Formatação: Iara Melo
Este sempre bem acompanhado por
grandes artistas, durante a sua vida,
como: seu pai e primeiro mestre, Manuel
Maria Bordalo Pinheiro, pintor,
escultor, gravador e litógrafo de
mérito; sua irmã, Maria Augusta, pintora
e decoradora; seu irmão Columbano, que
se destacou como grande e original
pintor; seu filho, Manuel Gustavo,
notável caricaturista e ceramista, e
também seu colaborador. Rafael Bordalo
Pinheiro, distinguiu-se sobretudo como
caricaturista e ceramista de nível
internacional, mas além disso ocupa um
lugar proeminente no meio artístico
português: em 1875, criou o símbolo do
povo português, ou seja a extraordinária
figura do Zé-Povinho (*); em 1870,
introduziu em Portugal a caricatura
artística; em Berlinda foi a vez da
banda desenhada; o cartaz artístico foi
também de sua autoria; executou
originais, composições gráficas “arte
nova”; na ourivesaria desenhou notável
baixela; realizou interessantes
decorações para diversas casas, concebeu
ornamentações prodigiosas de inspiração
para as festas do Teatro de São Carlos,
para diversas exposições, de que se
destacou a Exposição Universal de Paris
de 1889; desenhou figurinos para peças
de teatro, etc. Quanto à actividade como
caricaturista e ceramista, os seus
jornais “O António Maria”, “Pontos do
iis” e a “Paródia” são obras únicas de
crónicas de um país pela caricatura
durante mais de um quarto de século; dos
seus vinte anos de trabalho como
ceramista ficou uma obra imensamente
variada e arrojada. Tem tido dado relevo
ao nacionalismo de Rafael Bordalo. É o
próprio quem afirma, veja-se a carta que
em 16 de Setembro de 1889, escreveu de
Paris a Justino Guedes, a propósito da
Fábrica de Faianças das Caldas da
Rainha: “(…) a única indústria
característica, a única indústria
nacional”. É, porém, fundamental
acentuar, para além do que lapidarmente
se sintetizou na frase: “Bordalo na
cerâmica como na caricatura foi
espontaneidade feita ar”, o
inter-nacionalismo e o modernismo do
artista. Por motivos profissionais,
pessoais e culturais, o artista conhecia
bem o ambiente cultural internacional.
Em 1873 foi correspondente em Espanha do
jornal “The Illustrated News”; de 1875 a
1879 viveu no Brasil; pelo menos em
1882, esteve em Paris; em 1884, por
causa das cerâmicas, visitou a
Inglaterra, a Bélgica e a França; em
1887 viajou por Espanha, procurando
inspirar-se para as esculturas da Via
Sacra destinadas às Capelas do Buçaco;
em 1889 permaneceu alguns meses em Paris
aquando da Exposição Universal. Em 1892,
escrevia Fialho de Almeida: “Vale a pena
ir às Caldas …e saudar em Rafael Bordalo
Pinheiro um dos génios criadores mais
profundamente originais do mundo
contemporâneo”.
Rafael
Bordalo Pinheiro, destacou-se também
como um homem de imprensa. Durante cerca
de 35 anos (de 1870 a 1905) foi a alma
de todos os periódicos que dirigiu quer
em Portugal, quer nos três anos que
trabalhou em terras brasileiras.
Semanalmente, durante as décadas
referidas, os seus periódicos
debruçaram-se sobre a sociedade
portuguesa nos mais diversos quadrantes,
de uma forma sistemática e pertinente.
Em 1870 lançou três publicações: O
Calcanhar de Aquiles, A Berlinda e O
Binóculo, este último, um semanário de
caricaturas sobre espectáculos e
literatura, talvez o primeiro jornal, em
Portugal, a ser vendido dentro dos
teatros. Seguiu-se o M J ou a História
Tétrica de uma Empresa Lírica, em 1873.
Todavia, foi A Lanterna Mágica, em 1875,
que inaugurou a época da actividade
regular deste jornalista sui generis
que, com todo o desembaraço, ao longo da
sua actividade, fez surgir e também
desaparecer inúmeras publicações.
Seduzido pelo Brasil, também aí (de 1875
a 1879) animou O Mosquito, o Psit!!! e O
Besouro, tendo tido tanto impacto que,
numa obra recente, intitulada
Caricaturistas Brasileiros, Pedro
Correia do Lago lhe dedica diversas
páginas, enfatizando o seu papel. O
António Maria, nas suas duas séries
(1879-1885 e 1891-1898), abarcando
quinze anos de actividade jornalística,
constitui a sua publicação de
referência. Ainda fruto do seu intenso
labor, Pontos nos ii são editados entre
1885-1891 e A Paródia, o seu último
jornal, surge em 1900. A seu lado, nos
periódicos, estiveram Guilherme de
Azevedo, Guerra Junqueiro, Ramalho
Ortigão, João Chagas, Marcelino Mesquita
e muitos outros, com contributos de
acentuada qualidade literária. Daí que
estas publicações constituam um espaço
harmonioso em que o material textual e o
material icónico se cruzam de uma forma
polifónica. Vivendo numa época
caracterizada pela crise económica e
política, Raphael enquanto homem de
imprensa soube manter uma indiscutível
independência face aos poderes
instituídos, nunca calando a voz,
pautando-se sempre pela isenção de
pensamento e praticando o livre
exercício de opinião. Esta atitude
granjeou um apoio público tal que, não
obstante as tentativas, a censura nunca
logrou silenciá-lo. E, todas as
quintas-feiras, dia habitual da saída do
jornal, o leitor e observador podia
contar com os piparotes costumeiros, com
uma crítica a que se juntava o
divertimento. Mas como era natural, essa
independência e o enfrentar dos poderes
instituídos originaram-lhe alguns
problemas como por exemplo o retirar do
financiamento d'O António Maria como
represália pela crítica ao partido do
seu financiador. Também no Brasil
arranjou problemas, onde chegou mesmo a
receber um cheque em branco para se
calar com a história de um ministro
conservador metido com contrabandistas.
Quando percebe que a sua vida começa a
correr perigo, volta a Portugal, não sem
antes deixar uma mensagem: ".... não
estamos filiados em nenhum partido; se o
estivéssemos, não seríamos decerto
conservadores nem liberais. A nossa
bandeira é a VERDADE. Não recebemos
inspirações de quem quer que seja e se
alguém se serve do nosso nome para
oferecer serviços, que só prestamos à
nossa consciência e ao nosso dever, -
esse alguém é um infame impostor que
mente." ( O Besouro, 1878) .
(*) Em
1875, o apareceu na imagística
portuguesa do zé-povinho, sob a
inspirada pena de Rafael Bordalo
Pinheiro, condensa a imagem e a
simbologia do ser lusíada. Visto de uma
perspectiva marginal, o zé-povinho,
mantendo o trajo rústico compósito, é a
representação simbólica da funda
ruralidade do ser lusitano que se
marginaliza no novo espaço pretensamente
urbano do libero-capitalismo da
Regeneração. Nesta ambígua duplicidade,
a sua figura entra no fundo cultural
nacional, no nosso imaginário, pela
negativa: não sendo exemplar, o
zé-povinho é um signo de força própria e
determinante; é um antiexemplar. Nas
palavras de José Augusto França, a
criação bordaliana do zé-povinho é um
mito «que reúne em si as potencialidades
positivas e negativas de uma nação que
se autodefine romanticamente como
generosa e boa, e se vê morrer,
realisticamente, de ignorância e
indiferença numa História sofrida». O
próprio Rafael Bordalo Pinheiro diz: "O
Zé Povinho olha para um lado e para o
outro e... fica como sempre... na
mesma". Apesar de simples, o Zé Povinho
é uma figura cheia de contradições, tal
como foi referido por João Medina em "O
Zé Povinho, caricatura do «Homo
Lusitanus»": "Mas se ele é paciente,
crédulo, submisso, humilde, manso,
apático, indiferente, abúlico, céptico,
desconfiado, descrente e solitário,
também não deixa por isso de nos
aparecer, em constante contradição
consigo mesmo, simultaneamente capaz de
se mostrar incrédulo, revoltado,
resmungão, insolente, furioso, sensível,
compassivo, arisco, activo, solidário,
convivente...". Tem como característica
principal o gesto do manguito,
representando a sua faceta de revolta e
insolência. Tornou-se uma figura
identificativa do povo português,
criticando de uma forma humorística
muitos dos problemas sociais e políticos
da sociedade portuguesa, e caricaturando
o povo português na sua característica
de eterna revolta perante o abandono e
esquecimento da classe política, embora
pouco ou nada fazendo para alterar a
situação.
Nota:
Infelizmente, a Fábrica de Faianças das
Caldas da Rainha, debate-se com uma
grave situação financeira que poderá
leva-la ao encerramento. Fazemos votos
que tal situação seja rapidamente
ultrapassada.