequências para o Brasil; a ruptura colonial e o seu ingresso na
esfera de domínio da Inglaterra.
Chegando ao Brasil, D. João estabeleceu a Corte no Rio de Janeiro e em 1808
decretou a abertura dos portos às nações amigas, pondo fim, na prática, ao
exclusivo metropolitano que até então restringia drasticamente o comércio do
Brasil.
A Corte Portuguesa no Brasil:
Para além da instabilidade que provocou a ausência da Corte, verificou-se ainda
a saída para o Brasil de incalculáveis riquezas. Além disto, grandes
proprietários nobres e figuras do alto clero que acompanharam a Família Real,
passaram a ter os seus rendimentos enviados para o Brasil, empobrecendo ainda
mais Portugal e o seu povo.
Antes da partida - Fernando Teixeira
" (...) Chovia muito. As ruas começavam a transformar-se num lamaçal. Havia
gente desorientada por todo o lado, e um movimento inusitado em direcção a
Belém.
Há tempo que corriam por Lisboa rumores de que a família real estaria a preparar
a partida para o Brasil, mas no dia 26 de Novembro de 1807 já não restavam
dúvidas a ninguém - a decisão fora, finalmente, tomada no dia anterior numa
reunião do Conselho de Estado. Com as primeiras tropas francesas já em Portugal,
a família real e grande parte da nobreza corria a Belém e preparava-se para
deixar o país.
Não eram, a acreditar na descrição feita por Raul Brandão em El-Rei Junot, cenas
dignificantes. "Na véspera do embarque [que aconteceu a 27, sendo depois a
partida a 29] remexe-se tudo: as roupas, as jóias, as inutilidades.
Na casa de este, de aquele, do Lavradio, do Angeja, do Cadaval, do Alegrete, há
gritos, cólicas, desmaios, uma mixórdia de saque e de grotesco - arcas
arrombadas, farrapos, lágrimas, desespero. Aferrolha-se e clama-se: - depressa!
Depressa!... - Foge tudo, foge toda a gente de representação e de vergonha:
fidalgos, ricos, pregadores, poetas obscenos, a Corte, as damas frágeis e
inúteis, as figurinhas d"encanto, e as criadas, as pretas, os anões. O drama é
idêntico em todas as casas soberbas: enfardela-se, enfardelam-se de mistura
objectos indispensáveis, seringas de clisteres, jóias, quadros, inutilidades,
vergonhas e riquezas. Depressa! Depressa".
Quinze mil pessoas embarcaram com a família real. Da frota, cinquenta barcos, 30
barcos foram para a família real e para os seus objectos. O barco que levou a
família real chamava-se Príncipe Real.
Saíram de Portugal cerca de oito milhões de cruzados em moeda – metade da
riqueza nacional mais o ouro, prata e os objectos de arte de todos os
acompanhantes.
O Brasil elevado a Reino Unido com Portugal
O príncipe regente e futuro rei D. João VI, durante o período final do reinado
de sua mãe, D. Maria I, elevou em 1815 o Brasil da condição de vice-reinado
colonial à de reino autónomo, intitulando-se desde então pela Graça de Deus
Príncipe-Regente de Portugal, Brasil e Algarves, daquém e dalém-mar em África,
senhor da Guiné, e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia
e Índia. O título oficial anterior era o mesmo, apenas não incluindo a palavra
"Brasil".
Posteriormente, durante o Congresso de Viena em 1815, como consequência do
estabelecimento da Casa de Bragança e da capital do Império Português no Rio de
Janeiro, no referido ano de 1808, durante as guerras napoleónicas, D. João VI
estabeleceu a nova designação de Reino Unido para as suas coroas, em regime
jurídico similar ao do actual Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda ou do
extinto Império Austro-Húngaro.
Os domínios luso-brasileiros da época ficaram a partir de então oficialmente
designados como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e D. João passou a
ostentar o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves, sendo príncipe e posteriormente rei das três coroas unidas, entre as
quais, aquela onde residia como Rei do Brasil.
Após a morte de sua mãe, considerada a primeira rainha do Reino Unido de
Portugal, Brasil, e Algarves, D. João foi aclamado na corte do Rio de Janeiro
como sucessor real. D. Maria I permanecera com o título por apenas um ano, pois
que logo morreu.
O Príncipe D. Pedro de Alcântara, último herdeiro da Coroa portuguesa a ostentar
o título de Príncipe do Brasil, não chegou a ser rei do Reino Unido de Portugal,
Brasil, e Algarves, pois se auto-proclamou Imperador do Brasil quando declarou
sua Independência. Só depois da morte de seu pai, D. Pedro I do Brasil foi
considerado rei de Portugal como D. Pedro IV de Portugal. Chegou a receber,
contudo, o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves.
A Família Real no Brasil
http://www.geocities.com
D. João VI
No princípio do século XIX a Europa foi sacudida por uma guerra longa e
violenta. Napoleão, imperador da França, grande general, organizou um exército
poderosíssimo e invadiu vários países somando vitórias.
Para derrotar os ingleses, imaginou um estratagema: obrigar as outras nações a
fecharem os portos à Inglaterra, que sendo uma ilha ficaria isolada e muito
enfraquecida sem poder comerciar.
Acontece que Portugal e Inglaterra eram velhos aliados e faziam muitos negócios
entre si, por isso os portugueses decidiram não obedecer. Napoleão ficou
furioso, preparou um exército de 30.000 homens comandados pelo célebre Junot e
ordenou-lhe que conquistasse Portugal.
Mas nesse tempo os militares deslocavam-se a pé ou a cavalo, tinham que carregar
armas e bagagens, acampar pelo caminho, ou seja, demoravam imenso tempo a chegar
ao seu destino. A notícia porém voava de boca em boca ou na bolsa de um
mensageiro veloz.
Quando em Lisboa se soube que vinha aí uma invasão francesa, foi o pânico. Na
altura não havia condições para enfrentar um inimigo tão forte, corria-se o
risco de perder a independência. Que fazer? Depois de muitos debates, tomou-se
uma decisão: a família real devia partir imediatamente para o Brasil que nessa
época era uma colónia portuguesa.
A Corte a salvo do outro lado do oceano assegurava a independência.
No ano 1807, a família real era muito numerosa e incluía pessoas de todas as
idades.
A rainha
D. Maria I tinha 73 anos, era viúva e enlouquecera, por isso não podia reinar.
As irmãs da rainha
Maria Ana tinha 71 anos e era solteira.
Maria Benedita tinha 61 anos e era viúva
O príncipe Regente
D. João era o filho mais velho da rainha e ele é que governava em nome da mãe,
por isso se diz Príncipe Regente. Tinha 40 anos, era casado com uma princesa
espanhola que lhe dera oito filhos.
A mulher do Príncipe
D. Carlota Joaquina tinha 32 anos. Viera para Portugal em criança para se
habituar à língua, aos costumes e ao país do noivo. O casamento efectuou-se
quando ela tinha apenas 10 anos.
Os oito principezinhos
Maria Teresa tinha 14 anos, Maria Isabel tinha 10 anos, Pedro tinha 9 anos,
Maria Francisca tinha 7 anos, Isabel Maria tinha 6 anos, Miguel tinha 5 anos,
Maria da Assunção tinha 2 anos e Ana de Jesus tinha 1 ano
Um primo espanhol, noivo da princesa mais velha Pedro Carlos, primo de Carlota
Joaquina, vivia em Portugal desde criança e era o noivo de Maria Teresa.
15 mil viajantes
A família real não ia sozinha para o Brasil: ia acompanhada pelas pessoas que
desempenhavam altos cargos na Corte e pelos funcionários e criados do palácio.
Mas houve muitos nobres e muitos burgueses que decidiram ir também.
Assim reuniu-se um número de viajantes espectacular: quinze mil homens, mulheres
e crianças. Imagine-se então a bagagem! As pessoas não sabiam ao certo quanto
tempo iam ficar no Brasil e como receavam que lhes saqueassem as casas, trataram
de mandar encaixotar tudo o que tinha valor material: móveis, pratas, jóias,
tapetes, loiças, candeeiros, cristais, quadros, livros, roupa de casa e de
vestir, etc.
