D. Maria I - "Reformadora"

Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo

 

 

 

 

(1707-1816)

Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

 

Nasceu a 17 de Dezembro de 1734

 

A D. José sucedeu sua filha D. Maria Iª. Logo após a morte do rei, o Marquês de Pombal pediu a demissão de ministro e de outros cargos, que a rainha logo deferiu. Contra ele foi depois instaurado um processo, que veio a terminar pela sua condenação. Mas a rainha perdoou-lhe parte dos castigos, limitando-se a determinar que se ausentasse para local distante de Corte 20 léguas. O Marquês partiu então para Pombal, onde viver os últimos anos da sua vida.

D. Maria Iª, em seguida à revisão do processo que tinha condenado os supostos implicados na atentado contra D. José, mandou pôr em liberdade a maior parte das pessoas que se encontravam presas, por serem julgadas sem culpa. Pela mesma razão, foram considerados inocentes todos os Távoras.

O governo de D. Maria Iª foi extraordinariamente profícuo para o Reino. Cercando-se de bons cooperadores, como o Duque de Lafões, seu tio, e o abade José Correia da Serra, a rainha pode realizar uma obra fecundíssima e de grande alcance nacional. Portugal deve-lhe muito no que diz respeito ao desenvolvimento da instrução:

Fundou a Academia Real das Ciências, a Biblioteca Nacional, a Academia Real da Marinha, a Academia Real da Fortificação e a Casa Pia de Lisboa. Inaugurou a iluminação pública de Lisboa.

Neste reinado construiu-se a Basílica da Estrela, em Lisboa, principiaram-se as obras do Teatro de São Carlos e concluiu-se a Igreja da Memória.

A rainha foi vítima de muitos desgostos: num curto período de sete anos, viu morrer a mãe, o marido )D. Pedro IIIº) e o filho (D. José, herdeiro do trono). Além disso, muito se impressionou com as violências da Revolução Francesa, em que foram assassinados os próprios reis de França, Luís XVI e Maria Antonieta. Tudo isto contribuiu para que a rainha, em 1791, fosse atacada de doença mental.

Desde então, até 1796, D. João, seu filho, governou em nome da mãe, passando depois a assumir, definitivamente, a regência do Reino.

Em virtude das tremendas atrocidades que se desenrolavam em França, muitas nações revoltaram-se contra aquele país, especialmente a Inglaterra, que era a mais empenhada na luta. Espanha e Portugal resolveram também entrar na guerra. Em 1793, invadiram a Trança, e começou a Campanha do Russilhão, que se manteve até 1795, data em que a Espanha, sem consultar Portugal, assinou a paz com os franceses..

Portugal, no entretanto, fiel aos seus compromissos, mantinha-se firme ao lado da Inglaterra, a quem enviara uma esquadra que, juntamente com a armada inglesa, tomou parte na grande batalha naval de Aboukir, inglória para a França. Em face do sucedido, a represália da França, governada nesse tempo por Napoleão Bonaparte, não se fez esperar. Em 1801, Portugal foi invadido por numerosas tropas espanholas e francesas, já amigas e agora aliadas.

O inimigo entrou pela fronteira alentejana, tendo conseguido apoderar-se de Olivença, que nunca nos foi restituída.

Napoleão Bonaparte, grande general, imperador dos franceses, pelas vitórias que havia conseguido contra a Áustria, Prússia, Itália, Rússia, etc., julgava-se o senhor absoluto da Europa. Em Julho de 1807, impôs o Bloqueio Continental. Em obediência a esta ordem, todas as nações europeias deviam encerrar os seus portos aos navios britânicos.

O Príncipe D. João, inspirado na vontade de seu povo, não cumpriu as determinações de Bonaparte.

Tínhamos perdido Olivença e podíamos sofrer mais reveses, mas dignificámos a nossa aliança, franqueando os nossos portos à Inglaterra. Como o nosso Regente, à vista de novas insistências, continuasse a não transigir, Napoleão assinou com a Espanha o Tratado de Fontainebleau, em 27 de Outubro de 1807, pelo qual Portugal seria repartido pela Espanha e pela França. Para tal efeito, tinha Portugal de ser conquistado, o que não foi possível ao general francês.

Primeira invasão francesa em 1807: A fim de ser executado o Tratado de Fontainebleau, Napoleão Bonaparte mandou invadir Portugal com um exército de 30 mil homens, comandados por Junot. O inimigo tinha penetrado pela Beira Baixa e chegara já a Abrantes, em marcha sobre Lisboa. No dia 30 de Novembro de 1807, o invasor entrava em Lisboa. A Família Real tinha partido para o Brasil três dias antes.

Começaram então os roubos, os atentados, os assaltos às igrejas, repartições públicas e casas particulares. O País não podia sofrer semelhantes violências. Surgem as primeiras manifestações de revolta contra a dominação estrangeira – é chegado o momento de agir. O Porto levanta-se em armas e, a seguir, as províncias do Minho e de Trás-os-Montes. Pedem-se depois auxílios à Inglaterra que nos envia um corpo de exército comandado por Artur Wellesley, depois duque de Wellington. As forças anglo-lusas, atacam os franceses, que são derrotados nas Batalhas de Roliça (Óbidos) e Vimieiro (Lourinhã). Em Agosto de 1808 é assinada a Convenção de Sintra, pela qual Junot e as suas tropas foram obrigadas a sair de Portugal.

Segunda invasão francesa em 1809: O imperador dos franceses, que se não havia conformado com a derrota de Junot, organizou outro contingente de tropas, comandado pelo general Soult, e determinou nova invasão a Portugal. O inimigo, desta vez, entrou por Chaves, passou a G Braga e, em Março de 1809, assenhorou-se da cidade do Porto; a população sobressaltada, fugiu para o Douro, a fim de transpor a ponte das barcas, que existia nesse tempo, para fugir para o sul. Esta abateu e milhares de pessoas caíram ao rio morrendo afogadas.

As tropas portuguesas agruparam-se logo. Chegaram reforços de Inglaterra – tudo se preparou para a vitória. O Exército anglo-luso, dirigido superiormente por Wellesley, atacou o inimigo, investindo contra o Porto. Soult, reconhecendo a inutilidade da resistência, fugiu desordenadamente e abandonou Portugal.

Terceira invasão francesa (1810): Napoleão Bonaparte era teimoso e não perdia a ideia de conquistar Portugal. Para isso tentou uma última cartada. Alinhou as suas melhores tropas (85 mil homens) comandados por Massena e, em Agosto de 1810, Portugal foi invadido pela terceira vez. O exército francês entrou por Almeida e avançou sobre o Buçaco, onde o esperavam os soldados anglo-lusos sob o comando de Wellington, e ali se deu a grande batalha, no dia 27 de Setembro de 1810, em que os franceses foram completamente derrotados. Massena, com o resto da sua gente, conseguiu fazer uma retirada e tentou avançar sobre Lisboa. Mas estacou diante das Linhas de Torres Vedras, onde sofreu nova derrota. Começo a debandada do inimigo, que, passando a fronteira, fugiu em direcção ao seu país. Então, as tropas anglo-lusas, já aliadas da Espanha, que se tinha desavindo com Napoleão, perseguem Massena através da França e entram vitoriosas em Bordéus e Tolosa. Com esta terceira e última invasão, terminou o perigo do domínio napoleónico na Península Ibérica.

No dia 20 de Março de 1816, faleceu no Rio de Janeiro, a rainha D. Maria Iª. O seu corpo foi transladado para Portugal e encontra-se na Basílica da Estrela (Lisboa) que ela fundara.

 

Academia Real de Ciências
A Academia das Ciências de Lisboa (ACL) é uma instituição portuguesa científica de utilidade pública, cujo objectivo principal é o incentivo à actividade de investigação científica e de divulgação da cultura portuguesa.
A Academia das Ciências de Lisboa foi fundada pela Rainha Dona Maria I em 24 de Dezembro de 1779 em pleno iluminismo. A denominação inicial foi a de Academia Real das Ciências de Lisboa, que se manteve até à implantação da república.
À época da fundação, a Academia era formada por três classes (Ciências Naturais, Ciências Exactas e Belas-Letras). Em 1851, as duas primeiras juntaram-se na classe de Ciências e a segunda deu origem às Letras. A Classe de Ciências é constituída pelas secções de Ciências Aplicadas e História das Ciências, Ciências Médicas, Ciências Naturais, Física, Matemática e Química. A Classe de Letras englobas as secções de Direito e Sociologia, Economia Política, Estudos Literários e Linguísticos, Filosofia e Pedagogia, História e Geografia e Literatura.

 

A Academia Real de Marinha

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Foi uma instituição criada em Lisboa, no ano de 1779, tendo como objectivo a formação dos oficiais da Armada Real e da marinha mercante. Foram integrados nesta nova instituição alguns cargos e instituições de ensino especializadas então existentes, entre os quais o cargo de cosmógrafo-mor (que tinha a obrigação de dar uma lição diária de Matemática) e a Aula de Debuxo Naval.
A Academia Real de Marinha, depois Academia Real de Marinha e Comércio, manteve-se em funcionamento até 1837, passando então a designar-se Escola Politécnica, a qual, mais tarde, veio a tornar-se na Faculdade de Ciências de Lisboa, hoje Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
A fundação da Academia Real de Marinha (e da Academia Real dos Guarda-Marinhas) foi impulsionada por Martinho de Melo, que com o Marquês de Pombal colaborara e com ele aprendera.
Academia Real de Marinha preparava para a carreira naval e ainda para diversas carreiras militares e civis e ensinavam-se nela, em curso de três anos, as matemáticas puras e aplicadas e a arte de navegar.

 

Casa Pia
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Criada em Lisboa em 1780 por Pina Manique, a Casa Pia foi destinada à recuperação, através do trabalho, dos mendigos e vadios e à educação de órfãos. As oficinas da Casa Pia foram centros importantes de produção, fornecendo material para a Marinha e Exército, assim como centros de formação profissional: os mestres formados na Casa Pia por vezes regressavam à sua terra natal ensinando a sua arte. Os que se mostravam mais aptos recebiam uma educação complementar: escrituração comercial, francês, aritmética militar, desenho e farmacologia, em laboratório especialmente criado para o efeito, que fornecia remédios a farmácias. Os mais dotados ingressavam em estudos superiores: na Academia das Fortificações e da Marinha, em Londres (para o estudo da Medicina); em Roma na Academia de Portugal.
Dois anos depois da morte de Pina Manique é encerrada com a tomada do Castelo de São Jorge pelas tropas de Junot. Reabriu em 1812 no Convento do Desterro apenas para a infância desvalida. O governo liberal deu-lhe, em 1833, melhores instalações no mosteiro dos Jerónimos. Ao ensino elementar, doméstico e de artes e ofícios, a República acrescentou os ensinos agrícola e industrial. Em 1834 envereda também pelo ensino e reabilitação de surdos.
Em 1942 a Casa Pia integra um conjunto de Colégios ficando disseminada por toda a cidade de Lisboa.

 

Diogo Inácio de Pina Manique
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Diogo Inácio de Pina Manique (1733 — 1805), formado em Leis pela Universidade de Coimbra, ocupou diversos cargos, antes de ser designado Intendente-Geral da Polícia. Foi juiz do crime em diversos bairros de Lisboa, superintendente-geral de Contrabandos e Descaminhos, desembargador da Relação do Porto, desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação.
Homem da confiança de Sebastião José de Carvalho e Melo, só foi, no entanto, nomeado Intendente-Geral da Polícia depois da queda do marquês de Pombal. Acumulou esse cargo com os de desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação, contador da Fazenda, superintendente-geral de Contrabandos e Descaminhos e fiscal da Junta de Administração da Companhia de Pernambuco e Paraíba.
Em 1781, começou a funcionar no Castelo de São Jorge, em Lisboa, a Casa Pia, fundada por Pina Manique e destinada inicialmente a recolher mendigos e órfãos. Durante o reinado de D. Maria I, a sua acção como Intendente-Geral da Polícia orientou-se para a repressão das ideias oriundas da Revolução Francesa, designadamente através da proibição de circulação de livros e publicações e da perseguição a diversos intelectuais. A pedido de Napoleão Bonaparte, o regente D. João acabaria por demiti-lo. Faleceu dois anos depois de abandonar o cargo.

 

Basílica da Estrela
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Na segunda metade do século XVIII, D. Maria I, filha de D. José I, fez voto de que construiria uma igreja se tivesse um filho para herdar o trono. O seu desejo foi satisfeito e a construção da Basílica da Estrela, em Lisboa, iniciou-se em 1779. Contudo, o filho José morreu de varíola dois anos antes do fim da construção, em 1790.
A enorme igreja, com uma cúpula, numa colina na zona oeste da cidade, é uma das suas grandes referências. A Basílica foi construída por arquitectos da Escola de Mafra no estilo barroco final e neoclássico. A fachada é ladeada por duas torres gémeas e decorada com estátuas de santos e figuras alegóricas.
O amplo interior, de mármore cinzento, rosa e amarelo, iluminado por aberturas na cúpula, infunde respeitoso temor. O túmulo estilo império, de D. Maria I, que morreu no Brasil, está no transepto direito. Encerrado numa sala ali perto, existe um extraordinário presépio de Machado de Castro, formado por mais de 500 figuras de cortiça e terracota.

 

Teatro de S. Carlos
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O Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) foi erguido em 1792-1795 em Lisboa por José da Costa e Silva, substitui uma antiga ópera arruinada pelo terramoto de 1755.
Desenhado de acordo com as linhas do La Scala de Milão e do San Carlo de Nápoles, apresenta uma fachada de belas proporções e um encantador interior rococó. Até há pouco tempo, a vista exterior era prejudicada pelo parque de estacionamento, sempre cheio, que ocupava a praça em frente, mas actualmente, esta está renovada e enriquecida com a esplanada da cafetaria/restaurante do teatro, bem como, uma fonte. Ocasionalmente, são transmitidas récitas, em directo, para os transeuntes da praça, através de um ecrãn gigante e sistema de som montados na fachada do Teatro. A época de ópera dura de Novembro a Junho, mas há concertos e ballet noutras alturas do ano. Alguns dos espectáculos organizados pelo TNSC são levados à cena no palco do grande auditório do Centro Cultural de Belém.

 

Tratado de Fontainebleau
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Em 1806, depois do fracasso na tentativa de invasão à Inglaterra, Napoleão decretou o Bloqueio Continental. Portugal, tradicional aliado da Inglaterra, se nega a acatá-lo. Napoleão então decide invadir Portugal. Mas, para isso, Napoleão precisava levar as suas tropas até o território português. Então, em 27 de outubro de 1807, Manuel Godoy e Napoleão firmam o Tratado de Fontainebleau, por ele que se permitia o passar de tropas francesas pelo território espanhol a fim de invadir Portugal.
TRATADO SECRETO ENTRE A ESPANHA E A FRANÇA EM FONTAINEBLEAU AOS 27 DE OUTUBRO DE 1807
Nós Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, tendo visto e examinado o tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc, ele., em virtude de plenos poderes conferidos por nós para este fim, com D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade o rei de Espanha, o qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é na forma seguinte : Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade católica, o rei da Espanha, desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros plenipotenciários, a saber: sua majestade o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e sua majestade católica, rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro honorário de estado e da guerra, os quais ministros, havendo ambos mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte: Artigo 1. A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para sua majestade, o rei da Etrúria, com o título de rei da Lusitânia setentrional. Artigo 2. A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do titulo de príncipe dos Algarves. Artigo 3. As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstancias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes. Artigo 4. O reino da Lusitânia setentrional será tido pelos descendentes de sua majestade, o rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão, estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha. Artigo 5. O principado dos Algarves será lido pelos descendentes do príncipe da Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha. Artigo 6. Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do rei da Lusitânia do norte, ou do príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do rei de Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se anexarão à coroa de Espanha. Artigo 7. O reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves reconhecerão como protector sua majestade católica, el-rei de Espanha, e em nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu consentimento. Artigo 8. No caso de que as províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à casa de Bragança, em troca de Gibraltar, Trindade e outras colonias, que os ingleses têm conquistado à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente a sua majestade católica, el-rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o rei da Lusitânia setentrional e o príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das mesmas condições. Artigo 9. Sua majestade, o rei da Etrúria, cede o reino da Etrúria em plena propriedade e soberania a sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália. Artigo 10. Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas, os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários para verificar os seus limites naturais. Artigo 11. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, garante a sua majestade católica, el-rei de Espanha, aposse dos seus domínios no continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus. Artigo 12. Sua majestade, o imperador dos franceses e rei da Itália, se obriga a reconhecer a sua majestade católica, o rei da Espanha, como imperador das duas Américas, quando tudo estiver pronto para sua majestade assumir este titulo, que pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar tres anos depois daquela época. Artigo 13. As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual divisão das ilhas, colonias e outras possessões transmarinas de Portugal. Artigo 14. O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura. Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807. = Napoleão. = O ministro dos negócios estrangeiros, Champagny. =O secretario de estado, Maret.
CONVENÇÃO SECRETA, ENTRE A ESPANHA E FRANÇA DE 27 DE OUTUBRO DE 1807, TENDO POR FIM REALIZAREM A PROMETIDA DIVISÃO E OCUPAÇÃO DE PORTUGAL, ESTIPULADO NO PRECEDENTE TRATADO.Napoleão, pela graça de Deus e da constituição, imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno; tendo visto e examinado a convenção concluída, arranjada e assinada em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do nosso palácio, grão-cordão da Legião de Honra, etc., etc., em virtude dos plenos poderes que nós lhe conferimos, de uma parte; e da outra parte D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, conselheiro honorário de estado e da guerra de sua majestade, o rei de Espanha, igualmente munido com plenos poderes pelo seu soberano, o teor da qual convenção era o seguinte: Sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, e sua majestade, o rei de Espanha, desejando entrar em um arranjamento, relativamente à ocupação e conquista de Portugal, conforme as estipulações do tratado assinado na data de hoje, têm nomeado, a saber: sua majestade, o imperador dos franceses, rei da Itália e protector da confederação do Reno, ao general de divisão Miguel Duroc, grão-marechal do seu palácio, grão-cordão da Legião de Honra, e sua majestade católica, el-rei de Espanha, D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu conselheiro de estado honorário e da guerra, os quais, depois de haverem mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram nos seguintes artigos: Artigo 1 Um corpo de tropas imperiais francesas de 25:000 homens de infantaria e 3:000 de cavalaria, entrará em Espanha, e marchará directamente para Lisboa; unir-se-hão a estas um corpo de 8:000 homens de infantaria espanhola, e 3:000 de cavalaria, com 30 peças de artilharia. Artigo 2 Ao mesmo tempo uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10:000 homens, tomará posse da provinda de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e outra divisão de 6:000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do Alentejo e do reino dos Algarves. Artigo 3 As tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha, e o seu pagamento providenciado por França, durante o tempo empregado na sua marcha por Espanha. Artigo 4 Ao momento em que as tropas combinadas entrarem em Portugal, o governo e administração das províncias da Beira, Traz os Montes e Estremadura portuguesa (que devem ficar em estado de sequestro), serão investidos no general comandante das tropas francesas, e as contribuições impostas nas mesmas províncias serão em beneficio da França. As províncias, que devem formar o reino da Lusitânia setentrional e o principado dos Algarves, serão administradas e governadas pelos generais comandantes das divisões espanholas que entrarem nas mesmas, e as contribuições impostas nelas serão a beneficio da Espanha. Artigo 5 O corpo central estará debaixo das ordens do comandante das tropas francesas, a quem também obedecerão as tropas espanholas unidas a este exército. Contudo se o rei da Espanha, ou o príncipe da Paz, julgar conveniente ir ao exército, as tropas francesas com o general que as comandar, ficarão sujeitas as suas ordens. Artigo 6 Outro corpo de 40:000 homens de tropas francesas se ajuntará em Bayonna, cerca dos 20 de Novembro próximo futuro ao mais tardar, estando pronto para entrar na Espanha, para o fim de marchar para Portugal, no caso em que os ingleses lá mandassem reforços, ou ameaçassem com um ataque. Este corpo adicional porém não entrará em Espanha até que as duas altas partes contratantes tenham concordado sobre este ponto. Artigo 7 A presente convenção será ratificada, e as ratificações trocadas ao mesmo tempo que o tratado desta data. Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubros de 1807.;= (Assinados) Duroc=E. lzquierdo.

 

Na busca de outras maneiras para derrotar ou enfraquecer os ingleses, o Império Francês decretou o Bloqueio Continental em 1806, onde Napoleão determinava que todos países europeus deveriam fechar seus portos para o comércio com a Inglaterra, enfraquecendo as exportações do país e causando uma crise industrial.
Um problema que afectou muitos países que participaram do Bloqueio era que a Inglaterra, que já havia passado pela Revolução Industrial, estava com uma consolidada produção de produtos industriais, e muitos países europeus ainda não possuíam produção industrial própria, e dependiam da Inglaterra para importar este tipo de produto, em troca de produtos agrícolas.
A França procurou beneficiar do Bloqueio com o aumento da venda dos produtos produzidos pelos produtores franceses, ampliando as exportações dentro da Europa e no mundo. A fraca quantidade de produtos manufacturados deixou alguns países sem recursos industriais.

 

Primeira Invasão Francesa
Sob o comando do General Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de Outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno Inverno, e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Sem encontrar resistência, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes a 24, em busca de provisões. Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor do Inverno, o exército francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém a 28, de onde partiu no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou a 30, à frente de dois regimentos em mau-estado. No dia anterior, a Família Real e a Corte portuguesa haviam largado ferros da barra do rio Tejo, rumo ao Brasil, levando em 34 navios de guerra portugueses, cerca de 15.000 pessoas, deixando o governo de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos invasores.
No ano seguinte, em Agosto, uma força britânica sob o comando do general Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington), desembarcava em Portugal, avançando sobre Lisboa. Travaram-se, na sequência, a batalha de Roliça e a batalha do Vimeiro, vencidas pelos aliados Portugal/Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, forçando à Convenção de Sintra.

 

Convenção de Sintra
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A Convenção de Sintra, foi um acordo entre Inglaterra e França, assinado no Palácio de Queluz a 30 de Agosto de 1808, encerrou a primeira invasão francesa a Portugal, no contexto da chamada Guerra Peninsular.
Após a derrota das tropas napoleónicas na batalha de Roliça (17 de Agosto) e na batalha do Vimeiro (21 de Agosto), o general Junot propôs aos ingleses um armistício. Após as negociações decorridas em Sintra, chegou-se à forma final do documento pelo qual se permitia a retirada das tropas francesas, embarcadas em navios ingleses, transportando as suas armas, bagagens e o produto dos saques efetuados em Portugal.
O acordo traduzia-se em benefícios mútuos: Junot, sem linhas de comunicação confiáveis com a França, retirava suas tropas sem maiores perdas e em segurança. Os ingleses ganhavam o controle da capital, Lisboa, e da temida linha de defesa da barra do rio Tejo, sem necessidade de combate.
Com este acordo, os franceses ganharam tempo e voltariam a invadir Portugal um ano mais tarde.

 

Segunda Invasão Francesa
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Enquanto a invasão de Portugal sucedia, Napoleão forçou a abdicação do rei Carlos IV de Espanha e de seu herdeiro, D. Fernando (Baionne, 1808), conduzindo ao trono espanhol o seu irmão José Bonaparte. Os espanhóis revoltaram-se contra os usurpadores franceses, obtendo apoio das tropas Britânicas estacionadas no norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, os Britânicos passam a fronteira no início de 1809, para serem derrotados, na Corunha, pelo Marechal Soult. Obrigadas a retirar, deixaram a descoberto a fronteira com Portugal, permitindo a Soult, invadir o país pela fronteira do Minho em Março de 1809, avançando até à cidade do Porto, cidade que ocupam a 24 desse mês, fixando fronteira no rio Douro. Em Maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Beresford, vencem a chamada batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto (29 de Maio) e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as tropas de Wellesley travaram a batalha de Talavera em território espanhol e regressaram a Portugal.
É de salientar ainda a importância da escaramuça de Serém, Concelho do Vouga — região pantanosa do rio Vouga e do rio Marnel, actualmente pertencente ao Concelho de Águeda —, em que o Capitão-Mor do Vouga, José Pereira Simões, travou o avanço para o Sul do Marechal Soult, até à chegada do Coronel Nicholas Trant e do Batalhão Académico e, posteriormente, do General Arthur Wellesley, com reforços. Como consequência, as hostes do Marechal Soult não conseguiram atravessar o rio Vouga, perderam a escaramuça de Serém e foram obrigados a retirar-se para o Norte, tendo-se acantonado na cidade do Porto.

 

Terceira Invasão Francesa e Contra-Ofensiva
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Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o comando do Marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal, conquistou a Praça-forte de Almeida (Agosto), na fronteira, marchando em seguida sobre Lisboa. Interceptado pelas forças Luso-Britânicas, foi derrotado na batalha do Buçaco (27 de Setembro). Reagrupando as suas forças, retomou a marcha, flanqueando as tropas Luso-Britânicas e forçando-as a recuarem para defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de Outubro, erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas Luso-Britânicas os aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte.
Contra-Ofensiva
A campanha dos exércitos Britânico, Português e Espanhol, entre Maio e Agosto de 1813, culminou na batalha de Vitória, seguida um mês depois pela batalha dos Pirinéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história Europeia foi modificado de forma decisiva. Seguiram-se uma série de batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de Abril de 1814), que colocou fim à Guerra Peninsular.

 

Batalha do Buçaco (considerações acerca da Batalha)
A batalha de Buçaco teve uma importância capital para o resultado da campanha pela acção moral que exerceu nos dois exércitos contrários.
O exército anglo-luso perdeu o medo às águias napoleónicas, que ameaçavam dilacerar a Península
os ingleses reconheceram que os soldados portugueses eram dignos émulos no valor e brio militar, com os quais podiam e deviam contar. O moral do exército dos aliados foi exaltado.
Os franceses reconheceram que não eram invencíveis ao medirem-se com as tropas inimigas, que até então tinham em pouca conta:
As desinteligências que lavravam entre os generais franceses mais se acentuaram; e a incapacidade de Massena, já apontada por Ney antes da batalha do Buçaco, tornou-se frisante.
Massena sentiu-se golpeado no seu amor próprio: a Vitória abandonava o seu filho querido.
E, quando este julgava fazer calar os descontentes e insofridos por um estrondoso triunfo, viu que, ao contrário, a sua derrota mais ia insuflar a indisciplina dos generais seus subordinados.
Não estava de todo perdido o exército, podia haver ainda probabilidades de uma vitória; mas era preciso proceder com ponderação.
No Buçaco vira ele quanto Wellington. se soubera aproveitar das propriedades defensivas do terreno.
Atacar novamente em terreno análogo seria uma temeridade, porque uma nova derrota poderia trazer consigo uma capitulação, mancha vergonhosa que viria empalidecer e murchar os verdejantes louros do herói de Rivoli, de Zurique, de Génova, de Caldiero e de Essling.
Era necessário ser-se prudente; ponderado.
A derrota do Buçaco cortou as asas a Massena e impediu que voasse até aos cerros de Alhandra, do Sobral de Monte Agraço, de Torres.
Se não fora a derrota do Buçaco, Massena teria sido mais ousado em frente das Linhas de Torres, e quem sabe, se não teria saído vitorioso.
A vitória do Buçaco teve, portanto; consequências imediatas e materiais; e mais ainda, consequências morais e futuras.
Apreciando agora a batalha em si, vamos fazer algumas considerações relativamente aos dois partidos.
Os reconhecimentos mandados executar por Massena foram muito incompletos. Os oficiais que os realizaram não souberam desempenhar-se da sua missão.
Daí resultou o erro de Massena. Julgando o flanco esquerdo do exército anglo-luso em Sula, e ignorando que se prolongava até ao ninho de Águia, adoptara os dispositivos para envolver a posição de Sula, o que não sucedeu.
O ponto escolhido para o ataque, do 2." Corpo - a portela de Santo António do Cântaro - era judicioso e de uma grande importância, pois a posse daquela parte da serra separaria as forças anglo-lusas. Uma parte do exército seria lançado sobre o Mondego e retira ria nas mais precárias circunstâncias; a outra parte seria cortada da estrada do Botão a Coimbra, sendo obrigada a efectuar uma retirada excêntrica, e permitindo aos franceses chegarem primeiro àquela cidade que o exército anglo-luso.
Destas considerações resulta que o ataque a Santo António do Cântaro deveria ter sido o principal, porque era o decisivo, e para isso Massena deveria ter empregado o 6." corpo e não 0 2.°, visto que aquele tinha três divisões e este duas.
O ataque a Sula seria secundário. Mas estes dois ataques deveriam ter sido simultâneos para deixar o inimigo na indecisão. Não sucedeu, porém, assim.
Ney atacou 1h 30 m depois de Reynier, e quando este já tinha sido derrotado.
Esta falta de coordenação de esforços resultou da falta de ligação entre os dois corpos de exército.
E certo que Massena ordenara que esses ataques fossem simultâneos; mas não bastava ordenar, seria necessário tomar as disposições necessárias para garantir a execução dessa ordem.
Reynier cometeu também a falta de só empregar uma divisão na 1.ª linha, deixando uma outra como reserva; e quando esta foi chamada a intervir, apenas uma brigada avançou.
No 6.° corpo a divisão, que servia de reserva geral não chegou a enviar força alguma a apoiar as outras duas. As reservas parciais das duas divisões avançadas também. não foram judiciosamente empregadas.
Houve, pois, da parte dos franceses: má preparação, boa concepção e má execução.
Examinando agora o que se passou do lado do exército anglo-luso, vemos que Wellington, ainda que vencedor, não pôde efectuar a perseguição, última, mas imprescindível fase de uma batalha, para se tirar todo o proveito da vitória. Isto era consequência da posição ocupada; pois a posição do Buçaco não permitia tomar a ofensiva.
Por isso na própria Inglaterra se disse «que a batalha do Buçaco fora uma batalha política e não uma batalha militar».
Mas se Wellington não pôde efectuar a perseguição, ainda pior foi o deixar-se surpreender tacticamente, visto que foi forçado a abandonar a posição duma maneira precipitada, tendo de efectuar a retirada sem ordem, e vendo-se obrigado a abandonar grande parte das suas munições, fardamentos, víveres e feridos.
E incompreensível que um exército vitorioso não tivesse a energia suficiente para se ir opor nos desfiladeiros do Boialvo a um inimigo derrotado!
Enquanto que o exército de Massena retirava para Mortágua pelo mau caminho de Boialvo, o exército anglo-luso podia, por um caminho mais curto, ir ocupar o Boialvo e deter, se não aniquilar, o exército francês que ousava fazer uma marcha de flanco em presença dum inimigo vitorioso.
Wellington não julgava que Massena efectuasse a retirada pelo Boialvo e confiava que Trant com os seus milicianos tivesse ocupado aqueles desfiladeiros, como ele determinara. Trant, porém, só pôde chegar ao Sardão no dia 28 à tarde e apenas com 1.600 a 1.700 homens.
Wellington, porém, devia com a sua cavalaria, que estava sobre o estrada da Mealhada, procurar informar-se do que se passava para aqueles lados.
Na guerra devem ser previstas e prevenidas todas as hipóteses.
A retirada do exército anglo-luso fez-se sem consequências graves, porque o exército francês perdeu por várias vezes o contacto, em virtude da lentidão da marcha. As tropas francesas careciam de calçado, de fardamento, de víveres e tinham poucas munições.
Quando teve lugar a batalha do Buçaco, havia três ou quatro dias que o exército francês não comia pão. «N'avons pas de pain depuis quatre jours» dizia Junot em uma carta enviada no dia 28 de Setembro a sua mulher.
Há quem tenha também atribuído o triunfo do exército anglo-luso no Buçaco à superioridade da táctica inglesa sobre a táctica francesa, o que já se tinha evidenciado na batalha do Vimeiro.
De facto, o exército inglês tinha passado por uma grande transformação, desde que o duque de York fora nomeado comandante em chefe. O regulamento táctico mandado publicar em 1798, e que era o resultado dum profundo estudo do regulamento francês de 1791 e dos regulamentos alemães, era muito superior àquele.
Além disso tinham sido criados campos de instrução para se ministrar o ensino prático, tendo já muitos regimentos recebido essa instrução.
Enquanto a infantaria francesa formava ainda em três fileiras, a infantaria inglesa adoptou a formação em duas fileiras, o que permitia maior rapidez nos movimentos e aumento da reserva, quando se não queria aumentar as frentes de combate, ou cobrir a frente principal com fortes postos avançados.
Foi até este último dispositivo o adoptado por Wellington, que mandara ocupar os grupos de árvores e casas ou depressões de terrenos, ao alcance da artilharia, com postos avançados que sustentaram um fogo enérgico contra as colunas francesas, obrigando-as prematuramente a desenvolver-se e tornando mais difícil e perigoso o avanço pelas ásperas encostas da serra.
A artilharia, ocupando os, salientes, cooperou de uma maneira activa e judiciosa com .a infantaria, o que não sucedeu aos franceses, cuja artilharia não pôde sustentar as colunas de ataque.
A artilharia anglo-lusa representou um papel importante na batalha do Buçaco.
A infantaria, coberta como dissemos, por postos avançados, formava à retaguarda da crista do terreno, sustentada nalguns pontos por artilharia, que ocupava os intervalos, ou os flancos.
Em geral, os postos. avançados eram constituídos pelas 2 companhias extremas dos batalhões (1.ª e 10.ª) que eram formadas de atiradores de elite - granadeiros e caçadores. Como cada batalhão tinha 10 companhias., segue-se que 1/5 do seu efectivo era empregado nos postos avançados da posição.
Foi com este dispositivo táctico que o exército anglo-luso teve uma manifesta superioridade sobre o exército francês. As colunas francesas, precedidas por atiradores, chegavam exaustas à crista, tendo consumido os atiradores as suas munições no combate contra os postos avançados, e, quando se julgavam senhores do terreno, eis que surgia a linha principal dos defensores, executando uma descarga a 2o ou 35 metros e carregando imediatamente à baioneta. As colunas francesas não podiam resistir a esse choque, desapoiadas como estavam da sua artilharia, que não podia tomar posição na zona de terreno batida pelos fogos dos postos avançados e da artilharia avançada que ocupava os salientes.
Enquanto as forças atacantes chegavam cansadas e desunidas, as tropas anglo-lusas que ocupavam a linha principal, estavam frescas, sob a completa acção . dos chefes, e não desmoralizadas pelo fogo, nem pela vista do campo de batalha, pois se conservavam até ao último momento a coberto das vistas e do -fogo,--. inimigo.
As cargas à baioneta eram violentas, especialmente as realizadas pelas tropas . portuguesas, tornando-se surpreendentes as que foram executadas pelos nossos regimentos de infantaria n.°5 8 e 19, que ali se cobriram de glória.
Têm, pois, razão os que atribuem à táctica de combate do exército. anglo-luso uma parte considerável para o seu triunfo.
Todas as tropas portuguesas que tomaram parte activa na batalha se comportaram com grande valentia. Wellington e Beresford assim o reconheceram e manifestaram nas suas ordens do dia. Foram especialmente elogiados os regimentos de infantaria n.º 9 e 21, que formavam a brigada do coronel Champalimaud; infantaria n.º 8, comandada pelo tenente-coronel Douglas; os regimentos de infantaria n.os 7 e 19 e o batalhão de caçadores n.º 2, formando a brigada do brigadeiro Colleman; os regimentos de infantaria n.os 1 e 16 e o batalhão de caçadores n.º 4, formando a brigada Pack; os batalhões de caçadores n.os 1 e 3, que faziam parte da divisão Craufurd; o batalhão de caçadores n.º 6, que entrara na composição da brigada Campbell; as brigadas de artilharia, sob o comando do major Arentichild, a brigada de artilharia, anexa à divisão Spencer e a brigada de artilharia de montanha.
Mereceram ser citados em especial os nomes dos coronéis Champalimaud, Xavier Palmeirim e Souto Maior; dos tenentes-coronéis Sulton, José Maria Bacelar, Douglas, Jorge de Avilez, Nixan, Luís do Rêgo Barreto, Sebastião Pinto de Araújo, Elder, etc.
Beresford, na sua ordem do dia de 28 de Setembro (-), e Wellington na ordem do dia de 3o (°), elogiam e mostram-se reconhecidos para com as tropas portuguesas que tomaram parte na batalha do Buçaco.
A sua manifestação era um justo preito à bravura dos nossos soldados.
Notas:
6. O mais notável instrutor fora J. Moore. Também os regimentos instruídos por ele destacavam-se dos outros. Tais eram os que faziam parte da divisão Craufurd.
7. Veja-se a ordem do dia, datada do Q. G. do Buçaco, de 28 Setembro de 1810.
8. Vide o ofício de Lorde Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz, datado de Coimbra, de 30 de Setembro de 1810, e que vem transcrito na Gazeta de Lisboa, n.º 237, de 3 de Outubro de 1810; e também o ofício enviado pelo marechal Beresford, de 30 de Setembro de 1810, ao mesmo D. Miguel Pereira Forjaz.
Fonte:
Vitoriano José César - Batalha do Buçaco - 3.ª Ed., Lisboa - Imprensa da Armada, 1930, págs. 28 a 35 (1.ª Ed., Ferin, 1910)

 

A fuga da corte para o Brasil
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Indeciso, o príncipe regente D. João 3 adiou o quanto pôde a solução, pois qualquer alternativa era danosa à monarquia.
Afinal, a iminente invasão francesa tornou inadiável o desfecho. A fuga da Corte para o Rio de Janeiro, decidida na última hora, trouxe, não obstante, duas importantes conseqüências para o Brasil; a ruptura colonial e o seu ingresso na esfera de domínio da Inglaterra.
Chegando ao Brasil, D. João estabeleceu a Corte no Rio de Janeiro e em 1808 decretou a abertura dos portos às nações amigas, pondo fim, na prática, ao exclusivo metropolitano que até então restringia drasticamente o comércio do Brasil.

 

 A Família Real no Brasil
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D. João VI
No princípio do século XIX a Europa foi sacudida por uma guerra longa e violenta. Napoleão, imperador da França, grande general, organizou um exército poderosíssimo e invadiu vários países somando vitórias.   
Para derrotar os ingleses, imaginou um estratagema: obrigar as outras nações a fecharem os portos à Inglaterra, que sendo uma ilha ficaria isolada e muito enfraquecida sem poder comerciar.   
Acontece que Portugal e Inglaterra eram velhos aliados e faziam muitos negócios entre si, por isso os portugueses decidiram não obedecer. Napoleão ficou furioso, preparou um exército de 30.000 homens comandados pelo célebre Junot e ordenou-lhe que conquistasse Portugal.   
Mas nesse tempo os militares deslocavam-se a pé ou a cavalo, tinham que carregar armas e bagagens, acampar pelo caminho, ou seja, demoravam imenso tempo a chegar ao seu destino. A notícia porém voava de boca em boca ou na bolsa de um mensageiro veloz.
Quando em Lisboa se soube que vinha aí uma invasão francesa, foi o pânico. Na altura não havia condições para enfrentar um inimigo tão forte, corria-se o risco de perder a independência. Que fazer? Depois de muitos debates, tomou-se uma decisão: a família real devia partir imediatamente para o Brasil que nessa época era uma colónia portuguesa.
A Corte a salvo do outro lado do oceano assegurava a independência.
No ano 1807, a família real era muito numerosa e incluía pessoas de todas as idades.
A rainha
D. Maria I tinha 73 anos, era viúva e enlouquecera, por isso não podia reinar.  
As irmãs da rainha
Maria Ana tinha 71 anos e era solteira.
Maria Benedita tinha 61 anos e era viúva  
O príncipe Regente
D. João era o filho mais velho da rainha e ele é que governava em nome da mãe, por isso se diz Príncipe Regente. Tinha 40 anos, era casado com uma princesa espanhola que lhe dera oito filhos.  
A mulher do Príncipe
D. Carlota Joaquina tinha 32 anos. Viera para Portugal em criança para se habituar à língua, aos costumes e ao país do noivo. O casamento efectuou-se quando ela tinha apenas 10 anos.
Os oito principezinhos
Maria Teresa tinha 14 anos, Maria Isabel tinha 10 anos, Pedro tinha 9 anos, Maria Francisca tinha 7 anos, Isabel Maria tinha 6 anos, Miguel tinha 5 anos, Maria da Assunção tinha 2 anos e Ana de Jesus tinha 1 ano
Um primo espanhol, noivo da princesa mais velha Pedro Carlos, primo de Carlota Joaquina, vivia em Portugal desde criança e era o noivo de Maria Teresa. 

15 mil viajantes  
A família real não ia sozinha para o Brasil: ia acompanhada pelas pessoas que desempenhavam altos cargos na Corte e pelos funcionários e criados do palácio. Mas houve muitos nobres e muitos burgueses que decidiram ir também.   
Assim reuniu-se um número de viajantes espectacular: quinze mil homens, mulheres e crianças. Imagine-se então a bagagem! As pessoas não sabiam ao certo quanto tempo iam ficar no Brasil e como receavam que lhes saqueassem as casas, trataram de mandar encaixotar tudo o que tinha valor material: móveis, pratas, jóias, tapetes, loiças, candeeiros, cristais, quadros, livros, roupa de casa e de vestir, etc.   
Como sempre acontece em circunstâncias idênticas, não quiseram deixar para trás objectos e animais de estimação, por isso encaixotaram-se também brinquedos, muitas e variadas recordações. Junto com os caixotes seguiam cestos e gaiolas ocupados por cães, gatos, pássaros… e tudo se empilhou no cais entre Lisboa e Belém.   
Esses imensos volumes de todos os tamanhos e feitios, bem ou mal acondicionados, eram levados depois em botes a remos para os grandes navios ancorados no meio do Tejo. Foi grande a azáfama, enorme a confusão, mas a pouco e pouco lá se encafuaram as bagagens nos porões dos navios.  
O Embarque  
No dia 27 de Novembro de 1807 começaram a chegar carruagens ao cais. Os viajantes apeavam-se e dirigiam-se à beirinha da água para tomarem lugar nos botes a remos que os levariam até aos navios. Tinha chovido muito nos dias anteriores, o chão estava enlameado, as pessoas escorregavam, amparavam-se umas às outras para não caírem, tentavam evitar as poças de água.
Esse saltitar exterior correspondia certamente a um saltitar interior, pois se a ideia de escapar aos exércitos de Napoleão proporcionava alegria e alívio, o facto de se verem obrigados a deixar a sua terra era motivo de tristeza e desolação.  
Lisboa em peso acorreu para assistir ao embarque. Uns rodeavam os marujos no cais, outros penduravam-se nas janelas ou espalhavam-se pelas colinas sem saber o que pensar daquela cena nunca vista.   
Então a família real ia-se embora em bloco, e as famílias mais importantes também, levando consigo tantas riquezas para o outro lado do mundo? Seria de facto essa a única solução para resolver o problema de invasão iminente? E que aconteceria aos que ficavam quando chegassem os franceses?   
Os mais pessimistas provavelmente anunciaram desgraças sem fim, garantiram que os franceses iam tomar conta de tudo e que a família real nunca mais voltaria. Com certeza houve quem chorasse muito de comoção, de tristeza, de medo. E o choro redobrou quando viram que a velha rainha D. Maria berrava e lutava, tentando recusar-se a embarcar. Coitada! Aquela é que dificilmente tornaria a ver o seu país… 
A Armada  
A armada que levou a Corte para o Brasil incluía vários tipos de navios: naus, brigues, fragatas, escunas, bergantins e corvetas. Alguns eram enormes, bem armados de canhões, capazes de transportar muitos passageiros e grandes quantidades de carga.   
Outros eram mais pequenos e mais velozes. Além dos navios ao serviço da Corte, foram para o Brasil mais quarenta alugados por particulares que se meteram ao caminho à sua própria custa. Uma esquadrilha de quatro navios ingleses acompanhou a armada para dar apoio em caso de ataque no mar alto.   
O comandante da armada era Manuel da Cunha Sotomaior.
Naus
Rainha de Portugal (74 canhões)
Nesta nau viajou D. Carlota Joaquina com alguns dos filhos mais novos.  
D. João de Castro (64 canhões)
Nesta nau viajou o Duque do Cadaval, o Conde de Belmonte e o Conde de Redondo.  
Príncipe Real (80 canhões)
Nesta nau viajou a rainha D. Maria I, o Príncipe Regente e o filho mais velho, D. Pedro.  
Princesa do Brasil (74 canhões)
Nesta nau viajaram as irmãs da rainha e duas princezinhas.  
Conde D. Henrique (74 canhões)  
Martim de Freitas (64 canhões)  
Afonso de Albuquerque (64 canhões)  
Fragatas  
Medusa (74 canhões)  -  Minerva (44 canhões)  -  Jutra (32 canhões) -  Golfinho (36 canhões)
Brigues  
Voador (22 canhões) - Vingança (20 canhões)
Escunas a Curiosa e Bergantins o Três Corações  
A Partida  
Após o embarque, o que toda a gente queria era partir. Mas o tempo não permitia. Ventos contrários pareciam ter apostado em reter a armada no rio Tejo. Já se receava que os franceses chegassem a Lisboa a tempo de efectuarem um assalto ou de bombardearem os navios. Finalmente o dia 29 amanheceu lindo, puderam içar velas, levantar âncoras e fazer-se à travessia do Atlântico rumo ao Brasil. Foi por um triz: Junot entrou em Lisboa vinte e quatro horas depois!  
A Viagem 
A viagem não foi propriamente um passeio agradável. Como os preparativos tinham sido feitos à pressa e o embarque feito à última hora, faltavam mantimentos e muitos passageiros não encontraram os seus caixotes a bordo. Na melhor das hipóteses, talvez seguissem noutro navio, na pior, talvez tivessem ficado esquecidos no cais onde não tardariam a ser pilhados. Além da perda, havia o transtorno, por exemplo não podiam mudar de roupa. 
Mas enfim, lá se arranjaram como puderam. A natureza também contribuiu para agravar o mal estar, houve vendavais, o mar encapelou-se, um inferno. A maioria dos passageiros enjoou pavorosamente e além disso todos sofreram momentos de grande ansiedade porque os navios a certa altura dispersaram e como não havia recursos para comunicar à distância era impossível saber se os parentes e os amigos estavam vivos e seguiam por outra rota ou tinham sido engolidos pelo mar. 
As velhas princesas no Rio de Janeiro  
A armada tinha um destino comum: o Rio de Janeiro. Mas nem todos puderam ir lá directos.
O primeiro a chegar foi um navio alugado por particulares que no dia 3 de Janeiro aportou na Bahia. Os passageiros anunciaram que vinha aí a família real, a cidade ficou na maior excitação e o governador começou a tomar medidas para receber tão ilustres visitantes.
A 14 de Janeiro foi a vez do Brigue "Voador" ancorar no Rio. Depois, a pouco e pouco, foram chegando os outros - todos os outros - pois a Natureza rugira e fizera alguns estragos mas nada de irremediável. Só a nau D. João de Castro, bastante danificada, se viu na iminência de ir ao fundo, tendo no entanto alcançado a costa a tempo de evitar o naufrágio e aportado em Paraíba.  
Três dias depois da chegada do brigue "Voador", entraram na Baía de Guanabara cinco navios da armada portuguesa e três da esquadrilha inglesa. A bordo da nau "Princesa do Brasil" estavam as duas irmãs da rainha - já velhas, muito velhas, pois naquela época era pouco vulgar atingir os 70 anos.   
Nunca nenhuma delas navegara no alto mar, portanto a experiência de meses a bordo suportando o balanço das ondas deixara-as abaladíssimas; além disso, ficaram aterradas ao verificarem que a nau onde viajava D. João não aparecia. Ele era o sobrinho querido, o Príncipe Regente, a autoridade máxima. Que fazer na sua ausência? A única coisa que lhes ocorreu foi esperar.   
Não se sentiam com coragem para enfrentar uma terra desconhecida sem a presença protectora do Príncipe e não houve força nem argumentos que as fizessem desembarcar. Durante trinta longos dias, em vez de olharem as belezas naturais daquela região paradisíaca, voltavam-lhe as costas e perscrutavam o horizonte na esperança de verem uma vela ao longe.   
Diz-se que todas as manhãs, ao acordar, perguntavam uma à outra "O nosso João, já terá chegado?" Aflitíssimas rezavam orações sem fim pedindo a Deus que lhes trouxesse o resto da família sã e salva  
Só desembarcaram a 17 de Fevereiro, depois de lhes terem jurado que o resto da família se encontrava na Bahia rodeada de carinho e atenções e que em breve se poderiam abraçar.  
A Chegada à Bahia  
Os passageiros dos navios que os ventos do destino levaram à Bahia por lá ficaram durante um mês. Entre esses passageiros estava D. João - o Príncipe Regente -, a mulher e os filhos. Ao que parece, D. João mostrou-se maravilhado com o Brasil desde o primeiro momento e caiu nas graças dos baianos que o festejaram com a maior alegria.   
Enquanto permaneceu na cidade recebeu todas as pessoas que solicitaram audiência, ouviu pedidos e sugestões e tomou uma série de medidas que agradaram ao povo como por exemplo: abriu os portos do Brasil ao comércio directo com o estrangeiro, deu autorização para que se construísse um hospital, uma Escola de Medicina, várias fábricas.   
A população exultou, pois percebeu que a presença da Corte significaria progresso. Não faltou quem pedisse a D. João que desistisse de ir para o Rio de Janeiro e instalasse a Corte na Bahia. Argumentavam ser a cidade mais central e portanto mais conveniente, ofereciam-se para reunir verbas e construir um palácio de grande categoria…  
D. João agradeceu, sensibilizado com tantas demonstrações de amizade, mas não pode ceder. Já tinha anunciado às Cortes europeias que ia para o Rio de Janeiro, convinha manter a decisão.
No dia 26 de Fevereiro a família real e os acompanhantes despediram-se voltaram a embarcar, zarparam para sul.  
Preparativos no Rio de Janeiro  
No Brasil o representante do rei de Portugal tinha o título de vice-rei. Na época o vice-rei era o Conde dos Arcos, que deu voltas à cabeça para organizar uma recepção devidamente animada e elegante e para preparar alojamentos onde instalar tanta gente. Em 1808 viviam na cidade do Rio de Janeiro cerca de 60.000 pessoas.   
Chegarem mais 15.000 de um dia para o outro era uma espécie de avalanche, uma "avalanche humana". Mas o Conde de Arcos não se atrapalhava com facilidade. Começou por despejar o Palácio dos vice-reis(1) e mandou limpar tudo muito bem para poder funcionar como residência real.   
Como este Palácio não tinha capela e ele sabia que as pessoas da Corte estavam habituadas a capela privativa, chamou carpinteiros e ordenou-lhes que construíssem rapidamente uma ponte de madeira ligando directamente o Palácio à Igreja do Carmo, que ficava ao lado.
Quanto a estas medidas, toda a gente achou muito bem. Mas como ele requisitou algumas habitações particulares para alojar gente da Corte, houve proprietários que ficaram fulos com o abuso.   
No entanto, a maioria da população estava delirante. Nunca uma família real europeia pisara terras da América do Sul. Receber reis, rainhas, príncipes e princesas fazia as pessoas sentirem-se como personagens de contos de fadas. E a alegria natural dos habitantes do Brasil transformou logo os preparativos em grande festa.
1) O Palácio dos vice-reis ainda hoje existe. É uma casa bonita, situa-se na Praça XV de Novembro e ali funciona um centro de Arte.  
Uma Entrada Triunfal  
A armada reunira-se de novo e ancorara em frente ao Pão de Açúcar. Impossível descrever a euforia a bordo e em terra. Toda a gente ansiava pelo momento em que os canhões dariam sinal de desembarque. E isso aconteceu pelas quatro horas da tarde do dia 4 de Março de 1808. Ao primeiro Boum, D. João desceu para um bergantim seguido da mulher e dos filhos.  
 Enquanto os remadores faziam avançar a embarcação para o cais, os canhões atroaram os ares com salvas de boas vindas, repicaram em simultâneo os sinos de todas as igrejas, estalaram foguetes, bandas de música puseram-se a tocar, as pessoas davam vivas no maior entusiasmo. Guardas de honra formavam alas desde o cais à Igreja do Rosário onde estava tudo preparado para uma cerimónia religiosa destinada a dar graças a Deus pelo sucesso da viagem.  
D. João, D. Carlota Joaquina e os principezinhos seguiram em cortejo pelas ruas atapetadas de folhagens. As janelas das casas em redor tinham sido enfeitadas com grinaldas de flores, colchas de seda encarnadas e azuis. E as famílias vestidas com as melhores roupas e ostentando as melhores jóias debruçavam-se nas janelas a aplaudir.   
Consta que D. João sorria e acenava feliz por se ver tão acarinhado. E que D. Carlota Joaquina chorava, talvez de comoção. Ninguém reparou especialmente nas reacções do pequeno príncipe D. Pedro. Com nove anos,perante um ambiente colorido, barulhento, festivo, só podia estar maravilhado. Não podia era adivinhar que o destino tinha planos para entrelaçar a sua vida com o futuro daquela terra e daquela gente…  
Residências reais  
A família real, além do Palácio dos vice-reis que pertencia à coroa e foi posto à sua disposição, recebeu de presente uma quinta magnífica - A Quinta da Boa Vista em S. Cristóvão -, oferecida por um colono rico e amável. Essa quinta tornou-se a residência preferida de todos.(1)(1) Actualmente o Palácio de S. Cristóvão é o Museu de História Natural e Etnologia. A Quinta é um parque onde há plantas de todo o mundo.  
Festas e mais Festas  
Numa terra luminosa e quente como é o Brasil e no cenário maravilhoso do Rio de Janeiro, o que apetece realmente é comemorar o facto de estar vivo. Esse desejo traduziu-se (e ainda hoje se traduz) em festas espampanantes.   
A Corte não escapou ao sortilégio e… sucederam-se festas magníficas em que participavam não só os nobres mas também o povo cantando e dançando nas ruas iluminadas a preceito. A chegada do famoso compositor Marcos de Portugal acompanhado por muitos músicos e cantores contribuiu para abrilhantar as comemorações.
Ópera

Em 1811 houve um espectáculo de Ópera no Teatro Real do Rio de Janeiro para comemorar o aniversário de D. Maria I. O maestro foi Marcos de Portugal.  
O casamento da princesa Maria Teresa com seu primo Pedro Carlos
Uma das primeiras grandes festas dada pela Corte no Rio de Janeiro foi o casamento da princesa mais velha em 1810.  
O Brasil elevado à categoria de reino  
Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia portuguesa e foi elevado à categoria de reino unido com Portugal. Naturalmente não faltaram desfiles e bailes.  
A coroação de D. João VI
No ano 1816 morreu a velha rainha D. Maria I. D. João há muito que governava pois a mãe enlouquecera, mas só nesse ano subiu ao trono como D. João VI. Houve um período de luto e só em 1818 se realizaram as ricas e faustosas cerimónias para festejar a coroação  
O casamento do príncipe herdeiro
D. Pedro, sendo herdeiro do trono dos Reinos Unidos de Portugal e do Brasil, só podia casar com uma princesa que pertencesse a uma família real muito antiga e de grande prestígio. A escolha recaiu na princesa Leopoldina, filha dos imperadores da Áustria.   
O embaixador português foi a Viena apresentar o pedido, houve negociações, chegou-se a um acordo e Leopoldina viajou para o Rio de Janeiro ao encontro do noivo. O casamento realizou-se em 1817 e foi um acontecimento!  
Artistas franceses no Brasil  
D. João VI quis decorar os palácios com obras de arte. Na época usava-se cobrir as paredes com grandes telas representando paisagens, retratos e cenas históricas. Como ainda não havia no Brasil artistas que pudessem executar um trabalho de grande qualidade, o rei escreveu ao embaixador que estava em Paris e pediu-lhe que contratasse pintores franceses que quisessem ir para o Brasil.   
Debret, Pradier e Taunay aceitaram o convite e partiram. Esses três grandes pintores realizaram autênticas "reportagens visuais" que permitem acompanhar a vida da Corte no Brasil e conhecer o ambiente que os rodeava  
Cientistas austríacos no Brasil  
A comitiva da princesa D. Leopoldina incluía cientistas que tinham sido contratados pelo imperador da Áustria para acompanharem a filha ao Brasil e por lá ficaram alguns anos a estudar a fauna, a flora e os minerais daquela terra longínqua que tanta curiosidade despertava na Europa.
 Esses cientistas embrenharam-se no mato, fizeram registos sobre o que viram e recolheram espécies de plantas, animais e minerais. Como nesse tempo ainda não se tinham inventado as máquinas fotográficas, os cientistas fizeram-se acompanhar de desenhadores e pintores para eles se encarregarem das imagens. Assim, no regresso, poderiam dar a conhecer ao "velho mundo" as surpresas do "mundo novo"
Nem tudo foram rosas
Enquanto a Corte portuguesa esteve no Brasil, houve guerras a norte e a sul. A norte, contra a Guiana francesa. A sul, os conflitos surgiram por causa da linha de fronteira com os territórios das colónias espanholas. Os portugueses lutaram bravamente e saíram vitoriosos mas mais tarde, quando assinaram a paz, retiraram das terras ocupadas.  
O regresso a Portugal  
Em Portugal as lutas com os franceses terminaram no ano 1811. Mas a Corte não regressou imediatamente porque não havia garantias de total segurança, porque a deslocação massiva de tanta gente não era fácil e talvez também porque a família real se sentia feliz no Rio de Janeiro. Em 1815 o Brasil deixou de ser uma colónia, foi elevado por D. João VI à categoria de reino, reino unido ao de Portugal.
E o tempo foi correndo, sem se falar em regresso. Mas entretanto a Europa agitava-se e havia revoluções destinadas a alterar a forma de governo. Até então os reis tinham todos os poderes, eram reis absolutos. Nesta época, sopravam outras ideias e surgiram partidos que queriam dividir o poder - os Partidos Liberais. Estes defendiam que o rei devia ter unicamente o poder de governar. Julgar os crimes, competia exclusivamente aos juízes. Fazer leis, seria tarefa para deputados eleitos pelo povo.
Entre absolutistas e liberais rebentaram muitos conflitos armados. Em Portugal estalou uma revolução no Porto, no ano 1820, os liberais alcançaram uma vitória imediata e uma das primeiras medidas que tomaram foi exigir ao rei que voltasse. D. João VI mandou preparar malas e bagagens e embarcou com toda a família excepto o príncipe herdeiro, D. Pedro, a quem deixou no Brasil como Regente.

 


Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

Formatação: Iara Melo