Dia dos Namorados, no Brasil

 

12 de Junho

 

Trabalho e e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

 

 

 


 

No Brasil, a data é comemorada no dia 12 de Junho por ser véspera do 13 de Junho, Dia de Santo António, santo português com tradição de casamenteiro, provavelmente devido suas pregações a respeito da importância da união familiar. O casamento - em queda na Idade Média - trazia a união carnal, considerada pecado, naquele período quando se valorizava a vida espiritual celibatária.
A data foi criada pelo comércio paulista e depois assumida por todo o comércio brasileiro para reproduzir o mesmo efeito do Dia de São Valentim, equivalente nos países do hemisfério norte, para incentivar a troca de presentes entre os "apaixonados".

O namoro é uma instituição de relacionamento interpessoal moderna, que tem como função a experimentação sentimental e/ou sexual entre duas pessoas através da troca de conhecimentos e uma vivência com um grau de comprometimento inferior à do matrimónio. A grande maioria utiliza o namoro como pré-condição para o estabelecimento de um noivado ou casamento.
Com a evolução da tecnologia, já é comum encontrar casos de pessoas cujo namoro se dá através das modernas formas de telecomunicação, como o telefone ou a Internet. Assim, sendo, casais podem namorar apesar de estarem em países ou continentes distintos.

Sentimentos, de forma genérica, são informações que seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam. Por exemplo, medo é uma informação de que há risco, ameaça ou perigo directo para o próprio ser ou para interesses correlatos.
A empatia é informação sobre os sentimentos dos outros. Esta informação não resulta necessariamente na mesma reacção entre os receptores, mas varia, dependendo da competência em lidar com a situação, e como isso se relaciona com experiências passadas e outros factores.
O sistema límbico é a parte do cérebro que processa os sentimentos e emoções. A medicina, biologia, filosofia e a psicologia estudam o sentimento humano.

Amor platónico é uma expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos. Um sentido popular pode ser o de um amor impossível de se realizar, um amor perfeito, ideal, puro, casto.
Trata-se, contudo, de uma má interpretação da filosofia de Platão, quando vincula o atributo "platónico" ao sentido de algo existente apenas no plano das ideias. Porque Ideia em Platão não é uma cogitação da razão ou da fantasia humana. É a realidade essencial. O mundo da matéria seria apenas uma sombra que lembraria a luz da verdade essencial.
Disso pode-se concluir que o amor Platónico é uma interpretação equivocada do conceito de Amor na filosofia de Platão. O amor em Platão é falta. Ou seja, o amante busca no amado a Ideia - verdade essencial - que não possui. Nisto supre sua falta e se torna pleno, de modo dialéctico, recíproco. Nem de longe é a noção de amor covarde que nunca se realizará.
Em contraposição ao conceito de Amor na filosofia de Platão está o conceito de Paixão. A Paixão seria o desejo voltado exclusivamente para o mundo das sombras, abandonando-se a busca da realidade essencial. O amor em Platão não condena o sexo, ou as coisas da vida material. Condena sim, o sexo ou qualquer outra coisa onde não haja a busca da Ideia de Bem, ao largo da qual orbitam as outras ideias, que Santo Agostinho chamou de Deus.

Como surge o amor …

Na época da Europa Medieval havia muitas guerras, o que precedia muitas mortes. As mulheres eram mal tratadas e observadas apenas como alvo de desejos. Quando chega o ano 1000 muitos tremores de terra ocorreram, os Invernos ficaram mais rigorosos, surgiu a peste etc. Com isso a Igreja inicia um discurso dizendo que Deus está castigando o mundo por causa do volume de guerras e a disseminação por contacto que estas acarretavam. A partir daí as pessoas se voltaram mais para a Igreja, fato conhecido como teocentrismo, e com isso esta começou a desenvolver um papel muito importante na vida quotidiana das pessoas. Quando o papel da Igreja como reguladora da sociedade se definiu como absoluta ( utilizando o argumento de que o mundo não acabara porque Deus estava dando uma segunda chance aos homens) os dogmas começaram a nortear o quotidiano social. Com isso surge o culto mariano ( que é basicamente a sacralização da mãe de Jesus ) onde as mulheres começam a ser valorizadas. Os contos cavalheirescos surgem neste contexto histórico. Tais contos figuram a mulher de forma enaltecedora e sacralizada.