Como sempre acontece em circunstâncias idênticas, não quiseram deixar para trás
objectos e animais de estimação, por isso encaixotaram-se também brinquedos,
muitas e variadas recordações. Junto com os caixotes seguiam cestos e gaiolas
ocupados por cães, gatos, pássaros… e tudo se empilhou no cais entre Lisboa e
Belém.
Esses imensos volumes de todos os tamanhos e feitios, bem ou mal acondicionados,
eram levados depois em botes a remos para os grandes navios ancorados no meio do
Tejo. Foi grande a azáfama, enorme a confusão, mas a pouco e pouco lá se
encafuaram as bagagens nos porões dos navios.
O Embarque
No dia 27 de Novembro de 1807 começaram a chegar carruagens ao cais. Os
viajantes apeavam-se e dirigiam-se à beirinha da água para tomarem lugar nos
botes a remos que os levariam até aos navios. Tinha chovido muito nos dias
anteriores, o chão estava enlameado, as pessoas escorregavam, amparavam-se umas
às outras para não caírem, tentavam evitar as poças de água.
Esse saltitar exterior correspondia certamente a um saltitar interior, pois se a
ideia de escapar aos exércitos de Napoleão proporcionava alegria e alívio, o
facto de se verem obrigados a deixar a sua terra era motivo de tristeza e
desolação.
Lisboa em peso acorreu para assistir ao embarque. Uns rodeavam os marujos no
cais, outros penduravam-se nas janelas ou espalhavam-se pelas colinas sem saber
o que pensar daquela cena nunca vista.
Então a família real ia-se embora em bloco, e as famílias mais importantes
também, levando consigo tantas riquezas para o outro lado do mundo? Seria de
facto essa a única solução para resolver o problema de invasão iminente? E que
aconteceria aos que ficavam quando chegassem os franceses?
Os mais pessimistas provavelmente anunciaram desgraças sem fim, garantiram que
os franceses iam tomar conta de tudo e que a família real nunca mais voltaria.
Com certeza houve quem chorasse muito de comoção, de tristeza, de medo. E o
choro redobrou quando viram que a velha rainha D. Maria berrava e lutava,
tentando recusar-se a embarcar. Coitada! Aquela é que dificilmente tornaria a
ver o seu país…
A Armada
A armada que levou a Corte para o Brasil incluía vários tipos de navios: naus,
brigues, fragatas, escunas, bergantins e corvetas. Alguns eram enormes, bem
armados de canhões, capazes de transportar muitos passageiros e grandes
quantidades de carga.
Outros eram mais pequenos e mais velozes. Além dos navios ao serviço da Corte,
foram para o Brasil mais quarenta alugados por particulares que se meteram ao
caminho à sua própria custa. Uma esquadrilha de quatro navios ingleses
acompanhou a armada para dar apoio em caso de ataque no mar alto.
O comandante da armada era Manuel da Cunha Sotomaior.
Naus
Rainha de Portugal (74 canhões)
Nesta nau viajou D. Carlota Joaquina com alguns dos filhos mais novos.
D. João de Castro (64 canhões)
Nesta nau viajou o Duque do Cadaval, o Conde de Belmonte e o Conde de Redondo.
Príncipe Real (80 canhões)
Nesta nau viajou a rainha D. Maria I, o Príncipe Regente e o filho mais velho,
D. Pedro.
Princesa do Brasil (74 canhões)
Nesta nau viajaram as irmãs da rainha e duas princezinhas.
Conde D. Henrique (74 canhões)
Martim de Freitas (64 canhões)
Afonso de Albuquerque (64 canhões)
Fragatas
Medusa (74 canhões) - Minerva (44 canhões) - Jutra (32 canhões ) - Golfinho
(36 canhões)
Brigues
Voador (22 canhões) - Vingança (20 canhões)
Escunas a Curiosa e Bergantins o Três Corações
A Partida
Após o embarque, o que toda a gente queria era partir. Mas o tempo não permitia.
Ventos contrários pareciam ter apostado em reter a armada no rio Tejo. Já se
receava que os franceses chegassem a Lisboa a tempo de efectuarem um assalto ou
de bombardearem os navios. Finalmente o dia 29 amanheceu lindo, puderam içar
velas, levantar âncoras e fazer-se à travessia do Atlântico rumo ao Brasil. Foi
por um triz: Junot entrou em Lisboa vinte e quatro horas depois!
A Viagem
A viagem não foi propriamente um passeio agradável. Como os preparativos tinham
sido feitos à pressa e o embarque feito à última hora, faltavam mantimentos e
muitos passageiros não encontraram os seus caixotes a bordo. Na melhor das
hipóteses, talvez seguissem noutro navio, na pior, talvez tivessem ficado
esquecidos no cais onde não tardariam a ser pilhados. Além da perda, havia o
transtorno, por exemplo não podiam mudar de roupa.
Mas enfim, lá se arranjaram como puderam. A natureza também contribuiu para
agravar o mal estar, houve vendavais, o mar encapelou-se, um inferno. A maioria
dos passageiros enjoou pavorosamente e além disso todos sofreram momentos de
grande ansiedade porque os navios a certa altura dispersaram e como não havia
recursos para comunicar à distância era impossível saber se os parentes e os
amigos estavam vivos e seguiam por outra rota ou tinham sido engolidos pelo mar.
As velhas princesas no Rio de Janeiro
A armada tinha um destino comum: o Rio de Janeiro. Mas nem todos puderam ir lá
directos.
O primeiro a chegar foi um navio alugado por particulares que no dia 3 de
Janeiro aportou na Bahia. Os passageiros anunciaram que vinha aí a família real,
a cidade ficou na maior excitação e o governador começou a tomar medidas para
receber tão ilustres visitantes.
A 14 de Janeiro foi a vez do Brigue "Voador" ancorar no Rio. Depois, a pouco e
pouco, foram chegando os outros - todos os outros - pois a Natureza rugira e
fizera alguns estragos mas nada de irremediável. Só a nau D. João de Castro,
bastante danificada, se viu na iminência de ir ao fundo, tendo no entanto
alcançado a costa a tempo de evitar o naufrágio e aportado em Paraíba.
Três dias depois da chegada do brigue "Voador", entraram na Baía de Guanabara
cinco navios da armada portuguesa e três da esquadrilha inglesa. A bordo da nau
"Princesa do Brasil" estavam as duas irmãs da rainha - já velhas, muito velhas,
pois naquela época era pouco vulgar atingir os 70 anos.
Nunca nenhuma delas navegara no alto mar, portanto a experiência de meses a
bordo suportando o balanço das ondas deixara-as abaladíssimas; além disso,
ficaram aterradas ao verificarem que a nau onde viajava D. João não aparecia.
Ele era o sobrinho querido, o Príncipe Regente, a autoridade máxima. Que fazer
na sua ausência? A única coisa que lhes ocorreu foi esperar.
Não se sentiam com coragem para enfrentar uma terra desconhecida sem a presença
protectora do Príncipe e não houve força nem argumentos que as fizessem
desembarcar. Durante trinta longos dias, em vez de olharem as belezas naturais
daquela região paradisíaca, voltavam-lhe as costas e perscrutavam o horizonte na
esperança de verem uma vela ao longe.
Diz-se que todas as manhãs, ao acordar, perguntavam uma à outra "O nosso João,
já terá chegado?" Aflitíssimas rezavam orações sem fim pedindo a Deus que lhes
trouxesse o resto da família sã e salva
Só desembarcaram a 17 de Fevereiro, depois de lhes terem jurado que o resto da
família se encontrava na Bahia rodeada de carinho e atenções e que em breve se
poderiam abraçar.
A Chegada à Bahia
Os passageiros dos navios que os ventos do destino levaram à Bahia por lá
ficaram durante um mês. Entre esses passageiros estava D. João - o Príncipe
Regente -, a mulher e os filhos. Ao que parece, D. João mostrou-se maravilhado
com o Brasil desde o primeiro momento e caiu nas graças dos baianos que o
festejaram com a maior alegria.
Enquanto permaneceu na cidade recebeu todas as pessoas que solicitaram
audiência, ouviu pedidos e sugestões e tomou uma série de medidas que agradaram
ao povo como por exemplo: abriu os portos do Brasil ao comércio directo com o
estrangeiro, deu autorização para que se construísse um hospital, uma Escola de
Medicina, várias fábricas.
A população exultou, pois percebeu que a presença da Corte significaria
progresso. Não faltou quem pedisse a D. João que desistisse de ir para o Rio de
Janeiro e instalasse a Corte na Bahia. Argumentavam ser a cidade mais central e
portanto mais conveniente, ofereciam-se para reunir verbas e construir um
palácio de grande categoria…
D. João agradeceu, sensibilizado com tantas demonstrações de amizade, mas não
pode ceder. Já tinha anunciado às Cortes europeias que ia para o Rio de Janeiro,
convinha manter a decisão.
No dia 26 de Fevereiro a família real e os acompanhantes despediram-se voltaram
a embarcar, zarparam para sul.
Preparativos no Rio de Janeiro
No Brasil o representante do rei de Portugal tinha o título de vice-rei. Na
época o vice-rei era o Conde dos Arcos, que deu voltas à cabeça para organizar
uma recepção devidamente animada e elegante e para preparar alojamentos onde
instalar tanta gente. Em 1808 viviam na cidade do Rio de Janeiro cerca de 60.000
pessoas.
Chegarem mais 15.000 de um dia para o outro era uma espécie de avalanche, uma
"avalanche humana". Mas o Conde de Arcos não se atrapalhava com facilidade.
Começou por despejar o Palácio dos vice-reis(1) e mandou limpar tudo muito bem
para poder funcionar como residência real.
Como este Palácio não tinha capela e ele sabia que as pessoas da Corte estavam
habituadas a capela privativa, chamou carpinteiros e ordenou-lhes que
construíssem rapidamente uma ponte de madeira ligando directamente o Palácio à
Igreja do Carmo, que ficava ao lado.
Quanto a estas medidas, toda a gente achou muito bem. Mas como ele requisitou
algumas habitações particulares para alojar gente da Corte, houve proprietários
que ficaram fulos com o abuso.
No entanto, a maioria da população estava delirante. Nunca uma família real
europeia pisara terras da América do Sul. Receber reis, rainhas, príncipes e
princesas fazia as pessoas sentirem-se como personagens de contos de fadas. E a
alegria natural dos habitantes do Brasil transformou logo os preparativos em
grande festa.
1) O Palácio dos vice-reis ainda hoje existe. É uma casa bonita, situa-se na
Praça XV de Novembro e ali funciona um centro de Arte.
Uma Entrada Triunfal
A armada reunira-se de novo e ancorara em frente ao Pão de Açúcar. Impossível
descrever a euforia a bordo e em terra. Toda a gente ansiava pelo momento em que
os canhões dariam sinal de desembarque. E isso aconteceu pelas quatro horas da
tarde do dia 4 de Março de 1808. Ao primeiro Boum, D. João desceu para um
bergantim seguido da mulher e dos filhos.
Enquanto os remadores faziam avançar a embarcação para o cais, os canhões
atroaram os ares com salvas de boas vindas, repicaram em simultâneo os sinos de
todas as igrejas, estalaram foguetes, bandas de música puseram-se a tocar, as
pessoas davam vivas no maior entusiasmo. Guardas de honra formavam alas desde o
cais à Igreja do Rosário onde estava tudo preparado para uma cerimónia religiosa
destinada a dar graças a Deus pelo sucesso da viagem.
D. João, D. Carlota Joaquina e os principezinhos seguiram em cortejo pelas ruas
atapetadas de folhagens. As janelas das casas em redor tinham sido enfeitadas
com grinaldas de flores, colchas de seda encarnadas e azuis. E as famílias
vestidas com as melhores roupas e ostentando as melhores jóias debruçavam-se nas
janelas a aplaudir.
Consta que D. João sorria e acenava feliz por se ver tão acarinhado. E que D.
Carlota Joaquina chorava, talvez de comoção. Ninguém reparou especialmente nas
reacções do pequeno príncipe D. Pedro. Com nove anos, perante um ambiente
colorido, barulhento, festivo, só podia estar maravilhado. Não podia era
adivinhar que o destino tinha planos para entrelaçar a sua vida com o futuro
daquela terra e daquela gente…
Residências reais
A família real, além do Palácio dos vice-reis que pertencia à coroa e foi posto
à sua disposição, recebeu de presente uma quinta magnífica - A Quinta da Boa
Vista em S. Cristóvão -, oferecida por um colono rico e amável. Essa quinta
tornou-se a residência preferida de todos.(1)(1) Actualmente o Palácio de S.
Cristóvão é o Museu de História Natural e Etnologia. A Quinta é um parque onde
há plantas de todo o mundo.
Festas e mais Festas
Numa terra luminosa e quente como é o Brasil e no cenário maravilhoso do Rio de
Janeiro, o que apetece realmente é comemorar o facto de estar vivo. Esse desejo
traduziu-se (e ainda hoje se traduz) em festas espampanantes.
A Corte não escapou ao sortilégio e… sucederam-se festas magníficas em que
participavam não só os nobres mas também o povo cantando e dançando nas ruas
iluminadas a preceito. A chegada do famoso compositor Marcos de Portugal
acompanhado por muitos músicos e cantores contribuiu para abrilhantar as
comemorações.
Ópera
Em 1811 houve um espectáculo de Ópera no Teatro Real do Rio de Janeiro para
comemorar o aniversário de D. Maria I. O maestro foi Marcos de Portugal.
O casamento da princesa Maria Teresa com seu primo Pedro Carlos
Uma das primeiras grandes festas dada pela Corte no Rio de Janeiro foi o
casamento da princesa mais velha em 1810.
O Brasil elevado à categoria de reino
Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia portuguesa e foi elevado à categoria
de reino unido com Portugal. Naturalmente não faltaram desfiles e bailes.
A coroação de D. João VI
No ano 1816 morreu a velha rainha D. Maria I. D. João há muito que governava
pois a mãe enlouquecera, mas só nesse ano subiu ao trono como D. João VI. Houve
um período de luto e só em 1818 se realizaram as ricas e faustosas cerimónias
para festejar a coroação
O casamento do príncipe herdeiro
D. Pedro, sendo herdeiro do trono dos Reinos Unidos de Portugal e do Brasil, só
podia casar com uma princesa que pertencesse a uma família real muito antiga e
de grande prestígio. A escolha recaiu na princesa Leopoldina, filha dos
imperadores da Áustria.
O embaixador português foi a Viena apresentar o pedido, houve negociações,
chegou-se a um acordo e Leopoldina viajou para o Rio de Janeiro ao encontro do
noivo. O casamento realizou-se em 1817 e foi um acontecimento!
Artistas franceses no Brasil
D. João VI quis decorar os palácios com obras de arte. Na época usava-se cobrir
as paredes com grandes telas representando paisagens, retratos e cenas
históricas. Como ainda não havia no Brasil artistas que pudessem executar um
trabalho de grande qualidade, o rei escreveu ao embaixador que estava em Paris e
pediu-lhe que contratasse pintores franceses que quisessem ir para o Brasil.
Debret, Pradier e Taunay aceitaram o convite e partiram. Esses três grandes
pintores realizaram autênticas "reportagens visuais" que permitem acompanhar a
vida da Corte no Brasil e conhecer o ambiente que os rodeava
Cientistas austríacos no Brasil
A comitiva da princesa D. Leopoldina incluía cientistas que tinham sido
contratados pelo imperador da Áustria para acompanharem a filha ao Brasil e por
lá ficaram alguns anos a estudar a fauna, a flora e os minerais daquela terra
longínqua que tanta curiosidade despertava na Europa.
Esses cientistas embrenharam-se no mato, fizeram registos sobre o que viram e
recolheram espécies de plantas, animais e minerais. Como nesse tempo ainda não
se tinham inventado as máquinas fotográficas, os cientistas fizeram-se
acompanhar de desenhadores e pintores para eles se encarregarem das imagens.
Assim, no regresso, poderiam dar a conhecer ao "velho mundo" as surpresas do
"mundo novo"
Nem tudo foram rosas
Enquanto a Corte portuguesa esteve no Brasil, houve guerras a norte e a sul. A
norte, contra a Guiana francesa. A sul, os conflitos surgiram por causa da linha
de fronteira com os territórios das colónias espanholas. Os portugueses lutaram
bravamente e saíram vitoriosos mas mais tarde, quando assinaram a paz, retiraram
das terras ocupadas.
