Ano II - Agosto - 2009

Editores: Carlos Leite Ribeiro e

Iara Melo

Participação de Diversos Autores

do Portal CEN

 

 

 

 

 

O VERÃO DE ANTIGAMENTE
Tito Olívio
 

Nos anos 30 e 40 do século passado, que incluíam os seis anos da Segunda Guerra Mundial, já havia uma grande afluência às praias, mas ao domingo, que era o único dia de descanso semanal. No campo ainda se trabalhava de sol a sol e só tinham férias de um mês os funcionários públicos. Na actividade privada, os patrões davam quinze dias de férias por ano e apenas aos empregados mais antigos.

Como a quase totalidade das pessoas tinha de utilizar os transportes públicos, somente podia frequentar as praias servidas por eles. Quem vivia em Lisboa tinha ao seu dispor o eléctrico, o comboio de Cascais e os barcos do Tejo. O primeiro chegava até o Dafundo, permitindo que se aproveitasse a praia de Algés ou a da Cruz Quebrada; o segundo tinha início no Cais do Sodré e servia toda a chamada linha, permitindo usar as praias de Caxias, Paço de Arcos, Parede, Estoril e Cascais; os terceiros partiam de Belém e dirigiam-se para a Trafaria, de onde havia autocarros (chamavam-se camionetas) para a Costa da Caparica. O transporte mais barato era o eléctrico, mas, mesmo assim, andava-se muito a pé, para poupar uns centavos. O custo dos bilhetes estava dividido em três escalões, conforme a distância, sendo de cinquenta (verde), oitenta centavos (amarelo) e um escudo (vermelho). Aos dias de semana e antes das oito horas da manhã, este último tinha um desconto para setenta e cinco centavos e chamava-se bilhete operário.

Os pobres atravessavam a cidade de Lisboa, a pé, descendo para a rua marginal, onde apanhavam o eléctrico que partia de Xabregas e seguia até à Cruz Quebrada, passando pelo Terreiro do Paço, Cais do Sodré, Alcântara, Belém e Algés, cujo bilhete custava um escudo, estando isentas as crianças até os quatro anos.

Na praia, os banheiros instalavam barracas e toldos, mas os mais pobres sentavam-se na sombra formada nas traseiras das barracas, onde não tinham de pagar. Os banhos eram de manhã e à tarde e o almoço não era menos importante. Comia-se de prato e garfo e ninguém dispensava o garrafão de vinho. Para isso, as mulheres levavam, em alcofas de palha ou em cestos de verga, a comida feita, a louça e talheres necessários. Estas refeições também não dispensavam o guardanapo de pano e a fruta. Por essa altura, estavam na moda os piqueniques, que, fora do Verão, eram feitos nos campos de cultivo e nas hortas dos arredores da capital, porque ainda não estavam ligados a Lisboa o Lumiar, Odivelas, Sacavém e Olivais.

As férias escolares eram de três meses, de Julho a Setembro. A burguesia alugava casas de pescadores nas praias do litoral oceânico, entre Sintra e Mafra, onde, os homens deixavam a família e as criadas, ficando em Lisboa a trabalhar, apenas podendo aproveitar aquela mudança de ares nos domingos e nas suas pequenas férias. As pessoas do povo, porém, não podendo dar-se a esse luxo, iam ao domingo à praia, de transporte público. Os oriundos de fora da capital aproveitavam as férias do chefe da família para irem para a terra, exibindo, na pobreza das aldeias provincianas, uma falsa riqueza de quem vivia em Lisboa, traduzida em roupas novas e em dinheiro para gastar nas vendas.
 
 

 
 
A UM CANTO DO PENSAMENTO

Amália LOPES


Ao som da chuva, ando descalça sobre o chão, e, sinto na memória a nossa divina noite, uma paixão, um devorar de abraços, uma tela pintada com olhares e beijos.
Adormeço em ti!!
Sinto a vida colorida quando estás ao meu lado, pintas a minha alegria, como se eu estive puramente dormindo. É um universo azul que sinto dentro da alma desfolhada em tantas caricias, lembro-me de ontem, foi especial aquele momento, guardei numa moldura dourada na sala da minha imaginação.

Hoje, eu desenhei na alma a ternura das estrelas, a cor do amor, a ternura dum olhar. De nada serve esperar-te, de nada serve olhar-te, porque a tua memória é uma página apagada e vagueia solta em sonhos não assimilados por ti.
No vento, nas flores, na cidade, em cada esquina, a vida é feita de poesia, mas tu magoas as palavras e as noites que dormes sem mim.
Há um planeta escondido dentro de ti, e pingos de chuva que te molham a memória mas as fragrâncias das tuas palavras são um eco onde ouves as minhas preces para voltares, finges sempre que  a minha alma não te pertence, mas um dia  nada vai sobrar, nem uma réstia de sol, que te aqueça as mãos.
Ontem elas serviam para me afagar o rosto, hoje são frias e não as quero mais na minha pele sedenta de carinhos.

No silencio da noite sou eu mesma que te falo em poesia, em desamores e em bailados de querubins e fadas azuis.
Minha alma dá luz à verdade, gosto de desenhar nos teus ouvidos as lamurias famintas do meu querer, e encontrar-te silenciosamente noutro sol, noutra paisagem sem que te encontre perfeitamente na pele e no beijo molhado de feitios e magias.

É difícil, entender as palavras e ouvir as lamurias de quem não sente na pele a saudade.  E, os desenhos da alma são a doçura do mel e das letras pintadas em camélias ainda por desfolhar.
Não sei porque te escrevo tanto, não sei porque me lembro de ti, não sei porque sinto o teu beijo hoje, ontem e amanhã, não sei.
Nunca hei-de saber.

O amor é um perigoso sentimento, quando anda perdido em palavras, a culpa é das saudades, do cheiro, do paladar de gostar tão verdadeiramente, como eu gosto de ti.
Que desperdício de vida.
Que desperdício de viver.
Ninguém escolhe, ninguém deixará de amar, ninguém deixará de sonhar, e, eu sonho sempre contigo.

Fragmentos de alma em movimento, em volta dum sorriso, em volta do perigo que é querer amar-te.
Plantar sonhos na árvore do esquecimento, num espaço sobre o azul do céu.
E, no teu beijo sentir um jardim dourado plantando pétalas com efeitos de paixão.
A mais linda poesia que escrevi, foste tu.
E, quando a mais bela palavra parece que já foi dita, sinto na mente a dor e a voz da eternidade.
Queria andar em caminhos perdidos e beijar o gosto do teu beijo de mel.

Quero ficar só,  já que de mim não te lembras mais.
Quando os sentimentos dentro de mim ganharem vida, as tuas ausências são um farrapo pendurado na lua de desejos e sabores do teu rosto que me consome.
Ontem, colhi uma rosa no meu jardim, linda, perfeita, sensual.
Já fui assim, uma rosa.
Hoje sou gente, sou amor e tenho um longo caminho ainda por percorrer.
A estrada da vida é infinita, e no teu rosto hei-de bailar na brisa e na simplicidade de te escrever banalidades,
sim, banalidades é o que tu pensas que escrevo, o sentido é outro, quero inventar novas palavras para reviver o que tu imaginas já anulado, que tu quiseste anular.
Tu estás enganado, no perfume da vida, no odor de viver...
Nas folhas secas que perfumam o meu olhar sempre distante, mas perto das palavras de paixão...

Amália LOPES
JUNHO 12/2009
 
 

 

O Trem da Serra do Mar

 Tchello d´Barros

 

As estações ferroviárias são a porta para o glorioso e o desconhecido. Através delas mergulhamos na aventura. Através delas, infelizmente, voltamos.”