 

Dia dos Namorados no Brasil - 12 de Junho


Enquanto na Europa e na América do Norte se comemora o Dia dos Namorados a 14 de Fevereiro, Dia de São Valentim, no Brasil celebra-se a 12 de Junho, véspera do dia dedicado a Santo António. O costume de aproveitar este dia para oferecer algo a quem se ama, teve início em 1949 quando o técnico de publicidade João Dória - na altura a trabalhar para a Agência Standard Propaganda - encetou uma campanha para melhorar as vendas da extinta loja Clipper no decorrer de Junho - na altura um mês bastante fraco para o comércio - lançando o slogan "Não é só de beijos que se prova o amor". O êxito foi imediato, tendo a Standard ganho o título de agência do ano. A ideia estava lançada! Com o apoio da Confederação de Comércio de São Paulo e o júbilo de todos os comerciantes, institui-se o 12 de Junho como uma data especial com direito a troca de presentes, que podem ser simples postais virtuais, ramos de flores, caixas de bombons, ou milhares de outras sugestões que todas as lojas, nesta época, tentam vender aos apaixonados. E tudo isto para afirmar "Eu Te Amo!"...
A escolha de Santo António como padroeiro dos namorados deve-se ao facto de a tradição o apontar como casamenteiro. Conta-se que este santo português, durante o tempo em que esteve em França, se dirigiu a um povoado onde casar era considerado um pecado. No local, o santo pregou sobre a importância da formação das famílias, vindo daí o qualificativo que o tornou popular como santo casamenteiro.
Para além da compra de uma lembrança simbólica, não deixe de oferecer um cartão à pessoa que ama, mesmo que já tenha 100 anos e viva com ela há 80... Cai sempre bem!
Para o efeito, disponibilizamos, a seguir, o endereço de algumas páginas onde poderá escolher e enviar cartões alusivos à data e, ainda, onde poderá inspirar-se para escrever cartas à pessoa que ama.

 

Ana Lúcia Nogueira Braz - Universidade Paulista - UNIP (Brasil)


Resumo:
Este texto pretende fazer uma reflexão sobre a participação do amor, em alguns de seus aspectos mais significativos, e sua participação no surgimento e evolução da espécie humana. Para tal utilizou-se como base de análise os estudos etológicos de Edgar Morin e Humberto Maturana, que constituíram um marco importante para o estudo da evolução. Enfatiza-se a evolução da espécie Homo-Sapines e a participação do amor neste processo, assim como sua importância para a organização e estruturação interna do ser humano.


INTRODUÇÃO
O texto que aqui divulgamos constitui uma primeira tentativa de compreender a origem do sentimento de amor no ser humano, para tal, escolhemos iniciar este pela etologia que é o ramo da psicologia responsável em investigar as origens dos costumes e comportamentos sociais e individuais dos homens e animais.
Pelo fato de haver poucos trabalhos de pesquisas sobre a genealogia do amor no ser humano, torna-se um campo propício à reflexão e ao conhecimento. Nesse sentido, investigações minuciosas sobre o significado, o sentido das vivências de Amor e a participação deste no processo de desenvolvimento da espécie humana, poderão contribuir muito para desvendar um pouco mais o misterioso e interessante tema.


1. COMPREENSÃO DO AMOR SEGUNDO A ETOLOGIA.
Como dito anteriormente, na busca da compreensão da origem do sentimento de Amor no ser humano, se faz necessário um breve apanhado sobre a evolução da espécie humana, para tal, iniciaremos esta parte pela etologia, ramo da pesquisa do comportamento de natureza comparativa, que se ocupa das bases dos comportamentos inatos e de suas condições de evolução, através do estudo dos comportamentos sociais e individuais dos animais. Utilizaremos a visão mais contemporânea dos estudos antropológicos, etológicos e psicológicos, a fim de compreender o ser humano e sua evolução. Com esse objectivo recorreu-se, principalmente, aos trabalhos de Edgar Morin (1979), Humberto Maturana (1998) e Montagú (1969).