O regresso a Portugal
Em Portugal as lutas com os franceses terminaram no ano 1811. Mas a Corte não
regressou imediatamente porque não havia garantias de total segurança, porque a
deslocação massiva de tanta gente não era fácil e talvez também porque a família
real se sentia feliz no Rio de Janeiro. Em 1815 o Brasil deixou de ser uma
colónia, foi elevado por D. João VI à categoria de reino, reino unido ao de
Portugal.
E o tempo foi correndo, sem se falar em regresso. Mas entretanto a Europa
agitava-se e havia revoluções destinadas a alterar a forma de governo. Até então
os reis tinham todos os poderes, eram reis absolutos. Nesta época, sopravam
outras ideias e surgiram partidos que queriam dividir o poder - os Partidos
Liberais. Estes defendiam que o rei devia ter unicamente o poder de governar.
Julgar os crimes, competia exclusivamente aos juízes. Fazer leis, seria tarefa
para deputados eleitos pelo povo.
Entre absolutistas e liberais rebentaram muitos conflitos armados. Em Portugal
estalou uma revolução no Porto, no ano 1820, os liberais alcançaram uma vitória
imediata e uma das primeiras medidas que tomaram foi exigir ao rei que voltasse.
D. João VI mandou preparar malas e bagagens e embarcou com toda a família
excepto o príncipe herdeiro, D. Pedro, a quem deixou no Brasil como Regente.
Figuras e Factos relacionados com a estadia da Família Real no Brasil
D. Maria Iª
Vigésima sexta reinante de Portugal, filha de D. José l e de D. Mariana Vitória.
Nasceu em Lisboa em 1734, e, casou em 1760, com seu tio D. Pedro (D. Pedro III).
Logo que chegou ao trono, demitiu o Marquês de Pombal de todos os seus cargos,
mandando instaurar-lhe um processo. Mas a rainha perdoou-lhe grande parte dos
seus erros e consequentes castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse
para local distante da Corte Real, vinte léguas.
A D. José sucedeu sua filha D. Maria Iª. Logo após a morte do rei, o Marquês de
Pombal pediu a demissão de ministro e de outros cargos, que a rainha logo
deferiu. Contra ele foi depois instaurado um processo, que veio a terminar pela
sua condenação. Mas a rainha perdoou-lhe parte dos castigos, limitando-se a
determinar que se ausentasse para local distante de Corte 20 léguas. O Marquês
partiu então para Pombal, onde viver os últimos anos da sua vida.
D. Maria Iª, em seguida à revisão do processo que tinha condenado os supostos
implicados na atentado contra D. José, mandou pôr em liberdade a maior parte das
pessoas que se encontravam presas, por serem julgadas sem culpa. Pela mesma
razão, foram considerados inocentes todos os Távoras.
O governo de D. Maria Iª foi extraordinariamente profícuo para o Reino.
Cercando-se de bons cooperadores, como o Duque de Lafões, seu tio, e o abade
José Correia da Serra, a rainha pode realizar uma obra fecundíssima e de grande
alcance nacional. Portugal deve-lhe muito no que diz respeito ao desenvolvimento
da instrução:
Fundou a Academia Real das Ciências, a Biblioteca Nacional, a Academia Real da
Marinha, a Academia Real da Fortificação e a Casa Pia de Lisboa. Inaugurou a
iluminação pública de Lisboa.
Neste reinado construiu-se a Basílica da Estrela, em Lisboa, principiaram-se as
obras do Teatro de São Carlos e concluiu-se a Igreja da Memória.
A rainha foi vítima de muitos desgostos: num curto período de sete anos, viu
morrer a mãe, o marido (D. Pedro IIIº) e o filho (D. José, herdeiro do trono).
Além disso, muito se impressionou com as violências da Revolução Francesa, em
que foram assassinados os próprios reis de França, Luís XVI e Maria Antonieta.
Tudo isto contribuiu para que a rainha, em 1791, fosse atacada de doença mental.
Desde então, até 1796, D. João, seu filho, governou em nome da mãe, passando
depois a assumir, definitivamente, a regência do Reino.
Em virtude das tremendas atrocidades que se desenrolavam em França, muitas
nações revoltaram-se contra aquele país, especialmente a Inglaterra, que era a
mais empenhada na luta. Espanha e Portugal resolveram também entrar na guerra.
Em 1793, invadiram a Trança, e começou a Campanha do Russilhão, que se manteve
até 1795, data em que a Espanha, sem consultar Portugal, assinou a paz com os
franceses..
Portugal, no entretanto, fiel aos seus compromissos, mantinha-se firme ao lado
da Inglaterra, a quem enviara uma esquadra que, juntamente com a armada inglesa,
tomou parte na grande batalha naval de Aboukir, inglória para a França. Em face
do sucedido, a represália da França, governada nesse tempo por Napoleão
Bonaparte, não se fez esperar. Em 1801, Portugal foi invadido por numerosas
tropas espanholas e francesas, já amigas e agora aliadas.
O inimigo entrou pela fronteira alentejana, tendo conseguido apoderar-se de
Olivença, que nunca nos foi restituída.
Napoleão Bonaparte, grande general, imperador dos franceses, pelas vitórias que
havia conseguido contra a Áustria, Prússia, Itália, Rússia, etc., julgava-se o
senhor absoluto da Europa. Em Julho de 1807, impôs o Bloqueio Continental. Em
obediência a esta ordem, todas as nações europeias deviam encerrar os seus
portos aos navios britânicos.
O Príncipe D. João, inspirado na vontade de seu povo, não cumpriu as
determinações de Bonaparte.
Tínhamos perdido Olivença e podíamos sofrer mais reveses, mas dignificámos a
nossa aliança, franqueando os nossos portos à Inglaterra. Como o nosso Regente,
à vista de novas insistências, continuasse a não transigir, Napoleão assinou com
a Espanha o Tratado de Fontainebleau, em 27 de Outubro de 1807, pelo qual
Portugal seria repartido pela Espanha e pela França. Para tal efeito, tinha
Portugal de ser conquistado, o que não foi possível ao general francês.
Primeira invasão francesa em 1807: A fim de ser executado o Tratado de
Fontainebleau, Napoleão Bonaparte mandou invadir Portugal com um exército de 30
mil homens, comandados por Junot. O inimigo tinha penetrado pela Beira Baixa e
chegara já a Abrantes, em marcha sobre Lisboa. No dia 30 de Novembro de 1807, o
invasor entrava em Lisboa. A Família Real tinha partido para o Brasil três dias
antes.
Começaram então os roubos, os atentados, os assaltos às igrejas, repartições
públicas e casas particulares. O País não podia sofrer semelhantes violências.
Surgem as primeiras manifestações de revolta contra a dominação estrangeira – é
chegado o momento de agir. O Porto levanta-se em armas e, a seguir, as
províncias do Minho e de Trás-os-Montes. Pedem-se depois auxílios à Inglaterra
que nos envia um corpo de exército comandado por Artur Wellesley, depois duque
de Wellington. As forças anglo-lusas, atacam os franceses, que são derrotados
nas Batalhas de Roliça (Óbidos) e Vimieiro (Lourinhã). Em Agosto de 1808 é
assinada a Convenção de Sintra, pela qual Junot e as suas tropas foram obrigadas
a sair de Portugal.
Segunda invasão francesa em 1809: O imperador dos franceses, que se não havia
conformado com a derrota de Junot, organizou outro contingente de tropas,
comandado pelo general Soult, e determinou nova invasão a Portugal. O inimigo,
desta vez, entrou por Chaves, passou a G Braga e, em Março de 1809,
assenhorou-se da cidade do Porto; a população sobressaltada, fugiu para o Douro,
a fim de transpor a ponte das barcas, que existia nesse tempo, para fugir para o
sul. Esta abateu e milhares de pessoas caíram ao rio morrendo afogadas.
As tropas portuguesas agruparam-se logo. Chegaram reforços de Inglaterra – tudo
se preparou para a vitória. O Exército anglo-luso, dirigido superiormente por
Wellesley, atacou o inimigo, investindo contra o Porto. Soult, reconhecendo a
inutilidade da resistência, fugiu desordenadamente e abandonou Portugal.
