Portal CEN - "Cá Estamos Nós"

Revista Novos Tempos

Maio - 2013

Terceiro Bloco

 

  Helena Melo

  Heralda Víctor

  Hiroko Hatada Nishiyama 

  Iraí Verdan

  Isabel C S Vargas

  Isabel Pakes

  Ivan Vagner Marcon

  Ivone Boechat

  J. C. Ramos Filho

  Jéssica Milasauskas

  João Bosco Soares dos Santos

  João P. C. Furtado

  Jonas R. Sanches

 

 

 

Somos Pedaços de Luz de uma Luz Emergente,

que Brota de cada um como uma
Fonte Corrente que podemos nos Banhar

sem Futuro nem Presente.

De Helena Melo

 

***

 

A Beleza é um Ponto no Infinito

onde Colocamos o nosso Olhar,

a Mulher é
um Pouco do Divino

na Arte de nos Encantar.

De Helena Melo

 

***

 

Sentir-me perto de mim,

do Amor que Desejei que nunca te Falei,

que entrego ao Vento como um Lamento e

deixo-te partir como

o que trago no peito nua do
Perdão de uma Ilusão.

De Helena Melo

 

 

 

 

Heralda Víctor
Florianópois - SC - Brasil

 

Nas grades

Olhos gelados
Verdes parados
Olhos que vagam
Presos nas grades
Refletem frieza
Denotam tristeza
Fechados às chaves.
Mistérios da alma
Dominam o ser
De olhos velados
Num grito calado.
Na ânsia sem cor
As frias paredes
Aprisionam desejos
Detendo o instinto.
Mãos algemadas,
Num corpo faminto
Espreitando a noite
Cumpre o tributo
Sofre o açoite
Homem enjaulado
Um condenado
Sem alegria.
Um apenado
Sedento de amor
Sem liberdade
Negando a dor
Encarcerado
Faz poesia


Heralda Víctor

 

Hiroko Hatada Nishiyama
São Paulo, Brasil


O enterro da borboleta
    

O dia ensolarado trouxe ao jardim miríades de borboletas brancas, azuis, amarelas em um gigantesco bailado, sincronizado em perfeitos volteios, círculos e  voos mais ousados.
Então, repentinamente no meio do gramado apareceu uma borboleta amarela  agonizando lentamente, num bater de asas  cada vez mais frágeis. Mas a vida extinguiu-se. Os breves dias de sua existência foram esplendidos, com muita luz, muito néctar e muitos encantos como só acontecer às borboletas coloridas e animosas!
De um casulo onde morava adormecida, enclausurada, hibernando, saiu para um jardim florido onde moravam taturanas, formigas e caracóis. Foi uma festa sem igual.
O corpinho frágil, queria ir para outras plagas.
Mas, a criança que brincava no jardim, presenciou o adeus da borboleta. Resolveu então chamar os amiguinhos para ajuda-la a preparar uma grande cerimônia de  despedida para essa pequena lepidóptera.
Colocaram a pequenina amarela em uma caixinha vazia de fósforos, fizeram um lindo laço de fita branca e colocaram uma florzinha para enfeitar o “caixão”.
Após uma breve oração infantil, saíram em cortejo pelo jardim, compenetrados, sabedores da importância desse  solene ato de despedida.
Por fim chegaram até uma laranjeira florida e, sob a frondosa árvore depositaram o ataúde numa cova rasa providenciada às pressas, pois já escurecia.
Foi enterrada!
Uma cruz improvisada com dois galhinhos secos, assinalava o local de repouso desta borboleta que teve o mais lindo funeral já visto naquelas redondezas...
As crianças jamais esqueceram-se do enterro da borboleta, que continua nos sonhos de cada uma que enterrou a lepidóptera, mas ficaram sabedoras da brevidade do tempo aqui...

 

 

O Dia


Chegaram as nuvens
Escondendo o Sol,
Desta vez o Dia
Vestiu uma fantasia
Imitando a Noite.
E foi sério e empertigado
Namorar a Lua!
No entanto as Estrelas
Não brilharam,
E nem piscaram.
E os cães na rua
Não uivaram
Porque o luar
O Luar dos enamorados
Ainda iluminava
Tão somente
O  Oriente...

 

Hiroko Hatada Nishiyama


 

 

 

IRAÍ VERDAN
MAGÉ – RJ


Ao vê-lo assim, tão afetivo
Ao meu encontro chegar
Com uma áurea de alegria estampada no olhar...
Mostrastes-me um ser tão amoroso, cativo!
Comecei então a desejar:


Ah... Quero cingir nossos corpos
Em frente ao espelho...
Num abraço apertado
Afetuoso, insonte!
E deixar banhá-los no vermelho
Da cor da luz
Que brilha no horizonte!


E, sob a luz da lua cheia e clara,
Contemplar a sua silhueta
Numa bela noite de abril
Em algum lugar escolhido do planeta!...

 

IRAÍ VERDAN

 

 

 

 

Isabel C S Vargas
Pelotas-RS-Brasil


Mútuo Amor


Viveu sem teto, livremente,
Tal qual andarilho.
Sua índole lhe valeu companhia:
Dois fiéis companheiros.
De infortúnio, diriam alguns,
De viagem, outros mais espiritualizados.
Amigos de todas as horas,
Com quem dividia comida, água,
Local de repouso e guarida.
Inseparáveis, conquistaram amigos humanos
Com coração assim como os seus
Que muitos classificam não humanos.
Que a eles se dedicaram
Com amor imensurável,
Eles, alegres e fielmente retribuíram.
Três amigos inseparáveis.
Até que um deles sucumbiu na estrada,
Atingido pela insensatez humana.
Hoje, choram por ele,
Seus companheiros e, nós,
As famílias que os adotaram
E o acompanharam até seu derradeiro sopro.

 

 

 

 

Isabel Pakes
Cerqilho /SP/BR


Poema para um amor intenso

Amas-me tanto, Senhor!
Puseste nas alturas a extensão da tua grandeza
e banhaste os meus olhos com as luzes das estrelas
para que eu possa me extasiar ao contemplar tua beleza!

Amas-me tanto, Senhor!
Sobre a terra deixaste transbordar o cálice da tua providência
e fertilizaste o meu espírito nos princípios da fé
para que eu possa me abastar do Pão sem temores de carência!

Amas-me tanto, Senhor!
Concedeste-me o dom da Vida.
Tomaste-me por teu filho e herdeiro dos teus astros,
das tuas águas, das tuas flores...
E para consumar o teu amor por mim
ofereceste em holocausto o teu melhor cordeiro!

Amas-me tanto, Senhor!
Dentro da minha pequenez me constituíste grande e forte
quando à tua imagem e semelhança.
E tudo o que esperas de mim é tão pouco!
Apenas que eu me guarde simples aos teus olhos,
tua eterna criança!
 

Amas-me tanto, Senhor!
Quantas vezes tenho te contristado
apresentando-me fraca diante de ti
sem que te apartes de mim...
Quantas vezes tenho te agastado com lamúrias infundadas
e mesmo assim me reconfortas e me reconduzes à caminhada!

Amas-me tanto, Senhor!
Que eu me perco em meus anseios de muito te louvar.
E sinto-me impotente na busca de palavras
que retratem fielmente a minha inspiração.
Por mais que eu me desdobre em pensamento
não consigo me alcançar no infinito da minha gratidão!

 

Isabel Pakes 
 

 

 

 

Ivan Vagner Marcon
Cerquilho/SP/Brasil


UM CAFÉ COM NIETZSCHE


I
Sem frases feitas:
Quero apenas rir como se não houvesse um futuro
(e sabendo que
alegria demasiada agride).