E. M. Forster

O poeta Bashô viveu no Japão medieval do século XVII e seus biógrafos divergem um pouco sobre ele, mas parece consenso que exerceu várias atividades, tendo sido além de samurai, um professor erudito, e mais tarde um monge zen. Para além dessas questões, notabilizou-se por percorrer à pé longas distâncias pelo país, de aldeia em aldeia, onde divulgava seus haicais, uma forma de poema que na época era praticada apenas pela nobreza dos shogunatos. Assim, esse poeta andarilho tornou popular essa forma sucinta de poema, sendo que séculos depois se espalharia pelo mundo, tendo sido trazida para o Brasil, há quase um século pelo poeta Guilherme de Almeida. Hoje é praticada mesmo na germânica cidade catarinense de Blumenau, onde, apenas como referência, podemos citar poetas como Martinho Bruning, Edith Kormann, Nassau de Souza, Tchello, Terezinha Manczak, Isnelda Weise, Margit Didjurgeit, entre outros. Bem, o fato é que Bashô escreveu certa vez que eventualmente sentia um certo formigamento na sola do pé, prenúncio de uma necessidade interna de viajar, de andar pelo mundo, de descortinar horizontes.

Parece que essa é uma necessidade atemporal do ser humano, mesmo em nosso ocidente contemporâneo e digital, vez em quando não há quem não sinta sua bússula interna apontar a agulha para algum ponto do mapa. Mas nem sempre é preciso atravessar oceanos ou desabalar-se para países distantes ou destinos exóticos, para se ter uma boa experiência de viagem, pois muitas vezes lugares e experiências interessantes estão mais perto de nós do que imaginamos. E foi assim que, aí pela virada do milênio, decidi passar um fim-de-semana na bela Curitiba, para conferir um pouco das inovações ecológicas da cidade onde morei quando criança. Cidade também de haicaístas, como Alice Ruiz, Andréa Motta, Helena Kolodi, Jiddu Saldanha, Marilda Confortin e Paulo Leminski, o cachorro-louco. Mas não bastava andar pelos parques e praças da capital paranaense, ou curtir a intensa programação cultural da cidade. O objetivo era também fazer um trajeto de trem pela Estrada de Ferro Paraná, atravessando a fantástica Serra do Mar e, de quebra, degustar um prático típico da região. Para tanto, o trajeto escolhido foi o de Curitiba até a cidade de Morretes, famosa por sua culinária típica, onde o destaque é o Barreado.

Cedinho, após me fartar com uns deliciosos pastéis coreanos com café em copo de vidro, algo bem curitibano, nas imediações da estação de trens, tento matar o tempo com a leitura dos haicais de Jorge Luis Borges. Me chama a atenção o fato de que, se o haicai clássico possui desessete sílabas poéticas, então Borges, que era chegado em matemáticas e simetrias, escreveu exatamente desessete haicais. Por volta das oito horas da manhã, tem início a viagem, uma viagem de trem. Outra viagem de trem. Ainda que se possa fazer o mesmo trajeto de ônibus, e que o trem em questão tenha sido adaptado para um projeto turístico, havia pessoas no meu vagão que estavam ali na condição de passageiros comuns, vieram cuidar de afazeres na capital e apenas estavam voltando para casa, em Morretes ou Paranaguá. E não custa lembrar aqui que a viagem pode ser extendida até a cidade portuária de Paranaguá. E dali para a idílica e romântica Ilha do Mel é questão de apenas embarcar numa balsa, mas essa é uma viagem que recomendo para que se faça em ótima companhia, preferencialmente sob os eflúvios do Cupido.

Trem andando, paisagens desfilando. É assim o tempo todo nessa experiência que tem aspectos históricos, políticos, geográficos, climáticos e culturais. Uma guia de turismo que acompanha o povo durante o percurso vai logo avisando que no trajeto de ida é melhor escolher os lugares do lado esquerdo do vagão, para poder melhor desfrutar da visão das paisagens. A moça faz uma apresentação do projeto turístico e complementa com informações diversas sobre a ferrovia, a Serra do Mar e aspectos interessantes das cidades do trajeto. E assim segue a viagem, onde aos poucos a capital vai ficando para trás e vamos nos acostumando com o suave balanço do trem e nos assombrando com as belezas dos campos da região. Logo o relevo vai ficando mais acidentado e vamos aos poucos adentrando na cadeia de montanhas, com subidas, descidas, curvas e movimentos que são de tirar o fôlego de alguns passageiros. Sem falar no medo de alguns pelo fato de o trem em certos momentos rodar sobre trilhos que literalmente estão à beira de abismos, dos mais assustadores, onde a impressão que se tem é que o trem está voando. Não falta quem compare a experiência à uma imensa montanha-russa que roda num cenário natural, ladeado por picos de um lado e rios de outro.