Terceira invasão francesa (1810): Napoleão Bonaparte era teimoso e não perdia a
ideia de conquistar Portugal. Para isso tentou uma última cartada. Alinhou as
suas melhores tropas (85 mil homens) comandados por Massena e, em Agosto de
1810, Portugal foi invadido pela terceira vez. O exército francês entrou por
Almeida e avançou sobre o Buçaco, onde o esperavam os soldados anglo-lusos sob o
comando de Wellington, e ali se deu a grande batalha, no dia 27 de Setembro de
1810, em que os franceses foram completamente derrotados. Massena, com o resto
da sua gente, conseguiu fazer uma retirada e tentou avançar sobre Lisboa. Mas
estacou diante das Linhas de Torres Vedras, onde sofreu nova derrota. Começo a
debandada do inimigo, que, passando a fronteira, fugiu em direcção ao seu país.
Então, as tropas anglo-lusas, já aliadas da Espanha, que se tinha desavindo com
Napoleão, perseguem Massena através da França e entram vitoriosas em Bordéus e
Tolosa. Com esta terceira e última invasão, terminou o perigo do domínio
napoleónico na Península Ibérica.
No dia 20 de Março de 1816, faleceu no Rio de Janeiro, a rainha D. Maria Iª. O
seu corpo foi transladado para Portugal e encontra-se na Basílica da Estrela
(Lisboa) que ela fundara.
Vigésima sexta reinante de Portugal, filha de D. José l e de D. Mariana Vitória.
Nasceu em Lisboa em 1734, e, casou em 1760, com seu tio D. Pedro. Logo que
chegou ao trono, demitiu o Marquês de Pombal de todos os seus cargos, mandando
instaurar-lhe um processo. Mas a rainha perdoou-lhe grande parte dos seus erros
e consequentes castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local
distante da Corte Real, vinte léguas. O Marquês partiu então para Pombal
(distrito de Leiria) onde viveu os últimos anos da sua vida. Ao mesmo tempo,
mandou fazer uma revisão ao processo que tinha condenado os supostos implicados
no atentado contra seu pai, D. José l, mandando pôr em liberdade a maior parte
das pessoas que ainda se encontravam presas, devido a este processo. Pela mesma
razão, foram considerados inocentes todos os Távoras, supliciados e mortos em 13
de Janeiro de 1759, durante o reinado de seu pai. Durante o seu reinado,
Portugal decaiu muito. Entretanto, graças à influência de certas figuras
públicas de grande valor, como Martinho de Melo, o Duque de Lafões, Sousa
Coutinho, o arcebispo de Tessalónica, Diogo de Pina Manique (*), etc., algumas
reformas foram feitas. Em 1792, a rainha, a que os acontecimentos de França
haviam afectado profundamente, perdeu a razão (loucura) e, seu filho, o príncipe
D. João (mais tarde D. João Vl), assumiu a regência do Reino. Em 1807, sempre
diminuída mentalmente, acompanhou a Família real ao Brasil, onde veio a falecer
nove anos depois (1816). Seu corpo jaz na Basílica da Estrela (Lisboa),
monumento construído no seu reinado.
(*)Diogo Inácio Pina Manique:
Foi intendente de Polícia no tempo do Marquês de Pombal e ainda no reinado de D.
Maria l. Nasceu em Lisboa em 1733. Criou a Casa Pia (Belém – Lisboa), albergue
de crianças abandonadas. Foi o grande impulsionador da iluminação pública de
Lisboa (a azeite) e do seu policiamento. Também da colonização do Alentejo com
emigrados dos Açores e outros. Em contrapartida foi um grande perseguidor dos
liberais.
Com a subida ao trono de D. Maria l, verificou-se uma descontracção na economia,
dando-se então, pouco a pouco, a liberdade à produção agrícola. No domínio da
indústria, a extinção das corporações, em 1791, liberta o trabalho de
"regulamentos rígidos". No comércio, a realização de um tratado com a Rússia
alarga os nossos contactos internacionais e aumentam os nossos mercados.
Nota: Por altura deste reinado, grandes transformações se dão na economia
europeia. Com a descoberta da "máquina a vapor", em 1780 por Watt, a indústria
manufactureira transforma-se, e, as unidades industriais servem-se deste invento
para mecanizarem a sua produção. Inicia-se assim, graças a esta descoberta, a
Revolução Industrial, que favorece decisivamente o progresso do Capitalismo.
João VI - "0 Clemente" - 27.º rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1767, onde também faleceu a 10 de Março de
1826. Era filho segundo da rainha D. Maria I, e de seu marido e tio D. Pedro III.
A 8 de Maio de 1785 casou com a princesa espanhola, D. Carlota Joaquina de
Bourbon, filha de Carlos IV e da rainha D. Maria Luísa Teresa de Bourbon. Em
1788 foi declarado herdeiro do trono, por ter falecido seu irmão primogénito, o
príncipe D. José. Tendo enlouquecido a rainha sua mãe, teve de assumir a
regência do reino no dia 1 de Fevereiro de 1792. D. João estava habituado a
entregar-se à caça e a percorrer os conventos, muito despreocupado dos negocies
públicos, que se lhe tornavam indiferentes, bem longe de pensar que seria cedo
nomeado regente do reino, e mais tarde aclamado rei. Além disso, o país
encontrava-se numa situação deplorável.
Por ocasião da morte de Luís XVI em 1793, Portugal entrou na liga com a
Inglaterra e a Espanha contra a Republica Francesa. Uma divisão portuguesa
combatia no Rossilhão ao lado dos espanhóis, tornando-se muito distinta, mas
apesar disso, a Espanha resolveu fazer a paz com a República Francesa,
abandonando Portugal. A situação do nosso país ficou deveras embaraçosa. Sem o
auxilio da Espanha, desprezados pela Inglaterra, prejudicados gravemente no
comércio pelos corsários franceses, resolveu o governo português solicitar da
República Francesa a paz, que bem precisa se tornava nestas difíceis
circunstâncias, mas o Directório republicano não estava disposto a concedê-la, e
só mais tarde é que propôs um tratado de paz, que não era muito desvantajoso
para Portugal, mas o governo português não quis ratificá-lo, para não ser
desagradável à Inglaterra. A França irritou-se, e Bonaparte, que se indignara
muito com a presença duma esquadra portuguesa no Mediterrâneo, auxiliando a de
Nelson, quando subiu ao poder como primeiro cônsul, fez com que a corte de
Madrid declarasse guerra a Portugal, em 1801. As tropas daquelas duas nações,
comandadas pelo Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, atacaram Portugal, tomaram
Olivença, e entraram no Alentejo. 0 nosso exercito achava-se num estado
miserável, e não podendo resistir, teve o governo de aceder a um tratado de paz
humilhante, feita em Badajoz, que tem a data de 6 de Junho do referido ano de
1801, sendo ratificado pelo governo português no dia 14, e pela Espanha em 21 do
citado mês e ano.
Desde então perdeu a Europa toda a consideração pelo nosso país; o embaixador de
França, o general Lannes, tratava o governo português com o máximo desdém, e
Napoleão, que subira ao trono da França com o titulo de imperador,
convencendo-se que não conseguiria nunca que o príncipe regente de Portugal
cedesse francamente ao denominado Sistema continental, fechando os portos às
embarcações inglesas, tomou o partido de riscar este reino da carta política da
Europa, e fez um tratado com a Espanha, que se assinou em Fontainebleau a 27 de
Outubro de 1807, que dividia Portugal em três estados: a Lusitânia do Norte
(Entre o Douro e Minho) devia pertencer ao Rei da Etrúria; o Alentejo com os
Algarves ao Príncipe da Paz, valido de Carlos IV, que tomaria o título de rei
dos Algarves; o terceiro estado ficaria no poder da França até à paz geral.
Reino da Etrúria era o nome que teve por algum tempo o grão-ducado da Toscânia,
quando em 1801 foi tirado à casa da Áustria e erigido em reino a favor de Luís,
príncipe hereditário de Parma. Por morte deste príncipe em 1803, passou a ser
governado por Maria Luísa, filha de Carlos IV, de Espanha. Este reino
desapareceu no fim do ano de 1807, em consequência dum tratado com a Espanha,
ficando incorporado na França, e reapareceu como grão-ducado da Toscânia em
1809. Para a execução do tratado de Fontainebleau, Napoleão mandou marchar para
Lisboa com a maior rapidez um exército comandado pelo general Junot. 0 exército
passou o Bidassoa a 18 de Outubro de 1807, atravessou em pleno Inverno as
serranias espanholas, sofrendo privações de toda a qualidade, e chegou à
fronteira portuguesa em 20 de Novembro já em condições detestáveis. 0 Inverno
era desabrido; não havia estradas, parecia impossível que um exército pudesse
atravessar a Beira em semelhantes condições. Pois atravessou sem encontrar
resistência alguma. Junot entrou em Abrantes no dia 24 à frente de 4.000 ou
5.000 homens, descalços, famintos, estropiadas. No dia 25 saiu de Abrantes com
uns 4.000 homens que a muito custo conseguira apurar dum dia para o outro.
