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Expedição de Vasco da Gama à Índia

(partida da expedição a 8 de Julho de 1497)
 

Aguarela de Roque Gameiro

 


Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

Formatação: Iara Melo
 

A frota capitaneada por Vasco da Gama que partiu do Restelo (Belém – Lisboa), a 8 de Julho de 1497, era constituída por três naus, “São Gabriel”, “São Rafael”, e “Bérrio” (que alguns historiadores identificam-na como caravela) e por um navio de mantimentos destinado a ser destruído logo que se tornasse desnecessário.

Esta frota era a maior e a mais organizada das expedições portuguesas de exploração marítima. Duas das quatro naus haviam sido construídas para esta missão sob as ordens do experiente Bartolomeu Dias. Estavam armadas com canhões e aparelhadas com as mais modernas cartas náuticas e instrumentos existentes à data. A “São Gabriel”, sob o comando de Gonçalves Álvares, era a nau-capitânia  de Vasco da Gama. Paulo Gama, seu irmão, comandava a “São Rafael”, e Nicolau Coelho, a “Bérrio”. O quarto navio, destinado ao transporte dos mantimentos, seguia sob o comando de Gonçalo Nunes, que, uma vez esgotadas as provisões, teria a triste missão de afundá-lo.

Contudo, vendo carregar esta nau, ninguém acreditaria que alguma vez chegasse o momento de a afundar. Pela prancha de embarque entraram barrica após barrica de vinho e de água, tonelada após tonelada de alimentos, como bolachas, peixe seco e carnes salgadas, de porco e de vaca; até mesmo algumas iguarias, como mel, açúcar, alho, ameixas e amêndoas. Enquanto se carregava o navio das provisões, Vasco da Gama ocupava-se em recrutar marinheiros. Calcula-se que as tripulações somariam um total de 118 a 170 homens, incluindo alguns veteranos da viagem de Bartolomeu Dias. Além dos marinheiros, soldados, carpinteiros e cordoeiros habituais, levavam ainda sacerdotes, intérpretes e até mesmo corneteiros. Iam também alguns degredados condenados à morte, que seriam incumbidos de missões particularmente arriscadas em terra. Se fossem bem sucedidos, ser-lhes-ia concedido o perdão no regresso a Portugal.

O embarque realizou-se num sábado, 8 de Julho de 1497 e foi um espectáculo impressionante. A armada largou finalmente quando, à tardinha, se levantou uma brisa fresca. Os navios deslizaram lentamente, rio abaixo, rumo ao oceano Atlântico.

 

A linha verde indica a ida para a Índia

A linha vermelha indica o regresso a Portugal

 

Na primeira parte da viagem, Vasco da Gama seguiu a rota habitual dos navios mercantes portugueses: para sul, ao longo da costa marroquina; depois Canárias, rumo às ilhas de Cabo Verde, onde chegaram a 27 de Julho e fizeram escala para proceder a reparações e para se reabastecerem de mantimentos e de água potável – e seguidamente para sudoeste, a fim de contornar o grande bojo de África. Contudo, algures nas proximidades da Serra Leoa, um pouco a norte do equador, Vasco da Gama afastou-se da costa. Ciente das correntes e dos ventos contrários que retardam o avanço dos navios que tentam navegar junto ao litoral desde aquele ponto até ao Cabo da Boa Esperança, guinou resolutamente a sudoeste e aproou ao azul vazio do Atlântico.

A sua decisão revelou-se acertada. Com efeito, os ventos e correntes do Atlântico Sul são tais que a melhor rota para a África Meridional descreve um arco gigantesco ao largo da costa. Vasco da Gama e a sua armada, navegando para sudoeste, cruzaram o equador pelos 19º graus de longitude oeste, chegando a cerca de 600 milhas do litoral do Brasil, ainda por descobrir, antes de rumarem de novo a sudoeste.

A manobra de Vasco da Gama, além de surpreendente, inquietara sem dúvida as tripulações. Com efeito, desde a largada das ilhas de Cabo Verde, a 3 de Agosto, haviam decorrido três meses sem avistarem terras, um recorde para a época. No entanto, a 22 de Outubro, algumas aves voando para sudoeste “como aves que iam para terra” deram novo alento àqueles marinheiros abatidos. A 27 de Outubro, foram avistadas focas e baleias; a 1 de Novembro, algas “que nascem ao longo da costa; e por fim, a 4 de Novembro, distinguia-se a costa ocidental de África. Quatro dias mais tarde, a armada lançava ferro nas águas abrigadas da baía de Santa Helena, cerca de 125 milhas a Norte do cabo da Boa Esperança. Aí, os portugueses contactaram pela primeira vez os indígenas aul-africanos. De acordo com o único relato existente de uma testemunha ocular – um diário escrito provavelmente por um soldado de nome, Álvaro Velho – um grupo desembarcou, capturou um nativo e trouxe-o para bordo do navio de Vasco da Gama “o qual o pôs consigo à mesa e de tudo o que nós comíamos comia ele”. “E ao outro dia” prossegue o narrador, “o capitão o vestiu muito bem e o mandou pôr em terra”. A oferta deste vestuário parece ter vencido qualquer timidez, e em breve grupos de indígenas se aventuraram até à praia, onde durante três dias sucessivos negociaram com os marinheiros. A certa altura, porém, surgiu uma disputa quando um dos marinheiros ofendeu de qualquer modo alguns africanos que o tinham convidado para comer com eles, e vários portugueses, incluindo Vasco da Gama, ficaram feridos por lanças que os indígenas, enfurecidos, lhes atiraram. Este incidente revelar-se ia profético. O bom acolhimento inicial seguido por hostilidade seria uma constante que marcaria quase todas as etapas da viagem de Vasco da Gama para a Índia. Depois de oito dias a limpar os navios, a remendar as velas e a recolher lenha, a frota zarpou da baía de Santa Helena e dirigiu-se para o cabo da Boa Esperança. A 18 de Novembro, os navegantes avistaram o monte Mesa e a península do Cabo. Mas no enorme promontório o tempo estava tempestuoso, pelo que só ao fim de quatro dias foi possível dobrar o cabo, a 22 de Novembro.

A 25 de Novembro, Vasco da Gama fundeou na angra de São Brás, actual baía de Mossel, cerca de 300 milhas a leste do cabo, para se reabastecer de água potável e levantar o primeiro padrão. Retirou também as provisões que restavam do navio de mantimentos e destruiu-o. Ali permaneceram os permaneceram os portugueses até 8 de Dezembro, abastecendo-se, calmamente, de água. No entanto, pouco antes de largarem, viram um grupo de nativos enfurecidos deitar abaixo o padrão que Vasco da Gama erigida na praia. Prosseguindo para leste ao longo do extremo sul de África, a expedição passou, a 16 de Dezembro, junto ao último padrão que Bartolomeu Dias erigira em 1488 e que agora surgia cinzento-dourado e altaneiro na escarpa arenosa do cabo Padrão. Nesse mesmo dia passaram junto à foz do rio do Infante (Great Fish River), onde Bartolomeu resolvera voltar para trás. Daí em diante, a linha de costa bela e bem arborizada inflectia convidativamente para nordeste.

No Dia de Natal, o cronista de Vasco da Gama escreveu com satisfação no seu diário: “tínhamos descoberto por costa 70 léguas – cerca de 400 Km – a que Vasco da Gama deu o nome de Natal em honra do nascimento de Cristo”.

