Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
Vasco da Gama, homem de confiança de D. João II,
foi nomeado por D. Manuel para capitanear a
armada de descobrimento do caminho marítimo para
a Índia, composta por 3 naus, partiu do Tejo a
8.7.1497 e a 17.4.98, avistava Calecute tendo
regressado a Lisboa em fins de Agosto de 1499.
Como almirante do mar da Índia voltou ao Oriente
em 1502 e como vice-rei em 1524 morrendo pouco
depois de lá chegar. Com Vasco da Gama abriu-se
nova era para o mundo, estando por isso o seu
nome gravado na História Universal.
Sonhos tão esperados durante anos por reis,
príncipes e homens do mar vieram a
concretizar-se no tempo de D. Manuel I, que
subiu ao trono em 1495. encarregou-se de
preparar a expedição destinada a atingir a Índia
por mar e escolheu para capitão Vasco da Gama –
descoberta do caminho marítimo para a Índia.
A descoberta do caminho marítimo para a Índia
foi um marco na História da Humanidade porque
abriu a rota que permitiu o contacto directo
entre a Europa, a África Oriental e a Ásia. Os
Oceanos, que durante milénios tinham servido de
barreira ao encontro entre povos, tornaram-se
assim na grande via de comunicação.
D. Manuel I estava firmemente decidido a dominar
o rico comércio com o Oriente. Para isso,
organizou sucessivas expedições à Índia. Porém,
os inimigos opunham-se à presença portuguesa,
sendo necessário organizar expedições para
patrulharem as rotas marítimas e para ocuparem
terras, a fim de garantir apoio aos seus
navegadores e comerciantes. Estas iniciativas
tiveram bastante êxito.
O Velho do Restelo é uma personagem criada por
Luís de Camões no canto IV da sua obra Os
Lusíadas. O Velho do Restelo simboliza os
pessimistas, os conservadores e os reaccionários
que não acreditavam no sucesso da epopeia dos
descobrimentos portugueses, e surge na largada
da primeira expedição para a Índia com avisos
sobre a odisseia que estaria prestes a
acontecer.
A expressão é actualmente utilizada, conforme a
intenção inicial de Luís de Camões, para
representar o conservadorismo.
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A
frota, já preparada por D. João ll para a grande
Viagem à Índia, Encontrava-se então reunida na
praia do Restelo (Belém – Lisboa). Compunha-se
de 3 naus (S. Gabriel, São Rafael e Bérrio) e
uma barcaça de mantimentos, levando todas,
aproximadamente, uma tripulação de 170 homens.
Era seu almirante Vasco da Gama, e piloto, da
nau da capitania, Pêro de Alenquer. Assim
constituída, e depois de desfraldadas as velas,
em que se via a Cruz de Cristo, a armada partiu
de Belém com destino à Índia, no dia 8 de Julho
de 1497. A 22 de Novembro, dobrava o Cabo da Boa
Esperança, a 15 de Abril de 1498 aportava em
Melinde, e a 20 de Maio do mesmo ano chegava
finalmente a Calecute (Índia), depois de ter
visitado toda a costa oriental da África. Estava
descoberto, por mar, o Caminho do Oriente.
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Vasco da Gama é uma das figuras mais relevantes
da história de Portugal e um dos grandes vultos
da história europeia no início dos tempos
modernos.
Nenhuma terra portuguesa ficou tão ligada a
Vasco da Gama como Sines da mesma forma como
Vasco da Gama não se ligou a nenhuma outra terra
como a Sines. Ele tinha Sines na alma. Toda a
vida, Vasco da Gama teve um sonho: ser conde de
Sines. Acaba por não chegar a realizar esse
sonho mas isso indica-nos que Sines era uma
terra que deveria conhecer desde a infância. O
alcaide do castelo de Sines era pai de Vasco da
Gama e este terá nascido provavelmente no
próprio castelo. Apesar de não haver nenhum
documento que relate o seu nascimento (uma vez
que na época não era dado qualquer relevo ao
nascimento das pessoas) as probabilidades do
nascimento se ter verificado no castelo são
muito elevadas. Conhecem-se perfeitamente as
circunstâncias da morte de Vasco da Gama mas
quanto ao nascimento não há dados fiáveis. Mesmo
quanto à sua data de nascimento não existe
nenhum documento ou qualquer indício que possa
dar uma forte evidência de uma data. Sabe-se
apenas que nasceu entre 1465 e 1475 e que era
filho de Estêvão da Gama, o alcaide do castelo
de Sines, e era o segundo filho, tendo um irmão
mais velho chamado Paulo da Gama.
