Portugal começava a
sentir a necessidade de se
expandir pelo mundo. D.
Fernando Iº, acarinhando
essa ideia, voltou-se contra
Castela, com a qual
sustentou três guerras.
A primeira, entre 1369 e
1371, teve origem nos
pretensos direitos de D.
Fernando à coroa daquele
reino.
A segunda, entre 1372 e
1373, proveio da sua aliança
com o duque de Lencastre,
filho do rei de Inglaterra,
que, por sua vez, alegava
idênticos direitos à mesma
coroa de Castela. Os
castelhanos invadiram então
Portugal e vieram cercar
Lisboa.
A terceira, entre 1381 e
1382, resultou de nova
aliança que D. Fernando l
fizera, secretamente, com o
duque de Lencastre.
Portugal, à semelhança do
que já sucedera a quando da
2ª guerra, voltou a ser
invadido por tropas
castelhanas, sofrendo os
nossos soldados, a
princípio, sérios reveses, e
a esquadra portuguesa é
derrotada na batalha naval
de Saltes.
D. Fernando l havia-se
comprometido a casar com D.
Leonor, filha do rei de
Aragão, o que não cumpriu.
Seguidamente, prometeu
desposar a filha do rei de
Castela, também chamada D.
Leonor. Tendo, porém,
igualmente faltado a este
novo compromisso, tratava o
rei de casar com D. Leonor
Teles, senhora que não
reunia os requisitos de
linhagem, nem os predicados
morais indispensáveis para o
alto cargo de rainha. Tal
propósito desgostou o povo
de Lisboa que, amotinando-se
e levando à frente o
alfaiate Fernão Vasques, foi
em 1371, protestar junto ao
monarca. Mas nada obstou ao
infeliz casamento, que, no
mesmo ano, veio a
celebrar-se, em segredo, no
mosteiro de Leça de Balio
(Matosinhos). Fernão Vasques
e todos os instigadores do
motim foram depois
executados por mandado de D.
Leonor Teles.
As lutas que D. Fernando l
sustentou contra Castela, o
seu casamento com D. Leonor
Teles e algumas suas
inconstantes atitudes
governativas foram, é certo,
muito prejudiciais para o
Reino. Apesar de tudo,
também decretou e pôs em
execução algumas acertadas
medidas de fomento, que
muito contribuíram para o
bem público e riqueza do
tesouro, tais como:
Lei das sesmarias (1375) que
tornou obrigatória a cultura
pelos seus donos e sujeitou
os vadios a trabalharem nos
campos das herdades;
Lei da marinha, que fomentou
a construção de muitos
navios, alguns à custa do
próprio rei, facilitou a
exportação das mercadorias e
favoreceu, com a criação das
Bolsas de Porto e Lisboa, os
armadores (donos) desses
navios;
Construção de novas muralhas
em volta de Lisboa, que
muito contribuiu para
proteger e defender Lisboa.
Este cinto de parede,
conhecida pela Cerca Nova,
era servido por 46 portas,
tinha 77 torreões e media de
perímetro, 5.775 metros;
Aliança Inglesa (1373),
estabeleceu o início da
secular amizade anglo-lusa.
D. Fernando l faleceu sem
deixar filhos varões. Do seu
casamento com D. Leonor
Teles, nasceu uma única
filha, que se achava casada
com João, rei de Castela.
Seus restos mortais
encontram-se em Santarém.
Os Lusíadas - CANTO
III
(...)
138 - D. Fernando
"Do justo e duro Pedro
nasce o brando,
(Vede da natureza o
desconcerto!)
Remisso, e sem cuidado
algum, Fernando,
Que todo o Reino pôs em
muito aperto:
Que, vindo o Castelhano
devastando
As terras sem defesa,
esteve perto
De destruir-se o Reino
totalmente;
Que um fraco Rei faz
fraca a forte gente.
139 - Leonor
Teles
"Ou foi castigo claro
do pecado
De tirar Lianor a seu
marido,
E casar-se com ela, de
enlevado
Num falso parecer mal
entendido;
Ou foi que o coração
sujeito e dado
Ao vício vil, de quem
se viu rendido,
Mole se fez e fraco; e
bem parece,
Que um baixo amor os
fortes enfraquece.
140
"Do pecado tiveram
sempre a pena
Muitos, que Deus o
quis, e permitiu:
Os que foram roubar a
bela Helena,
E com Apio também
Tarquilio o viu.
Pois por quem David
Santo se condena?
Ou quem o Tribo ilustre
destruiu
De Benjamim? Bem claro
no-lo ensina
Por Sara Faraó, Siquém
por Dina.
141 - Marco
António. Aníbal
"E pois se os peitos
fortes enfraquece
Um inconcesso amor
desatinado,
Bem no filho de Alcmena
se parece,
Quando em Ônfale andava
transformado.
De Marco Antônio a
faina se escurece
Com ser tanto a
Cleopatra afeiçoado.
Tu também, Peno
próspero, o sentiste
Depois que uma moça vil
na Apúlia viste.
142 - O Poder
do Amor
"Mas quem pode
livrar-se por ventura
Dos laços que Amor arma
brandamente
Entre as rosas e a neve
humana pura,
O ouro e o alabastro
transparente?
Quem de uma peregrina
formosura,
De um vulto de Medusa
propriamente,
Que o coração converte,
que tem preso,
Em pedra não, mas em
desejo aceso?
