Portal CEN  *** Pesquisas Carlos Leite Ribeiro ***

 

 

 Rafael Bordalo Pinheiro

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

Formatação: Iara Melo
 

Este sempre bem acompanhado por grandes artistas, durante a sua vida, como: seu pai e primeiro mestre, Manuel Maria Bordalo Pinheiro, pintor, escultor, gravador e litógrafo de mérito; sua irmã, Maria Augusta, pintora e decoradora; seu irmão Columbano, que se destacou como grande e original pintor; seu filho, Manuel Gustavo, notável caricaturista e ceramista, e também seu colaborador. Rafael Bordalo Pinheiro, distinguiu-se sobretudo como caricaturista e ceramista de nível internacional, mas além disso ocupa um lugar proeminente no meio artístico português: em 1875, criou o símbolo do povo português, ou seja a extraordinária figura do Zé-Povinho (*); em 1870, introduziu em Portugal a caricatura artística; em Berlinda foi a vez da banda desenhada; o cartaz artístico foi também de sua autoria; executou originais, composições gráficas “arte nova”; na ourivesaria desenhou notável baixela; realizou interessantes decorações para diversas casas, concebeu ornamentações prodigiosas de inspiração para as festas do Teatro de São Carlos, para diversas exposições, de que se destacou a Exposição Universal de Paris de 1889; desenhou figurinos para peças de teatro, etc. Quanto à actividade como caricaturista e ceramista, os seus jornais “O António Maria”, “Pontos do iis” e a “Paródia” são obras únicas de crónicas de um país pela caricatura durante mais de um quarto de século; dos seus vinte anos de trabalho como ceramista ficou uma obra imensamente variada e arrojada. Tem tido dado relevo ao nacionalismo de Rafael Bordalo. É o próprio quem afirma, veja-se a carta que em 16 de Setembro de 1889, escreveu de Paris a Justino Guedes, a propósito da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha: “(…) a única indústria característica, a única indústria nacional”. É, porém, fundamental acentuar, para além do que lapidarmente se sintetizou na frase: “Bordalo na cerâmica como na caricatura foi espontaneidade feita ar”, o inter-nacionalismo e o modernismo do artista. Por motivos profissionais, pessoais e culturais, o artista conhecia bem o ambiente cultural internacional. Em 1873 foi correspondente em Espanha do jornal “The Illustrated News”; de 1875 a 1879 viveu no Brasil; pelo menos em 1882, esteve em Paris; em 1884, por causa das cerâmicas, visitou a Inglaterra, a Bélgica e a França; em 1887 viajou por Espanha, procurando inspirar-se para as esculturas da Via Sacra destinadas às Capelas do Buçaco; em 1889 permaneceu alguns meses em Paris aquando da Exposição Universal. Em 1892, escrevia Fialho de Almeida: “Vale a pena ir às Caldas …e saudar em Rafael Bordalo Pinheiro um dos génios criadores mais profundamente originais do mundo contemporâneo”. 