1.1 A origem e evolução da espécie Homo
Sabemos que existem diferentes concepções da origem e evolução dos homens, mas, em primeiro lugar, partiremos da premissa de Maturana (1998), o qual define o ser vivo como um sistema molecular organizado que está continuamente se produzindo, reproduzindo e se transformando. Neste sentido, entendemos os seres humanos como sistemas moleculares dinâmicos, que passam por mudanças estruturais contínuas, ocorridas em função de suas interacções constantes com o meio.
Através de Darwin - naturalista Inglês, conhecido por sua retomada e propagação da tese sobre a evolução das espécies, cujas pesquisas e experiências propiciaram uma nova maneira de entender a origem do homem, nunca antes provada - passamos a reconhecer que evoluímos por intermédio de interacções com o ambiente. Seu pioneirismo nesta área provou sermos ancestrais directos dos primatas, os quais foram evoluindo até chegarem ao Homo Sapiens (em outras palavras, Homem Sapiente, homem que raciocina).
Devido à influência deste autor e de sua teoria da evolução (também denominada transformista, - segundo a qual, evolução dos seres vivos ocorreria em virtude quer da mudança do meio, quer de uma lenta evolução interna da espécie e de suas mutações, no qual a selecção natural desempenha papel importante), a hominização, aquisição de atributos distintivos da espécie humana em relação as espécies ancestrais, não pode ser concebida apenas como uma evolução biológica, espiritual, sociológica, psicológica e nem genética, mas sim, como um processo evolutivo multidimensional. Por essa razão, é importante salientar que o homem precisou, desde sua origem até hoje, do papel organizador do meio, pois através da interacção com o ambiente o Homo Sapiens encontrou sua realização, tornando-se hiper complexo. Segundo Morin (1979) a esse processo de desenvolvimento biológico, social, psicológico, espiritual e de complexificação do cérebro foi dado o nome de “cerebralização humana”.
Neste sentido, é possível entender o progresso do ser humano de dois aspectos diferentes e não excludentes:
Ontogenético; o desenvolvimento se sucede através da complexidade sociocultural que impele o homem ao uso pleno de suas aptidões cerebrais, ou seja, é a organização individual e orgânica de um ser.
Filogenético; o desenvolvimento ocorre a partir de mutações genéticas e funcionais produzindo novas aptidões, sendo estas, em geral, exploradas pela complexificação sociocultural. O aspecto filogenético da evolução se resume na “História da sucessão de indivíduos que surgem sequencialmente uns de outros no acontecer reprodutivo” (Maturana: 1998:194).
Por essa razão, torna-se importante o estudo não só do indivíduo, mas também do meio em que ele vive, pois é nele que as mudanças estruturais nos organismos acontecem.


1.2 O surgimento do Homo-Sapiens e do Amor
Edgar Morin (1979), ao estudar a evolução da espécie Homo percebeu muitos factores que contribuíram para se alcançar à condição Sapiens, porém dois foram fundamentais: a locomoção bípede e a verticalizarão de sua postura. Estas novas posições foram decisivas para libertar as mãos da função de locomoção, o polegar opositor possibilitou movimentos de preensão com muita precisão, este, passou a ser utilizado como um instrumento polivalente fundamental para a caça, desenvolvimento, uso de armas e construção de abrigos, iniciando a fase denominada de desenvolvimento instrumental ou homo fabris. Sob essa óptica, acredita-se que o bipedismo foi um dos mais importantes factores que possibilitou a evolução à condição “sapiens”.
Tal processo aconteceu de forma lenta e integrada, os homínidas, ao ficarem em pé, como já foi dito, liberaram as mãos da função de locomoção. Estas passaram a ser utilizadas para carregar as presas, desta maneira, o maxilar ficou liberado desta obrigação. A liberação do maxilar e a posição erecta isentaram a caixa craniana das actividades mecânicas a que estava constantemente submetida, possibilitando a expansão das suas dimensões e, consequentemente, tornando-o mais especializado. Essas transformações geraram o processo de desenvolvimento da complexidade cerebral.
Cabe ressaltar que embora o bipedantismo e a posição erecta tenham sido fundamentais para evolução da espécie Sapiens, esta pressupõe inúmeras outras transformações que envolveram o meio ambiente (clima, relevo, flora), as mutações genéticas, mudanças anatómicas, questões grupais de lideranças e poder entre os grupos, entre outros são exemplos disto. Todos estes aspectos devem ser considerados ao analisar a evolução, porém, como nosso intuito é fazer apenas uma síntese dos processos que contribuíram para o desenvolvimento do Amor na espécie humana, tais aspectos, embora relevantes, não serão aprofundados neste artigo.
Também para Morin (1979) o surgimento do Homem como criatura psicológica aconteceu após o evento da verticalizarão. Essa mudança de postura foi essencial para a transformação das relações entre machos e fêmeas, pois a copulação frontal se tornou possível, ou seja, a relação sexual começou a ser realizada face à face. Tal mudança qualitativa foi muito importante para o desenvolvimento da espécie humana, visto que a anatomia ganhou contornos mais atractivos como, por exemplo, seios arredondados e pénis espessos, chamando muito mais atenção do que as nádegas carnudas, embora elas continuassem a atrair os pares. Além disso, a nova postura deixa toda a parte anterior da pessoa (o tórax, o estômago e o coração) aberta para o contacto directo, ou seja, as partes mais vulneráveis do corpo estavam desprotegidas, e, por essa razão, o ato sexual passou a ser compreendido como um ato de confiança.
Em consequência da diferenciação do ato sexual (copulação frente à frente), comportamentos típicos entre mãe e filhote, como o de ficar aconchegado nos braços ou ser carregado, foram expandidos para o macho e para a fêmea, durante o ato sexual e logo depois do mesmo. Tal atitude pode ter contribuído, segundo Hockett e Asher (in Luijpen,1973), para que as emoções, as mais ternas e as carícias maternas, fizessem parte também no momento do coito. Além disso, houve uma valorização do rosto, promovendo a individualização das características fisionómicas, o aumento da intimidade, da atracção, da diferenciação entre as famílias, e os indivíduos passaram a ter relações mais constantes. Os olhos e a boca ganharam dimensões eróticas. Esta última, o órgão do comer, da palavra, do respirar, teve sua importância elevada. Durante o ato sexual, agora frente à frente, descobriram o beijo que representa a mistura entre dois seres, e que, segundo Morin (1979), de forma simbólica e arcaica, significava a “troca de almas”, troca de fluidos que acontece no contacto boca à boca. Assim, o sexo não é mais um simples ato, como em outros primatas, passou a ser mais pessoal, com intimidade e entrega profunda, onde os parceiros tornavam-se unos e cúmplices neste momento.
No transcorrer da hominização, a atracção e a actividade sexual tornaram-se mais frequentes, não se limitando mais ao período do cio como nos primatas. A estimulação se fez presente no corpo inteiro, pois a área de contacto da pele aumentou muito. Por conseguinte, houve uma erotização generalizada do corpo do homem e da mulher durante o ato sexual, a excitação se intensificou, as reacções orgásticas ficaram mais intensas, fortes e espasmódicas, pois passaram a liberar altos níveis de opiácios (hormónio da família da adrenalina, secretado pelo hipotálamo estão ligados ao prazer e são analgésicos naturais.) que resultam em sensações de êxtase e encantamento. Os orgasmos múltiplos agora são comuns nas fêmeas humanas, provocando sensações de saciação e relaxamento maiores.
Segundo o obstetra francês Michel Odent (2000), “(...)a cópula entre os humanos tem todas as condições para facilitar o início de um estado de dependência entre os dois parceiros, enquanto liberam seus opiácios naturais”.(Odent,2000:57). Esses opiácios são responsáveis pela sensação de prazer e relaxamento prolongados. Os pares sentem-se mais gratificados e, provavelmente, menos propensos a procurar sexo em outros lugares.
As reacções orgásticas mais intensas e prolongadas liberam altos níveis de opiácios e endorfinas que, segundo fisiologistas, mantêm estreita relação com o comportamento de vinculação e que Odent (2000) assegura ser o mesmo princípio estabelecido nas relações de dependência mãe e filho logo após e por algum tempo depois do nascimento. Essas características diferenciaram ainda mais os humanos dos outros primatas e, certamente, contribuíram para consolidação de relacionamentos duradouros entre os parceiros.
Desta forma a sexualidade, erotismo e ternura combinaram-se e formaram a base psico-afetiva do casal, isto pode ter originado o que muitos denominam de amor romântico.
A intimidade e a aproximação entre homens e mulheres auxiliaram activamente o processo de individualização. Tal fenómeno resultou na aproximação afectiva e vinculação do macho com seus descendentes, já que seu filho não é de responsabilidade exclusiva da fêmea. A autoridade protectora e possessiva do homem se modifica e se individualiza, isso o aproxima do filho e de sua parceira, originando-se a paternidade psico-afetiva.
Para Morin (1979), a aproximação do pai e a continuidade dessa relação de protecção permitiram a formação de vínculos e de relacionamento constante para muito além da infância. Essa mudança de hábito significou uma fonte importante para a evolução da espécie, pois construiu-se o primeiro núcleo familiar afectivo (pai, mãe, filhos): a família.
Neste sentido, para Morin (1979), a família participou de forma directa na formação das estruturas sociais mais amplas. Ressalta que não basta o fato de se constituir uma relação pai-mãe-filho para que seja constituída a família. É necessário que, uma vez transformada em adulta, a prole continue sendo filho ou filha de seus pais e que estes continuem actuando como tais até o momento de sua morte. Este é um aspecto de capital importância sociológica no processo de amadurecimento da espécie sapiens, que ao manter ao longo de toda a vida as relações afectivas nascidas na infância possibilitou a estrutura biológica, inicialmente ligada à reprodução e posteriormente à infância, transformou-se por meio de metamorfose numa microestrutura social permanente, que se auto perpetuou e auto-reproduziu.
O mesmo autor afirma que a complexificação cerebral, ocorrida gradualmente, foi um processo fundamental para a evolução da espécie sapiens . Esse tem um carácter dialéctico, pois ao mesmo tempo em que a evolução do cérebro produziu o desenvolvimento da cultura, esta estimulou o desenvolvimento do cérebro. Nosso interesse não é entrar nesta discussão, porém, nos cabe ressaltar que o fato do cérebro se desenvolver lentamente, a partir das relações estabelecidas com o meio, proporcionou a prolongação do período biológico da infância e da adolescência. Assim, o cérebro ganhou mais tempo para completar seu desenvolvimento, que passou a acontecer também após o nascimento, por meio das relações estabelecidas com o mundo externo. Essa prolongação facilitou tanto a aptidão para a aprendizagem quanto o desenvolvimento afectivo e cognitivo por transmissão cultural, propiciando o amadurecimento da linguagem. Morin (1979) qualifica o processo de hominização, como aquele que fortaleceu os elos entre mães e filhos, homens e mulheres, proporcionando ao adulto o desenvolvimento de algumas aptidões até então infantis, principalmente, as relacionadas à capacidade de amar e se apegar ao outro.
