Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu em
Lisboa, cidade onde também faleceu, na
sequência de uma cólica hepática, depois de
uma vida praticamente desconhecida e anónima.
Fernando Pessoa ele, mesmo é, só por si, um
grande poeta do simbolismo e do modernismo,
pela temática da evanescência, indefinição e
insatisfação das coisas e dos seres, e pela
inovação praticada por entre diversas sendas
de formulação do discurso poético (sensacionismo,
paulismo, interseccionismo, etc.).
Com Fernando Pessoa, a quem se deve também o
enigmático volume de poemas a Mensagem, que
transcende em muito a simples glorificação
do passado mítico português (e sem falar da
sua produção teatral, ou dos poemas
ingleses), a literatura portuguesa encontra
a equacionação lírica de questões
fundamentais da existência humana, de timbre
filosófico ou de avulsa emergência
quotidiana, numa escrita fundadora dos
pilares em que verdadeiramente se afirma a
nossa modernidade.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Escritor português, nasceu a 13 de Junho de
1888, numa casa do Largo de São Carlos, em
Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai,
vitimado pela tuberculose, e, no ano
seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo
casamento da mãe, em 1896, com o cônsul
português em Durban, na África do Sul, viveu
nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo,
no Liceu de Durban, os estudos secundários.
Frequentou, durante um ano, uma escola
comercial e a Durban High School e concluiu,
ainda, o «Intermediate Examination in Arts»,
na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen
Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio
de estilo inglês), com que terminou os seus
estudos na África do Sul. No tempo em que
viveu neste país, passou um ano de férias
(entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo
residido em Lisboa e viajado para Tavira,
para contactar com a família paterna, e para
a Ilha Terceira, onde vivia a família
materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho,
vários jornais, assinados com diferentes
nomes.
De regresso definitivo a Lisboa, em 1905,
frequentou, por um período breve
(1906-1907), o Curso Superior de Letras.
Após uma tentativa falhada de montar uma
tipografia e editora, «Empresa Íbis —
Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir
de 1908, e a tempo parcial, à tradução de
correspondência estrangeira de várias casas
comerciais, sendo o restante tempo dedicado
à escrita e ao estudo de filosofia (grega e
alemã), ciências humanas e políticas,
teosofia e literatura moderna, que assim
acrescentava à sua formação cultural
anglo-saxónica, determinante na sua
personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou
a Portugal com os irmãos e em que Fernando
Pessoa foi viver de novo com a família,
iniciou uma relação sentimental com Ophélia
Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e
retomada, para rápida e definitivamente
terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas
de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas
por David Mourão-Ferreira, e editadas em
1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe.
Fernando Pessoa viria a morrer uma década
depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital
de S. Luís dos Franceses, onde foi internado
com uma cólica hepática, causada
provavelmente pelo consumo excessivo de
álcool.
Levando uma vida relativamente apagada,
movimentando-se num círculo restrito de
amigos que frequentavam as tertúlias
intelectuais dos cafés da capital,
envolveu-se nas discussões literárias e até
políticas da época. Colaborou na revista A
Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos
de crítica literária sobre a nova poesia
portuguesa, imbuídos de um sebastianismo
animado pela crença no surgimento de um
grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele
próprio?). Data de 1913 a publicação de
«Impressões do Crepúsculo» (poema tomado
como exemplo de uma nova corrente, o
paulismo, designação advinda da primeira
palavra do poema) e de 1914 o aparecimento
dos seus três principais heterónimos,
segundo indicação do próprio Fernando
Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais
Monteiro, sobre a origem destes.
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu
dilecto amigo, com o qual trocou intensa
correspondência e cujas crises acompanhou de
perto), Luís de Montalvor e outros poetas e
artistas plásticos com os quais formou o
grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu,
marco do modernismo português, onde
publicou, no primeiro número, Opiário e Ode
Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de
Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva
Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a
Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em
vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e
três séries de English Poems (publicados, em
1921, na editora Olisipo, fundada por si).
Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio
da Secretaria de Propaganda Nacional, que
conquistou na categoria B, devido à reduzida
extensão do livro. Colaborou ainda nas
revistas Exílio (1916), Portugal Futurista
(1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi
co-director e onde publicou O Banqueiro
Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e
o poema Mar Português), Athena (1924-1925,
igualmente como co-director e onde foram
publicadas algumas odes de Ricardo Reis e
excertos de poemas de Alberto Caeiro) e
Presença.
A sua obra, que permaneceu maioritariamente
inédita, foi difundida e valorizada pelo
grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de
Montalvor deu início à edição das obras
completas de Fernando Pessoa, abrangendo os
textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa
ortónimo. Foram ainda sucessivamente
editados escritos seus sobre temas de
doutrina e crítica literárias, filosofia,
política e páginas íntimas. Entre estes,
contam-se a organização dos volumes poéticos
de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas
Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de
Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de
Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias
Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes),
Quadras ao Gosto Popular (de Fernando
Pessoa), e os textos de prosa de Páginas
Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de
Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
Textos Filosóficos, Sobre Portugal —
Introdução ao Problema Nacional, Da
República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas
de Sociologia Política. Do seu vasto espólio
foram também retirados o Livro do
Desassossego por Bernardo Soares e uma série
de outros textos.
A questão humana dos heterónimos, tanto ou
mais que a questão puramente literária, tem
atraído as atenções gerais. Concebidos como
individualidades distintas da do autor, este
criou-lhes uma biografia e até um horóscopo
próprios. Encontram-se ligados a alguns dos
problemas centrais da sua obra: a unidade ou
a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção
de realidade e a estranheza da existência.
Traduzem, por assim dizer, a consciência da
fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de
Pessoa a um papel que não é maior que o de
qualquer um dos seus heterónimos na
existência literária do poeta. Assim
questiona Pessoa o conceito metafísico de
tradição romântica da unidade do sujeito e
da sinceridade da expressão da sua
emotividade através da linguagem.
Enveredando por vários fingimentos, que
aprofundam uma teia de polémicas entre si,
opondo-se e completando-se, os heterónimos
são a mentalização de certas emoções e
perspectivas, a sua representação irónica
pela inteligência. Deles se destacam três:
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de
Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a
génese dos seus heterónimos, Caeiro
(1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio
Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí
morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior
parte da sua vida tenha decorrido numa
quinta no Ribatejo, onde foram escritos
quase todos os seus poemas, os do livro O
Guardador de Rebanhos, os de O Pastor
Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do
último período da sua vida escritos em
Lisboa, quando se encontrava já gravemente
doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um
pouco estranha ao carácter geral da obra»).
Sem profissão e pouco instruído (teria
apenas a instrução primária), e, por isso,
«escrevendo mal o português», órfão desde
muito cedo, vivia de pequenos rendimentos,
com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele
próprio, «o único poeta da natureza»,
procurando viver a exterioridade das
sensações e recusando a metafísica,
caracterizando-se pelo seu panteísmo e
sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro
de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi
educado num colégio de jesuítas, recebeu uma
educação clássica (latina) e estudou, por
vontade própria, o helenismo (sendo Horácio
o seu modelo literário). Essa formação
clássica reflecte-se, quer a nível formal
(odes à maneira clássica), quer a nível dos
temas por si tratados e da própria linguagem
utilizada, com um purismo que Pessoa
considerava exagerado. Médico, não exercia,
no entanto, a profissão. De convicções
monárquicas, emigrou para o Brasil após a
implantação da República. Pagão intelectual,
lúcido e consciente, reflectia uma moral
estoico-epicurista, misto de altivez
resignada e gozo dos prazeres que o não
comprometessem na sua liberdade interior, e
que é a resposta possível do homem à dureza
ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da
vida.
Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890,
era um homem viajado. Depois de uma educação
vulgar de liceu formou-se em engenharia
mecânica e naval na Escócia e, numas férias,
fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o
poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem
exercer a sua profissão. Dedicou-se à
literatura, intervindo em polémicas
literárias e políticas. É da sua autoria o
Ultimatum, publicado no Portugal Futurista,
manifesto contra os literatos instalados da
época. Apesar dos pontos de contacto entre
ambos, travou com Pessoa ortónimo uma
polémica aberta. Protótipo do vanguardismo
modernista, é o cantor da energia bruta e da
velocidade, da vertigem agressiva do
progresso, de que a Ode Triunfal é um dos
melhores exemplos, evoluindo depois no
sentido de um tédio, de um desencanto e de
um cansaço da vida, progressivos e
auto-irónicos.
De entre outros, de menor expressão,
destaca-se ainda o semi-heterónimo Bernardo
Soares, ajudante de guarda-livros que sempre
viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu
Livro do Desassossego, uma lucidez extrema
na análise e na capacidade de exploração da
alma humana.
Quanto a Fernando Pessoa ortónimo, segue,
formalmente, os modelos da poesia
tradicional portuguesa, em textos de grande
suavidade rítmica e musical. Poeta
introvertido e meditativo, anti-sentimental,
reflecte inquietações e estranhezas que
questionam os limites da realidade da sua
existência e do mundo. O poema Mensagem,
exaltação sebastiânica que se cruza com um
certo desalento, numa expectativa ansiosa de
ressurgimento nacional, revela uma faceta
esotérica e mística do poeta, manifestada
também nas suas incursões pelas ciências
ocultas e pelo rosa-crucianismo.
Figura cimeira da literatura portuguesa e da
poesia europeia do século XX, se o seu
virtuosismo é, sobretudo inicialmente, uma
forma de abalar a sociedade e a literatura
burguesas decrépitas (nomeadamente através
dos seus «ismos»: paulismo,
interseccionismo, sensacionismo), ele
fundamenta a resposta revolucionária à
concepção romântica, sentimentalmente
metafísica, da literatura. O apagamento da
sua vida pessoal não obviou ao exercício
activo da crítica e da polémica em vida, e
sobretudo a uma grande influência na
literatura portuguesa do século XX.
Existe presentemente, em Lisboa, a Casa
Fernando Pessoa, instalada na última morada
do autor.
Cronologia de sua vida:
13 de Junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3
horas da tarde, Fernando António Nogueira
Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de
Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro.
Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos
três heterónimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu".
Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro
suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por
Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requerer patente de
invenção de um Anuário Indicador Sintético,
por Nomes e Outras Classificações,
Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com
seu cunhado, a Revista de Comércio e
Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista
"Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro
publicado.
30 de Novembro de 1935 - Morre em Lisboa,
aos 47 anos.
Fernando Pessoa
http://nescritas.nletras.com
Segundo o Professor Linhares Filho, as duas
principais características da sua
modernidade seriam: a consciência do fazer
artístico e a prevalência do apolíneo sobre
o dionisíaco, no elaborar-se poético.
Sensacionalista, o ortónimo nos mostra como
sentir a paisagem, pois, para ele, todo
objectivo é uma sensação nossa, toda arte é
conversão da sensação em objecto, toda arte
é conversão da sensação em sensação.
O próprio Pessoa apresenta cinco condições
ou qualidades para entender os símbolos do
ortónimo: a simpatia, a intuição, a
inteligência, a compreensão e a graça.
Depois conclui que:
"Todo estado de alma é uma paisagem.
Uma tristeza é um lago morto dentro de nós.
Assim, tendo nós, ao mesmo tempo,
consciência do exterior
e do nosso espírito, e sendo nosso espírito
uma paisagem,
temos ao mesmo tempo consciência de duas
paisagens."
Como se vê, um espírito tão rico e até
paradoxal como o de Pessoa não podia se
resumir numa só personalidade. Daí o
surgimento de muitos heterónimos,
principalmente o de Ricardo Reis, Alberto
Caeiro e Álvaro de Campos.
Morreu Fernando Pessoa – Grande poeta de
Portugal
http://deltagata.no.sapo.pt
A notícia necrológica do «Diário de
Notícias» com as palavras proferidas por
Luís de Montalvor Fernando Pessoa, o poeta
extraordinário da «Mensagem», poema de
exaltação nacionalista, dos mais belos que
se tem escrito, foi ontem a enterrar.
Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do
Hospital de S. Luís, no sábado à noite.
A sua passagem pela vida foi um rastro de
luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de
Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de
Carvalho – estes dois já mortos para a vida
– lançou o «Orpheu», que tão profunda
influência exerceu no nosso meio literário,
e a sua personalidade foi-se depois
afirmando mais e mais. Do fundo da sua
«tertúlia», a uma mesa do Martinho da
Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais
novo de todos os novos que em volta dele se
sentavam. Desconcertante, profundamente
original e estruturalmente verdadeiro, a sua
personalidade era vária como vário o rumo da
sua vida. Ele não tinha uma actividade
«una», uma actividade dirigida: tinha
múltiplas actividades.
Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa;
ele era também Álvaro de Campos e Alberto
Caeiro e Ricardo Reis. E era-os
profundamente, como só ele sabia ser. E na
poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida,
até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente, como se se anunciasse um
livro ou uma nova corrente literária por ele
idealizada e vitalizada, correu a notícia da
sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o
ontem a um jazigo banal do cemitério dos
Prazeres. Lá ficou, vizinho de outro grande
poeta que ele muito admirava, junto do seu
querido Cesário, desse Cesário que ele não
conhecera e que, como ninguém, compreendia.
Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria
abandonou o corpo, o seu espírito não
abandonará nunca o coração e o cérebro dos
que o amavam e admiravam. Entre eles fica a
sua obra e a sua alma. A eles compete velar
para que o nome daquele que foi grande não
caia na vala comum do esquecimento.
Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a
enterrar. Quarenta e sete anos e um grande
amor à Vida, à Arte e à Beleza. Quando novo,
acasos do Destino, a que ele obedecia
inteiramente – Fernando Pessoa teósofo,
cristão, que conhecia todas as seitas
religiosas e as negativistas, pagão como só
os artistas sabem ser, Fernando Pessoa
obedecia cegamente ao Destino – levaram-no
para a África do Sul. E na Universidade do
Cabo cursou o inglês. E de tal maneira
estudou a língua que Shakespeare e Milton
imortalizaram, que, anos passados,
apresentava aos «cercles» literários da
serena Albion quatro livros de poemas -
«English Poems», I, II, III, IV; «Antinous»
e «35 Sonnets». E num concurso de língua
inglesa alcançou o primeiro prémio.
Depois, uma vez em Portugal, a sua
actividade literária aumentou. É de então
que data a sua colaboração na «Águia», onde
o seu messianismo metafísico, num célebre e
elevado estudo, anunciou o aparecimento do
Super-Camões da literatura portuguesa.
1915. «Orpheu». Movimento intenso de
renovação. Entretanto, colabora no
«Centauro», «Exílio», «Portugal Futurista»,
«Contemporânea». Começa a ser amado e
compreendido.
1924. Funda com Rui Vaz a revista «Athena».
Depois, de então para cá, a sua actividade
multiplica-se. Colabora em revistas
modernistas, como «Presença», «Momento» e,
há um mês ainda, no «Sudoeste», que Almada
Negreiros fundou com notável desassombro.
Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são,
em linhas muito esquemáticas e gerais, as
obras que definem a sua personalidade. Quem
o quiser compreender folheie a sua obra
vasta e dispersa. Começará a amá-lo.
Da capela do cemitério dos Prazeres, para
jazigo de família, cerca das onze horas de
ontem, partiu o corpo do grande poeta.
Alguns amigos de sempre acompanharam-no.
Foram eles, pelo «Orpheu», Luís de
Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo
Guisado e Almada Negreiros; pela «Presença»,
João Gaspar Simões; pelo «Momento», Artur
Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes,
Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares,
António Botto, Castelo de Morais, João de
Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António
Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano
Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro,
Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de
Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva,
Telino Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante
Silva Ramos, Carlos Queiroz, Mário de
Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil
Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.
O sr. capitão Caetano Dias, cunhado do
poeta, representava a família.
Em frente do jazigo que Fernando Pessoa
passa a habitar, Luís de Montalvor, seu
companheiro de 24 anos de vida literária,
proferiu simples e emotivas palavras em nome
dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».
E disse:
«Duas palavras sobre o trânsito mortal de
Fernando Pessoa.
Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas.
Preferível fora o silêncio, o silêncio que
já o envolve a ele e a nós, que é da
estatura do seu espírito.
Com ele só está bem o que está perto de
Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os
que foram pares com ele no convívio da sua
Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes,
subir, ganhar as linhas definitivas da
Eternidade, sem enunciar o protesto calmo,
mas humano, da raiva que nos fica da sua
partida.
«Não podiam os seus companheiros de
«Orpheu», antes os seus irmãos, do mesmo
sangue ideal da sua Beleza, não podiam,
repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem
ao menos terem desfolhado, sobre a sua morte
gentil, o lírio branco do seu silêncio e da
sua dor.
«Lastimamos o homem, que a morte nos rouba,
e com ele a perda do prodígio do seu
convívio e da graça da sua presença humana.
Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao
seu espírito e ao seu poder criador, a esses
deu-lhes o Destino uma estranha formosura,
que não morre.
O resto é com o génio de Fernando Pessoa.»
A notícia tal como foi publicada no Diário
de Notícias, de 3 de Dezembro de 1935.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
– Marinha Grande – Portugal