Conquista de Lisboa aos Mouros

 

25 de Outubro de 1147

 

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

Olisipo era o nome que esta povoação tinha antes de ser ocupada pelo Romanos, em 205 antes de Cristo. As populações até então fixadas nesta região, principalmente ibéricas e célticas, foram visitadas por outros povos navegadores, aqui comerciavam, como os Tartéssios, na sua rota para o arquipélago das Cassitéridas (hoje Grã-Bretanha).

A a partir de 205 antes de Cristo, na posse de Roma, a Felicitas Júlia Olisipo, tornou-se um município, gozando os seus habitantes do título de cidadãos romanos. A sua área passou então a estar protegida por muralhas. Os bárbaros do Norte da Europa invadiram-na nos séculos V-VIII: os Godos, em 419; em 453 encontrava-se nas mãos dos Suevos, tendo depois sido ocupada por Visigodos, Suevos, Godos e novamente por Visigodos, que nela conseguiram permanecer até à chegada dos Mouros, em 714. Estes deixaram marcas profundas na então Aschbouna, designação árabe da que já denominada Olissibona. Por ser muito populosa e hospitaleira, segundo os relatos de árabes, a cidade foi cobiçada por muitos reis cristão: Fruela, em 753, Afonso “o Casto”, em 811, Ordonho IIº, em 851 e Afonso VIº, em 1093.

Em 24 de Outubro de 1147, finalmente Lisboa, seria conquistada pelo 1º Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, auxiliado por cruzados ingleses, alemães e flandreses, após um cerco de doze semanas.

O cerco de Lisboa, com início a 1 de Julho de 1147 e que durou até 25 de Outubro, e foi um episódio integrante do processo de Reconquista cristã da península Ibérica, culminando na conquista desta importante cidade aos mouros pelas forças de D. Afonso Henriques, com o auxílio dos Cruzados em trânsito para o Médio Oriente. Efectivamente, este episódio constituiu o único sucesso da Segunda Cruzada.

A primeira tentativa de conquista da cidade por D. Afonso Henriques deu-se em 1142. Esta tentativa saiu gorada e nova oportunidade só surgiu a 16 de Junho de 1147 quando uma frota de 160 navios, transportando 12 a 13 mil cruzados, atracou no Porto. O Bispo apresentou-lhes um convite para auxiliarem o nosso monarca na conquista de Lisboa. Foram acordadas as condições e, a 28 de Junho a frota de alemães, ingleses, normandos, flamengos e galeses, entre outros, pôs cerco à cidade, tendo-se-lhes juntado D. Afonso Henriques com cerca de 5 mil homens.
O cerco de Lisboa dependia fortemente da presença dos cruzados pela própria constituição do exército Português da época (semelhante de resto aos restantes exércitos medievais). Este era composto por uma elite de cavaleiros provenientes da nobreza e pelos seus vassalos que combatiam como infantaria e que não eram soldados profissionais. Uma vez que um cerco exigia combates apeados no interior de cidades e longos períodos de espera, a cavalaria servia apenas para contrariar contra-ataques fora das muralhas, tendo os cavaleiros que desmontar para combater nas fortificações e ruas estreitas de Lisboa e sendo a infantaria mal treinada de pouco valor militar. Por isso, a adição à hoste de um grande número de soldados profissionais, capazes de combater montados ou não, e imbuídos de um espírito de cruzada contra o Islão, era fortemente aplaudida.
Após o desembarque, ocorreram escaramuças e a cidade foi intimada a render-se. Foram então conquistadas as zonas ocidental e oriental (actual Baixa Lisboeta ou Pombalina) fora da muralha, tendo sido encontradas na última, grandes reservas de alimentos. Os quinze dias seguintes foram de expectativa tendo ocorrido alguns encontros dos quais resultaram baixas para ambos os lados. Seguiu-se a tentativa de construção de engenhos de cerco. Alemães e ingleses construíram duas torres de assalto e os flamengos construíram cinco catapultas. Os ataques lançados foram infrutíferos, resultando deles a destruição de alguns dos engenhos.
Bem defendidos, os muros da cidade mostraram-se inexpugnáveis. As semanas passavam-se em surtidas dos sitiados, enquanto as máquinas de guerra dos sitiantes lançavam toda a sorte de projécteis sobre os defensores, o número de mortos e feridos aumentando de parte a parte.
O período seguinte foi de espera até que, no final de Agosto, foi capturado um batel no qual alguns Mouros iam pedir auxílio ao alcaide de Évora, declarando que na cidade se passava fome. Preparou-se então novo ataque com a construção de uma mina sob as muralhas, bem como nova torre.
Entretanto os cruzados realizaram um ataque a Sintra e outro a Almada, matando centenas de pessoas e expondo às muralhas algumas cabeças espetadas em lanças. A torre acabou por ter um uso limitado, não conseguindo o assalto ao castelo e a mina escavada fez cair parte da muralha a 17 de Outubro, mas a brecha foi fortemente defendida. Devido à fome, a cidade rendeu-se a 21 de Outubro.
Decorrentes deste cerco surgem os episódios lendários de Martim Moniz (*), que teria perecido pela vitória dos cristãos, entalado numa das portas de Lisboa e da ainda mais lendária batalha de Sacavém.
Alguns dos Cruzados estabeleceram-se na cidade, de entre os quais se destaca Gilbert de Hastings, eleito bispo de Lisboa.

