Polígrafo eminente, Jaime Zuzarte Cortesão legou à cultura portuguesa uma
vasta obra, repartida entre a literatura (poesia, conto, drama) e a história
(portuguesa e brasileira), passando pela arte e a intervenção cívica de que se
tornou uma das mais representativas figuras nos anos 20-30 ao lado de António
Sérgio e Raul Proença (Grupo da Seara Nova (*). Banido de Portugal em 1940,
dedicou-se ao estudo da história da colonização portuguesa do Brasil, de que se
tornou um dos principais especialistas até ao regresso definitivo a Portugal em
1957.
Jaime Cortesão, em Coimbra estudou Grego e Direito e, mais tarde, no Porto e em
Lisboa, Medicina, formando-se em 1909. Como tese de formatura publicou "Arte e
Medicina" e um livro de Poesia: "A Morte da Águia". Anos depois, publicou um
belo volume de líricas, sob o título de "Glória Humilde". Professor, de 1911 a
1915, deputado, de 1915 a 1917, serviu como voluntário na 1.ª Guerra Europeia,
na campanha de Flandres, em 1918, na qualidade de capitão-médico-miliciano,
tendo sido gravemente ferido em combate e condecorado com a Cruz de Guerra.
Sobre a guerra escreveu um livro, hoje raro: "Memórias da Grande Guerra".
Director da Biblioteca Nacional de Lisboa, de 1919 a 1927, fez parte da missão
literária que foi ao Brasil, em 1922, acompanhando o presidente António José de
Almeida. Data dessa época, ao colaborar na "História da Colonização Portuguesa
do Brasil", o seu renome de historiador, especialmente da parte relativa aos
descobrimentos portugueses. Mas, ao lado dessa glória de historiador erudito,
ressalta mais a sua vida de democrata austero e fiel praticante das virtudes
antigas. Exilando-se no estrangeiro, desde 1927, por não compactuar com a ordem
imposta pela ditadura salazarista, Jaime Cortesão viveu sucessivamente na
Espanha, França, Bélgica e Inglaterra. De 1940 em diante coube ao Brasil
recebê-lo, “não como hóspede ilustre, mas como fraterno trabalhador”. Voltando
depois a Portugal, teve o historiador de pagar com inúmeros dissabores e prisão
o seu fervor e dedicação à causa da liberdade.
E, no dia l4 de Agosto de 1960, morria o notável historiador. A imprensa, quer
lusitana, quer brasileira, ficou de luto:
«Prestamos, neste primeiro número de “O Marialva”, homenagem muito sentida à
memória do Dr. Jaime Cortesão, recentemente falecido. Alto espírito de poeta, de
historiador, dramaturgo; alcandorado carácter que foi, no conceito da redacção
do “Estado de S. Paulo um dos maiores portugueses” ; e, em nossa opinião, não só
isso, mas o mais ilustre e elevado carácter, entre os nossos conterrâneos de
todos os tempos. Jaime Cortesão, como homem de letras, como lídimo patriota e
como carácter de elevada pureza, merece o preito da nossa gratidão e saudades
eternas (...).
Com grande acompanhamento, os restos mortais de Jaime Cortesão foram inumados no
Cemitério dos Prazeres. O féretro, coberto com as bandeiras portuguesa e
brasileira, esta última cedida pelo embaixador do Brasil (o falecido era cidadão
benemérito de São Paulo), saiu da sede da Sociedade Portuguesa de Escritores, da
qual Jaime Cortesão era presidente. No cemitério foi depositado provisoriamente
em jazigo, para mais tarde baixar à sepultura conforme foi sempre o desejo de
Jaime Cortesão, como desejo seu foi o de ser amortalhado no burel dos
franciscanos com que foi enterrado, sendo, porém, o enterro não religioso, mas
civil, pois era um espírito laico de convicção.
In «Sabores de terra e mar»
A Morte da Águia (Lisboa, 1910); A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa
Martins (Coimbra, 1910); "O Poeta Teixeira de Pascoaes" in: A Águia, 1ª série,
Porto, nº 8, 01/Abr/1911; nº 9, 1/Mai/1911 - "A Renascença Portuguesa e o ensino
da História Pátria" in: A Águia, 1ª série, nº 9, Porto, Set. 1912; "Da
'Renascença Portuguesa' e seus intuitos" in: A Águia, 2ª série, nº 10, Porto,
Out. 1912; "As Universidades Populares", série de artigos in: A Vida Portuguesa,
Porto, 1912-1914; ...Daquém e Dalém Morte, contos, (Porto, 1913); Glória
Humilde, poesia, (Porto, 1914); Cancioneiro Popular. Antologia (Porto, 1914);
Cantigas do Povo para as Escolas (Porto, 1914); "O parasitismo e o
anti-historismo. Carta a António Sérgio" in: A Vida Portuguesa, nº 18, Porto, 2/Out/1914;
"Teatro de Guerra", série de artigos in: O Norte, Porto, 1914; O Infante de
Sagres, drama, (Porto, 1916); "Cartilha do Povo. 1º Encontro" in: Portugal e a
Guerra, Porto, 1916; "As afirmações da consciência nacional", série de artigos
in; Atlântida, Lisboa, 1916; Egas Moniz, drama, (Porto, 1918); Memórias da
Grande Guerra (1916-1919) (Porto, 1919)
"A Crise Nacional" in: Seara Nova, nº 2, Lisboa, 5/Nov/1921; Adão e Eva, drama,
(Lisboa, 1921); A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil
(Lisboa, 1922); Itália Azul (Rio de Janeiro; Porto, 1922); O Teatro e a Educação
Popular (Lisboa, 1922); Divina Voluptuosidade, poesia, (Lisboa, 1923); Intuitos
da União Cívica, União Cívica. Conferências de Propaganda (Porto, 1923); "A
Reforma da Educação" in: Seara Nova, nº 25, Lisboa, Jul. 1923; Do sigilo
nacional sobre os Descobrimentos (Lisboa, 1924); A Tomada e Ocupação de Ceuta
(Lisboa, 1925); Le Traité de Tordesillas et la Découvert de L'Amérique (Lisboa,
1926); A Expansão dos Portugueses na História da Civilização (Lisboa, 1983 (1ª
ed., 1930)); Os Factores Democráticos na Formação de Portugal (Lisboa, 1964 (1ª
ed., 1930); História da expansão portuguesa (Lisboa, 1993), colaboração na
História de Portugal dirigida por Damião Peres, 1931-1934; Influência dos
Descobrimentos Portugueses na História da Civilização (Lisboa, 1993),
colaboração no vol. IV da História de Portugal dirigida por Damião Peres, 1932.;
"Cartas à Mocidade" in: Seara Nova, Lisboa, 1940; Missa da Meia-noite e Outros
Poemas, sob o pseudónimo de António Froes (Lisboa, 1940); 13 Cartas do cativeiro
e do exílio (1940) (Lisboa, 1987); "Relações entre a Geografia e a História do
Brasil" e "Expansão territorial e povoamento do Brasil" in: História da Expansão
Portuguesa no Mundo, dirigida por António Baião, Hernâni Cidade e Manuel Múrias,
vol. III, Lisboa, 1940.; O carácter lusitano do descobrimento do Brasil (Lisboa,
1941); Teoria Geral dos Descobrimentos Portugueses – A Geografia e a Economia da
Restauração (Lisboa, 1940); O que o povo canta em Portugal. Trovas, Romances,
Orações e Selecção Musical (Rio de Janeiro, 1942); Cabral e as Origens do Brasil
(Rio de Janeiro, 1944); Os Descobrimentos pré-colombinos dos Portugueses
(Lisboa, 1997 (1ª ed., 1947); Eça de Queiroz e a Questão Social (Lisboa,
1949); Os Portugueses no Descobrimento dos Estados Unidos (Lisboa, 1949);
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid (Lisboa, 1950); Parábola Franciscana,
poesia, (Lisboa, 1953); O Sentido da Cultura em Portugal no século XIV (Lisboa,
1956); Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil (Rio de Janeiro,
1958); A Política de Sigilo nos Descobrimentos nos Tempos do Infante D.
Henrique e de D. João II (Lisboa, 1960); "Prefácio a modo de memórias" in: O
Infante de Sagres, 4ª ed., (Porto, 1960); Os Descobrimentos Portugueses, 2 vols.,
(Lisboa, 1960-1962); Introdução à História das Bandeiras, 2 vols., (Lisboa,
1964); O Humanismo Universalista dos Portugueses (Lisboa, 1965); História do
Brasil nos Velhos Mapas (Rio de Janeiro, 1965-1971); Portugal – A Terra e o
Homem (Lisboa, 1966)
No Brasil, fixou-se no Rio de Janeiro, dedicando-se ao ensino universitário,
especializando-se na História dos Descobrimentos Portugueses (de que resultou a
publicação da obra homónima) e na Formação Territorial do Brasil. Em 1952,
organizou a Exposição Histórica de São Paulo, para comemorar o 4.º centenário da
fundação da cidade.
Brasil – por Jaime Cortesão
O descobrimento do Brasil é um dos momentos marcantes do processo de expansão
marítima e comercial portuguesa nos séculos XV e XVI. A fim de aumentar sua
actuação política e comercial, Portugal volta-se para o oceano Atlântico,
explorando primeiramente as ilhas próximas do país e a costa africana. Com o
apoio da burguesia mercantil e da nobreza, o Estado desenvolve uma poderosa
estrutura de navegação e comércio, dirigida inicialmente pelo infante dom
Henrique. No começo, obtém da África ouro, marfim e escravos. Mais tarde, traz
da Índia as lucrativas especiarias. Depois de 1492, a crescente disputa dos
reinos europeus pelas terras do continente americano impulsiona os
descobrimentos e a colonização do Novo Mundo.
As circunstâncias que antecederam o descobrimento do Brasil não são inteiramente
conhecidas, apesar dos avanços da pesquisa histórica. Há duas hipóteses
principais: uma defende que o descobrimento teria sido casual e a outra afirma
que foi intencional.
Os que acreditam na tese do descobrimento acidental se baseiam no fato de não
haver prova documental que confirme o envio oficial da esquadra ao litoral
brasileiro no meio da viagem para a Índia. Porém, não se crê mais na
possibilidade de a frota ter encontrado a costa brasileira por erro de
navegação. Desde as primeiras décadas do século XV, Portugal envia expedições ao
Atlântico Sul, e seus navegadores conheciam bem as direcções dos ventos e das
correntes marítimas entre os continentes africano e americano.
Sabiam da existência da corrente descendente (Canárias), que permite a navegação
costeira ao redor da África até o golfo da Guiné, e da corrente ascendente
(Benguela), que inverte o sentido das embarcações. Para atingir o extremo sul do
Atlântico, os navegadores portugueses afastavam-se da costa africana, evitando
ventos e correntes ascendentes, e corrigiam a rota empurrados pela corrente
descendente chamada corrente do Brasil, que passa pelo Nordeste brasileiro e
atinge o sul do continente africano.
O descobrimento oficial do país está registado com minúcia. Poucas são as nações
que possuem uma "certidão de nascimento" tão precisa e fluente quanto a carta
que Pêro Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, dom Manuel, relatando o
"achamento" da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de
rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário
para chegar à Índia. Teria sido o descobrimento do Brasil realmente um mero
acaso?
Por muito tempo, o descobrimento do Brasil, ou "achamento", como registar o
escrivão Pêro Vaz de Caminha, é considerado simples acaso. A partir de 1940
vários historiadores brasileiros e portugueses passam a defender a tese da
intencionalidade da descoberta, hoje amplamente aceita.
A favor da hipótese da descoberta intencional há o fato de que Portugal, como os
demais reinos europeus, sabia da existência de terras no Ocidente desde 1492,
quando Cristóvão Colombo chega à América. Tanto que busca garantir logo a posse
de parte dessas terras pelo Tratado de Tordesilhas. Os portugueses também tinham
informações sobre viagens espanholas como as de Vicente Yañes Pinzón e de Diego
Lepe, que teriam costeado o actual Nordeste brasileiro pouco antes de Cabral.
Além disso, imediatamente após o retorno de Vasco da Gama da Índia, em 1499,
Portugal teria mandado o cosmógrafo e navegante Duarte Pacheco Pereira refazer
sua rota e explorar a "quarta parte", o quadrante oeste do Atlântico Sul. Apesar
de não existir uma completa comprovação da realização dessa missão – a Coroa
portuguesa tinha uma política de sigilo nos empreendimentos marítimos –, Duarte
Pacheco Pereira participa da viagem de Cabral em 1500. Isso pode indicar que a
expedição teria dois objectivos: um público e outro secreto. O primeiro seria
desenvolver as operações comerciais na Índia e o segundo, confirmar as
explorações realizadas anteriormente no Atlântico Sul, com a tomada de posse
oficial das novas terras.
A esquadra de Cabral
Pedro Álvares Cabral (1467-1517) estuda literatura, história e ciências,
cosmografia, marinharia e as artes militares. Aos 16 anos é nomeado fidalgo da
corte de dom João II. No reinado de dom Manuel, passa a integrar o Conselho do
Rei, é admitido na Ordem de Cristo – uma distinção entre os nobres – e recebe
uma pensão anual. Aos 33 anos é escolhido para comandar a segunda expedição às
Índias.
Cabral comanda a maior e mais bem equipada frota a zarpar dos portos ibéricos
até então. Com dez naus e três caravelas, leva 1.500 homens, quase 3% da
população de Lisboa, na época com cerca de 50 mil habitantes. São representantes
da nobreza, comerciantes, artesãos, religiosos, alguns degredados e soldados.
Participa da expedição um banqueiro florentino, Bartholomeu Marquione, elo de
ligação entre a Coroa portuguesa e Lourenço de Medici, o senhor de Florença. É
essa expedição que descobre o Brasil, dia 22 de abril de 1500.
A esquadra inclui alguns dos mais experientes navegadores da época. Um deles é
Bartolomeu Dias, o primeiro a contornar o cabo da Boa Esperança e a descobrir a
passagem marítima para a Ásia, em 1485. Outro é Duarte Pacheco Pereira, apontado
pelos historiadores como um dos mais completos cartógrafos e pilotos da Marinha
portuguesa do período.
Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contacto
com cerca de 500 nativos. Eram, se saberia depois, tupiniquins - uma das tribos
do grupo tupi-guarani que, no início do século XVI, ocupava quase todo o litoral
do Brasil. Os tupi-guaranis tinham chegado à região numa série de migrações de
fundo religioso (em busca da "Terra Sem Males"), no começo da Era Cristã. Os
tupiniquins viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Betioga, em São
Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra
contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em
1570, já estavam praticamente extintos, massacrados por Mem de Sá, terceiro
governador-geral do Brasil.
Depois de alcançar as terras brasileiras, Cabral retoma a rota de Vasco da Gama.
Aporta em várias reinos africanos, estabelece relações com os poderosos locais e
chega a Calicute em 13 de Setembro de 1500. Ao voltar a Lisboa, dia 6 de Junho
de 1501, é aclamado herói. Sua glória dura pouco. Desentende-se com o rei sobre
o comando da próxima expedição às Índias, programada para 1502. Vasco da Gama é
escolhido para comandar a esquadra, e Cabral desaparece do cenário político.
Canção Violeta - Jaime Cortesão
Amo o roxo. E vai que fazes?
A luz tamisas de malva
E roxa desponta a alva
Sobre a colcha de lilases.
Roxos alastram os razes.
E tu das-te nua e alva
Lírio roxo numa salva
Sobre a colcha de lilases.
Com suas pestanas pretas
As tuas pálpebras roxas
São duas grandes violetas.
E, por mais gosto da vida,
Depois que a lâmpada afrouxa,
Fez-se a alcova de ametista.
(*)A Seara Nova iniciou a sua publicação no mês de Outubro de 1921, ostentando o
seu primeiro número a data de 15 de Outubro de 1921. O n.º 2 saiu logo a 5 de
Novembro, incluindo um artigo de Raul Proença sobre a noite sangrenta e outros
comentários à profunda crise política e social que então se vivia.
O lançamento da revista foi precedido por um conjunto de reuniões, uma das
quais, decisiva para o arranque do projecto, foi realizada em Abril daquele ano
na localidade de Coimbrão, distrito de Leiria, nela tendo nela participado
Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença, Câmara Reis, Jaime Cortesão, Aquilino
Ribeiro e Raul Brandão.
Foram muitos os intelectuais que colaboraram na Seara Nova ao longo dos seus
mais de 50 anos de publicação relativamente regular, contando-se entre muitos
outros, os seguintes: António Sérgio (que integrou a direcção a partir de 1923 e
nela se consagrou como pensador e crítico notável), Augusto Casimiro, Rogério
Fernandes, Augusto Abelaira, Teixeira Gomes, Afonso Duarte, Hernâni Cidade,
Joaquim de Carvalho, João de Barros, Irene Lisboa, Manuel Mendes, José Rodrigues
Miguéis, José Bacelar, Álvaro Salema, Lobo Vilela, Santana Dionísio, José Gomes
Ferreira, Adolfo Casais Monteiro, Mário Dionísio, Avelino da Costa Cunhal,
Fernando Lopes Graça e Jorge de Sena.
Quase desde o início do projecto, foi Raul Proença quem se destacou pela forte e
ousada intervenção no campo político, educativo, e literário. Deve-se também a
Raul Proença ter recrutado alguns dos mais importantes colaboradores do
projecto, com destaque para António Sérgio.
António Sérgio, apesar de ter depois abandonado o projecto numa cisão em que foi
acompanhado por Jaime Cortesão, desenvolveu na Seara Nova uma notável acção
pedagógica e cultural, tendo um papel fundamental no combate à tendência
literária para o vago, nebuloso, torre de marfim que então dominava, através da
introdução de formas de crítica literária mais racional. Nessa linha de
intervenção foi continuado por Castelo Branco Chaves e por Agostinho da Silva.