Um dos problemas curiosos que os historiadores
tiveram que resolver era o porquê de ser o irmão
mais novo a comandar a expedição que descobriu o
caminho marítimo para a Índia, sendo que,
naquela época, era norma que fosse o filho varão
a assumir as maiores responsabilidades e
continuar as tarefas e negócios familiares. A
hipótese do Prof. José Hermano Saraiva é de que
Vasco da Gama seria o irmão mais forte, mais
vigoroso e com maior resistência física. Paulo
da Gama, ao que tudo indica não seria uma pessoa
particularmente resistente, tendo sido sempre de
saúde frágil. Talvez por isso, D. Manuel tenha
confiado o comando da armada ao irmão mais novo,
ou, mais provavelmente, aos dois irmãos. No
entanto, seria Vasco da Gama a impor-se como o
mais enérgico e capaz de suportar fisicamente a
empresa. Aliás, o irmão mais velho acabará mesmo
por morrer na viagem de regresso da Índia. É
assim, compreensível que Vasco da Gama tenha
ficado conhecido como o único comandante da
viagem à Índia.
Em Sines, é já tradição há muito tempo que Vasco
da Gama tenha de facto nascido no castelo da
vila. O castelo foi construído no reinado de D.
Pedro I por alturas da morte de Inês de Castro
(v. Crónicas de Fernão Lopes), tendo uma
arquitectura simples que indica funções quase
exclusivamente militares. Sem dúvida que, sendo
Vasco da Gama filho do alcaide do castelo terá
andado no castelo e nas zonas circundantes. Foi
também neste castelo que se fez uma exposição,
em 1998, sobre Vasco da Gama: a exposição "Vasco
da Gama e a sua época". A exposição tinha um
núcleo no castelo e outro na igreja das Salvas,
uma igreja mandada reconstruir pelo próprio
Vasco da Gama quando já era vice-rei da Índia.
Estêvão da Gama era um homem forte e corajoso e
da confiança do rei D. João II. Apesar de se
saber que a família Gama teria prestado grandes
e muitos serviços à coroa apenas há registos de
um pois era aquele que era mais contado e que
chegou até aos nossos dias. Numa determinada
altura D. João II teve necessidade de um agente
seu numa cidade do Norte de África que desejava
conquistar. Terá então enviado Estêvão da Gama
que fez a viagem miseravelmente vestido de
vendedor de figos secos. Como vendedor de figos
secos foi fácil a Estêvão da Gama circular com a
sua canasta de figos pelas ruas e praças da
cidade em que o rei estava interessado e
conseguir assim as informações geográficas -
físicas e humanas - que tanto interessavam ao
monarca português.
Este episódio serve também para mostrar que a
lenda de que Vasco da Gama seria descendente de
uma família fidalga não passa de lenda popular.
Nenhum monarca da altura encarregaria um monarca
de fazer um serviço como este que vimos. Seria
contra a mentalidade da época. Para mais, é
sabido que el-rei D. João II tinha vários
servidores talentosos recrutados entre pessoas
de classes sociais ditas humildes e que não
estaria apenas dependente dos seus conhecimentos
junto do clero e nobreza. D. João II podia assim
requisitar qualquer serviço, por muito estranho
e invulgar que fosse sem que lhe fossem
colocadas questões ou sem necessitar de fazer
perigar a sua posição política. Este monarca,
aliás, costumava dizer que os países são como o
mar tendo muitas espécies de peixes diferentes:
o salmonete que é muito bom mas muito caro,
faz-se pagar e é difícil de apagar e a sardinha
que existe em abundância, é saborosa e não custa
quase nada. E D. João II usualmente concluía "eu
sou pela sardinha" querendo significar com isto
que procurava apoio nas classes populares sempre
que o podia fazer. E, de facto, no seu reinado
conseguiu todo o apoio político das classes
populares.
Era frequente servir-se de agentes como Estêvão
da Gama, decididos, corajosos, capazes de correr
quaisquer perigos necessários. Era por serviços
como o descrito acima que Estêvão da Gama era
alcaide do castelo. De notar também que o
castelo não dependia do rei mas sim da Ordem de
Santiago. A sede da Ordem de Santiago era no
castelo de Palmela uma vez que era aí que estava
o mestre da Ordem, D. Jorge (filho do rei D.