Encontrou muitas dificuldades para passar o rio Zêzere, para atravessar os
campos da Golegã inundados; entrou em Santarém no dia 28 com o seu estado-maior
incompleto, com um regimento de granadeiros e 70 soldados de linha. Nesse mesmo
dia marchou para Lisboa, e a pequena distancia desta cidade encontrou um
destacamento de cavalaria portuguesa. Uma carga dos nossos cavalos bastaria para
dispersar essa turba fatigada, que se arrastava a custo pelas estradas, mas os
soldados tinham ordem de receber os franceses como amigos, e não havia quem os
comandasse. No dia 30 de Novembro, finalmente, entrou Junot em Lisboa com dois
regimentos compostos de soldados pálidos, fracos, com o uniforme rasgado, e as
espingardas arruinadas. A família real portuguesa, a corte e muitos dos seus
vassalos que quiseram acompanhá-la, embarcaram para o Rio de Janeiro debaixo da
protecção duma esquadra inglesa, a 29 de Novembro. Portugal ficou entregue a uma
regência. Junot declarou logo à sua entrada em Lisboa, que em nome de Napoleão a
família de Bragança deixara de reinar; e na qualidade de governador de Portugal
nomeou um conselho de governo, de que fizeram parte alguns portugueses, para
substituir a regência, que o rei nomeara 0 povo, abandonado pelos seus
príncipes, mas impaciente com sofrer o jugo estrangeiro, indignado pelas
exigências dos franceses, pelas afrontas feitas por Junot à bandeira portuguesa,
pela violência que praticara expedindo para França o nosso exército, reduzido a
um pequeno corpo, que tomou o nome de Legião portuguesa, que foi obrigada a
militar no exercito de Napoleão, o povo ergueu-se indignado no Porto em 1808,
propagou-se a revolução nas províncias do norte, e rebentou depois no Algarve.
Junot reprimiu-a cruelmente, e os seus subalternos Loison, Margaron, Thomiéres e
Kellermann, em Évora, Leiria, Nazaré e Beja, praticaram verdadeiras atrocidades,
mas entretanto a Inglaterra, que procurava no continente um porto onde fizesse
desembarcar tropas para combater Napoleão, aproveitou a insurreição portuguesa.
O general Arthur Wellesley, depois duque de Wellington, desembarcou com o seu
exército a 6 de Agosto de 1808 na baía de Vagos, derrotou os franceses nas
acções da Roliça e de Vimeiro, dadas nesse mês, e Junot, venda a impossibilidade
de sustentar-se em Portugal, foi obrigado a capitular, propondo a célebre
Convenção de Cintra, que assinou em 30 de Agosto o general Dalrymple, que tinha
sucedido a Wellesley no comando, para a total evacuação de Portugal pelo
exercito francês, o a 15 de Setembro seguinte arvorou-se em Lisboa a bandeira
portuguesa. Assim terminou a primeira invasão francesa. As condições da
Convenção, em que não figuraram portugueses, foi reprovada, tanto em Portugal,
como em Inglaterra. Bernardim Freire e o conde de Castro Marim foram os
primeiros a protestar; em Londres, os jornais ocuparam-se largamente do assunto,
que foi também discutido no parlamento; o governo britânico mandou meter em
processo o general que a assinou. A Espanha, a que Napoleão quisera impor para
rei seu irmão José, depois de ter arrancado em Baiona a Carlos IV e a seu filho
D. Fernando uma abdicação forçada, revoltara-se contra os franceses. As tropas
inglesas, comandadas por John Moore, pretenderam passar de Portugal a Espanha,
mas foram derrotadas na Corunha pelo general Soult no principio do ano de 1809,
sendo obrigadas a embarcar, descobrindo a fronteira portuguesa, que o general
Soult invadiu pela provinda do Minho em Março de 1809 com um numeroso exercito.
A cidade do Porto foi tomada no dia 24 desse mês. Soult, afagando vagas ideias
de uma realeza portuguesa, não prosseguiu na sua marcha, o que permitiu que a
regência de Portugal desse o comando do nosso exército, para o disciplinar e
instruir, ao general inglês Beresford. 0 exército anglo‑luso marchou para o
norte às ordens do general Wellesley, e a 29 de Maio recuperou a cidade do
Porto, perseguindo os franceses até à fronteira do norte, e obrigaria o general
Soult a capitular, se ele se não esquivasse para a Galiza numa retirada
habilíssima. Descendo ao sul, Wellesley entrou em Espanha, deu a batalha de
Talavera, e retirou para Portugal, conservando-se o exército português em
observação. Em 1810 houve a terceira invasão francesa, sendo o exército
comandado pelo general Massena. Depois de tomar Almeida, marchou para Lisboa, e
atacou a 27 de Setembro o exército anglo-luso postado nas alturas do Buçaco; foi
repelido com perdas graves, mas no dia seguinte pôde tomar a posição, o que
obrigou o general inglês a retirar-se precipitadamente para cobrir Lisboa.
Massena avançou, devastando tudo pelo caminho, mas esbarrou na frente das linhas
de Torres Vedras, em que ficou vencido. Até 1814 deram-se diferentes batalhas em
que os franceses foram sempre derrotados, até que afinal Massena abandonou
Portugal, terminando assim a guerra da Península. A Legião Portuguesa, que fora
a França combater às ordens de Napoleão, regressou a Portugal.
No entretanto, a família real e a corte conservavam-se no Brasil. 0 príncipe D.
João dirigira os negócios do reino, mas despachou sempre em nome da rainha, sua
mãe, até 14 de Julho de 1799, em que perdidas completamente as esperanças do
restabelecimento da infeliz enlouquecida, assumiu oficialmente a regência. Em 16
de Março de 1816 faleceu D. Maria I, e D. João VI começou a reinar como soberano
no dia 20, sendo aclamado e coroado rei do Reino Unido de Portugal, Brasil, a 6
de Fevereiro de 1818. Na vida doméstica o monarca era muito infeliz. A rainha D.
Carlota Joaquina, além do seu procedimento escandaloso, não se cansava de
levantar obstáculos de todo o género em Portugal conspirando contra o rei,
correndo até o boato de que pretendera envenená-lo, na América, procurando
formar um reino para si com uma parte das colónias espanholas. 0 Brasil havia
acolhido com entusiasmo a família real, cuja residência ia transformá-lo de
colónia em metrópole. Por isso também escapou ao contágio da revolução, e nem
pensou em reclamar a sua independência. Mas, ao terminar a guerra da península,
tendo D. João VI continuado a demorar-se na América, Portugal começou a
inquietar-se e a indignar-se, tanto mais que o general Beresford, que ficara em
Portugal comandando o nosso exército, com muitos oficiais ingleses a comandarem
os nossos regimentos, governava mais do que a regência, o que sobremaneira
exaltava o ânimo do povo, pouco sofredor do jugo estrangeiro. Além disso, aqui,
como em toda a Europa, começavam a fermentar as ideias liberais espalhadas pela
revolução francesa. Em 1817 tramou-se uma conspiração promovida em parte pelas
ideias liberais, em parte pela indignação contra o estado de colónia a que
Portugal estava reduzido. Essa conspiração foi afogada cruelmente pela morte de
Gomes Freire de Andrade e das vítimas do Campo de Sant'Ana. No Brasil também
fermentavam nalgumas províncias as ideias republicanas e as de autonomia
americana. A revolução que rebentou em Pernambuco, em 1817, foi prontamente
sufocada.
Em 24 de Agosto de 1820 deu-se uma revolução no Porto, com o fim de dar ao país
um governo constitucional, e em 15 de Setembro formou-se um governo provisório,
mas apenas se reuniram as cortes gerais constituintes, foi substituído por um
governo executivo, com o titulo de Regência, durante a ausência de el-rei. 0
congresso encarregou uma comissão escolhida, entre os seus membros, de
estabelecer as bases da Constituição. 0 conde de Palmela, D. Pedro de Sousa
Holstein, mais tarde marquês e duque do mesmo título, era ministro dos
estrangeiros, para que fora nomeado em 1817; vindo a Lisboa, onde teve de se
demorar por causa dos seus negócios domésticos, assistiu à revolução de 1820.
Julgara o ilustre diplomata poder encaminhar o movimento do Porto, por forma a
produzir em Portugal um governo constitucional, à imitação do de Inglaterra.
Era, porém, tarde, e o movimento iniciado no Porto, desenvolvendo-se com
rapidez, não permitiu que fossem postos em prática os seus planos prudentes e
patrióticos. Partiu então para o Rio de Janeiro em Outubro de 1820, com o
intuito firme de persuadir D. João VI a que aceitasse o regime constitucional e
evitasse por esta forma as gravíssimas dificuldades que se apresentavam a todo o
observador sincero e esclarecido. No Rio de Janeiro encontrou mais contradições
do que esperava. A corte não acreditava na gravidade das circunstâncias, nem se
mostrava receosa da opinião pública no Brasil, mas depressa se desenganou com as
notícias chegadas de Portugal e a sublevação da Baía. Só então é que D. João VI,
aceitando os conselhos de Palmela, se determinou a mandar a Portugal o príncipe
D. Pedro, para outorgar a base duma constituição, e a convocar no Rio de Janeiro
uma assembleia de notáveis, de todas as províncias, para se assentar na forma de
governo, que se havia de dar ao Brasil. 0 príncipe, porém, recusou-se a partir,
por conselho de maus conselheiros, e por andar secretamente conivente nas
intrigas que se armavam para se conseguir a independência do Brasil. Nestas
circunstâncias, D. João VI foi forçado a regressar a Portugal. Deixou no Brasil
como seu lugar-tenente o príncipe D. Pedro, e embarcando com o resto da família
real para a Europa, entrou no Tejo a 3 de Julho de 1821.
Feita a Constituição, foi jurada pelo soberano no dia 1.º de Outubro de 1822. No
Brasil, no dia 7 de Setembro do mesmo ano de 1822, D. Pedro, no conflito que se
erguera entre o Brasil e as cortes portuguesas onde os deputados brasileiros
tinham sido até ali acolhidos dum modo hostil, optava pelo Brasil, e a
independência brasileira ficou de facto proclamada, tomando o príncipe real D.
Pedro o título de imperador. Assim ficou constituído o império do Brasil. 0
monarca reconheceu com bastante mágoa aquela independência, pelo decreto de 29
de Agosto de 1825, reservando para si o tratamento de imperador titular do
Brasil, e desde então, todos os diplomas se passavam em nome Sua Majestade o
Imperador e Rei. D. João VI exercia as suas funções de rei constitucional, ao
passo que a rainha D. Carlota Joaquina continuava a levantar-lhe obstáculos,
manifestando um ódio entranhado ás instituições constitucionais, contra as quais
conspirou. Esta forma de governo prevaleceu até ao ano de 1823, em que se formou
uma insurreição, tendo à frente o infante D. Miguel, filho predilecto da rainha.
A contra-revolução rebentou em Lisboa no dia 27 de Maio; o infante D. Miguel foi
para Vila Franca, e ali se lhe reuniu o regimento de infantaria n.º 23, e
aclamou-se em Vila Franca o absolutismo. Esta contra-revolução ficou conhecida
pelo nome de Vilafrancada.
0 infante e a rainha queriam ir mais adiante e alcançar a abdicação do rei, que,
fiel ao seu juramento, queria manter a Constituição, apesar das numerosas
adesões que a causa do absolutismo continuava a receber em Vila Franca, mas a
revolta do regimento de infantaria n.º 18, que, reunido com magotes de povo, foi
ao paço da Bemposta aclamar o rei absoluto, decidiu D. João VI a tomar a
direcção de movimento absolutista, e partindo para Vila Franca, voltou dali em
triunfo a Lisboa, acompanhado de muitos fidalgos entusiasmados pela reacção. As
cortes dispersaram-se, depois de protestarem contra quaisquer alterações que se
fizessem na Constituição, o regime absoluto ficou restabelecido novamente em
Portugal. No entretanto D. Carlota Joaquina e o infante D. Miguel continuavam
nas suas intrigas. Nos fins do ano de 1823 a polícia descobriu uma conspiração
planeada pela rainha e o infante seu filho, que fora nomeado comandante em chefe
do exército, para forçar D. João VI a uma abdicação. Prevenidas a tempo as
autoridades, ficou malograda a conspiração, que poucos meses depois de novo se
animou. Os motivos de queixa alegados pelos partidários da rainha contra o rei
era a demasiada benevolência que ele mostrava com os liberais, e a promessa que
lhes fizera, e parecia desejar cumprir, de outorgar uma constituição no reino. A
28 do Fevereiro de 1824 foi assassinado o marquês de Loulé em Salvaterra, crime
que a voz publica atribuiu ao infante D. Miguel ou aos seus apaniguados, e que
veio revelar como o partido miguelista se queria livrar dos homens mais afectos
ao rei, e que poderiam aconselhá-lo bem ou defende-lo em críticas
circunstâncias. A 30 de Abril de 1824, D. Miguel, como comandante em chefe do
exército, chamava as tropas às armas, prendia diversos ministros e personagens
importantes, conservava seu pai guardado à vista e incomunicável no paço da
Bemposta, e proclamava ao povo, dizendo-lhe que uma conspiração de pedreiros
livres tramava o assassínio do rei, e que ele infante se erguera para o
proteger; o que ele tentava, porém, era obrigar seu pai a abdicar, quando o
corpo diplomático, tendo à sua frente o ministro de França Hyde de Neuville,
entrou no Paço, obrigando as sentinelas que tinham ordens em contrário a
deixarem-no passar, protestando todos os ministros contra qualquer violação à,
autoridade real. Isto obrigou a rainha e o infante a serem mais moderados. Ficou
conhecida esta revolta pela designação de Abrilada. El-rei, no dia 9 de Maio,
por conselho dos embaixadores da França e da Inglaterra, simulou um passeio a
Caxias, e foi recolher-se a bordo da nau Windsor Castle. Mandou então chamar o
filho, repreendeu-o asperamente, demitiu-o do seu cargo de comandante em chefe
do exército, e exilou-o para o estrangeiro. No dia 14 do referido mês voltou
para o paço da Bemposta, restabeleceu o ministério, mostrando-se muito
benevolente para com os revoltosos da Abrilada. A polícia descobriu nova
conspiração, que devia rebentar no dia 26 de Outubro do mesmo ano de 1824.
Tomaram-se então algumas medidas enérgicas, e D. Carlota Joaquina foi presa para
Queluz.
Todos estes desgostos, e o pesar que lhe causou o ver-se obrigado a reconhecer a
independência do Brasil, lhe alteraram a saúde, abreviando-lhe a morte. Antes de
falecer, nomeou uma Junta de Regência, pelo decreto de 6 de Março de 1826, a
qual seria presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do
cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e 6
ministros de Estado. D. João VI animou as letras, as artes, o comércio e a
agricultura; fundou alguns estabelecimentos, em que se conta o Instituto dos
Surdos-Mudos e Cegos.
Do seu matrimónio, houve os seguintes filhos: D. Maria Teresa, casada em
primeiras núpcias com o infante de Espanha D. Pedro Carlos de Bourbon, e pela
segunda vez com D. Carlos Maria Isidoro, também infante de Espanha e seu
cunhado; D. António, príncipe da Beira, que faleceu com 6 anos, em 1801; D.
Maria Isabel, que casou com o rei de Espanha, Fernando VII; D. Pedro IV; D.
Maria Francisca de Assis, casada com o príncipe de Espanha, já citado, D. Carlos
Maria Isidoro, o qual por morte desta sua primeira mulher, passou a segundas
núpcias com sua cunhada, a infanta D. Maria Teresa; D. Isabel Maria, que se
conservou solteira, e foi regente do reino; o infante D. Miguel; D. Maria da
Assunção, que também faleceu solteira; D. Ana de Jesus Maria, que casou com o
marquês de Loulé, Nuno José de Mendonça Barreto.