Porém, em breve as reservas de água se encontravam tão escassas que os alimentos tinham de ser cozinhados em água salgada e a ração de água diária para cada homem foi reduzida para menos de meio litro. Navegando em busca de um porto onde pudessem renovar a provisão de água doce e proceder a reparações, fundearam junto à baía de Alagoa, no limite meridional do actual país Moçambique, nos princípios de Janeiro, e aí permaneceram cinco dias. Desta vez, e excepcionalmente, as relações entre Vasco da Gama e os nativos mantiveram-se cordiais durante toda a visita. Impressionados pela cortesia dos seus anfitriões, negros de estatura elevada, deu a esta região o nome de Terra de Boa Gente. A 25 de Janeiro, lançaram ferro no amplo porto junta da actual cidade de Quelimane, já bem para o Norte na costa de Moçambique. Aí se demoraram um mês, fazendo provisão de água, limpando os cascos dos navios e consertando um mastro partido. Embora as margens do rio que desembocava na baía apresentassem “grandes arvoredos, os quais dão muitas frutas, de muitas maneiras, e os homens desta terra comem delas, não parece que os portugueses tenham aproveitado este suprimento natural de vitamina C, pois, em breve, numerosos tripulantes sofriam de escorbuto.

O escorbuto seria o flagelo dos marinheiros de longo curso durante, pelo menos, os dois séculos seguintes. Durante a sua estadia em Quelimane, Vasco da Gama sentiu-se encorajado pelos indícios de que alcançara a periferia do domínio comercial árabe. Com efeito, alguns nativos, em vez de andarem nus ou de se cobrirem com peles de animais, usavam tecido de algodão. Dois negros, evidentemente de origem muçulmana, que usavam barretes, um “com uns vivos lavrados de seda; e outro de cetim verde”, aproximaram-se dos portugueses oferecendo tecidos para troca. Mais interessante ainda foi o que ouviram a um rapaz que acompanhava aqueles negros e que “era de outra terra daí longe; e dizia que já vira navios grandes, como aqueles que nós levávamos”. Vasco da Gama, compreendeu que o rapaz estaria com certeza a referir-se aos navios mercantes árabes. Animado por estes indícios de que se aproximava do seu destino. Vasco da Gama chamou ao rio que desagua no porto de Quelimane, rio dos Bons Sinais. Chegaram a 23 de Janeiro de 1498, onde procederam à reparação das naus. A 24 de Fevereiro, a armada prosseguiu ao longo da costa, de aspecto cada vez mais tropical. Seis dias mais tarde, já a meio caminho da costa oriental de África, os portugueses avistaram uma baía que a ilha de Moçambique dominava. Apercebiam-se agora claramente de que se encontravam em águas percorridas pelos navios árabes. Na realidade, naquela ilha, em vez de uma aldeia de guardadores de gado e de camponeses, deparou-se-lhes uma cidade plena de actividade e repleta de prósperos mercadores negros, vestindo túnicas de algodão e linho com riscas multicores e com barretes de seda bordados a ouro. No porto encontravam-se vários navios costeiros árabes, de grandes dimensões, proas erguidas, tabuado liso e velame latino.

Em breve, os portugueses descobriam que aqueles navios estavam carregados de “ouro, prata, e cravo, e pimenta, e anéis de prata com muitas pérolas, e aldôfar  e rubis”. Para grande satisfação dos crédulos europeus, os africanos informaram-nos de que na Índia todos estes artigos eram tão abundantes que não havia necessidade de os comprar, pois podiam ser apanhados em cestos…

Daí a pouco, o sultão de Moçambique visitava a “São Gabriel”, onde Vasco da Gama o obsequiou com um repasto abundante e lhe ofereceu chapéus, vestes, corais e outros presentes; mas, segundo escreve o cronista de Vasco da Gama, o poderoso sultão era “tão alterado que desprezava quanto lhe davam”. Mais tarde, ao descobrir que os seus visitantes não pertenciam a qualquer estranha seita de muçulmanos mas eram cristãos, a sua recepção, inicialmente fria, tornou-se decididamente glacial. Não obstante, esta reunião não redundou num fracasso completo, pois antes de largar de Moçambique, Vasco da Gama, conseguiu que o sultão lhe cedesse dois pilotos árabes para o troço final da viagem. Assim, a 11 de Março, Vasco da Gama levantou ferro e rumou a Norte. Porém, a força das correntes em breve arrastava os seus navios de regresso a Moçambique, onde foi obrigado a permanecer duas semanas aguardando ventos favoráveis. Entretanto, a hostilidade declarou-se abertamente – mais uma vez por motivo de abastecimento de água potável para os navios – e os portugueses bombardearam a cidade antes de se fazerem ao largo, a 29 de Março.

Navegando agora com o auxílio dos pilotos árabes, a frota chegou a 7 de Abril a Mombaça, na costa do Quénia, e ancorou ao largo, pois Vasco da Gama, receoso de uma cilada, hesitava em levar a sua armada para o porto. Seus receios eram, com efeito, justificados. Nessa noite, um grupo de 100 homens armados tentou assaltar os navios para averiguar se seria fácil capturá-los. Torturando alguns cativos, Vasco da Gama conseguiu saber que o rei tivera conhecimento do bombardeamento de Moçambique e estava ansioso por aliciar os portugueses a entrarem no porto para os capturar, em retaliação do ataque ao seu aliado. Embora no dia seguinte o rei de Mombaça, tivesse enviado presentes – incluindo grandes quantidades de laranjas que rapidamente curaram os tripulantes vítimas de escorbuto – e Vasco da Gama, por sua vez, lhe tivesse oferecido um colar de coral, os portugueses mantiveram-se na sua recusa de entrar no porto. Apesar de uma segunda tentativa levada a cabo pelos muçulmanos na noite de 10 de Abril, no intuito de danificarem os navios, Vasco da Gama, numa atitude de provocação, permaneceu ainda dois dias ao largo do porto de, a 13 de Abril, zarpar de novo. No dia seguinte, ao cair da tarde, a armada aportou a Melinde, a sua última escala em terras africanas. A cidade, com as suas casas caiadas de branco, cercadas de palmeiras e de searas, impressionou favoravelmente os portugueses. A visita de nove dias foi uma pausa agradável. O sultão, afinal, era inimigo do sultão de Mombaça, e na sequência de uma troca de presentes, prometeu a Vasco da Gama um outro piloto e tudo o que ele necessitasse. Seguiu-se um encontro nas águas do porto, o rei a bordo de um navio costeiro de um mastro e Vasco da Gama num escaler especialmente engalanado para o efeito. O aspecto do sultão era imponente. Sentado numa cadeira de bronze almofadada sob um guarda-sol escarlate, usava “uma opa de damasco forrado de cetim verde” e um turbante ricamente bordado. Acompanhavam-no um pajem e músicos que tocavam pequenas trombetas e “duas buzinas de marfim da altura de um homem, e eram muito lavradas e tangiam por um buraco que têm no meio, as quais buzinas concertam com os anafis no tanger”. O encontro prolongou-se por três horas e, não obstante a evidente boa vontade do rei, o capitão-mor, desconfiado, recusou-se a desembarcar. No entanto, o rei divertiu a tripulação com uma exibição de arte de cavalgar que se desenrolou na praia. Os portugueses, contudo, estavam mais interessados noutros visitantes estrangeiros que encontraram no porto: quatro navios tripulados por mercadores indianos procedentes da Índia. Ao longo da costa, a sua curiosidade fora aguçada por histórias de terras cristãs no interior de África e a certa altura tinham mesmo tido esperança de descobrir o reino do Preste João, um lendário potentado cristão que se dizia viver algures na África Oriental (existia, na realidade, um reino cristão na Etiópia). Assim, quando, por engano, os indianos se inclinaram e rezaram perante um altar cristão que existia num dos navios portugueses e saudaram Vasco da Gama com gritos de “Krishna” – que aos portugueses teria soado algo parecido com a palavra “Cristo” -, estes concluíram com optimismo que os visitantes eram realmente cristãos como eles. Por sua vez, os indianos parecem ter pensado que os portugueses eram hindus. Com o assentimento do sultão, uma noite organizaram uma festa com salvas de canhões e um espectáculo de fogo-de-artifício para distrair a tripulação. A sucessão constante de festejos, combates simulados e exibições musicais em terra agradava à tripulação, mas Vasco da Gama começava a impacientar-se. O sultão parecia não se apressar em lhes dar o piloto que lhes prometera. Com a sua brusquidão característica, Vasco da Gama tomou medidas drásticas. A 22 de Abril, aprisionou um criado da corte e manteve-o como refém. O sultão reagiu de imediato, enviando-lhe um piloto experiente, cuja presença a bordo da “São Gabriel” assegurava particamente o êxito da parte final da missão de Vasco da Gama. Finalmente, após quase dez meses de viagem, os portugueses podiam agora descansar entregues às mãos experimentadas daquele piloto. Largando de Melinde a 24 de Abril, a frota aproveitou a monção de sudoeste, que, nos meses de Primavera e de Verão, sopra com regularidade no oceano Índico da África para a Índia; no Inverno, estes ventos sopram em sentido inverso, o que permitia o vaivém dos navios mercantes árabes que cruzavam o oceano Índico. Impelidos por aquela viração suave, os navios completaram a última etapa da viagem – numa distância de quase 2.500 milhas – em menos de um mês. Por fim, a 18 de Maio de 1498, os marinheiros postados no alto das mastros descobriram terra à proa. Calecute, a actual Kozhikode, era naquela época o mais rico e poderoso dos portos que se alinhavam ao longo da luxuriante costa do Malabar, próximo do extremo Sul da Índia.

