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D. Afonso Henriques – (O
Conquistador)
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Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
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Morreu a 6 de Dezembro
de 1185
Em 1137, já senhor do poder, após a
vitória na Batalha de São Mamede, D.
Afonso Henriques, como resposta ao cerco
de Guimarães e, no desejo sempre
crescente de alcançar a independência
para o Condado, invadiu a Galiza e
derrotou os leoneses na Batalha de
Cerneja.
Notando, porém, que os mouros atacavam
os seus domínios pelo sul, viu-se
obrigado no mesmo ano a pedir a paz a
Afonso Vll, em condições desvantajosas.
Em seguida, organizou as suas tropas e
correu ao Alentejo a defender as suas
fronteiras ameaçadas pelo árabes. A 25
de Julho de 1139, D. Afonso Henriques
(na altura ainda Conde) enfrenta os
exércitos combinados de cinco reis
mouros. Segundo uma lenda, tem uma
visão: Cristo apareceu-lhe incitando-o à
batalha. Saindo vencedor, D. Afonso
Henriques intitula-se Rei de Portugal e
mandou pintar sobre a cruz, do seu
estandarte, cinco pequenos escudos azuis
(quinas), simbolizando os cinco reis
mouros vencidos, adornados cada um por
cinco pontos brancos, representando as
cinco chagas de Cristo. (As referências
ao número de pontos em cada quina vai de
5 a 12 em que o seu significado varia
desde serem chagas de Cristo, às
traiçoeiras moedas de Judas ou a
castelos conquistados aos mouros).
Como D. Afonso Henriques já se
intitulava rei de Portugal, marchando
sobre o norte, invadiu novamente a
Galiza, em 1140, para anular a paz de
Tui. Afonso Vll, respondendo a esta
afronta, invadiu por sua vez os
territórios do condado, avançando até
junto de Arcos de Valdevez. Travou-se
logo um torneio em que os portugueses
saíram vencedores.
Seguidamente, foi o próprio rei de Leão
que propôs a paz, tendo-se combinado um
armistício, de que resultou o Tratado de
Samora, em 1143. Com a protecção do
cardeal Guido de Viço, representante do
Papa, Afonso Vll reconhecia por esse
tratado o título de rei a D. Afonso
Henriques, e o Condado era, por fim,
declarado Reino Independente com o nome
de Portugal.
Para melhor garantir a independência e
firmar a Coroa, D. Afonso Henriques
ofereceu ao Papa Inocêncio ll, uma
pensão anual de quatro onças em ouro.
Liberto das lutas contra o rei de Leão,
D. Afonso Henriques voltou-se novamente
contra os mouros, conquistando-lhes
Santarém e Lisboa, no ano de 1147, sendo
nesta última auxiliado pelos Cruzados.
No ano seguinte, conquistou Sintra,
Almada e Palmela; Alcácer do Sal em
1158, Beja em 1162 e Évora em 1165; em
1166, conquistou Moura, Serpa e
Juromenha.
Depois … em 1169, quebrou as pazes com
seu genro Fernando ll, rei de Leão e
tentou conquistar Badajoz. Mas foi
infeliz nesta empresa, tendo partido uma
perna de encontro a uma das portas da
cidade, pelo que ficou prisioneiro.
Fernando ll, porém, querendo ser
generoso com o sogro, soltou-o pouco
tempo depois, mediante o compromisso de
restituição de todas as terras que ele
tinha conquistado na Galiza.
Neste reinado foram fundados os Mosteiro
de Alcobaça, o de Santa Cruz, em
Coimbra, e as igrejas de São João
Baptista, em Tarouca, e de São Vicente
de Fora, em Lisboa.
D. Afonso Henriques morreu em 1185,
tendo governado 12 anos como Príncipe e
45 como rei. O cognome histórico “o
Conquistador”, teve origens nas muitas
conquistas por ele alcançadas. Foi o
fundador do Reino de Portugal. Aquando
da sua morte, os mouros dominavam apenas
o território que hoje é o Algarve.
(Seus restos mortais encontram-se num
monumental mausoléu manuelino, no
Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, ao
lado de sua mulher e de seus filhos D.
Sancho l e D. Afonso ll.
