A GRATIDÃO PELO PRIMEIRO PRÊMIO
Artur da Távola
Preciso agradecer de público o prêmio Personalidade Musical do Ano 2006,
outorgado pela APCA, Associação Paulista de Críticos de Arte por meu labor
musical em rádio e televisão. Às vezes, São Paulo e Rio são países distantes. A
ninguém conheço na APCA, não sei onde fica, telefone, nada disso. Só conheço o
seu prestígio e respeitabilidade. Jamais fora comunicado da existência desse
honroso prêmio e só soube da premiação após a entrega, à qual teria comparecido
honrado. Trata-se de um dos prêmios artísticos de maior relevância no Brasil,
conferido por críticos de arte de São Paulo, em votação direta. Não fosse minha
querida amiga Cecília Thompson, jornalista ela também (do jornal Estado de São
Paulo), que me avisou e cumprimentou feliz, via e-mail, não fosse por ela,
repito, e jamais teria tomado conhecimento.
Ademais de honrar-me, este prêmio possui um sentido especial. É o primeiro que
recebo em minha vida de, já, quase 71 anos (dia 03 de janeiro de 2007). Sim,
jamais recebi qualquer prêmio desse tipo.
Claro, minha vida é recheada de prêmios de outra natureza. Insuperáveis! Sou uma
pessoa feliz. Ter os pais que tive e a família; o amor de quem me ama; ter
podido estudar; o prêmio de amar a música e tê-la feito a grande companheira de
minha vida; o prêmio de existir e haver lutado, durante a minha passada
atividade político-partidária, por tudo em que acredito; o prêmio de amigos e
amigas excepcionais; o fato de ser respeitado por muita gente e querido por
outro tanto; o prêmio da alegria pela vida e de uma consciência em paz; os
filhos e filhas maravilhosos. Considero-me uma pessoa privilegiada pela vida e
pelas lutas que librei e libro. Em suma, cada dia vivido é um presente da
bondade de Deus. Por isso, aliás, jamais começo minhas orações sem vivenciar a
gratidão profunda pelas Graças recebidas e pelos ancestrais que a vida me legou.
Refiro-me a prêmios como o da APCA, que citei. Vejam só: jamais fui bom aluno,
tampouco consegui medalhas, bons boletins ou elogios dos professores. Não fui
orador da turma. Jamais tive observada devidamente a minha atividade política.
Meu nome não está incluído em enciclopédias literárias como cronista que sou
desde 1959. Vinte e quatro livros escritos obtiveram registros de praxe,
geralmente sem referência especial, ou análise de estudiosos, embora
manifestações às quais sou grato, como as da “Toca do Vinicius”, da Academia de
Letras de Saquarema, as de interlocutores mais constantes pelo país, e estudos
como o do queridíssimo e falecido José Maria de Souza Dantas, “Artur da Távola,
De repente o Poeta”, livro em que analisou alguns de meus poemas. Minha vivência
com editoras só foi especial nos tempos de vida de meu amigo inesquecível,
Sérgio Lacerda, na Nova Fronteira. Nem o filho dele, sucessor na Editora, jamais
quis saber de mim.
Mais recentemente, o contínuo fluxo de mensagens via Internet põe-me em estreito
contato com estudiosos, leitores, ouvintes e telespectadores do Brasil e do
exterior e sinaliza a repercussão de minha obra, embora doa a ausência de
projetos de reedição de meus livros. Para os intelectuais, eu sou um político;
e, para os políticos, eu sou um poeta: apenas boas intenções (jamais premiadas,
segundo o bem-humorado dito popular).
Assim, agradeço, de público, à APCA pela honra, antes de entrar em férias, agora
em janeiro. Tudo de bom em 2007. E até fevereiro, se Deus quiser.

O PRANTO DE HELOÍSA HELENA
Artur da Távola
A Senadora Heloísa Helena despediu-se do Senado com enorme emoção, e todos os
jornais, rádios e televisões disseminaram pelo Brasil o seu comovente pranto.
Alguns vetustos Senadores até choraram com ela.
Convivi oito anos com Heloísa no Senado e ficamos muito amigos,
apesar de posições políticas antagônicas. Porém não é de política que desejo
falar. É da pessoa que se transformou, com um só mandato, em figura nacional,
comandante de um Partido, candidata a Presidente da República. Tudo isso em
decorrência de suas principais virtudes: absoluta honestidade pessoal; grande
intensidade interior, filha de suas verdades. Tem a sinceridade como
característica.
Incorruptível, algo de demasia injusta em suas palavras,
trabalhadora como poucos e poucas parlamentares, estudiosa do Brasil, a
corporificação da paixão pela justiça social e pelo País. Suas demasias (ou, se
preferirem, defeitos) decorrem de um vício de origem do PT: considerar-se com o
monopólio da dignidade, o que sempre coloca seus militantes na posição
supostamente superior de poder julgar os demais e as posições políticas dos
outros como necessariamente inferiores. Repetiu os cacoetes da esquerda antiga,
da qual é militante e que o tempo se encarregará de temperar. O outro de seus
erros está mais para uma injustiça: não soube avaliar com equilíbrio o Governo
FHC. Em vez de críticas, fez-lhe injustiças pessoais, políticas e agressões
destemperadas.
Agora o paradoxal: fora das diatribes da tribuna, é uma das
criaturas mais doces e meigas com quem se pode contar. Uma sentimental da melhor
cepa humana e feminina. Alegre, franca e carinhosa como poucas. Eu brincava com
ela, ao dizer que, quando subia para discursar, baixava-lhe um Exu daqueles
terríveis e que eu visualizava o momento da incorporação. Ela ria e dizia: “Isso
de Exu é coisa de vocês lá do Rio que têm essas manias”.
Heloísa é delicada pessoalmente, adorável para conversar, leva tudo a sério, mas
fica uma tarasca (como se diz na Bahia) com pessoas sabujas e desonestas. Deu ao
Brasil uma lição de coerência, raríssima dentro da sonsice média dos
comportamentos políticos. Jamais baixou a cabeça para as tentações do poder,
jamais bajulou, jamais negou a si mesma e, na hora exata, ficou com a coerência
de sua pregação. O segmento leninista do PT expulsou-a de modo brutal. Ela era
uma ameaça para todos aqueles que quase acabaram com o Governo Lula... Amava o
Senado e o que lá fazia. Vai sofrer não pelo poder que não busca para si, mas
pela perda de instrumentos de luta. Em compensação vai modernizar a sua visão do
que é ou deva ser a verdadeira esquerda contemporânea. E vai voltar melhor
ainda, se Deus quiser.
O Brasil lhe deve cumprimentos e gratidões. E daqui, modestamente, tento
representar todos os que a admiram. Mesmo quando discordam.

NOVIDADES NA PRIMEIRA PESSOA
Artur da Távola
Aviso a amigos, leitores e ouvintes que, após 50 anos de trabalho na emissora,
estou a deixar a Rádio MEC (AM e FM). Foi o trabalho que mais amei em toda a
minha vida. Não consigo disfarçar que saio com dor e espero um dia voltar. Lá
comecei minha vida profissional em 1956.
***
Convidado pelo Governador Sérgio Cabral, devo assumir a Presidência da Rádio
Roquete Pinto, 94,1 FM a partir de dois de janeiro de 2007. Em algum tempo, o
mais breve possível, quem me ouvia na rádio MEC, poderá fazê-lo na 94,1 FM.
***
Existe uma entidade que unifica as rádios públicas. Seu presidente, que é também
o Diretor da rádio MEC, Orlando Guilhon, se esforça por um intercâmbio de
programas culturais. Vou inserir-me nesse esforço e, só aqui no Rio, há três
emissoras públicas que podem fazer intercâmbio de programas qualificados, pois
os possuem em boa quantidade: a Radio MEC FM e AM, a Roquete Pinto em FM 94,1
(brevemente também em AM) e a Rádio Nacional AM 1130 KHZ.
Do intercâmbio resultará economia de custos e expansão da audiência.
***
Durante janeiro, andarei sumido da coluna que escrevo há vinte anos neste
jornal. O chefe João Carlos Pedroso autorizou-me as férias. É um santo. Em
fevereiro, se deixarem, cá estarei para alegria mais minha que de vocês.
***
Curiosa, a minha vida. Em todos os lugares nos quais trabalhei, foi por muitos
anos. Vejamos:
A ) 42 anos de política, (incluindo cassação de direitos políticos e o exílio
fora do Brasil em 1964 e 16 anos no Congresso em Brasília, de 1987 até 2003), há
quatro estou fora. Só faço atividades culturais e estou mais feliz;
B) 15 anos em O Globo. Concomitantemente, 13 anos em Bloch Editores como
cronista e diretor de algumas revistas;
C) e, justamente neste dezembro, faço 20 anos de O DIA. Coisa bem de
capricorniano, não acham?
O único lugar onde não durei foi na Universidade Estácio de Sá: razões
diversas...
***
A última crônica deste ano, antes das férias, ainda virá no sábado, mas escrevo
hoje na primeira pessoa do singular, pois o texto está leve, fácil de ler,
embora mais auto-referente do que gosto... Como pessoa de atividade pública,
porém, devo fazê-lo.

CARINHOSO, DE BRAGUINHA E PIXINGUINHA
Artur da Távola
Braguinha nasceu numa Sexta feira Santa e morreu no Natal. Coisa de santo. Que
foi. Quero lembrar, emocionadíssimo, o que escrevi aqui na véspera de ele fazer
99 anos:
“Amanhã é 29 de março de 2006. Carlos Alberto Ferrreira Braga, o Braguinha, que,
quando moço, se auto-apelidou João de Barro no conjunto musical Bando de
Tangarás (cada membro, entre outros Noel Rosa e Almirante, deveria se dar o
cognome de um pássaro, mas só o João de Barro pegou), amanhã Braguinha faz 99
anos. Salve Braguinha! Um descomunal brasileiro. Uma delicada flor silvestre
numa floresta de infelizes e malfeitores. Vejam só: 1)Cantor; 2)compositor; 3)letrista;
4)autor de versões; 5)diretor artístico de gravadora; 6)revelador de talentos (Emilinha
Borba, Jorge Goulart, Dick Farney, Doris Monteiro, Dalva de Oliveira (fez a voz
da Branca de Neve), Elizete Cardoso, Gilberto Milfont, Nuno Roland, Silvio
Caldas, Almirante, Mario Reis, Carmem Miranda, Rui Rei, Heleninha Costa, tanta
gente); 7)criador de discos com músicas para crianças, até hoje vendidos e
procurados; 8)autor da versão para o português do primeiro desenho animado de
longa-metragem e música, “A Branca de Neve”, e de outros, como Dumbo, Bambi etc;
9) autor de marchas, de marchinhas carnavalescas, sambas, sambas-canção,
canções, valsas; 10) compositor de Chiquita Bacana, Yes Nós temos Bananas, o Rio
Amanheceu Sorrindo, Ô Balancê, Pirata da Perna de Pau, Touradas em Madrid, A
Mulata É a Tal, Domingo em Paquetá, Laura, A Saudade Mata A Gente, Anda Luzia,
Tem gato na Tuba, Lancha Nova; chega? 11) parceiro de gente do nível de Alberto
Ribeiro, Antônio Almeida, Alcyr Pires Vermelho, Jota Junior, Noel Rosa, vários
outros, chega? 12) fundador da Gravadora Todamérica, que se notabilizou e
enfrentou gigantes na década de 50; diretor artístico de musicais, de dublagens
e discos com versões.
E Braguinha como pessoa, um pássaro lindo, solto, pequenino, canoro,
meigo, bem querido por todo mundo. Penso mais que isso: talvez a reencarnação de
São Francisco de Assis. Também nele brilha uma luz rara: a de um homem feliz. A
felicidade é mais criativa que a dor, a mágoa, a angústia e a tristeza. De todos
os seus nomes, o pseudônimo João de Barro é o que profetizou a sua vida, quando
o escolheu (o inconsciente nunca se engana), pássaro construtor da casa abrigo
dos filhos, com segredos que a tornam impenetráveis às aves de rapina.(os bons
atraem os bons).
Licença São Pixinguinha (seu parceiro em Carinhoso): João de Barro também é o
São Braguinha. Deus o abençoou. Veio ao mundo para o fazer mais belo e feliz. E
fez.”

O TORCEDOR ESSE ADORÁVEL POSSESSO
Artur da Távola
Com a proximidade do Natal, Brasil e mundo mergulhados em tanta dor, decadência,
maldade, corrupção e guerras, este cronista resolveu dar-se um descanso de tanto
se preocupar com o entorno. E o Internacional foi a minha válvula de escape,
isso desde o domingo, quando este notívago acordou às oito e quinze da madrugada
para ver a partida dramática. E, sem ser torcedor do time gaúcho, vibrou
eletrizado.
Vendo, na terça feira, o desespero feliz, o êxtase transtornado (alegria também
transtorna. E nisso é diferente da felicidade...) da torcida do colorado, fiquei
a pensar nessa figura ao mesmo tempo patética e linda do “torcedor”. Começa pela
palavra. É quem busca torcer o real, para que este se ajuste às suas verdades
interiores. Quando coincide a torcida com o resultado, um estado de
indescritível loucura dele se apossa. E ele, de reles torcedor, passa a ser um
“possesso”, isto é, alguém em delírio, possuído por aquela espécie de demônios
brincalhões ou agressivos, os mesmos que se infiltram em todo carnaval. Assim é
o torcedor
O grande paradoxo da patética alegria pela vitória desportiva é a sua
gratuidade. Fixemos bem esta palavra: gratuidade. O fato de ser um delírio de
alegria por algo sem nenhuma significação e que, em pouco tempo, desaparece,
embora entre para a história, explica tudo: aquele sentimento é gratuito.
Gratuito vem de Graça. Graça é uma das mais profundas palavras e conceitos
desvendados pela religião. A Graça de Deus é um dom especial, natural e
misterioso, de que cada ser humano, ou alguns deles, não sei, é dotado ao vir ao
mundo. Pode estar presente em reis, menestréis ou vagabundos.
O importante é a gratuidade desse dom, isto é, nada mais ser do que é, sem
explicações. Paradoxalmente, a explosão profana de delírio pela vitória
desportiva é da mesma natureza de outros dons gratuitos, alguns sagrados, por
isso misteriosos, como a santidade, a genialidade, o talento especial, ofertados
de “Graça” para algumas pessoas por Deus, via natureza.
Em nome do núcleo dessa gratuidade, até as superficialidades advindas do campo
desportivo, algo que se esgota em si mesmo e sem que o mundo mude por causa
disso, até essas superficialidades, eu dizia estão tocadas por uma chispa
divinatória. Chispa que transforma tudo em beleza, poder, ingenuidade, inocência
alegria, catarse e loucura advindas do fato de ser o torcedor apenas um ser
humano, e, como ser humano, um eterno subordinado aos mitos profundamente
arraigados no inconsciente coletivo.

SIVUCA, SÃO PEDRO E O XAXADO
Artur da Távola
Sivuca da Paraíba. Sivuca que era Severino. Sivuca da Glorinha Gadelha sua
mulher dedicada e parceira no genial “Feira de Mangaio”. Sivuca albino,
nordestino e deslumbrante como Hermeto Pascoal este outro bruxo de descomunal
talento e a simpatia maior de todas as Américas, Europa, África e Oceania capaz
de tirar som até do dedão do pé se não cortar a unha. Sivuca também da Europa,
para onde excursionou com sua sanfona com 27 anos numa caravana de divulgação da
música brasileira, numa antiga e maravilhosa iniciativa de Humberto Teixeira que
nunca mais foi repetida.
Sivuca que em certa fase descobriu um som entre garganta e lábios
que somava ao da sanfona numa invenção formidável, inimitável. à qual depois
abandonou. A mesma garganta que invadida por um câncer o levaria. Sivuca ritmo
puro que sacudiu a Brasil, Europa, América e África. E para esta escreveu a
imortal “Mãe África”. Sivuca de quem o fossento e talentoso Miles Davies, disse
mais ou menos o seguinte: “você me fez pela primeira vez na vida amar o som do
acordeão”. Sivuca compositor do “João e Maria” na qual o Chico Buarque colocou
letra e a Miúcha gravou, uma das mais delicadas canções de lembranças infantis
jamais escritas no Brasil (“Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava
inglês. A noiva do caubói era você além das outras três”)...
Sivuca que no auge da discriminação racial na África do Sul, foi
descoberto pela então famosa Miriam Makeba porque conseguia na sanfona o ritmo
de que ela necessitava e saiu com ela pelo mundo. Sivuca que tocou com Herry
Belafonte. Sivuca que sofria pelo Brasil em fases de não reconhecimento de sua
arte superior. Sivuca que no Clube do Choro de Brasília e em muitos lugares do
Brasil de repente tocava Bach com perfeição para platéias populares deslumbradas
com aquele som.
Sivuca o que sabia da existência de uma alma na sanfona (deixem-me
chamar o acordeão de sanfona!) e do quanto ela sofria quando os mesmos
intelectuais (que depois se transformaram em admiradores) esnobavam o
instrumento de um Luís Gonzaga, no qual se inspirou. Sivuca, aluno do grande e
esquecido Guerra Peixe, A mesma sanfona que tanto se prestava a um tango como ao
toque sutil e lustroso do Chiquinho, o gaúcho que até o Radamés Gnatalli, com
sua acuidade musical, o chamou para seu quinteto e sexteto. Sivuca que, com
Orlando Silveira ajudou a gerar um Dominguinhos sensível e maravilhoso e a nova
geração do Marcos Nimrichter ou a dos misteriosos sons do acordeão do Toninho
Ferragutti, estes gente ainda pouco conhecida pois o rádio e a TV não divulgam o
bom Brasil musical. Como sempre escondeu Sivuca.
Sim, Sivuca vivenciava de modo sonoro a existência de uma alma na sanfona e
secretamente, sem nada dizer, sabia que esta alma era ele mesmo. O Brasil vai
ficar sem mais um grande músico popular.
E São Pedro já caiu no xaxado. Meio encabulado, porém não resistiu.

LULA E A ESQUERDA MAIOR DE 60 ANOS
Artur da Távola
Estou cheio de ainda mais problemas e não sabia. Reconhecia alguns, típicos
desses quase setenta e um anos e triglicérides altos, isso na qualidade de um
idoso semi-novo, vidros elétricos, ar de fábrica, bancos reclináveis e pneus
novos. Os demais, problemas com a melhor das intenções o Presidente Lula me
arranjou, num discurso aliás de bom senso, há dois dias, quando disse que
qualquer maior de sessenta (e aludiu a si mesmo), se é de esquerda é porque está
cheio de problemas. Esquerda é para jovens. Ele mesmo aos sessenta, diz que já
foi de esquerda e hoje está “meio para social democrata”. Ora, eu sou de
esquerda e aos quase 71 anos não me considero cheio de problemas mentais,
políticos ou radicais. Mas disso falo ao fim do artigo.
Então aos sessenta anos Lula descobre que a tendência natural é
avançar pelo centro com idéias de esquerda! Aconteceu o milagre! E o reconheceu
de público num discurso que passou em branco pelos principais analistas de nossa
imprensa.
Mas está na hora de dizer o que considero ser de esquerda.
Desde que terminei os anos de exílio na Bolívia e no Chile (consegui sair de lá
antes do regime Pinochet, por isso cá estou: poderia ter sumido no meio daqueles
crimes hediondos) aprendi que a verdadeira esquerda não é o que eu pensava, como
inchação do Estado para distribuir a Justiça Social de modo equitativo,
prevenção contra a empresa privada e a idéia de que cada País deveria produzir
tudo o que necessita para sobreviver. Aprendi nas leituras e no amargo exílio
que a verdadeira esquerda é a democracia social ou social democracia. Nada de o
Estado impor o monopólio do pensamento, religião, padrões estéticos ou ditaduras
do proletariado ou de qualquer tipo. Aprendi que a verdadeira esquerda é a
posição de quem deseja a renovação constante da sociedade; é generosa em seu
comportamento; vive da democracia, da substituição no poder e equilibra estado e
iniciativa privada num trabalho reitor feito pelos governos se possível dentro
do sistema parlamentarista.
Como diz Norberto Bobbio: “nem o estado máximo dos totalitários, nem o estado
mínimo dos liberais: mas o estado socialmente necessário”. E nesta esquerda
democrática já milito há quarenta anos, convencido de sua razoabilidade. Fico,
portanto, feliz, ao ver o Presidente Lula nesta grande revisão que está a fazer
de sua vida e métodos de governo, idem de idéias e pensamentos. Só falta agora o
Presidente aprofundar alguns conceitos para compreender melhor ainda que a
verdadeira esquerda, típica da maturidade pessoal, psicológica, espiritual e
política é a social democrática. Justamente aquela que a esquerda atrasada adora
ofender acoimando-a de neo liberal.E é a compreensão de que no mundo moderno só
a interdependência entre os povos garante a plenitude da soberania de cada um.

FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO