A Dra
Nise da Silveira não foi uma celebridade da TV: é uma glória
nacional. Por certo muita gente da nova geração jamais ouviu falar
seu nome. Era uma psiquiatra brasileira, alagoana da gota. Frágil
de corpo, pequena e muito magra, tenaz como um tigre, lutadora,
benfeitora precoce no tratamento da doença mental. Antes disso
foi, na juventude, militante ativa do Partido Comunista. Ainda nos
tempos de Vargas foi atirada na prisão da Ilha Grande com outro
grande nome do País o escritor Graciliano Ramos, alagoano como a
Doutora. Leiam Memórias do Cárcere.
Trabalhava ela em Hospital Público até hoje existente, o Pedro II,
na estação do Engenho de Dentro. Era tempo em que as internações,
os choques elétricos ou drogas pesadas de soníferos eram
utilizadas no tratamento de várias enfermidades mentais e também
uma fase da psiquiatria em que a maioria das famílias entregava os
chamados loucos (uma injustiça) aos então hospícios e os largavam
por lá. Resultado: a piora. Alguns saiam do manicômio apenas ao
morrer. Vagavam anos a fio, de avental sujo, perdidos pelos pátios
e os labirintos do ego desestruturado.
A brava
Doutora, aprofundou-se no estudo da esquizofrenia e a partir de
alguns anos descobriu a psicologia profunda do psicanalista Carl
Jung, contemporâneo e ao princípio discípulo de Freud e que depois
enveredou por outro caminho. O mais curioso é que o comunismo
daquela época abjurava tanto a psicanálise, como Jung, pelo fato
de não tentarem explicar o mundo somente pela luta de classes,
embora essa existisse como ainda existe. Nise aprofundou-se no
estudo e no trabalho. Anos depois foi à Suíça. Mostrou a Jung seus
trabalhos e dele ficou não apenas divulgadora como, além de amiga
e correspondente regular, ela se aprimorou na forma de tratamento
da esquizofrenia, usando um binômio considerado utópico pela
maioria dos médicos de então: o binômio era tratar os pacientes
caso a caso (nada de generalidades) através da terapia artística e
muito amor. Da terapia artística decorreram condições para algumas
curas ou, pelo menos alívio e melhora. Além disso, e embora a
finalidade não fosse esta, muitos pacientes antes afundados na
alienação da esquizofrenia deixaram obras hoje de fama
internacional pela qualidade e expressividade. Hostilizada no
Hospital, resolveu abrir uma clínica privada pequena, a que chamou
de Casa das Palmeiras, sem finalidades comerciais ou lucrativas. E
na qual toda a Direção é voluntária. Isso, há 50 anos ! A Casa das
Palmeiras de lá até aqui, mesmo reconhecida como obra da mesma
importância (em tamanho menor) do Museu das Imagens do
Inconsciente (existente no Hospital Pedro II e também obra dela),
nesses 50 anos acumulou um acervo de trabalhos, de inestimável
valor para a ciência, a psiquiatria, a psicologia, a arte e a
cultura. Pois foi nesse acervo, de valor comercial nenhum, e de
alta importância histórica e antropológica que alguém (ou!"alguéms")
tocou fogo na madrugada de domingo último.
Destruir um acervo como
este é igual a incendiar uma floresta. Percebem a razão da minha
dor?