Os antigos livros de linhagens do século
XlV são as principais fontes de
descrição dos factos ocorridos nos
Primórdios da Nacionalidade, em que se
relatam episódios bastante pitorescos.
Um deles acontece nos tempos de Afonso
Vll de Leão, em que o conde Mem Soares
andava desavindo com um cunhado pela
posse da vila de Novelas. O rei nomeou
Mem Soares adiantado-mor à do mesmo na
região de Portugal. Aproveitando-se
desta autoridade foi a Novelas e,
enquanto o cunhado dormia na companhia
de mais sete fidalgos, arrancou-lhe os
olhos. Mais tarde, um cavaleiro vassalo
dos um dos condes cegos acabaria por
matar Mem Soares. Muitos anos depois,
sendo D. Afonso Henriques já rei de
Portugal, foi visitar o conde D. Gonçalo
de Sousa à sua quinta de Ulhão. Enquanto
o anfitrião preparava o jantar, o rei
Conquistador, fazia amor com a condessa.
O marido voltou com cara de poucos
amigos mas limitou-se a dizer:
“Levantai-vos que a comida já está
pronta”. Enquanto comiam o conde mandou
tosquiar a mulher e devolveu-a aos pais
montada numa azémola (burra).
D. Afonso Henriques não escondeu a sua
reprovação e dirigindo-se para o conde,
afirmou: “D. Gonçalo por menos que isto,
um adiantado de meu avô cegou sete
condes !”.
Retorquiu o conde: “Cegou-os a torto e
morreu por isso”.
Os Lusíadas - Canto lll
(...)
28 - Afonso Henriques
"Quando chegado ao fim de sua
idade,
O forte e famoso Úngaro
estremado,
Forçado da fatal necessidade,
O espírito deu a quem lhe tinha
dado,
Ficava o filho em tenra
mocidade,
Em quem o pai deixava seu
traslado,
Que do mundo os mais fortes
igualava;
Que de tal pai tal filho se
esperava.
29
"Mas o velho rumor, não sei se
errado,
Que em tanta antiguidade não há
certeza,
Conta que a mãe, tomando todo o
estado,
Do segundo himeneu não se
despreza.
O filho órfão deixava
deserdado,
Dizendo que nas terras a
grandeza
Do senhorio todo só sua era,
Porque, para casar, seu pai
lhes dera.
30 - Lutas de Afonso Henriques
com a mãe, dona Teresa
"Mas o Príncipe Afonso, que
desta arte
Se chamava, do avô tomando o
nome,
Vendo-se em suas terras não ter
parte,
Que a mãe, com seu marido, as
manda e come,
Fervendo-lhe no peito o duro
Marte,
Imagina consigo como as tome.
Revolvidas as causas no
conceito,
Ao propósito firme segue o
efeito.
31 - Batalha de São Mamede
"De Guimarães o campo se tingia
Co'm sangue próprio da
intestina guerra,
Onde a mãe, que tão pouco o
parecia,
A seu filho negava o amor e a
terra.
Com ele posta em campo já se
via;
E não vê a soberba o muito que
erra
Contra Deus, contra o maternal
amor;
Mas nela o sensual era maior.
32
"Ó Progne crua! ó mágica
Medeia!
Se em vossos próprios filhos
vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa
alheia,
Olhai que ainda Teresa peca
mais:
Incontinência má, cobiça feia,
São as causas deste erro
principais:
Cila, por uma, mata o velho
pai,
Esta, por ambas, contra o filho
vai.
33 - Prisão de Dona Teresa
"Mas já o Príncipe claro o
vencimento
Do padrasto e da iníqua mãe
levava;
Já lhe obedece a terra num
momento,
Que primeiro contra ele
pelejava.
Porém, vencido de ira o
entendimento,
A mãe em ferros ásperos atava;
Mas de Deus foi vingada em
tempo breve:
Tanta veneração aos pais se
deve!
34 - Afonso VII, de Leão,
Invade Portugal
"Eis se ajunta o soberbo
Castelhano,
Para vingar a injúria de
Teresa,
Contra o tão raro em gente
Lusitano,
A quem nenhum trabalho agrava
ou pesa.
