Artur da Távola

(Crônicas )

 01 - Setembro de 2006

 

 

O INCÊNDIO DA CASA DAS PALMEIRAS

 

Artur da Távola

 

 

Domingo, três de setembro. Ao amanhecer, a maior parte da Casa das Palmeiras, obra reconhecida nacional e internacionalmente, fundada pela Dra. Nise da Silveira, sofreu um incêndio que lhe consumiu quase toda a parte superior. Lá estavam os ateliês de terapêutica artística e um acervo de cinqüenta anos de desenhos, pinturas, gravuras, artesanato, biblioteca, acervo este que serve de material de estudos e da evolução na terapia de esquizofrênicos tratados com métodos atualmente modernos mas pelos quais, durante mais de cinqüenta anos a Dra Nise da Silveira, teve que lutar qual leoa. Não mais choques elétricos ou sedativos cavalares com o paciente longe da família e, sim, uma terapia baseada na atividade artística voluntária, acompanhada por especialistas e do amor no sentido de recuperação da auto-estima destroçada em algum momento das suas dolorosas vidas.

É uma perda irreparável, não apenas de valor material, mas principalmente imaterial, porque de altíssimo valor psiquiátrico, medicinal, antropológico e cultural. 50 Anos!... Segundo os bombeiros há três pontos que indicam haver sido o incêndio induzido criminosamente. A polícia também lá esteve, a imprensa, e alguns amigos e dirigentes da Casa, este, todos voluntários. A Casa das Palmeiras é uma instituição filantrópica sem fins lucrativos. E nos últimos anos vem lutando com dificuldades. Durante a vida da Dra. Nise mantinha-se graças à ajuda de artistas, empresários, estatais e de doações particulares. Com a sua morte em finais da década de 90, a luta continuou, porém mais difícil.

           Se antes a Casa das Palmeiras precisava de alguma ajuda mas sobrevivia e cumpria seu desiderato, hoje precisa ser refeita. Lá ou em outro lugar. Nós, dirigentes voluntários, firmamos no domingo o compromisso de lutar por isso. Haveremos de reiniciar tudo, agora sem 95 por cento do acervo e no momento sendo obrigados a deixar os clientes sem o tratamento diário, nos moldes a que estão acostumados, por falta de lugar enquanto se recupera praticamente toda a parte superior, já que o acervo, este, desgraçadamente, é cinza. É terrível ver cinqüenta anos de trabalho transformar-se em cinzas por causa de um incêndio com características de provocado. Revolta pensar: quem foi capaz de cometer tal perversidade? Por quê? Para quê? Qual a motivação? Por certo a polícia ajudará a esclarecer, pois até um coquetel “molotov” foi encontrado dentro do que restou da Casa das Palmeiras.

            Quando uma instituição de alto valor científico e humano é destruída dessa maneira, a gente encontra mais um motivo para aumentar as desilusões com a hora presente no Brasil ( e no mundo). E conclui que os verdadeiros enfermos estão é cá fora.

 

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A HUMILDADE E O EQUILÍBRIO – Artur da Távola

A verdadeira humildade é o equilíbrio. Haverá alguém capaz de concordar comigo nessa constatação? A humildade como habitualmente concebida, representa o pólo oposto da soberba. E o que é pólo oposto pertence ao mesmo eixo.

Como pode o pólo oposto de um eixo deixar de contaminar-se com o sistema ao qual pertence? Mesmo quando algo se opõe, por isso mesmo, faz parte do sistema dentro do qual de alguma forma é oposição. A humildade como anulação do ego sempre pretende o reconhecimento ou o mérito. Destarte, "humildade" entendida como ausência de vontade, humildade não é.

Ela é "nobre" por contrariar a soberba e assim se afirma, mas tudo o que se afirma e se destaca, por ser elevado, nobre, etc. de algum modo exalta-se, logo não é humildade plena.

Já o equilíbrio, este não visa o reconhecimento nem o aplauso oriundo da humildade entendida no sentido acima: o de oposto da soberba pela ablação da vontade. Nem, por outro lado, adota as táticas vitoriosas provenientes da sensação de onipotência, superioridade, arrogância ou soberba.

O equilíbrio não busca os louros nem os aplausos de qualquer dos dois pólos dessa complexa relação: ele aceita as energias necessárias à vitória e quando a obtém não comemora nem se sente superior pelo fato e - ao mesmo tempo - o equilíbrio sabe incorporar os elementos de modéstia inerentes à humildade. Em síntese: não se vangloria nem se anula. Vive a necessidade de compreender suas limitações, falhas e pequenezas em silêncio e introspecção sem alardear.

O verdadeiro equilíbrio passa despercebido. Nem recebe os louros soberbos da vitória nem o aplauso e reconhecimento do mérito que vem quando há a humildade, no sentido tradicional de anulação do "ego". O equilíbrio é silencioso, não é comemorado e (aqui a humildade verdadeira): não é compreendido.

Seu labor de buscar os aspectos positivos da energia necessária ao êxito e as virtudes de contenção indispensáveis à humildade, leva-o a ser um agente integrador dos dois pólos, desagradando, até, a ambos mas propiciando a fusão salvadora. É atitude bem mais complexa e profunda. Quem a compreenderá?

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OS   CARIOCAS, SESSENTA ANOS – Artur da Távola

 

            Desculpem falar na primeira pessoa. Domingo último vivi uma noite de felicidade bem carioca, muito Ipanemense, bairro onde nasci em 1936, (faz setenta anos) e ao qual vi modificar-se, crescer e no qual fui criança calada e rapaz feliz e saidinho. Lembrou-me quando fazia política eleitoral e amigos dos subúrbios convidam-me para um almoço nas ruas calmas da zona norte e juntavam dezenas e até centenas de amigos e era comer bem, conviver em paz com pessoas queridas e lamentar ter outros compromissos a seguir. Vontade de ficar ali o resto da tarde, pelo carinho, apoio sincero e convivência amena.

            Pois assim foi domingo último ao ver, ouvir viver e conviver em plena calçada da Rua Vinicius de Moraes, organizada por essa verdadeira ONG da cultura brasileira que é a Toca do Vinícius, ver, ouvir viver e conviver com, eu dizia, o conjunto Os Cariocas que estão a comemorar, pasmem,60 anos de existência, um recorde absoluto em durabilidade de conjuntos!

            A solenidade consistia primeiro na aposição das mãos de um Ipanemense histórico, na placa de cimento da calçada da fama. Vi o quanto ele se emocionou com esse reconhecimento e ficou grato lá no fundo. E gratidão é um sentimento que me comove por ser raro. Com a dele, a emoção já tomara conta de mim. Aí começou o show de Os Cariocas. Maravilha! Aqueles músicos afinadísimos, acostumados ao silêncio dos estúdios, refinados em harmonia e rítmica, a tocar e cantar em dissonâncias e sonâncias para centenas de pessoas concentradas na calçada, buzinas, ôibus na rua sem engarrafamento, alguns vizinhos da Toca com  cadeiras de praia, uma menina de 82 anos a sair da imantada e informal platéia e a dançar bonito, sozinha e feliz.

            O maestro Severino Filho é um mago. Fazia bossa nova antes da dita e era pouco compreendido, anos luz à frente dos demais. Foi sendo assimilado e é a meu ver, hoje, uma glória musical brasileira. Em sessenta anos de vida, Os Cariocas, conjunto fundado pelo irmão de Severino o compositor e homem de rádio, alto talento, co-autor da Valsa de Uma Cidade (com o Antonio Maria), Ismael Netto tiveram dois baques. A morte prematura de Ismael e uma passageira dissolução anos depois. Severino então um rapaz tomou a frente do Conjunto, chamou a irmã para fazer a primeira voz (ela estava lá e cantou muito bem) e nesses sessenta anos Os Cariocas são marca da alta categoria internacional da boa música popular do Brasil. Estava, presentes a filha de Severino, a bela e talentosa atriz Lúcia Veríssimo que fez uma linda fala de amor ao pai, a cantora Cláudia Telles, filha da pioneira Sylvinha Telles, e afinadíssima, o Badeco que cantou anos em Os Cariocas, o violonista Chiquito Braga, um dos maiores no gênero; a revelação de cantora Renata Arruda.

            Foi uma noite encantatória. Bem carioca. Justa homenagem a esse conjunto a quem agora também saúdo publicamente. Todo mundo saiu feliz. Tudo de graça e na calçada. De parabéns a Toca do Vinicius e seu animador o Professor Carlos Alberto. Isso é vida comunitária.

 

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