Chegada da Família Real ao Brasil -

22 de Janeiro


 

 

 

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

Formatação: Iara Melo

 


 

D. João, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves foi o título do herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, entre 1808 e 1822. O título foi criado pelo futuro D. João VI, após ter elevado o Brasil à categoria de reino, unido ao de Portugal, ainda em 1808. Destinou-o aos herdeiros da coroa, substituindo o título de Príncipe do Brasil. Ele próprio, ainda como Príncipe Regente, foi o primeiro a assumir o título. Porém, o novo título foi extinto poucos anos depois, devido à declaração de independência do Brasil, em 1822, sendo substituído pelo de Príncipe Real de Portugal para os herdeiros do trono português, e pelo de Príncipe Imperial do Brasil para os do trono brasileiro.
(…) Quando Junot entrou em Lisboa e soube que a Família Real tinha partido para o Brasil, mostrou-se profundamente desiludido, e com razão, porque via, desta forma, desfeitos os planos de Napoleão Bonaparte. Se o Príncipe regente não tivesse tomado aquela atitude, seria obrigado, como aconteceu a outros soberanos europeus, a aceitar todas as condições que lhe quisessem impor. Livre, porém, o governo português, este ficou em situação de continuar a luta contra o invasor e manteve a independência de que necessitava para estabelecer alianças com povos amigos, de acordo com a Inglaterra e os outros antagonistas da França. Salvaguardando a continuidade da monarquia, D. João VI salvou, ao mesmo tempo, a Europa inteira do imperialismo francês, que tentava subverter os Estados, cujos monarcas eram prisioneiros ou reféns de Napoleão (…).
Na busca de outras maneiras para derrotar ou enfraquecer os ingleses, o Império Francês decretou o Bloqueio Continental em 1806, onde Napoleão determinava que todos países europeus deveriam fechar seus portos para o comércio com a Inglaterra, enfraquecendo as exportações do país e causando uma crise industrial.
Um problema que afectou muitos países que participaram do Bloqueio era que a Inglaterra, que já havia passado pela Revolução Industrial, estava com uma consolidada produção de produtos industriais, e muitos países europeus ainda não possuíam produção industrial própria, e dependiam da Inglaterra para importar este tipo de produto, em troca de produtos agrícolas.
A França procurou beneficiar do Bloqueio com o aumento da venda dos produtos produzidos pelos produtores franceses, ampliando as exportações dentro da Europa e no mundo. A fraca quantidade de produtos manufacturados deixou alguns países sem recursos industriais.
 
Tratado de Fontainebleau

Em 1806, depois do fracasso na tentativa de invasão à Inglaterra, Napoleão decretou o Bloqueio Continental. Portugal, tradicional aliado da Inglaterra, se nega a acatá-lo. Napoleão então decide invadir Portugal. Mas, para isso, Napoleão precisava levar as suas tropas até o território português. Então, em 27 de Outubro de 1807, Manuel Godoy e Napoleão firmam o Tratado de Fontainebleau, por ele que se permitia o passar de tropas francesas pelo território espanhol a fim de invadir Portugal.
TRATADO SECRETO ENTRE A ESPANHA E A FRANÇA EM FONTAINEBLEAU AOS 27 DE OUTUBRO DE 1807
Nós Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, tendo visto e examinado o tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc, ele., em virtude de plenos poderes conferidos por nós para este fim, com D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade o rei de Espanha, o qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é na forma seguinte : Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade católica, o rei da Espanha, desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros plenipotenciários, a saber: sua majestade o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e sua majestade católica, rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro honorário de estado e da guerra, os quais ministros, havendo ambos mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte:
Artigo 1. A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para sua majestade, o rei da Etrúria, com o título de rei da Lusitânia setentrional.
Artigo 2. A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do titulo de príncipe dos Algarves.
Artigo 3. As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstancias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes.
Artigo 4. O reino da Lusitânia setentrional será tido pelos descendentes de sua majestade, o rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão, estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.
Artigo 5. O principado dos Algarves será lido pelos descendentes do príncipe da Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.
Artigo 6. Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do rei da Lusitânia do norte, ou do príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do rei de Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se anexarão à coroa de Espanha.
Artigo 7. O reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves reconhecerão como protector sua majestade católica, el-rei de Espanha, e em nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu consentimento.
Artigo 8. No caso de que as províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à casa de Bragança, em troca de Gibraltar, Trindade e outras colónias, que os ingleses têm conquistado à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente a sua majestade católica, el-rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o rei da Lusitânia setentrional e o príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das mesmas condições.
Artigo 9. Sua majestade, o rei da Etrúria, cede o reino da Etrúria em plena propriedade e soberania a sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália.
Artigo 10. Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas, os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários para verificar os seus limites naturais.
Artigo 11. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, garante a sua majestade católica, el-rei de Espanha, aposse dos seus domínios no continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus.
Artigo 12. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, se obriga a reconhecer a sua majestade católica, o rei da Espanha, como imperador das duas Américas, quando tudo estiver pronto para sua majestade assumir este titulo, que pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar três anos depois daquela época.
Artigo 13. As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual divisão das ilhas, colónias e outras possessões ultramarinas de Portugal.
Artigo 14. O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura. Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807. = Napoleão. = O ministro dos negócios estrangeiros,
Champagny. = O secretario de estado, Maret.
CONVENÇÃO SECRETA, ENTRE A ESPANHA E FRANÇA DE 27 DE OUTUBRO DE 1807, TENDO POR FIM REALIZAREM A PROMETIDA DIVISÃO E OCUPAÇÃO DE PORTUGAL, ESTIPULADO NO PRECEDENTE TRATADO. Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno; tendo visto e examinado a convenção concluída, arranjada e assinada em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cordão da Legião de Honra, etc., etc., em virtude dos plenos poderes que nós lhe conferimos, de uma parte; e da outra parte D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade, o rei de Espanha, igualmente munido com plenos poderes pelo seu soberano, o teor da qual convenção era o seguinte: Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade, o rei de Espanha, desejando entrar em um arranjamento, relativamente à ocupação e conquista de Portugal, conforme as estipulações do tratado assinado na data de hoje, têm nomeado, a saber: sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do seu palácio, grão-cordão da Legião de Honra, e sua majestade católica, el-rei de Espanha, D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro de estado honorário e da guerra, os quais, depois de haverem mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram nos seguintes artigos:
Artigo 1 Um corpo de tropas imperiais francesas de 25:000 homens de infantaria e 3:000 de cavalaria, entrará em Espanha, e marchará directamente para Lisboa; unir-se-ão a estas um corpo de 8:000 homens de infantaria espanhola, e 3:000 de cavalaria, com 30 peças de artilharia.
Artigo 2 Ao mesmo tempo uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10:000 homens, tomará posse da provinda de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e outra divisão de 6:000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do Alentejo e do reino dos Algarves.
Artigo 3 As tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha, e o seu pagamento providenciado por França, durante o tempo empregado na sua marcha por Espanha.
Artigo 4 Ao momento em que as tropas combinadas entrarem em Portugal, o governo e administração das províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa (que devem ficar em estado de sequestro), serão investidos no general comandante das tropas francesas, e as contribuições impostas nas mesmas províncias serão em beneficio da França. As províncias, que devem formar o reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves, serão administradas e governadas pelos generais comandantes das divisões espanholas que entrarem nas mesmas, e as contribuições impostas nelas serão a beneficio da Espanha.
Artigo 5 O corpo central estará debaixo das ordens do comandante das tropas francesas, a quem também obedecerão as tropas espanholas unidas a este exército. Contudo se o rei da Espanha, ou o príncipe da Paz, julgar conveniente ir ao exército, as tropas francesas com o general que as comandar, ficarão sujeitas as suas ordens.
Artigo 6 Outro corpo de 40:000 homens de tropas francesas se ajuntará em Bayonna, cerca dos 20 de Novembro próximo futuro ao mais tardar, estando pronto para entrar na Espanha, para o fim de marchar para Portugal, no caso em que os ingleses lá mandassem reforços, ou ameaçassem com um ataque. Este corpo adicional porém não entrará em Espanha até que as duas altas partes contratantes tenham concordado sobre este ponto.
Artigo 7 A presente convenção será ratificada, e as ratificações trocadas ao mesmo tempo que o tratado desta data.
Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubros de 1807.;= (Assinados) Duroc=E. lzquierdo.
Invasões Francesas
Primeira Invasão Francesa
Sob o comando do General Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de Outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno Inverno, e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Sem encontrar resistência, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes a 24, em busca de provisões. Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor do Inverno, o exército francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém a 28, de onde partiu no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou a 30, à frente de dois regimentos em mau estado. No dia anterior, a Família Real e a Corte portuguesa haviam largado ferros da barra do rio Tejo, rumo ao Brasil, levando em 34 navios de guerra portugueses, cerca de 15.000 pessoas, deixando o governo de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos invasores.
No ano seguinte, em Agosto, uma força britânica sob o comando do general Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington), desembarcava em Portugal, avançando sobre Lisboa. Travaram-se, na sequência, a batalha de Roliça e a batalha do Vimeiro, vencidas pelos aliados Portugal/Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, forçando à Convenção de Sintra.

Convenção de Sintra

A Convenção de Sintra, foi um acordo entre Inglaterra e França, assinado no Palácio de Queluz a 30 de Agosto de 1808, encerrou a primeira invasão francesa a Portugal, no contexto da chamada Guerra Peninsular.
Após a derrota das tropas napoleónicas na batalha de Roliça (17 de Agosto) e na batalha do Vimeiro (21 de Agosto), o general Junot propôs aos ingleses um armistício. Após as negociações decorridas em Sintra, chegou-se à forma final do documento pelo qual se permitia a retirada das tropas francesas, embarcadas em navios ingleses, transportando as suas armas, bagagens e o produto dos saques efectuados em Portugal.
O acordo traduzia-se em benefícios mútuos: Junot, sem linhas de comunicação confiáveis com a França, retirava suas tropas sem maiores perdas e em segurança. Os ingleses ganhavam o controle da capital, Lisboa, e da temida linha de defesa da barra do rio Tejo, sem necessidade de combate.
Com este acordo, os franceses ganharam tempo e voltariam a invadir Portugal um ano mais tarde.

Segunda Invasão Francesa

Enquanto a invasão de Portugal sucedia, Napoleão forçou a abdicação do rei Carlos IV de Espanha e de seu herdeiro, D. Fernando (Baionne, 1808), conduzindo ao trono espanhol o seu irmão José Bonaparte. Os espanhóis revoltaram-se contra os usurpadores franceses, obtendo apoio das tropas Britânicas estacionadas no norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, os Britânicos passam a fronteira no início de 1809, para serem derrotados, na Corunha, pelo Marechal Soult. Obrigadas a retirar, deixaram a descoberto a fronteira com Portugal, permitindo a Soult, invadir o país pela fronteira do Minho em Março de 1809, avançando até à cidade do Porto, cidade que ocupam a 24 desse mês, fixando fronteira no rio Douro. Em Maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Beresford, vencem a chamada batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto (29 de Maio) e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as tropas de Wellesley travaram a batalha de Talavera em território espanhol e regressaram a Portugal.
É de salientar ainda a importância da escaramuça de Serém, Concelho do Vouga — região pantanosa do rio Vouga e do rio Marnel, actualmente pertencente ao Concelho de Águeda —, em que o Capitão-Mor do Vouga, José Pereira Simões, travou o avanço para o Sul do Marechal Soult, até à chegada do Coronel Nicholas Trant e do Batalhão Académico e, posteriormente, do General Arthur Wellesley, com reforços. Como consequência, as hostes do Marechal Soult não conseguiram atravessar o rio Vouga, perderam a escaramuça de Serém e foram obrigados a retirar-se para o Norte, tendo-se acantonado na cidade do Porto.

Terceira Invasão Francesa e Contra-Ofensiva

Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o comando do Marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal, conquistou a Praça-forte de Almeida (Agosto), na fronteira, marchando em seguida sobre Lisboa. Interceptado pelas forças Luso-Britânicas, foi derrotado na batalha do Buçaco (27 de Setembro). Reagrupando as suas forças, retomou a marcha, flanqueando as tropas Luso-Britânicas e forçando-as a recuarem para defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de Outubro, erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas Luso-Britânicas os aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte.

Contra-Ofensiva

A campanha dos exércitos Britânico, Português e Espanhol, entre Maio e Agosto de 1813, culminou na batalha de Vitória, seguida um mês depois pela batalha dos Pirenéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história Europeia foi modificado de forma decisiva. Seguiram-se uma série de batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de Abril de 1814), que colocou fim à Guerra Peninsular.

Batalha do Buçaco (considerações acerca da Batalha)

A batalha de Buçaco teve uma importância capital para o resultado da campanha pela acção moral que exerceu nos dois exércitos contrários.
O exército anglo-luso perdeu o medo às águias napoleónicas, que ameaçavam dilacerar a Península
os ingleses reconheceram que os soldados portugueses eram dignos émulos no valor e brio militar, com os quais podiam e deviam contar. O moral do exército dos aliados foi exaltado.
Os franceses reconheceram que não eram invencíveis ao medirem-se com as tropas inimigas, que até então tinham em pouca conta:
As desinteligências que lavravam entre os generais franceses mais se acentuaram; e a incapacidade de Massena, já apontada por Ney antes da batalha do Buçaco, tornou-se frisante.
Massena sentiu-se golpeado no seu amor próprio: a Vitória abandonava o seu filho querido.
E, quando este julgava fazer calar os descontentes e insofridos por um estrondoso triunfo, viu que, ao contrário, a sua derrota mais ia insuflar a indisciplina dos generais seus subordinados.
Não estava de todo perdido o exército, podia haver ainda probabilidades de uma vitória; mas era preciso proceder com ponderação.
No Buçaco vira ele quanto Wellington. se soubera aproveitar das propriedades defensivas do terreno.
Atacar novamente em terreno análogo seria uma temeridade, porque uma nova derrota poderia trazer consigo uma capitulação, mancha vergonhosa que viria empalidecer e murchar os verdejantes louros do herói de Rivoli, de Zurique, de Génova, de Caldiero e de Essling.
Era necessário ser-se prudente; ponderado.
A derrota do Buçaco cortou as asas a Massena e impediu que voasse até aos cerros de Alhandra, do Sobral de Monte Agraço, de Torres.
Se não fora a derrota do Buçaco, Massena teria sido mais ousado em frente das Linhas de Torres, e quem sabe, se não teria saído vitorioso.
A vitória do Buçaco teve, portanto; consequências imediatas e materiais; e mais ainda, consequências morais e futuras.
Apreciando agora a batalha em si, vamos fazer algumas considerações relativamente aos dois partidos.
Os reconhecimentos mandados executar por Massena foram muito incompletos. Os oficiais que os realizaram não souberam desempenhar-se da sua missão.
Daí resultou o erro de Massena. Julgando o flanco esquerdo do exército anglo-luso em Sula, e ignorando que se prolongava até ao ninho de Águia, adoptara os dispositivos para envolver a posição de Sula, o que não sucedeu.
O ponto escolhido para o ataque, do 2." Corpo - a portela de Santo António do Cântaro - era judicioso e de uma grande importância, pois a posse daquela parte da serra separaria as forças anglo-lusas. Uma parte do exército seria lançado sobre o Mondego e retira ria nas mais precárias circunstâncias; a outra parte seria cortada da estrada do Botão a Coimbra, sendo obrigada a efectuar uma retirada excêntrica, e permitindo aos franceses chegarem primeiro àquela cidade que o exército anglo-luso.
Destas considerações resulta que o ataque a Santo António do Cântaro deveria ter sido o principal, porque era o decisivo, e para isso Massena deveria ter empregado o 6." corpo e não 0 2.°, visto que aquele tinha três divisões e este duas.
O ataque a Sula seria secundário. Mas estes dois ataques deveriam ter sido simultâneos para deixar o inimigo na indecisão. Não sucedeu, porém, assim.
Ney atacou 1h 30 m depois de Reynier, e quando este já tinha sido derrotado.
Esta falta de coordenação de esforços resultou da falta de ligação entre os dois corpos de exército.
E certo que Massena ordenara que esses ataques fossem simultâneos; mas não bastava ordenar, seria necessário tomar as disposições necessárias para garantir a execução dessa ordem.
Reynier cometeu também a falta de só empregar uma divisão na 1.ª linha, deixando uma outra como reserva; e quando esta foi chamada a intervir, apenas uma brigada avançou.
No 6.° corpo a divisão, que servia de reserva geral não chegou a enviar força alguma a apoiar as outras duas. As reservas parciais das duas divisões avançadas também. não foram judiciosamente empregadas.
Houve, pois, da parte dos franceses: má preparação, boa concepção e má execução.
Examinando agora o que se passou do lado do exército anglo-luso, vemos que Wellington, ainda que vencedor, não pôde efectuar a perseguição, última, mas imprescindível fase de uma batalha, para se tirar todo o proveito da vitória. Isto era consequência da posição ocupada; pois a posição do Buçaco não permitia tomar a ofensiva.
Por isso na própria Inglaterra se disse «que a batalha do Buçaco fora uma batalha política e não uma batalha militar».
Mas se Wellington não pôde efectuar a perseguição, ainda pior foi o deixar-se surpreender tacticamente, visto que foi forçado a abandonar a posição duma maneira precipitada, tendo de efectuar a retirada sem ordem, e vendo-se obrigado a abandonar grande parte das suas munições, fardamentos, víveres e feridos.
E incompreensível que um exército vitorioso não tivesse a energia suficiente para se ir opor nos desfiladeiros do Boialvo a um inimigo derrotado!
Enquanto que o exército de Massena retirava para Mortágua pelo mau caminho de Boialvo, o exército anglo-luso podia, por um caminho mais curto, ir ocupar o Boialvo e deter, se não aniquilar, o exército francês que ousava fazer uma marcha de flanco em presença dum inimigo vitorioso.
Wellington não julgava que Massena efectuasse a retirada pelo Boialvo e confiava que Trant com os seus milicianos tivesse ocupado aqueles desfiladeiros, como ele determinara. Trant, porém, só pôde chegar ao Sardão no dia 28 à tarde e apenas com 1.600 a 1.700 homens.
Wellington, porém, devia com a sua cavalaria, que estava sobre o estrada da Mealhada, procurar informar-se do que se passava para aqueles lados.
Na guerra devem ser previstas e prevenidas todas as hipóteses.
A retirada do exército anglo-luso fez-se sem consequências graves, porque o exército francês perdeu por várias vezes o contacto, em virtude da lentidão da marcha. As tropas francesas careciam de calçado, de fardamento, de víveres e tinham poucas munições.
Quando teve lugar a batalha do Buçaco, havia três ou quatro dias que o exército francês não comia pão. «N'avons pas de pain depuis quatre jours» dizia Junot em uma carta enviada no dia 28 de Setembro a sua mulher.
Há quem tenha também atribuído o triunfo do exército anglo-luso no Buçaco à superioridade da táctica inglesa sobre a táctica francesa, o que já se tinha evidenciado na batalha do Vimeiro.
De facto, o exército inglês tinha passado por uma grande transformação, desde que o duque de York fora nomeado comandante em chefe. O regulamento táctico mandado publicar em 1798, e que era o resultado dum profundo estudo do regulamento francês de 1791 e dos regulamentos alemães, era muito superior àquele.
Além disso tinham sido criados campos de instrução para se ministrar o ensino prático, tendo já muitos regimentos recebido essa instrução.
Enquanto a infantaria francesa formava ainda em três fileiras, a infantaria inglesa adoptou a formação em duas fileiras, o que permitia maior rapidez nos movimentos e aumento da reserva, quando se não queria aumentar as frentes de combate, ou cobrir a frente principal com fortes postos avançados.
Foi até este último dispositivo o adoptado por Wellington, que mandara ocupar os grupos de árvores e casas ou depressões de terrenos, ao alcance da artilharia, com postos avançados que sustentaram um fogo enérgico contra as colunas francesas, obrigando-as prematuramente a desenvolver-se e tornando mais difícil e perigoso o avanço pelas ásperas encostas da serra.
A artilharia, ocupando os, salientes, cooperou de uma maneira activa e judiciosa com .a infantaria, o que não sucedeu aos franceses, cuja artilharia não pôde sustentar as colunas de ataque.
A artilharia anglo-lusa representou um papel importante na batalha do Buçaco.
A infantaria, coberta como dissemos, por postos avançados, formava à retaguarda da crista do terreno, sustentada nalguns pontos por artilharia, que ocupava os intervalos, ou os flancos.
Em geral, os postos. avançados eram constituídos pelas 2 companhias extremas dos batalhões (1.ª e 10.ª) que eram formadas de atiradores de elite - granadeiros e caçadores. Como cada batalhão tinha 10 companhias., segue-se que 1/5 do seu efectivo era empregado nos postos avançados da posição.
Foi com este dispositivo táctico que o exército anglo-luso teve uma manifesta superioridade sobre o exército francês. As colunas francesas, precedidas por atiradores, chegavam exaustas à crista, tendo consumido os atiradores as suas munições no combate contra os postos avançados, e, quando se julgavam senhores do terreno, eis que surgia a linha principal dos defensores, executando uma descarga a 2o ou 35 metros e carregando imediatamente à baioneta. As colunas francesas não podiam resistir a esse choque, desapoiadas como estavam da sua artilharia, que não podia tomar posição na zona de terreno batida pelos fogos dos postos avançados e da artilharia avançada que ocupava os salientes.
Enquanto as forças atacantes chegavam cansadas e desunidas, as tropas anglo-lusas que ocupavam a linha principal, estavam frescas, sob a completa acção . dos chefes, e não desmoralizadas pelo fogo, nem pela vista do campo de batalha, pois se conservavam até ao último momento a coberto das vistas e do -fogo,--. inimigo.
As cargas à baioneta eram violentas, especialmente as realizadas pelas tropas . portuguesas, tornando-se surpreendentes as que foram executadas pelos nossos regimentos de infantaria n.°5 8 e 19, que ali se cobriram de glória.
Têm, pois, razão os que atribuem à táctica de combate do exército. anglo-luso uma parte considerável para o seu triunfo.
Todas as tropas portuguesas que tomaram parte activa na batalha se comportaram com grande valentia. Wellington e Beresford assim o reconheceram e manifestaram nas suas ordens do dia. Foram especialmente elogiados os regimentos de infantaria n.º 9 e 21, que formavam a brigada do coronel Champalimaud; infantaria n.º 8, comandada pelo tenente-coronel Douglas; os regimentos de infantaria nos. 7 e 19 e o batalhão de caçadores n.º 2, formando a brigada do brigadeiro Colleman; os regimentos de infantaria nos. 1 e 16 e o batalhão de caçadores n.º 4, formando a brigada Pack; os batalhões de caçadores nos. 1 e 3, que faziam parte da divisão Craufurd; o batalhão de caçadores n.º 6, que entrara na composição da brigada Campbell; as brigadas de artilharia, sob o comando do major Arentichild, a brigada de artilharia, anexa à divisão Spencer e a brigada de artilharia de montanha.
Mereceram ser citados em especial os nomes dos coronéis Champalimaud, Xavier Palmeirim e Souto Maior; dos tenentes-coronéis Sulton, José Maria Bacelar, Douglas, Jorge de Avilez, Nixan, Luís do Rêgo Barreto, Sebastião Pinto de Araújo, Elder, etc.
Beresford, na sua ordem do dia de 28 de Setembro (-), e Wellington na ordem do dia de 3o (°), elogiam e mostram-se reconhecidos para com as tropas portuguesas que tomaram parte na batalha do Buçaco.
A sua manifestação era um justo preito à bravura dos nossos soldados.
Notas:
6. O mais notável instrutor fora J. Moore. Também os regimentos instruídos por ele destacavam-se dos outros. Tais eram os que faziam parte da divisão Craufurd.
7. Veja-se a ordem do dia, datada do Q. G. do Buçaco, de 28 Setembro de 1810.
8. Vide o ofício de Lorde Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz, datado de Coimbra, de 30 de Setembro de 1810, e que vem transcrito na Gazeta de Lisboa, n.º 237, de 3 de Outubro de 1810; e também o ofício enviado pelo marechal Beresford, de 30 de Setembro de 1810, ao mesmo D. Miguel Pereira Forjaz.
Fonte:  Vitoriano José César - Batalha do Buçaco - 3.ª Ed., Lisboa - Imprensa da Armada, 1930, págs. 28 a 35 (1.ª Ed., Ferin, 1910)


A fuga da corte para o Brasil
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Indeciso, o príncipe regente D. João 3 adiou o quanto pôde a solução, pois qualquer alternativa era danosa à monarquia.
Afinal, a iminente invasão francesa tornou inadiável o desfecho. A fuga da Corte para o Rio de Janeiro, decidida na última hora, trouxe, não obstante, duas importantes consequências para o Brasil; a ruptura colonial e o seu ingresso na esfera de domínio da Inglaterra.
Chegando ao Brasil, D. João estabeleceu a Corte no Rio de Janeiro e em 1808 decretou a abertura dos portos às nações amigas, pondo fim, na prática, ao exclusivo metropolitano que até então restringia drasticamente o comércio do Brasil.

A Corte Portuguesa no Brasil:
Para além da instabilidade que provocou a ausência da Corte, verificou-se ainda a saída para o Brasil de incalculáveis riquezas. Além disto, grandes proprietários nobres e figuras do alto clero que acompanharam a Família Real, passaram a ter os seus rendimentos enviados para o Brasil, empobrecendo ainda mais Portugal e o seu povo.
Antes da partida - Fernando Teixeira
" (...) Chovia muito. As ruas começavam a transformar-se num lamaçal. Havia gente desorientada por todo o lado, e um movimento inusitado em direcção a Belém.
Há tempo que corriam por Lisboa rumores de que a família real estaria a preparar a partida para o Brasil, mas no dia 26 de Novembro de 1807 já não restavam dúvidas a ninguém - a decisão fora, finalmente, tomada no dia anterior numa reunião do Conselho de Estado. Com as primeiras tropas francesas já em Portugal, a família real e grande parte da nobreza corria a Belém e preparava-se para deixar o país.
Não eram, a acreditar na descrição feita por Raul Brandão em El-Rei Junot, cenas dignificantes. "Na véspera do embarque [que aconteceu a 27, sendo depois a partida a 29] remexe-se tudo: as roupas, as jóias, as inutilidades.
Na casa de este, de aquele, do Lavradio, do Angeja, do Cadaval, do Alegrete, há gritos, cólicas, desmaios, uma mixórdia de saque e de grotesco - arcas arrombadas, farrapos, lágrimas, desespero. Aferrolha-se e clama-se: - depressa! Depressa!... - Foge tudo, foge toda a gente de representação e de vergonha: fidalgos, ricos, pregadores, poetas obscenos, a Corte, as damas frágeis e inúteis, as figurinhas d"encanto, e as criadas, as pretas, os anões. O drama é idêntico em todas as casas soberbas: enfardela-se, enfardelam-se de mistura objectos indispensáveis, seringas de clisteres, jóias, quadros, inutilidades, vergonhas e riquezas. Depressa! Depressa".
Quinze mil pessoas embarcaram com a família real. Da frota, cinquenta barcos, 30 barcos foram para a família real e para os seus objectos. O barco que levou a família real chamava-se Príncipe Real.
Saíram de Portugal cerca de oito milhões de cruzados em moeda – metade da riqueza nacional  mais o ouro, prata e os objectos de arte de todos os acompanhantes.

O Brasil elevado a Reino Unido com Portugal
O príncipe regente e futuro rei D. João VI, durante o período final do reinado de sua mãe, D. Maria I, elevou em 1815 o Brasil da condição de vice-reinado colonial à de reino autónomo, intitulando-se desde então pela Graça de Deus Príncipe-Regente de Portugal, Brasil e Algarves, daquém e dalém-mar em África, senhor da Guiné, e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. O título oficial anterior era o mesmo, apenas não incluindo a palavra "Brasil".
Posteriormente, durante o Congresso de Viena em 1815, como consequência do estabelecimento da Casa de Bragança e da capital do Império Português no Rio de Janeiro, no referido ano de 1808, durante as guerras napoleónicas, D. João VI estabeleceu a nova designação de Reino Unido para as suas coroas, em regime jurídico similar ao do actual Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda ou do extinto Império Austro-Húngaro.
Os domínios luso-brasileiros da época ficaram a partir de então oficialmente designados como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e D. João passou a ostentar o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sendo príncipe e posteriormente rei das três coroas unidas, entre as quais, aquela onde residia como Rei do Brasil.
Após a morte de sua mãe, considerada a primeira rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil, e Algarves, D. João foi aclamado na corte do Rio de Janeiro como sucessor real. D. Maria I permanecera com o título por apenas um ano, pois que logo morreu.
O Príncipe D. Pedro de Alcântara, último herdeiro da Coroa portuguesa a ostentar o título de Príncipe do Brasil, não chegou a ser rei do Reino Unido de Portugal, Brasil, e Algarves, pois se auto-proclamou Imperador do Brasil quando declarou sua Independência. Só depois da morte de seu pai, D. Pedro I do Brasil foi considerado rei de Portugal como D. Pedro IV de Portugal. Chegou a receber, contudo, o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
 
A Família Real no Brasil
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D. João VI
No princípio do século XIX a Europa foi sacudida por uma guerra longa e violenta. Napoleão, imperador da França, grande general, organizou um exército poderosíssimo e invadiu vários países somando vitórias.  
Para derrotar os ingleses, imaginou um estratagema: obrigar as outras nações a fecharem os portos à Inglaterra, que sendo uma ilha ficaria isolada e muito enfraquecida sem poder comerciar.  
Acontece que Portugal e Inglaterra eram velhos aliados e faziam muitos negócios entre si, por isso os portugueses decidiram não obedecer. Napoleão ficou furioso, preparou um exército de 30.000 homens comandados pelo célebre Junot e ordenou-lhe que conquistasse Portugal.  
Mas nesse tempo os militares deslocavam-se a pé ou a cavalo, tinham que carregar armas e bagagens, acampar pelo caminho, ou seja, demoravam imenso tempo a chegar ao seu destino. A notícia porém voava de boca em boca ou na bolsa de um mensageiro veloz.
Quando em Lisboa se soube que vinha aí uma invasão francesa, foi o pânico. Na altura não havia condições para enfrentar um inimigo tão forte, corria-se o risco de perder a independência. Que fazer? Depois de muitos debates, tomou-se uma decisão: a família real devia partir imediatamente para o Brasil que nessa época era uma colónia portuguesa.
A Corte a salvo do outro lado do oceano assegurava a independência.
No ano 1807, a família real era muito numerosa e incluía pessoas de todas as idades.
A rainha
D. Maria I tinha 73 anos, era viúva e enlouquecera, por isso não podia reinar. 
As irmãs da rainha
Maria Ana tinha 71 anos e era solteira.
Maria Benedita tinha 61 anos e era viúva 
O príncipe Regente
D. João era o filho mais velho da rainha e ele é que governava em nome da mãe, por isso se diz Príncipe Regente. Tinha 40 anos, era casado com uma princesa espanhola que lhe dera oito filhos. 
A mulher do Príncipe
D. Carlota Joaquina tinha 32 anos. Viera para Portugal em criança para se habituar à língua, aos costumes e ao país do noivo. O casamento efectuou-se quando ela tinha apenas 10 anos.
Os oito principezinhos
Maria Teresa tinha 14 anos, Maria Isabel tinha 10 anos, Pedro tinha 9 anos, Maria Francisca tinha 7 anos, Isabel Maria tinha 6 anos, Miguel tinha 5 anos, Maria da Assunção tinha 2 anos e Ana de Jesus tinha 1 ano
Um primo espanhol, noivo da princesa mais velha Pedro Carlos, primo de Carlota Joaquina, vivia em Portugal desde criança e era o noivo de Maria Teresa.
15 mil viajantes 
A família real não ia sozinha para o Brasil: ia acompanhada pelas pessoas que desempenhavam altos cargos na Corte e pelos funcionários e criados do palácio. Mas houve muitos nobres e muitos burgueses que decidiram ir também.  
Assim reuniu-se um número de viajantes espectacular: quinze mil homens, mulheres e crianças. Imagine-se então a bagagem! As pessoas não sabiam ao certo quanto tempo iam ficar no Brasil e como receavam que lhes saqueassem as casas, trataram de mandar encaixotar tudo o que tinha valor material: móveis, pratas, jóias, tapetes, loiças, candeeiros, cristais, quadros, livros, roupa de casa e de vestir, etc.  
Como sempre acontece em circunstâncias idênticas, não quiseram deixar para trás objectos e animais de estimação, por isso encaixotaram-se também brinquedos, muitas e variadas recordações. Junto com os caixotes seguiam cestos e gaiolas ocupados por cães, gatos, pássaros… e tudo se empilhou no cais entre Lisboa e Belém.  
Esses imensos volumes de todos os tamanhos e feitios, bem ou mal acondicionados, eram levados depois em botes a remos para os grandes navios ancorados no meio do Tejo. Foi grande a azáfama, enorme a confusão, mas a pouco e pouco lá se encafuaram as bagagens nos porões dos navios. 
O Embarque 
No dia 27 de Novembro de 1807 começaram a chegar carruagens ao cais. Os viajantes apeavam-se e dirigiam-se à beirinha da água para tomarem lugar nos botes a remos que os levariam até aos navios. Tinha chovido muito nos dias anteriores, o chão estava enlameado, as pessoas escorregavam, amparavam-se umas às outras para não caírem, tentavam evitar as poças de água.
Esse saltitar exterior correspondia certamente a um saltitar interior, pois se a ideia de escapar aos exércitos de Napoleão proporcionava alegria e alívio, o facto de se verem obrigados a deixar a sua terra era motivo de tristeza e desolação. 
Lisboa em peso acorreu para assistir ao embarque. Uns rodeavam os marujos no cais, outros penduravam-se nas janelas ou espalhavam-se pelas colinas sem saber o que pensar daquela cena nunca vista.  
Então a família real ia-se embora em bloco, e as famílias mais importantes também, levando consigo tantas riquezas para o outro lado do mundo? Seria de facto essa a única solução para resolver o problema de invasão iminente? E que aconteceria aos que ficavam quando chegassem os franceses?  
Os mais pessimistas provavelmente anunciaram desgraças sem fim, garantiram que os franceses iam tomar conta de tudo e que a família real nunca mais voltaria. Com certeza houve quem chorasse muito de comoção, de tristeza, de medo. E o choro redobrou quando viram que a velha rainha D. Maria berrava e lutava, tentando recusar-se a embarcar. Coitada! Aquela é que dificilmente tornaria a ver o seu país…
A Armada 
A armada que levou a Corte para o Brasil incluía vários tipos de navios: naus, brigues, fragatas, escunas, bergantins e corvetas. Alguns eram enormes, bem armados de canhões, capazes de transportar muitos passageiros e grandes quantidades de carga.  
Outros eram mais pequenos e mais velozes. Além dos navios ao serviço da Corte, foram para o Brasil mais quarenta alugados por particulares que se meteram ao caminho à sua própria custa. Uma esquadrilha de quatro navios ingleses acompanhou a armada para dar apoio em caso de ataque no mar alto.  
O comandante da armada era Manuel da Cunha Sotomaior.
Naus
Rainha de Portugal (74 canhões)
Nesta nau viajou D. Carlota Joaquina com alguns dos filhos mais novos. 
D. João de Castro (64 canhões)
Nesta nau viajou o Duque do Cadaval, o Conde de Belmonte e o Conde de Redondo. 
Príncipe Real (80 canhões)
Nesta nau viajou a rainha D. Maria I, o Príncipe Regente e o filho mais velho, D. Pedro. 
Princesa do Brasil (74 canhões)
Nesta nau viajaram as irmãs da rainha e duas princezinhas. 
Conde D. Henrique (74 canhões) 
Martim de Freitas (64 canhões) 
Afonso de Albuquerque (64 canhões) 
Fragatas 
Medusa (74 canhões)  -  Minerva (44 canhões)  -  Jutra (32 canhões ) -  Golfinho (36 canhões)
Brigues 
Voador (22 canhões) - Vingança (20 canhões)
Escunas a Curiosa e Bergantins o Três Corações 
A Partida 
Após o embarque, o que toda a gente queria era partir. Mas o tempo não permitia. Ventos contrários pareciam ter apostado em reter a armada no rio Tejo. Já se receava que os franceses chegassem a Lisboa a tempo de efectuarem um assalto ou de bombardearem os navios. Finalmente o dia 29 amanheceu lindo, puderam içar velas, levantar âncoras e fazer-se à travessia do Atlântico rumo ao Brasil. Foi por um triz: Junot entrou em Lisboa vinte e quatro horas depois! 
A Viagem
A viagem não foi propriamente um passeio agradável. Como os preparativos tinham sido feitos à pressa e o embarque feito à última hora, faltavam mantimentos e muitos passageiros não encontraram os seus caixotes a bordo. Na melhor das hipóteses, talvez seguissem noutro navio, na pior, talvez tivessem ficado esquecidos no cais onde não tardariam a ser pilhados. Além da perda, havia o transtorno, por exemplo não podiam mudar de roupa. 
Mas enfim, lá se arranjaram como puderam. A natureza também contribuiu para agravar o mal estar, houve vendavais, o mar encapelou-se, um inferno. A maioria dos passageiros enjoou pavorosamente e além disso todos sofreram momentos de grande ansiedade porque os navios a certa altura dispersaram e como não havia recursos para comunicar à distância era impossível saber se os parentes e os amigos estavam vivos e seguiam por outra rota ou tinham sido engolidos pelo mar.
As velhas princesas no Rio de Janeiro 
A armada tinha um destino comum: o Rio de Janeiro. Mas nem todos puderam ir lá directos.
O primeiro a chegar foi um navio alugado por particulares que no dia 3 de Janeiro aportou na Bahia. Os passageiros anunciaram que vinha aí a família real, a cidade ficou na maior excitação e o governador começou a tomar medidas para receber tão ilustres visitantes.
A 14 de Janeiro foi a vez do Brigue "Voador" ancorar no Rio. Depois, a pouco e pouco, foram chegando os outros - todos os outros - pois a Natureza rugira e fizera alguns estragos mas nada de irremediável. Só a nau D. João de Castro, bastante danificada, se viu na iminência de ir ao fundo, tendo no entanto alcançado a costa a tempo de evitar o naufrágio e aportado em Paraíba. 
Três dias depois da chegada do brigue "Voador", entraram na Baía de Guanabara cinco navios da armada portuguesa e três da esquadrilha inglesa. A bordo da nau "Princesa do Brasil" estavam as duas irmãs da rainha - já velhas, muito velhas, pois naquela época era pouco vulgar atingir os 70 anos.  
Nunca nenhuma delas navegara no alto mar, portanto a experiência de meses a bordo suportando o balanço das ondas deixara-as abaladíssimas; além disso, ficaram aterradas ao verificarem que a nau onde viajava D. João não aparecia. Ele era o sobrinho querido, o Príncipe Regente, a autoridade máxima. Que fazer na sua ausência? A única coisa que lhes ocorreu foi esperar.  
Não se sentiam com coragem para enfrentar uma terra desconhecida sem a presença protectora do Príncipe e não houve força nem argumentos que as fizessem desembarcar. Durante trinta longos dias, em vez de olharem as belezas naturais daquela região paradisíaca, voltavam-lhe as costas e perscrutavam o horizonte na esperança de verem uma vela ao longe.  
Diz-se que todas as manhãs, ao acordar, perguntavam uma à outra "O nosso João, já terá chegado?" Aflitíssimas rezavam orações sem fim pedindo a Deus que lhes trouxesse o resto da família sã e salva 
Só desembarcaram a 17 de Fevereiro, depois de lhes terem jurado que o resto da família se encontrava na Bahia rodeada de carinho e atenções e que em breve se poderiam abraçar. 
A Chegada à Bahia 
Os passageiros dos navios que os ventos do destino levaram à Bahia por lá ficaram durante um mês. Entre esses passageiros estava D. João - o Príncipe Regente -, a mulher e os filhos. Ao que parece, D. João mostrou-se maravilhado com o Brasil desde o primeiro momento e caiu nas graças dos baianos que o festejaram com a maior alegria.  
Enquanto permaneceu na cidade recebeu todas as pessoas que solicitaram audiência, ouviu pedidos e sugestões e tomou uma série de medidas que agradaram ao povo como por exemplo: abriu os portos do Brasil ao comércio directo com o estrangeiro, deu autorização para que se construísse um hospital, uma Escola de Medicina, várias fábricas.  
A população exultou, pois percebeu que a presença da Corte significaria progresso. Não faltou quem pedisse a D. João que desistisse de ir para o Rio de Janeiro e instalasse a Corte na Bahia. Argumentavam ser a cidade mais central e portanto mais conveniente, ofereciam-se para reunir verbas e construir um palácio de grande categoria… 
D. João agradeceu, sensibilizado com tantas demonstrações de amizade, mas não pode ceder. Já tinha anunciado às Cortes europeias que ia para o Rio de Janeiro, convinha manter a decisão.
No dia 26 de Fevereiro a família real e os acompanhantes despediram-se voltaram a embarcar, zarparam para sul. 
Preparativos no Rio de Janeiro 
No Brasil o representante do rei de Portugal tinha o título de vice-rei. Na época o vice-rei era o Conde dos Arcos, que deu voltas à cabeça para organizar uma recepção devidamente animada e elegante e para preparar alojamentos onde instalar tanta gente. Em 1808 viviam na cidade do Rio de Janeiro cerca de 60.000 pessoas.  
Chegarem mais 15.000 de um dia para o outro era uma espécie de avalanche, uma "avalanche humana". Mas o Conde de Arcos não se atrapalhava com facilidade. Começou por despejar o Palácio dos vice-reis(1) e mandou limpar tudo muito bem para poder funcionar como residência real.  
Como este Palácio não tinha capela e ele sabia que as pessoas da Corte estavam habituadas a capela privativa, chamou carpinteiros e ordenou-lhes que construíssem rapidamente uma ponte de madeira ligando directamente o Palácio à Igreja do Carmo, que ficava ao lado.
Quanto a estas medidas, toda a gente achou muito bem. Mas como ele requisitou algumas habitações particulares para alojar gente da Corte, houve proprietários que ficaram fulos com o abuso.  
No entanto, a maioria da população estava delirante. Nunca uma família real europeia pisara terras da América do Sul. Receber reis, rainhas, príncipes e princesas fazia as pessoas sentirem-se como personagens de contos de fadas. E a alegria natural dos habitantes do Brasil transformou logo os preparativos em grande festa.
1) O Palácio dos vice-reis ainda hoje existe. É uma casa bonita, situa-se na Praça XV de Novembro e ali funciona um centro de Arte. 
Uma Entrada Triunfal 
A armada reunira-se de novo e ancorara em frente ao Pão de Açúcar. Impossível descrever a euforia a bordo e em terra. Toda a gente ansiava pelo momento em que os canhões dariam sinal de desembarque. E isso aconteceu pelas quatro horas da tarde do dia 4 de Março de 1808. Ao primeiro Boum, D. João desceu para um bergantim seguido da mulher e dos filhos. 
 Enquanto os remadores faziam avançar a embarcação para o cais, os canhões atroaram os ares com salvas de boas vindas, repicaram em simultâneo os sinos de todas as igrejas, estalaram foguetes, bandas de música puseram-se a tocar, as pessoas davam vivas no maior entusiasmo. Guardas de honra formavam alas desde o cais à Igreja do Rosário onde estava tudo preparado para uma cerimónia religiosa destinada a dar graças a Deus pelo sucesso da viagem. 
D. João, D. Carlota Joaquina e os principezinhos seguiram em cortejo pelas ruas atapetadas de folhagens. As janelas das casas em redor tinham sido enfeitadas com grinaldas de flores, colchas de seda encarnadas e azuis. E as famílias vestidas com as melhores roupas e ostentando as melhores jóias debruçavam-se nas janelas a aplaudir.  
Consta que D. João sorria e acenava feliz por se ver tão acarinhado. E que D. Carlota Joaquina chorava, talvez de comoção. Ninguém reparou especialmente nas reacções do pequeno príncipe D. Pedro. Com nove anos, perante um ambiente colorido, barulhento, festivo, só podia estar maravilhado. Não podia era adivinhar que o destino tinha planos para entrelaçar a sua vida com o futuro daquela terra e daquela gente… 
Residências reais 
A família real, além do Palácio dos vice-reis que pertencia à coroa e foi posto à sua disposição, recebeu de presente uma quinta magnífica - A Quinta da Boa Vista em S. Cristóvão -, oferecida por um colono rico e amável. Essa quinta tornou-se a residência preferida de todos.(1)(1) Actualmente o Palácio de S. Cristóvão é o Museu de História Natural e Etnologia. A Quinta é um parque onde há plantas de todo o mundo. 
Festas e mais Festas 
Numa terra luminosa e quente como é o Brasil e no cenário maravilhoso do Rio de Janeiro, o que apetece realmente é comemorar o facto de estar vivo. Esse desejo traduziu-se (e ainda hoje se traduz) em festas espampanantes.  
A Corte não escapou ao sortilégio e… sucederam-se festas magníficas em que participavam não só os nobres mas também o povo cantando e dançando nas ruas iluminadas a preceito. A chegada do famoso compositor Marcos de Portugal acompanhado por muitos músicos e cantores contribuiu para abrilhantar as comemorações.
Ópera
Em 1811 houve um espectáculo de Ópera no Teatro Real do Rio de Janeiro para comemorar o aniversário de D. Maria I. O maestro foi Marcos de Portugal. 
O casamento da princesa Maria Teresa com seu primo Pedro Carlos
Uma das primeiras grandes festas dada pela Corte no Rio de Janeiro foi o casamento da princesa mais velha em 1810. 
O Brasil elevado à categoria de reino 
Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia portuguesa e foi elevado à categoria de reino unido com Portugal. Naturalmente não faltaram desfiles e bailes. 
A coroação de D. João VI
No ano 1816 morreu a velha rainha D. Maria I. D. João há muito que governava pois a mãe enlouquecera, mas só nesse ano subiu ao trono como D. João VI. Houve um período de luto e só em 1818 se realizaram as ricas e faustosas cerimónias para festejar a coroação 
O casamento do príncipe herdeiro
D. Pedro, sendo herdeiro do trono dos Reinos Unidos de Portugal e do Brasil, só podia casar com uma princesa que pertencesse a uma família real muito antiga e de grande prestígio. A escolha recaiu na princesa Leopoldina, filha dos imperadores da Áustria.  
O embaixador português foi a Viena apresentar o pedido, houve negociações, chegou-se a um acordo e Leopoldina viajou para o Rio de Janeiro ao encontro do noivo. O casamento realizou-se em 1817 e foi um acontecimento! 
Artistas franceses no Brasil 
D. João VI quis decorar os palácios com obras de arte. Na época usava-se cobrir as paredes com grandes telas representando paisagens, retratos e cenas históricas. Como ainda não havia no Brasil artistas que pudessem executar um trabalho de grande qualidade, o rei escreveu ao embaixador que estava em Paris e pediu-lhe que contratasse pintores franceses que quisessem ir para o Brasil.  
Debret, Pradier e Taunay aceitaram o convite e partiram. Esses três grandes pintores realizaram autênticas "reportagens visuais" que permitem acompanhar a vida da Corte no Brasil e conhecer o ambiente que os rodeava 
Cientistas austríacos no Brasil 
A comitiva da princesa D. Leopoldina incluía cientistas que tinham sido contratados pelo imperador da Áustria para acompanharem a filha ao Brasil e por lá ficaram alguns anos a estudar a fauna, a flora e os minerais daquela terra longínqua que tanta curiosidade despertava na Europa.
 Esses cientistas embrenharam-se no mato, fizeram registos sobre o que viram e recolheram espécies de plantas, animais e minerais. Como nesse tempo ainda não se tinham inventado as máquinas fotográficas, os cientistas fizeram-se acompanhar de desenhadores e pintores para eles se encarregarem das imagens. Assim, no regresso, poderiam dar a conhecer ao "velho mundo" as surpresas do "mundo novo"
Nem tudo foram rosas
Enquanto a Corte portuguesa esteve no Brasil, houve guerras a norte e a sul. A norte, contra a Guiana francesa. A sul, os conflitos surgiram por causa da linha de fronteira com os territórios das colónias espanholas. Os portugueses lutaram bravamente e saíram vitoriosos mas mais tarde, quando assinaram a paz, retiraram das terras ocupadas. 
O regresso a Portugal 
Em Portugal as lutas com os franceses terminaram no ano 1811. Mas a Corte não regressou imediatamente porque não havia garantias de total segurança, porque a deslocação massiva de tanta gente não era fácil e talvez também porque a família real se sentia feliz no Rio de Janeiro. Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia, foi elevado por D. João VI à categoria de reino, reino unido ao de Portugal.
E o tempo foi correndo, sem se falar em regresso. Mas entretanto a Europa agitava-se e havia revoluções destinadas a alterar a forma de governo. Até então os reis tinham todos os poderes, eram reis absolutos. Nesta época, sopravam outras ideias e surgiram partidos que queriam dividir o poder - os Partidos Liberais. Estes defendiam que o rei devia ter unicamente o poder de governar. Julgar os crimes, competia exclusivamente aos juízes. Fazer leis, seria tarefa para deputados eleitos pelo povo.
Entre absolutistas e liberais rebentaram muitos conflitos armados. Em Portugal estalou uma revolução no Porto, no ano 1820, os liberais alcançaram uma vitória imediata e uma das primeiras medidas que tomaram foi exigir ao rei que voltasse. D. João VI mandou preparar malas e bagagens e embarcou com toda a família excepto o príncipe herdeiro, D. Pedro, a quem deixou no Brasil como Regente.

