João Guimarães Rosa nasceu em 27 de Junho de 1908, em Cordisburgo, Estado de
Minas Gerais (Brasil). Menino esperto, antes de completar sete anos começou a
estudar francês sozinho. Mais tarde se tornou poliglota – pessoa que fala várias
línguas –, se formou em medicina que exerceu na zona rural do seu Estado e
trocou, depois, pela diplomacia e, aos 38 anos, virou escritor, sendo uma das
maiores figuras da moderna ficção brasileira. O primeiro livro que publicou,
Sararana, em 1964, foi imediata e unanimemente saudado pela crítica como
diferente, por ultrapassar todas as tentativas conhecidas até então de renovação
linguística. Realmente, Guimarães Rosa força-nos a uma experiência viva com a
linguagem, pelo seu léxico e sintaxe peculiares, razão pela qual tem sido
comparado ao irlandês James Joyce. De resto, a sua prosa, intensamente
trabalhada, invade com frequência os domínios da poesia e com ela se confunde na
pesquisa da essencialidade humana através da e na própria linguagem. Nas suas
narrativas perpassam casos fantásticos e imaginários, incidentes vários, uma
diversidade de histórias dentro de uma história. As suas personagens são
excelentemente caracterizadas interior e exteriormente, tal como as descrições
ambientais revelam um profundo conhecimento do sertão brasileiro.
Obras:
1946 — "Sagarana" (contos), recebeu o prêmio Filipe d'Oliveira, em 1946.
1952 — "Com o vaqueiro Mariano" (conto)
1956 — "Corpo de baile" (ciclo novelesco 2 vols.) - esta obra foi desdobrada, a
partir da terceira edição (1964), em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No
Urubuquaquá, no Pinhém, e Noites do sertão.
1956 — "Grande sertão: Veredas" (romance), recebeu o prêmio Machado de Assis, do
Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa em 1956 e o prêmio
Paula Brito em 1957. "Grande sertão: Veredas" é o único romance escrito por
Guimarães Rosa e um dos mais importantes textos da literatura brasileira!
"Pequeno trecho de Grande Sertão Veredas
Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. O senhor ri
certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a
latir, instantaneamente - depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor
tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os
campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do
Urucaia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito
sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de
fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e
onde um criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O
Urucuia vem dos montões oestes. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem
tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão
de opiniães... O sertão está em toda parte".
1962 — "Primeiras estórias" (contos), recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil,
em 1963.
1967 — "Tutaméia - Terceiras estórias" (contos)
1969 — "Estas estórias" (contos - livro póstumo)
1970 — "Ave, palavra"
João Guimarães Rosa
http://www.medicina.ufmg.br/cememor/grosa.htm
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) a 27 de junho de 1908 e teve como
pia batismal uma peça singular talhada em milenar pedra calcária – uma
estalagmite arrancada à Gruta do Maquiné. Era o primeiro dos seis filhos de D.
Francisca (Chiquitinha) Guimarães Rosa e de Florduardo Pinto Rosa, mais
conhecido por "seu Fulô" – comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador
de estórias.
O nome do pai, de origem germânica – frod (prudente) e hard (forte) –, e o nome
da cidade natal, o "burgo do coração" – do latim cordis, genitivo de cor,
coração, mais o sufixo anglo-saxônico burgo –, por sua sonoridade, sua força
sugestiva e sua origem podem desde cedo ter despertado a curiosidade do menino
do interior, introvertido e calado, mas observador de tudo, estimulando-o a se
preocupar com a formação das palavras e com seu significado. Esses nomes de
quente semântica poderiam ter sido invenção do próprio Guimarães Rosa. Outro
aspecto notável de sua obra foi sua preocupação com o ritmo do discurso, desde
cedo manifestada, que o ajudaria a compor, mais tarde, juntamente com outros
atributos, a magistral prosa-poética rosiana.
Aos 7 anos incompletos, Joãozito começou a estudar francês, por conta própria.
Em março de 1917, chegava a Cordisburgo, como coadjutor, Frei Canísio Zoetmulder,
frade franciscano holandês, com o qual o menino fez amizade imediata. Em
companhia do frade, iniciou-se no holandês e deu prosseguimento aos estudos de
francês, que iniciara sozinho. Aos 9 anos incompletos, foi morar com os avós em
Belo Horizonte, onde terminou o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena; até
então fora aluno da Escola Mestre Candinho, em Cordisburgo. Iniciou o curso
secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del Rei, onde permaneceu por
pouco tempo, em regime de internato, visto não ter conseguido adaptar-se – não
suportava a comida, retornando a Belo Horizonte matriculou-se no Colégio
Arnaldo, de padres alemães e, desde logo, para não perder a oportunidade, tendo
se dedicado ao estudo da língua de Goethe, a qual aprendeu em pouco tempo. Sobre
seus conhecimentos lingüísticos, assim se expressaria, mais tarde, numa
entrevista concedida a uma prima, então estudante no Curvelo:
Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um
pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário
agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do
árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês,
do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de
outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras
línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional.
Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.
Em 1925, matricula-se na Faculdade de Medicina da U.M.G.*, com apenas 16 anos.
Segundo depoimento do Dr. Ismael de Faria, colega de turma do escritor,
recentemente falecido, quando cursavam o 2º ano, em 1926, ocorreu a morte de um
estudante de Medicina, de nome Oseas, vitimado pela febre amarela. O corpo do
estudante foi velado no anfiteatro da Faculdade. Estando Ismael de Faria junto
ao ataúde do desventurado Oseas, em companhia de João Guimarães Rosa, teve o
ensejo de ouvir deste a comovida exclamação: "As pessoas não morrem, ficam
encantadas", que seria repetida 41 anos depois por ocasião de sua posse na
Academia Brasileira de Letras.
Em 1929, ainda como estudante, João Guimarães Rosa estreou nas letras. Escreveu
quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego,
significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um
concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Visava mais os prêmios (cem mil réis
o conto) do que propriamente a experiência literária; todos os contos foram
premiados e publicados com ilustrações em 1929-1930. Mais tarde, Guimarães Rosa
confessaria que nessa época escrevia friamente, sem paixão, preso a moldes
alheios – era como se garimpasse em errada lavra. Seja como for, essa primeira
experiência literária de Guimarães Rosa não poderia dar uma idéia, ainda que
pálida, de sua produção futura, confirmando suas próprias palavras em um dos
prefácios de Tutaméia:
"Tude se finge, primeiro; germina autêntico é depois."
Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna,
então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes; essa primeira
união não dura muito, desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda em 1930,
forma-se em Medicina pela U.M.G.*, tendo sido o orador da turma, escolhido por
aclamação pelos 35 colegas. O paraninfo foi o Prof. Samuel Libânio e os
professores homenageados foram David Rabelo, Octaviano de Almeida, Octávio
Magalhães, Otto Cirne, Rivadávia de Gusmão e Zoroastro Passos. O fac-símile do
quadro de formatura encontra-se atualmente na Sala Guimarães Rosa do Centro de
Memória da Medicina de Minas Gerais, da Faculdade de Medicina da U.F.M.G. No
referido quadro de formatura está estampada a clássica legenda, em latim, com os
dizeres "FAC QUOD IN TE EST"; figura, também, a reprodução de uma tela do pintor
holandês Rembrandt Van Rijn em que é mostrada uma aula de anatomia (A lição de
anatomia do Dr. Tulp, datada de 1632).
O discurso do orador da turma foi publicado no jornal Minas Geraes, de 22 e 23
de dezembro de 1930.
Depois de formado, Guimarães Rosa vai exercer a profissão em Itaguara, então
município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos; ali, passa a
conviver harmoniosamente até mesmo com raizeiros e receitadores, reconhecendo
sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar
grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido
por "seu Nequinha", que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar
conhecido por Sarandi. Seu Nequinha era adepto do espiritismo e parece ter
inspirado a extraordinária figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo
sertanejo, personagem do Grande Sertão: Veredas. Ademais, consta que o Dr. Rosa
cobrava as visitas que fazia, como médico, pelas distâncias que, a cavalo, tinha
de percorrer. No conto Duelo, de Sagarana, o diálogo entre os personagens
Cassiano Gomes e Timpim Vinte-e-Um testemunha esse critério – comum entre os
médicos que exerciam seu ofício na zona rural – de condicionar o montante da
remuneração a ser recebida à distância percorrida para visitar o doente.
Semelhante critério aplicava-o, também, o Dr. Mimoso a seu ajudante-de-ordens
Jimirulino, protagonista do conto – Uai, eu?, de Tutaméia.
Segundo depoimento de sua filha Vilma, a extrema sensibilidade do pai, aliada ao
sentimento de impotência diante dos males e das dores do mundo (tanto mais
quanto os recursos de que dispunha um médico do interior há meio século eram por
demais escassos), acabariam por afastá-lo da Medicina. Aliás, foi justamente em
Itaguara, localidade desprovida até mesmo de luz elétrica, que o futuro escritor
se viu obrigado a assistir o parto da própria esposa por ocasião do nascimento
de Vilma. Isso porque o farmacêutico de Itaguara, Ary de Lima Coutinho, e seu
irmão, médico em Itaúna, Antônio Augusto de Lima Coutinho, chamados com urgência
pelo aflito Dr. Rosa, só chegaram quando tudo já estava resolvido. É ainda Vilma
quem relata que sua mãe chegou a se esquecer das contrações para apenas se
preocupar com o marido – um médico que chorava convulsivamente!
Outra ocorrência curiosa, contada por antigos moradores de Itaguara, diz
respeito à atitude do Dr. Rosa quando da chegada de um grupo de ciganos àquela
cidade. Valendo-se da ajuda de um amigo, que fazia as vezes de intermediário, o
jovem médico procurou aproximar-se daquela gente estranha; uma vez conseguida a
almejada aproximação, passava horas envolvido em conversa com os "calões" na
"língua disgramada que eles falam", como diria, mais tarde, Manuel Fulô,
protagonista do conto Corpo fechado, de Sagarana, que resolveu "viajar no meio
da ciganada, por amor de aprender as mamparras lá deles". Também nos contos
Faraó e a água do rio, O outro ou o outro e Zingaresca, todos do livro Tutaméia,
Guimarães Rosa refere-se com especial carinho a essa gente errante, com seu
peculiar modus vivendi, seu temperamento artístico, sua magia, suas artimanhas e
negociatas.
De volta de Itaguara, Guimarães Rosa atua como médico voluntário da Força
Pública, por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932, indo servir no
setor do Túnel. Posteriormente entra para o quadro da Força Pública, por
concurso. Em 1933, vai para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º
Batalhão de Infantaria. Segundo depoimento de Mário Palmério, em seu discurso de
posse na Academia Brasileira de Letras, o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa
– "quase que somente a revista médica rotineira, sem mais as dificultosas
viagens a cavalo que eram o pão nosso da clínica em Itaguara, e solenidade ou
outra, em dia cívico, quando o escolhiam para orador da corporação". Assim,
sobrava-lhe tempo para dedicar-se com maior afinco ao estudo de idiomas
estrangeiros; ademais, no convívio com velhos milicianos e nas demoradas
pesquisas que fazia nos arquivos do quartel, o escritor teria obtido valiosas
informações sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930 existiu na
região do Rio São Francisco.
Quando Guimarães Rosa servia em Barbacena, um amigo de convívio diário,
impressionado com sua cultura e erudição, e, particularmente, com seu notável
conhecimento de línguas estrangeiras, lembrou-lhe a possibilidade de prestar
concurso para o Itamarati, conseguindo entusiasmá-lo. O então Oficial Médico do
9º Batalhão de Infantaria, após alguns preparativos, seguiu para o Rio de
Janeiro onde prestou concurso para o Ministério do Exterior, obtendo o segundo
lugar. Por essa ocasião, aliás, já era por demais evidente sua falta de
"vocação" para o exercício da Medicina, conforme ele próprio confidenciou a seu
colega Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de março de 1934:
Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre ‘après
avoir couché avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material – só
posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro,
dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez – nunca pude, por exemplo, com o
bilhar ou com o futebol.
Em 1938, Guimarães Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a
Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua
segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar
para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos
perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo
Nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy. Em
reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em
Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a
estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das
encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por
pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo
onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo
israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar
judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Com efeito,
Guimarães Rosa, na qualidade de cônsul adjunto em Hamburgo, concedia vistos nos
passaportes dos judeus, facilitando sua fuga para o Brasil. Os vistos eram
proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o
passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do
escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes
fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de
Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos
arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de
depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa. Segundo
D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se
absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo.
Apenas dizia: "Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um
peso em minha consciência."
Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, Guimarães Rosa é internado em
Baden-Baden, juntamente com outros compatriotas, entre os quais se encontrava o
pintor pernambucano Cícero Dias, cognominado "o pequeno Chagall dos trópicos" já
que, no início de sua carreira, tentou adaptar para a temática dos trópicos a
maneira do pintor, gravador e vitralista russo MarcChagall, recentemente
falecido. Ficam retidos durante 4 meses e são libertados em troca de diplomatas
alemães. Retornando ao Brasil, após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, o
escritor segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada, lá permanecendo até
1944. Sua estada na capital colombiana, fundada em 1538 e situada a uma altitude
de 2.600 m, inspirou-lhe o conto Páramo, de cunho autobiográfico, que faz parte
do livro póstumo Estas Estórias. O conto se refere à experiência de "morte
parcial" vivida pelo protagonista (provavelmente o próprio autor), experiência
essa induzida pela solidão, pela saudade dos seus, pelo frio, pela umidade e
particularmente pela asfixia resultante da rarefação do ar (soroche – o mal das
alturas).
Em dezembro de 1945 o escritor retornou à terra natal depois de longa ausência.
Dirigiu-se, inicialmente, à Fazenda Três Barras, em Paraopeba, berço da família
Guimarães, então pertencente a seu amigo Dr. Pedro Barbosa e, depois, a
cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel,
mais conhecido por Hotel da Nhatina.
Em 1946, Guimarães Rosa é nomeado chefe-de-gabinete do ministro João Neves da
Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz.
Em 1948, Guimarães Rosa está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da
delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana; durante a realização do
evento ocorre o assassinato político do prestigioso líder popular Jorge Eliécer
Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria, de curta
mas decisiva duração.
De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1º
Secretário e Conselheiro da Embaixada. Em 1951, de volta ao Brasil, é novamente
nomeado Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. Em 1953 torna-se Chefe da
Divisão de Orçamento e em 1958 é promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo
correspondente a Embaixador). Em janeiro de 1962, assume a chefia do Serviço de
Demarcação de Fronteiras, cargo que exerceria com especial empenho, tendo tomado
parte ativa em momentosos casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete
Quedas (1966). Em 1969, em homenagem ao seu desempenho como diplomata, seu nome
é dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira Curupira, situado na
fronteira Brasil/Venezuela. O nome de Guimarães Rosa foi sugerido pelo Chanceler
Mário Gibson Barbosa, como um reconhecimento do Itamarati àquele que, durante
vários anos, foi o chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras da Chancelaria
Brasileira.
Em 1952, Guimarães Rosa retorna aos seus "gerais" e participa, juntamente com um
grupo de vaqueiros, de uma longa viagem pelo sertão; o objetivo da viagem era
levar uma boiada da Fazenda da Sirga (município de Três Marias), de propriedade
de Chico Moreira, amigo do escritor, até a Fazenda São Francisco, em Araçaí,
localidade vizinha de Cordisburgo, num percurso de 40 léguas. A viagem
propriamente dita dura 10 dias, dela participando Manuel Narde, vulgo Manuelzão,
falecido em 5 de maio de 1997, protagonista da novela Uma estória de amor,
incluída no volume Manuelzão e Miguilim. Segundo depoimento do próprio
Manuelzão, durante os dias que passou no sertão, Guimarães Rosa pedia notícia de
tudo e tudo anotava – "ele perguntava mais que padre" –, tendo consumido "mais
de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes", com anotações sobre a flora, a
fauna e a gente sertaneja – usos, costumes, crenças, linguagem, superstições,
versos, anedotas, canções, casos, estórias...
Em 1958, no começo de junho, Guimarães Rosa viaja para Brasília, e escreve para
os pais:
Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O
clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no
verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo
inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos"... "Mas eu
acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano
colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas,
durante 10’, na copa da alta árvore pegada à casa, uma ‘tucaneira’, como por lá
dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e
inesquecíveis de minha vida.
A partir de 1958, Guimarães Rosa começa a apresentar problemas de saúde e estes
seriam, na verdade, o prenúncio do fim próximo, tanto mais quanto, além da
hipertensão arterial, o paciente reunia outros fatores de risco cardiovascular
como excesso de peso, vida sedentária e, particularmente, o tabagismo. Era um
tabagista contumaz e embora afirme ter abandonado o hábito, em carta dirigida ao
amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957, na foto tirada em 1966, quando recebia
do governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência, aparece com um cigarro
na mão esquerda. A propósito, na referida carta, o escritor chega mesmo a
admitir, explicitamente, sua dependência da nicotina:
... também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias;
daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!),
a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte
letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por
causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e
pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células
cerebrais. Não repare.
É importante frisar também que, coincidindo com os distúrbios cardiovasculares
que se evidenciaram a partir de 1958, Guimarães Rosa parece ter acrescentado a
suas leituras espirituais publicações e textos relativos à Ciência Cristã
(Christian Science), seita criada nos Estados Unidos em 1879 por Mrs. Mary Baker
Eddy e que afirmava a primazia do espírito sobre a matéria – "... the
nothingness of matter and the allness of spirit" –, negando categoricamente a
existência do pecado, dos sentimentos negativos em geral, da doença e da morte.
Em maio de 1963, Guimarães Rosa candidata-se pela segunda vez à Academia
Brasileira de Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera apenas 10 votos),
na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição dá-se a 8 de agosto e
desta vez é eleito por unanimidade. Mas não é marcada a data da posse, adiada
sine die, somente acontecendo quatro anos depois.
Em janeiro de 1965, participa do Congresso de Escritores Latino-Americanos, em
Gênova. Como resultado do congresso ficou constituída a Primeira Sociedade de
Escritores Latino-Americanos, da qual o próprio Guimarães Rosa e o guatemalteco
Miguel Angel Asturias (que em 1967 receberia o Prêmio Nobel de Literatura) foram
eleitos vice-presidentes.
Em abril de 1967, Guimarães Rosa vai ao México na qualidade de representante do
Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, no qual atua como
vice-presidente. Na volta é convidado a fazer parte, juntamente com Jorge Amado
e Antônio Olinto, do júri do II Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo
valor material do prêmio, é o mais importante do país.
A posse na Academia Brasileira de Letras ocorreu na noite de 16 de novembro de
1967.
Quando se ouve a gravação do discurso de Guimarães Rosa nota-se, claramente, ao
final do mesmo, sua voz embargada pela emoção – era como se chorasse por dentro.
É possível que o novo acadêmico tivesse plena consciência de que chegara sua
HORA e sua VEZ. Com efeito, três dias após a posse, em 19-XI-1967, ele morreria
subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa),
mal tendo tempo de chamar por socorro. Na segunda-feira, dia 20, o Jornal da
Tarde, de São Paulo, estamparia em sua primeira página uma enorme manchete com
os dizeres: "MORRE O MAIOR ESCRITOR".
Desconfio que sou um individualista feroz, mas disciplinadíssimo. Com aversão ao
histórico, ao político, ao sociológico. Acho que a vida neste planeta é caos,
queda, desordem essencial, irremediável aqui, tudo fora de foco. Sou só RELIGIÃO
– mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o
quente diálogo (tentativa de) com o ¥. O mais, você deduz. (Guimarães Rosa)
Fonte: João Guimarães Rosa: Sua HORA e sua VEZ
* A Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, fundada em 1911, passou a
chamar-se, a partir de 1927, Faculdade de Medicina da Universidade de Minas
Gerais (Faculdade da UMG); embora federalizada em 1949, somente em 1965 pasou a
vigorar a denominação Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas
Gerais (Faculdade de Medicina da UFMG).
"Mas eu não sabia ler. Então meu padrinho teve uma decisão: me enviou para o
Curralinho, para ter escola e morar em casa de um amigo dele, Nhô Maroto, cujo
Gervásio Lé de Ataíde era o verdadeiro nome social. Bom homem. Lá eu não carecia
de trabalhar, de forma nenhuma, porque Padrinho Selorico Mendes acertara com Nhô
Maroto de pagar todo fim de ano o assentamento da tença e impêndio, até botina e
roupa que eu precisasse. Eu comia muito, a despesa não era pequena, e sempre
gostei do bom e do melhor. A ser que, alguma vez, Nhô Maroto me pedia um ou
outro serviço, usando muito bico de palavreado, me agradando e dizendo que
estimava como um favor. Nunca neguei a ele meus pés e mãos, e mesmo não era o
nenhum trabalho notável. Vai, acontece, ele me disse: — “Baldo, você carecia
mesmo de estudar e tirar carta-de-doutor, porque para cuidar do trivial você
jeito não tem. Você não é habilidoso.” Isso que ele me disse me impressionou,
que de seguida formei em pergunta, ao Mestre Lucas. Ele me olhou, um tempo — era
homem de tão justa regra, e de tão visível correto parecer, que não poupava
ninguém: às vezes teve dia de dar em todos os meninos com a palmatória; e mesmo
assim nenhum de nós não tinha raiva dele. Assim Mestre Lucas me respondeu: — “É
certo. Mas o mais certo de tudo é que um professor de mão cheia você dava...” E,
desde o começo do segundo ano, ele me determinou de ajudar no corrido da
instrução, eu explicava aos meninos menores as letras e a tabuada.
Curralinho era lugar muito bom, de vida contemplada. Com os rapazinhos de minha
idade, arranjei companherice. Passei lá esses anos, não separei saudade nenhuma,
nem com o passado não somava. Aí, namorei falso, asnaz, ah essas meninas por
nomes de flores. A não ser a Rosa’uarda — moça feita, mais velha do que eu,
filha de negociante forte, seo Assis Wababa, dono da venda O Primeiro Barateiro
da Primavera de São José — ela era estranja, turca, eles todos turcos, armazém
grande, casa grande, seo Assis Wababa de tudo comerciava. Tanto sendo bizarro
atencioso, e muito ladino, ele me agradava, dizia que meu padrinho Selorico
Mendes era um freguesão, diversas vezes me convidou para almoçar em mesa. O que
apreciei — carne moída com semente de trigo, outros guisados, recheio bom em
abobrinha ou em folha de uva, e aquela moda de azedar o quiabo — supimpas
iguarias. Os doces, também. Estimei seo Assis Wababa, a mulher dele, dona
Abadia, e até os meninos, irmãozinhos de Rosa’uarda, mas com tamanha diferença
de idade. Só o que me invocava era a linguagem garganteada que falavam uns com
os outros, a aravia. Assim mesmo afirmo que a Rosa’uarda gostou de mim, me
ensinou as primeiras bandalheiras, e as completas, que juntos fizemos, no fundo
do quintal, num esconso, fiz com muito anseio e deleite. Sempre me dizia uns
carinhos turcos, e me chamava de: — “Meus olhos.” Mas os dela era que brilhavam
exaltados, e extraordinário pretos, duma formosura mesmo singular. Toda a vida
gostei demais de estrangeiro.
João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas”