Tinha dois meses de idade
quando chegou ao Brasil com seus
pais, imigrantes russos vindos
de Tchetchelnik, na Ucrânia. Do
Recife, onde fez os estudos
secundários, passou para o Rio
de Janeiro, onde se bacharelou
em Direito. Tinha apenas quinze
anos quando escreveu os seus
primeiros contos e dezanove
quando o primeiro romance,
“Perto do Coração Selvagem”, em
1944. Saudada imediatamente pela
crítica não só pela intensidade
da sua escrita como pela rara
capacidade de vida interior,
manteve em toda a sua vida de
escritora uma coerência pouco
comum quanto à temática tratada,
que foi, no entanto, lapidando,
enriquecendo e desenvolvendo
numa técnica narrativa muito
pessoal. Escritora de espantosa
carga narrativa e poética, fez
da sua ficção uma obra que se
desdobra em múltiplas leituras
e, por isso mesmo, difícil mas
fascinante. Como ela mesma
confessou, não imaginava temas,
estes serviam a sua capacidade
de criar, dar forma, animar o
introspectivo. No contexto da
nova literatura brasileira, a
obra de Clarice Lispector se
destaca pela exaltação da
vivência interior e pelo salto
do psicológico para o metafísico
(ver Metafísica). No plano
ontológico, Clarice produziu o
encontro entre uma consciência e
um corpo, em estado de
materialidade neutra. Em sua
narrativa podem ser
identificadas várias crises: do
personagem-ego, não através do
intimismo, mas na busca
consciente do supra individual;
da narrativa, através de um
estilo inquisitivo; da função
documental da prosa romanesca —
Clarice parte do pressuposto de
que toda obra é romance de
educação existencial.
Obras de Clarice Lispector
Romance:
Perto do Coração Selvagem (1944)
; O Lustre (1946) ; A Cidade
Sitiada (1949) ; A Maçã no
Escuro (1961) ; A Paixão segundo
G.H. (1964) ; Uma Aprendizagem
ou o Livro dos Prazeres (1969) ;
Água Viva (1973) ; A Hora da
Estrela (1977) ; Um Sopro de
Vida (pulsações) (1978).
Conto:
Alguns Contos (1952) ; Laços de
Família (1960) ; A Legião
Estrangeira (1964) ; Felicidade
Clandestina (1971) ; A Imitação
da Rosa (1973) ; A Via Crucis do
Corpo (1974) ; Onde Estivestes
de Noite (1974).
Crónica:
Visão do Esplendor (1975) ; Para
não Esquecer (1978).
Entrevistas:
De Corpo Inteiro (1975)
Literatura infantil:
O Mistério do Coelho Pensante
(1967) ; A Mulher que Matou os
Peixes (1968) ; A Vida Íntima de
Laura (1974) ; Quase de Verdade
(1978).
Coletâneas de contos, crónicas
ou entrevistas organizadas e
publicadas postumamente:
A Bela e a Fera (1979) ; A
Descoberta do Mundo (1984) ;
Como Nasceram as Estrelas (1987)
; Cartas Perto do Coração (2001)
; Correspondências (2002) ;
Aprendendo a Viver (2004) ;
Outros Escritos (2005) ; Correio
Feminino (2006) ; Entrevistas
(2007) ; Minhas Queridas (2007)
; Só para Mulheres (2008).
Fonte: "Aprendendo a Viver",
de Clarice Lispector. Rio de
Janeiro: Editora Rocco, 2004.
A descoberta do amor
“[...] Quando criança, e depois
adolescente, fui precoce em
muitas coisas. Em sentir um
ambiente, por exemplo, em
apreender a atmosfera íntima de
uma pessoa. Por outro lado,
longe de precoce, estava em
incrível atraso em relação a
outras coisas importantes.
Continuo, aliás, atrasada em
muitos terrenos. Nada posso
fazer: parece que há em mim um
lado infantil que não cresce
jamais.
Até mais que treze anos, por
exemplo, eu estava em atraso
quanto ao que os americanos
chamam de fatos da vida. Essa
expressão se refere à relação
profunda de amor entre um homem
e uma mulher, da qual nascem os
filhos. [...] Depois, com o
decorrer de mais tempo, em vez
de me sentir escandalizada pelo
modo como uma mulher e um homem
se unem, passei a achar esse
modo de uma grande perfeição. E
também de grande delicadeza. Já
então eu me transformara numa
mocinha alta, pensativa,
rebelde, tudo misturado a
bastante selvageria e muita
timidez.
Antes de me reconciliar com o
processo da vida, no entanto,
sofri muito, o que poderia ter
sido evitado se um adulto
responsável se tivesse
encarregado de me contar como
era o amor. [...] Porque o mais
surpreendente é que, mesmo
depois de saber de tudo, o
mistério continuou intacto.
Embora eu saiba que de uma
planta brota uma flor, continuo
surpreendida com os caminhos
secretos da natureza. E se
continuo até hoje com pudor não
é porque ache vergonhoso, é por
pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”
Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa
impulsiva. Como descrever? Acho
que assim: vem-me uma idéia ou
um sentimento e eu, em vez de
refletir sobre o que me veio,
ajo quase que imediatamente. O
resultado tem sido meio a meio:
às vezes acontece que agi sob
uma intuição dessas que não
falham, às vezes erro
completamente, o que prova que
não se tratava de intuição, mas
de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo
prosseguir nos meus impulsos. E
até que ponto posso
controlá-los. [...] Deverei
continuar a acertar e a errar,
aceitando os resultados
resignadamente? Ou devo lutar e
tornar-me uma pessoa mais
adulta? E também tenho medo de
tornar-me adulta demais: eu
perderia um dos prazeres do que
é um jogo infantil, do que
tantas vezes é uma alegria pura.
Vou pensar no assunto. E
certamente o resultado ainda
virá sob a forma de um impulso.
Não sou madura bastante ainda.
Ou nunca serei.”
Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão
grande que me anula como pessoa
atual e comum: é uma lucidez
vazia, como explicar? assim como
um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se
precise. Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio. E nem
entendo aquilo que entendo: pois
estou infinitamente maior do que
eu mesma, e não me alcanço. Além
do quê: que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha
lucidez pode-se tornar o inferno
humano — já me aconteceu antes.
Pois sei que — em termos de
nossa diária e permanente
acomodação resignada à
irrealidade — essa clareza de
realidade é um risco. Apagai,
pois, minha flama, Deus, porque
ela não me serve para viver os
dias. Ajudai-me a de novo
consistir dos modos possíveis.
Eu consisto, eu consisto,
amém.”.
Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou,
importa muito pouco. Importa o
que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma
lutadora. Quero dizer, uma
pessoa que luta pelo bem dos
outros. Isso desde pequena eu
quis. Por que foi o destino me
levando a escrever o que já
escrevi, em vez de também
desenvolver em mim a qualidade
de lutadora que eu tinha? Em
pequena, minha família por
brincadeira chamava-me de ‘a
protetora dos animais’. Porque
bastava acusarem uma pessoa para
eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei
sendo, e tão cedo? Terminei
sendo uma pessoa que procura o
que profundamente se sente e usa
a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”
Escritora, sim; intelectual, não
“Outra coisa que não parece ser
entendida pelos outros é quando
me chamam de intelectual e eu
digo que não sou. De novo, não
se trata de modéstia e sim de
uma realidade que nem de longe
me fere. Ser intelectual é usar
sobretudo a inteligência, o que
eu não faço: uso é a intuição, o
instinto. Ser intelectual é
também ter cultura, e eu sou tão
má leitora que agora já sem
pudor, digo que não tenho mesmo
cultura. Nem sequer li as obras
importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou
porque não tornei o fato de
escrever livros ‘uma profissão’,
nem uma ‘carreira’. Escrevi-os
só quando espontaneamente me
vieram, e só quando eu realmente
quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa
que tem um coração que por vezes
percebe, sou uma pessoa que
pretendeu pôr em palavras um
mundo ininteligível e um mundo
impalpável. Sobretudo uma pessoa
cujo coração bate de alegria
levíssima quando consegue em uma
frase dizer alguma coisa sobre a
vida humana ou animal.”
A síntese perfeita
“Sou tão misteriosa que não me
entendo.”
A certeza do divino
“Através de meus graves erros —
que um dia eu talvez os possa
mencionar sem me vangloriar
deles — é que cheguei a poder
amar. Até esta glorificação: eu
amo o Nada. A consciência de
minha permanente queda me leva
ao amor do Nada. E desta queda é
que começo a fazer minha vida.
Com pedras ruins levanto o
horror, e com horror eu amo. Não
sei o que fazer de mim, já
nascida, senão isto: Tu, Deus,
que eu amo como quem cai no
nada.”
Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que
desejava eu atingir? Queria
escrever alguma coisa que fosse
tranqüila e sem modas, alguma
coisa como a lembrança de um
alto monumento que parece mais
alto porque é lembrança. Mas
queria, de passagem, ter
realmente tocado no monumento.
Sinceramente não sei o que
simbolizava para mim a palavra
monumento. E terminei escrevendo
coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o
jeito. Mas já vi muita coisa no
mundo. Uma delas, e não das
menos dolorosas, é ter visto
bocas se abrirem para dizer ou
talvez apenas balbuciar, e
simplesmente não conseguirem.
Então eu quereria às vezes dizer
o que elas não puderam falar.
Não sei mais escrever, porém o
fato literário tornou-se aos
poucos tão desimportante para
mim que não saber escrever
talvez seja exatamente o que me
salvará da literatura.
O que é que se tornou importante
para mim? No entanto, o que quer
que seja, é através da
literatura que poderá talvez se
manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não
sabia que se pode não escrever.
Gradualmente, gradualmente até
que de repente a descoberta
tímida: quem sabe, também eu já
poderia não escrever. Como é
infinitamente mais ambicioso. É
quase inalcançável”.
A importância da maternidade
“Há três coisas para as quais eu
nasci e para as quais eu dou
minha vida. Nasci para amar os
outros, nasci para escrever, e
nasci para criar meus filhos. O
‘amar os outros’ é tão vasto que
inclui até perdão para mim
mesma, com o que sobra. As três
coisas são tão importantes que
minha vida é curta para tanto.
Tenho que me apressar, o tempo
urge. Não posso perder um minuto
do tempo que faz minha vida.
Amar os outros é a única
salvação individual que conheço:
ninguém estará perdido se der
amor e às vezes receber amor em
troca [...].”
Viver plenamente
“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de
mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você
também superexige da vida.
Sim.”
Um vislumbre do fim
“Uma vez eu irei. Uma vez irei
sozinha, sem minha alma dessa
vez. O espírito, eu o terei
entregue à família e aos amigos
com recomendações. Não será
difícil cuidar dele, exige
pouco, às vezes se alimenta com
jornais mesmo. Não será difícil
levá-lo ao cinema, quando se
vai. Minha alma eu a deixarei,
qualquer animal a abrigará:
serão férias em outra paisagem,
olhando através de qualquer
janela dita da alma, qualquer
janela de olhos de gato ou de
cão. De tigre, eu preferiria.
Meu corpo, esse serei obrigada a
levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem
comigo, como única valise,
segue-me como um cão. E irei à
frente, sozinha, finalmente cega
para os erros do mundo, até que
talvez encontre no ar algum
bólide que me rebente. Não é a
violência que eu procuro, mas
uma força ainda não classificada
mas que nem por isso deixará de
existir no mínimo silêncio que
se locomove. Nesse instante há
muito que o sangue já terá
desaparecido. Não sei como
explicar que, sem alma, sem
espírito, e um corpo morto —
serei ainda eu, horrivelmente
esperta. Mas dois e dois são
quatro e isso é o contrário de
uma solução, é beco sem saída,
puro problema enrodilhado em si.
Para voltar de ‘dois e dois são
quatro’ é preciso voltar, fingir
saudade, encontrar o espírito
entregue aos amigos, e dizer:
como você engordou! Satisfeita
até o gargalo pelos seres que
mais amo. Estou morrendo meu
espírito, sinto isso, sinto...”