Em batalha cruel o peito
humano,
Ajudado da angélica defesa,
Não só contra tal fúria se
sustenta,
Mas o inimigo aspérrimo
afugenta.
35 - Cerco de Guimarães
"Não passa muito tempo, quando
o forte
Príncipe em Guimarães está
cercado
De infinito poder; que desta
sorte
Foi refazer-se o inimigo
magoado;
Mas, com se oferecer à dura
morte
O fiel Egas amo, foi livrado;
Que de outra arte pudera ser
perdido,
Segundo estava mal apercebido.
36 - Egas Moniz
''lulas o leal vassalo,
conhecendo
Que seu senhor não tinha
resistência,
Se vai ao Castelhano,
prometendo
Que ele faria dar-lhe
obediência.
Levanta o inimigo o cerco
horrendo,
Fiado na promessa e consciência
De Egas Moniz; mas não consente
o peito
Do moço ilustre a outrem ser
sujeito.
37
"Chegado tinha o prazo
prometido,
Em que o Rei Castelhano já
aguardava
Que o Príncipe, a seu mando
cometido,
Lhe desse a obediência que
esperava.
Vendo Egas que ficava fementido,
O que dele Castela não cuidava,
Determina de dar a doce vida
A troco da palavra mal
cumprida.
38
"E com seus filhos e mulher se
parte
A levantar com eles a fiança,
Descalços e despidos, de tal
arte,
Que mais move a piedade que a
vingança.
— "Se pretendes, Rei alto, de
vingar-te
De minha temerária confiança,
Dizia, eis aqui venho oferecido
A te pagar, com vida, o
prometido.
39
"Vês aqui trago as vidas
inocentes
Dos filhos sem pecado e da
consorte;
Se a peitos generosos e
excelentes,
Dos fracos satisfaz a fera
morte.
Vês aqui as mãos e a língua
delinquentes:
Nelas sós experimenta toda a
sorte
De tormentos, de mortes, pelo
estilo
De Cínis e do touro de Perilo"!
—
40
"Qual diante do algoz o
condenado,
Que já na vida a morte tem
bebido,
Põe no cepo a garganta, e já
entregado
Espera pelo golpe tão temido:
Tal diante do Príncipe
indignado,
Egas estava a tudo oferecido.
Mas o Rei, vendo a estranha
lealdade,
Mais pôde, enfim, que a ira a
piedade.
41
"Ó grão fidelidade Portuguesa,
De vassalo, que a tanto se
obrigava!
Que mais o Persa fez naquela
empresa,
Onde rosto e narizes se
cortava?
Do que ao grande Dário tanto
pesa,
Que mil vezes dizendo
suspirava,
Que mais o seu Zopiro são
prezara,
Que vinte Babilónias que
tomara.
42 - Afonso Prepara-se para
Combater os Mouros em Portugal
Mas já o Príncipe Afonso
aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras
habitava
D’além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se
assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão
pequeno.
43
"Em nenhuma outra coisa
confiado,
Senão no sumo Deus, que o Céu
regia,
Que tão pouco era o povo
baptizado,
Que para um só cem Mouros
haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que
ousadia,
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que para um cavaleiro houvesse
cento.
44 - "Cinco Reis Mouros São
Inimigos
"Cinco Reis Mouros são os
inimigos,
Dos quais o principal Ismar se
chama;
Todos experimentados nos
perigos
Da guerra, onde se alcança a
ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus
amigos,
Imitando a formosa e forte
Dama,
De quem tanto os Troianos se
ajudaram,
E as que o Termodonte já
gostaram.
45 - Visão de Afonso Henriques
"A matutina luz serena e fria,
As estrelas do Pólo já
apartava,
Quando na Cruz o Filho de
Maria,
Amostrando-se a Afonso, o
animava.
Ele, adorando quem lhe
aparecia,
Na Fé todo inflamado assim
gritava:
— "Aos infiéis, Senhor, aos
infiéis,
E não a mim, que creio o que
podeis!"
46 - Afonso Henriques é Clamado
Rei de Portugal
"Com tal milagre os ânimos da
gente
Portuguesa inflamados,
levantavam
Por seu Rei natural este
excelente
Príncipe, que do peito tanto
amavam;
E diante do exército potente
Dos inimigos, gritando o céu
tocavam,
Dizendo em alta voz: — "Real,
real,
Por Afonso alto Rei de
Portugal."
47
"Qual co'ms gritos e vozes
incitado,
Pela montanha o rábido Moloso,
Contra o touro remete, que
fiado
Na força está do corno
temeroso:
Ora pega na orelha, ora no
lado,
Latindo mais ligeiro que
forçoso,
Até que enfim, rompendo-lhe a
garganta,
Do bravo a força horrenda se
quebranta:
48 - Batalha de Ourique
"Tal do Rei novo o estômago
acendido
Por Deus e pelo povo
juntamente,
O Bárbaro comete apercebido,
Co'o animoso exército rompante.
Levantam nisto os perros o
alarido
Dos gritos, tocam a arma, ferve
a gente,
As lanças e arcos tomam, tubas
soam,
Instrumentos de guerra tudo
atroam.
49
"Bem como quando a flama, que
ateada
Foi nos áridos campos
(assoprando
O sibilante Bóreas) animada
Co'o vento, o seco mato vai
queimando;
A pastoral companha, que
deitada
Co'o doce sono estava,
despertando
Ao estridor do fogo que se
ateia,
Recolhe o fato, e foge para a
aldeia:
50
"Desta arte o Mouro atónito e
turvado,
Toma sem tento as armas mui
depressa;
Não foge; mas espera confiado,
E o ginete belígero arremessa.
O Português o encontra
denodado,
Pelos peitos as lanças lhe
atravessa:
Uns caem meios mortos, e outros
vão
A ajuda convocando do Alcorão.
51
"Ali se vêem encontros
temerosos,
Para se desfazer uma alta
serra,
E os animais correndo furiosos
Que Neptuno amostrou ferindo a
terra.
Golpes se dão medonhos e
forçosos;
Por toda a parte andava acesa a
guerra:
Mas o de Luso arnês, couraça e
malha
Rompe, corta, desfaz, abula e
talha.
52
"Cabeças pelo campo vão
saltando
Braços, pernas, sem dono e sem
sentido;
E doutros as entranhas
palpitando,
Pálida a cor, o gesto
amortecido.
Já perde o campo o exército
nefando;
Correm rios de sangue
desprazido,
Com que também do campo a cor
se perde,
Tornado carmesim de branco e
verde.
53 - Origem das Armas de
Portugal
"Já fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os troféus e presa
rica;
Desbaratado e roto o Mauro
Hispano,
Três dias o grão Rei no campo
fiei.
Aqui pinta no branco escudo
ufano,
Que agora esta vitória
certifica,
Cinco escudos azuis
esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis
vencidos,
54
"E nestes cinco escudos pinta
os trinta
Dinheiros por que Deus fora
vendido,
Escrevendo a memória em vária
tinta,
Daquele de quem foi favorecido.
Em cada uni dos cinco, cinco
pinta,
Porque assim fica o número
cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis, que em cruz
pintando veio.
55 - Tomada de Leiria, Arronches
e Santarém
"Passado já algum tempo que
passada
Era esta grão vitória, o Rei
subido
A tomar vai Leiria, que tomada
Fora, mui pouco havia, do
vencido.
Com esta a forte Arronches
subjugada
Foi juntamente, e o sempre
enobrecido
Scalabicastro, cujo campo
ameno,
Tu, claro Tejo, regas tão
sereno.
56 - Mafra, Sintra
"A estas nobres vilas sometidas,
Ajunta também Mafra, em pouco
espaço,
E nas serras da Lua conhecidas,
Sojuga a fria Sintra o duro
braço;
Sintra, onde as Naiades,
escondidas
Nas fontes, vão fugindo ao doce
laço,
Onde Amor as enreda
brandamente,
Nas águas acendendo fogo
ardente.
57 - Lisboa
"E tu, nobre Lisboa, que no
Mundo
Facilmente das outras és
princesa,
Que edificada foste do facundo,
Por cujo engano foi Dardânia
acesa;
Tu, a quem obedece o mar
profundo,
Obedeceste à força Portuguesa,
Ajudada também da forte armada,
Que das Boreais partes foi
mandada.
58
Cruzados que iam Combater os Turcos
"Lá do Germânico Albis, e do
Rene,
E da fria Bretanha conduzidos,
A destruir o povo Sarraceno,
Muitos com tensão santa eram
partidos.
Entrando a boca já do Tejo
ameno,
Co'o arraial do grande Afonso
unidos,
Cuja alta fama então subia aos
Céus,
Foi posto cerco tos muros
Ulisseus.
59 - Tomada de Lisboa
"Cinco vezes a Lua se
escondera,
E outras tantas mostrara cheio
o rosto,
Quando a cidade entrada se
rendera
Ao duro cerco, que lhe estava
posto.
Foi a batalha tão sanguina e
fera,
Quanto obrigava o firme
pressuposto
De vencedores ásperos e
ousados,
E de vencidos já desesperados.
60
"Desta arte enfim tomada se
rendeu
Aquela que, nos tempos já
passados,
A grande força nunca obedeceu
Dos frios povos Cíticos
ousados,
Cujo poder a tanto se estendeu
Que o Ibero o viu e o Tejo
amedrontados;
E enfim co'o Bétis tanto alguns
puderam
Que à terra de Vandália nome
deram.
61 - Óbidos. Alenquer. Torres
Vedras.
"Que cidade tão forte por
ventura
Haverá que resista, se Lisboa
Não pôde resistir à força dura
Da gente, cuja fama tanto voa?
Já lhe obedece toda a
Estremadura,
Óbidos, Alenquer, por onde soa
O tom das frescas águas, entre
as pedras,
Que murmurando lava, e Torres
Vedras.
62 - Elvas. Moura. Serpa.
Alcácere-do-Sal
"E vós também, ó terras
Transtaganas,
Afamadas co'o dom da flava
Ceres,
Obedeceis às forças mais que
humanas,
Entregando-lhe os muros e os
poderes.
E tu, lavrador Mouro, que te
enganas,
Se sustentar a fértil terra
queres;
Que Elvas, e Moura, e Serpa
conhecidas,
E Alcácere-do-Sal estão
rendidas.
63 - Évora
"Eis a nobre Cidade, certo
assento
Do rebelde Sertório
antigamente,
Onde ora as águas nítidas de
argento
Vem sustentar de longo a terra
e a gente,
Pelos arcos reais, que cento e
cento
Nos ares se alevantam
nobremente,
Obedeceu por meio e ousadia
De Giraldo, que medos não
temia.
64 - Beja
"Já na cidade Beja vai tomar
Vingança de Trancoso destruída
Afonso, que não sabe sossegar,
Por estender coa fama a curta
vida.
Não se lhe pode muito sustentar
A cidade; mas sendo já rendida,
Em toda a cousa viva a gente
irada
Provando os fios vai da dura
espada.
65 - Palmela e Cezimbra
"Com estas subjugada foi
Palmela,
E a piscosa Cezimbra, e
juntamente,
Sendo ajudado mais de sua
estrela,
Desbarata um exército potente:
Sentiu-o a vila, e viu-o a
serra dela,
Que a socorrê-la vinha
diligente
Pela fralda da serra,
descuidado
Do temeroso encontro inopinado.
66 - Badajoz
"O Rei de Badajoz era alto
Mouro,
Com quatro mil cavalos
furiosos,
Inúmeros peões, d'armas e de
ouro
Guarnecidos, guerreiros e
lustrosos.
Mas, qual no mês de Maio o
bravo touro,
Co'os ciúmes da vaca,
arreceosos,
Sentindo gente o bruto e cego
amante
Salteia o descuidado
caminhante:
67
"Desta arte Afonso súbito
mostrado
Na gente dá, que passa bem
segura,
Fere, mata, derriba denodado;
Foge o Rei Mouro, e só da vida
cura.
Dum pânico terror todo
assombrado,
Só de segui-lo o exército
procura;
Sendo estes que fizeram tanto
abalo
Não mais que só sessenta de
cavalo.
68 - Cerco de Badajoz
"Logo segue a vitória sem
tardança
O grão Rei incansável,
ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja
usança
Era andar sempre terras
conquistando.
Cercar vai Badajoz, e logo
alcança
O fim de seu desejo, pelejando
Com tanto esforço, e arte, e
valentia,
Que a fez fazer às outras
companhia.
