Real Gabinete Português de Leitura 
comemora 170 anos (1837 - 2007)

Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo

 

 

O Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro (Brasil), completa 170 anos. O prédio, construído no estilo neomanuelino, foi inspirado no padrão arquitectónico do reinado de D. Manuel de Aviz, no século XVI e disputa com o Copacabana Palace o título de mais bonito da cidade.
O Real Gabinete abriga um acervo de 350 mil livros, que inclui obras raras como um dos 11 exemplares preservados da primeira edição de “Os Lusíadas”.
O Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, foi criado em 14 de Maio de 1837 por 43 emigrantes portugueses que estavam sendo perseguidos pela monarquia em Portugal. O Real Gabinete foi fundado com o objectivo de ter uma instituição para instruir e melhorar o nível de conhecimento dos portugueses que chegavam ao Brasil. Isso ocorreu apenas 15 anos depois da independência política do Brasil.
O título de "real" foi concedido pelo rei D. Carlos, em 1906. Em 1935, um decreto do governo português determinou que a Biblioteca Nacional de Lisboa recebesse de todos os editores de Portugal um exemplar das obras por eles impressas e os destinasse ao Real Gabinete, no Rio de Janeiro. Esse decreto vigora até os dias de hoje e é por causa dele que a instituição consegue manter seu acervo sempre actualizado.

 


 
Real Gabinete Português de Leitura
http://pt.wikipedia.org/wiki/
O Real Gabinete Português de Leitura, tradicional biblioteca e instituição cultural lusófona, localiza-se no centro da cidade do Rio de Janeiro, no estado de mesmo nome, no Brasil.
História: A instituição foi fundada em 1837 por um grupo de quarenta e três imigrantes portugueses, refugiados políticos, para promover a cultura entre a comunidade portuguesa na então capital do Império. Foi a primeira associação desta comunidade na cidade.
O edifício da actual sede, projectado pelo arquitecto português Rafael da Silva e Castro, foi erguido entre 1880 e 1887 em estilo neo-manuelino. Este estilo arquitectónico evoca o exuberante estilo gótico-renascentista vigente à época dos Descobrimentos portugueses, denominado como manuelino em Portugal por haver coincidido com o reinado de D. Manuel I (1491-1521).
O Imperador D. Pedro II (1840-1889) lançou a pedra fundamental do edifício em 10 de Junho de 1880, e sua filha, a Princesa Isabel, junto com seu marido, o Conde D’Eu, inauguraram-no em 10 de Setembro de 1887.
A fachada, inspirada no Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa, foi trabalhada por Germano José Salle em pedra de Lioz em Lisboa e trazida de navio para o Rio. As quatro estátuas que a adornam retratam o Infante D. Henrique, Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama, e os medalhões, os escritores Fernão Lopes, Gil Vicente, Alexandre Herculano e Almeida Garrett.
O interior também segue o estilo neo-manuelino nas portadas, estantes de madeira para os livros e monumentos comemorativos. O teto do Salão de Leitura tem um belo candelabro e uma clarabóia em estrutura de ferro, o primeiro exemplar desse tipo de arquitectura no Brasil. O salão possui também um belíssimo monumento de prata, marfim e mármore (o Altar da Pátria), de 1,7 metro de altura, que celebra a época dos descobrimentos, realizado na Casa Reis & Filhos no Porto pelo ourives António Maria Ribeiro, e adquirido em 1923 pelo Real Gabinete.
Aberta ao público desde 1900, a biblioteca do Real Gabinete possui a maior colecção de obras portuguesas fora de Portugal. Entre os cerca de 350.000 volumes, nacionais e estrangeiros, encontram-se obras raras como uma primeira edição de Os Lusíadas de Camões (1572), as Ordenações de D. Manuel (1521), um manuscrito da comédia "Tu, só tu, puro amor" de Machado de Assis, e muitas outras. Anualmente, recebe cerca de seis mil títulos de Portugal. Diariamente, recebe em média, cento e cinquenta visitantes. Entre os seus visitantes ilustre, do passado, encontram-se os nomes de Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio.
O Real Gabinete edita a revista Convergência Lusíada (semestral) e promove cursos sobre Literatura, Língua Portuguesa, História, Antropologia e Artes, destinados principalmente a estudantes universitários.
A história da Academia Brasileira de Letras está ligada à do Real Gabinete, uma vez que as cinco primeiras sessões solenes da Academia, sob a presidência de Machado de Assis, foram aqui realizadas.
O prédio histórico foi utilizado como locação para filmes, novelas e especiais de televisão como:
O Xangô de Baker Street ; O Primo Basílio ; Os Maias ; Mad Maria.
O Real Gabinete localiza-se na Rua Luís de Camões, 30, no centro do Rio. O edifício encontra-se tombado pelo Instituto do Património Estadual.