II
Purgar esse
entrevero...
Este espaço entre mim e a
felicidade.


III
Mesmo que felicidade em excesso
atraia uma ou outra
tragédia...
Abandonar o ordinário.


IV
Meu alvo:
Ser feliz...Apaixonado
(ou ludibriado)
por alguma coisa que eu ainda não sei.


V
Sazonal talvez
mas ciente
das glórias, abismos
e avalanches.


VI
Simplesmente
aproveitar
porque passa

E só!

Ivan Vagner Marcon


 

 

Nome: Ivone Boechat
Cidade: Niterói


É guerra!


As pessoas ficam muito preocupadas com o advento de uma guerra mundial Quando será? Quando o mundo vai acabar? O que acontecerá, e quem escapará? Se você parar um pouco para analisar a situação do mundo, hoje e sempre, em todos os setores, a conclusão é que sempre estivemos em guerra: individual; grupal; nuclear; atômica; e a guerra de informações que mata conceitos, idéias, religiões, sonhos e sai deformando o que encontra pela frente.
Essa informação cria factóides, deturpa, derruba, mas também recupera monstros arquivados sobre processos esquecidos e guardados.
O mundo acaba e começa todo dia! Os que esperam um grande estrondo para o começo do fim, ou mais dores alheias, algum fato extraordinário, é só acompanhar o que se passa no mundo, porque há fatos extraordinários e coisas impossíveis acontecendo de segundo em segundo, e dores, guerras, rumores de guerras. Não há escassez de estrondos nem de mortes. Há pessoas surdas, que nem percebem estrondos, e insensíveis que não se apavoram com todo tipo de morte.
As armas desta grandiosa guerra são visíveis e invisíveis. Faz-se pacto virtual de amor e ódio. Disseram os profetas que os homens fariam sua casa nas estrelas. Não só as fizeram como as visitam, periodicamente, para supervisionar o arsenal ali instalado. É o começo do fim? Ora, se é o começo, então já estamos dentro, e muitos não sabem.
A tecnologia está equipada com poderosos recursos a serviço da destruição, porque as verbas destinadas à guerra são infinitamente maiores do que as reservadas para a promoção e a preservação da paz. Os valores para o julgamento das nações estão fundamentados no poder de guerra. Existe concorrência internacional para a escolha do mais armado. E quem sai ganhando, de longe, é a guerra da mentira nas informações.
A classificação da melhor potência é baseada na economia. O Brasil é a 6ª potência econômica ou seja, dinheiro ele tem para a sociedade viver no conforto geral e até para rasgar nota de cem. Ele não precisa de esmola de bolsa disso ou daquilo. Por que não se estabelecem salários dignos, aposentadorias leais, ao invés de expor as pessoas correndo atrás de bolsas? Todavia, corre-se atrás de tudo: hospitais; escolas; segurança; com o bandido correndo atrás. Nessa olimpíada, o troféu é daquele que tem espaço maior e melhor para mentir.
O mundo acaba toda hora! Basta precisar de uma ambulância, de vaga na UTI, de escola para um filho especial. A qualidade da educação denuncia o fim do mundo dessa criança e de sua família. E pior, se é que pode existir coisa pior: o contribuinte eleitor se apaixona pelo político algoz e o reelege para mais quatro, oito anos e sempre! Quer saber mais? Tem saudade dos corruptos... "Rouba, mas faz”.
Tudo ao redor cheira à transitoriedade, à mudança; razão pela qual ameaçar e amedrontar são verbos muito conjugados por aqueles que dominam pela mentira. Em meio a tantos desafios, o ser humano se embaraça nos labirintos do caminho que não soube construir e morre no corredor do hospital. Quando tem vaga, geralmente, o fim do mundo é do lado de fora, esperando. A família não pergunta mais como vai o doente. Pergunta para onde foi o doente. De vez em quando some um.
A Escola deve insistir no despertamento da sensibilidade e na formação de cidadãos educadores. Que a proposta pedagógica tenha objetivos alcançáveis, e que se deixem de lado os recursos didáticos eleitoreiros, para que em meio a tantos desentendimentos se estabeleça a compreensão, o recomeço, o diálogo, a ética.
Muita atenção aos currículos, programas, planos, livros didáticos, e, sobretudo, à postura do educador, que inconsciente, vem usando a sua magia para formar poderosos soldados desta guerra, nada fria, no meio da paz quente que se inicia, quem sabe, dentro da sala de aula?



Projeto de vida
 
Eu não quero me acostumar
a ver, com tédio, as belezas da vida!
Não quero me declarar solitária
com a minha companhia
nem dizer que é rotina
acordar de manhã com o sol,
entrando e me aquecendo.
Não quero dizer
que é tolice o discurso
bravo ou sereno
das ondas do mar.
Jamais ficar triste
e declarar-me cansada
de ouvir a natureza.
Deus me livre de começar
a contagem regressiva
dos meus dias no mundo.
Quero discar SOS
para me livrar do pessimista,
e nunca optar nem andar
pelo caminho da desistência.
Quero chegar inteira,
completa, única, verdadeira,
ao topo da vida
para de lá contemplar,
com entusiasmo total,
o esplendor da vida,
do outro lado da vida!!!
 
Ivone Boechat

 

 

 

 

J.C. Ramos Filho
Itajaí-SC-Brasil


ACONCHEGO DA NOITE


A tarde cai, o vento é calmo,  sombrio...
aí vem o crepúsculo, é mais um dia que se finda.
Mas não te inquietes, querida, que logo vem a noite...
Ela é suave, aconchegante, simples e linda.
A noite é como um manto escuro bordado de estrelas,
que abriga o nosso amor.
É como uma amiga sincera, como um sopro de primavera,
que perfuma os nossos sonhos e afugenta a nossa dor.
A noite é a felicidade de nós dois que caminhamos,
unidos passo a passo... Ela vem sempre depois,
trazendo a ternura que encontro em teus abraços.
A noite é o refugio dos amantes. É o repouso dos cansados.
Ela é a única razão  de vivermos lado a lado.
A noite será sempre a testemunha desse idílio proibido.
Para  a  noite somos eternos namorados.
Para o mundo somos sinceros amigos.

 

J.C. Ramos Filho


 

 

 

Jéssica Milasauskas
Tietê/SP

 

(Carta de um anjo)


Eu sei exatamente quem você é, e sei exatamente quem quer ser, quem foi e quanto valoriza sua essência. Conheço todos os lugares que você gosta e procuro levar-te para lá sempre que posso, mesmo que através de um sonho. Sei quando me quer por perto e quando prefere a distância, canto sua música favorita em seus minutos de silêncio, e sei que quando a ouve pelos lábios de outro alguém se lembra de mim. Posso adivinhar que comida prefere no almoço só de te acompanhar pelas primeiras horas do dia, entendo quando quer que a noite acabe, e quando quer que escureça logo. Amenizo seus medos quando eles são desnecessários, acalmo sua agonia trazida pela apressada ansiedade, lhe envio lembranças de dias felizes quando sei que virão problemas adiante, espero ao seu lado aquele ônibus chegar.
Me encanto a cada primeiro passo que você dá em relação a qualquer coisa, seguro forte em sua mão quando ameaça cair, menos em algumas ocasiões quando sei que o tombo lhe tornará mais sábio. Misturo minhas lágrimas às suas quando a tristeza te abate, me mato de rir ao assistir suas palhaçadas, reconheço quando sorri para esconder o choro e quando lá no cantinho do seu olho surge uma lágrima de alegria.
Acompanho cada aniversário, cada promoção no trabalho e cada olhar trocado, te abraço para dormir quando o sono foge do teu quarto, te envolvo em meu colo quando o pânico te ameaça.
Arranjo algumas coincidências que ás vezes pensa que é acaso, te atraso sob seus duros protestos quando algo lhe oferece perigo. Sussurro certas idéias que disparam sua inspiração, te mostro alguma paisagem que sei que lhe acalmará. Sei exatamente o que cada expressão sua quer dizer, e quando esconde uma também sei reconhecer. Me encanto quando está fazendo realmente o que gosta, e me orgulho quando sei que está amando de verdade. Entendo seus segredos e mentiras, e francamente, respeito seu espaço.
Te ajudo naquele problema que você quer resolver, mesmo que seja através de mero apoio moral. Te observo de longe tentando te proteger, me escondo através de olhares que sei que vai encontrar, me encaixo na brisa quando quero te fazer carinho, me transformo naquele perfume pra dizer que estou ali. Te enxergo pela totalidade, portanto compreendo seu lado obscuro, não te julgo, apenas espero que faça o que é certo, e se não o faz, acredito que se arrependerá.
E quando surge o arrependimento eu te acolho novamente, rezo baixinho aquela oração que te emociona, lanço conselhos que sei que vai seguir, e tenho a plena certeza de que amanhã, quando tudo estiver para trás, você saberá que estou ao seu lado, vai sorrir aliviado e com coragem, enchendo meus olhos de lágrimas vai disparar um "Obrigado" e seguir em frente na certeza de que sempre estaremos juntos.

 


(Linhas póstumas de um morto vivo)


Os gritos se calaram, e a palavra “acabou” ganhou sentido naquela manhã ensolarada. Que horário mais estranho para morrer! Eu esperava uma noite nebulosa, escura e triste para meu último adeus, além do mais estava com fome, não tive tempo para tomar meu rotineiro cafezinho.
Nada aconteceu. Os anjos não apareceram, as fadas não me trouxeram presentes, São Pedro não havia descido me mostrando uma longa escada, e para meu alívio o diabo também não. Era entediante, morrer e ficar a mercê de alguém que me explicasse o que havia acontecido, como esperar por um ônibus sem saber as horas. Eu andava pelas ruas e mesmo tendo a certeza de que ninguém me via procurava manter boa a aparência, e como era bom não ter que dar bom dia a quem eu não conhecia... Todas as manhãs faziam parte da mesma rotina: “Bom dia!” “Bom dia!”, quer dizer, você nem conhece aquela pessoa, você pode estar oferecendo uma bela Quarta-Feira para um Serial Killer! Não sou contra os bons costumes, mas romper o espaço entre mim e meus fones de ouvido todas as manhãs para dar oi a um desconhecido era um absurdo. E adiantou? Eu estou aqui, morto, e aquele indivíduo, (que repito, poderia ser um serial killer) nem sabe. As pessoas disfarçam as coisas como se ninguém soubesse que estão mentindo. Veja bem, dizer um “Eu te amo” sincero para uma pessoa que verdadeiramente se ama deve garantir mais espaço no terreno celeste do que sair por aí distribuindo Bons Dias a torto e a direito.
Não sabia há quanto tempo eu estava ali sentado no Banco onde o Sr. Francisco ficava para alimentar os pombos, para a vizinhança um velho rabugento, para mim um discreto senhor sábio e reservado, para os pombos, um herói! Absolutamente ninguém alimentava as pobres aves, pelo contrário, haviam sempre reclamações com relação aos pássaros piolhentos, cujos piolhos eu nunca vi, e olhem que procurei heim! Quando pensava nisso meu estômago virava um nó, coitados dos piolhos, deve ser extremamente humilhante não possuir um lar humano e ter que se refugiar nos pombos do Sr. Francisco! Eu assistia a mesma cena e refletia sobre a mesma idéia todos os dias ao caminho do trabalho, nunca ouvi um Bom Dia do Sr. Francisco, mas ele também nunca bateu na minha porta pedindo uma xícara de açúcar, nunca bisbilhotou com quem eu estava conversando no portão e nunca reclamou do som alto aos finais de semana. Hoje ele não estava ali, ou se estava já tinha ido embora, eu não sabia que horas eram e não me preocupava em saber! 30 anos contados no ponteiro dos segundos já são os bastante para alguém pontual.
Do vale de meus pensamentos eu fui retirado surpreendido por uma gota de suor escorrendo em minha face, e se estão surpresos sabem exatamente como eu me senti ao perceber o calor. Eu estava morto e ainda assim o verão atormentava o meu corpo com as temperaturas mais elevadas possíveis! Pensei em ficar nu, mas a idéia fugiu mais rápido do que uma leve brisa que passava por perto do chafariz.
Manhã, calor, tédio ... esse definitivamente não era um belo dia para morrer! Pelo menos para mim, que imaginava a triste cena numa noite escura e fria com um corvo entoando as sagradas palavras “Never More” de Edgar Allan Poe junto ao meu último suspiro. Em seu lugar, ali estavam os pombos piolhentos e desocupados me assistindo.
Me levantei, respirei fundo embora não soubesse o intuito disto na minha atual situação e comecei a caminhar. Devem estar atrasados eu pensei, alguém deveria me indicar algum caminho! Ou então o Padre estava errado. Como eu queria voltar pra gritar no meio da capela cuja acústica transformava sussurros em berros um “Ahááá, viu, o Senhor não estava totalmente certo!”. Em meio ao meu riso contido em imaginar a cara do velhote de batina fui interrompido por um senhor, olhos azuis, roupa branca, logo pensei: Os umbandistas estavam certos! Devia ter feito mais oferendas a Iemanjá! Mas ele sorriu como soubesse o que eu estava pensando!
Nos encaramos um pouco até que perguntei o objetivo daquilo tudo. Ele suspirou, levou a mão a testa e disse baixinho: Estou procurando um jeito de lhe dizer que cometemos um engano.
Silêncio. Nunca estive mais confuso em minha vida, o calor havia aumentado e comecei a pensar seriamente que estava tendo alucinações.
-Você foi morto por engano. Desculpemo-nos o transtorno! Na verdade, o morto seria o Sr. Francisco. Mas ele não estava na praça como de costume, então, você entrou na frente e a bala perdida te acertou.
Eu ri. Era demais para mim! Ser morto em uma manhã de verão, sem tomar café e ainda por engano! Trágico, e maravilhosamente cômico. Ele me explicou que eu retornaria minutos antes do acontecido e que eu me certificasse de ficar em um lugar seguro. Eu aceitei, mas lógico, danos morais eram necessários! Exigi uma morte aos 80 anos, a meia noite, debaixo de uma árvore seca onde repousava um corvo silencioso. E claro, junto ao meu último suspiro um tenebroso “Never More”. Entramos em acordo, infelizmente sem o “Never More”, que segundo o desconhecido era anatomicamente impossível fazer um corvo falar. Acho que ele não conhecia os poemas de Poe.
Como combinado, voltei minutos antes. Me escondi dentro de uma velha banca de jornais e esperei os gritos cessarem. Os dias passaram e realmente me senti como se houvesse nascido de novo, é claro, porque foi isso que aconteceu. Depois daquele dia decidi viajar, rever meus parentes distantes, sair com os amigos esquecidos, assistir a lista de filmes que elaborei aos 19 anos, ouvir músicas inesquecíveis, e claro, comprar um ar condicionado! Se eu teria mais 50 anos pela frente certamente não seria suportando os cruéis verões entediantes.
Vez ou outra eu visitava a praça para alimentar os pombos, o Sr. Francisco já havia ido embora do mundo e para a tristeza da população, os pássaros não podiam ir com ele. Algumas migalhas no chão e a alegria das aves aflorava, alegria que eu assistia de longe, nunca se sabe quando um piolho decidirá mudar de cabeça!
Para os que agora sabem da minha história um conselho, decidam viver antes de morrer, porque pelo que sei, enganos como o que aconteceu comigo são raríssimos, por isso, melhor prevenir do que remediar! Ah, e sempre tomem café de manhã, morrer já é ruim, imaginem partir com fome! Agora com licença, tenho mais o que fazer do que falar da minha vida, ou melhor da minha morte, se quiserem saber mais estarei lá na capela, com tanta mudanças acabei esquecendo de uma promessa que fiz para mim mesmo enquanto morria por engano.

Jéssica Milasauskas

 

 

João Bosco Soares dos Santos
Salvador BA Brasil


Meus Cantares (do livro "Tocatas" em editoração")


Vão... vão... e vão, ó Cantares,
Em deslumbres exemplares
Com magias salutares
As tristezas abater.

Espalhem por todas as gentes
De culturas diferentes
A alegria de viver.

Vão construir novos sonhos
Traçar trilhas de esperança
E transformar em criança
Os pobres viventes bisonhos.

Vão, pérolas vagantes,
Pelos espaços avoantes,
Em missão de luz e paz.

Vão...
Em vôos de estímulos à vida,
Curando toda ferida
Que a tristeza teceu.

Vão...
Pelos espaços infinitos,
Despertando e sendo grito
De afeto, ternura e amor.

Tragam as gotas de perdão esquecidas pelo mundo
Escondidas em roldão pela estúpida ambição.
Busquem a complacência e o amor
O afeto encantador
Que felicidade guardou
Em bilhões de corações.

E colham de toda estrela
A luz, a fé e a esperança
Que a mente humana alcança
Isentas de toda dor.

E coloquem em todo ser
A força do bem-querer
Como centelha e flor.

 

João Bosco


 

 

João P.C. Furtado
Praia/Cabo Verde


IMAGINO O SEGREDO

Estou sem nenhuma inspiração
E tu Musa o que me inspiras?
Muda te prostras e só suspiras
A quem entregaste o coração?

De janela vejo ao longe o vazio
E um pássaro canta nostálgico
E tudo parece muito menos mágico
Está calor e eu sinto enorme frio

Um frio esquisito que me tolhe
E tu... Musa... Não há quem olhe
Para o zumbi em que transformei-me...
Passa uma aragem e a árvore firme
Deixa suas folhas mexer lentamente
Imagino o segredo... E eu aqui... só e triste!

João P.C. Furtado


 

 

 

Jonas R. Sanches
Catanduva – São Paulo - Brasil


Meu Eu Sombrio

Eu verto as lágrimas insanas da madrugada
quando mergulho em todos os meus pecados
e quebro as regras impostas pelo meu mundo
quando abraço todas as sombras do submundo.

Sem piedade dos corações eu grito a morte
e os meus fantasmas envolvem a minha mente
a cada passo que me desfaço do seu decoro
em cada esquina da minha sina eu quase morro.

Mas vou sereno e meu olhar desenfreado
é o que me sorve e me torna um ser alado
então eu calo e peco ao menos mais uma vez
quando retorno ao meu castelo e viro rei.

Em cada sombra desembaraços dessa torrente
que impulsiona meus devaneios incoerentes
e a foz de tudo é um rio disperso numa loucura
que lava a alma e envolve a aura em brandura.

Agora encerro minha crise de insensatez
em poesia sem agonia e sem ressentimento
e quando o sol raiar no céu mais uma vez
eu voltarei a minha alcova de sofrimento.

E na embriaguez de uma vida de paradoxos
eu me entorpeço porque mereço as minhas dores
e quando a aurora da morbidez voltar a vida
eu adormecerei junto aos jardins das minhas flores.

Jonas R. Sanches

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Formatação e Arte Final: Iara Melo
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Fundo Musical: Como Nossos Pais - Belchior
 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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