69
"Mas o alto Deus, que para
longe guarda
O castigo daquele que o merece,
Ou, para que se emende, às
vezes tarda,
Ou por segredos que homem não
conhece,
Se até que sempre o forte Rei
resguarda
Dos perigos a que ele se
oferece;
Agora lhe não deixa ter defesa
Da maldição da mãe que estava
presa.
70 - Afonso Henriques é Feito
Prisioneiro dos Leoneses
"Que estando na cidade, que
cercara,
Cercado nela foi dos Lioneses,
Porque a conquista dela lhe
tomara,
De Lião sendo, e não dos
Portugueses.
A pertinácia aqui lhe custa
cara,
Assim como acontece muitas
vezes,
Que em ferros quebra as pernas,
indo aceso
A batalha, onde foi vencido e
preso.
71
"Ó famoso Pompeio, não te pene
De teus feitos ilustres a
ruína,
Nem ver que a justa Némesis
ordene
Ter teu sogro de ti vitória
dina,
Posto que o frio Fásis, ou
Siene,
Que para nenhum cabo a sombra
inclina,
O Bootes gelado e a linha
ardente,
Temessem o teu nome geralmente.
72
"Posto que a rica Arábia e que
os ferozes
Eníocos e Colcos, cuja fama
O Véu dourado estende, e os
Capadoces,
E Judeia, que um Deus adora e
ama,
E que os moles Sofenos, e os
atroces
Cilícios, com a Arménia, que
derrama
As águas dos dois rios, cuja
fonte
Está noutro mais alto e santo
monte;
73 - Afonso é Vencido pelo
Genro, Fernando II, Rei de Leão
"E posto enfim que desde o mar
de Atlante
Até o Cítico Tauro monte
erguido,
Já vencedor te vissem, não te
espanto
Se o campo Emátio só te viu
vencido,
Porque Afonso verás, soberbo e
avante,
Tudo render-se ser depois
rendido.
Assim o quis o conselho alto e
celeste,
Que vença o sogro a ti, e o
genro a este.
74 - Afonso é Posto em
Liberdade
"Tornado o Rei sublime
finalmente,
Do divino Juízo castigado,
Depois que em Santarém
soberbamente
Em vão dos Sarracenos foi
cercado,
E depois que do mártir Vicente
O santíssimo corpo venerado
Do Sacro Promontório conhecido
A cidade Ulisseia foi trazido;
(…)
83 - Morte de Afonso Henriques
"De tamanhas vitórias triunfava
O velho Afonso , Príncipe
subido,
Quando, quem tudo enfim
vencendo andava,
Da larga e muita idade foi
vencido.
A pálida doença lhe tocava
Com fria mão o corpo
enfraquecido;
E pagaram seus anos deste jeito
A triste Libitina seu direito.
84
"Os altos promontórios o
choraram,
E dos rios as águas saudosas
Os semeados campos alagaram
Com lágrimas correndo piedosas.
Mas tanto pelo mundo se
alargaram
Com faina suas obras valerosas,
Que sempre no seu Reino
chamarão
"Afonso, Afonso" os ecos, mas
em vão
D. Afonso Henriques
(Dicionário Histórico, Corográfico,
Heráldico, Biográfico, Bibliográfico,
Numismático e Artístico, Volume I, págs.
58-59):
Teria nascido no ano de 1111 e faleceu a
6 de Dezembro de 1185.
Fundador da monarquia portuguesa e um
dos vultos mais notáveis da nossa.
História e da História da Idade Média;
era mais conhecido pelo nome patronímico
de D. Afonso Henriques. Seu pai, o conde
de Borgonha D. Henrique, viera a Espanha
auxiliar el-rei D. Afonso VI, de Leão,
na guerra contra os infiéis, e D.
Afonso, ficando vitorioso, concedeu-lhe
em recompensa a mão de sua filha
ilegítima, D. Teresa, e o governo das
terras de Portugal. D. Henrique era
ambicioso, e não tardou a conseguir o
ficar independente da espécie de
suserania, que pesava sobre ele.
D. Afonso Henriques nasceu. em
Guimarães, em 1111 onde tem um
monumento, e até aos 12 anos esteve
entregue aos cuidados de seu aio, Egas
Moniz, honrado e lealíssimo carácter que
tantas provas lhe deu de dedicação e
amor. Aos 14 anos foi armado cavaleiro
na catedral de Samora. Por morte de seu
pai tendo D. Afonso apenas 3 anos, D.
Teresa ficara governando Portucale
durante a sua menoridade. Sendo
ambiciosa, esforçava-se por subtrair os
seus estados à suserania de Leão; daqui
resultaram grandes lutas, em que o
espírito da independência, que sempre
tinham manifestado os barões do sul do
Minho, auxiliou poderosamente as suas
vistas ambiciosas. D. Teresa, porém,
deixou-se cativar pelo prestígio dum
fidalgo galego, D. Fernão Peres, conde
de Trava, e os projectos de ambição
tomaram um carácter mais pessoal. 0
conde de Trava insinuou-se no espírito
de D. Teresa, pretendendo desposá-la
para assim desapossar o jovem Afonso
Henriques dos estados que de direito lhe
pertenciam. D. Afonso, apesar dos seus
verdes anos, e que não vira nunca com
bons olhos os amores de sua mãe,
tornou-se chefe do movimento
revolucionário, preparado pelos
fidalgos, verdadeiros e leais
portugueses, que exigiam a conservação
da sua Independência. D. Afonso VII, rei
de Leão, que sucedera a seu pai D.
Afonso VI, não desistindo do intento de
conservar a suserania sobre os estados
de Portucale, aproveitou o ensejo, para
o invadir em som de guerra, cercando
exactamente Guimarães. Esta invasão veio
perturbar dalguma forma os dois
partidos, o de D. Teresa e o de seu
filho, e acirrar ainda mais os ânimos; o
jovem príncipe português, vendo-se a
braços com a guerra interna, não
desejava envolver-se em conflitos
externos, e por isso, querendo ver-se
livre o mais breve possível do seu
adversário, prometeu tudo quanto ele
exigia, empenhando Egas Moniz a sua
palavra em como a promessa seria
cumprida. D. Teresa também acedeu às
suas exigências, D. Afonso retirou-se
tranquilamente para os seus estados.
Então, tornou-se ainda mais encarniçada
a guerra entre os dois partidos; e
estando D. Teresa em Guimarães com o
conde de Trava, D. Afonso Henriques
marchou contra eles seguido pela maior
parte dos fidalgos portugueses. 0 conde
do Trava saiu-lhe ao caminho com o seu
exército nos campos de S. Mamede, onde
se deu renhida batalha, em que ficou
vitorioso o jovem principie, sendo
expulsos do reino D. Teresa e o conde de
Trava. Esta batalha deu se em 1128. O
entusiasmo levou então D. Afonso
Henriques a esquecer a promessa feita
pelo seu aio, mostrando-se resolvido a
não a cumprir. Egas Moniz entendeu que
era preciso uma vítima expiatória, para
não manchar a aurora do novo reino, e
foi apresentar-se ao rei de Leão,
acompanhado de sua mulher e filhos,
oferecendo-lhe a sua vida e a de todos
os seus, para resgate da sua fé. D.
Afonso VII impressionou-se muito com a
grandeza desta dedicação e honradez, e
despediu o cavaleiro, incólume e livre,
dando-lhe provas do grande apreço que
lhe merecia. Nas guerras com Leão e as
lutas, tanto internas como externas, que
teve de sustentar, dominado pelo
pensamento de consolidar a independência
de Portugal, adquiriu D. Afonso
Henriques a firmeza e o heroísmo, que
depois tão brilhantemente se haviam de
afirmar e que tantos respeitos lhe
conquistaram.
Enquanto se entretinha em combates
contra os leoneses, ficando quase sempre
vencedor, soube que os muçulmanos haviam
invadido os seus estados. Pela primeira
vez se via obrigado a ocupar-se desses
dominadores da península; os mouros
haviam tomado Leiria, derrotado os
cristãos em Tomar, e tinham chegado
quase às portas de Coimbra. Esta
circunstância obrigou o jovem príncipe a
pedir pazes a seu primo, D. Afonso VII.
Então fortificou a parte do sul do
reino, e partindo para o: Alentejo deu a
célebre batalha de Ourique, em 1139, em
que o seu valor e a sua extraordinária
valentia se armaram dum modo heróico. Os
nossos historiadores quiseram, que nesta
batalha fosse D. Afonso aclamado rei,
pelos soldados entusiasmados. Mas as
datas opõem-se, porque o combate de
Ourique deu-se em Julho de 1139, e há um
documento de 1 de Outubro desse ano, em
que D. Afonso Henriques recebe ainda o
tratamento de infante. 0 facto é que,
desde o princípio do seu governo, os
súbditos foram pouco a pouco
habituando-se a tratá-lo como rei, mas
em 1140 é que principiaram a aparecer
documentos repetidos, tratando-o como
rei de Portugal. A ambição de D. Afonso
era a realeza, mas o seu primo, D.
Afonso VII, não queria de forma alguma
reconhece-lo como rei. Em 1143,
dirigiu-se então ao papa Inocêncio II,
declarou Portugal tributário da Santa
Sé, com o censo anual de 4 onças de
ouro, e reclamou para a nova monarquia,
em troca, a protecção pontifícia. 0 papa
acedeu. Ainda assim D. Afonso VII,
assinando depois em Samora a paz com seu
primo, não lhe reconheceu a realeza, mas
não protestou contra o título de rei,
que ele tomava na escritura, a que
assistiu o legado do papa, sancionando
com a sua presença a aurora da nova
monarquia. A coroa estava finalmente
consolidada na fronte de D. Afonso
Henriques. Tinham-lha oferecido nas
pontas das espadas os seus valentes
cavaleiros, colocara-a ele
audaciosamente sobre a cabeça com as
mãos vitoriosas, e inclinando-a
levemente diante da tiara,
assegurara-lhe a inviolabilidade,
garantida pelos raios protectores do
Vaticano.
D. Afonso, vendo conquistada
definitivamente a independência de
Portugal, ambicionou aumentar o
território, apertado em limites
estreitíssimos. Cingido ao norte e a
leste pelo reino de Leão, ao ocidente
pelo oceano, Portugal só podia
ampliar-se para o sul à custa de
renhidas batalhas e porfiada luta.
Começou então uma série de conquistas,
qual delas mais valentemente disputada
aos mouros. Em 1147 é Santarém tomada
por surpresa; durante 22 anos de 1147 a
1163, houve continuas invasões na
província de Alcácer do Sal; a cidade é
que sempre resistia, caindo afinal nas
mãos dos portugueses em 1158. Desde essa
data até 1169, a vida de D. Afonso
Henriques foi uma série de combates em
que sempre saia vencedor; à conquista de
Lisboa, seguira-se a de Santarém; as
vilas de Palmela, Almada e Sintra,
caíram em poder do novo rei, que em
breve se tornou também senhor de todas
as terras entre o Mondego e o Tejo; Beja
foi tomada em 1162, Évora, Moura, Serpa
e Sesimbra, em 1166; continuou sempre
combatendo, apesar de já muito adiantado
em anos, tendo por companheiros
esforçados homens destemidos como Martim
Moniz, Geraldo sem pavor, Gonçalo Mendes
da Maia, Fernando Gonçalves, etc. O
período das gloriosas façanhas militares
do fundador da monarquia encerra-se
epicamente com a heróica resistência de
Santarém e Lisboa. em 1184, contra a
invasão do emir Iussuf Abu Jacub, morto
com uma lançada, quando atravessava o
Tejo, por D. Sancho, filho de D. Afonso
Henriques.
0 grande conquistador casara em 1146 com
D. Mafalda, filha de Amadeu II, conde de
Mariana e Sabóia; f. com 74 anos a 6 de
Dezembro de 1185.
Dizem os historiadores que era de
estatura atlética e porte majestoso.
Fundou o convento de Santa Cruz de
Coimbra, onde jaz sepultado, Santa Maria
de Alcobaça, S. João Baptista de
Tarouca, e S. Vicente de Fora em Lisboa.
Fundou duas ordens militares. a da Ala,
que já, não existe; e a de S. Bento de
Avir; introduziu em Portugal os
cavaleiros de Rodes, e começou a ponte
de Coimbra.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

FORMATAÇÃO:
IARA MELO
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