D. João VI foi o 8.º príncipe da Beira e do Brasil, o 21.º duque de Bragança,
18.º de Guimarães, 16.º de Barcelos, 20.º marquês de Vila Viçosa, 24.º conde de
Arraiolos; 22.º conde de Ourém e de Barcelos, de Faria e de Neiva; grão‑prior do
Crato e senhor da Casa do Infantado; grão-mestre das ordens militares de Cristo,
Avis, S. Tiago da Espada, da Torre e Espada, restaurada em Maio de 1808, à qual
deu nova forma e regulamento pela lei de 29 de Novembro do mesmo ano, ampliado
pelo alvará de 5 de Julho de 1809; da ordem de S. João de Jerusalém, e
grão‑prior em Portugal; grã-cruz da ordem de N. Sr.ª da Conceição, que ele
instituiu a 6 de Fevereiro de 1818; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, e
grã-cruz das ordens de Carlos III, S. Fernando e Isabel a Católica, em Espanha;
do Santo Espírito, S. Luís, S. Miguel e da Legião de Honra, em França; de
Leopoldo da Áustria, e de Santo Estêvão da Hungria, da Coroa de Ferro, de
Itália; das de S. André, S. Alexandre Nevsky e de Sant’Ana da Rússia, cavaleiro
da ordem da Jarreteira em Inglaterra; grã-cruz da do Elefante, de Dinamarca; do
Leão Neerlandês, dos Países Baixos; da Águia Negra, na Prússia. Serviu de
condestável no acto da aclamação de sua mãe, a rainha D. Maria I.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1051-1055.
D. Carlota Joaquina de Bourbon - Princesa espanhola e rainha de Portugal.
Nasceu em Aranjuez a 25 de Abril de 1775; faleceu em Queluz a 7 de Janeiro de
1830. Era filha primogénita do rei Carlos IV de Espanha e da rainha sua mulher;
D. Maria Luísa Teresa de Bourbon.
Tendo apenas 10 anos de idade, casou em 8 de Maio de 1785 com o príncipe D.
João, filho de D. Maria I, o qual, em 1788, por morte de seu irmão primogénito
D. José, foi declarado príncipe herdeiro, sendo mais tarde regente do reino,
pela interdição de sua mãe, e finalmente rei de Portugal, com o nome de D. João
VI. D. Carlota Joaquina passava geralmente por ser de ânimo perspicaz e de dotes
elevados de espírito, porém, as suas qualidades morais não mereceram igual
apreço. Ambiciosa, violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e
dirigi-lo nos negócios internos e nos do Estado. Não se submetendo o regente,
começou D. Carlota a olhá-lo com desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico
em continua luta, cujos menores incidentes eram discutidos e comentados nas
praças públicas.
D. Carlota dispôs as coisas de forma, que criou um partido seu, e em 1805
divulgou-se que o regente descobrira uma conspiração tramada contra ele por sua
própria esposa. Dizia-se que ela, tendo a seu lado vários nobres e
eclesiásticos, projectava tirar o governo a seu marido, e prende-lo,
declarando-o incapaz de gerir os negócios públicos. O conde de Vila Verde
dispunha-se a abrir uma devassa e castigar os criminosos, porém o regente,
desejando evitar maior escândalo, não consentiu, limitando-se a separar-se de
sua mulher, dando-lhe para residência o palácio de Queluz, onde antes viviam
juntos, passando ele a residir em Mafra, e a exilar alguns fidalgos que mais se
manifestavam afectos à princesa. A desgraçada situação a que chegou Portugal, em
1807, fez com que os dois esposos se reunissem por algum tempo, e a esquadra,
que em Novembro deste ano conduziu o príncipe regente e D. Maria I ao Brasil,
levava também a seu bordo a astuciosa princesa. No Rio de Janeiro continuaram
vivendo separados, cada um em seu palácio, reunindo-se apenas, quando eram
obrigados a comparecer nalguma solenidade pública. D. Carlota Joaquina é que se
não resignava à inacção política a que se via condenada, decidida, como estava,
a dominar como soberana; e começando a lavrar no Rio da Prata os primeiros
sintomas de emancipação, concebeu o projecto de levantar para si um trono nas
províncias espanholas da América, ou pelo menos, de governar como regente em
nome de seu irmão Fernando VII. Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney
Smith, e não encontrando oposição em seu marido, foram enviados agentes ao Rio
da Prata, onde formaram um grande partido. As intrigas principiaram então a
desenvolver-se mais cruéis e enredadoras. O ministro inglês, lorde Strangford,
insinuou a D. João que o vice-almirante lhe desonrava o tálamo conjugal. D. João
pediu logo para Londres transferência do vice-almirante. Satisfeito o seu
pedido, Sydney Smith retirou-se, vindo substitui-lo o almirante de Courcy. No
entretanto, as divergências eram enormes. No próprio governo havia correntes
muito opostas. D. João, cada vez mais abatido e com medo da mulher, pedia que
não a contrariassem sempre que as suas exigências não fossem impossíveis de
satisfazer. Anulados afinal os planos da rainha, nem assim ela esmoreceu.
Procurou ser agradável aos castelhanos, e conseguir, na falta de seu pai e
irmão, prisioneiros em Franca, ser nomeada regente de Espanha, e vir talvez a
ser a herdeira de Carlos IV, abolindo-se a lei sálica que vigorava na monarquia.
Para realizar o seu projecto, teve de sustentar uma acerba luta com o embaixador
inglês, tendo a astúcia de alcançar que o governo da regência lhe permitisse
enviar secretamente ao general Elio, que estava em Montevideu, víveres e
dinheiro, para o que não hesitou em vender as suas próprias jóias. Afinal, e
visto não ser possível narrar detidamente as variadas peripécias desta luta de
orgulhos e de ambições, o sonho que tanto seduzira D. Carlota Joaquina
dissipou-se. Viveu alguns anos afastada da política, sempre separada de seu
marido, que então, já havia sido aclamado rei, por ter falecido D. Maria I em
1816, até que a revolução do Porto em 1820, que trouxe para a Europa a família
real, pôs novamente em evidência a rainha, reunindo algum tempo os dois esposos.
Aliada aos frades, aos nobres, aos que se mostravam pouco simpáticos ao novo
regime, urdia a conspiração chamada da rua Formosa, destinada a obrigar o rei a
abdicar e a destruir a Constituição. Falhando esse plano, as cortes de 15 de
Maio de 1822 decidiram deportar a rainha para o palácio do Ramalhão, por ela se
recusar a jurar a Constituição, alvitre que ela aceitou com júbilo, pois lhe
permitia continuar a sua obra perturbadora. Neste retiro tramou ainda a queda da
Constituição; e servindo-se do infante D. Miguel, que ela educara, e com quem
vivia intimamente, conseguiu realizar o movimento conhecido por Vilafrancada em
26 do referido mês de Maio. Derrubada a Constituição e dissolvidas as cortes,
foi levantado o desterro da rainha, e o próprio D. João VI a foi buscar à quinta
do Ramalhão, conduzindo-a ao paço da Bemposta. Pouco tempo, porém, durou a
harmonia entre os dois esposos, porque a rainha mudou a sua residência para
Queluz, e tornou-se cabeça do partido absolutista que dentro em pouco promoveu a
Abrilada a 30 de Abril de 1824. Tendo a rainha tomado parte activa e manifesta
nesse movimento, quando D. João VI, apoiado nos embaixadores francês e inglês,
se decidiu a mandar sair do reino o infante D. Miguel, ordenou que sua mulher se
recolhesse ao paço de Queluz, e nunca mais aparecesse na corte. A 10 de Março de
1821 faleceu D. João VI, tendo previamente nomeado uma regência presidida por
sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do cardeal patriarca, duque de
Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e os seus ministros de Estado. D.
Carlota Joaquina durante o governo de D. Miguel, que se seguiu, auxiliou-o
quanto pôde, vindo a falecer pouco tempo depois.
Instituiu uma ordem exclusivamente destinada às senhoras, com a autorização do
príncipe regente, seu marido, por decreto de 4 de Novembro de 1801, com a
designação de Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram
confirmados pelo alvará de 25 de Abril de 1804.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume II, págs. 760-761.