                                Rafael Bordalo Pinheiro,  destacou-se também como um homem de imprensa. Durante cerca de 35 anos (de 1870 a 1905) foi a alma de todos os periódicos que dirigiu quer em Portugal, quer nos três anos que trabalhou em terras brasileiras. Semanalmente, durante as décadas referidas, os seus periódicos debruçaram-se sobre a sociedade portuguesa nos mais diversos quadrantes, de uma forma sistemática e pertinente. Em 1870 lançou três publicações: O Calcanhar de Aquiles, A Berlinda e O Binóculo, este último, um semanário de caricaturas sobre espectáculos e literatura, talvez o primeiro jornal, em Portugal, a ser vendido dentro dos teatros. Seguiu-se o M J ou a História Tétrica de uma Empresa Lírica, em 1873. Todavia, foi A Lanterna Mágica, em 1875, que inaugurou a época da actividade regular deste jornalista sui generis que, com todo o desembaraço, ao longo da sua actividade, fez surgir e também desaparecer inúmeras publicações. Seduzido pelo Brasil, também aí (de 1875 a 1879) animou O Mosquito, o Psit!!! e O Besouro, tendo tido tanto impacto que, numa obra recente, intitulada Caricaturistas Brasileiros, Pedro Correia do Lago lhe dedica diversas páginas, enfatizando o seu papel. O António Maria, nas suas duas séries (1879-1885 e 1891-1898), abarcando quinze anos de actividade jornalística, constitui a sua publicação de referência. Ainda fruto do seu intenso labor, Pontos nos ii são editados entre 1885-1891 e A Paródia, o seu último jornal, surge em 1900. A seu lado, nos periódicos, estiveram Guilherme de Azevedo, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, João Chagas, Marcelino Mesquita e muitos outros, com contributos de acentuada qualidade literária. Daí que estas publicações constituam um espaço harmonioso em que o material textual e o material icónico se cruzam de uma forma polifónica. Vivendo numa época caracterizada pela crise económica e política, Raphael enquanto homem de imprensa soube manter uma indiscutível independência face aos poderes instituídos, nunca calando a voz, pautando-se sempre pela isenção de pensamento e praticando o livre exercício de opinião. Esta atitude granjeou um apoio público tal que, não obstante as tentativas, a censura nunca logrou silenciá-lo. E, todas as quintas-feiras, dia habitual da saída do jornal, o leitor e observador podia contar com os piparotes costumeiros, com uma crítica a que se juntava o divertimento. Mas como era natural, essa independência e o enfrentar dos poderes instituídos originaram-lhe alguns problemas como por exemplo o retirar do financiamento d'O António Maria como represália pela crítica ao partido do seu financiador. Também no Brasil arranjou problemas, onde chegou mesmo a receber um cheque em branco para se calar com a história de um ministro conservador metido com contrabandistas. Quando percebe que a sua vida começa a correr perigo, volta a Portugal, não sem antes deixar uma mensagem: ".... não estamos filiados em nenhum partido; se o estivéssemos, não seríamos decerto conservadores nem liberais. A nossa bandeira é a VERDADE. Não recebemos inspirações de quem quer que seja e se alguém se serve do nosso nome para oferecer serviços, que só prestamos à nossa consciência e ao nosso dever, - esse alguém é um infame impostor que mente." ( O Besouro, 1878) .

                                 (*) Em 1875, o apareceu  na imagística portuguesa do zé-povinho, sob a inspirada pena de Rafael Bordalo Pinheiro, condensa a imagem e a simbologia do ser lusíada.  Visto de uma perspectiva marginal, o zé-povinho, mantendo o trajo rústico compósito, é a representação simbólica da funda ruralidade do ser lusitano que se marginaliza no novo espaço pretensamente urbano do libero-capitalismo da Regeneração. Nesta ambígua duplicidade, a sua figura entra no fundo cultural nacional, no nosso imaginário, pela negativa: não sendo exemplar, o zé-povinho é um signo de força própria e determinante; é um antiexemplar. Nas palavras de José Augusto França, a criação bordaliana do zé-povinho é um mito «que reúne em si as potencialidades positivas e negativas de uma nação que se autodefine romanticamente como generosa e boa, e se vê morrer, realisticamente, de ignorância e indiferença numa História sofrida». O próprio Rafael Bordalo Pinheiro diz: "O Zé Povinho olha para um lado e para o outro e... fica como sempre... na mesma". Apesar de simples, o Zé Povinho é uma figura cheia de contradições, tal como foi referido por João Medina em "O Zé Povinho, caricatura do «Homo Lusitanus»": "Mas se ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer, em constante contradição consigo mesmo, simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente...". Tem como característica principal o gesto do manguito, representando a sua faceta de revolta e insolência. Tornou-se uma figura identificativa do povo português, criticando de uma forma humorística muitos dos problemas sociais e políticos da sociedade portuguesa, e caricaturando o povo português na sua característica de eterna revolta perante o abandono e esquecimento da classe política, embora pouco ou nada fazendo para alterar a situação.        

                                Nota: Infelizmente, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, debate-se com uma grave situação financeira que poderá leva-la ao encerramento. Fazemos votos que tal situação seja rapidamente ultrapassada.

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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