(*) A figura lendária de  Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome. A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa. O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida. O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto. D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz. O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.

 

Tomada de Lisboa (relato do cruzado Osberno)
" (...) Apaziguado o motim, seguidamente, vão ter com o rei para uma conciliação em favor dos seus, declarando que estavam completamente fora do acontecido. Garantida que foi por parte deles a sua segurança, o rei, uma vez serenado o ânimo, manda que os seus deponham as armas, assegurando firmemente que deixaria para o dia seguinte o cerco, mas não posporia a sua dignidade à tomada da cidade; antes, pelo contrário, dizia, tudo consideraria de menos se ficasse sem ela; no entanto, que se sentia atingido por aquelas injúrias, e nada mais queria em comum com homens corruptos, sem contenção, e dispostos a tudo.
Tendo a custo serenado finalmente o ânimo, anuiu a que se deliberasse sobre o que pretendia para o dia seguinte. Deliberou-se, pois, que no dia seguinte todos os nossos chefes, de uma parte e de outra, por si e pelos seus, prometessem manter fidelidade ao rei enquanto permanecessem na sua terra.
Confirmado isto por ambas as partes, anuiu-se ao que no dia anterior os mouros tinham pedido relativamente à rendição da cidade. Decidiu-se, pois, entre nós, que 140 homens de armas dos nossos e 160 dos colonienses e flamengos entrariam antes dos outros na cidade e que ocupariam pacificamente a fortaleza do castelo superior, por forma que os inimigos pudessem trazer os dinheiros e todos os seus haveres, comprovados, sob juramento, perante os nossos; feita assim a recolha, a cidade seria depois inspeccionada pelos nossos: se algo mais do que o alegado fosse encontrado com alguém, o dono em cuja casa fosse achado pagaria com a vida. Deste modo, depois de espoliados, todos seriam mandados em paz para fora da cidade.
Entrada solene na cidade : Aberta, pois, a porta e dada autorização de entrarem, os colonienses e os flamengos, concebendo um astucioso ardil, solicitam aos nossos que seja deles a honra de serem os primeiros a entrar. Dada, pois, a anuência para tal efeito e chegada a ocasião, fazem entrada mais de duzentos com os que anteriormente haviam sido designados, fora outros que se tinham intrometido pela brecha da muralha que ficava à sua mercê da parte em que se encontravam, enquanto ninguém dos nossos, que não fosse dos designados, presumira proceder à entrada.
À frente, pois, ia o arcebispo e os outros bispos com a bandeira da Cruz do Senhor e a seguir entram os nossos chefes juntamente com o rei e os que para este efeito tinham sido escolhidos.
Oh! Quanta não foi a alegria de todos! Oh! Quanta não foi a honra especial que todos sentiam! Oh! Quantas não foram as lágrimas que afluíam em testemunho de alegria e de piedade, quando todos viram colocar no mais alto da fortaleza o estandarte da Cruz salvífica em sinal de sujeição da cidade, para louvor e glória de Deus e da santíssima Virgem Maria. O arcebispo e os bispos com o clero e todos os outros, não sem lágrimas de júbilo, cantavam o Te Deum laudamus com o Asperges me e orações de devoção.
Entretanto, o rei dá a volta a pé pelas muralhas do castelo cimeiro.
Desmandos de alguns cruzados: Os colonienses e os flamengos, ao lobrigarem na cidade tantas oportunidades de se saciarem não respeitam qualquer observância de juramento ou de palavra dada. Correm por aqui e por ali, saqueiam, arrombam portas, espreitam pelos interiores de qualquer casa, assustam os habitantes e, contra o direito divino e humano, infligem-lhes injúrias, dispersam vasilhames e roupas, actuam sem respeito contra as donzelas, põem no mesmo prato da balança o lícito e o ilícito, às escondidas tudo subtraem, mesmo o que deveria ficar em comum para todos. Ao bispo da cidade, um ancião de muitos anos, cortam-lhe o pescoço, contra o direito divino e humano. Aprisionam o próprio alcaide da cidade, depois de lhe terem tirado tudo de casa. A pequena égua, de que falámos acima, o próprio conde de Aerschot a arrebatou com as suas mãos. Tendo ele sido intimado pelo rei e por todos os nossos a entregá-la, reteve-a com tanta obstinação que o próprio alcaide disse que a sua pequena égua ao urinar sangue tinha perdido um potro, exprimindo de maneira astuta a fealdade de uma acção obscena (...)”.

 

Origem do nome:
«Do, Domingo Ilustrado – 1898»: “Como acontece a quase todas as cidades de origem antiquíssima, a história da fundação de Lisboa e dos seus primeiros tempos anda envolta em mil fábulas. Umas dão-lhe por fundador Ulisses, o célebre capitão grego, dizendo que do seu nome veio à cidade o de Ulissipo, depois corrupto em Olisipo. Outros contam que a fundou um companheiro do deus Baco, chamado luso, e que daqui tirou o País a denominação de Lusitânia, e os habitantes a de lusos. Outras, ainda, atribuem a sua origem a um bisneto de Noé”.
«Xavier Fernandes em Topónimos e Gentílicos (1944)»: “ Qual o verdadeiro étimo do nome da primeira cidade portuguesa ? Como acontece com tantos topónimos, parece não ser muito fácil determiná-lo com precisão.
Ainda bem modernamente, o jornalista e escritor belga, Désiré Denuit, no seu livro de 1939 “La route des caravelles”, escreveu um período que corresponde na nossa língua ao seguinte: “A lenda atribui a fundação de Lisboa a Ulisses, o mais finório dos gregos; parece que o seu nome provém de Alis Ubbo, a Baía Deliciosa”. Não sabemos onde Denuit encontrou ou arranjou este étimo. Julgamos, porém, que apenas a título de curiosidade pode merecer registo.
Houve quem dissesse que o vocábulo Lisboa é transformação de Ulissipolis, à letra, cidade de Ulisses, nome do seu lendário fundador.
J. Cornu (Die Portugiesische  Sprache  pág. 104, diz que a origem é a forma Alisbona, não documentada, tendo o “l” influído para a troca do “o” ou “u” primitivos, o que não parece verdade, pois em 1165 havia ainda a forma Olixbona, como provou A. A. Cortesão, no seu Onomástico Medieval.
Leite de Vasconcelos apresenta deste modo a evolução do vocábulo: Olisipo, Olissipona, Lisbona (Lixboa), e Lisboa, o que é aceitável sob todos os aspectos, incluindo o das leis filológicas da derivação.
Diz-se que Olisipo (latinizado em Olisippo e em Ulyssippo) é nome de origem fenícia, ao qual se atribui a significação de “baía formosa” ou “baía amena”.
Lisboa foi a Felicitas Julia dos romanos, em homenagem a Caio Júlio César, nos meados do último século antes de Cristo”.
«Prof. Vasco Botelho de Amaral em “O Povo e a Língua, do Mensageiro das Casas do Povo – 1949”»: “Muitos têm sido os investigadores que tentam perscrutar esse mistério que rodeia o nome da capital portuguesa. Numerosas foram e continuam a ser as hipóteses, mais ou menos engenhosas formuladas para a etimologia de Lisboa.
Em 1947 apresentei eu uma solução do grande problema. Publiquei a minha conjectura no número da Revista Municipal (publicação da Câmara Municipal de Lisboa), comemorativa do Vlll centenário. A minha solução foi, em resumo, esta:
1º) – A origem remota de Lisboa seria nome fenício (citado por Brochard) Alis Urbo (baía amena ou deliciosa). Admiti que nesta região de Lisboa os fenícios houvessem estabelecido uma feitoria com esse nome.
2º)  – O latim Olisippo seria adaptação latina do nome fenício.
3º) – A relação lendária com o nome de Ulysses seria a razão de ser da variante Ulyssipona.
Por outras palavras: entre Alis Ubbo fenícia e Olisippo latina deve, filologicamente, admitir-se uma possível relação. E o Haver surgido a forma Ulyssipona (forma geradora de Lisboa) explicar-se-á por artes da lenda da fundação de Lisboa por Ulisses.
Em esquema, a minha tese é esta:
Fenício Alis Ubbo (latim Ulisippo – latim Ulyssipona – por influência de Ulysses) > Lisboa.
Isto o que na essência, apresentei em 1947 na Revista da Câmara Municipal de Lisboa. Depois disso, e para desenvolver, defender e reforçar a minha opinião, escrevi outros artigos para os quais remeto os interessados neste problema. (Esta palavra Lisboa, no Diário da Manhã de 4-4-1949); Descobrir-se a origem de Lisboa (no Diário Popular de 27-4-1949), A origem de Lisboa, no mesmo Diário de 20-7-1949.
Creio, porém, sinceramente, na hipótese por mim formulada na Revista Municipal, Lisboa veio do nome fenício Alis Ubbo, que os latinos tranformaram em Olisippo, forma relacionada com a lenda de Ulysses, deu Ulyssipona, e esta, por natural evolução, deu a linda palavra que nomeia a princesa do Tejo”

Lenda de Lisboa – Gentil Marques
(Do guião radiofónico (categoria teatro radiofónico) RCP - 1953. Interpretes: Gentil Marque (narrador); outros interpretes: Álvaro Benamor, Eunice Muñoz, e outros.
“Lisboa ! Velha e nobre Ulisseia dum país tão pequeno e tão grande, simultaneamente ! Das tuas sete colinas fala a história inteira. É sempre que em ti penso, vêem-me à lembrança os versos heróicos dum poeta quase desconhecido nos dias de hoje mas que no seu tempo foi muito grande: refiro-me a Gabriel Pereira de Castro, o autor dum glorioso poema épico, intitulado precisamente “Ulisseia ou Lisboa Edificada” e começa assim):

As armas e o varão que mal os seguro
Campos cortou do Egeu e do Oceano
Que por perigos e trabalhos duros
Eternizou seu nome soberano

A Grã Lisboa e seus primeiros muros
(Da Europa e largo Império Lusitano
Auta cabeça) se eu pudesse tanto
A Pátria, ao Mundo, à Eternidade canto.

Lembra-me, musa, as cousas e me inspira
Como por tantos mares o prudente
Grego, vencendo de Neptuno a ira,
Chegou no Tejo à túmida corrente;

Ouvirá o som da lusitana lira
O negro ocaso e lúcido oriente
Se tu dás ser a meu sujeito falto
Para que caiba em mim furor tão alto !

Ora conta a lenda que em tempos remotos, nada desta cidade de Lisboa existia, a não ser a sua própria configuração. E toda a costa recebia um nome estranho e simbólico. Chamava-se Ofiusa – ou seja a terra das serpentes. E as serpentes tinham também a sua rainha. Uma rainha estranha, meio mulher, meu serpente, senhora dum olhar feiticeiro, e duma voz quase infantil.
Às vezes subia ao alto dum monte e gritava ao vento para que pudesse ouvir a sua própria voz:
- Este é o meu reino ! Só eu governo aqui … ninguém mais ! Nenhum homem se atreverá a pôr aqui os pés !Ai do que ousar ! As minhas serpentes não o deixarão respirar um minuto, sequer !
Mas ela, a rainha, enganava-se nos seus pensamentos. De facto, durante muito e muito tempo, pessoa alguma se aventurou a desembarcar nesta costa amaldiçoada pelos deuses e pelos homens. Porém, um dia, vindo de longe, um herói lendário chamado Ulisses e famoso pelas suas façanhas guerreiras, aproou nesse mesmo local onde hoje se ergue a nossa cidade de Lisboa. Mal colocou os pés em terra, ele quedou-se deslumbrado. Seus olhos não se cansavam de abraçar as maravilhas de que a natureza se mostrava tão pródiga. Reunindo seus homens, ele exclamou na sua voz potente, habituada ao comando:
Aqui edificarei a cidade mais bela do Universo ! Dar-lhe-ei o meu nome … Será Ulisseia, capital do Mundo!
Porém, depressa ele compreendeu que a tarefa não seria fácil. Nada fácil mesmo ! Muitos dos seus homens tombaram envenenados por mordeduras de serpentes … outros desapareciam, apanhados por traiçoeiras armadilhas ! E, entretanto, o inimigo, desconhecido e oculto, ia apertando o seu cerco em redor de Ulisses.
O jovem guerreiro andava desesperado. Ele não era cobarde. Quase amava o perigo. Mas um perigo visível, um perigo palpável. Não um morticínio como aquele tão inglório. Certa vez em que a triste nova de saber que tombara para sempre um dos seus melhores amigos e vítima duma morte estranha, Ulisses subiu a um pouco donde dominava o espaço em frente e gritou a plenos pulmões:
- Por todos os deuses do Olimpo eu vos desafio, inimigo traiçoeiro e vilão. Estou habituado às lutas, mas cara a cara, frente a frente, com lutadores que se prezam e que não se escondem na sombra ! Aparecei de uma vez ! Quero ver-vos !
Mas em vão ele chamava ! O inimigo continuava ceifando vidas e não aparecia frente a frente. Apenas os silvos das serpentes – sinfonia de ruídos estranhos que inundavam a noite – mantinha Ulisses em permanente tensão nervosa.
Inimigo presente e oculto, simultaneamente, era o problema em que Ulisses se debatia, na ânsia duma solução. A sua coragem era enorme. Mas a sua valentia ultrapassava-a. Contudo, o problema continuava insolúvel. Como exterminar aquilo que se não conhece ? Nessa tarde, ainda o Sol caminhava seguro, na linha do horizonte quando o jovem guerreiro, tomado de súbita raiva, subiu, de novo, a uma pequena elevação de terreno, gritando:
. Ah! pudeis tentar tudo o que quiserdes, inimigo invisível! Mas não abandonarei esta terra sem aqui deixar a mais famosa cidade edificada até hoje! Ouviste bem o que eu disse?
Houve um terrível e profundo silêncio. E de súbito, um rochedo desviou-se e deu lugar a uma estranha mulher, que tinha qualquer coisa de serpente.
Ulisses ficou-se a olhá-la surpreendido e escutou a sua voz atraente mas incisiva:
- E se eu me opuser aos teus desígnios ? E se eu te disser, visitante ousado, que a tua vontade de nada vale dentro dos meus domínios ?
O jovem guerreiro, carregando o sobrolho, perguntou numa surpresa crescente:
- Mas quem sois vós, senhora ? Por esta luz que ilumina os meus olhos, vos juro que nunca vi ninguém semelhante a voz ! Quem sois ?
Serenamente, ela respondeu-lhe:
- Sou a rainha desta terra ! a rainha de Ufiusa, reino das serpentes !
O rosto de Ulisses, animou-se num sorriso. O primeiro, desde que o inimigo começara a atacá-lo. Mas esse sorriso não era feliz. Havia qualquer coisa de enigmático que lhe dava um sabor estranho. Aproximou-se da mulher que lhe fava. Olhou-a bem de frente, numa minúcia quase excitante, e declarou então:
- Agora compreendo porque sois assim ! Tendes, na verdade a graça felina das serpentes … a vossa fala é doce … o vosso olhar é amargo !...
Foi a vez da mulher sorrir. E a sua voz bonita tornou-se mais insinuante:
- Achais o meu olhar amargo ? Pois eu não o sou tanto como pensais, nobre navegante ! Durante dias e noites esperei a tua rendição. Mas foste corajoso ! Ainda Bem ! Apreendi a admirar-vos !
Ulisses curvou-se num cumprimento:
- Grato pelas vossas palavras, senhora … No meu país as mulheres não sabem falar assim !
Ela olhou-o intencionalmente:
- Pois aqui … na minha terra … sente-se a falta dum rei !
O jovem guerreiro sorriu:
- Quereis explicar-vos melhor ?
O olhar dela estava preso ao dele como que num encanto.
- Achais necessário, nobre navegante ? Não tendes já percebido o meu desejo ?
Sem deixar de a fitar, Ulisses, jovem e valoroso guerreiro, falou-lhe já um pouco perturbado:
Preferia que fosseis vós a expor o vosso plano !
Ela sorriu-lhe abertamente:
- Pois bem: Acho que podeis edificar aqui essa cidade que sonhaste mas … com uma condição: ficareis vivendo cá para sempre !
Ele, com o seu espírito de independência tentou ainda opor-se:
- E se eu não puder aceitar a vossa condição ?
Ela teve um gesto evasivo: Aceitando ou não, nobre navegador – creio que ficareis da mesma maneira !
Calaram-se. Ele sem resposta. Ela crente do seu triunfo. Continuava, porém, a prendê-lo nesse seu olhar estranho … como que de encantamento.
Vencido, Ulisses quase murmurou:
- Pois bem … aceito !
E a partir desse dia, ou, antes a partir dessa hora, tudo se modificou na terra estranha e bela onde Ulisses aportara. Desembarcaram homens, ferramentas, material. Num grande esforço, ergueram-se edifícios, abriram-se jardins, fizeram-se ruas !
As serpentes já não atacavam os operários. Agora reuniam-se e cantavam as mulheres serpentes para que os homens trabalhassem. Cântico enfeitiçado que possuía em si próprio qualquer coisa de mágico !
Algum tempo passou. Porém, Ulisses o irrequieto Ulisses não queria ficar ali. A sua terra chamava por ele. E embora aquela cidade recebesse o nome de Ulisseia, consagrando-o como seu dono e senhor, a verdade é que o destino de Ulisses era um destino de aventura. Ele sentia saudades do mar e sede de novas lutas. Mas partir não era fácil como ficar. Havia um grande, um enorme obstáculo quase impossível de transpor: a rainha das serpentes. Ela adorava-o e queria-o preso a si.
Aliás, em todos os tempos houve sempre quem gostasse de transmitir o segredo que lhe não pertence. E assim chegou aos ouvidos da Rainha que Ulisses pretendia deixá-la. Desesperada, ela procurou-o sem demora:
- Nunca te deixarei partir ! Olha bem para mim … Nos meus olhos podes ler o amor … ou a morte !
Ela viu bem como eram verdadeiras as suas palavras e achou que devia mentir-lhe para levar avante o seu projecto de uma abalada. E sorrindo-lhe o mais docemente possível, replicou-lhe:
- Mas quem te falou em abalar ? Nunca semelhante ideia me passou pela cabeça. Não vês como sou feliz contigo ? Não é tão bela a cidade que edificamos ?
O diálogo continuou numa atmosfera de dúvida e falso carinho.
- Ulisses ! Não me mintas ! Seria muito pior para ti ! O meu ódio será tão grande como o meu amor !
- És louca ! Não sou eu aqui o rei e senhor ? Para que havia de querer partir ?
- Disseram-me que tens saudades da tua terra !
- Mentiram-te !
- E com que intenção ?
A de desunir-nos ! Nós dois, juntos, somos muralhas invencíveis !
- Dizes bem ! Unidos ninguém conseguirá vencer-nos ! Mas … vejo-te, às vezes, tão pensativo a olhar para o Oceano … Receio que desejes novas aventuras …
- Que ideia ! Eu prefiro ler o amor nos teus olhos. Não quero ódios.
- No entanto, sinto que foges de mim.
- Isso é ideia tua ! Olha: à noite daremos um grande passeio, como nos primeiros dias do nosso amor. Queres ?
- Sim, Ulisses ! Mas não te esqueças: o meu amor é grande mas o meu ódio pode ainda ser maior !
Ele sorriu-lhe … Alguém chegou e a conversa ficou suspensa. Lentamente, a rainha das serpentes afastou-se …
Ulisses preparou tudo para essa noite. Teria de partir, ou antes, teria de fugir e para isso, precisava de um plano bem organizado. Habituado às lutas, fácil lhe foi organizar a fuga. E como precisasses de um auxiliar chamou o mais fiel dos seus companheiros, falando-lhe com ansiedade desusada:
- Escuta: preciso do teu auxílio …
O fiel companheiro respondeu-lhe com a solenidade dos grandes momentos:
- Podes contar comigo para tudo ! Dispõe da minha vida se quiseres.
- Não quero tanto … preciso apenas que te disfarces tão bem que alguém te possa confundir comigo próprio.
- É fácil … temos a mesma estatura !
Ulisses abanou a cabeça apreensiva:
- Pois sim … mas não te esqueças que se trata de enganar uma mulher … e o coração das mulheres é bem difícil de enganar !
O companheiro de Ulisses baixou a voz:
- Compreendo … queres fugir dela esta noite !
Ulisses sorriu feliz.
- Isso mesmo ! Tenho já o plano formado. Irás buscá-la e passear com ela que está à minha espera. Entretanto, eu fugirei.
Como resposta, o companheiro de Ulisses disse apenas:
- Que os deuses nos protejam !
De princípio, tudo se passou como Ulisses previa. O seu fiel companheiro, muito bem disfarçado, foi buscar a Rainha das Serpentes e levou-a para longe do rio, passeando ao luar. Mas só ela falava. Ele receava que ela lhe reconhecesse a voz. Embalada pela emoção do amor, a rainha serpente ia dizendo, embevecida:
- Construiremos um império imenso. E a tua Ulisseia – a nossa Ulisseia – será a cabeça do Mundo. A cabeça desse Império ! Que dizes ? Ah ! Mas tu não falas ? Não me dizes nada ? Porquê ?
A mulher serpente começou a inquietar-se.
Olha para mim ! Quero ver os teus olhos ! Tu escondes-me alguma coisa !
Ele tentou afastar-se. Ela encarou-o de frente e reparando no engano em que caíra, gritou furiosa:
- Ah, vilão ! Fui traída ! Enganada ! Mas tu morrerás e ele também. Este é o teu castigo. Recebe o meu veneno !
O companheiro de Ulisses deu um grito e caiu no chão. Ela curvou-se para ele:
- Diz-me ! Diz-me, miserável … onde está ele, o traidor ?
Num estertor o jovem companheiro de Ulisses que dera a vida pela liberdade do amigo, murmurou:
- Ele fugiu … fugiu pelo mar … já deve ir muito longe …
Ela serrou os dentes numa praga:
- Maldito ! Mil vezes maldito ! Hei-de alcança-lo custe o que custar !
E conta a lenda que num esforço superior às suas próprias possibilidades – a Rainha das Serpentes quis estender-se sobre a cidade alcançando o mar. Daí, dessa inútil tentativa – porque Ulisses já ia longe – resultou apenas a sua morte. E como simbolismo do esforço feito, ficaram as sete colinas de Lisboa, desenhadas pelas contorções da pobre Rainha das Serpentes.
Espavoridas, as serpentes fugiram. Mas ali, no antigo reino de veneno e morte, ficou edificada a altaneira, nas suas sete colinas, a mais bela cidade de então: Lisboa!”.

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

 

 

 

 

 

Livro de Visitas

 Recomende

Índice

 

 

 

 

 Fundo Musical: Lisboa Antiga

Compositores: Raul Portela; José Galhardo; Amadeu do Vale

Foto topo da página: Lisboa/Portugal

Edição e Arte Final:  Iara Melo

Resolução do Ecrã: 1024 * 768

 

 

 

 

 

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