João II). Assim, D. Manuel poderia gostar muito
de Vasco da Gama, mas Sines não pertencia ao rei
D. Manuel pertencia a D. Jorge filho do rei D.
João II, o monarca da altura de Estêvão da Gama.
D. Jorge era o homem que o rei D. João II quis
que fosse rei. Acaba por não o ser pois em Roma
estava o cardeal Alpedrinha e o cardeal D. Jorge
da Costa inimigos do rei D. João II que
conseguiram dispor as coisas de forma a que a
Santa Sé nunca reconhecesse que D. Jorge era
filho do rei D. João (mesmo apesar de D. João o
ter criado como seu filho e como sucessor da
coroa portuguesa). Como Roma não o legitimou D.
Jorge não pôde herdar o trono e em vez de ser o
filho de D. João II a herdar acabou por ser o
primo D. Manuel.
Estes factos não viriam a perturbar a condução
dos assuntos de Estado nem sequer a causar
qualquer perturbação familiar entre os dois
primos (D. Jorge e D. Manuel) uma vez que D.
Manuel sempre tratou dos assuntos de seu primo
com todo o cuidado. Foi por isso que D. Manuel
não se conseguiu impor enquanto monarca quando
quis dar a vila de Sines a Vasco da Gama por
serviços prestados: seu primo, que era a cabeça
da Ordem detentora da vila não concordou. D.
Manuel não teve a coragem e não quis passar por
cima da autoridade do filho do anterior rei. Foi
preciso que Vasco da Gama esperasse 20 anos até
ser conde em 1518. A promessa de que seria feito
conde ocorreu logo após a descoberta do caminho
marítimo para a Índia em 1498. E, mesmo após
esse tempo acaba não por ser conde de Sines mas
antes da Vidigueira e Vila de Frades. É após a
compra destas duas localidades por Vasco da Gama
e após ter sido feito conde que Vasco da Gama se
passa a auto-intitular Almirante-conde e passa a
rodear-se de um fausto quase real.
Vasco da Gama entrou na história por ter sido o
comandante da expedição que descobriu o caminho
marítimo directo desde Lisboa até à Índia. Na
altura da descoberta já todos os países europeus
conheciam a Índia e sabiam onde ficava. A Índia
abastecia a Europa de especiarias que eram uma
mercadoria preciosa devido ao seu uso na
alimentação (conservação e uso culinário),
medicina, farmácia, fabrico de colas, de tintas
e perfumes. O mecanismo de conseguir as
especiarias era algo complexo e passava por
vários intermediários o que as tornava um
produto particularmente caro e difícil de obter.
Normalmente eram mercadores árabes que da Índia
as traziam até à região do Médio Oriente e do
Mediterrâneo Oriental. Quem fazia a distribuição
para a Europa Ocidental eram normalmente as
cidades italianas tradicionalmente ocupadas no
comércio com o oriente.
Daí que, desde há muito tempo que a generalidade
dos países da Europa Ocidental procurassem
encontrar uma forma de achar o caminho marítimo
para o oriente. É isso que leva Cristóvão
Colombo a propor ao rei de Portugal, D. João II,
uma tentativa de descoberta da Índia mas através
de uma circum-navegação (navegando sempre para
Ocidente em linha recta até chegar ao oriente ao
invés de tentar navegar para Oriente). D. João
II tinha muitas dúvidas acerca da eficácia da
tentativa de Cristóvão Colombo. Se bem que os
argumentos de Colombo pudessem ter colhido
simpatias junto do rei português, este estava
interessado numa viagem que efectivamente lhe
trouxesse o resultado seguro da descoberta do
caminho para a Índia e não havia nenhuma certeza
de que Colombo não fosse encontrar obstáculos
demasiado grandes pelo caminho. Colombo haveria
de encontrar um obstáculo que julgou ser a Índia
de início: a América.
De qualquer forma D. João II não cede e não
ordena a expedição de Colombo acabando por ser
os reis católicos mais tarde a fazê-lo. É sim,
D. Manuel que ordena aos irmãos Gama que
preparem a expedição. Vasco da Gama embarca
então como comandante numa expedição cujo
primeiro objectivo era descobrir se, navegando
para Oriente, seria possível chegar à Índia. A
expedição sai com duas naus feitas de propósito
p aquela expedição (S. Gabriel e S. Rafael) uma
caravela chamada Perreo e há alguns
historiadores q defendem a inclusão de um quarto
navio, um velho navio carregado de
abastecimentos. A expedição sai de Lisboa em 8
de Julho de 1497 com cerca de 150 homens, do
local onde hoje estão os Jerónimos. Daí que,
ainda hoje, o dia 8 de Julho seja o dia da
Marinha em Portugal. A viagem durou dois anos.
Chegaram a Calecute em 28 de Maio de 1498 onde
encontraram dificuldades em conseguir acordos
comerciais com o Samorim de Calecute. Regressam
depois a Portugal numa viagem dramática. A
viagem de regresso enfrentou ventos contrários
(só p atravessar o Índico levaram mais de três
meses), todos os dias morriam marinheiros
vítimas de escorbuto. Quando chegaram a Lisboa
em finais de Agosto de 1499, já só eram 30 dos
150 que tinham partido.
Apesar das dificuldades Portugal ficou, com
aquela viagem, com uma importante posição no
comércio das especiarias e com a descoberta mais
decisiva da passagem da Idade Média para a Idade
Moderna: a ligação marítima entre ocidente e
oriente. Havia também uma questão mais pessoal.
Colombo tinha sido nomeado pelos reis católicos
almirante-mor do mar das Índias (apesar de não
ter descoberto o caminho para a Índia) e existia
alguma picardia entre os monarcas espanhóis e o
português por esse facto. Quando a expedição
portuguesa chega a Lisboa, D. Manuel nomeia
imediatamente Vasco da Gama almirante-mor das
Índias para mostrar que, afinal, o caminho para
a Índia tinha sido descoberta por ele e não por
Colombo. D. Manuel foi generoso com Vasco da
Gama e, em pouco tempo, fez dele um homem rico.
Mas depois desta expedição Vasco da Gama volta
ainda a prestar grandes serviços ao rei. Para a
armada seguinte, cerca de 1500, já é nomeado
comandante um fidalgo. Na primeira viagem, o
desconhecido e as hipóteses de se perder
totalmente a armada levaram a que se nomeasse
Vasco da Gama, na altura um mero escudeiro.
Desta feita, o elemento desconhecido era mais
reduzido, as hipóteses de sucesso eram maiores e
então o monarca nomeia Pedro Álvares Cabral
comandante da expedição. Como se sabe foi esta
expedição que descobriu o Brasil. Mas esta
expedição foi mal sucedida: os portugueses que
foram deixados na Índia acabam chacinados devido
a intrigas entre mercadores. Ao que parece a
rivalidade com os mercadores muçulmanos teria
acabado num banho de sangue tendo sido os
portugueses todos mortos. Isto faz com que a
coroa perceba que não poderá fazer concorrência
comercial no oriente sem considerar o aspecto
militar.
Assim, D. Manuel volta a chamar Vasco da Gama e,
desta feita, fornece-lhe uma armada com 20
navios com cerca de 3.000 homens, muita
artilharia e encarrega-o de voltar à Índia
vingar a chacina dos portugueses, tomar e
defender a feitoria onde os portugueses se
tinham instalado. Vasco da Gama regressa à Índia
em 1502 tendo resolvido a questão com uma
ferocidade que em pouco tempo o terror estava
espalhado na região pois o rasto de sangue
deixado pela expedição teria sido muito grande.
Ao mesmo tempo que espalha o terror deixa
afirmado o poder da coroa portuguesa do séc. XVI
conseguido com isso obter benefícios económicos
importantes. Durante muito tempo hindus e
muçulmanos não molestam mais qualquer português.
Após essa expedição volta para Sines. Estava a
construir uma casa apalaçada quando o mestre da
Ordem de Santiago, D. Jorge, protestou contra a
construção da casa devido a não ter dado
permissão para novas edificações num região
controlada por si. O rei D. Manuel é obrigado a
enviar uma carta a Vasco da Gama onde lhe dá 30
dias para abandonar a vila de Sines levando a
família e proibindo-o de regressar à vila. Ao
que se sabe isto terá desgostado bastante Vasco
da Gama, ao ponto de o fazer desejar abandonar o
país. Envia um pedido ao rei onde pede permissão
para ir servir o país noutras terras. Mas o
pedido é recusado.
Mais tarde os serviços de Vasco da Gama voltam a
ser necessários. Desta feita não se tratava de
reforçar a posição portuguesa militarmente ou de
criar as condições de segurança para a presença
portuguesa na Índia. Acontece que a presença
portuguesa na Índia se tinha desleixado
permitindo um aumento da corrupção, preguiça,
desrespeito pelas ordens e interesses da
coroa... Nesta altura, 1524, Vasco da Gama não é
já um homem novo tendo já passado dos cinquenta
anos. Com a sua idade e o desgaste de uma vida
ao serviço da coroa sempre em missões difíceis
ao fim de três meses de chegar à Índia morre
devido ao esforço, à violência de mais uma
viagem e do trabalho que encontrou pela frente.
Ele tenta, em três meses acabar com alguns anos
de desorganização.
Apesar de ser considerado um herói nacional,
Vasco da Gama é uma figura não muito celebrada
em Portugal. Em todo o país há pouquíssimas
estátuas desta personagem. A localidade onde se
sente mais a sua presença continua a ser Sines.
"Capítulo XXII.
DO RECEBIMENTO, HONRAS E MERCES, QUE ELREY FEZ A
VASCO DA GAMA, E AOS QUE COM ELLE FORÃO NA DITA
VIAGEM.
ELREY estaua em Syntra quando achegou hum Artur
Rodrigues, casado na ilha Terceira, o qual tinha
de seu hum carauellão prestes pera hir ao
Algarue, e vendo entrar as naos se fez á vela,
nom sabendo donde vinhão, e assi á vela passou
per ellas antes que sorgissem, e perguntou donde
vinhão e lhe responderão: vem da India. Ao que
logo se fez na volta de Lisboa onde chegou em
quatro dias, e entrou em Cascaes, e se metteo em
huma barquinha que hia pera terra, e mandou a
hum filho seu que hia com elle que ninguem
deixasse chegar a falar, nem dixesse nada das
naos da India. O qual Artur Rodrigues chegando a
terra, logo ápressa se foi a Syntra, porque os
da barquinha lhe dixerão que lá estava ElRey, e
andou, e chegou huma hora da noite, e foy a
ElRey que vinha assentarse á mesa pera cear. E
Artur Rodrigues tomou a mão a ElRey, e lha
beijou dizendo: “Senhor beijei a mão a V. A. por
a grande mercê que me fará por tão grande boa
noua que lhe trago. Ha quatro dias que parti da
Terceira, onde deixo duas naos da India, que
vindo á vela em hum meu caravellão passey per
ellas, e perguntey: disserãome que vinhão da
India. E per ser tão boa noua nom quiz que
outrem viesse diante que me ganhasse a mercê que
espero me V. A. me fará.» O que ElRey nom pôde
acabar de ouvir, e se foy logo á capella que
está dentro nos paços, onde fez oração e deu
muitos louvores a Nosso Senhor por tão grande
mercê que lhe fizera. Ao que houve grande
aluoroço, e todolos fidalgos acodirão ao paço
dar mais prazer a ElRey de seu muito prazer. Ao
Artur Rodrigues tomou por caualeiro de sua casa,
e a seu filho moço da camara, e lhe fez mercê de
cem cruzados, que logo lhe deu o comprador d’ElRey".
"Capitolo XXVIII
DE COMO NICULAO COELHO DEU NOUA A ELREY DOM
MANUEL QUE A INDIA ERA DISCUBERTA.
Nauegando Vasco da gama e Niculao coelho pera
esta ilha de Santiago, apartouse Niculao coelho
hua noyte e foyse caminho de Portugal pera ir
diante dizer a elrey dom Manuel como a India era
discuberta, e ganhar as aluisaras de tão boa
noua como sabia que aquela auia de ser pera
elRey. E aos dez dias de Julho do anno de mil e
quatrocentos e noventa e noue chegou á vila de
Cascays. E sabendo hi como elRey dom Manuel
estaua na vila de Sintra desembarcou e se foy
logo lá e contou a elRey quanto acontecera a
Vasco da gama despois que partira de Portugal e
chegar a Calicut e se tornar, do que elRey ficou
tão contente como a quem se daua hua noua de
tamanho prazer como aquela era, e fezlhe por
isso muyta merce dacrecentamento de honra e
detença".