143
"Quem viu um olhar
seguro, um gesto brando,
Uma suave e angélica
excelência,
Que em si está sempre
as almas transformando,
Que tivesse contra ela
resistência?
Desculpado por certo
está Fernando,
Para quem tem de amor
experiência;
Mas antes, tendo livre
a fantasia,
Por muito mais culpado
o julgaria.
Fernando I, O Formoso ,
n. 31 de Outubro de 1315 , f.
22 de Outubro de 1383 (9.º rei
de Portugal)
Nasceu em Lisboa a 31 de Outubro
de 1315, onde também faleceu a
22 de igual mês de 1383. Teve o
cognome de formoso pela
gentileza do seu porte. Era
filho de D. Pedro I e de sua
mulher, a rainha D. Constança,
que faleceu ao dá-lo à luz,
deixando-o assim orfão dos
carinhos maternais desde o
nascimento. Por morte de seu
pai, sucedida em 18 de Janeiro
de 1367, subiu ao trono,
contando 21 anos de idade.
A natureza concedera-lhe
liberalmente todos os dons para
se fazer amar do seu povo, mas a
sua politica ruinosa, os
escândalos que provocou, o seu
carácter volúvel, louca
prodigalidade e a imoralidade do
seu viver, não tardaram a
excitar a geral indignação, e
causaram a Portugal irreparáveis
danos. D. Fernando era
ambicioso, apesar da sua
indolência, grande predilecção
pelos prazeres amorosos, e do
seu pouco gosto pelas batalhas.
Quando D. Pedro, o cruel, foi
morto por seu irmão bastardo, D.
Henrique de Trastamara, também
pretendente ao trono de Castela,
refugiaram-se em Portugal muitos
fidalgos partidários do vencido.
e que tinham lutado em sua
defesa. Estes fidalgos
despertaram a ambição de D.
Fernando, aconselhando-o a que
fizesse valer os seus direitos à
coroa, por sua mãe, D.
Constança, prometendo-lhe que
muitas cidades castelhanas
seguiriam o seu partido, facto
que efectivamente se deu; o povo
português reprovava a guerra,
que só poderia ser favorável a
esses estrangeiros que D.
Fernando tanto estiorava, mas o
rei só atendia à sua ambição e,
para realizar os seus intentos,
não duvidou em se aliar com o
rei moiro de Granada, deixando-o
apoderar-se das terras que
fossem ao seu partido, e
permitindo-lhe que chamasse para
o socorrerem os correligionários
africanos. O neto de D. Afonso
IV, vencedor do Salado,
sacrificava assim à sua ambição
pessoal uma grande parte da
península cristã, que seu avô
tão briosamente havia defendido.
Ao mesmo tempo solicitava a
aliança do rei de Aragão,
dando-lhe as cidades que
conquistasse, e comprometendo-se
a pagar-lhe desde logo um
subsídio. Aos fidalgos
castelhanos que se diziam seus
partidários, concedia todas as
mercês, distribuindo por eles as
terras de Portugal. D. Fernando,
depois de tomar estas
precauções, que julgava
propicias para alcançar o que
desejava, invadiu a Galiza que
se declarara a seu favor, mas
provou logo a sua incapacidade
militar e falta de gosto pelos
exercícios bélicos. Na verdade,
D. Henrique, apenas soube desta
invasão, marchou para Galiza com
um forte exército, e D.
Fernando, não só se retirou
precipitadamente, mas confiando
a D. Álvaro Pires de Castro o
cuidado de dirigir a retirada,
meteu-se numa galé e fugiu para
o Porto. D. Henrique atravessou
o Minho, entrou em Portugal,
tomou Braga, e não podendo
render Guimarães, passou a
Trás-os-Montes, que devastou,
tomando Bragança, Vinhais e
Miranda, e não prosseguiu nas
suas conquistas, porque o rei
moiro de Granada atacando a
Andaluzia, o obrigou a partir em
socorro da sua fronteira
meridional. D. Fernando fora
para Coimbra presenciando
indiferente e de longe a
devastação do seu reino. Depois,
ao passo que pedia em casamento
a filha do rei de Aragão, e lhe
enviava importantes quantias
para lhe subsidiar a aliança e
animá-lo a fazer a guerra a
Castela, negociava a paz com o
rei D. Henrique, tratando
igualmente o casamento com uma
sua filha. As pazes afinal
assinaram-se em Alcoutim em
condições. não muito
desfavoráveis para Portugal, e
com a cláusula de se realizar o
casamento de D. Fernando com D.
Leonor de Castela. O rei de
Aragão ficou furioso, e para se
vingar prendeu o tesoureiro
português Afonso Baraceiro, que
lhe levara o subsídio de D.
Fernando, e confiscou-lhe todo o
dinheiro que ainda tinha em seu
poder. As enormes despesas da
guerra, a perda de tanto
dinheiro com o rei de Aragão, as
largas mercês concedidas aos
fidalgos castelhanos haviam
reduzido o fisco português a
tais dificuldades que D.