Os seus grandes armazéns e inúmeras lojas estavam a abarrotar de todas aquelas mercadorias exóticas por que os portugueses ansiavam: sedas e porcelanas finas; pérolas, safiras e rubis; ouro e prata, e grandes sacos cheios de cravinho, noz-moscada, canela, pimenta, gengibre e outras especiarias aromáticas. E foi neste mercado da Ásia, velho de séculos, que penetrou o primeiro emissário de Vasco da Gama, um dos condenados que viera na frota para o desempenho de missões arriscadas. Tendo-se cruzado com dois mercadores árabes de Tunes que falavam o castelhano, ficou admirado por o saudarem com as palavras: “Ao diabo que te dou ! Quem os trouxe cá?”. “Viemos”, explicou o condenado, “em busca de cristãos e de especiarias”. Em seguida, depois de uma pequena volta pela cidade, os árabes, lavaram-no para casa, onde o receberam com grande hospitalidade e lhe ofereceram alimentos antes de regressarem com ele ao navio. Aí, um deles exclamou: “Buena ventura, buena ventura; muitos rubis, muitas esmeraldas. Muitas graças deveis de dar a Deus, por vos trazer à terra onde há tanta riqueza”. Surpreendido e encantado, Vasco da Gama enviou uma mensagem ao samorim, ou rei, de Calecute, anunciando-lhe ser embaixador do rei de Portugal e portador de cartas para apresentar. Alguns dias depois, recebeu notícia de que o samorim lhe concedia uma audiência. Cercado por treze guarda-costas que envergaram as suas melhores roupas e transportavam bandeiras e trombetas. O capitão-mor instalou-se com imponência num palanquim que fora posto à sua disposição. Avançando em direcção a Calecute, os portugueses causaram grande sensação. “E fomos o nosso caminho, onde a gente era tanta, que nos vinha a ver, que não tinha conto”, escreveu o cronista de Vasco da Gama. Porém, antes de alcançarem o palácio do samorim, os portugueses foram conduzidos a um templo hindu da “grandura de um mosteiro”, onde mais uma vez se verificou um equívoco no que respeita a religião. A “igreja” estava ornamentada com figuras que os exploradores tomaram por santos, que “estavam pintados pelas paredes da igreja, os quais tinham diademas; e a sua pintura era em diversas maneiras, porque os dentes eram tão grandes que saíam da boca uma polegada, e cada santo tinha quatro ou cinco braços”. No centro do templo, via-se um santuário com a imagem de uma deusa-mãe himdu. Julgando que a imagem representava a Virgem Maria, Vasco da Gama levou seus homens a rezarem diante dela, o que muito agradou aos sacerdotes hindus que se encontravam presentes. Subindo de novo para o palanquim, Vasco da Gama prosseguiu ao som dos tambores e das flautas hindus “e assim levaram o capitão com muito acatamento, escreveu o cronista, “tanto e mais do que se podia em Espanha fazer a um rei”. Por esta altura, já a multidão era tão grande que alguns espectadores até subiam aos telhados para ver os estrangeiros. Por fim, estes chegaram ao palácio. Entrando por um portão, atravessaram um amplo pátio e seguiram de sala em sala até que, num pequeno pátio interior, se lhes deparou o samorim com uma taça dourada na mão, recostado entre almofadas num leito de veludo sob um dossel dourado. Vasco da Gama saudou delicadamente o rei, que por sua vez ofereceu aos visitantes algumas frutas exóticas, incluindo uma “que é como os figos e sabe muito bem” – era uma banana. Após esta troca de cumprimentos, Vasco da Gama proferiu um discurso em termos grandiosos. Disse representar um rei cuja riqueza excedia tudo o que existia naquela região do Mundo; que desde há 60 anos que Portugal vinha procurando um caminho marítimo para a Índia; que lhe fora ordenada a descoberta de Calecute e que o rei D. Manuel desejava ser amigo e irmão do samorim. Este replicou dando as boas-vindas a Vasco da Gama e assegurando-lhe que enviaria embaixadores a Portugal. O encontro durou quatro horas, e terminou num clima de amizade mútua. Contudo, após início tão promissor, as relações entre o Oriente e o Ocidente em breve se deterioraram. Na realidade, os presentes que D. Manuel confiara a Vasco da Gama não eram dignos de um samorim. As ofertas – doze peças de tecido de algodão às riscas, quatro gorros escarlates, seis chapéus, quatro colares de coral, seis bacias, uma arca de açúcar, duas barricas de azeite e duas barricas de mel – foram recebidas com risos incrédulos pelos representantes do rei. Na audiência seguinte, Vasco da Gama foi forçado a esperar algumas horas à entrada do palácio. Quando por fim o conduziram à presença do samorim, este observou com sarcasmo “que lhe dissera como era de um reino muito rico e que lhe não trouxera nada”. Vasco da Gama protestou afirmando que era um embaixador, e não um comerciante, e que em futuras missões portuguesas viriam inúmeros presentes sumptuosos. Ao terem disto conhecimento, os mercadores árabes de Calecute lançaram-se numa campanha desesperada contra a concorrência dos cristãos. Os mouros “diziam a el-rei como nós éramos ladrões”, prevenindo-o, e ameaçaram nunca mais regressar a Celecute se o samorim estabelecesse relações comerciais com os portugueses. E acrescentaram que Portugal nada tinha que valesse a pena negociar. Mas o samorim compreendeu sem dúvida que se encontrava numa posição de vantagem. Se se estabelecesse a concordância entre portugueses e Árabes no tocante às mercadorias do seu reino, as suas receitas provenientes do comércio seriam mais elevadas do que nunca. Assim, acabou por ceder. Prometeu erguer um padrão português em Calecute para comemorar aquela visita histórica e em seguida ditou uma carta para o rei D. Manuel, propondo-lhe o comércio directo com Portugal. Além disso, o samorim autorizou Vasco da Gama a adquirir uma pequena quantidade de canela e de pimenta. Embora o total fosse de pouca monta, o preço da pimenta aumentara de tal forma na Europa que ali a mercadoria poderia ser vendida por vinte e sete vezes o seu custo na Índia. E assim, a 29 de Agosto, segundo o cronista de Vasco da Gama, os capitães concluíram que, “visto que já tínhamos achado e descoberto o que vínhamos buscar, nos podíamos partir e logo fizemos as velas e nos partimos a caminho de Portugal, vindo todos muito ledos, por sermos tão bem aventurados de acharmos uma tão grande coisa como tínhamos achado”.