E assim segue a viagem, entre um e outro sobressalto de algumas turistas mais entusiasmadas. Ao se passar por pequenos povoados pode-se ver também um pouco do modo vida daquelas populações de descendentes dos imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos que povoaram a região. Chamou a atenção nas imediações de um vilarejo, a placa de um bar, o Bar dos Canalhas. Ao menos é o que dizia a placa. É pena que o trem não tenha parado por ali! Mais adiante, o que alguns consideram como o ponto alto da viagem, a travessia de um túnel, onde ao final, o mesmo termina numa curva diante de um precipício. Ocorre que de dentro do trem, como não se pode ver os trilhos à frente, a sensação que se tem é de que o trem ao sair do túnel irá despencar no abismo, ou sair voando, então imagine o alarido de algumas passageiras desavisadas! Passado o susto, todos voltam a se maravilhar com as deslumbrantes paisagens de verde vivo e céu azul.

Alguns anos depois eu lembraria desta viagem num trajeto similar em alguns aspectos. Estava no trem que faz o percurso de Águas Calientes até Cuzco, no Peru, algo em torno de oitenta kilometros. Águas Calientes é uma cidadezinha que fica aos pés da montanha de Machu Picchu, e dali, após ter feito à pé a Trilha Inca, de quatro dias, até o santuário sagrado de Machu Picchu, retorna-se de trem para Cuzco, bebericando um tradicional chá de coca, que é a coisa mais comum por lá e só faz bem. O itinerário passa também pelo Vale dos Reis e tem paisagens magníficas, que naquele momento me lembraram a inesquecível Serra do Mar paranaense.

Finalmente chega-se à pequena e pacata Morretes, cujo povo orgulha-se do lema da cidade -  Morretes: sua natureza é encantar! De fato os morretenses além de simpáticos e atenciosos tem sua pequena e tranquila cidade cercada por aquelas montanhas todas, e a gente sente na hora a diferença do ar puro da região. Após um passeio pelas principais ruas e praças, visitei o espaço cultural da cidade, com biblioteca, exposição de arte e até um espaço para escritores pernoitarem quando ali forem lançar algum livro.

Na seqüência encontrei um bom restaurante onde servem o tradicional Barreado, prato que os paranaenses herdaram dos açorianos. Consiste num cozido de carne que leva em torno de 24 horas de cozimento, com o vapor vedado, até que a carne se desfia e forma um caldo delicioso, servido com arroz, farinha especial e bananas, tudo acompanhado de um aperitivo de cachaça artesanal de banana. Da sacada do restaurante, a paisagem se completa com a imensa árvore flanboyant refletindo no riozinho que corta a cidade, um haicai. E mais ao fundo o desenho sinuoso da linha do trem, que ao voltar de Paranaguá, me levará de volta para Curitiba. Ao degustar a sobremesa com laranjas naturais, medito sobre essa estranha coceira na sola do pé, e que ataca gente do Japão medieval e gente de aqui e agora. Assim não dá pra não lembrar de Leminski quando nos avisa que “a viagem que não fiz, dói dentro de mim, como a raiz de uma árvore sem fim.”

 

 

 

Um Culto ao Amor
Francinete  Azevedo


Nesses tempos angustiantes em que a violência e o desrespeito se proliferam pelo mundo, a estratégia eficaz de combate a esses elementos perniciosos é a de propagar, sem limitações, as benesses do amor.
É preciso investir nesse sentimento dignificante para atrair a paz, hoje tão desejada e distante dos homens.
Amar, sem restrições, na ânsia de alcançar a felicidade, é a mais infalível arma de defesa contra as intempéries da vida e o trunfo eficiente que nos conduzirá ao caminho do sucesso.
Por que não empunharmos a bandeira do amor em todos os nossos propósitos? Os resultados serão surpreendentes!
Cultuá-lo é admitir renúncias; o perdão; é fortalecer os ideais de liberdade e de justiça social, sem a destruição do potencial humano; é dividir emoções.
Comecemos por amar o Criador do Universo, depois a nós mesmos, para que sem ressentimentos, mágoas, discriminações, possamos doar-nos ao nosso próximo, o mais próximo.
Sejamos, pois, emissários do amor nessa trajetória de sorrisos e lágrimas na qual se encontra fundamentado o nosso destino.
O amor opera milagres!

 

 
 
A DANÇA DOS VERSOS

Lairton Trovão de Andrade

 
Os versos que dançam com versos
Balançam os versos do amor.
Sem dor, bem feliz, com carinho,
Seu chorinho é carícia, é flor.
 
Um dia, quem sabe, feliz,
Dos versos virão novos versos;
Dançarás,  rostinho colado
Com quem apagou teus reversos.
 
Os versos, poemas sutis,
Imagens sublimes do amor;
Matérias que ficam gravadas
No meigo sorriso, ou na dor.
 
Ouvindo dos versos as vozes,
Tomara que a face do mundo,
Com múltiplos versos sublimes,
Transforme em pudor o que é imundo.
 
Eu sinto o pulsar de tua alma,
Ó doce poetisa que é musa!
Teus versos são cheios de vida,
Porque tens em ti graça infusa.
 
Os versos que dançam com versos
Balançam os versos do amor.
Sem dor, bem feliz, com carinho,
Seu chorinho é carícia, é flor.
 
 
 
 
 
 
 
Baralho
Lígia Antunes Leivas

Embaralho as cartas
mais uma vez...  outra vez mais
... tantas quantas necessárias.
Luz polarizada no ás da felicidade!
Para que explicar?
Para que entender?
...respirar o silêncio
no encantamento do ilusório!
Vencer o confronto do fim de tudo.
Voltar... recuperar a apologia do nada
(Semelhança do ser...
nada mais que utopia do não-ser.)
... a saga da humanidade
e de cada um de nós:
não dividir-se e dividir-se
a cada sol no leste-oeste.
A permanência do 'assim será'
...  até a vinda de outra mensagem
sem repetir a homeopatia:
depois de tudo (mesmo perdido)
ainda é possível o encontro
...uma nova manhã!
 
 
 
 
 

A ponte
Benedita Azevedo


A minha ponte segura
Entre os dois lados da vida
Foram sempre, estudo e trabalho
Que me fizeram voar sem asas.

Ainda muito pequena
Presa a um lado da ponte
Com olhar sedento vislumbrava
A outra margem do rio.

Não era só preciso atravessar
Mas construir a minha ponte
Degrau por degrau, tábua por tábua
Para poder  desafios ultrapassar.

Tal qual formiga operária
Cheia de determinação
Comecei a alicerçar
E cheguei à conclusão.

A ponte foi construída
E a todo dia ultrapasso
Os limites do seu limite
Em cada trabalho que faço.

A ponte entre mim e você
Entre você, Deus e o mundo
Precisamos construir
A cada minuto e segundo.

 
 
 
 
 
 
Gotas em Haikais
Ana Teresinha Drumond Machado
 

Mui gotas ... gotas
vou contando na vidraça.
Suave sintonia!
 
Teco... Teco...Teco...
Teimosa marca a goteira
Só pra me ninar.
 
Garoa bondosa
ao casal desperta amor.
Ah! Lírico encontro!
 
Chuva fina sopra.
No fogão da vovozinha,
saltita a pipoca.
 
Alvinópolis/MG

 

 
 

VESPERTINO
Soneto
Iraí Verdan
 

Hora triste do Vespertino passa...
Depois segue, até que chegue o domingo.
É Páscoa! Passagem do evento cessa:
A vitória sobre a morte, distingo!

Que Deus enviou ao mundo o Cordeiro,
Pra salvar do pecado, corações!
Seu sangue derramado no madeiro,
Cumpriu a profecia entre as nações.

Fim de sábado, despontava o dia,
E a nova hora vespertina venera:
As mulheres Madalena e Maria...

A pedra do sepulcro removida.
Um anjo nela assentado as espera...
Diz-lhes: Jesus aos céus fez a subida!...

 

 
 
 
Perigo
Ivone Boechat
 

Não tenho o  veneno sinistro
do animal feroz,
tenho mais, muito mais do
que isto,
tenho voz.
Não tenho asas da ave triste,
perdida no espaço,
com medo de partir,
tenho mais,
onde estou,
tenho o aço
do poder de decidir.
Não tenho garras naturais
para atacar o inimigo,
mas posso fazer-lhe
muito mal,
tenho o perigo
da falsidade
no abraço
artificial.
 
 
 
 
 
 
UM POEMA SEM ALMA
(agosto/04)

Raymundo de Salles Brasil

 
Eu desejei fazer um belo poema
Que não fosse de amor – eis a questão.
Que pudesse abordar qualquer um tema,
Que não ferisse as cordas da emoção.
 
Um poema frio, mas de eficácia extrema,
Que impressionasse apenas a razão,
Demonstrado por regra e por teorema,
Como se o verbo fosse uma equação.
 
Meu pensamento quase se extenua
De tanto se esforçar na busca à-toa
De um poema sem alma – que idéia tonta!
 
Foi como noite de luar sem lua,
Um inverno de julho sem garoa,
Como fazer amor fazendo conta.
 
 
 
 
 

 
Glosando  Colombina
Gislaine Canales

INVERNO...
 
MOTE:
 
Inverno, melancolias
errando, à-toa, nas ruas...
As minhas mãos estão frias
e com saudades das tuas!
 
Inverno, melancolias,
folhas secas, neve, enfim,
somente monotonias
vão se acercando de mim!
 
Encontro minha alma triste,
errando, à-toa, nas ruas...
Sem paz, ela não resiste,
as ilusões estão nuas!
 
Trago as minhas mãos vazias
e o meu coração chorando...
As minhas mãos estão frias
com as tuas mãos, sonhando!
 
Cai sobre mim, o luar,
multiplicado em mil luas!
Sinto as mãos, a congelar
e com saudades das tuas!
 
 
 
 
 
 
 A SAGA DOS REIS MAGOS
 Hermoclydes Siqueira Franco


Ao norte da Tessália, em solitadão,
o ateniense GASPAR, sob emoção,
recebeu a mensagem do Criador!...
Sob um pálio de luz esplendorosa,
de uma estrela de força misteriosa,
sentiu, na alma, a presença do Senhor!...

Dirigiu-se à Antióquia e, solitário,
montando o mais vistoso dromedário,
pôde alcançar os confins do deserto!
MELCHIOR, o indiano, em refúgio afastado,
junto às margens do Ganges sagrado,
teve a mesma visão do rumo certo...

Buscando um mesmo sítio, no areal,
partiu, levando em rico embornal,
porções fartas de incenso, mirra e de ouro.
Na imensidão (o Espírito a velar),
jáz esperava por êles BALTASAR,
o egipcio, também junto ao seu tesouro!

Esse encontro de reis, predestinados,
em meio dos desertos calcinados,
foi traçado por Força Superior.
Eram sábios - vivendo entre os ateus -
que criam na existência de um só Deus:
Honra a BALTASAR, GASPAR e MELCHIOR!...

Do deserto partiram, sem canseiras,
em busca do recanto, entre oliveiras,
onde houvera nascido o Deus-Menino...
Levados pela Estrela `manjedoura,
viram todos a Luz Imorredoura
que ao mundo iria dar novo destino!...
 
 
 
 
 
 
QUERO O MEU PAÍS DE VOLTA...
Ilda Maria Costa Brasil - Porto Alegre - RS


Brasil, Pátria Amada,
às vezes, sinto-me acalentada,
abraçada, parte tua.
És idealização e dignidade
para jovens e adultos.
Forte e imponente
conquistaste corações,
ontem e hoje, e, com certeza,
amanhã não será diferente.
Infelizmente, nem sempre és solidariedade,
companheirismo e respeito.
Alguns dos grandes ideais de outrora,
permanecem e hão de permanecer
décadas e mais décadas.
Primitivos foram aculturados
e europeus conduziram-te
por muitos e muitos anos.
Teus governantes precisam
de sabedoria, veracidade, garra,
responsabilidade, amor e ética
para reescreverem a tua História.
Quero-te, puro e fraterno.
Tens muito a resgatar e construir.
Meu coração pulsa fortemente
e grita por Fé, Otimismo e Esperança,
pois nem tudo está perdido.
 
 
 

 
 
 
Marcados Pelo Destino
Simone Borba Pinheiro
 

Pelas ruas, perambulando,
de pés descalços, maltrapilhos,
fedendo a fumaça e cheirando cola,
pão, dinheiro e carinho, mendigando,
os filhos da miséria humana
para da cruel realidade, fugir,
de drogas se entorpecem
e debaixo de viadutos, dormem,
nas ruas, em qualquer canto,
por jornais, cobertos, tremendo de frio.
São homens, mulheres e crianças,
de tudo na vida, desprovidos,
seres humanos maltratados e
pela sua própria condição, humilhados.
Pelo destino que tudo lhes negou, marcados.
É a miséria humana
no seio da sociedade alternativa,
ativa, latente, expondo sua dor.
Pelo horror da fome, no corpo, marcados,
esqueletos ambulantes, herdeiros do nada.
E não quer calar, no ser pensante,
a prosaica pergunta:
-Até quando?
 
 
 

 
Segredos
Wagner  Paiva

 
Quero te confessar três segredos meus:
O primeiro é que na tua foto,
onde bela, sorridente e exuberante
abraças carinhosamente tua filha,
nas noites frias , longas e solitárias,
és  descanso pros meus olhos fatigados
e elixir pro meu coração apaixonado...
O segundo é que a tua voz suave e teu sorriso carinhoso
têm sido nestes últimos tempos
algo que me faz bem a alma...
Algo que me acalma e alegra o coração...
Por isto te telefono tanto e sempre...
O terceiro - e te volto a repetir!
A gente nunca abandona quem a gente ama...
...A gente acolhe, cuida, protege e defende...
E torce sempre pelo crescimento,
realização e felicidade de quem se ama!...
 
 
 
 
 
 
CUMPLICIDADE
Yeda Araujo Pereira
 

A todo instante um toque na vidraça...
Um breve olhar...  uma expectativa...
Um convite pra gostar da vida!
 
DISFARCE
Yeda Araujo Pereira
 
Morte escondida por detrás das artimanhas!
 
São esperanças perdidas...
São as últimas façanhas...
 
Amores em despedida
sufocados nas entranhas!
 
 
 
 
 
 
 
NO INFINITO ENCONTREI VOCÊ!
 
Flor de Esperança (Maria Beatriz Silva)
 

No infinito você existia, eu percebia
A brisa leve do mar trouxe-me teu cheiro
Tua essência colorida dos sonhos mais belos
Que tão iguais aos meus eram

Você tocou em mim como uma gota leve
E aos poucos dominada eu já estava
Te percebo todo instante, em tudo que vejo

Na lua busco teu sorriso,
Teus murmúrios, teus suspiros
Nas estrelas o brilho do teu olhar
No mar nas sinfonias das ondas
Você e eu dançando a valsa
Do mais encantado amor

Neste ritmo dançante encantador
Sinto teus braços me acariciar
Sinto a suavidade do teu corpo a me tocar
E os teus lábios a me beijar

Eu te sentia no infinito dos meus sonhos
O vento sussurrava em minha alma
Eu percebia os nossos mistérios, nossos segredos
Que só o tempo podia fazer nos encontrar

Fui à busca dos meus desejos, dos meus anseios
E te encontrei, te chamei, te busquei
Para o meu castelo de amor

Percebi que você já me esperava
Do outro lado do oceano
Onde comigo ousava a sonhar

Comigo você já sonhava
Para juntos escrever nossa história
Fazer nosso filme
Mesmo além do infinito

Realizar nossos desejos, nossos sonhos
Do mais intenso e belo amor
Você me esperava, você me queria
E no infinito busquei você!

12 de novembro de 2008, Laje do Muriaé-RJ
 
 
 

 
Humildade
Ana Nascimento-CE
 

Mote: de Gutemberg Liberato

Na trilha da soledade
por onde o amor nos conduz,
quem nos amou de verdade,
morreu pregado na cruz!
 
Glosa 
 
Na trilha da soledade
esmorecer é aceito,
pois carente de amizade
coragem não tem efeito.
 
Muitas vezes os caminhos,
por onde o amor nos conduz,
são cobertos por espinhos
e desprovidos de luz.
 
Almejamos a bondade
sem nos lembrar de que, um dia,
quem nos amou, de verdade,
não teve aqui galhardia.
 
O planeta em despotismo
sempre esquece que Jesus,
ensinando o pacifismo,
morreu pregado na cruz!
 
 
 
 
 
 
(RE) AÇÃO
Priscila L. Coelho

 
Há no pulsar do coração
Uma explosão de querências
E desejos rubros
A ousadia de explorar
Possibilidades sem fim
Provoca o delírio dos sentidos
 
 
 
 
 
Frio na Alma
Cida Micossi
 

O frio da noite
me tira a calma,
como um açoite
fere-me a alma.
 
Solidão pungente,
Irremediável,
Procuro alento
acho o impalpável.
 
Meus travesseiros
são solidários,
meus companheiros:
meus relicários.
 
Neles me alojo,
dão-me guarida.
Sonho acordada,
assim levo a vida!
 
 

 
 
Vício
Maria Lucia(Violetta)


A chuva cai sobre minha  janela,
Observo os pingos a dançarem na calçada.
Mordisco meus dedos, não consigo sair deste torpor
Os olhos brilham, respiração definida,sílabas saltam na tela
A inspiração brota,sementinha consistente, germinação poética
Pingos testemunham o dedilhar na tela
Deste saboroso vício de poetar.
 
 
 
 
 
 
SE EU FOSSE VOCÊ
Joana Rodrigues
 

Se eu fosse você,
No dia do meu aniversário,
Eu não me importaria de não receber um presente caro,
Uma poesia longa, ou uma mensagem bela;
Mas me contentaria em receber um abraço amigo,
Uns parabéns sinceros, um gesto de amor...
Se eu fosse você,
Importar-me-ia muito de não ser lembrado,
De não ser querido, de não ser amado...
Se eu fosse você,
Um simples carinho me alegrava,
Um pequeno afago me contentava,
Apenas um sorriso me bastava...
Se eu fosse você,
O simples fato de saber que alguém me espera,
Este alguém me procura, e este mesmo alguém me ama,
Já seria o bastante para me sentir a pessoa mais feliz do mundo.
Se eu fosse você,
Sentir-me-ia especial em saber
Que era o melhor presente na vida de alguém,
E que talvez eu fosse o mundo para este alguém...
Se eu fosse você,
Em momento algum desperdiçaria
A oportunidade de estar ao meu lado,
Sentindo a minha presença, ouvindo as palavras do meu amor...
Se eu fosse você... Ah, se eu fosse você!
Nada lhe impediria agora de correr pros meus braços,
Olhar nos meus olhos, abraçar o meu corpo,
Abrir o seu coração e entregar-me inteiramente,
Como presente eterno de aniversário.
 

 

 

 

Arte topo da página criada por Iara Melo

Fundo Musical: Catedral

Compositor: Tanika Tikaram

Versão: Christiaan Oyens/Zélia Duncan

Resolução do Ecrã 1024 * 768

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 

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