Neste sentido a evolução da espécie humana, segundo Morin (1979), Maturana (1998), Montagú (1969), está directamente ligada ao desenvolvimento, especialização e complexificação do cérebro, processo este fundamental para o salto qualitativo da espécie.
A linguagem foi considerada também, por Maturana (1998), um dos factores básicos e fundamentais para a evolução da espécie humana, pois favoreceu o desenvolvimento de relações, ou de interacções, intra e inter espécies. Este processo de intercomunicação transformou-se na fala, esta por sua vez, acabou aproximando mais os indivíduos e promoveu o aumento da convivência interpessoal e interespécies criando a complexificação dos sistemas de comunicações. Em outras palavras, ao unir os indivíduos da mesma espécie, a linguagem propiciou a formação das relações macro-sociais gerando a abertura para a troca de alianças entre grupos e espécies, e possibilitou o surgimento de encontros mais constantes, relações mais cooperativas e compreensivas dando início ao que hoje chamamos de sistema social.
Essas atitudes de cooperação, simpatia, compreensão e amizade frequentes promoveram o que Maturana (1998) chamou de adesividade biológica - definida como o processo de união dos elementos do mesmo grupo ou espécie, o que envolve o prazer, a necessidade de se estar junto e, directamente, o Amor em todas e quaisquer de suas formas.
Desse modo, Maturana (1998) certifica que o Amor passa a ser uma das maiores fontes de socialização do ser humano, visto que inclui as relações de proximidade cooperação, respeito e colaboração, logo, podemos dizer que é um dos fundamentos mais importantes para o homem. Nas palavras de Maturana (1998), é o modo de vida hominídeo o que tornou possível a linguagem, e foi o “amor”, como a emoção que constituiu o espaço de acções em que se estabeleceu o modo de viver hominídeo, a emoção central na história evolutiva que deu origem a espécie.
Com base nestes dados pode-se afirmar que , sem Amor os seres humanos não formariam vínculos. Sem vínculos não formariam os sistemas sociais, sem estes não haveria socialização genuína dos seres humanos e, por fim, a evolução estaria comprometida.
A partir do momento em que o processo evolutivo e o de selecção natural foram se efectivando houve um aumento instintivo dos cuidados com a prole, visto que nos primeiros anos de vida, a espécie humana se mostrou extremamente frágil e dependente. É interessante notar que essa fragilidade propiciou o surgimento de vínculos muito fortes entre mãe e bebé, e determinantes para a sobrevivência da espécie, considerados, por muitos psicólogos, o protótipo de todas as formas de Amor.
Tudo isso provocou o direccionando das energias básicas para a evolução cerebral e suas consequências (perda de algumas defesas primárias, como garras e dentes afiados). Os recém nascidos se tornaram mais dependentes dos adultos, principalmente, das mães. Houve, paralelamente, o aumento da capacidade de cognição e inteligência. Mesmo com alguns instintos de defesa desactivados, a espécie continuou crescendo, pois com a inteligência as redes de interacções evoluíram propiciando a formação de grupos próximos coesos efectivando o sistema social da espécie Homo Sapiens.
Percebe-se que, no processo de evolução humana, o cuidado maternal tornou-se primordial para a sobrevivência da espécie, pois carente de recursos próprios, o bebé precisa de muitos cuidados externos para sobreviver. Neste sentido, a relação de amor entre mãe (ou qualquer outra pessoa que tomasse seu papel) e filho se tornou essencial.
Dessa forma, a fragilidade inicial da espécie humana, sobretudo, na primeira infância, além do papel do Amor nesta fase tão fundamental de crescimento, será a partir de agora foco deste artigo.


1.3 O papel do Amor na evolução e estruturação interna do ser humano.
Baseando-se ainda nessa fragilidade inicial (ausência de especialidades e dependência total do adulto) que o bebé foi adquirindo ao longo da escala evolutiva, afirmamos que a presença de um outro ser (sua protecção, cuidado, carinho, ternura e amor), forneceu condição para o progresso. A espécie humana teve como característica fundamental de sobrevivência a presença activa, afectiva e cuidadosa de uma outra pessoa, o que equivale dizer que todos nós dependemos das relações com o outro para evoluir.
Estudos sobre a evolução do Homo Sapiens começaram a ter a atenção, não só do etólogos, mas de médicos, psicólogos, sociólogos e antropólogos. Gehlenn (1970), importante antropólogo de uma corrente da antropologia filosófica, afirma que o bebé humano, logo após o parto, é extremamente imperfeito, podendo-se até dizer que ele nasce de forma pré-matura, ou seja, como se estivesse apenas com sete meses, necessitando terminar seu desenvolvimento de forma extra-uterina. Logo, precisa de cuidados extremos, visto que, ao nascer o homem apresenta estruturas nervosas, imunológicas e enzimáticas imaturas, assim como ausência de dispositivos de integração entre o organismo com o mundo ao seu redor, fazendo com que seja bastante frágil e dependente.
Neste sentido, a relação de amor estabelecida com a mãe, ou adulto cuidador, no primeiro ano de vida extra-uterina, é muito importante para o progresso biológico, fisiológico e psicológico da espécie humana, pois a formação desse novo ser deve ser completa, a partir dessas relações. A relação interpessoal da mãe com a criança ganha muita importância na constituição de sua estruturação interna. Portanto, o ser humano chega a sua formação, enquanto indivíduo biológico, psicológico e social através das relações estabelecidas com as pessoas mais ligadas a ele, geralmente, a mãe e o pai. A especificação ou estruturação interna do bebé também acontece em função dos processos de cuidado da mãe, envolvendo o respeito pelas necessidades básicas de alimento, segurança, aceitação, afecto e amor. Sendo assim, o desenvolvimento de uma personalidade sadia é resultado, como já foi dito, do cuidado amoroso proporcionado por um ser que se preocupa e que gosta de um outro.
Segundo Cabada (1998), a mãe, quando estabelece tais vínculos com seus filhos, ao longo do primeiro ano de vida, possibilita o nascimento ontológico deles, ou seja, dá origem à existência interna e psicológica de seu filho. Por essa óptica, pode-se dizer que a pessoa que cuida é considerada a chave que propicia o início da vida psicológica e pessoal deste ser.
O comportamento de protecção à prole, como já dissemos, foi se aperfeiçoando, no decorrer de nossa evolução, e tornou-se fundamental. Os adultos, em especial as mães, aprimoraram os cuidados com seus dependentes e, assim, propiciaram-lhes o aumento da sobrevivência e evolução.
Como citado anteriormente, devido ao paulatino desenvolvimento do Sapiens, a infância foi prolongada. Esse fato gerou uma dependência mais extensa, uma maior necessidade de cuidado terno e amoroso, que pode se prolongar, até, mais ou menos, o final da adolescência. Assim, muitas das características infanto-juvenis se enraizaram na vida adulta. As crianças e os adolescentes permaneceram com seus desejos, necessidades e hábitos (como, por exemplo, gosto pelas brincadeiras, jogos, necessidades de afecto, amor, aconchego e curiosidade) até a idade adulta . Estas características passaram a se manifestar nas diferentes actividades lúdicas dos adultos, como nas festividades, jogos e brincadeiras. As relações afectivas infantis mais intensas se estenderam permitido que a pessoa adulta, em certo sentido, permanecesse com características jovens, mantendo também a conservação no adulto da aptidão infantil para se apegar e amar.
Dessa forma pode-se dizer que o ser humano se tornou mais inclinado ao Amor em comparação a qualquer outro ser vivo. Essa inclinação afectiva da espécie humana também foi ressaltada por Montagú (1969), os humanos, devido à maior duração de sua infância, relação inicial de dependência, pelas suas maiores potencialidades interactivas ou cognitivas e a sua sensibilidade, apresenta uma necessidade notavelmente maior de cuidado terno e amoroso, durante um tempo consideravelmente maior, do que qualquer outro animal.


2. A IMPORTÃNCIA DO AMOR NA CONSTITUIÇÃO DO SER HUMANO
Quanto a sua procedência, podemos dizer que o amor está na base, na origem do ser humano. Autores como Maturana (1998), Morin (1979) e May (1973) corroboram tal posição ao afirmarem que a capacidade afectiva amorosa exerceu forte influência na evolução da espécie. É na passagem do impulso para o desejo que o amor pessoal surge e eleva o primata para a condição de homo sapiens. Como visto anteriormente, a verticalização da postura, com a capacidade de copular de frente, e a linguagem, fizeram do sexo mais do que uma simples manifestação de necessidades fisiológicas, tornando homens e mulheres mais próximos, mais abertos e desnudados um frente ao outro e a si mesmo. O rosto tornou-se instrumento de produção de signos afectivos. Com suas expressões constantes e delicadas, comunicam intenções que, juntamente com a vocalização, ganham propósitos semânticos, dando origem à fala, factor de aproximação dos indivíduos, contribuindo para a formação dos sistemas sociais.
É importante notar que a transformação da relação sexual gerou uma mudança de atitude da espécie em relação ao sexo. Essa modificação, criou um interessante paradoxo dessa vinculação, pois no momento em que os amantes se entregam inteiramente nos braços um do outro, principalmente no orgasmo, podem viver uma experiência de intimidade plena, entrando em completa posse de si mesmo, no exacto momento que se perdem no outro, quando surge a sensação de pertença a uma unidade maior, atingindo o momento máximo de plenitude..
Isso não apenas marcou o ato sexual como algo absolutamente pessoal, como possibilitou a sensação temporária de unicidade com o seu parceiro e de vinculação afectiva. Esse vínculo especial e único (que também recebe a denominação amor) participou activamente do surgimento da pessoa humana como criatura psicológica e social, segundo Morin (1969) e May (1973).
Esta relação interpessoal, que se estendeu para além do encontro erótico, ganhou características afectivas amorosas, mobilizou a pessoa para uma nova dimensão de sua percepção enquanto ser, e levou o indivíduo à consciência original de que o Eu surge a partir do nós. Dessa maneira, cabe destacar, que o nós, enquanto espécie, surge de um homem e de uma mulher que, unidos no amor, formaram um novo ser, revelador da força de integração e de vida do amor.
A evolução da espécie também propiciou alterações fisiológicas e hormonais que contribuíram para o fortalecimento dos vínculos entre os indivíduos. Segundo Odent (2000), há um hormónio secretado pelo hipotálamo, que é denominado ocitocina, também chamado por médicos de hormónio do amor, pois está envolvido em todos os seus tipos de manifestações. Tal hormónio é liberado durante a excitação sexual, no orgasmo, na amamentação e no parto, ele é o responsável pela promoção da agradável sensação de prazer e realização nesses momentos. Por essa razão, tende a influenciar directamente os comportamentos de apego e, desta forma, o prazer fica directamente ligado aos diversos momentos de interacção. Consequentemente, o comportamento de apego facilita as interacções sociais, as ligações entre parceiros e, principalmente, a aproximação, ou seja, a criação de vínculos fortalecidos entre a mãe e o bebé.
Com o desenvolvimento cerebral, a infância se prolongou e os vínculos afectivos se tornaram essenciais para o fortalecimento das relações pessoais, para a formação saudável do bebé e, sobretudo, para a sobrevivência da espécie. A mãe, por isso, passou a ser, em grande parte, responsável pela manutenção da perpetuação e da evolução do ser humano, muito em razão do Amor, traduzido em cuidados com os filhos.
Quando, nas primeiras relações, o bebé sentir o cuidado amoroso, verdadeiro e protector de um adulto, ele poderá aperfeiçoar suas potencialidades primitivas de crescer, integrar-se e de preservar a vida. Assim, o amor, na fase inicial da vida, é elemento fundamental para o desabrochar da vida, que promove o desenvolvimento do aspecto produtivo e positivo do ser humano.
É importante ressaltar que a capacidade de amar está presente no nascimento da espécie humana, mas para florescer exige a maturação da consciência e da experiência de aceitação, carinho e prazer que surgem através do contacto inicial da criança com um adulto que lhe cuide.
Entretanto, não podemos nos esquecer, que o ser humano para se desenvolver não necessita apenas do cuidado de um ou mais adultos que satisfaçam suas necessidades fisiológicas e emocionais. As interacções estabelecidas com a cultura são fundamentais para o desenvolvimento, de relações interpessoais, habilidades sociais, as quais servirão de referência para o processo de socialização e para a própria organização dos sistemas sociais que, segundo Maturana (1998), são sistemas de convivência que se formam a partir do amor, emoção que constitui o espaço de acções e aceitação do outro na convivência.
Como visto até aqui, podemos afirmar que o amor é condição fundamental para o nascimento ontogenético da pessoa. Ele participou e participa activamente da evolução e estruturação do Self, pois é capaz de aproximar a pessoa de sua essência, propiciando o desenvolvimento de relações sociais, dentre outras coisas. Nesse sentido, o amor é uma característica própria do ser humano, uma tendência inata da espécie e um dos responsáveis pelo crescimento e desenvolvimento de todos nós humanos.
Após esta reflexão, nos sentimos mais confiantes para afirmar que, o Amor foi factor fundamental para o surgimento e evolução do Homo Sapiens.


Referencias Bibliográfica:
FROMM, E. (1971). A arte de Amar. Trad.M..Amado. Belo Horizonte, M.G: Itatiaia.
LUIJPEN,W. (1973) Introdução à fenomenologia Existencial. São Paulo, Ed. Universidade de São Paulo.
MATURANA, H. (1998). Da Biologia à Psicologia. Trad. Juan Acuña.(3ªed.).Porto Alegre: Artes Médicas.
MAY, R. (1973). Eros e Repressão: Amor e Vontade. Trad. A.Weissemberg. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.
MONTAGÚ, A. (1969). Que és el hombre. Buenos Aires: Paidós.
MONTAGÚ, A (1981). El sentido del tato a comunicación humana a través de la piel. Madri: Aguilar.
MORIN. E. (1979). O enigma do Homem, para uma Nova Antropologia. Trad. Fernando.C.Ferro (2ª ed.). Rio de Janeiro: Zahar.
ODENT,M (2000). A cientificação do Amor. Trad.G.Souza.São Paulo: Terceira Margem.


Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal