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Dia de São Tomé - (ver pra crer)
03 de Julho

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

São Tomé era Israelita e foi um dos doze apóstolos de Jesus. Seu nome consta na lista dos quatro evangelistas.

Santo Tomé
http://www.cancaonova.com
Neste dia festejamos a santidade de vida do apóstolo que não chegou até o Céu pelas suas limitações - como acostumamos firmar ao chamá-lo de incrédulo - mas sim por ter sido atingido pela ilimitada misericórdia do Senhor. São Tomé apóstolo de Nosso Senhor Jesus Cristo era o mais "teólogo" dos doze, pois com suas perguntas possibilitava a Revelação do Cristo e a Trindade:
"Tomé lhe disse: 'Senhor, nós nem sabemos para onde vais, como poderíamos saber o caminho?' Jesus lhe disse: Eu sou o caminho , a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim"(Jo 14, 6).
Sobre aquele acontecimento em que o Cristo Ressuscitado "provoca" para fé São Tomé, pois somente acreditaria no testemunho dos irmãos se visse os sinais do martírio do Cristo de modo palpável, quanto a isto comentou São Gregório: "A incredulidade de Tomé não foi um acaso, mas prevista nos planos de Deus. O discípulo, que, duvidando da Ressurreição do Mestre, pôs as mãos nas chagas do mesmo, curou com isso a ferida da nossa incredulidade".
Diante de tantas providentes intervenções, São Tomé se despede das Sagradas Escrituras, professando sua fé: "Meu Senhor e meu Deus"( Jo 20 - 28). Esta expressão não saiu da boca de Pedro, nem de João, mas de Tomé que segundo a Tradição teria depois de Pentecostes, ido para evangelizar pelo Oriente e Índia até tornar-se mártir, ou melhor: "um exemplo de fé".

Santo Tomé
http://pt.wikipedia.org
Tomé, também chamado Tomás, Judas Tomé (Tomás), Judas Tomé (Tomás) Dídimo, Dídimo ou Santomé, foi um dos doze apóstolos originalmente escolhidos por Jesus, segundo os Evangelhos sinóticos e os Actos dos apóstolos (Mt 10:3, Mk 3:18, Lk 6:15) havendo pouco registro além.
Nome e identidade
Alguns teólogos têm mantido discordâncias a respeito da verdadeira identidade de São Tomé. Tomé não é propriamente um prenome, mas sim a palavra equivalente a gémeo, vindo do aramaico Tau'ma , e posteriormente traduzida para o grego Didymus. Essa palavra aparece composta com o prenome Judas nalguns trechos bíblicos. Muito se discute de quem esse Judas Tomé seria irmão gémeo. Outros, inclusive, acreditam se tratar de Judas Tadeu, irmão de Tiago Menor, tendo-se confundindo-o com uma terceira pessoa apenas porque seu nome teria aparecido com a alcunha Gémeo algumas vezes em vez de Tadeu. Essa suspeita é reforçada por não haver um consenso histórico sobre quem seriam verdadeiramente os doze apóstolos, havendo indicativos no Novo Testamento sobre outros possíveis seguidores escolhidos por Jesus para ser um dos doze.
Fato é que a tradição católica e ortodoxa, bem como fortíssimos indícios indianos dos católicos nativos de Malabar apoiam a existência deste apóstolo, sua missão evangelizadora e seu martírio. De fato, no século XVI os portugueses que chegaram à região descobriram a cripta do santo e suas relíquias, inclusive um pedaço da lança com a qual fora morto com o sangue ainda coagulado. Acrescente-se a isto que todos os antigos martirológios mencionam a ida de São Tomé à Índia, sua pregação e seu martírio, trespassado por uma lança empunhada por hindus.
Um fato recente e muito curioso foi quando do tsunami de Dezembro de 2004 que devastou toda aquela região: o templo que guarda suas relíquias ficou imune às ondas gigantescas que destruíram todas as construções adjacentes, tendo permanecido intacto. Uma antiga tradição afirmava que um poste fixado pelo apóstolo limitaria até o fim dos tempos as águas, que jamais o ultrapassariam. Este poste existe até os dias actuais e se localiza exactamente na porta principal da igreja que guarda suas relíquias. Isto deixou os sacerdotes hindus desconcertados e os mesmos prometeram não mais perseguir e discriminar os cristãos daquelas plagas.
Outros nomes
O Evangelho de Tomé presente na biblioteca de Nag Hammadi assim se inicia: Esses são os ditos secretos que o Jesus vivo disse e Judas Tomé Dídimo registrou. Tradições sírias também alegam que o nome completo do apóstolo era Judas Tomé, ou Jude Tomé. Alguns dizem ter visto nos Actos de Tomé (escrito na Síria oriental entre os séculos II e III) uma identificação de São Tomé com o apóstolo Judas Tadeu, filho de Tiago. No entanto, a primeira frase desse Atos segue os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos, distinguindo os apóstolos Judas Tomé e Judas Tadeu.
Poucos textos determinam o irmão gémeo de Tomé, apesar de que no Livro de Tomé o Adversário, também integrante nos manuscritos de Nag Hammadi, identifica-se Jesus como seu irmão: Agora, haja vista que foi dito ser tu meu gémeo e verdadeiro companheiro, examina-te a ti mesmo.
Tomé nos Evangelhos sinópticos
No Evangelho de João
São Tomé aparece numas poucas passagens no Evangelho de João. Em João 11:16, quando Lázaro morre, os discípulos resistem à decisão de Jesus para que retornem à Judeia, onde os judeus tentaram apedrejar Jesus. O Mestre está determinado, mas é Tomé que toma a palavra final: Vamos todos, pois poderemos morrer com Ele. Alguns interpretam esse como uma antecipação ao conceito teológico paulínio de morrer com Cristo.
Ele também fala na Última Ceia em João 14:5. Jesus assegura seus discípulos que eles sabem aonde ele irá, mas Tomé protesta que eles não sabem de fato. Jesus retruca a ele aos pedidos de Filipe com uma complexa exposição de seu relacionamento com O Pai.
