Ano III - Janeiro de 2010

Divulgação: Carlos Leite Ribeiro

Revisão e Arte Final:

Iara Melo

 


Participação de Diversos Autores

do Portal CEN

 

 


 
RASTRO DE ORGIA

Ana Maria Nascimento


     Embora no Brasil o meretrício seja ilegal e sofra preconceito, existem bordéis espalhados em toda parte do país.
     As pessoas dessa área enfrentam desafios incalculáveis, porém constituem o quadro cognominado “mulheres de vida fácil”.
     Um covil situado na cidade de Aracoiaba, muitas vezes, tem sofrido a ação de malfeitores, os quais expõem o local a extremo risco, para as cortesãs e os freqüentadores do alcouce, haja vista a segurança e o respeito serem absolutamente inexistentes.
    Conta-se que muitos dos clientes desse antro bebiam e desfrutavam os deleites da carne, alheios ao eco das intempéries mundanas. Subitamente, dois facínoras, conduzindo poderosas armas, adentraram o recinto, exigindo aos homens “mãos ao alto” e às mulheres se estenderem ao chão. Naquele momento, o prosaico grupo experimentou a restituição dos prazeres materiais, e despojados de questionamentos, cumpriram as abomináveis ordens.
     Convém mencionar que o Sr. Noliêr Junior, um boêmio muito almejado, no âmbito das limitações, pois estava completamente atordoado, olhava impassível a espantosa cena.
     Os assaltantes ficaram intrigados frente aquela postura, e um lhe perguntou com voz brusca: “Ei, você aí, não vai se levantar?”
     O insensato varão fez imenso esforço e respondeu “leve tudo que quiser “ e continuou impensadamente flutuando na magia do álcool.
     Sua resposta desagradou os invasores do ambiente e projéteis balísticos foram lançados em todas as direções, Fazendo os fregueses do lupanar conhecerem as revelações contidas no apocalipse. Nessa hora decisiva, todos correram, exceto o imprudente ébrio. Entretanto, um dos dos delituosos verificou o quanto ele estava embriagado e enfatizou: “Vamos deixa-lo em paz, esse homem está fora das balizas do bom senso”. E, sarcasticamente, resolveram deixa-lo levitando na fascinação do inconsciente.
     Assim, o prostíbulo assistiu ao súbito e violento ataque sem sofrer nenhum dano, enquanto os amigos tentavam se defender das agressões infligidas pelos fraudulentos resolvidos a mancharem de rubro o acalorado cenário ou tornar definitivamente inerte o sanguinolento instinto.
     Como nada lhe ocorreu, os colegas ficaram intrigados, todavia ele explicou que seu avô já falecido, o Sr. Honorato Alves do Nascimento, acompanha seus passos, defendendo-o de qualquer perigo, por isso sobreviveu frente ao abusivo atentado.
     Aos católicos existentes na esfera social, essa ocorrência reforça a versão de que Nossa Senhora protege a humanidade, mostrando seu infindo amor com os dominados pelo poder da aguardente.
 
 
 
 

 
 
 
REENCONTRO NO TEMPO

Edson Carlos Contar
 

     Em Ab-além, cidade dos anjos bons, perdida nas fraldas do horizonte, reúnem-se os anjos para a apresentação dos relátórios de missões para as quais foram designados.
     Dopenin é um deles. A ele coube o encargo de proteger Lívia, uma mulher que, pela segunda vez, vive no plano terra, por opção própria, em busca de um amor perdido no tempo.
     Hassan é o nome do guerreiro mouro que conquistou o coração da lusitana dominada.
     Filho de Hussain, que comandava uma legião invasora, Hassan apaixonou-se pela cachopa  e foi correspondido.
     Às escondidas, Hassan encontrava-se com Lívia e, nos bosques que cercavam Amares, pequena vila nos confins de Braga, viveram um romance proibido, por imposição dos pais da linda cachopita, que temiam perder sua filha para um invasor bárbaro que, certamente, a abandonaria, após forçá-la ao pecado da carne, como outros o faziam em suas abusadas conquistas aos vilarejos vizinhos.
     O amor de Hassan por Lívia era, no entanto, verdadeiro. Uma louca paixão uniu os dois numa cumplicidade que arriscava  o castigo para ambos.
     Ele, por ter sido prometido a uma princesa de um país do Oriente. Ela, por ser filha única de um vinicultor lusitano que sonhava ver a filha casada com o boticário da Vila.
     Ao saber do romance com a lusitana, o pai de Hassan determinou sua tranferência  para a Itália, onde os mouros ainda lutavam para manter o domínio na região.
     O destino não aceitou essa mudança na escrita da vida de Hassan e uma espada inimiga fez com que ali se interrompessem os caminhos de sua existência.
     Arrependido, Hussain procurou a cachopita e deu-lhe a triste notícia. Para a moça, foi o fim dos sonhos de felicidade que tanto planejou com o amado.
     Casou-se com o boticário, atendendo à determinação dos pais. Mas, em seu pensamento, só existia a imagem de Hassan... Pediu, então, a Deus que pudesse encontrá-lo em outra vida.
     Viveu com o esposo e esperou o dia da chamada para o desconhecido, imaginando poder encontrar o guerreiro, tão logo partisse para o outro lado.
     Descuidou-se da saúde... Pouco importava morrer. Só esperava o reencontro e, para tanto, chegou mesmo a forçar um pouco sua partida, ignorando medicamentos e recomendações dos curandeiros da região.
     Um dia, a debilidade levou-a ao fim.
     Não esperava, no entanto, que sua cumplicidade com a morte resultaria em uma exigência do destino para que cumprisse, até o fim, sua união com o boticário.
     Foi para um plano de tratamento e lá permaneceu por muito tempo... Séculos, para os da terra.
     Um dia retornou e o que estava escrito se cumpriu: reencontrou o boticário e teve que retomar sua missão.
     Com ele teve filhos, foi fiel e dedicada. Amou-o, como ele o fez por merecer, por ser homem bom e também devotado a ela.
 
     Um dia, sem saber, sua obrigação chegou ao fim. O boticário partiu da terra e ela ficou viúva.
     Habitava, então, em um país distante do seu. Vivia num lugar à beira-mar, onde criou os filhos e ganhou netos.
     Sozinha, apegou-se aos costumes dos novos tempos e aprendeu a navegar pela máquina da informática, sem imaginar que, ali, encontraria a parte interrompida de sua vida...
     Dopenin, o anjo bom, iniciava sua missão: proteger e orientar a mulher, para receber o que pedira a Deus, séculos atrás .
     Na tela, um nome chamou sua atenção... Do outro lado, acontecia o mesmo com um homem que habitava, a mais de mil quilômetros de distância.
     Dopenin desviou o olhar da tela e deixou que eles se entendessem...
     O cavalheiro mostrou-se logo um conquistador, não mais de países ou continentes, mas de um coração que a ele estivera reservado no eco do tempo.
     Hassan e Lívia estavam juntos, novamente, embora noutros tempos e com nomes diferentes.
     Agora, nada os impediria de viver o mais lindo romance de amor de todos os tempos...
     Dopenin havia cumprido sua missão...
    Os dois amantes recomeçaram seu caminho de felicidade, unidos mais que nunca pelos desígnios de Deus, como prêmio a duas almas que haviam sido destinadas uma a outra e que as convenções e ignorância dos homens haviam separado no auge de suas existências...
     Maktub!...
 
Campo Grande - MS - Brasil
 
 
 
 

 

FRIA MANHÃ DE JULHO

 

Ilda Maria Costa Brasil

 

 

            Julho. Sábado. Zero Grau. Ruas desertas. Corações aflitos. Gripe A... Bela Vista. Aconchego do lar. Marília acorda com o barulho de louças na cozinha. Levanta rapidamente e vai verificar o que estava acontecendo. Qual surpresa? Seu marido estava preparando o café para os dois.

            Tentou lembrar quando fora a última vez que tal gesto acontecerá, mas não conseguiu.

            - Amor, vou tomar um banho quente e lavar os cabelos. Não abra a torneira. Está bom?

            No momento em que separava a roupa para vestir, pensou em ligar a estufa do banheiro, mas acabou desistindo. Tão logo ligasse o chuveiro, o ambiente ficaria aquecido.

            Devido à baixa temperatura e o sistema ser a gás, a água demorou a aquecer.

            Enquanto a água caia-lhe pelo corpo, sentiu-se carinhosamente abraçada por agradabilíssimas emoções; de repente, a água esfriou. Rapidamente, chamou o marido:

            - Amor, abriste alguma torneira?

            - Não. Estou lendo o jornal.

            - Querido, veja se não esqueceste algo aberto.

            - Já disse que não. Por acaso sou criança?

            Gélida e “envolta” em sabonete, vestiu o roupão e foi à cozinha.  

            Seu marido com um sorriso maroto lavava uma pilha de pratos; pratos limpos que havia retirado do armário.

            - Álvaro, o que estás fazendo?

            - Nada!

            - Nada? Esqueceste que eu estava tomando banho?

            - Querida, a pouco faltou água.

            - Faltou água?

            - É... acabou de vir.

            Triste e se sentindo totalmente vencida, pegou-lhe a mão e disse:

            - Amor, volta a leitura de teu jornal; depois, eu lavo.

            Trêmula, volta ao banho. Julho. Zero Grau. 

 

 

Indignação: Dia da Consciência Negra
 
JUSSÁRA C. GODINHO


Consciência tem raça,
tem forma, tem cor?
Não!
Consciência é a matiz do amor
e a todos enlaça.

Basta de tanto horror!

Paciência também não tem cor
nem raça, nem forma,
mas...
Tem limite e decoro
e não se conforma.

Basta de tanta hipocrisia!

É muita heresia dizer
que consciência tem dia,
esse dia é todo dia
que propicia
alegria e prazer.

Basta! Haja paciência!

Pense e aja com consciência!

Negros, amarelos, pardos,
brancos, irmãos!
Coloquem a mão sobre o peito
e arranquem do coração
os mantos do preconceito!

 

 

 

 
Um amor de oktober

(Por Ricardo Brandes)
 

Ele era um mulato
Muito pobre e sonhador
Era filho de andarilho
Um jovem batalhador

Vagando pela cidade
Buscava uma saída
Sempre com boa vontade
De lutar por sua vida

Certo dia em Blumenau
Jesusvaldo viu e amou
Conheceu uma menina
Por quem se apaixonou

Ele pobre, abandonado
E ela, bem ao seu lado
Um amor assim proibido
Não seria permitido

Ela loira, ele mulato
Um pobre, a outra rica
Ele sem lebre nem gato
Ela de bem com a vida

Encontraram-se um dia
Sozinhos, passando frio
Mas na oktober com alegria
O destino os uniu

Contra tudo e contra todos
Lutaram pra achar saída
Enfrentaram os engodos
Dos preconceitos da vida

Acabaram se casando
E têm uma vida feliz
Estão sempre se amando
Como Deus assim o quis

Por  Ricardo Brandes / Escritor
Blumenau, SC, Brasil
www.blogdaoktober.blogspot.com


 

 


O PORTAL SECRETO

RITA VELOSA

 

    - Eu não sei ler. Você sabe?
    - Não. Ninguém mais sabe!
    - Isso não é verdade! Meu chefe sabe.
    - Ele não vale. Ele é vice-presidente.
   - E vive escrevendo naquele computador, que ainda tem teclado. Ele só conversa por escrito com o presidente da empresa. E eu, que sirvo o café, tenho  em casa um computador bem mais avançado, que obedece aos meus comandos de voz. Não dá para entender meu chefe! Usar um computador , modelo Século XXI, de quase cem anos atrás...
     - Mas vou te dizer uma coisa: não é só ele não! O meu também! Você já reparou, que só esses funcionários do alto escalão é que sabem ler e escrever?
     - Meu avô ainda sabia ler, mas desde que inventaram esses novos computadores, ficou tudo diferente para nós. Meu pai ainda estudou leitura e escrita por um ano. Depois fecharam as escolas. Eu, já nasci bem depois disso...
    - Verdade! Por que será que as escolas de ler e escrever foram fechadas? E, sabe, outro dia, eu entrei de repente, na sala do meu chefe e ele estava num "site" que não tinha som nem imagens. Era todo cheio de uns pequenos sinais. Para mim aquilo é o que eles chamam de “escrita”. Ele estava distraído e sorria. Parecia estar se divertindo muito. Quando percebeu que eu estava observando, desligou tudo rapidamente. Cheguei em casa e tentei acessar aquele  “site”, com comandos de voz, porque eu não sabia  como ler aquele “link”. Mas meu computador dizia que aquele  “site” não existia. Mas eu sei que existe! Eu vi no computador dele. Tenho certeza!
   - Aconteceu o mesmo comigo. Eu ainda fiz mais: copiei aqueles pequenos desenhos do link do computador do meu chefe, quando ele esqueceu o computador ligado, faz umas duas semanas. Depois digitei aqueles desenhos na barra de navegação. Porém, não deu certo também. Eu acho que eles têm “sites” só para quem sabe ler. De alguma forma, eles bloqueiam esses “sites” e portais para nós. Acho que tem que usar alguma senha  ou algum número de IP secreto.
   - Verdade. Também acho isso!
   - E devem existir escolas ainda. Como é que eles aprenderam a ler?
   - Mas se existem, são secretas. Eu nunca soube de nenhuma!
   - Eu não queria passar minha vida inteira servindo cafezinhos. Mas não sei como fazer para  trabalhar em empregos melhores, assim como os dos nossos chefes. Eles tem de tudo: moram em casas confortáveis, comem bem, vivem viajando... É a maior mordomia!
   - Também não agüento mais essa escravidão. Sem saber ler, ficamos na ignorância, totalmente dominados! Desconfio de que eles controlam o que podemos saber ou não.
    -  Verdade! Há meses eu venho tentando descobrir alguém para me ensinar a ler, secretamente. Depois quero ver se dou um jeito de invadir os portais deles para ver o que contêm. Eu ouvi falar que existe uma  sociedade secreta que faz isso.Você já ouviu falar?
    - Já! Parece que o nome é “SPPE”.
    - O que significa?
   - "Sociedade Protetora da Palavra Escrita”. Dizem que eles têm livros  escondidos em casa, o que é muito perigoso, e que trocam  esses livros entre si, para lerem. Sempre que descobrem alguém com um livro, o proprietário some para sempre. Dizem que foi isso que aconteceu com o nosso colega Lineu, que sumiu misteriosamente. Lembra dele?
  - Claro! Foi o caso do Lineu que me fez começar a pensar.
  - Pode bem ter sido isso mesmo! Nos últimos tempos, antes de sumir, ele andava diferente, alegre, com um brilho especial de esperança no olhar.
  - Silêncio! Disfarça! O chefe vem vindo!
    E foi assim, que, no futuro, a oralidade voltou a dominar a comunicação humana, repetindo um cenário de dominação total dos letrados sobre os iletrados, já bem conhecido da raça humana nos primórdios da civilização. Com um agravante: as máquinas, instrumentos poderosos nas mãos de censores implacáveis!
 
 
 
 
 


Fluxo imprevisto

Tania Montandon


Solidão do Grande Terror embalsamado na invisível aura da contingência vital, material, terrena. Despreparo de uma ignorância daquilo que não se pode nomear fragmenta as imprescindíveis ligações de coerência, sintática e semântica no despencar da linguagem semiótica, fraturada no âmbito de implacável desolação.

Não, não é um terror em si como se pensa ou entende, mas sim o lapidar espiritual absorvendo uma miríade de ondas energéticas cuja potência esfacela o que se poderia perceber como um ser humano.

O Anjo-Mestre em seu alado corcel deslizante por entre as nuvens do insigne céu, de azul perfumado, a acalentar as mais nobres almas, desfila com destreza inigualável. Uma visão esplêndida daquela entrada majestosa e janota da passagem do Anjo enquanto as nuvens em azáfama vão cedendo espaço para o elegante ser, glorificando a cena do surgimento de resplandecente personalidade.

Borbulhas de ar, quebrando como bolas de sabão, saem na ânsia pressurosa do coração arfante e inflamado. Espera-se, no entremeio do devir de mistério e transcedência, qualquer panacéia que abrevie a insustentável condição de inoperantes trejeitos convencionados pela impostura desajeitada daquela existência por demais alienada.


Chovem ruídos na carência táctil
Cria-se no desespero do viver
O dispositivo que protege e alivia
Sem quatro mãos alegria sucumbiria

Todavia o cosmos é fértil e expansivo
Possibilita no inaudito encontro
Das fantasmáticas mãos de sabedoria

O esvair dum conteúdo cambiante
E dançante na mágica sintonia
Do rodopiar de letras, energias, harmonia.
 
 

 
 


O INFORME DE ZEFINHA

Tchello d’Barros
 

 Tchello, a versão que tenho em mãos são as anotações de uma caderneta que meu finado Enaldo levava no bolso para escrever cordéis, quando perambulava pelo Brasil vendendo redes. O mais provável é que o ocorrido tenha se dado em alguma província mais ao sul, terra de muitos imigrantes, principalmente europeus, possivelmente no Paraná ou quem sabe no Rio Grande do Sul. Mesmo faltando algumas páginas, transcrevo aqui, sem os sotaques e regionalismos das anotações, os fatos que me chamaram mais atenção, na mesma versão que tenho lido para meus aluninhos aqui na alagoana Vila Poxim. As fotos em anexo são do Bode Lair.
 
 "Havia um certo garoto, loirinho, do qual nem lembro o nome, que gostava muito de ler e aprender tudo que podia sobre o mundo, sobre os homens, sobre a vida. Enquanto os outros meninos, jogavam bola, lá estava ele metido entre os livros, rato-de-biblioteca, lendo sobre tudo um pouco. A mesada era uma merreca e ainda assim torrava nos sebos da cidade, com os gibis de uma tal de Druuna e de um certo Robert Crumb. Aos doze anos de idade já havia lido a Bíblia, o dicionário Aurélio, todas as fábulas de Esopo e as de La Fontaine, os contos dos Irmãos Grimm e até mesmo os Catecismos de Carlos Zéfiro. Tinha um gosto um tanto eclético, o mocinho. Me irritava um pouco com suas perguntas intermináveis sobre o poeta Jorge de Lima, que era de minha terra.
 
Um tanto anti-social, tinha lá suas manias, na hora do recreio, na escola, preferia ir à pequena biblioteca do educandário, ver as novidades. Decorava os nomes de ruas, colecionava mapas e sabia de cor as capitais de quase todos os países do mundo. Um prodígio, consideravam alguns docentes. Um zero-à-esquerda, taxavam alguns coleguinhas. Magriço, despenteado, óculos fundo-de-garrafa, vivia importunando os professores com perguntas do tipo: de onde viemos e pra onde vamos, qual o sentido da vida, o que há depois da morte, se deus existe, essas coisas. Mas alguns até que gostavam dele, era muito aplicado nas aulas de português, publicava uns poeminhas góticos no jornaleco da escola e em um blog editado por uma paquerinha sua, garota cheia de piercings e tatoos. Ele prometeu a ela que quando ela fizesse doze anos também, lhe daria um beijo na boca. De língua.
 
Numa tórrida tarde de dezembro, depois de roubar mais um livro na livraria megastore de um imponente shopping center instalado na cidade, sentou-se num banco da praça central desse centro comercial e começou a ler a primeira página do tal livro, uma antologia de autores locais, com textos muito ruins em sua maioria, ele comentou depois. Já estava no meio da leitura de uma tentativa de soneto quando ouviu uns sininhos estranhos. Quando deu por si, percebeu que os sons vinham de uns veadinhos, de pelúcia, é claro, que acompanhavam um trenó vermelho, e uma árvore de natal gigantesca, cheia de ornamentos dourados, muita neve artificial, uma estrela giratória no topo e inúmeros pacotes de presente na base da tal árvore, com as logomarcas das lojas, lógico. Ficou ainda mais perplexo com um papai-noel balofo, suarento, barba de três dias sob a barba postiça, que ali distribuía pirulitos para as crianças, sob o olhar terno dos papais e mamães. Muitos aproveitavam para fotografar o momento, cujo encanto natalino inebriava a todos, ampliado pelo som dos tais sininhos e pelas músicas de natal tocadas ininterruptamente no sistema de som daquele lugar imenso.
 
Pasmo com toda aquela neve artificial, num país tropical, o menino notou então duas garotas em trajes de duendes, ou algo assim, eram as noeletes, ou noelitas, ou lolitas, algo como ajudantes do bom velhinho, que acabara de assustar uma criancinha, abrindo o maior berreiro. Inquiridas pelo garoto, as meninas não souberam explicar qual o sentido de tudo aquilo, mas uma disse que o papai-noel mora no Pólo Norte e que o garoto poderia ir ali e fazer um pedido para ele, qualquer pedido. A outra menina disse que a grana desse trabalho daria para comprar seu primeiro iPod, e como se sabe, o primeiro iPod ninguém esquece, pode crer. Ainda deu tempo do menino explicar, com alguma seriedade, que aquele traje vermelho do papai-noel tinha sido projetado pela indústria da coca-cola, há cerca de um século, segundo ele havia lido num exemplar antigo do Lunário Perpétuo. Elas apenas disseram em uníssono: e daí?
 
Então o garoto aproveitou uma folga do papai-noel, parece que havia acabado os pirulitos, mas ele foi lá fazer seu pedido. Chegou logo argumentando que chegara aos doze anos de idade e não queria mais crescer, conforme aprendera lendo as aventuras de Peter Pan e os meninos da Terra do Nunca. Mas não lhe bastava permanecer com doze anos, queria ter essa idade para sempre. Quando percebeu a perplexidade do velhinho, quase caindo a barba postiça, ainda perguntou-lhe se aquela armação toda ali era em função do aniversário do crucificado, aquele sobre o qual ele leu na Bíblia. O bom velhinho acenou que sim e estava para dizer alguma coisa quando o infante perguntou-lhe se sabia que Lennon, Che Guevara e Mickey Mouse são mais famosos que o crucificado. O velhinho que não sabia disso, disse que sabia, pra ser simpático com esse garoto esquisito e cheio de espinhas. Queria logo era sair dali, tirar aquela roupa vermelha e tomar um bom chope gelado, pois não estava fácil aquela tarde escaldante.
 
Nessa altura, o rapazote, que já vasculhava um grande saco vermelho ao lado do trenó, onde só encontrou umas bolas de isopor, pra fazer volume, perguntou ao velhinho se o crucificado era imortal mesmo. O velhinho, que nem velho era, quanto mais velhinho, tirou por um momento a touca vermelha, passou um lenço na careca suada e disse que sim, pra concordar logo com o garoto. O pirralho magrelo então perguntou se ele, o papai-noel, também era imortal, já que havia lido que há mais de um século que ele fazia todo ano aquele percurso, mesmo antes de ganhar da coca-cola a tal roupa vermelha esquisitíssima. O simpático homem, agora fazendo um nó na boca daquele saco vermelho, titubeou um pouco, mas acabou dizendo que sim, quase num resmungo. O pivete, não contente, mostrou então o livro recém adquirido e perguntou ao jovem velhinho se aqueles escritores eram imortais também. Um tanto perplexo, o santo homem, que nunca havia lido uma linha sequer de autores locais, folheou a antologia e disse que achava que não, que imortal mesmo só escritores como o Mário Quintana, pois ouviu não sei onde comentários sobre uma homenagem no dia de nascimento desse autor. Era algo sobre o escritor ter entrado ou não para a Academia Brasileira de Letras, onde se não me engano, as pessoas se tornam imortais, comentou comigo mais tarde o menino. Parece que recentemente aconteceram uns assassinatos por lá também. Será que mataram os imortais?
 
Nessa altura, o jovenzinho, recusando uns pirulitos trazidos pelas lolitas, digo, noelitas, insistiu com o velhote, dizendo que ele também era um escritor e tinha direito a ser um imortal também, queria fazer seu pedido e ser eterno à qualquer custo. O bom velhote, de olho na beleza das vendedoras das lojas próximas, nem entendeu bem a justificativa do pequeno, principalmente porque aquelas botas apertadas já estavam lhe dando calos. Então o magriço, de cenho franzido, encarou firmemente o senhor de roupa vermelha, e quis saber como ele, papai-noel, lhe daria seu presente, como faria dele um imortal. Nisso, o já impaciente papai-noel percebeu que o assunto era mais sério e para se livrar de vez daquele guri franzino, tentou lhe explicar que isso de imortalidade não existe, que não poderia lhe entregar esse presente e tentou desconversar perguntando ao menino se nesse ano ele tinha praticado boas ações, ou se havia sido muito traquinas.
 
Ato seguinte, o guri, já se enfezando, disse muito irritado que não se usa mais a palavra traquinas, que caiu em desuso, e que queria seu presente de qualquer maneira, que também tinha direito, enquanto o velhotinho tentava lhe acalmar. Um segurança que presenciou essa cena, tentou oferecer ao menino um carrinho de brinquedo de uma loja próxima, mas o garoto deu um chute no brinquedo, que voou longe e se espatifou. Enfurecido, o mocinho começou a chorar muito e começou a berrar que queria seu presente, e chutou o saco de bolas de isopor espalhando-as pelos corredores do estabelecimento, derrubou também os veadinhos, dois seguranças tentaram segurá-lo mas o mesmo, ágil, subiu no trenó e dali se jogou sobre a árvore, e com seu peso a mesma balançou, derrubando a estrela na cabeça do bom velhotezinho, que foi à nocaute no ato. Ainda agarrado na árvore, foram caindo presentes, estrelas, sininhos, bolotas coloridas e com o balanço, a própria árvore foi se inclinando com o peso do garoto, ao tempo que as lolitas, digo, noeletes, gritavam em uníssono: madeeeira!
 
Ouviu-se então, até mesmo na praça de alimentação, um grande estrondo, uma barulheira infernal, da árvore que caiu sobre um chafariz da pracinha, que começou a jorrar água por todos os lados, e a copa da árvore atingiu umas vitrines causando o maior estardalhaço, espalhando a neve artificial pelos corredores e voavam bolotas coloridas por tudo quanto é canto. E o menino? Cada vez mais enlouquecido, vermelho, olhos esbugalhados, veias saltadas na garganta, apenas gritava sem parar que queria ser imortal, enquanto a equipe de segurança tentava dominar o pivete, já rouco, sentindo falta de ar e revirando os olhos.
 
Uma semana mais tarde ouvi no rádio que ele havia despertado finalmente do estado de coma, causado pela convulsão e já estava até recebendo visitas. Fui até lá à fim de presenteá-lo com um cordel sobre Calabar, o primeiro herói brasileiro, mas ele ainda estava um pouco melancólico. Até tentou me explicar que estava pensando em pedir ao papai-noel um livro que lhe ensinasse o idioma alemão.
 
De repente entra pela porta uma comitiva de autoridades, repórteres, vereadores, madames e até uns escritores daquele livro, que hora estava sobre uma cômoda ao lado da cama. Fizeram uma espécie de cerimônia e entregaram então ao garoto um título, com direito à diploma, medalha, broche, adesivo, caneta, e agenda, de membro de uma academia de letras da cidade. Ainda meio sem forças, pudemos ouvir depois de um suspiro, uma exclamação como 'agora sou imortal'. Foi a última coisa que ouvi dele, mas parece que viveu feliz para sempre, para todo o sempre.
 
 
 

 
 
TEU CORPO

Théo Drummond
 

O teu corpo é um convite a uma aventura
a qual me lanço em busca de um caminho.
E ao procurá-lo, eu uso da ternura
que me trará, em troca, o teu caminho.

E assim,  cada momento de procura
do que ocultas, num leito em desalinho,
torna o instante vivido um loucura,
já que em teu corpo há tudo o que adivinho.

E quando foges do que eu quero dar-te,
fingindo não querer envolvimentos,
num prazer que será de parte a parte,

Vou te prendendo com meus movimentos,
e no teu corpo - que é uma obra de arte -
busco o caminho dos descobrimentos.
 
 
 
 
 
 
Amanheci querendo tudo mudar

Vanderli Granatto


Amanheci querendo tudo mudar.
Tento discernir com meu olhar,
o que tenho perto de mim.
Amanheci querendo sonhos destruir
Desistir
Não há porque persistir
Sonhos inócuos
Neles pelo tempo me perdi,
colocando em quimeras,
 o mais sincero de mim.
Dei ouvidos às fantasias,
Agarrei chances a advir...
Fechei portas do real,
foi este o mal.
Malogrando o viver
me embrenhei
nos alinhavos da ilusão.
Transformei meu coração,
sem razão palpável, solúvel,
que solucionasse o meu querer.
Fui insólita, amarguei o sentimento.
Por ser sentimental demais,
deixei ranhuras em meu coração.
Não quero sonhar no porvir,
Não quero sonhos por vir,
Necessito de sonhos dos quais
 possam tão logo estar,
pertinho de mim.
Por me querer bem,
 não posso mais me maltratar.
Amanheci querendo tudo mudar.

Vanderli
12/01/2010
Botucatu/SP
 


 


PASSAGEM DO ANO DE OUTROS TEMPOS

Tito Olívio
 

 Desde que me conheço, sempre a Passagem do Ano exerceu sobre mim uma estranha magia, que terei herdado dos tempos abissais, quando o Homem, ainda novo na Terra, em tudo via mistérios insondáveis e se sentia pequenino e desamparado, perante a grandiosidade que o rodeava.

Nem sempre festejei este evento, por razões várias, mas, sempre que me foi possível, não deixei de prestar a minha homenagem ao Ano Novo, ao qual poucas vezes terei formulado algum pedido.

A minha meninice, como a minha adolescência, decorreu na zona de Lisboa então chamada Avenidas Novas, onde vivia a média burguesia, entre o Largo D. Estefânia e o velho Matadouro. Foi na Rua Almirante Barroso (um dos vultos notáveis da implantação da República), mesmo ao lado do Liceu Camões, que frequentei durante sete anos.

Lembro-me de Passagens de Ano ser dessa época. Em minha casa fazia-se sempre uma festa, onde estavam familiares e vizinhos e a que não faltavam as fatias paridas (que eram feitas para as parturientes e hoje têm o nome mais fino de fatias douradas) e o arroz doce. Das restantes iguarias não me recordo. Gostava dos doces, mas o melhor de tudo era mesmo o momento da passagem do ano, quando batia a meia-noite. O prédio onde eu vivia integrava um quarteirão enorme, dando para quatro ruas. Cada prédio tinha o seu quintal e esse conjunto formava o miolo, descoberto, do quarteirão, com cerca de dois campos de futebol de comprimento e um de largura, uns mais ajardinados e conservados que outros, com variadas árvores de fruto.

A quantidade infinitésima de viaturas automóvel existentes em circulação permitia aos moradores gozarem de um silêncio, propício a ouvir-se os variados ruídos, próprios da vida quotidiana de uma casa de família. Permitia, mesmo, que, de dentro de casa, se ouvisse as cantorias dos cegos na rua, o rodar das carroças nas pedras da calçada de basalto e os pregões dos vendedores ambulantes.

O meu prédio era o mais novo de todo o quarteirão, em estilo Arte Nova, habitado por uma burguesia superior, e era o único que tinha escada de serviço, metálica, chamada, então, escada de salvação, ao ar livre, nas traseiras. Aí, num patamar a meia altura, aparecia, de vez em quando, o homem da «língua da sogra» (barquilhos), de lata cilíndrica às costas, presa por uma correia, a tiracolo. Era um homem de baixa estatura, magro, de fino bigode preto, cabelo negro cuidadosamente esticado com brilhantina, vestido de branco. Aí chegado, desembaraçava-se da grande lata cilíndrica, que pousava no chão, e desatava a berrar, como se alguém lhe estivesse a bater: «Ai! Ai! Ai!...»

Como todas as casas tinham a cozinha para as traseiras, rapidamente surgiam nas varandas ou nas janelas as criadas, que se reconheciam pelo avental, trazidas pela curiosidade e pelo inusitado da situação. O homenzinho, então, dava conta do que vendia, gritando, com a mão esquerda a fazer concha atrás da orelha: «Olha a língua da sogra! É tão boa! – e simulando falar com alguém em particular – Como? Duas? Já lá vou, minha querida!» A criadagem não tinha dinheiro para comprar, mas, alguém da família, especialmente miúdos, acabavam por o chamar ao seu prédio.

A Passagem do Ano passava-se, então, naquela zona interna de quintais. Ao bater da meia-noite, alguém começava a bater duas tampas de panela de alumínio e logo outras centenas batiam, numa barulheira infernal, mas excitante, porque os sons se reflectiam nos prédios e se baralhavam ao meio dos quintais; os raros automóveis em circulação adicionavam ao barulho as suas buzinas, bem como os barcos no Tejo. Era uma forma de enxotar o Ano Velho, vingando-se de tudo aquilo que ele não nos tinha dado e do que nos dera de mau. Havia quem guardasse trastes velhos, durante o ano, para, naquele momento de euforia, lançar à rua. 
 
 
 
 

 

 

Arte final topo da página criada por Iara Melo

Fundo Musical: Catedral

Compositor: Tanika Tikaram

Versão: Christiaan Oyens/Zélia Duncan

Resolução do Ecrã 1024 * 768

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 

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