A travessia do oceano Índico foi quase desastrosa. Os mantimentos eram poucos. Não havia pilotos nativos que guiassem os navegantes, E a época não era a mais conveniente para a viagem: em vez dos ventos constantes que os levariam directamente a África, os portugueses tiveram de arrostar com grandes temporais alternando com calmarias enervantes. Só a 2 de Janeiro de 1499 avistariam a costa de África. Por essa altura, já o escorbuto dizimara grande parte da tripulação. Durante a longa travessia do mar da Arábia, morreram 30 marinheiros e os restantes encontravam-se em tal estado de fraqueza que mal podiam cumprir as suas obrigações de Tripulantes.

Cinco dias mais tarde, os tripulantes da pequena frota eram acolhidos em Melinde, onde o rei lhes forneceu laranjas e carne fresca para os doentes de escorbuto. No entanto, para grande número de vítimas dessa doença o remédio viera demasiado tarde e mais homens morreram ainda. Nota: no final da viagem, a tripulação encontrava-se quase reduzida a metade. Alguns dias depois, foi com pesar que Vasco da Gama lançou fogo `”São Rafael”, “porquanto era impossível navegarem três navios com tão pouca gente como éramos”.

Prosseguindo para Sul ao longo da costa de África, os dois navios que ainda restavam foram parando aqui e ali para se abastecerem de alimentos frescos, e a pouco e pouco a maior parte da tripulação restabeleceu-se. Com efeito, quando a 20 de Março dobraram o cabo da Boa Esperança, “esses que até aqui chegámos éramos de saúde e rijos e, às vezes, bem mortos do frio das grandes brisas que aqui achámos nesta terra”.

Paulo da Gama, contudo, não se achava bem e, quando os navios chegaram às ilhas de Cabo Verde, adoeceu gravemente. Vasco, irmão dedicado, fretou uma caravela que os levasse a Lisboa, pois assim a viagem seria mais rápida do que continuando a bordo da “São Gabriel”. Durante a viagem, tornou-se evidente que o estado de Paulo era demasiadamente grave para poder viajar; por este motivo, Vasco da Gama decidiu arribar aos Açores, onde Paulo viria a falecer no dia seguinte.

No dia 10 de Julho de 1499, exactamente dois anos e dois dias após o início da expedição, a “Bérrio” lançava ferro no porto de Lisboa e Nicolau Coelho, triunfante, anunciava ao rei o seu regresso. Seguiu-se-lhe a “São Gabriel” e em meados de Agosto, e algumas semanas mais tarde o próprio Vasco da Gama chegava a Portugal.

Imediatamente aclamado como herói nacional, Vasco da Gama teve um acolhimento entusiástico. Com consumada perícia e obstinada determinação, provara, sem margem para dúvidas, que existia um caminho marítimo para a Índia e, que Portugal dispunha de navios e de homens à altura dos riscos da viagem. Tendo por capital comercial e administrativa a cidade de Goa, na Índia, o Império de Portugal no Oriente, em breve se tornara num orgulho nacional. Por outro lado, seguindo uma política de sigilo no tocante ao comércio e à navegação, Portugal evitava a divulgação de registos importantes, de cartas e de instruções de navegação, com receio de que os seus rivais europeus tentassem seguir a rota de Vasco da Gama.

Fontes consultadas:
Bouchon, G., 1998: Vasco da Gama – Biografia. Editora Record
Bueno, E., 1998: A Viagem do Descobrimento: a Verdadeira História da Expedição de Cabral. Objetiva
Neumann, G. e W. J. Pierson Jr., 1966: Principles of Physical Oceanography. Prentice – Hall
Rodwell, M. J. e B. J. Hoskins, 2000: Subtropical Anticyclones and Summer Monsoons. Submetido ao Journal of Climate
Tibbitts, G. R., 1971: Arab Navigation in the Indian Ocean Before the Coming of the Portuguese.
Royal Asiatic

Oliveira Martins - História de Portugal (viagem do Gama)

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

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