A aparição mais famosa de Tomé no Novo Testamento está em João 20:24-29, quando duvida da ressurreição de Jesus e exige que necessita sentir Suas chagas antes de se convencer. Essa passagem é a origem da expressão Tomé o Incrédulo bem como de diversas tradições populares similares, tal como Fulano é feito São Tomé: precisa ver pra crer.. Após ver Jesus vivo (a Bíblia nunca afirma ter Tomé tocado de fato as Chagas), Tomé professa sua fé em Jesus; a partir de então ele é considerado Tomé o Crente.
Epílogo
Da mesma forma que se acredita que Pedro e Paulo disseminaram as sementes do crisianismo pela Grécia e Roma, Marcos pelo Egipto e João pela Síria e Ásia Menor, Tomé teria levado a Palavra à Índia, tendo sido o primeiro dos Católicos do Leste.
Tomé e a Ascensão de Maria
De acordo com A passagem de Maria, um texto da Alta Idade Média atribuído a José de Arimatéia, Tomé foi a única testemunha da Ascensão de Maria aos céus. Os outros apóstolos foram miraculosamente transportados a Jerusalém para observar sua morte. Tomé, que já estava na Índia, após o funeral fora transportado à tumba dela, onde testemunhou o corpo de Maria subir aos céus, jogando-lhe seu cinto. Numa inversão à imagem de cepticismo vinculada a Tomé, os outros apóstolos é que duvidaram de seu relato até verem a tumba vazia e o cinto. O recebimento do cinto por Tomé é representado várias vezes na arte medieval e pré-Tridentina.
Tomé e Síria
Tomé tem um papel na lenda do rei Abgar V de Edessa (Urfa), por ter enviado Tadeu de Edessa para pregar na cidade mesopotâmica (hoje síria) de Edessa após sua Ascensão. Santo Efreu, que também conta essa lenda, escreveu uma fábula na qual o demónio grita:
(...)A qual terra devo me refugiar do justo?
Eu instiguei a Morte para os Apóstolos assassinar, e por suas mortes eu de suas investidas escapar.
Mas fui duramente atingido: o Apóstolo que matei em Índia subjugou-me em Edessa; aqui e lá ele está em sua plenitude.
Lá fui eu, e lá estava ele: aqui e lá para minha aflição o encontrei.
A tradição mantida pela igreja de Edessa que afirma ser Tomé o Apóstolo da Índia gerou inúmeras fábulas também atribuídas a Santo efreu, copiadas em códices dos séculos VIII e IX. Referências nas fábulas preservam a crença de que os ossos de Tomé foram trazidos da Índia à Edessa por um mercador, e que as relíquias operam milagres tanto em Índia quanto em Edessa. Um pontífice determinou o dia dedicado ao santo e um templo a ele foi erguido. As tradições tomasianas ganharam corpo na liturgia siríaca.
Durante o século IV, o memorial erguido no suposto local do martírio de Tomé atraiu peregrinos a Edessa, para a veneração de seus restos. Nos anos de 380 d.C., Santa Egeria descreveu sua visita ao local em carta enviada à sua irmandade (Itineraria Egeriae):
Nós chegamos em Edessa em nome de Cristo nosso Senhor, e, em nossa chegada, dirigimo-nos directamente à igreja e memorial de São Tomé. Lá, conforme os costumes locais, orações foram feitas e outras coisas costumeiras aos lugares santos; nós também lemos algo relevante a São Tomé em si. A igreja de lá é muito grande, muito bonita e recém-construída, merecedora de ser a casa do Senhor, e como havia muito que eu desejava ver, foi-me necessário lá permanecer por três dias.
Tomé e Índia
Eusébio de Cesareia  cita Orígenes como quem afirma ter sido Tomé o apóstolo dos partias, mas Tomé é mais conhecido como missionário na Índia por meio dos Actos de Tomé, escrito entorno de 200 d.C.
As várias denominações da moderna da Igreja oriental dos Cristãos de São Tomé atribuem suas origens à sua tradição oral, datada de fins do século II, que alega ter Tomé chegado a Maliankara, próxima à vila de Moothakunnam, na região de Paravoor Thaluk, em 52 d.C. Esse vilarejo está localizado a 5km de Kodungallur, no Estado indiano de Kerala, e contém as igrejas dedicadas a São Tomé popularmente conhecidas como Ezharappallikal (Sete igrejas e meia). Essas igrejas estão em Kodungallur, Kollam, Niranam, Nilackal (Chayal), Kokkamangalam, Kottakkayal (Paravoor), Palayoor (Chattukulangara) e Thiruvithamkode — a meia-igreja.

São Tomé esteve aqui
http://www.novomilenio.inf.br
Carlos Pimentel Mendes
Um dos apóstolos de Cristo, aquele do "ver para crer", São Tomé protagonizou um dos raros mitos luso-brasileiros: o de sua própria estada na América do Sul. Sua presença no Oriente, desenvolvendo uma comunidade cristã naquela parte do mundo, já era conhecida no século VI, quando Gregório de Tours citou o fato em seus escritos. Logo sua fama chegou à Inglaterra, cujo rei Alfredo lhes mandou em embaixada, com muitos presentes, em 883, o bispo Sigelmus de Sheborne. Consta ainda que o alemão Henrique de Morungen, o Minnesinger, nascido por volta de 1150, teria ido à Índia para visitar a cidade de São Tomé, retornando com relíquias que pelo menos até 1899 foram conservadas no mosteiro de Leipzig dedicado ao apóstolo. Em 1470, a chegada dos portugueses João de Santarém e Pêro de Escobar ao arquipélago africano defronte de Guiné Bissau, num dia 21 de Dezembro (em que é comemorado o dia desse apóstolo), fez com que fosse assim baptizado o local, onde hoje existe a República Democrática de São Tomé e Príncipe.
Em sua obra Visão do Paraíso, o escritor Sérgio Buarque de Holanda registra ainda que no século III outras relíquias do santo teriam ido para Edessa, sendo levadas em 1144 a Quios e em 1258 a Ortona (Itália). O autor continua:
Aberta em 1523 sua pretensa sepultura em Meliapor, nela se acharam ossos decompostos, um vaso de terra ensanguentada e um ferro de lança. Enviados alguns desses restos a Cochim, Goa e Basrein, ficaram em Meliapor ou São Tomé, a Madrasta actual, um fragmento de costela e o ferro de lança. 
Da devoção do apóstolo na Índia, ao tempo da conquista portuguesa, dá larga notícia São Francisco Xavier. Em uma de suas cartas a Santo Inácio, refere que Martim Afonso de Sousa lhe mandara interceder junto ao Pontífice, por intermédio do fundador da Companhia, para que fosse concedida indulgência plenária em seu dia e nas oitavas a todos os que então comungassem, e aos que não confessassem e comungassem não lhes fossem dadas. "Y a esto se mueve el señor Gubernador por amor que la gente se confiesse y comulgue". 
Pouco faltaria, em verdade, para que não apenas na Índia, mas em todo o mundo colonial português, essa devoção tomasse um pouco o lugar que na metrópole e na Espanha em geral, como em todo o Ocidente europeu, durante a Idade Média e mais tarde, tivera o culto bélico de outro companheiro e discípulo de Jesus, cujo corpo se julgava sepultado em Compostela.
Não foi certamente novidade, para os portugueses quinhentistas, a lenda da pregação de São Tomé Apóstolo na Índia, já largamente divulgada e mesmo canonizada, ou a da existência ali de seu verdadeiro sepulcro, mencionado em numerosas relações medievais do Oriente, como as de Marco Polo e Montecorvino, sem falar na famosa carta do Preste João. O que os poderia ter surpreendido ao desembarcarem naquela costa era a extensão do culto, que lhe devotavam inúmeras pessoas desde Bombaim até Madrasta, abrangendo o Ceilão, e ainda nas colónias de cristãos de São Tomé que iam até o Mar da China.
A própria devoção a suas relíquias, em particular a certos pelourinhos de barro tomado ao seu pretenso túmulo, e que sempre levavam consigo os fiéis, assim como os mouros e gentios, era bastante generalizada quando lá chegaram eles. Nem são de sua invenção as notícias das pegadas deixadas pelo santo em várias partes do Oriente, e que depois acabariam por ser vistas também no Novo Mundo.
A presença de São Tomé no Brasil já é registrada - pelo menos na cartografia - em 1507, no mapa-múndi de Waldseemüler, o mesmo que pela primeira vez cita como América a parte austral do continente. Lá está, um pouco acima do topónimo "S.Vincete", a citação "Serra S. Thome". Quando mais tarde o Brasil foi dividido em 15 capitanias hereditárias, uma delas foi a de Paraíba do Sul, dada em 28/8/1536 a Pêro Góis da Silveira, sendo também conhecida como Capitania de São Tomé. Retornando as terras à Coroa em 1753, deu origem à maior parte do actual Estado do Rio de Janeiro.
Santuário de São Tomé de Meliapor, construrído por
D. Nuno da Cunha para marcar o local da morte do apóstolo
A lenda de São Tomé se difundiu rapidamente, tanto que em 1516 já se falava em sua estada na costa do Brasil. A primeira versão conhecida da presença de um discípulo de Jesus em terras americanas, aliás, é a chamada Nova Gazeta Alemã, referente à viagem de um dos navios armados por Dom Nuno Manuel, Cristóvão de Haro e outros - que, a 12 de Outubro de 1514 aportava, já de torna-viagem, à Ilha da Madeira. O autor da publicação recolheu a bordo a notícia de que na costa brasileira os indígenas tinham recordação de São Tomé, acrescentando: "Quiseram mostrar aos portugueses as pegadas de São Tomé no interior do país. Indicam também que têm cruzes pela terra adentro. E quando falam de São Tomé, chamam-lhe o Deus pequeno, mas que havia outro Deus maior (...) No país chamam frequentemente a seus filhos Tomé".
Acreditava-se então que as terras americanas tivessem ligação directa com a Ásia, e na própria Gazeta lê-se que o piloto da nau portadora daquelas notícias - presumivelmente o célebre João de Lisboa, já acostumado à navegação para a Índia - não acreditava achar-se o cabo e a terra do Brasil a mais de seiscentas milhas de Malaca, acreditando que a terra do Brasil continua, dobrando, até aquela localidade. Assim, seria "bem crível" que os indígenas tenham lembrança de São Tomé, "pois é sabido que está corporalmente por trás de Malaca: jaz na costa de Siramath, no Golfo de Ceilão".
Reforçando a idéia, a existência das pegadas do santo impressas nas rochas, em pelo menos cinco lugares da costa brasileira, como citado por Simão de Vasconcelos: para o Norte de São Vicente; em Itapoã, fora da barra da Baía de Todos os Santos; na praia do Toqué Toqué, dentro da mesma barra; em Itajuru, perto de Cabo Frio; e na altura da cidade de Paraíba, a sete graus da parte do Sul, para o sertão. Frei Jaboatão, dos Frades Menores, registra ter visto essas pegadas no lugar do Grojaú de Baixo, sete léguas distante do Recife (PE). Ambos citam a existência de dois conjuntos de pegadas, uma delas de uma pessoa menor ou um menino, e o fato de serem tais rochas - e a água que delas jorrasse - milagrosas. O costume de raspar as rochas para formar relíquias teria feito desaparecer essas marcas, mas as rochas serviram inclusive de referência em documentos oficiais como as cartas de doação de terras.
É possível apontar muitas semelhanças entre o lendário Chimé conhecido pelos budistas da cidade sagrada de Angkor Vat, no Camboja, e o Pai Sumé dos indígenas brasileiros - diferentes formas de pronunciar o nome do apóstolo de Cristo. Em terras sulamericanas, a maior obra de São Tomé teria sido a abertura da grande estrada que liga o litoral atlântico brasileiro até o Paraguai nas vizinhanças de Assunção - a mesma estrada que se tornou famosa com as entradas de Aleixo Garcia, Pero Lobo, Cabeza de Vaca e outros aventureiros castelhanos e lusitanos nos séculos XVI e XVII, como cita Sérgio Buarque de Holanda:
Chamavam-lhe os do lugar Peabiru e Piabiyu, por outro nome Caminho de São Tomé ou do Pay Zumé, que assim também era conhecido o misterioso personagem.
Na versão que da abertura desta estrada nos conservou o Padre António Ruiz de Montoya, da Companhia de Jesus, alude-se à fama corrente, em todo o Brasil, entre os moradores portugueses e os naturais que habitavam a terra firme, de como o santo apóstolo principiou a caminhar por terra desde a Ilha de São Vicente, "em que hoje se vêem rastros, que manifestam esse princípio de caminho [...], nas pegadas que [...] deixou impressas numa grande penha, em frente à barra, que segundo público testemunho se vêem no dia de hoje, a menos de um quarto de légua do povoado". 
"Eu não as vi", pondera o missionário, mas acrescenta que à distância de duzentas léguas da costa, terra adentro, distinguiram, ele e seus companheiros, um caminho ancho de oito palmos, e nesse espaço nascia certa erva muito miúda que, dos dois lados, crescia até quase meia vara, e ainda quando se queimassem aqueles campos, sempre nascia a erva e do mesmo modo. 
"Corre este caminho", diz mais, "por toda aquela terra, e certificaram-se alguns portugueses que corre muito seguido desde o Brasil, e que comummente lhe chamam o caminho de São Tomé, ao passo que nós tivemos a mesma relação dos índios de nossa espiritual conquista".
Os relatos de outros jesuítas castelhanos, alguns de época muito mais tardia, concordam no essencial com o de Montoya e parecem, não raro, calcados sobre as suas palavras. Assim escreve, por exemplo, o Padre Pedro Lozano, aludindo em particular à província de Taiaoba, situada junto às cabeceiras do Piqueri, no Sul de Guairá: "Por esta provincia corre el camiño de Santo Tomé, que es el que trajo el gloriosissimo apostol por mas de 200 leguas desde la capitania de San Vicente, en el Brasil, y tiene ocho palmos de ancho, em cuyo espacio se le nace una yerba muy menuda que le distingue de toda la demás de los lados, que por la fertilidad cresce á media vara, y aunque agostada la paja, se quemen los campos, nunca la yerba del dicho camiño se eleva mas, en reverencia sin duda de las sagradas plantas que la hollaron, y para testimonio de las fatigas que en tierras tales padeceria el apostol primeiro de la América".
Também no Paraguai, e em sua própria capital, há registros sobre as pegadas do santo marcadas em rochas. Desde Assunção, seguia o caminho cerca de 200 léguas até a lagoa chamada do Paititi, mais uma corruptela do nome Pai Tomé. Dali, São Tomé teria passado ao Peru, onde foi conhecido como Pay Tumé, com sua lenda se enriquecendo aos poucos, não só com a recordação dos ataques que sofrera no Oriente - agora transpostos para enfrentamentos de índios traiçoeiros nas selvas sul-americanas - mas com detalhes como o de ganhar sandálias comuns no Paraguai e sapatos com sola tríplice no Peru, ele que segundo as primeiras pegadas andava descalço... Se no Leste do continente o santo tinha veste simples e talvez um menino por companhia, em terras espanholas ganhou "uma túnica inconsútil (N.E.: inconsútil = sem costura) de matéria desconhecida", tendo por companhia cinco ou seis índios. Assim por diante, cada ponto da história de São Tomé no Oriente encontra versão correspondente na América do Sul, como as maravilhosas aves que o acompanhavam e defendiam, ou os caminhos por ele abertos e cujas plantas demarcatórias serviam como remédio aos enfermos.
O bordão que deixou marcas milagrosas em rochas brasileiras se transformou em uma cruz de madeira milagrosa com resistência de pedra e agradável cheiro (avistada às margens do lago Titicaca) como a que se afirmava ter sido encontrada em seu túmulo de Meliapor, na Índia - e que, apesar de seu grande peso, que três cavalos mal poderiam puxar - teria sido transportada pelo apóstolo num percurso de mais de 1.200 léguas. Comenta mais Sérgio Buarque de Holanda:
Na actividade que, já a partir de 1538, e até 1546, ano em que morreu, desenvolvera na Ilha de Santa Catarina, no continente vizinho, no Guairá e até em Assunção, o Frade Bernardo de Armenta, comissário da Ordem de São Francisco, estariam, muito possivelmente, os acontecimentos históricos que podem ter servido para avivar a lenda. A alta reputação ganha por ele entre os indígenas teria sido partilhada e talvez herdada, até certo ponto, por outro franciscano que o acompanhou e lhe sobreviveu, Frei Alonso Lebron, o mesmo que Pascoal Fernandes iria aprisionar em 1548, levando para São Vicente. A este podia corresponder, na história, o papel atribuído no mito indígena ao companheiro de Sumé.
Sabe-se que Frei Bernardo percorreu, pelo menos uma vez, em toda a sua extensão, o caminho chamado de São Tomé quando acompanhou, à frente de uma centena de índios, o Governador Cabeza de Vaca, e que o tinham em grande acatamento aqueles índios. Posto que o não estimasse o adelantado, autor de sérias acusações ao seu comportamento - entre outras a de que, junto com Frei Alonso Lebron, guardaria encerradas em sua casa mais de trinta índias dos doze aos vinte anos de idade -, a boa conta em que era geralmente havido entre catecúmenos e gentios Carijó espelha-se no nome que todos lhe atribuíram de Pay Zumé, como a identificá-lo com figura mítica.
Consta que, ao chegar a Santa Catarina, onde aceita a oferta do feitor real Pedro Dorantes, que se propõe ir descobrir o caminho "por donde garcia entró", Cabeza de Vaca conseguiria realizar mais facilmente o intento de penetrar por terra até o Paraguai pelo fato de o julgarem os índios filho do comissário da Ordem de São Francisco, ou seja, de Bernardo de Armenta, "a quien ellos dizen Payçumé y tienen en mucha veneración", segundo se expressaria em carta o próprio Dorantes.
No que dirão mais tarde os guaiarenses aos missionários jesuítas, não parece muito fácil separar o que pertenceria ao franciscano, predecessor daqueles na obra de catequese, dos atributos do personagem mitológico celebrado pelos seus avós e a eles comunicado de geração em geração. Mesmo no nome dado ao caminho que, da costa do Brasil, procurava as partes centrais do continente, não se prenderia, de alguma forma, a lendária tradição a uma verdade histórica ou, mais precisamente, ao fato de o ter trilhado Frei Bernardo, que na imaginação dos índios da terra deveria ser figura mais considerável do que o adelantado?

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

 
 
 
 
 
 

 

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