Figuras e Factos relacionados com a estadia da Família Real no Brasil

D. Maria Iª
Vigésima sexta reinante de Portugal, filha de D. José l e de D. Mariana Vitória. Nasceu em Lisboa em 1734, e, casou em 1760, com seu tio D. Pedro (D. Pedro III). Logo que chegou ao trono, demitiu o Marquês de Pombal de todos os seus cargos, mandando instaurar-lhe um processo. Mas a rainha perdoou-lhe grande parte dos seus erros e consequentes castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local distante da Corte Real, vinte léguas.
A D. José sucedeu sua filha D. Maria Iª. Logo após a morte do rei, o Marquês de Pombal pediu a demissão de ministro e de outros cargos, que a rainha logo deferiu. Contra ele foi depois instaurado um processo, que veio a terminar pela sua condenação. Mas a rainha perdoou-lhe parte dos castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local distante de Corte 20 léguas. O Marquês partiu então para Pombal, onde viver os últimos anos da sua vida.
D. Maria Iª, em seguida à revisão do processo que tinha condenado os supostos implicados na atentado contra D. José, mandou pôr em liberdade a maior parte das pessoas que se encontravam presas, por serem julgadas sem culpa. Pela mesma razão, foram considerados inocentes todos os Távoras.
O governo de D. Maria Iª foi extraordinariamente profícuo para o Reino. Cercando-se de bons cooperadores, como o Duque de Lafões, seu tio, e o abade José Correia da Serra, a rainha pode realizar uma obra fecundíssima e de grande alcance nacional. Portugal deve-lhe muito no que diz respeito ao desenvolvimento da instrução:
Fundou a Academia Real das Ciências, a Biblioteca Nacional, a Academia Real da Marinha, a Academia Real da Fortificação e a Casa Pia de Lisboa. Inaugurou a iluminação pública de Lisboa.
Neste reinado construiu-se a Basílica da Estrela, em Lisboa, principiaram-se as obras do Teatro de São Carlos e concluiu-se a Igreja da Memória.
A rainha foi vítima de muitos desgostos: num curto período de sete anos, viu morrer a mãe, o marido (D. Pedro IIIº) e o filho (D. José, herdeiro do trono). Além disso, muito se impressionou com as violências da Revolução Francesa, em que foram assassinados os próprios reis de França, Luís XVI e Maria Antonieta. Tudo isto contribuiu para que a rainha, em 1791, fosse atacada de doença mental.
Desde então, até 1796, D. João, seu filho, governou em nome da mãe, passando depois a assumir, definitivamente, a regência do Reino.
Em virtude das tremendas atrocidades que se desenrolavam em França, muitas nações revoltaram-se contra aquele país, especialmente a Inglaterra, que era a mais empenhada na luta. Espanha e Portugal resolveram também entrar na guerra. Em 1793, invadiram a Trança, e começou a Campanha do Russilhão, que se manteve até 1795, data em que a Espanha, sem consultar Portugal, assinou a paz com os franceses..
Portugal, no entretanto, fiel aos seus compromissos, mantinha-se firme ao lado da Inglaterra, a quem enviara uma esquadra que, juntamente com a armada inglesa, tomou parte na grande batalha naval de Aboukir, inglória para a França. Em face do sucedido, a represália da França, governada nesse tempo por Napoleão Bonaparte, não se fez esperar. Em 1801, Portugal foi invadido por numerosas tropas espanholas e francesas, já amigas e agora aliadas.
O inimigo entrou pela fronteira alentejana, tendo conseguido apoderar-se de Olivença, que nunca nos foi restituída.
Napoleão Bonaparte, grande general, imperador dos franceses, pelas vitórias que havia conseguido contra a Áustria, Prússia, Itália, Rússia, etc., julgava-se o senhor absoluto da Europa. Em Julho de 1807, impôs o Bloqueio Continental. Em obediência a esta ordem, todas as nações europeias deviam encerrar os seus portos aos navios britânicos.
O Príncipe D. João, inspirado na vontade de seu povo, não cumpriu as determinações de Bonaparte.
Tínhamos perdido Olivença e podíamos sofrer mais reveses, mas dignificámos a nossa aliança, franqueando os nossos portos à Inglaterra. Como o nosso Regente, à vista de novas insistências, continuasse a não transigir, Napoleão assinou com a Espanha o Tratado de Fontainebleau, em 27 de Outubro de 1807, pelo qual Portugal seria repartido pela Espanha e pela França. Para tal efeito, tinha Portugal de ser conquistado, o que não foi possível ao general francês.
Primeira invasão francesa em 1807: A fim de ser executado o Tratado de Fontainebleau, Napoleão Bonaparte mandou invadir Portugal com um exército de 30 mil homens, comandados por Junot. O inimigo tinha penetrado pela Beira Baixa e chegara já a Abrantes, em marcha sobre Lisboa. No dia 30 de Novembro de 1807, o invasor entrava em Lisboa. A Família Real tinha partido para o Brasil três dias antes.
Começaram então os roubos, os atentados, os assaltos às igrejas, repartições públicas e casas particulares. O País não podia sofrer semelhantes violências. Surgem as primeiras manifestações de revolta contra a dominação estrangeira – é chegado o momento de agir. O Porto levanta-se em armas e, a seguir, as províncias do Minho e de Trás-os-Montes. Pedem-se depois auxílios à Inglaterra que nos envia um corpo de exército comandado por Artur Wellesley, depois duque de Wellington. As forças anglo-lusas, atacam os franceses, que são derrotados nas Batalhas de Roliça (Óbidos) e Vimieiro (Lourinhã). Em Agosto de 1808 é assinada a Convenção de Sintra, pela qual Junot e as suas tropas foram obrigadas a sair de Portugal.
Segunda invasão francesa em 1809: O imperador dos franceses, que se não havia conformado com a derrota de Junot, organizou outro contingente de tropas, comandado pelo general Soult, e determinou nova invasão a Portugal. O inimigo, desta vez, entrou por Chaves, passou a G Braga e, em Março de 1809, assenhorou-se da cidade do Porto; a população sobressaltada, fugiu para o Douro, a fim de transpor a ponte das barcas, que existia nesse tempo, para fugir para o sul. Esta abateu e milhares de pessoas caíram ao rio morrendo afogadas.
As tropas portuguesas agruparam-se logo. Chegaram reforços de Inglaterra – tudo se preparou para a vitória. O Exército anglo-luso, dirigido superiormente por Wellesley, atacou o inimigo, investindo contra o Porto. Soult, reconhecendo a inutilidade da resistência, fugiu desordenadamente e abandonou Portugal.
Terceira invasão francesa (1810): Napoleão Bonaparte era teimoso e não perdia a ideia de conquistar Portugal. Para isso tentou uma última cartada. Alinhou as suas melhores tropas (85 mil homens) comandados por Massena e, em Agosto de 1810, Portugal foi invadido pela terceira vez. O exército francês entrou por Almeida e avançou sobre o Buçaco, onde o esperavam os soldados anglo-lusos sob o comando de Wellington, e ali se deu a grande batalha, no dia 27 de Setembro de 1810, em que os franceses foram completamente derrotados. Massena, com o resto da sua gente, conseguiu fazer uma retirada e tentou avançar sobre Lisboa. Mas estacou diante das Linhas de Torres Vedras, onde sofreu nova derrota. Começo a debandada do inimigo, que, passando a fronteira, fugiu em direcção ao seu país. Então, as tropas anglo-lusas, já aliadas da Espanha, que se tinha desavindo com Napoleão, perseguem Massena através da França e entram vitoriosas em Bordéus e Tolosa. Com esta terceira e última invasão, terminou o perigo do domínio napoleónico na Península Ibérica.
No dia 20 de Março de 1816, faleceu no Rio de Janeiro, a rainha D. Maria Iª. O seu corpo foi transladado para Portugal e encontra-se na Basílica da Estrela (Lisboa) que ela fundara.
Vigésima sexta reinante de Portugal, filha de D. José l e de D. Mariana Vitória. Nasceu em Lisboa em 1734, e, casou em 1760, com seu tio D. Pedro. Logo que chegou ao trono, demitiu o Marquês de Pombal de todos os seus cargos, mandando instaurar-lhe um processo. Mas a rainha perdoou-lhe grande parte dos seus erros e consequentes castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local distante da Corte Real, vinte léguas. O Marquês partiu então para Pombal (distrito de Leiria) onde viveu os últimos anos da sua vida. Ao mesmo tempo, mandou fazer uma revisão ao processo que tinha condenado os supostos implicados no atentado contra seu pai, D. José l, mandando pôr em liberdade a maior parte das pessoas que ainda se encontravam presas, devido a este processo. Pela mesma razão, foram considerados inocentes todos os Távoras, supliciados e mortos em 13 de Janeiro de 1759, durante o reinado de seu pai. Durante o seu reinado, Portugal decaiu muito. Entretanto, graças à influência de certas figuras públicas de grande valor, como Martinho de Melo, o Duque de Lafões, Sousa Coutinho, o arcebispo de Tessalónica, Diogo de Pina Manique (*), etc., algumas reformas foram feitas. Em 1792, a rainha, a que os acontecimentos de França haviam afectado profundamente, perdeu a razão (loucura) e, seu filho, o príncipe D. João (mais tarde D. João Vl), assumiu a regência do Reino. Em 1807, sempre diminuída mentalmente, acompanhou a Família real ao Brasil, onde veio a falecer nove anos depois (1816). Seu corpo jaz na Basílica da Estrela (Lisboa), monumento construído no seu reinado.
(*)Diogo Inácio Pina Manique:
Foi intendente de Polícia no tempo do Marquês de Pombal e ainda no reinado de D. Maria l. Nasceu em Lisboa em 1733. Criou a Casa Pia (Belém – Lisboa), albergue de crianças abandonadas. Foi o grande impulsionador da iluminação pública de Lisboa (a azeite) e do seu policiamento. Também da colonização do Alentejo com emigrados dos Açores e outros. Em contrapartida foi um grande perseguidor dos liberais.
Com a subida ao trono de D. Maria l, verificou-se uma descontracção na economia, dando-se então, pouco a pouco, a liberdade à produção agrícola. No domínio da indústria, a extinção das corporações, em 1791, liberta o trabalho de "regulamentos rígidos". No comércio, a realização de um tratado com a Rússia alarga os nossos contactos internacionais e aumentam os nossos mercados.
Nota: Por altura deste reinado, grandes transformações se dão na economia europeia. Com a descoberta da "máquina a vapor", em 1780 por Watt, a indústria manufactureira transforma-se, e, as unidades industriais servem-se deste invento para mecanizarem a sua produção. Inicia-se assim, graças a esta descoberta, a Revolução Industrial, que favorece decisivamente o progresso do Capitalismo.

João VI - "0 Clemente" - 27.º rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1767, onde também faleceu a 10 de Março de 1826. Era filho segundo da rainha D. Maria I, e de seu marido e tio D. Pedro III.
A 8 de Maio de 1785 casou com a princesa espanhola, D. Carlota Joaquina de Bourbon, filha de Carlos IV e da rainha D. Maria Luísa Teresa de Bourbon. Em 1788 foi declarado herdeiro do trono, por ter falecido seu irmão primogénito, o príncipe D. José. Tendo enlouquecido a rainha sua mãe, teve de assumir a regência do reino no dia 1 de Fevereiro de 1792. D. João estava habituado a entregar-se à caça e a percorrer os conventos, muito despreocupado dos negocies públicos, que se lhe tornavam indiferentes, bem longe de pensar que seria cedo nomeado regente do reino, e mais tarde aclamado rei. Além disso, o país encontrava-se numa situação deplorável.
Por ocasião da morte de Luís XVI em 1793, Portugal entrou na liga com a Inglaterra e a Espanha contra a Republica Francesa. Uma divisão portuguesa combatia no Rossilhão ao lado dos espanhóis, tornando-se muito distinta, mas apesar disso, a Espanha resolveu fazer a paz com a República Francesa, abandonando Portugal. A situação do nosso país ficou deveras embaraçosa. Sem o auxilio da Espanha, desprezados pela Inglaterra, prejudicados gravemente no comércio pelos corsários franceses, resolveu o governo português solicitar da República Francesa a paz, que bem precisa se tornava nestas difíceis circunstâncias, mas o Directório republicano não estava disposto a concedê-la, e só mais tarde é que propôs um tratado de paz, que não era muito desvantajoso para Portugal, mas o governo português não quis ratificá-lo, para não ser desagradável à Inglaterra. A França irritou-se, e Bonaparte, que se indignara muito com a presença duma esquadra portuguesa no Mediterrâneo, auxiliando a de Nelson, quando subiu ao poder como primeiro cônsul, fez com que a corte de Madrid declarasse guerra a Portugal, em 1801. As tropas daquelas duas nações, comandadas pelo Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, atacaram Portugal, tomaram Olivença, e entraram no Alentejo. 0 nosso exercito achava-se num estado miserável, e não podendo resistir, teve o governo de aceder a um tratado de paz humilhante, feita em Badajoz, que tem a data de 6 de Junho do referido ano de 1801, sendo ratificado pelo governo português no dia 14, e pela Espanha em 21 do citado mês e ano.
Desde então perdeu a Europa toda a consideração pelo nosso país; o embaixador de França, o general Lannes, tratava o governo português com o máximo desdém, e Napoleão, que subira ao trono da França com o titulo de imperador, convencendo-se que não conseguiria nunca que o príncipe regente de Portugal cedesse francamente ao denominado Sistema continental, fechando os portos às embarcações inglesas, tomou o partido de riscar este reino da carta política da Europa, e fez um tratado com a Espanha, que se assinou em Fontainebleau a 27 de Outubro de 1807, que dividia Portugal em três estados: a Lusitânia do Norte (Entre o Douro e Minho) devia pertencer ao Rei da Etrúria; o Alentejo com os Algarves ao Príncipe da Paz, valido de Carlos IV, que tomaria o título de rei dos Algarves; o terceiro estado ficaria no poder da França até à paz geral. Reino da Etrúria era o nome que teve por algum tempo o grão-ducado da Toscânia, quando em 1801 foi tirado à casa da Áustria e erigido em reino a favor de Luís, príncipe hereditário de Parma. Por morte deste príncipe em 1803, passou a ser governado por Maria Luísa, filha de Carlos IV, de Espanha. Este reino desapareceu no fim do ano de 1807, em consequência dum tratado com a Espanha, ficando incorporado na França, e reapareceu como grão-ducado da Toscânia em 1809. Para a execução do tratado de Fontainebleau, Napoleão mandou marchar para Lisboa com a maior rapidez um exército comandado pelo general Junot. 0 exército passou o Bidassoa a 18 de Outubro de 1807, atravessou em pleno Inverno as serranias espanholas, sofrendo privações de toda a qualidade, e chegou à fronteira portuguesa em 20 de Novembro já em condições detestáveis. 0 Inverno era desabrido; não havia estradas, parecia impossível que um exército pudesse atravessar a Beira em semelhantes condições. Pois atravessou sem encontrar resistência alguma. Junot entrou em Abrantes no dia 24 à frente de 4.000 ou 5.000 homens, descalços, famintos, estropiadas. No dia 25 saiu de Abrantes com uns 4.000 homens que a muito custo conseguira apurar dum dia para o outro. Encontrou muitas dificuldades para passar o rio Zêzere, para atravessar os campos da Golegã inundados; entrou em Santarém no dia 28 com o seu estado-maior incompleto, com um regimento de granadeiros e 70 soldados de linha. Nesse mesmo dia marchou para Lisboa, e a pequena distancia desta cidade encontrou um destacamento de cavalaria portuguesa. Uma carga dos nossos cavalos bastaria para dispersar essa turba fatigada, que se arrastava a custo pelas estradas, mas os soldados tinham ordem de receber os franceses como amigos, e não havia quem os comandasse. No dia 30 de Novembro, finalmente, entrou Junot em Lisboa com dois regimentos compostos de soldados pálidos, fracos, com o uniforme rasgado, e as espingardas arruinadas. A família real portuguesa, a corte e muitos dos seus vassalos que quiseram acompanhá-la, embarcaram para o Rio de Janeiro debaixo da protecção duma esquadra inglesa, a 29 de Novembro. Portugal ficou entregue a uma regência. Junot declarou logo à sua entrada em Lisboa, que em nome de Napoleão a família de Bragança deixara de reinar; e na qualidade de governador de Portugal nomeou um conselho de governo, de que fizeram parte alguns portugueses, para substituir a regência, que o rei nomeara 0 povo, abandonado pelos seus príncipes, mas impaciente com sofrer o jugo estrangeiro, indignado pelas exigências dos franceses, pelas afrontas feitas por Junot à bandeira portuguesa, pela violência que praticara expedindo para França o nosso exército, reduzido a um pequeno corpo, que tomou o nome de Legião portuguesa, que foi obrigada a militar no exercito de Napoleão, o povo ergueu-se indignado no Porto em 1808, propagou-se a revolução nas províncias do norte, e rebentou depois no Algarve. Junot reprimiu-a cruelmente, e os seus subalternos Loison, Margaron, Thomiéres e Kellermann, em Évora, Leiria, Nazaré e Beja, praticaram verdadeiras atrocidades, mas entretanto a Inglaterra, que procurava no continente um porto onde fizesse desembarcar tropas para combater Napoleão, aproveitou a insurreição portuguesa.
O general Arthur Wellesley, depois duque de Wellington, desembarcou com o seu exército a 6 de Agosto de 1808 na baía de Vagos, derrotou os franceses nas acções da Roliça e de Vimeiro, dadas nesse mês, e Junot, venda a impossibilidade de sustentar-se em Portugal, foi obrigado a capitular, propondo a célebre Convenção de Cintra, que assinou em 30 de Agosto o general Dalrymple, que tinha sucedido a Wellesley no comando, para a total evacuação de Portugal pelo exercito francês, o a 15 de Setembro seguinte arvorou-se em Lisboa a bandeira portuguesa. Assim terminou a primeira invasão francesa. As condições da Convenção, em que não figuraram portugueses, foi reprovada, tanto em Portugal, como em Inglaterra. Bernardim Freire e o conde de Castro Marim foram os primeiros a protestar; em Londres, os jornais ocuparam-se largamente do assunto, que foi também discutido no parlamento; o governo britânico mandou meter em processo o general que a assinou. A Espanha, a que Napoleão quisera impor para rei seu irmão José, depois de ter arrancado em Baiona a Carlos IV e a seu filho D. Fernando uma abdicação forçada, revoltara-se contra os franceses. As tropas inglesas, comandadas por John Moore, pretenderam passar de Portugal a Espanha, mas foram derrotadas na Corunha pelo general Soult no principio do ano de 1809, sendo obrigadas a embarcar, descobrindo a fronteira portuguesa, que o general Soult invadiu pela provinda do Minho em Março de 1809 com um numeroso exercito. A cidade do Porto foi tomada no dia 24 desse mês. Soult, afagando vagas ideias de uma realeza portuguesa, não prosseguiu na sua marcha, o que permitiu que a regência de Portugal desse o comando do nosso exército, para o disciplinar e instruir, ao general inglês Beresford. 0 exército anglo‑luso marchou para o norte às ordens do general Wellesley, e a 29 de Maio recuperou a cidade do Porto, perseguindo os franceses até à fronteira do norte, e obrigaria o general Soult a capitular, se ele se não esquivasse para a Galiza numa retirada habilíssima. Descendo ao sul, Wellesley entrou em Espanha, deu a batalha de Talavera, e retirou para Portugal, conservando-se o exército português em observação. Em 1810 houve a terceira invasão francesa, sendo o exército comandado pelo general Massena. Depois de tomar Almeida, marchou para Lisboa, e atacou a 27 de Setembro o exército anglo-luso postado nas alturas do Buçaco; foi repelido com perdas graves, mas no dia seguinte pôde tomar a posição, o que obrigou o general inglês a retirar-se precipitadamente para cobrir Lisboa. Massena avançou, devastando tudo pelo caminho, mas esbarrou na frente das linhas de Torres Vedras, em que ficou vencido. Até 1814 deram-se diferentes batalhas em que os franceses foram sempre derrotados, até que afinal Massena abandonou Portugal, terminando assim a guerra da Península. A Legião Portuguesa, que fora a França combater às ordens de Napoleão, regressou a Portugal.
No entretanto, a família real e a corte conservavam-se no Brasil. 0 príncipe D. João dirigira os negócios do reino, mas despachou sempre em nome da rainha, sua mãe, até 14 de Julho de 1799, em que perdidas completamente as esperanças do restabelecimento da infeliz enlouquecida, assumiu oficialmente a regência. Em 16 de Março de 1816 faleceu D. Maria I, e D. João VI começou a reinar como soberano no dia 20, sendo aclamado e coroado rei do Reino Unido de Portugal, Brasil, a 6 de Fevereiro de 1818. Na vida doméstica o monarca era muito infeliz. A rainha D. Carlota Joaquina, além do seu procedimento escandaloso, não se cansava de levantar obstáculos de todo o género em Portugal conspirando contra o rei, correndo até o boato de que pretendera envenená-lo, na América, procurando formar um reino para si com uma parte das colónias espanholas. 0 Brasil havia acolhido com entusiasmo a família real, cuja residência ia transformá-lo de colónia em metrópole. Por isso também escapou ao contágio da revolução, e nem pensou em reclamar a sua independência. Mas, ao terminar a guerra da península, tendo D. João VI continuado a demorar-se na América, Portugal começou a inquietar-se e a indignar-se, tanto mais que o general Beresford, que ficara em Portugal comandando o nosso exército, com muitos oficiais ingleses a comandarem os nossos regimentos, governava mais do que a regência, o que sobremaneira exaltava o ânimo do povo, pouco sofredor do jugo estrangeiro. Além disso, aqui, como em toda a Europa, começavam a fermentar as ideias liberais espalhadas pela revolução francesa. Em 1817 tramou-se uma conspiração promovida em parte pelas ideias liberais, em parte pela indignação contra o estado de colónia a que Portugal estava reduzido. Essa conspiração foi afogada cruelmente pela morte de Gomes Freire de Andrade e das vítimas do Campo de Sant'Ana. No Brasil também fermentavam nalgumas províncias as ideias republicanas e as de autonomia americana. A revolução que rebentou em Pernambuco, em 1817, foi prontamente sufocada.
Em 24 de Agosto de 1820 deu-se uma revolução no Porto, com o fim de dar ao país um governo constitucional, e em 15 de Setembro formou-se um governo provisório, mas apenas se reuniram as cortes gerais constituintes, foi substituído por um governo executivo, com o titulo de Regência, durante a ausência de el-rei. 0 congresso encarregou uma comissão escolhida, entre os seus membros, de estabelecer as bases da Constituição. 0 conde de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein, mais tarde marquês e duque do mesmo título, era ministro dos estrangeiros, para que fora nomeado em 1817; vindo a Lisboa, onde teve de se demorar por causa dos seus negócios domésticos, assistiu à revolução de 1820. Julgara o ilustre diplomata poder encaminhar o movimento do Porto, por forma a produzir em Portugal um governo constitucional, à imitação do de Inglaterra. Era, porém, tarde, e o movimento iniciado no Porto, desenvolvendo-se com rapidez, não permitiu que fossem postos em prática os seus planos prudentes e patrióticos. Partiu então para o Rio de Janeiro em Outubro de 1820, com o intuito firme de persuadir D. João VI a que aceitasse o regime constitucional e evitasse por esta forma as gravíssimas dificuldades que se apresentavam a todo o observador sincero e esclarecido. No Rio de Janeiro encontrou mais contradições do que esperava. A corte não acreditava na gravidade das circunstâncias, nem se mostrava receosa da opinião pública no Brasil, mas depressa se desenganou com as notícias chegadas de Portugal e a sublevação da Baía. Só então é que D. João VI, aceitando os conselhos de Palmela, se determinou a mandar a Portugal o príncipe D. Pedro, para outorgar a base duma constituição, e a convocar no Rio de Janeiro uma assembleia de notáveis, de todas as províncias, para se assentar na forma de governo, que se havia de dar ao Brasil. 0 príncipe, porém, recusou-se a partir, por conselho de maus conselheiros, e por andar secretamente conivente nas intrigas que se armavam para se conseguir a independência do Brasil. Nestas circunstâncias, D. João VI foi forçado a regressar a Portugal. Deixou no Brasil como seu lugar-tenente o príncipe D. Pedro, e embarcando com o resto da família real para a Europa, entrou no Tejo a 3 de Julho de 1821.
Feita a Constituição, foi jurada pelo soberano no dia 1.º de Outubro de 1822. No Brasil, no dia 7 de Setembro do mesmo ano de 1822, D. Pedro, no conflito que se erguera entre o Brasil e as cortes portuguesas onde os deputados brasileiros tinham sido até ali acolhidos dum modo hostil, optava pelo Brasil, e a independência brasileira ficou de facto proclamada, tomando o príncipe real D. Pedro o título de imperador. Assim ficou constituído o império do Brasil. 0 monarca reconheceu com bastante mágoa aquela independência, pelo decreto de 29 de Agosto de 1825, reservando para si o tratamento de imperador titular do Brasil, e desde então, todos os diplomas se passavam em nome Sua Majestade o Imperador e Rei. D. João VI exercia as suas funções de rei constitucional, ao passo que a rainha D. Carlota Joaquina continuava a levantar-lhe obstáculos, manifestando um ódio entranhado ás instituições constitucionais, contra as quais conspirou. Esta forma de governo prevaleceu até ao ano de 1823, em que se formou uma insurreição, tendo à frente o infante D. Miguel, filho predilecto da rainha. A contra-revolução rebentou em Lisboa no dia 27 de Maio; o infante D. Miguel foi para Vila Franca, e ali se lhe reuniu o regimento de infantaria n.º 23, e aclamou-se em Vila Franca o absolutismo. Esta contra-revolução ficou conhecida pelo nome de Vilafrancada.
0 infante e a rainha queriam ir mais adiante e alcançar a abdicação do rei, que, fiel ao seu juramento, queria manter a Constituição, apesar das numerosas adesões que a causa do absolutismo continuava a receber em Vila Franca, mas a revolta do regimento de infantaria n.º 18, que, reunido com magotes de povo, foi ao paço da Bemposta aclamar o rei absoluto, decidiu D. João VI a tomar a direcção de movimento absolutista, e partindo para Vila Franca, voltou dali em triunfo a Lisboa, acompanhado de muitos fidalgos entusiasmados pela reacção. As cortes dispersaram-se, depois de protestarem contra quaisquer alterações que se fizessem na Constituição, o regime absoluto ficou restabelecido novamente em Portugal. No entretanto D. Carlota Joaquina e o infante D. Miguel continuavam nas suas intrigas. Nos fins do ano de 1823 a polícia descobriu uma conspiração planeada pela rainha e o infante seu filho, que fora nomeado comandante em chefe do exército, para forçar D. João VI a uma abdicação. Prevenidas a tempo as autoridades, ficou malograda a conspiração, que poucos meses depois de novo se animou. Os motivos de queixa alegados pelos partidários da rainha contra o rei era a demasiada benevolência que ele mostrava com os liberais, e a promessa que lhes fizera, e parecia desejar cumprir, de outorgar uma constituição no reino. A 28 do Fevereiro de 1824 foi assassinado o marquês de Loulé em Salvaterra, crime que a voz publica atribuiu ao infante D. Miguel ou aos seus apaniguados, e que veio revelar como o partido miguelista se queria livrar dos homens mais afectos ao rei, e que poderiam aconselhá-lo bem ou defende-lo em críticas circunstâncias. A 30 de Abril de 1824, D. Miguel, como comandante em chefe do exército, chamava as tropas às armas, prendia diversos ministros e personagens importantes, conservava seu pai guardado à vista e incomunicável no paço da Bemposta, e proclamava ao povo, dizendo-lhe que uma conspiração de pedreiros livres tramava o assassínio do rei, e que ele infante se erguera para o proteger; o que ele tentava, porém, era obrigar seu pai a abdicar, quando o corpo diplomático, tendo à sua frente o ministro de França Hyde de Neuville, entrou no Paço, obrigando as sentinelas que tinham ordens em contrário a deixarem-no passar, protestando todos os ministros contra qualquer violação à, autoridade real. Isto obrigou a rainha e o infante a serem mais moderados. Ficou conhecida esta revolta pela designação de Abrilada. El-rei, no dia 9 de Maio, por conselho dos embaixadores da França e da Inglaterra, simulou um passeio a Caxias, e foi recolher-se a bordo da nau Windsor Castle. Mandou então chamar o filho, repreendeu-o asperamente, demitiu-o do seu cargo de comandante em chefe do exército, e exilou-o para o estrangeiro. No dia 14 do referido mês voltou para o paço da Bemposta, restabeleceu o ministério, mostrando-se muito benevolente para com os revoltosos da Abrilada. A polícia descobriu nova conspiração, que devia rebentar no dia 26 de Outubro do mesmo ano de 1824. Tomaram-se então algumas medidas enérgicas, e D. Carlota Joaquina foi presa para Queluz.
Todos estes desgostos, e o pesar que lhe causou o ver-se obrigado a reconhecer a independência do Brasil, lhe alteraram a saúde, abreviando-lhe a morte. Antes de falecer, nomeou uma Junta de Regência, pelo decreto de 6 de Março de 1826, a qual seria presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e 6 ministros de Estado. D. João VI animou as letras, as artes, o comércio e a agricultura; fundou alguns estabelecimentos, em que se conta o Instituto dos Surdos­-Mudos e Cegos.
Do seu matrimónio, houve os seguintes filhos: D. Maria Teresa, casada em primeiras núpcias com o infante de Espanha D. Pedro Carlos de Bourbon, e pela segunda vez com D. Carlos Maria Isidoro, também infante de Espanha e seu cunhado; D. António, príncipe da Beira, que faleceu com 6 anos, em 1801; D. Maria Isabel, que casou com o rei de Espanha, Fernando VII; D. Pedro IV; D. Maria Francisca de Assis, casada com o príncipe de Espanha, já citado, D. Carlos Maria Isidoro, o qual por morte desta sua primeira mulher, passou a segundas núpcias com sua cunhada, a infanta D. Maria Teresa; D. Isabel Maria, que se conservou solteira, e foi regente do reino; o infante D. Miguel; D. Maria da Assunção, que também faleceu solteira; D. Ana de Jesus Maria, que casou com o marquês de Loulé, Nuno José de Mendonça Barreto.
D. João VI foi o 8.º príncipe da Beira e do Brasil, o 21.º duque de Bragança, 18.º de Guimarães, 16.º de Barcelos, 20.º marquês de Vila Viçosa, 24.º conde de Arraiolos; 22.º conde de Ourém e de Barcelos, de Faria e de Neiva; grão‑prior do Crato e senhor da Casa do Infantado; grão-mestre das ordens militares de Cristo, Avis, S. Tiago da Espada, da Torre e Espada, restaurada em Maio de 1808, à qual deu nova forma e regulamento pela lei de 29 de Novembro do mesmo ano, ampliado pelo alvará de 5 de Julho de 1809; da ordem de S. João de Jerusalém, e grão‑prior em Portugal; grã-cruz da ordem de N. Sr.ª da Conceição, que ele instituiu a 6 de Fevereiro de 1818; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, e grã-cruz das ordens de Carlos III, S. Fernando e Isabel a Católica, em Espanha; do Santo Espírito, S. Luís, S. Miguel e da Legião de Honra, em França; de Leopoldo da Áustria, e de Santo Estêvão da Hungria, da Coroa de Ferro, de Itália; das de S. André, S. Alexandre Nevsky e de Sant’Ana da Rússia, cavaleiro da ordem da Jarreteira em Inglaterra; grã-cruz da do Elefante, de Dinamarca; do Leão Neerlandês, dos Países Baixos; da Águia Negra, na Prússia. Serviu de condestável no acto da aclamação de sua mãe, a rainha D. Maria I.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1051-1055.

D. Carlota Joaquina de Bourbon - Princesa espanhola e rainha de Portugal.
Nasceu em Aranjuez a 25 de Abril de 1775; faleceu em Queluz a 7 de Janeiro de 1830. Era filha primogénita do rei Carlos IV de Espanha e da rainha sua mulher; D. Maria Luísa Teresa de Bourbon.
Tendo apenas 10 anos de idade, casou em 8 de Maio de 1785 com o príncipe D. João, filho de D. Maria I, o qual, em 1788, por morte de seu irmão primogénito D. José, foi declarado príncipe herdeiro, sendo mais tarde regente do reino, pela interdição de sua mãe, e finalmente rei de Portugal, com o nome de D. João VI. D. Carlota Joaquina passava geralmente por ser de ânimo perspicaz e de dotes elevados de espírito, porém, as suas qualidades morais não mereceram igual apreço. Ambiciosa, violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e dirigi-lo nos negócios internos e nos do Estado. Não se submetendo o regente, começou D. Carlota a olhá-lo com desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico em continua luta, cujos menores incidentes eram discutidos e comentados nas praças públicas.
D. Carlota dispôs as coisas de forma, que criou um partido seu, e em 1805 divulgou-se que o regente descobrira uma conspiração tramada contra ele por sua própria esposa. Dizia-se que ela, tendo a seu lado vários nobres e eclesiásticos, projectava tirar o governo a seu marido, e prende-lo, declarando-o incapaz de gerir os negócios públicos. O conde de Vila Verde dispunha-se a abrir uma devassa e castigar os criminosos, porém o regente, desejando evitar maior escândalo, não consentiu, limitando-se a separar-se de sua mulher, dando-lhe para residência o palácio de Queluz, onde antes viviam juntos, passando ele a residir em Mafra, e a exilar alguns fidalgos que mais se manifestavam afectos à princesa. A desgraçada situação a que chegou Portugal, em 1807, fez com que os dois esposos se reunissem por algum tempo, e a esquadra, que em Novembro deste ano conduziu o príncipe regente e D. Maria I ao Brasil, levava também a seu bordo a astuciosa princesa. No Rio de Janeiro continuaram vivendo separados, cada um em seu palácio, reunindo-se apenas, quando eram obrigados a comparecer nalguma solenidade pública. D. Carlota Joaquina é que se não resignava à inacção política a que se via condenada, decidida, como estava, a dominar como soberana; e começando a lavrar no Rio da Prata os primeiros sintomas de emancipação, concebeu o projecto de levantar para si um trono nas províncias espanholas da América, ou pelo menos, de governar como regente em nome de seu irmão Fernando VII. Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney Smith, e não encontrando oposição em seu marido, foram enviados agentes ao Rio da Prata, onde formaram um grande partido. As intrigas principiaram então a desenvolver-se mais cruéis e enredadoras. O ministro inglês, lorde Strangford, insinuou a D. João que o vice-almirante lhe desonrava o tálamo conjugal. D. João pediu logo para Londres transferência do vice-almirante. Satisfeito o seu pedido, Sydney Smith retirou-se, vindo substitui-lo o almirante de Courcy. No entretanto, as divergências eram enormes. No próprio governo havia correntes muito opostas. D. João, cada vez mais abatido e com medo da mulher, pedia que não a contrariassem sempre que as suas exigências não fossem impossíveis de satisfazer. Anulados afinal os planos da rainha, nem assim ela esmoreceu. Procurou ser agradável aos castelhanos, e conseguir, na falta de seu pai e irmão, prisioneiros em Franca, ser nomeada regente de Espanha, e vir talvez a ser a herdeira de Carlos IV, abolindo-se a lei sálica que vigorava na monarquia. Para realizar o seu projecto, teve de sustentar uma acerba luta com o embaixador inglês, tendo a astúcia de alcançar que o governo da regência lhe permitisse enviar secretamente ao general Elio, que estava em Montevideu, víveres e dinheiro, para o que não hesitou em vender as suas próprias jóias. Afinal, e visto não ser possível narrar detidamente as variadas peripécias desta luta de orgulhos e de ambições, o sonho que tanto seduzira D. Carlota Joaquina dissipou-se. Viveu alguns anos afastada da política, sempre separada de seu marido, que então, já havia sido aclamado rei, por ter falecido D. Maria I em 1816, até que a revolução do Porto em 1820, que trouxe para a Europa a família real, pôs novamente em evidência a rainha, reunindo algum tempo os dois esposos.
Aliada aos frades, aos nobres, aos que se mostravam pouco simpáticos ao novo regime, urdia a conspiração chamada da rua Formosa, destinada a obrigar o rei a abdicar e a destruir a Constituição. Falhando esse plano, as cortes de 15 de Maio de 1822 decidiram deportar a rainha para o palácio do Ramalhão, por ela se recusar a jurar a Constituição, alvitre que ela aceitou com júbilo, pois lhe permitia continuar a sua obra perturbadora. Neste retiro tramou ainda a queda da Constituição; e servindo-se do infante D. Miguel, que ela educara, e com quem vivia intimamente, conseguiu realizar o movimento conhecido por Vilafrancada em 26 do referido mês de Maio. Derrubada a Constituição e dissolvidas as cortes, foi levantado o desterro da rainha, e o próprio D. João VI a foi buscar à quinta do Ramalhão, conduzindo-a ao paço da Bemposta. Pouco tempo, porém, durou a harmonia entre os dois esposos, porque a rainha mudou a sua residência para Queluz, e tornou-se cabeça do partido absolutista que dentro em pouco promoveu a Abrilada a 30 de Abril de 1824. Tendo a rainha tomado parte activa e manifesta nesse movimento, quando D. João VI, apoiado nos embaixadores francês e inglês, se decidiu a mandar sair do reino o infante D. Miguel, ordenou que sua mulher se recolhesse ao paço de Queluz, e nunca mais aparecesse na corte. A 10 de Março de 1821 faleceu D. João VI, tendo previamente nomeado uma regência presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e os seus ministros de Estado. D. Carlota Joaquina durante o governo de D. Miguel, que se seguiu, auxiliou-o quanto pôde, vindo a falecer pouco tempo depois.
Instituiu uma ordem exclusivamente destinada às senhoras, com a autorização do príncipe regente, seu marido, por decreto de 4 de Novembro de 1801, com a designação de Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram confirmados pelo alvará de 25 de Abril de 1804.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume II, págs. 760-761.
 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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