De seu nome verdadeiro Adolfo Correia da Rocha, nasceu em São Martinho de Anta
(província de Trás-os-Montes – Portugal) a 12 de Agosto de 1907.
Filho de transmontanos, emigrou em 1920 (com treze anos) para o Brasil onde
permaneceu até 1925, onde trabalhou na Fazenda de Santa Cruz, no Estado de Minas
Gerais, propriedade de um tio paterno. De regresso a Portugal, completou os
estudos liceais e o curso de Medicina na Universidade de Coimbra, com 26 anos,
graças às mesadas que o tio ia enviando do Brasil pelo trabalho realizado para
ele.
Profundamente enraizado no ambiente intelectual da Coimbra das décadas de 30 e
40, foi um dos seus mais notáveis activistas culturais, quer através da sua
colaboração com o grupo director da importante revista coimbrã “Presença” de
1927 a 1940, quer na fundação das suas próprias revistas, como: “Sinal” em 1930
e “Manifesto” em 1936, quando a discordância com a orientação ideológica da
“Presença” o levou a manifestar publicamente a sua dissidência.
Logo após a escrita dos seus primeiros livros poéticos, sempre publicados em
edições de autor, Miguel Torga inicia a sua experiência de médico rural, que
ficaria registada no “Diário”.
A sua primeira viagem pela Europa, em 1937, levou-o a presenciar a degradação da
Espanha no decorrer da Guerra Civil e as funestas consequências morais da
implantação do regime de Mussolini na Itália, aspectos denunciados em 1939, no
“quarto Dia de “A Criação do Mundo”; “crónica romance, memorial e testamento” –
pelo escritor, já especializado em otorrinolarinlogia e estabelecido na cidade
de Leiria. Foi nesta cidade que, como consequência da publicação do “Quarto
Dia”, seria detido, sob uma vaga acusação de comunismo, ficando preso no
Limoeiro e no Aljube de Lisboa, entre finais de 1939 e inícios de 1940. O livro
foi logo apreendido pela censura salazarista. A mesma punição iriam sofrer os
inesquecíveis “Contos da Montanha” de 1941; na altura o escritor já tinha aberto
consultório em Coimbra – o poema dramático “Sinfonia” em 1947 e a Parábola
dramática “O Paraíso” em 1949.
Entretanto, Andrée Crabble Rocha, a lusista belga com quem casara civilmente em
1940, fora destituída, em 1947, do seu lugar de assistente na Faculdade de
Letras de Lisboa. Três anos depois o levantamento da proibição de saída do País
possibilitou-lhe o reatamento das viagens à Europa, assim como o regresso ao
Brasil da sua meninice, como convidado ao Congresso de São Paulo de 1954, altura
em que a obra de Miguel Torga gozava já do reconhecimento internacional,
patenteado nas traduções para as principais línguas de cultura e confirmado pela
atribuição de prémios internacionais e dos mais prestigiados galardões
literários nacionais: Montaigne, da Fundação Alemã FVS, em 1981; Prémio Camões,
na primeira convocatória, de 1989; Vida Literária da APE, na primeira
convocatória de 1922; Personalidade do ano 1991, pela Associação de Imprensa
Estrangeira em Portugal, em 1992, e, na mesma data, Prémio da Literatura
Écureuil, do Salão do Livro de Bordéus.
A partir de 1986, ano que lhe foi diagnosticada uma doença incurável, passou
períodos de internamento nos Hospitais da Universidade de Coimbra e no IPO da
mesma cidade, instituição onde viria a falecer com 87 anos, meses depois da
publicação do volume XVI do “Diário”, que mereceu o Prémio da Associação
Internacional de Críticos Literários de 1994.
O funeral, na sua terra natal, constituiu uma apoteótica manifestação de dor
popular, tributo à sua coragem cívica, à sua humanidade solidária, à sua ligação
medular às origens.
A obra de Miguel Torga, é composta por mais de cinquenta títulos e abrangendo
todos os géneros literários, foi submetida a um processo constante de alterações
várias – correcções, aditamentos, expurgações, refundições – pautado até ao fim
pela congénita exigência e constante insatisfação do escritor.