Fernando viu-se obrigado a
recorrer à medida da alteração
das moedas. Era um recurso
fictício, de que resultou a
carestia de tudo, tendo o rei de
fixar taxas ao preço dos
géneros, vexame que fez
desaparecer os géneros do
mercado, e produziu a fome. Como
se não bastassem tantas
desgraças, o futuro ainda
preparava um quadro mais
tenebroso; a paixão louca de que
D. Fernando se possuiu por D.
Leonor Teles de Menezes, mulher
dissoluta, perigosa e perversa,
que tanto influiu no seu ânimo,
veio completar a obra da ruína e
perdição do reino. D. Leonor
Telles era formosa, casada com
um fidalgo chamado João Lourenço
da Cunha, e irmã de D. Maria
Telles, dama de D. Beatriz,
filha de D. Inês de Castro e
irmã de D. Fernando, que vivia
no mesmo paço real, passando por
entreter criminosa intimidade
com o próprio irmão. D. Leonor
Telles costumava visitar sua
irmã; numa dessas visitas viu D.
Fernando nos aposentos de D.
Beatriz, e sentiu por ele uma
paixão violenta e impetuosa. D.
Fernando falou a D. Maria
Telles, manifestando o amor que
os encantos da irmã lhe
despertara na alma, porém D.
Maria Teles, muito diferente de
D. Leonor, era uma senhora
honestíssima, e repeliu as
confidências do soberano,
dizendo que não concorreria
nunca para que sua irmã fosse
amante do rei. D. Fernando
alegou que a queria para sua
mulher, contando obter o
divórcio de D. Leonor, a
pretexto dum parentesco
longínquo entre ela e seu
marido. Era o que D. Leonor
Teles desejava, iria ser rainha,
o que muito satisfazia à sua
ambição. O divórcio obteve-se, a
dispensa de Roma não se fez
esperar; João Lourenço da Cunha,
sabendo o que se passava,
abandonou sua mulher, preferindo
o divorcio aos perigos que
poderia correr, sujeitando-se à
cólera D'el-rei, e refugiou-se
em Castela. (V. D. Leonor Teles,
e Cunha, João Lourenço da).
Vencidos assim os obstáculos, o
casamento realizou-se em
segredo, em 1371, na igreja do
convento de Leça do Balio. Pela
segunda vez teve D. Fernando de
desmanchar um casamento ajustado
por tratados. O rei de Castela,
assim como o de Aragão, aceitou
as desculpas, mas vingou-se
modificando o tratado de
Alcoutim com cláusulas novas,
todas em sua própria vantagem.
Quando se tornou público o
casamento de D. Fernando, a
oposição foi enérgica e
veemente; em Lisboa rebentou uma
revolução, que obrigou o monarca
a fugir para Santarém, mas que
foi cruelmente castigada, sendo
os chefes presos e condenados à
morte. Em 1372 achavam-se no
Porto os dois cônjuges, sendo
então D. Leonor Teles
reconhecida como rainha de
Portugal por toda a corte;
houve, porém, um fidalgo que se
recusou a beijar-lhe a mão, foi
D. Diniz, filho de D. Pedro I e
de D. Inês de Castro, e por isso
teve de fugir para Castela (V.
Diniz, D.). Veio depois a guerra
com Castela, que foi bem
desastrosa. D. Henrique
atravessou, Portugal quase sem
encontrar resistência, e veio
pôr cerco a Lisboa, terminando a
guerra com uma paz humilhante
assinada em 19 de Março de 1373.
0 reino conservou-se durante 5
anos em completa paz, e esses 5
anos foram empregados em tomar
providências úteis e em
administrar sensatamente, e foi
essa a parte brilhante deste
reinado. D. Fernando tomou então
medidas muito sensatas sobre o
desenvolvimento da agricultura e
da marinha, construíram-se
navios, Lisboa foi circundada de
muralhas, fizeram-se leis
repressivas da mendicidade; leis
animadoras do comércio;
tomaram-se medidas enérgicas
contra os abusos da nobreza. No
que respeita à conveniência dos
estudos mereceu um certo louvor.
Fez manter e guardar os
privilégios da Universidade de
Coimbra, dando provas de que
tomava muito a peito auxiliar os
estudos do reino. Em 1376
impetrou do papa Gregório IX uma
bula, para que se dessem graus
de bacharel em qualquer lícita
faculdade, e se usassem as
insígnias destes graus. A
provisão de 3 de Junho de 1377,
pela qual transferiu a
Universidade para Lisboa, faz
ver que mandara vir de reinos
estrangeiros alguns homens de
instrução para regerem cadeiras
no Studo. É muito curiosa a
cláusula dessa provisão, na
parte em que dá a razão da
transferência: «E vendo e
considerando, que se o nosso
Studo que ora staa na Cidade de
Coimbra, fosse mudado na cidade
de Lisboa, que na nossa terra
poderia aver mais letrados, que
averia, se o dito Studo na dita
Cidade de Coimbra estevesse, por
alguns lentes, que de otros
regnos mandamos vir, nom queriam
leer se nom na cidade de
Lisboa... mandamos que o dito
Studo, que ora staa na dita
cidade de Coimbra, seja em a
dita cidade de Lisboa pela guiza
que ante soya estar.» Provisões
em grande número abonam o
interesse que lhe merecia à,
Universidade, e o quanto se
empenhou em promover os cómodos
dos lentes e dos estudantes, e
em fazer guardar os foros,
regalias e privilégios da mesma
Universidade. Nos princípios do
ano de 1378 isentou-a de pagar
dízimas e portagens de todas as
coisas que fossem trazidas para
mantimentos das pessoas da mesma
Universidade, assim por terra
como por mar; mandou a todos os
oficiais destes direitos que os
não percebessem, sem embargo de
qualquer defesa ou mandado em
contrário, e que os respectivos
escrivães registassem em seus
livros esta provisão. Pouco
tempo, porém, durou este
movimento moralizador;
infelizmente a sensualidade e a
ambição. os dois vícios
predominantes de D. Fernando
prejudicaram, sempre o bom
efeito da sua administração. A
devassidão propagara-se de tal
forma, que a impudência era
completa. Os amores escandalosos
da rainha com o conde de Andeiro,
fidalgo espanhol (V. Andeiro)
não tardaram a tornar-se
públicos, e o desejo incessante
de cingir a coroa de Castela,
lançava de novo o monarca em
deploráveis lutas. Foi o próprio
conde Andeiro quem preparou a
guerra, servindo como negociador
secreto entre Portugal e
Inglaterra para uma nova aliança
contra Castela, aproveitando
duplamente o mistério em que
essas negociações se envolviam
para estar a sós com el-rei
tratando de enganar Castela, e
com a rainha tratando de enganar
a el-rei. Em resultado destas
negociações veio a Portugal o
príncipe conde de Cambridge com
um pequeno exército. Então todas
as desgraças caíram a um tempo
sobre o reino; a guerra assolava
as fronteiras sem resultado de
espécie alguma; no mar a nossa
esquadra sofreu uma terrível
derrota; os nossos aliados, os
ingleses, praticavam as maiores
atrocidades nas províncias; D.
Leonor Teles enganava
descaradamente o marido,
exercendo grande império no seu
espírito, chegando a
arrancar-lhe uma ordem para se
mandar matar D. João, o mestre
de Avis, que ela detestava, o
qual foi salvo milagrosamente
por um servidor fiel. A Igreja
cristã estava dividida pelo
grande cisma do Ocidente, e D.
Fernando, que em religião tinha
tão absoluta falta de princípios
como em moralidade, e com o seu
carácter volúvel, ora reconhecia
um papa ora reconhecia outro,
com grave perturbação da
consciência dos seus súbditos.
No fim de tantos desastres, fez
se a paz, dando D. Fernando sua
filha D. Beatriz em casamento ao
novo rei D. João I de Castela.
Era uma perfídia, porque D.
Beatriz, apesar de muito criança
ainda, já fora desposada com um
filho do conde de Cambridge, por
isso o fidalgo inglês saiu
furioso de Portugal. A paz
assinou-se em 1383. D. Fernando
sentia-se muito doente, e
conhecendo que a morte se
aproximava, pediu os sacramentos
da Igreja, e lamentou e chorou
amargamente as faltas que em
toda a sua vida cometera. Teve
três filhos do seu matrimónio:
D. Afonso e D. Pedro, que
morreram logo depois de nascerem
e D. Beatriz que foi rainha de
Castela, mulher de D. João I,
filho de D. Henrique de
Trastamara. Teve também uma
filha bastarda, que casou com o
conde de Gijon, filho bastardo
do referido monarca castelhano
D. Henrique.
Dicionário Histórico,
Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico,
Numismático e Artístico, Volume
III, págs. 377-379.
D. Leonor Teles
ARRAS POR FORO DE ESPANHA
(1371-1372) - de Alexandre
Herculano
(...) CAPÍTULO II
O BEGUINO Quem hoje passa pela
cadeia da cidade de Lisboa,
edifício imundo, miserável,
insalubre, que por si só bastara
a servir de castigo a grandes
crimes, ainda vê na extremidade
dele umas ruínas, uns entulhos
amontoados, que separa da rua
uma parede de pouca altura, onde
se abre uma janela gótica. Esta
parede e esta janela são tudo o
que resta dos antigos Paços de a
par S. Martinho, igreja que
também já desapareceu, sem
deixar, sequer, por memória um
pano de muro, uma fresta de
outro tempo. O Limoneiro é um
dos monumentos de Lisboa sobre
que revoam mais tradições de
remotas eras. Nenhuns paços dos
nossos reis da primeira e da
segunda dinastia foram mais
vezes habitados por eles.
Conhecidos sucessivamente pelos
nomes de "Paços de El-Rei",
"Paços dos Infantes", "Paços da
Moeda", "Paços do Limoeiro", a
sua história vai sumir-se nas
trevas dos tempos. São da era
mourisca? Fundaram-nos os
primeiros reis portugueses?
Ignoramo-lo. E que muito, se a
origem de Santa Maria Maior, da
venerando catedral de Lisboa, é
um mistério! Se, transfigurada
pelos terramotos, pelos
incêndios e pelos cónegos, nem
no seu arquivo queimado, nem nas
suas rugas caiadas e douradas
pode achar a certidão do seu
nascimento e dos anos da sua
vida! Como as da igreja, as
ruínas da monarquia dormem em
silencio à roda de nós, e,
envolto nos seus eternos
farrapos, o povo vive eterno em
cima ou ao lado delas, e nem
sequer indaga porque jazem aí!
Na memorável noite em que se
passaram os sucessos narrados no
capítulo antecedente, essa
janela dos Paços de El-Rei era a
única aberta em todo o vasto
edifício, mas calada e escura,
como todas as outras. Só, de
quando em quando, quem para lá
olhasse atento do meio do
terreiro enxergaria o que quer
que fosse, alvacento, que ora se
chegava à janela, ora se
retraía. Mas o silêncio que
reinava naqueles sítios não era
interrompido pelo menor ruído.
De repente, um vulto chegou
debaixo da janela e bateu
devagarinho as palmas: a figura
alvacenta chegou à janela,
debruçou-se, disse algumas
palavras em voz baixa,
retirou-se, tornou a voltar e
pendurou uma escada de corda que
segurou por dentro. O vulto que
chegara subiu rapidamente, e
ambos desapareceram através dos
corredores e aposentos do paço.
Em um destes últimos, alumiado
por tochas seguras por longos
braços de ferro chumbados nas
paredes, passeava um homem de
meia idade e gentil presença. Os
seus passos eram rápidos e
incertos, e o seu aspecto
carregado. De quando em quando,
parava e escutava a uma porta,
cujo reposteiro se meneava
levemente; depois continuava a
passear, parando, às vezes, com
os braços cruzados e como
entregue a cogitações dolorosas.
Por fim, o reposteiro ondeou de
alto a baixo e franziu-se no
meio; mão alva de mulher o
segurava. Esta entrou, e após
ela um homem alto e robusto,
vestido de burel e cingido de
cinto de esparto, de onde
pendiam umas grossas camândulas.
A dama atravessou vagarosamente
a sala e foi sentar-se em um
estrado de altura de palmo, que
corria ao longo de uma das
paredes do aposento. O homem que
passeava sentou-se também, no
único escabelo que ali havia.
Frei Roy, que o leitor já terá
conhecido, ficou ao pé da porta
por onde entrara, com a cabeça
baixa e em postura abeatada.
- Aproxima-te, beguino! - disse
com voz trémula el-rei; porque
era el-rei D. Fernando o homem
que se sentara.
Frei Roy deu uns poucos passos
para diante.
- Que há de novo? - perguntou
el-rei.
- O povo cada vez está mais
alvorotado e jura falar
rijamente amanhã a vossa
senhoria. Mas essa não é a pior
nova que eu trago!
- Fala, fala, beguino! - acudiu
el-rei, estendendo a mão
convulsa para o echacorvos.
- É que amanhã, enquanto vossa
senhoria estiver em São
Domingos, o áco será acometido.
Pretendem matar...
- Mentes, beguino! - gritou a
dama, erguendo-se do estrado de
um salto, semelhante a tigre
descoberto pelos caçadores nos
matagais da Ásia. - Mentes!
Podem não me querer rainha: mas
assassinar-me! Isso é
impossível. Amo muito o povo de
Lisboa; tenho-lhe feito as
mercês que posso, não me há-de
odiar assim de morte. Os
fidalgos podem persuadi-lo a
opor-se ao nosso casamento; mas
nunca a pôr mãos violentas na
pobre Leonor Teles.
- Prouvera a Deus que eu
mentisse hoje. Seria a primeira
vez na minha vida - replicou o
echacorvos, com ar contrito. -
Mas ouvi com meus ouvidos a
ordem para o feito e a promessa
da execução, haverá três credos,
na taberna de Folco Taca.
- Miseráveis! - bradou,
erguendo-se também, el-rei, a
quem o risco da sua amante
restituíra por um momento a
energia. - Miseráveis! Querem
sobre a cerviz o jugo de ferro
de meu pai? Tê-lo-ão. Quem ousa
ordenar tal coisa?
- Diogo Lopes Pacheco, do vosso
conselho, o disse ao alfaiate
Fernão Vasques, o coudel dos
revoltossos, e vosso irmão D.
Dinis estava, também, com eles -
respondeu Frei Roy.
O beguino era o espia mais
sincero e imperturbável de todo
o mundo.
- Velho assassino! - exclamou D.
Fernando -, cobriste de luto
eterno o coração do pai: queres
cobrir o do filho. E tu, Dinis,
que eu amei tanto, também entre
os meus inimigos! Leonor, que
faremos para te salvar?!
Aconselha-me tu, que quase que
enlouqueci!
O pobre e irresoluto monarca
cobriu o rosto com as mãos,
arquejando violentamente. Dª
Leonor, cujos olhos
centelhantes, cujos lábios
esbranquiçados revelavam mais
ódio que terror, lançou-lhe um
olhar de desprezo e, em tom de
mofa, respondeu:
- Sim, senhor rei, na falta de
vossos leais conselheiros, posso
eu, triste mulher, dar-vos um
bom conselho. Acordai vossos
pajens, que vão pregar um poste
à porta destes paços, e
mandai-me amarrar a ele, para
que o vosso bom povo de Lisboa
possa despedaçar-me
tranquilamente amanhã, sem
profanar os vossos aposentos
reais. Será mais uma grande
mercê que lhe fareis em
recompensa do seu amor à vossa
pessoa, da sua obediência aos
vossos mandados.
- Leonor, Leonor, não me fales
assim, que me matas! - gritou D.
Fernando deitando-se aos pés de
Dª Leonor e abraçando-a pelos
joelhos com um choro convulso. -
Que te fiz eu para me tratares
tão cruelmente?
- Dom Fernando, lembra-te bem do
que te vou dizer! O povo ou se
rege com a espada do cavaleiro,
ou ele vem colocar a ascuma do
peão sobre o trono real. Quem
não sabe brandir o ferro cede;
deixa-o reinar.
- Tens razão, Leonor! - disse D.
Fernando, enxugando as lágrimas
e alçando a fronte nobre e
formosa, onde se pintava a
indignação. - Serei filho de Dom
Pedro, o Cruel; serei sucessor
de meu pai. Eu mesmo vou ao
alcáçar examinar os engenhos
mais valentes que cubram o
terreiro de São Martinho de
pedras, de virotões e de
cadáveres: os montantes e as
bestas dos homens de armas e
besteiros do meu alcaide-mor de
Lisboa farão o resto. João
Lourenço Bubal será fiel a seu
rei. Se necessário for, com
minhas próprias mãos ajudarei a
pôr fogo à cidade, para que nem
um revoltoso escape. Adeus,
Leonor: conta que serás vingada.
D. Fernando voltou-se rápido
para a porte do aposento. Frei
Roy estava imóvel diante dele.
- João Lourenço Bubal - disse o
espia, sem mudarde tom nem de
gesto - é dos revoltosos. Ouvi-o
da boca do próprio Diogo Lopes,
que o certificou a Fernão
Vasques. Os trons do alcácer
estão desaparelhados, e a maior
parte dos homens de armas e
besteiros do alcaide-mor eram na
taberna de Folco Taca os mais
furiosos contra a que eles
chamam...
- Cala-te, beguino - gritou
el-rei, empurrando-o com força e
procurando tapar-lhe a boca.
O echacorvos parou onde o
impulso recebido o deixou parar
e ficou outra fez imóvel diante
de D. Fernando, a quem este
último golpe lançava de novo na
sua habitual perplexidade.
- ... a adúltera - prosseguiu
Frei Roy acabando a frase,
porque ainda a devia, e era
escrupuloso e pontual no
desempenho do seu ministério.
- Beguino! - atalhou Dª Leonor,
com voz trémula de raiva -,
melhor fora que nunca essa
palavra te houvesse passado pela
boca; porque, talvez, um dia ela
seja fatal para os que a tiverem
proferido.
- Mas que faremos?! - murmurou
el-rei com gesto de indizível
agonia.
- Havia ainda há pouco três
expedientes - respondeu Dª
Leonor, recobrando aparente
serenidade -, combater, ceder,
fugir. O primeiro é já
impossível; o segundo! ...
Porque não o aceitas, Fernando?
Prestes estou para tudo. Não me
verás mais, ainda que, longe de
ti, por certo estalarei de dor.
Cede à força: os teus vassalos o
querem; qué-lo o teu povo.
Esquece-te para sempre de mim!
- Esquecer-me de ti? Não te ver
mais? Nunca! Obedecer à força?
Quem há aí que ouse dizer ao rei
de Portugal: "Rei de Portugal,
obedece à força"? Os peões de
Lisboa?! Porque sou manso na
paz, não crêem que a minha
espada no campo da batalha corte
arneses, como a do melhor
cavaleiro? Bons escudeiros e
homens de armas da minha hoste,
por onde andais derramados?
Dormis por vossas honras e
solares? O povo vos acordará,
como me acordou a mim; bramirá,
como os lobos da serra, ao redor
de vossas moradas; saltar-vos-á
no meio de vossos banquetes, por
entre o ruído de vossos
folgares. No ardor de vossos
amores, dir-vos-á: "Desamai!"
Ele ousa já dizê-lo a seu rei e
senhor... Oh, desgraçado de mim,
desgraçado de mim!
- Não queres, pois, deixar-me
entregue à minha estrela? -
disse Dª Leonor, com voz entre
de choro e de ternura, abraçando
pelo pescoço o pobre monarca e
chegando a sua fronte suave e
pálida às faces afogueadas de D.
Fernando, que, numa espécie de
delírio, olhava espantado para
ela.
- Não, não! Viver contigo ou
morrer contigo. Cairei do trono
ou tu subirás a ele.
Um sorriso quase imperceptível
se espraiou pelo rosto de Leonor
Teles, que, recuando e tomando
uma postura resoluta e ao mesmo
tempo de resignação, prosseguiu
com voz lenta, mas firme:
- Então resta o fugir.
- Fugir! - exclamou el-rei. E só
esta palavra era mais expressiva
que narração bem extensa dos
atrozes martírios que o
mal-aventurado curtia no coração
irresoluto, mas generoso, com a
ideia de um feito, vil e covarde
em qualquer escudeiro, vilíssimo
num rei de Portugal, em um neto
de Afonso IV.
El-rei olhou para ela um
momento. Era sereno o seu rosto
angélico, semelhante ao de uma
dessas virgens que se encontram
nas iluminuras de antigos
códices, o segredo de cujos
toques, perdido no fim do século
décimo quinto, a arte moderna a
muito custo pôde fazer
ressurgir. O mais esperto
fisionomista dificultosamente
adivinharia a negrura de alma
que se escondia debaixo das
puras e cândidas feições de Dª
Leonor, se não uniam entre os
sobrolhos, contraindo-se e
deslizando-se rapidamente como
as vesículas peçonhentas das
fauces de uma víbora.
- Seja, pois, assim! Fujamos -
murmurou D. Fernando com o tom e
gesto com que o supliciado daria
do alto do patíbulo o perdão ao
algoz.
Dª Leonor tirou do largo cinto
com que apertava a airosa
cintura uma bolsa de ouropel e
atirou com ela aos pés do
beguino, que, de mãos cruzadas
sobre o peito e os olhos
semiabertos cravados na abóbada
do aposento, parecia extático e
engolfado nos pensamentos
sublimes do céu.
- Vinte dobras de Dom Pedro por
teu soldo, beguino: vinte pelo
teu silêncio. O resto da
recompensa tê-lo-ás um dia, se a
adúltera atravessar triunfadora
o portal por onde vai sair
fugitiva.
O rir afável de que estas
palavras foram acompanhadas
dizeram correr um calafrio pela
medula espinal do echacorvos,
cujas pernas vacilaram. Mas o
contacto das quarenta dobras que
uniu imediatamente ao peito
debaixo do escapulário lhe
restituiu o vigor natural.
El-rei havia-se sentado, quase
desfalecido, no escabelo único
do aposento, e o seu aspecto
demudado infundia ao mesmo tempo
terror e compaixão. Quando o
beguino levantou a bolsa, D.
Fernando fitou nele os olhos e
estendeu a mão para o
reposteiro, sem dizer palavra.
Frei Roy curvou a cabeça, cruzou
de novo as mãos sobre o peito e,
recuando até à porta,
desapareceu no corredor escuro
por onde entrara.
Apenas os passos lentos e
pesados do echacorvos deixaram
de soar, Dª Leonor encaminhou-se
para uma janela que dava para um
vasto terrado e afastou a
cortina que servia durante o dia
de mitigar a acessível luz do
sol. A noite ia em meio do seu
curso, como o indicava o mortiço
das tochas, que mal alumiavam o
aposento, e a Lua, já no
minguante, começava a subir na
abóbada do firmamento,
mergulhando no seu clarão sereno
o brilho esplêndido das
estrelas. A janela estava
aberta, e o escabelo de el-rei
ficava próximo e fronteiro: o
luar batia de chapa no rosto
belo e triste de D. Fernando,
que, embebido no seu amargurado
cismar, parecia alheio ao que se
passava à roda dele e esquecido
de que lhe restavam poucas horas
para poder levar a cabo a
resolução que tomara. Leonor
Teles, encostada ao mainel da
janela, pôs-se a olhar
atentamente. A cidade dormia, e
apenas o ladro de algum cão
cortava aquela espécie de
zumbido que é como o respirar
nocturno de uma grande povoação
que repousa. Lá em baixo, uma
faixa trémula, semelhante a uma
ponta de luz, cortava
oblìquamente o Tejo, de onde
mais largo se curvava pela
margem esquerda. Os mastros de
milhares de navios, emparelhados
com a cidade, desde Sacavém até
o promontório onde campeava,
fora dos arrabaldes, o Mosteiro
de S. Francisco, formavam uma
espécie de floresta lançada
entre a cidade e a sua imensa
baía. Desde o terrado para o
qual dava a janela até o rio, o
bairro dos judeus, pendurado
pela encosta íngreme e fechado
com traveses e cadeias nos topos
das ruas, desenhava uma espécie
de triângulo, cuja base
assentava sobre o lanço oriental
da muralha mourisca, e cujo
vértice, voltado para ocidente,
se coroava com a sinagoga,
abrigada à sombra do vulto
disforme da catedral. Pouco
distante do terrado, entre o
palácio e a judiaria, a
claridade da Lua batia de chapa
em um terreiro irregular,
rodeado de mesquinhas e meio
arruinadas casas, que pela maior
parte pareciam desabitadas. No
meio dele, o que quer que era se
erguia semelhante ao arco de um
portal romano. Parecia ser uma
ruína, um fragmento de edifício
da antiga Olisipo, que esquecera
ali aos terremotos, às guerras e
aos incêndios, e ao qual
finalmente chegara a sua hora de
desabafar, porque uma alta
escada de mão estava encostada à
verga que assentava sobre os
dois pilares laterais e os unia,
como se ali a tivessem porto
para, em amanhecendo, os
obreiros poderem subir acima e
derribarem-no em terra.
Era para esse vulto que Dª
Leonor se pusera a olhar
atentamente.
Depois voltou o rosto para
el-rei, que, com a cabeça baixa,
os braços estendidos e as mãos
encurvadas sobre os joelhos,
parecia vergar sobre o peso da
sua amargura: contemplou-o com
um gesto de compaixão por alguns
momentos e, estendendo para ele
os braços, exclamou:
- Fernando!
Havia no tom com que foi
proferida esta única palavra um
mundo de amor e voluptuosidade;
mas, no meio da brandura da voz
de Leonor Teles, havia também
uma corda áspera; alguma cousa
do rugir do tigre.
El-rei deu um estremeção, como
se pelos membros lhe houvera
coado uma faísca eléctrica;
ergueu-se, e atirou-se a chorar
aos braços de Leonor Teles.
- Amanhã - disse ele com voz
afogada - o rei mais desonrado
da cristande serei eu: o
cavaleiro mais vil das Espanhas
será Dom Fernando de Portugal.
Que me resta? Só o teu amor;
mais nada. Porque não me pedem
antes a coroa real, que para mim
tem sido coroa de espinhos?
Dera-a de boa vontade. Oh,
Leonor, Leonor!, serias a mulher
mais perversa, se um dia me
atraiçoasses.
Um beijo da adúltera cortou as
lástimas de el-rei. A formosura
desta mulher tinha um toque
divino à claridade da lua. D.
Fernando, embriagado de amor,
esqueceu-se de que poucas horas
lhe restavam para fugir do seu
povo enganado e ludibriado por
ele.
- Fernando! - prosseguiu Dº
Leonor -, jura-me ainda uma vez
que serás sempre meu, como eu
serei sempre tua.
Dizendo isto, afastou-o
brandamente de si.
- Juro-to uma e mil vezes pela
fé de leal cavaleiro que até
hoje fui. Juro-to pelo céu que
nos cobre. Juro-to pelos ossos
de meu nobre e valente avô, que
ali dorme junto do altar-mor da
Sé, debaixo das bandeiras
infiéis que conquistou no
Salado. Juro-to por mais que
tudo isso: juro-to pelo meu
amor!
- Bem está, rei de Portugal! -
atalhou Dª Leonor. - Agora só
uma cousa me resta para te
pedir. Não é favor; é justiça.
- Não me peças Lisboa, que essa
sabe Deus se tornará a ser
minha, rica, povoada e feliz
como eu a tornei, ou se
repousarei ainda a cabeça nestes
paços de meus antepassados,
passando por cima das ruínas
dela! Não me peças Lisboa, que
talvez amanhã deixe de um chamar
seu rei: do resto de Portugal
pede-me o que quiseres.
- Quero que me dês as minhas
arras: quero o preço do meu
corpo, conforme foro de Espanha.
- Vila Viçosa é alegre como um
horto de flores, e Vila Viçosa
dar-ta-ei eu. O Castela de
Óbidos é forte e roqueiro, são
numerosos e prestes para defesa
os seus engenhos, e o Castelo de
Óbidos será teu. Sintra
pendura-se pela montanha entre
lençóis de águas vivas, e
respira o cheiro das ervas e
flores que crescem à sombra das
penedias: podes ter por tua a
Sintra. Alenquer é rica no meio
das suas vinhas e pomares, e
Alenquer te chamará senhora.
- Guarda as tuas vilas, Dom
Fernando, que eu não tas peço em
dote; quero, apenas, uma
promessa de coisa de bem pouca
valia.
- De muita ou de pouca, não me
importa! Dar-te-ei o que me
pedires.
Dª Leonor estendeu a mão para a
espécie de portada romana que se
erguia solitária no meio do
terreiro deserto.
- É ali que tu me darás o preço
do meu copo, se um dia a cerviz
da orgulhosa Lisboa se curvar
debaixo do teu jogo real.
El-rei lançou um rápido volver
de olhos para onde Leonor Teles
tinha o braço estendido, mas
recuou horrorizado. O vulto que
negrejava no meio do terreiro
era o patíbulo popular e peão:
era a forca, tétrica, temerosa,
maldita!
- Leonor, Leonor! - disse el-rei
com som de voz cavo e débil -,
porque vens misturar pensamentos
de sangue com pensamentos de
amor? Porque interpões um
instrumento de morte e de
afronta entre mim e ti? Porque
preferes o fruto do cadafalso às
vilas e castelos de que te faço
senhora? Porque trocas a estola
do clérigo que há-de unir-nos
pelo baraço áspero do algoz?
- Rei de Portugal! - respondeu a
mulher de João Lourenço da
Cunha, com um brado de furor -,
ainda me perguntas porque o
faço? Tu nunca serás digno do
ceptro de teu pai! Queres saber
porque junto pensamentos de
sangue a pensamentos de amor? É
porque esses de quem eu o peço
pediram também o meu sangue.
Queres saber porque interponho
entre mim e ti um instrumento de
morte e de afronta? É porque o
teu bom povo de Lisboa quis
também interpor entre nós a
morte e saciar-me de afrontas.
Queres que te diga porque
prefiro o fruto do cadafalso às
vilas e castelos que me
ofereces? É porque para os
ânimos generosos não há vender
vinganças por ouro. Vingança,
rei de Portugal, te pede em dote
a tua noiva! Jura-me que um dia
os teus vassalos que me
perseguem serão também
perseguidos, e que essa vil
plebe que cobre de injúrias e
pragas o meu nome, porque te
amo, o amaldiçoem porque levo os
seus caudilhos ao patíbulo. Este
é o preço do meu corpo. Sem esse
preço, a neta de Dom Ordonho de
Leão nunca será mulher de Dom
Fernando de Portugal.
E com um braço estendido para o
lugar sem nome do suplício e com
o outro curvado, como quem
afastava de si el-rei, esta
mulher vingativa era sublime de
atrocidade.
- Tens razão, Leonor - disse por
fim D. Fernando, depois de largo
silêncio, em que se afectos
inconstantes do seu carácter
volúvel mudaram gradualmente. -
Tens razão. A futura rainha de
Portugal terá o seu desagravo:
as línguas que te ofenderam
calar-se-ão para sempre; os
corações que te desejaram a
morte deixarão de bater. No meu
trono, até aqui de mansidão e
bondade, assentar-se-á a crueza.
Com Judas, o traidor, seja eu
sepultado no Inferno, se faltar
ao juramento que te faço de
lavar em sangue a tua e a minha
injúria.
A estas palavras, o aspecto
severo de Dª Leonor Teles
mudou-se em um sorrir de
inexplicável doçura.
- Ah, como te hei-de amar
sempre! - murmurou ela. E estas
palavras caíam dos seus lábios
meigos e suaves como o arrulhar
de pomba amorosa. Um beijo
ardente, que sussurrou levado
nas asas da brisa fresca da
noite, selou esse pacto de ódio
e de extermínio.
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal
Fim da 1ª Dinastia, chamada
Afonsina ou Borgonha