 

 

Catedral da Cultura Portuguesa
A. Gomes da Costa
http://www.realgabinete.com.br/index.htm


Pelo seu prestígio nos meios intelectuais, pela beleza arquitetônica do edifício da sua sede, pela importância do acervo bibliográfico e ainda pelas atividades que desenvolve, o Real Gabinete Português de Leitura é, a todos os títulos, uma instituição notável e que muito dignifica Portugal no Brasil.
Em 14 de Maio de 1837, um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro - e deve-se sublinhar que isto ocorre somente 15 anos depois da Independência do país - reuniu-se na casa do Dr. António José Coelho Lousada, na antiga rua Direita (hoje rua Primeiro de Março), nº 20, e resolveu criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos de seus sócios e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império de ilustrar o seu espírito. Entre esses homens, cuja maioria era composta de comerciantes da praça, estavam alguns que haviam sido perseguidos em Portugal pelo absolutismo e que tinham emigrado para o Brasil. Era o caso de José Marcelino Rocha Cabral, advogado e jornalista, que iria ser eleito primeiro presidente da instituição.
É possível que ao se preocuparem com o nível de instrução de seus compatriotas e ao quererem incutir em muitos o gosto pela leitura, os fundadores do “Gabinete” tenham sido inspirados pelo exemplo vindo da França, onde, logo seguir à revolução de 1789, começaram a aparecer as chamadas “boutiques à lire”, que nada mais eram do que lojas onde se emprestavam livros, por prazo certo, mediante o pagamento de uma determinada quantia.
Os “gabinetes de leitura” criados no Brasil pelos portugueses - o do Rio de Janeiro foi o primeiro, mas mais tarde virão os do Recife (em 1850) e o de Salvador (em 1863) - diferenciam-se, entretanto, daqueles estabelecimentos franceses por uma característica: é que neles não se fazia qualquer pagamento pelo empréstimo do livro. O sócio, ou o leitor, consultava-o na biblioteca ou levava-o para casa, sem que isso implicasse, para ele, em qualquer encargo.
Seguindo o exemplo dos “gabinetes de leitura” de raiz portuguesa e ainda na segunda metade do século XIX, surgiram, impulsionados pela maçonaria e pela república positivista, em várias cidades do interior do Estado de São Paulo, instituições semelhantes que também eram denominadas “gabinetes de leitura” e que foram transformadas depois em bibliotecas municipais.
Voltemos, entretanto, à sinopse histórica do Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Logo nos primeiros anos após a sua fundação as diretorias passaram a adquirir milhares de obras, algumas raras, dos séculos XVI e XVII - e entre elas podemos mencionar um exemplar da edição “prínceps” de Os Lusíadas, que pertenceu à Companhia de Jesus de Setúbal; as Ordenações de D. Manuel, de Jacob Cromberger, editadas em 1521, e os Capitolos de Cortes e Leys que sobre alguns delles fizeram, publicadas em 1539. O certo é que a ampliação da biblioteca obrigou à mudança da sede por várias vezes: da casa da rua de 5. Pedro, nº 83, foi para a rua da Quitanda nº 55 e desta, em 1850, para a rua dos Beneditinos nº 2. Para se ter uma idéia do crescimento do acervo bibliográfico basta mencionar que em 1872 a biblioteca já possuía 20.471 obras (ou 44.917 volumes).
É por essa altura que os dirigentes começam a pensar em construir uma sede de maiores dimensões e condizente com a importância da instituição. Para esse fim, é adquirido um terreno na antiga rua da Lampadosa. E as comemorações do tricentenário da morte de Camões (1880) vão ser o grande pretexto para motivar a “colônia” portuguesa e levar adiante o projeto. Portugal atravessava crises medonhas: eram os déficits da Corte e a ameaça das grandes potências às colônias da África; eram as mazelas de uma sociedade que não reagia às críticas e farpas dos “vencidos da vida”; eram os “escândalos do tabaco” e as lutas dos partidos; eram os “cortejos do bacalhau” na “baixa” lisboeta para depreciar a Epopéia quinhentista; era a falta de interesse pelas idéias novas que vinham da Europa, a apatia do zé-povinho retratado nas caricaturas mordazes de Bordalo Pinheiro.
Uma plêiade de portugueses do Rio de Janeiro, de sólida formação intelectual e de grande prestígio, como Eduardo Rodrigues Cardoso Lemos, José Vasco Ramalho Ortigão, Visconde de Morais e outros, resolve fazer da participação da “colônia” nas celebrações camonianas um contraponto às disputas e à mesquinhez de além-mar. Se em Portugal muitos procuravam ofuscar, no meio da dormência do país, a saga dos Descobrimentos e esquecer o poeta, no Brasil fazia-se o contrário: o “Gabinete” encomendava à casa Biel, no Porto, uma edição rica e ilustrada d’Os Lusíadas; mandavam-se cunhar medalhas; organizavam-se concertos com o maestro brasileiro Artur Napoleão e em 10 de Junho de 1880, com a presença do imperador D. Pedro II, do ministro do Império Barão Homem de Mello e do Presidente da Câmara Municipal Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, é lançada a primeira pedra para a construção da nova sede do Gabinete Português de Leitura no terreno da rua da Lampadosa que tinha sido adquirido para esse fim.
O projeto escolhido foi o do arquiteto português Rafael da Silva Castro, com seu traço neomanuelino a evocar a epopéia camoniana.
O edifício, em pedra de lioz, com estátuas de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, do Infante D. Henrique e de Luís de Camões sobre as mísulas da fachada, foi inaugurado em 10 de Setembro de 1887, com a presença da Princesa Isabel e do Conde D’Eu. Os trabalhos de construção tinham sido dirigidos pelo arquiteto Frederico José Branco e as pinturas e decorações em relevo estiveram a cargo do artista Frederico Steckel.
Ramalho Ortigão, convidado para ser o orador oficial da solenidade, pronunciou então um discurso notável. A certa altura disse: "No dia em que tiver caído para o domínio intelectual do mundo a preponderância européia - porque não há preponderâncias eternas e o movimento da civilização está destinado a oscilar como o movimento dos mares e a configuração dos continentes entre os dois hemisférios da terra - quando por meio dessa evolução se tenha deslocado a importância do domínio geográfico das linhas atuais, se esta casa existir ainda, ela mostrará aos nossos netos que homens de trabalho, alheios à intriga política do país e ao litígio do poder, ausentes de sua pátria, em um país remoto, previram na missão de sua raça o alcance da ciência e o alcance da arte, a qual, tendo por fim ressalvar os interesses da inteligência fazendo-os preponderar aos interesses da cobiça, da ambição e do egoísmo humano, é a origem da moral positiva assim como é a base do bom senso e o sustentáculo da moderação...”. E mais adiante o escritor arrematou o seu discurso: "E se um dia o nome de Portugal houver de desaparecer da carta política da Europa, esta Casa será ainda como a expressão monumental do cumprimento da profecia posta por Garrett na boca de Camões: ... não se acabe a Língua, o nome português na terra”.
No ano seguinte, já extinta a escravidão e com o regresso de D. Pedro II da Europa, é instalada, no dia 22 de Dezembro, a biblioteca do Gabinete Português de Leitura e entregue ao Imperador o diploma de Presidente Honorário. E é nessa oportunidade que outro escritor célebre, desta feita brasileiro, Joaquim Nabuco, também proferiu uma oração admirável em louvor dos portugueses no Brasil. E depois de dizer que Portugal, para ele, “tinha sete maravilhas como nenhuma outra nação possui e eu falo só do que vi: Os Lusíadas, a entrada do Tejo, a Torre de Belém, os Jerônimos, Sintra, o Vinho do Porto e a colônia portuguesa do Brasil”. Para mais adiante afirmar: “Deliberadamente vós, portugueses, construístes uma biblioteca, a mais grandiosa das edificações desse gênero na América, e a levantastes sob o duplo padroado de Luís de Camões e do Infante D. Henrique. A alma deste edifício é assim, antes de tudo, a própria alma nacional. Estas pedras são estrofes d’Os Lusíadas. Elas deveriam ser condecoradas pela História com a Ordem de Aviz”.