Para além dos “Seis Dias” autobiográficos de “Criação do Mundo”, de 1037, 1938,
1939, 1974 e 1981, livro essencial para reconstruir o empenhamento do seu
percurso existencial, também o “Diário” de 1932-1994, inclui, nas suas três mil
páginas de prosa e verso, juntamente com as admiráveis notas de viagens pela
geografia de Portugal e das suas ex-colónias, por Europa e América, e exegeses
literárias e artísticas das obras fundamentais da cultura portuguesa e europeia,
o esforço do auto-conhecimento do homem-Torga dentro dos parâmetros de
precariedade da condição humana e, o que é mais importante, a configuração do
homem português no seu meio amniótico, construído em grande medida na ambiência
do salazarismo, sempre combatido por Miguel Torga. O processo libertador do
Revolução dos Cravos (25 de Abril) e da integração de Portugal na Europa
comunitária foi sempre acompanhado pelo autor sem entusiasmo, opondo sempre a
sua ironia crítica, da mesma maneira que reafirmou a sua relutância às
tendências regionalistas manifestas já antes da sua morte.
Miguel Torga
Trás-os-Montes: um paraíso perdido e reencontrado por Torga - por Maria da
Assunção Morais Monteiro
"Um Reino Maravilhoso (Trás‑os‑Montes)" é um texto da autoria de Miguel Torga,
escritor nascido em S. Martinho de Anta, perto de Vila Real, em 12 de Agosto de
1907, e publicado na obra Portugal. Neste texto, o autor localiza e apresenta
Trás‑os‑Montes, a sua região natal, dizendo que "fica no cimo de Portugal, como
os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os tome mais
impossíveis e apetecidos". Torga evoca e caracteriza a região transmontana, foca
as suas riquezas e pobrezas, fala das gentes com seus hábitos, comportamentos,
modos de ver e estar no mundo.
Trás‑os‑Montes é, segundo Torga, um "Reino Maravilhoso" que todos podem ver,
desde que "os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o
coração, depois, não hesite".
Não é só neste texto que Torga confere importância à sua região natal e a
recria. Há muitas outras produções nas quais o espaço transmontano se encontra
presente. Como escreve Claire Cayron, a tradutora da Obra torguiana para
francês, Trás‑os‑Montes, província natal do autor, foi elevada Por Torga à
categoria de mito; cantada em muitos dos seus poemas, transfigurada em A Criação
do Mundo, ilustrada pelos Contos e Novos Contos da Montanha, analisada no seu
Diário, esta região é ainda tema de dois textos eloquentes, segundo a mesma
tradutora: um que constituiu uma Conferência pronunciada no Brasil, em São Paulo
e no Rio de Janeiro, Publicada em Traço de União, onde se encontra um dos
aforismos torguianos – "o universal é o local sem paredes" –, e um outro texto,
que figura no volume Portugal, cujo título se tomou toponímico para os
Portugueses: "Um Reino Maravilhoso".
Torga, de seu Verdadeiro nome Adolfo Rocha, nunca esqueceu a sua origem
transmontana e humilde, de filho de gente do povo. Marcado pelas dificuldades
que passou na infância e na adolescência e pela vida dura que via à sua volta,
em grande parte das pessoas da sua região, serviu‑se da pena para lutar e
defender os direitos e a melhoria das condições de vida do homem, chamando a
atenção para o que de errado lhe parecia existir à sua volta, situando
espacialmente muitas das suas criações na região transmontana.
Adolfo Rocha cedo teve de deixar Trás‑os‑Montes. O precoce e forçado abandono da
aldeia e da região natal deixou marcas profundas no seu espírito, sobretudo
pelos motivos que estão na génese desse afastamento da sua terra: a carência de
recursos económicos e a consequente falta de perspectivas de continuar os
estudos. Estes dois factores estiveram na origem do rumo que a sua vida tomou
depois de fazer a instrução primária e que Torga tão bem transpôs para A Criação
do Mundo – os dois primeiros dias:
"Pouco tempo depois, o senhor Botelho mandou chamar o meu Pai, e teve com ele
uma longa conversa na minha presença. Era pena que eu não seguisse os estudos.
Sabia das dificuldades em que vivíamos, que os tempos iam maus, e tudo o mais.
Em todo o caso, visse lá se podia fazer um sacrifício e mandar‑me para o liceu
da Vila.
Meu Pai sorriu tristemente. O senhor Botelho estava a mangar!... Olha liceu! Só
se empenhasse o cabo da enxada... Gostava, gostava, de me ver professor, ou
médico, ou advogado. Mas nicles, faltava o melhor! [...] Já se lembrara do
seminário. Aí é que talvez pudesse ser. Se arranjasse a meter‑me de graça, ou a
pagar qualquer coisa pouca..."
Além dos factores apontados, há que salientar ainda a situação em que o abandono
do lar e da sua terra se processou: primeiro para trabalhar no Porto em casa de
uma família, depois para ser seminarista, vida para a qual não se sentia
vocacionado, e, finalmente, para deixar Portugal e partir como emigrante para o
Brasil, com apenas treze anos. A experiência dessa viagem soube Torga aproveitá‑la
para a sua autobiografia romanceada:
"O comboio, frenético, avançava sempre. E eu, resignado no meu lugar, a vê‑lo
correr. Que remédio! Ia despachado para o desconhecido, e nada podia fazer.
[...] Era como se Portugal fugisse de mim, e eu dele.
[...] Embarcámos no dia seguinte à tardinha. [...]
Em toda a terceira só havia barafunda e lágrimas. Ninguém sabia fazer mais nada.
O cheiro do desinfectante branco dos urinóis ardia no nariz. Chegava uma música
vaga, de longe, da primeira. A princípio, estive sentado num degrau de escada,
depois, numa mala de mão. Por último, andava tonto, enjoado, sem rumo pelos
corredores estreitos do dormitório. Até que um marinheiro de braços tatuados,
que passava, me agarrou pelo cu das calças, ergueu ao ar e atirou para cima da
enxerga, quase encostada ao tecto."
A S. Martinho de Anta e à região transmontana ficaram associadas vivências da
infância e da adolescência em liberdade, recordações de uma felicidade passada,
apesar da rudeza de vida, que se mantiveram ao longo dos anos, transformando
Trás‑os‑Montes num paraíso perdido nos longes da memória, associando‑lhe sempre
momentos de felicidade infantil e originando uma recordação saudosa de um espaço
ao qual atribuiu a designação de "Reino Maravilhoso". É pertinente realçar a
carga conotativa que o adjectivo maravilhoso comporta, remetendo para algo
longínquo, não facilmente acessível, ideia que o próprio texto confirma, mas
simultaneamente de um encantamento e valor que transcende o humano.
A vida e as gentes de S. Martinho de Anta ficaram, pois, sempre presentes na
alma daquele adolescente que tão cedo se viu obrigado a abandonar a casa paterna
em busca de melhores condições de vida, conforme registou numa anotação de 1 de
Outubro de 1953:
"No fundo, foi bom eu ter abandonado a casa paterna quase ao nascer. Fiquei
sempre a ver as palhas do ninho como penas de aconchego. Não houve tempo para a
mínima erosão. Envolvidas numa redoma de saudade que nunca foi quebrada, as
impressões infantis guardam toda a pureza de um amanhecer sem ocaso. Intemporal
e mítica, a paisagem geográfica é nos meus sentidos uma perpétua miragem; quanto
à outra, à humana, tais virtudes lhe descubro, que parece que só junto dela sou
gente."
A memória saudosa e nostálgica de S. Martinho de Anta, que o acompanhou ao longo
de toda a sua vida e que pode ser testemunhada em muitas passagens da sua obra,
fez com que, num registo do Diário XII, de Londres, 10 de Junho de 1977,
exprimisse o desejo morrer na sua terra:
"É lá, no meu [ninho] que sempre quis viver e quero morrer. Infeliz de o sentir
de tojos, e feliz de o sonhar de penas."
Todavia, devemos deixar uma ressalva a esse desejo que pode, aparentemente,
contradizer o que foi expresso anteriormente, já que Torga, em nota do Diário
XVI, manifestou a aspiração de "fechar os olhos" no consultório, "sozinho, sem
despedidas dilacerantes, com os olhos cheios da policromia do largo ajardinado
fronteiriço, da frescura do rio remansoso e do aceno dos horizontes alargados
pela imaginação durante meio século ao mundo inteiro". E acrescenta:
"S. Martinho foi o lugar de onde. Coimbra o centro desse mundo misterioso e
apaixonante que de lá perspectivei."
S. Martinho de Anta e Trás‑os‑Montes deixaram estigmas muito profundos em Miguel
Torga, tão profundos que parecem fazer parte do seu próprio organismo; é como se
de algo fisiológico e vital se tratasse. Numa página do Diário XVI aparece
inscrito o seguinte:
"Não tenho fronteiras espirituais, mas trago gravados nos cromossomas os marcos
da minha freguesia e a fisionomia dos meus conterrâneos."
Também numa nota de 8 de Setembro de 1992, se constata a importância de S.
Martinho de Ama para Torga. Foi nesta aldeia que o seu carácter se formou, foi
neste espaço que aprendeu os valores morais da vida, numa fase do percurso
humano, a infância, que é marcante e condicionadora de comportamentos futuros. É
por Isso que Torga confere a S. Martinho de Anta o valor metafórico de marco de
orientação, quase de bússola indicadora do caminho a seguir:
"Mesmo a cair aos bocados, teimei em passar por aqui. E que nenhuma hora da
minha vida tem significação sem esta referência. S. Martinho é um marco de
orientação e segurança que vejo em todas as horas de perplexidade e angústia e
de todos os quadrantes do mundo."
Outro marco de orientação, nessa paisagem de rochas e montanhas, é a serra do
Marão, sobranceira a uma boa parte da região transmontana, à qual Torga,
sugestivamente, se refere nestes termos:
Do meu Marão nativo abrange‑se Portugal; e, de Portugal, abrange‑se o mundo".
A propósito ainda do Marão, símbolo de toda a região, vale a pena chamar a
atenção para a importância que esta serra assume para Torga, que chega mesmo a
falar de amor de mãe:
MARÃO
Serra, seio de pedra
Onde mamei a infância
Amor de mãe, que medra
Quando medra a distância.
Noutros momentos, a sua região surge como um paraíso distante, situado do outro
lado desta serra:
"Este Trás‑os‑Montes da minha alma! Atravessa‑se o Marão, e entra‑se logo no
paraíso!".
Trás‑os‑Montes é para Miguel Torga um "ninho alto e agreste que transmite a
elevação e a aspereza à casca e ao sabugo de quem ali nasce." Por isso, segundo
ele:
"onde estiver um transmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível.
E porquê? porque, mesmo transplantado, ele ressuma a seiva de onde brotou.
Corre‑lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se
descora."
A sua região natal ficou, como vimos, gravada no espírito do escritor e sempre
lhe inspirou um carinho especial, conforme se pode constatar também nesta
citação extraída de Traço de União:
"Lá, naquela rudeza sem conforto, é que sentimos a cama macia, a alma
aconchegada! de lá, daqueles agressivos penhascos, é que nos vem ternura e
calor!"
O apego de Torga à terra, não só a Trás‑os‑Montes mas a todo o Portugal,
impediu‑o de abandonar o país e viver no estrangeiro, como deixou registado numa
anotação do Diário XVI:
"Quando nos tempos ominosos da ditadura, em Paris, onde estava de passagem,
alguns exilados da oposição teimavam comigo para que ficasse entre eles [...],
respondi que nunca poderia ser um escritor português fora de Portugal. Que me
faltariam, longe dele, a linguagem da terra, a gramática da paisagem e o
Espírito Santo do Povo. E regressei, para ser perseguido e preso pouco depois.
Mas não desanimei."
É na região transmontana, no paraíso perdido da sua infância, que se movimentam
grande parte 'dos heróis e personagens da sua ficção, quer sejam seres humanos,
quer bichos antropomorfizados, todo um conjunto de personagens possuidoras de
virtudes e defeitos, caracterizadas em moldes eufóricos ou disfóricos, das quais
podemos destacar figuras como o pícaro pardal do conto "Ladino", o galo Don Juan
do conto "Tenório", o gato acomodado de "Mago", o corvo rebelde e insubmisso de
"Vicente", todos da antologia Bichos, ou outras personagens como a Maria Lionça
dos Contos da Montanha e o Alma‑Grande dos Novos Contos da Montanha. São figuras
que fazem parte da mundividência e do imaginário de Trás‑os‑Montes, que Torga
tão bem conheceu e soube recriar na sua ficção narrativa.
No prefácio à tradução castelhana dos Contos e Novos Contos da Montanha, que
aparece registado em nota situada e datada de Coimbra, 20 de Março de 1987,
Torga apresenta ao leitor castelhano os seus heróis da seguinte forma:
"Heróis altivos, cingidos às leis da condição, desde o nascimento que estão
acostumados a enfrentar os caprichos do destino por sua conta e risco, mesmo
quando afiançados. [...] Portugueses, como é evidente, viram a luz do dia nas
terras altas de Trás‑os‑Montes [...]. Têm, pois, todos os traços fisionómicos
da região. Duros e terrosos. Simplesmente acontece que, num livro que publiquei
em tempos, a propósito de condicionalismos do meio, declarei que o universal é o
local sem paredes. O que realmente acontece com eles. Psicologicamente, nenhum é
murado. Daí que reajam e actuem como filhos do mundo em todas as
circunstâncias."
Tal como os "heróis altivos" que psicologicamente não eram "mura dos", também
Torga, metaforicamente, nunca permitiu a existência de muros em tomo de si.
Paladino dos direitos humanos, do respeito, da fraternidade e da liberdade para
todos, Torga sofreu por isso, viu algumas das suas obras apreendidas, tendo
estado preso e inclusivamente a certa altura proibido de sair de Portugal. No
Diário V expressa o que sentiu quando pôde sair:
"Posso finalmente sair de Portugal (pelo menos tenho passaporte), e bastou essa
certeza para me tirar toda a fúria que tinha de deixar isto. Quero partir,
evidentemente, mas não o farei com o sonhado alivio de animal preso que salta os
muros do cortelho! as minhas queixas sociais são as mesmas, mas já não me sinto
preso na pátria onde vivo em desarmonia com os meus. Quando quiser, abro a porta
e vou arejar. E o desespero tomou‑se menos pungente e a vontade de abandonar o
barco menos inadiável. O homem pode aguentar enormidades concretas, desde que
sonhe alívios abstractos. O que ele não pode viver é sem nenhuma esperança.
Mesmo que seja só a esperança de fugir..."
Esta alusão à vontade de abandonar o barco, escrita em 27 de Junho de 1950,
permite estabelecer uma relação intertextual com o conto "Vicente" de Bichos,
obra publicada em 1940. Com este conto, com o qual sugestivamente termina a
antologia, é veiculada a mensagem de que o homem não deve sentir medo quando
luta por um ideal que considera justo. A personagem Vicente representa a
rebeldia na dialéctica submissão/rebeldia, protagoniza o homem corajoso, que não
se deixa intimidar por ninguém e luta até ao fim pela sua libertação, já que
considera a liberdade um direito inalienável ao homem. É por isso que o conto
termina com a vitória de Vicente, o corvo rebelde que no dilúvio universal não
teve medo e ousou abandonar a arca de Noé, tomando‑se autónomo relativamente ao
próprio Criador que lhe deu a possibilidade de ser livre e, como tal, não
poderia penalizá‑lo por essa opção:
"Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas
três vezes recuou, A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração
resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tomou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra
aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do
céu."
A defesa da liberdade individual, a rebeldia e o carácter resoluto de Torga face
à opressão por parte dos mais fortes, está patente em muitos outros dos seus
trechos. Vejamos apenas um extracto do poema "Prece":
Senhor, ergo‑me do fim
Desta minha condição:
Onde era sim, digo não,
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.
A defesa da liberdade constitui um dos temas obsidiantes na obra de Miguel
Torga, não uma liberdade que está no céu ou nas mãos dos homens, mas que está
sobretudo em cada um de nós. A este respeito é muito sugestivo o poema
"Liberdade", no qual o sujeito poético, num acto precatório, recorrendo à
apóstrofe e a uma relação primeira‑segunda pessoa, revela que a procura da
liberdade, quer no céu quer na terra, de nada lhe serviu. Todavia, mudando de
estratégia, acaba. por concluir:
"Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome."
A necessidade de nos sentirmos interiormente livres é fundamental para o Autor,
embora a liberdade exterior deva igualmente existir, visto que privado dela o
homem não se sente bem, conforme se lê no Diário VII:
Liberdade interior... Sim, essa ao menos. Mas que falta nos faz a outra, a de
fora! O pensamento é dialéctico, necessita de dialogar, de agir. Só assim medra,
caminha, progride.
Mas Torga, numa preocupação de defesa da autenticidade e identidade do eu, não
deixa de chamar a atenção para a importância de, mesmo sem liberdade, sermos nós
próprios. Veja‑se esta anotação do Diário XVI:
"Liberdade. Passei a vida a cantá‑la, mas sempre com a identidade no pensamento,
ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres,
mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o
preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode‑nos ser
outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade."
E Torga sempre quis ser idêntico a si próprio, agir em conformidade com os
valores que defendia, manifestando de forma clara ou implícita o que pensava
e/ou sentia. O seu desejo de intervenção, o seu constante grito de luta, o
anticonformismo estão patentes no poema "S.O.S." de Cântico do Homem, no qual o
poeta escreve:
"Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia.
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia..."
Considerando‑se, no mesmo texto,‑ um "honrado poeta sinaleiro" dos destinos de
quem vai no barco, põe a "correr mundo um grito derradeiro / Da [...] desgraçada
perdição". Ele próprio se auto‑define como alguém que pretendeu "ser cidadão a
tempo inteiro, [...] e poeta rebelde, cioso da sua liberdade de criador"; alguém
que nasceu condenado a ser agónico a tempo inteiro", nas "horas conscientes e
nas inconscientes", para quem a vida só tem sentido no que escreveu.
Torga sempre lutou pela independência, liberdade e dignidade humanas, ao longo
da sua vida de escritor, e foram mais de sessenta anos de actividade literária.
O seu combate revela uma personalidade dotada de uma capacidade de resistência
irredutível e solitária. Foi um exemplo de coragem, de força anímica, o
paradigma do homem capaz de lutar até ao fim com toda a verticalidade de
carácter. Num texto do Diário XVI, a propósito da escrita deste último volume,
escreveu:
"Coimbra, 9 de Dezembro de 1993 – E chega ao fim, com este volume, um livro que
comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com
mais assento. [...] Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma
irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à
exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos, na
paz de ter procurado vê‑los e compreendê‑los na exacta medida. E que confia no
juízo da posteridade, que certamente lhe vai revelar os muitos defeitos e ter em
conta as poucas virtudes. De alguma coisa me hão‑de valer as cicatrizes de
defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que
justifica a passagem de qualquer homem por este mundo."
No Diário XII, quando da deslocação a Bruxelas para receber o Prémio
Internacional de Poesia que lhe foi atribuído na XII Bienal de Knocke‑Heist, em
1976, numa anotação datada de 4 de Junho de 1977, Torga, referindo‑se a parte do
percurso da sua vida, não deixa de evocar as dificuldades passadas, mas'
simultaneamente o valor que as mesmas tiveram na opção de vida que tomou e que o
levaram a singrar na vida literária:
"As voltas que a vida dá, e como acaba por atar as pontas para se fechar num
círculo simbólico! Quando há sessenta anos, como emigrante, desembarquei no Rio
de Janeiro do porão de um navio, esperava‑me no cais um sujeito desconhecido com
a minha foto na mão, a fim de me identificar; há pouco, ao descer do avião,
aconteceu coisa parecida: uma senhora, igualmente estranha, erguia à porta de
saída, um grande cartão onde li, entre comovido e divertido, o meu nome. O
rapazinho de outrora ia comer o pão que o diabo amassou; o velho de agora vinha
receber um prémio internacional. O prémio de ser fiel às origens, e de ter
sempre, como os antepassados, mourejado na mesma humildade e tenacidade, de
enxada na mão ou de caneta na mão."
A propósito de fidelidade às origens, é pertinente salientar, pelo seu poder
sugestivo, a metáfora da planta, da qual o escritor se serve para traduzir a sua
origem e raízes transmontanas, metáfora que encontramos numa nota do Diário XVI.
Nesta nota diarística, a propósito da casa onde nasceu e onde, quando entra, diz
ter uma "sensação estranha de ser eterno e provisório no mesmo instante", sem pé
num chão onde nasceu e não pôde crescer, mas onde sabe que cresceu, Torga diz
que o destino lhe baralhou a condição e explica:
"Plantou‑me aqui e arrancou‑me daqui. E nunca mais as raízes me seguraram bem em
nenhuma terra."
Ainda no mesmo volume XVI do Diário, num registo situado e datado de S. Martinho
de Anta, 30 de Abril de 1990, Torga, apresentando‑se sentado no pátio da casa, à
sombra do noveleiro, coroado de flores e rodeado de silêncio, refere‑se desta
maneira ao seu "paraíso":
"Amanhã regressarei. Este paraíso ainda não é meu duradoiramente. É dos meus
antepassados, que nele moram em cada canto da casa e do quintal. Desde há muito
que sei que sou usufrutuário de uma herança sagrada, que só merecerei se nunca
me esquecer que S. Martinho de Anta é um berço onde tenho de nascer todas as
horas e morrer um dia."
Importa salientar o valor semântico de vocábulos como paraíso, sagrada a
qualificar herança, e berço, que traduzem toda a emoção, a sensação de
agradável fruição, o valor afectivo dos espaços para os quais os vocábulos
paraíso e berço remetem.
Aos oitenta e cinco anos, a propósito da entrega do Prémio de Literatura
Estrangeira «Écureuil» atribuído pelo 6º Salão do Livro de Bordéus, numa nota de
14 de Setembro de 1992, Torga recorda a sua infância. junto da Mãe, quando esta
"à noite, entre o remendo e a roca, [...] à luz da candeia, lia incansavelmente
um livro" (a Bíblia) que ele depois herdou e que "foi a maior fortuna" que a Mãe
lhe podia legar. E, na sequência dessa evocação, Torga saudosamente alude ao
valor das histórias desse livro que passaram a alimentar a sua imaginação e,
pelos anos fora, constituíram uma referência obrigatória na "memória dorida":
"memória dos ninhos procurados e achados, do pião, dos primeiros frutos
cobiçados nos quintais vizinhos, dos amores inocentes, das feiras tumultuosas,
das procissões solenes, das fainas afadigadas, do paraíso perdido."
O passado, a infância, decorridos no espaço transmontano, mesmo em dificuldades,
tomaram‑se, como se pôde constatar, um paraíso perdido na memória de Torga.
Luciana Stegagno Picchio, escreveu que, na sua segunda vinda a Portugal, foi a
Coimbra "visitar os dois monumentos da cidade: a Universidade e Miguel Torga".
Mas Torga não é só um "monumento" de Coimbra; é principalmente um "monumento" de
Trás‑os‑Montes. O seu nome aparece associado sobretudo a dois espaços: Coimbra,
onde residiu e exerceu Medicina, e Trás‑os‑Montes, o espaço físico das suas
origens, mas também um espaço mítico de ficção, ao qual se manteve sempre fiel,
e que imortalizou metonimicamente como "Um Reino Maravilhoso".
Trás‑os‑Montes, esse "Reino Maravilhoso" do qual se afastou por necessidade, mas
ao qual se manteve sempre ligado afectivamente, representa, em simultâneo, um
paraíso perdido e reencontrado por Torga; perdido porque deixado na
adolescência, e achado porque, de acordo com a sua vontade, a ele regressou e
nele repousa para sempre.
(Maria da Assunção Morais Monteiro, «Trás-os-Montes: um paraíso perdido e
reencontrado por Torga», em Estudos Transmontanos e Durienses, nº 7, 1997, pp.
169-184).