Artur da Távola

(Crônicas )

Janeiro de 2007

 

 

A GRATIDÃO PELO PRIMEIRO PRÊMIO

Artur da Távola


Preciso agradecer de público o prêmio Personalidade Musical do Ano 2006, outorgado pela APCA, Associação Paulista de Críticos de Arte por meu labor musical em rádio e televisão. Às vezes, São Paulo e Rio são países distantes. A ninguém conheço na APCA, não sei onde fica, telefone, nada disso. Só conheço o seu prestígio e respeitabilidade. Jamais fora comunicado da existência desse honroso prêmio e só soube da premiação após a entrega, à qual teria comparecido honrado. Trata-se de um dos prêmios artísticos de maior relevância no Brasil, conferido por críticos de arte de São Paulo, em votação direta. Não fosse minha querida amiga Cecília Thompson, jornalista ela também (do jornal Estado de São Paulo), que me avisou e cumprimentou feliz, via e-mail, não fosse por ela, repito, e jamais teria tomado conhecimento.
Ademais de honrar-me, este prêmio possui um sentido especial. É o primeiro que recebo em minha vida de, já, quase 71 anos (dia 03 de janeiro de 2007). Sim, jamais recebi qualquer prêmio desse tipo.
Claro, minha vida é recheada de prêmios de outra natureza. Insuperáveis! Sou uma pessoa feliz. Ter os pais que tive e a família; o amor de quem me ama; ter podido estudar; o prêmio de amar a música e tê-la feito a grande companheira de minha vida; o prêmio de existir e haver lutado, durante a minha passada atividade político-partidária, por tudo em que acredito; o prêmio de amigos e amigas excepcionais; o fato de ser respeitado por muita gente e querido por outro tanto; o prêmio da alegria pela vida e de uma consciência em paz; os filhos e filhas maravilhosos. Considero-me uma pessoa privilegiada pela vida e pelas lutas que librei e libro. Em suma, cada dia vivido é um presente da bondade de Deus. Por isso, aliás, jamais começo minhas orações sem vivenciar a gratidão profunda pelas Graças recebidas e pelos ancestrais que a vida me legou.
Refiro-me a prêmios como o da APCA, que citei. Vejam só: jamais fui bom aluno, tampouco consegui medalhas, bons boletins ou elogios dos professores. Não fui orador da turma. Jamais tive observada devidamente a minha atividade política. Meu nome não está incluído em enciclopédias literárias como cronista que sou desde 1959. Vinte e quatro livros escritos obtiveram registros de praxe, geralmente sem referência especial, ou análise de estudiosos, embora manifestações às quais sou grato, como as da “Toca do Vinicius”, da Academia de Letras de Saquarema, as de interlocutores mais constantes pelo país, e estudos como o do queridíssimo e falecido José Maria de Souza Dantas, “Artur da Távola,  De repente o Poeta”, livro em que analisou alguns de meus poemas. Minha vivência com editoras só foi especial nos tempos de vida de meu amigo inesquecível, Sérgio Lacerda, na Nova Fronteira. Nem o filho dele, sucessor na Editora, jamais quis saber de mim.
Mais recentemente, o contínuo fluxo de mensagens via Internet põe-me em estreito contato com estudiosos, leitores, ouvintes e telespectadores do Brasil e do exterior e sinaliza a repercussão de minha obra, embora doa a ausência de projetos de reedição de meus livros. Para os intelectuais, eu sou um político; e, para os políticos, eu sou um poeta: apenas boas intenções (jamais premiadas, segundo o bem-humorado dito popular).
Assim, agradeço, de público, à APCA pela honra, antes de entrar em férias, agora em janeiro. Tudo de bom em 2007. E até fevereiro, se Deus quiser.

O PRANTO DE HELOÍSA HELENA

Artur da Távola
 

A Senadora Heloísa Helena despediu-se do Senado com enorme emoção, e todos os jornais, rádios e televisões disseminaram pelo Brasil o seu comovente pranto. Alguns vetustos Senadores até choraram com ela.
            Convivi oito anos com Heloísa no Senado e ficamos muito amigos, apesar de posições políticas antagônicas. Porém não é de política que desejo falar. É da pessoa que se transformou, com um só mandato, em figura nacional, comandante de um Partido, candidata a Presidente da República. Tudo isso em decorrência de suas principais virtudes: absoluta honestidade pessoal; grande intensidade interior, filha de suas verdades. Tem a sinceridade como característica.
            Incorruptível, algo de demasia injusta em suas palavras, trabalhadora como poucos e poucas parlamentares, estudiosa do Brasil, a corporificação da paixão pela justiça social e pelo País. Suas demasias (ou, se preferirem, defeitos) decorrem de um vício de origem do PT: considerar-se com o monopólio da dignidade, o que sempre coloca seus militantes na posição supostamente superior de poder julgar os demais e as posições políticas dos outros como necessariamente inferiores. Repetiu os cacoetes da esquerda antiga, da qual é militante e que o tempo se encarregará de temperar. O outro de seus erros está mais para uma injustiça: não soube avaliar com equilíbrio o Governo FHC. Em vez de críticas, fez-lhe injustiças pessoais, políticas e agressões destemperadas.
            Agora o paradoxal: fora das diatribes da tribuna, é uma das criaturas mais doces e meigas com quem se pode contar. Uma sentimental da melhor cepa humana e feminina. Alegre, franca e carinhosa como poucas. Eu brincava com ela, ao dizer que, quando subia para discursar, baixava-lhe um Exu daqueles terríveis e que eu visualizava o momento da incorporação. Ela ria e dizia: “Isso de Exu é coisa de vocês lá do Rio que têm essas manias”.
Heloísa é delicada pessoalmente, adorável para conversar, leva tudo a sério, mas fica uma tarasca (como se diz na Bahia) com pessoas sabujas e desonestas. Deu ao Brasil uma lição de coerência, raríssima dentro da sonsice média dos comportamentos políticos. Jamais baixou a cabeça para as tentações do poder, jamais bajulou, jamais negou a si mesma e, na hora exata, ficou com a coerência de sua pregação. O segmento leninista do PT expulsou-a de modo brutal. Ela era uma ameaça para todos aqueles que quase acabaram com o Governo Lula... Amava o Senado e o que lá fazia. Vai sofrer não pelo poder que não busca para si, mas pela perda de instrumentos de luta. Em compensação vai modernizar a sua visão do que é ou deva ser a verdadeira esquerda contemporânea. E vai voltar melhor ainda, se Deus quiser. 
O Brasil lhe deve cumprimentos e gratidões. E daqui, modestamente, tento representar todos os que a admiram. Mesmo quando discordam.
 

NOVIDADES NA PRIMEIRA PESSOA

Artur da Távola


Aviso a amigos, leitores e ouvintes que,  após 50 anos de trabalho na emissora, estou a deixar a Rádio MEC (AM e FM). Foi o trabalho que mais amei em toda a minha vida. Não consigo disfarçar que saio com dor e espero um dia voltar. Lá comecei minha vida profissional em 1956.
 
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Convidado pelo Governador Sérgio Cabral, devo assumir a Presidência da Rádio Roquete Pinto, 94,1 FM a partir de dois de janeiro de 2007. Em algum tempo, o mais breve possível, quem me ouvia na rádio MEC, poderá fazê-lo na 94,1 FM.
 
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Existe uma entidade que unifica as rádios públicas. Seu presidente, que é também o Diretor da rádio MEC, Orlando Guilhon, se esforça por um intercâmbio de programas culturais. Vou inserir-me nesse esforço e, só aqui no Rio, há três emissoras públicas que podem fazer intercâmbio de programas qualificados, pois os possuem em boa quantidade: a Radio MEC FM e AM,  a Roquete Pinto em FM 94,1  (brevemente também em AM) e a  Rádio Nacional AM 1130 KHZ.
Do intercâmbio resultará economia de custos e expansão da audiência.
 
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Durante janeiro, andarei sumido da coluna que escrevo há vinte anos neste jornal. O chefe João Carlos Pedroso autorizou-me as férias. É um santo. Em fevereiro, se deixarem, cá estarei para alegria mais minha que de vocês.
 
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Curiosa, a minha vida. Em todos os lugares nos quais trabalhei, foi por muitos anos. Vejamos:
A ) 42 anos de política, (incluindo cassação de direitos políticos e o exílio fora do Brasil em 1964 e 16 anos no Congresso em Brasília, de 1987 até 2003), há quatro estou fora. Só faço atividades culturais e estou mais feliz;
B) 15 anos em O Globo. Concomitantemente, 13 anos em Bloch Editores como cronista e diretor de algumas revistas;
C) e, justamente neste dezembro,  faço 20 anos de O DIA. Coisa bem de capricorniano, não acham?
 
O único lugar onde não durei foi na Universidade Estácio de Sá: razões diversas...

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A última crônica deste ano, antes das férias, ainda virá no sábado, mas escrevo hoje na primeira pessoa do singular, pois o texto está leve, fácil de ler, embora mais auto-referente do que gosto... Como pessoa de atividade pública, porém, devo fazê-lo.




         CARINHOSO, DE BRAGUINHA E PIXINGUINHA

Artur da Távola

Braguinha nasceu numa Sexta feira Santa e morreu no Natal. Coisa de santo. Que foi. Quero lembrar, emocionadíssimo, o que escrevi aqui na véspera de ele fazer 99 anos:
“Amanhã é 29 de março de 2006. Carlos Alberto Ferrreira Braga, o Braguinha, que, quando moço, se auto-apelidou João de Barro no conjunto musical Bando de Tangarás (cada membro, entre outros Noel Rosa e Almirante, deveria se dar o cognome de um pássaro, mas só o João de Barro pegou), amanhã Braguinha faz 99 anos. Salve Braguinha! Um descomunal brasileiro. Uma delicada flor silvestre numa floresta de infelizes e malfeitores. Vejam só: 1)Cantor; 2)compositor; 3)letrista; 4)autor de versões; 5)diretor artístico de gravadora; 6)revelador de talentos (Emilinha Borba, Jorge Goulart, Dick Farney, Doris Monteiro, Dalva de Oliveira (fez a voz da Branca de Neve), Elizete Cardoso, Gilberto Milfont, Nuno Roland, Silvio Caldas, Almirante, Mario Reis, Carmem Miranda, Rui Rei, Heleninha Costa, tanta gente); 7)criador de discos com músicas para crianças, até hoje vendidos e procurados; 8)autor da versão para o português do primeiro desenho animado de longa-metragem e música, “A Branca de Neve”, e de outros, como Dumbo, Bambi etc; 9) autor de marchas, de marchinhas carnavalescas, sambas, sambas-canção, canções, valsas; 10) compositor de Chiquita Bacana, Yes Nós temos Bananas, o Rio Amanheceu Sorrindo, Ô Balancê, Pirata da Perna de Pau, Touradas em Madrid, A Mulata É a Tal, Domingo em Paquetá, Laura, A Saudade Mata A Gente, Anda Luzia, Tem gato na Tuba, Lancha Nova; chega? 11) parceiro de gente do nível de Alberto Ribeiro, Antônio Almeida, Alcyr Pires Vermelho, Jota Junior, Noel Rosa, vários outros, chega? 12) fundador da Gravadora Todamérica, que se notabilizou e enfrentou gigantes na década de 50; diretor artístico de musicais, de dublagens e discos com versões.
         E Braguinha como pessoa, um pássaro lindo, solto, pequenino, canoro, meigo, bem querido por todo mundo. Penso mais que isso: talvez a reencarnação de São Francisco de Assis. Também nele brilha uma luz rara: a de um homem feliz. A felicidade é mais criativa que a dor, a mágoa, a angústia e a tristeza. De todos os seus nomes, o pseudônimo João de Barro é o que profetizou a sua vida, quando o escolheu (o inconsciente nunca se engana), pássaro construtor da casa abrigo dos filhos, com segredos que a tornam impenetráveis às aves de rapina.(os bons atraem os bons).
Licença São Pixinguinha (seu parceiro em Carinhoso): João de Barro também é o São Braguinha. Deus o abençoou. Veio ao mundo para o fazer mais belo e feliz. E fez.”
 



O TORCEDOR ESSE ADORÁVEL POSSESSO

Artur da Távola


Com a proximidade do Natal, Brasil e mundo mergulhados em tanta dor, decadência, maldade, corrupção e guerras, este cronista resolveu dar-se um descanso de tanto se preocupar com o entorno. E o Internacional foi a minha válvula de escape, isso desde o domingo, quando este notívago acordou às oito e quinze da madrugada para ver a partida dramática. E, sem ser torcedor do time gaúcho, vibrou eletrizado.
Vendo, na terça feira, o desespero feliz, o êxtase transtornado (alegria também transtorna. E nisso é diferente da felicidade...) da torcida do colorado, fiquei a pensar nessa figura ao mesmo tempo patética e linda do “torcedor”. Começa pela palavra. É quem busca torcer o real, para que este se ajuste às suas verdades interiores. Quando coincide a torcida com o resultado, um estado de indescritível loucura dele se apossa. E ele, de reles torcedor, passa a ser um “possesso”, isto é, alguém em delírio, possuído por aquela  espécie de demônios brincalhões ou agressivos, os mesmos que se infiltram em todo carnaval. Assim é o torcedor
O grande paradoxo da patética alegria pela vitória desportiva é a sua gratuidade. Fixemos bem esta palavra: gratuidade. O fato de ser um delírio de alegria por algo sem nenhuma significação e que, em pouco tempo, desaparece,  embora entre para a história, explica tudo: aquele sentimento é gratuito. Gratuito vem de Graça. Graça é uma das mais profundas palavras e conceitos desvendados pela religião. A Graça de Deus é um dom especial, natural e misterioso, de que cada ser humano, ou alguns deles, não sei, é dotado ao vir ao mundo. Pode estar presente em reis, menestréis ou vagabundos.
O importante é a gratuidade desse dom, isto é, nada mais ser do que é, sem explicações. Paradoxalmente, a explosão profana de delírio pela vitória desportiva é da mesma natureza de outros dons gratuitos, alguns sagrados, por isso misteriosos, como a santidade, a genialidade, o talento especial, ofertados de “Graça” para algumas pessoas por Deus, via natureza.
Em nome do núcleo dessa gratuidade, até as superficialidades advindas do campo desportivo, algo que se esgota em si mesmo e sem que o mundo mude por causa disso, até essas superficialidades, eu dizia  estão tocadas por uma chispa divinatória. Chispa que transforma tudo em beleza, poder, ingenuidade, inocência alegria, catarse e loucura advindas do fato de ser o torcedor apenas um ser humano, e, como ser humano, um eterno subordinado aos mitos profundamente arraigados no inconsciente coletivo.


 

SIVUCA, SÃO PEDRO E O XAXADO

Artur da Távola


Sivuca da Paraíba. Sivuca que era Severino. Sivuca da Glorinha Gadelha sua mulher dedicada e parceira no genial “Feira de Mangaio”. Sivuca albino, nordestino e deslumbrante como Hermeto Pascoal este outro bruxo de descomunal talento e a simpatia maior de todas as Américas, Europa, África e Oceania capaz de tirar som até do dedão do pé se não cortar a unha. Sivuca também da Europa, para onde excursionou com sua sanfona com 27 anos numa caravana de divulgação da música brasileira, numa antiga e maravilhosa iniciativa de Humberto Teixeira que nunca mais foi repetida.
            Sivuca que em certa fase descobriu um som entre garganta e lábios que somava ao da sanfona numa invenção formidável, inimitável. à qual depois abandonou. A mesma garganta que invadida por um câncer o levaria. Sivuca ritmo puro que sacudiu a Brasil, Europa, América e África. E para esta escreveu a imortal “Mãe África”. Sivuca de quem o fossento e talentoso Miles Davies, disse mais ou menos o seguinte: “você me fez pela primeira vez na vida amar o som do acordeão”. Sivuca compositor do “João e Maria” na qual o Chico Buarque colocou letra e a Miúcha gravou, uma das mais delicadas canções de lembranças infantis jamais escritas no Brasil (“Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês. A noiva do caubói era você além das outras três”)...
            Sivuca que no auge da discriminação racial na África do Sul, foi descoberto pela então famosa Miriam Makeba porque conseguia na sanfona o ritmo de que ela necessitava e saiu com ela pelo mundo. Sivuca que tocou com Herry Belafonte.  Sivuca que sofria pelo Brasil em fases de não reconhecimento de sua arte superior. Sivuca que no Clube do Choro de Brasília e em muitos lugares do Brasil de repente tocava Bach com perfeição para platéias populares deslumbradas com aquele som.
            Sivuca o que sabia da existência de uma alma na sanfona (deixem-me chamar o acordeão de sanfona!) e do quanto ela sofria quando os mesmos intelectuais (que depois se transformaram em admiradores) esnobavam o instrumento de um Luís Gonzaga, no qual se inspirou. Sivuca, aluno do grande e esquecido Guerra Peixe, A mesma sanfona que tanto se prestava a um tango como ao toque sutil e lustroso do Chiquinho, o gaúcho que até o Radamés Gnatalli, com sua acuidade musical, o chamou para seu quinteto e sexteto. Sivuca que, com Orlando Silveira ajudou a gerar um Dominguinhos sensível e maravilhoso e a nova geração do Marcos Nimrichter ou a dos misteriosos sons do acordeão do Toninho Ferragutti, estes gente ainda pouco conhecida pois o rádio e a TV não divulgam o bom Brasil musical. Como sempre escondeu Sivuca.
Sim, Sivuca vivenciava de modo sonoro a existência de uma alma na sanfona e secretamente, sem nada dizer, sabia que esta alma era ele mesmo.   O Brasil vai ficar sem mais um grande músico popular.
E São Pedro já caiu no xaxado. Meio encabulado, porém não resistiu.



LULA E A ESQUERDA MAIOR DE 60 ANOS

Artur da Távola

 
Estou cheio de ainda mais problemas e não sabia. Reconhecia alguns, típicos desses quase setenta e um anos e triglicérides altos, isso na qualidade de um idoso semi-novo, vidros elétricos, ar de fábrica, bancos reclináveis e pneus novos. Os demais, problemas com a melhor das intenções o Presidente Lula me arranjou, num discurso aliás de bom senso, há dois dias, quando disse que qualquer maior de sessenta (e aludiu a si mesmo), se é de esquerda é porque está cheio de problemas. Esquerda é para jovens. Ele mesmo aos sessenta, diz que já foi de esquerda e hoje está “meio para social democrata”. Ora, eu sou de esquerda e aos quase 71 anos não me considero cheio de problemas mentais, políticos ou radicais. Mas disso falo ao fim do artigo.
            Então aos sessenta anos Lula descobre que a tendência natural é avançar pelo centro com idéias de esquerda! Aconteceu o milagre! E o reconheceu de público num discurso que passou em branco pelos principais analistas de nossa imprensa.
Mas está na hora de dizer o que considero ser de esquerda.
Desde que terminei os anos de exílio na Bolívia e no Chile (consegui sair de lá antes do regime Pinochet, por isso cá estou: poderia ter sumido no meio daqueles crimes hediondos) aprendi que a verdadeira esquerda não é o que eu pensava, como inchação do Estado para distribuir a Justiça Social de modo equitativo, prevenção contra a empresa privada e a idéia de que cada País deveria produzir tudo o que necessita para sobreviver. Aprendi nas leituras e no amargo exílio que a verdadeira esquerda é a democracia social ou social democracia. Nada de o Estado impor o monopólio do pensamento, religião, padrões estéticos ou ditaduras do proletariado ou de qualquer tipo. Aprendi que a verdadeira esquerda é a posição de quem deseja a renovação constante da sociedade; é generosa em seu comportamento; vive da democracia, da substituição no poder e equilibra estado e iniciativa privada num trabalho reitor feito pelos governos se possível dentro do sistema parlamentarista.
Como diz Norberto Bobbio: “nem o estado máximo dos totalitários, nem o estado mínimo dos liberais: mas o estado socialmente necessário”. E nesta esquerda democrática já milito há quarenta anos, convencido de sua razoabilidade. Fico, portanto, feliz, ao ver o Presidente Lula nesta grande revisão que está a fazer de sua vida e métodos de governo, idem de idéias e pensamentos. Só falta agora o Presidente aprofundar alguns conceitos para compreender  melhor ainda que a verdadeira esquerda, típica da maturidade pessoal, psicológica, espiritual e política é a social democrática. Justamente aquela que a esquerda atrasada adora ofender acoimando-a de neo liberal.E é a compreensão de que no mundo moderno só a interdependência entre os povos garante a plenitude da soberania de cada um.

FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO

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