Em 1900 o Gabinete Português de Leitura transforma-se em biblioteca pública - qualquer um do povo pode ter acesso aos livros da sua biblioteca. E logo depois Benjamin Franklin de Ramiz Galvão, um dos mais ilustres intelectuais brasileiros, é convidado pelo Presidente da instituição, Ernesto Cibrão, para organizar um novo catálogo do acervo bibliográfico, tarefa que vai terminar em 1906. É precisamente nesse ano que o rei D. Carlos atribui o título de “Real” ao Gabinete e tem lugar, no Salão dos Brasões, uma grande exposição de pinturas de José Malhôa, a cuja inauguração comparece o Presidente Rodrigues Alves. No primeiro dia da exposição, dos 125 quadros apresentados foram vendidos 26, sendo que um deles, denominado “O sonho do Infante”, foi adquirido para ficar no Real Gabinete. Na mesma exposição figuram ainda retratos do rei e da rainha D. Amélia, encomendados ao pintor pela diretoria da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Casa de Socorros D. Pedro V, e que até hoje se encontram em sua sede.
Logo a seguir é instalada a Comissão encarregada da recepção a D. Carlos, que foi afinal frustrada pelo regicídio. Dela faziam parte figuras eminentes da colônia, como o Conde de Avelar, o Visconde de São João da Madeira, o Visconde de Morais, o Visconde de Agarez e tantos outros que ao longo da segunda metade do século XIX não se cansaram de prestar serviços ao país de origem e de ajudar as associações portuguesas no Brasil. Muitos, por exemplo, como foi o caso do Com. José Moraes d’Abreu Júnior, de Domingos de Moura e Castro ou de Rita de Barros Ramalho Ortigão, abriram mão de créditos que tinham concedido ao Gabinete, quando da construção de sua sede, e que não eram de pequeno montante. Pois era curioso ouvir as queixas que já se faziam naquela época, em pleno crepúsculo da monarquia, a respeito da indiferença dos governos e do seu interesse em aproveitar-se da colônia portuguesa do Brasil: “Nem a colônia portuguesa no Brasil tem escapado a essa tempestade assoladora, a esse tufão mal intencionado, contristador de quem o contempla isento de paixões e estranho a esse desenrolar de pequeninas misérias sociais”, dizia-se no “Livro de Ouro” daquela época.
E a seguir fazia-se uma referência ao que o país devia aos portugueses do Brasil. Nas cidades, os melhores palácios a quem pertencem? Quem mandou construir casas e pagar benfeitorias? A quem pertencem os estabelecimentos fabris? Quem manda abrir e reformar os caminhos nas províncias? Quem paga os melhoramentos das igrejas, os paramentos e as alfaias? Quem manda construir asilos, hospitais e escolas? Quem subscreve as ações dos caminhos de ferro? Quem acode às necessidades do Estado e compra metade dos títulos da dívida pública em circulação? Quem?
Os portugueses do Brasil. Por isso, concluía o autor do desabafo: “magoou-nos profundamente a avalanche de ingratidão com que se procurou amesquinhar o valor desses compatriotas queridos..."
Registradas as mágoas e ressentimentos da colônia, em parte devidas aos confrontos que na época dividiam o país provocados pela campanha crescente do Partido Republicano e as convulsões da Monarquia, o Real Gabinete abre na década de 20 uma nova fase de sua existência. E dois homens se destacam nesse período: um, Carlos Malheiro Dias, com seu labor intelectual, as suas pesquisas históricas, a sua influência na formulação de uma estrutura em que se vai manter o universo associativo de origem portuguesa no Brasil e que irá resultar na criação da Federação das Associações Portuguesas em 931; o outro, Albino Sousa Cruz que, tendo vendido aos ingleses a fábrica de cigarros, passa a dedicar-se inteiramente e a ser o grande mecenas da instituição.
Para as comemorações do lº centenário da Independência é constituída no Real Gabinete uma empresa com a finalidade de editar, em fascículos, a monumental História da Colonização Portuguesa do Brasil, sob a direção literária de Carlos Malheiro Dias, a direção artística de Roque Gameiro e cartográfica do Conselheiro Ernesto de Vasconcelos.
Da obra irão colaborar as figuras mais eminentes dos dois países nas artes, nas ciências e na literatura, de Luciano Pereira da Silva a Duarte Leite, de Júlio Dantas a Oliveira Lima, de Paulo Merea a Pedro Azevedo, de António Baião a Jaime Cortesão, de H. Lopes de Mendonça a E. M. Esteves Pereira, sem citarmos, evidentemente, o coordenador, o mais importante de todos - Carlos Malheiro Dias.
A História da Colonização Portuguesa foi editada pela Litografia Nacional do Porto, em fascículos, e estes chegaram a atingir cerca de 20.000, com 12.000 distribuídos no Brasil e 8.000 em Portugal - um número impressionante para a época.
Em 1931 é realizado no Real Gabinete o 1º Congresso dos Portugueses do Brasil, quando se procura evitar, com a criação da Federação das Associações Portuguesas, as divisões no meio associativo e imprimir uma certa unidade aos movimentos da colônia. Seu primeiro presidente vai ser Carlos Malheiro Dias, e mais 80 associações de todo o Brasil ficam integradas no organismo federativo que passa, por tácito consenso, a ser o porta-voz das aspirações e anseios coletivos.
Como decorrência do 1º Congresso dos Portugueses do Brasil passa a comemorar-se na sede do Real Gabinete, todos os anos, o “Dia de Portugal”, promovido pela Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras. A solenidade, para além de outras liturgias, conta com a presença de oradores ilustres, portugueses e brasileiros convidados para a saudação cívica. Vale a pena registrar a lista desses convidados ao correr dos anos (veja a relação).
Em 15 de Março de 1935, pelo decreto nº 25.134, o governo português concede ao Real Gabinete o benefício de receber de todos os editores portugueses um exemplar das obras por eles impressas. Esse estatuto permite uma atualização permanente da biblioteca em termos do que se edita em Portugal.
Nos anos 40 cria-se o Instituto de Alta Cultura com o objetivo de desenvolver o intercâmbio cultural entre os dois países.
A década seguinte é de grandes dificuldades financeiras para a instituição. Os mecenas tinham desaparecido e os legados e codicilos ao longo do tempo privilegiaram sempre as instituições assistenciais e religiosas - as Beneficências e as Caixas de Socorros Mútuas, as Casas de Portugal e as Obras de Assistência, as Irmandades e as Santas Casas. Os “Gabinetes de Leitura”, os “Grêmios” ou os “Liceus”, esses nunca foram lembrados pela maioria dos benfeitores. Apoiado no mecenato de Albino de Sousa Cruz e de mais alguns - Sousa Baptista, Conde Dias Garcia, Visconde de Morais, Garcia Saraiva, etc. -, a entidade, com o desaparecimento dessa geração, ficou em extrema penúria. As suas despesas eram rateadas pelas diretorias e só muito depois o governo português, durante alguns anos, no antigo regime, concedeu um subsídio de cerca de 50 contos de reis para amenizar a crise que ameaçava a instituição.
Foi preciso mudar a sistemática anterior em vários sentidos: primeiro, para dar mais dinamismo às suas atividades, criou-se em 1969, na gestão do Presidente António Pedro Martins Rodrigues, o “Centro de Estudos”, onde passaram a ser ministrados sistematicamente cursos e conferências a cargo de professores universitários. O primeiro curso foi ministrado pelo Prof. Robert Chester Smith, da Universidade da Pensilvânia, sobre “Aspectos da Arte Portuguesa do século XVIII”. E o primeiro diretor do Centro foi António Gomes da Costa. Depois fizeram-se as campanhas financeiras para resgatar o Real Gabinete da situação de penúria e dar-lhe meios para subsistir. Nos anos mais recentes o seu quadro social, antes constituído só de portugueses, passou a receber cidadãos de outros países de língua portuguesa e, a esta altura, várias empresas brasileiras - como por exemplo o Banco Itaú que financiou todo o processo de informatização da biblioteca - já contribuem para o desenvolvimento do Real Gabinete, a formação do centro de multimídia cultural, o restauro do edifício, etc (veja relação). Nesse capítulo, justo é destacar a extraordinária ajuda recebida ao longo dos últimos anos da Fundação Calouste Gulbenkian, que, inclusive, deu os recursos necessários à aquisição e às obras do prédio contíguo ao Real Gabinete onde está instalado o centro de multimídia. Mas também o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal tem concedido uma permanente ajuda desde que, tanto no governo de Cavaco Silva como no de António Guterres, se reconheceu a importância da instituição para a difração da cultura portuguesa no Brasil. Outras entidades - da Biblioteca Nacional ao Instituto Camões, de empresas portuguesas aos donativos da comunidade, da Real Caixa de Socorros D. Pedro V ao Liceu Literário Português - têm vindo a permitir ao Real Gabinete desenvolver, de ano para ano, atividades crescentes desde a edição semestral da revista Convergência Lusíada, distribuída gratuitamente por centenas de instituições culturais e Universidades de todo o mundo, até à recuperação de obras raras danificadas pelo tempo.

 


O Real Gabinete Português de Leitura possui a maior e a mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal.
O seu acervo, inteiramente informatizado, é da ordem de 350.000 volumes.
A biblioteca recebe de Portugal, pelo estatuto do "depósito legal", um exemplar das obras publicadas no país. Além de Macau, agora sob a soberania da República Popular da China, e que até há pouco tempo também era beneficiada com o "depósito legal", o Real Gabinete é a única instituição, fora do território português, que mantém aquele privilégio.
Alguns espécimes de obras raras ou manuscritos, poderão ser consultados por investigadores e especialistas com autorização especial.
A consulta é franqueada aos leitores no salão da biblioteca, com o auxílio das bibliotecárias.
Os sócios do Real Gabinete, que estão em dia com a contribuição mensal, podem levar até 2 livros como empréstimo a domicílio, pelo prazo máximo de 15 dias, desde que se trate de edições posteriores a 1950.
 
O Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura tem como finalidade precípua a realização de cursos, conferências, palestras, congressos etc, bem como promover o intercâmbio e a colaboração com universidades e institutos culturais e artísticos do país e do exterior.
Criado em 1969, na presidência de António Saldanha de Vasconcellos, mas tornado realidade por António Pedro Martins Rodrigues, o seu primeiro Diretor foi Antonio Gomes da Costa e seu principal dinamizador Francisco da Gama Lima. Contou sempre, em seus quadros de colaboradores, com um conjunto de professores universitários, nas áreas de Literatura, História, Antropologia, Sociologia, Artes, etc.
No seu âmbito funciona o Pólo de Pesquisa de Relações Luso-Brasileiras criado pela Profª Gilda Santos, que reúne cerca de 30 professores e especialistas, que estão subdivididos nos seguintes núcleos temáticos:
• Cultura e Sociedade
• Manuscritos e Autógrafos
• Publicações e Leituras
• A Literatura Portuguesa no Brasil


 


O  Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-brasileiras (PPRLB) é constituído por professores e pesquisadores de várias áreas do conhecimento, empenhados em aprofundar e dar visibilidade aos estudos que contemplam relações luso-brasileiras
Encontra-se vinculado ao Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e sediado nas dependências desta instituição cultural fundada em 14 de maio de 1837, que tem em seu património uma das mais importantes e belas bibliotecas brasileiras.
O PPRLB tem por objetivos:
a) propiciar aos pesquisadores, e estudiosos cm geral, das relações luso-brasileiras condições de permanente aprofundamento em suas áreas de interesse, que, no âmbito do PPRLB estarão agrupados em Núcleos de temática afim;
"Cultura e Sociedade"
(coordenado pela Profa. Madalena Vaz Pinto, PUC-Rio),
"Manuscritos e Autógrafos"
(coordenado pela Profa. Doutora Sheila Moura Hue, UFRJ ),
"Publicações e Leituras"
(coordenado pela Profa. Doutora Tânia Bessone )
"A Literatura Portuguesa no Brasil"
(coordenado pela Profa. Doutora Ida Maria Ferreira Alves, UFF).
b) incentivar condições de diálogo e intercâmbio entre os participantes do PPRLB e os vários Núcleos que integrem;
c) promover cursos, eventos e publicações sobre aspectos das relações luso-brasileiras;
d) articular-se com diferentes organismos, no plano nacional ou internacional, visando a que suas promoções alcancem a desejável visibilidade na busca de divulgar amplamente os estudos sobre relações luso-brasileiras;
O corpo de participantes do PPRLB é ilimitado e acolherá pesquisadores, professores, alunos e estudiosos em geral, vinculados ou não a instituições académicas, que compartilhem de seus propósitos e desejem colaborar na difusão dos estudos voltados para as relações luso-brasileiras.
Coordenação geral:
Profa. Dra. Gilda Santos (UFRJ)
E-mail: gilda.santos@globo.com

Ao entrar no vestíbulo do edifício do Real Gabinete, o visitante tem oportunidade de verificar que o seu interior nada fica a dever à majestade de seu exterior, destacando-se, desde logo, diversas obras de arte, como os bustos em mármore de Eduardo Lemos e de Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, e em bronze, do Conde Dias Garcia, de Ricardo Severo e do Rei D. Carlos I, de Portugal.
Diversas outras obras ornamentam os armários de madeira trabalhada da instituição, como a lindíssima maquete do monumento a Pedro Álvares Cabral, doada ao Gabinete pelo seu autor, Mestre Rodolpho Bernardelli, e pequenos bustos de “D. Manuel I”, do escultor Simões da Silva, de “Eça de Queirós”, com a indicação apenas da fundição – Cavina, o de “Ramalho Ortigão”, numa bela terracota do Mestre Teixeira Lopes, o de “Herculano”, sem assinatura e, finalmente o do “Padre Manuel da Nóbrega”, de J. Mello Pimenta.
Na escadaria, em seu primeiro lanço, encontra-se o “Relicário da Saudade”, homenagem póstuma a Sacadura Cabral, o realizador com o Almirante Gago Coutinho, da primeira travessia aérea Lisboa-Rio. Contém páginas em pergaminho com os autógrafos de Pio XII, D. Manuel II, de Portugal, D. Afonso XIII, de Espanha, do Rei Alberto I, da Bélgica, assinaturas de muitas outras altas personalidades, inclusive as sentidas palavras do próprio Gago Coutinho a referir-se “ao seu camarada Sacadura Cabral, morto no acidente com o seu avião Fokker”, de cujos destroços ali figura um pedaço envolto em cartão de ouro. Na mesma escadaria encontram-se ainda o busto do Conselheiro J. O. Sá Camelo Lampreia, antigo Ministro de Portugal no Brasil, um artístico candeeiro em ferro trabalhado, os bustos de Gago Coutinho e do escritor e jornalista Paulo Barreto (João do Rio).
Ao nível do andar superior vê-se o busto do Benemérito Albino de Souza Cruz, o primoroso trabalho de ourivesaria portuguesa, a dominar todo o átrio, que é o “Altar da Pátria”, bem como uma placa oval de prata portuguesa, do mesmo ourives, dos quais passamos a dar uma descrição mais pormenorizada.
ALTAR DA PÁTRIA
Obra de ourivesaria e escultura de grande significação e importância, esta obra de arte é única e de valor incalculável, na opinião dos entendidos, tendo em vista que não se encontraria quem produzisse outra semelhante.
Medindo 1,70 m de altura, a alegoria assinala os fatos principais da epopéia lusitana, desde as suas primeiras conquistas marítimas. Da sua base em mármore negro, formando belo contraste com a prata de que é feito, apontam para os quatro pontos cardeais outras tantas naves, PARA BUSCAR DO MUNDO NOVAS PARTES, como indicando que nenhum ponto do globo habitado foi estranho aos audazes navegadores. Em plano mais elevado, em faces opostas, rodeados de Nereidas e de Tritões, assistem Vênus e Netuno à partida dessas caravelas, tendo a seus pés o oceano revolto, onde se banham outras divindades do mar. Todas estas figuras são talhadas em marfim, o que as torna mais suaves em relação ao metal. Essa evocação simbólica foi inspirada nos “Lusíadas”, donde se lê, em cada uma das flâmulas que flutuam nos mastros das naves, um verso do poema. O centro é formado por espessa coluna de minúsculos relevos, em volta da qual se destacam, em prata e marfim, os vultos dos quatro principais criadores das glórias lusitanas: o INFANTE D. HENRIQUE, VASCO DA GAMA, PEDRO ÁLVARES CABRAL e LUÍS DE CAMÕES. No cimo da coluna, sobre os motivos ornamentais, duas figuras simbólicas representam os dois rios do Oriente, perlustrados pelos portugueses: o INDO e o GANGES. Arremata-a a imagem da Fé, alçando para o infinito a Cruz e eterna, que guiou sempre o espírito do grande povo português, através de triunfos e vicissitudes, e o protegeu nos seus admiráveis arrojos. Executada em prata e marfim, na Casa Reis & Filhos no Porto pelo ourives Antonio Maria Ribeiro. Fez parte do Pavilhão Português da Feira de Amostras, Exposição do Rio de Janeiro em 1922, por ocasião do Centenário da Independência do Brasil. Após a exposição, em 1923, a Colônia Portuguesa no Rio de Janeiro a adquiriu e ofereceu ao Real Gabinete.
PLACA OVAL
Placa Oval de prata portuguesa e marfim, repuxada e cinzelada, em homenagem a Luís de Camões, tendo ao centro cena mitológica representando os deuses do Olimpo, à esquerda, o poeta sendo coroado com louvores e, à direita, Ondinas e Tritões; ao alto, o retrato do poeta; aparecem os ventos de Áquila e Boreas, navios e em listéis versos dos Lusíadas. Contraste do Porto, marca e assinatura do ourives Antonio Maria Ribeiro. Acondicionada em estojo de nogueira, forrado de tecido, tampo de cristal bizotado, fechos de prata com o mesmo contraste e marca. Fez parte do Pavilhão Português da Feira de Amostras, Exposição do Rio de Janeiro em 1922, por ocasião do Centenário da Independência do Brasil. Cavalete em mogno, estilo Renascença.
No grande Salão de Leitura ganha destaque uma curiosa estante de madeira e cristal, cujas proporções se fazem notar, e onde está guardado o “Livro de Ouro”, de homenagem ao presidente Eduardo de Lemos, que os portugueses do Brasil preparavam para lhe oferecer por ocasião de seu regresso ao Rio de Janeiro, da viagem em que a morte o surpreendeu em Portugal no dia 14 de outubro de 1884. Trata-se de um álbum com variado e preciosíssimo repositório de manifestações de figuras ilustres da vida intelectual, artística e política do Brasil, bem como de grande número de instituições, que forma um volume com a grossura de 6 cm, em encadernação de luxo de Garzaro, Paris.

Fonte: “Fundamentos e Actualidade do
Real Gabinete Português de Leitura”.
 
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO