Artur da Távola

(Crônicas )

Outubro de 2006

 

A INTELIGÊNCIA E O CHORO  - Artur da Távola

          Estou deslumbrado com os Serviços de Inteligência norte-americanos.! Após alguns anos a destruição do Iraque em nome de retirar um sanguinário ditador que esconderia armamentos atômicos, em relatório da semana passada, informaram creio que ao Departamento de Estado, que a invasão do Iraque gerou efeitos contrários  ao inesperado, aumentou o ódio ao ocidente e o número de organizações terroristas no Oriente, dando-lhes uma causa justa para defenderem.Estou deslumbrado com tanta “inteligência”.... Aliás há muitos anos os serviços de inteligência norte-americanos ( o novo nome de espionagem), desde a guerra do Vietnam demonstram a excelência de sua burrice. Saídos da Segunda Guerra Mundial como heróis da democracia, de lá para cá, Os Estados Unidos se transformaram no mais detestado país pelo resto do mundo. Aí entrou o senhor Bush no governo, logo ele, a mais alta “inteligência” (basta prestar atenção no seu olhar) de quem se tem notícia na história. Para fazer jus ao título, ele começou por desorganizar o já precário equilíbrio mundial e despertou reações que redundaram no aumento do terrorismo. Conseguiu ajudar a enterrar o justo prestígio de uma nação com tantos aspectos positivos em seu plano interno, grandes universidades, professores luminares, muita cultura. Tudo acabou em John Wayne.
Agora, a mesma “inteligência” que levou o genocida Bush a mentir para o mundo sobre os armamentos atômicos (in)existentes no país governado pelo tirano Saddam, depois de profundas meditações, chega à conclusão que o efeito da invasão do Iraque foi um tiro que saiu pela culatra.
Aliás, cá pelos Brasis. em matéria de inteligência, a do Partido do atual governante não fica atrás...

RAZÕES PARA O CHORO

Foi lançado ontem um livro sensacional e de grande utilidade  para a cultura brasileira: Na Cadência do Choro. Ele segue a tradição do Na Cadência do Samba, escrito por esse grande brasileiro que é o Haroldo Costa. Este, o do choro, foi escrito em dupla por dois craques, seja como músicos, seja como escritores: Afonso Machado e Jorge Roberto Martins, o nosso Jorginho. É um trabalho completo e fartamente ilustrado por fotografias de época e talvez o primeiro estudo sobre este maravilhoso gênero musical que o aborde além do habitual saudosismo. Possui um capítulo só sobre São Pixinguinha (única e justa exceção pessoal), no mais acompanha toda a evolução do choro  (que é notável) até os nossos dias. É livro da mais alta qualidade, em edição primorosa (merecia uma edição popular) que honra qualquer biblioteca e indispensável às velhas e novas gerações de músicos de resistência diante do aluvião de músicas do Bush, digo do Rock.
            Como vêem, temos vários motivos para o choro.



 
 FILHO OU FILHA QUE GOSTA DE MÚSICA
Artur da Távola

            Passagem interessante da novela Páginas da Vida refere-se à jovem com bulimia, dançarina a contragosto, forçada pela mãe, e que passa a gostar de música e do próprio balé, ao descobrir um novo vizinho, rapaz diferente da média, pianista em formação, daí resultando a aproximação de caráter amoroso. E há que se ressaltar: isto numa juventude intoxicada de rock e outras porcarias que a maioria de rádios e televisões lhe impinge.
Remeto-me à leitora-mãe que observa o amor pela arte latejar em seu filho e que tem coragem de lhe incentivar a vocação artística, em vez de sugerir que ele se torne uma “celebridade” do programa TV Fama ou das revistas de fofoca; ou que ele siga uma dessas profissões tradicionais, carreiras já entupidas de gente, tidas como as “que dão dinheiro”.
Lembro-me, agora, do grande e imortal compositor alemão, Robert Schumann, nascido em 1810, cuja vocação musical se manifestou desde a infância e que quase foi abafada, porque a família o queria advogado. Um dia,  o pai, que era livreiro, o levou para assistir ao concerto de um então grande pianista europeu chamado Moscheles. Deu-se aí, no garoto Schumann,  um encontro decisivo consigo mesmo. Os verdadeiros encontros com a destinação profunda de cada ser são inenarráveis momentos de certeza absoluta, na verdade raros momentos que nos são dados ter em uma vida em que dúvida, enigma, mistério, angústia ou necessidade são as marcas centrais. Após ouvir Moscheles, o menino Robert Schumann tem uma e só convicção: será também um grande artista. A intuição, o inconsciente, a natureza da alma são antecipatórios. Proféticos, melhor dito. Ao encontrar a própria destinação, cada ser humano excita-se de susto e esperança por antecipar realização e dor nela contidas. E, realmente, ele mais adivinhou do que soube.
Depois que o pai morreu, a família enfrentou dificuldades. Schumann cresceu e chegou a efetuar estudos em busca de formação como advogado, sem jamais deixar de fazer música.  Não resistiu, porém. Logo escreveria à sua mãe, pedindo-lhe desculpas e comunicando-lhe a sua inteira opção pela arte. A mãe compreendeu e lhe deu força e conselhos. Hoje ele é um dos imortais da arte dos sons.
Por isso, mãe ou pai que lerem esta crônica, prestem acurada atenção à vocação de seus filhos.
 

CASTRADOS FÍSICOS E MENTAIS

Artur da Távola
 

           A humanidade é mesmo cruel. Quem trata de música sabe que, durante pouco mais de dois séculos, pela restrição à presença de mulheres em atividades artísticas de óperas e outros espetáculos, compravam-se meninos, em geral pobres, entre oito até os treze anos de idade, de seus pais,  para castrá-los. Com a castração, garantia-se que as cordas vocais, por motivos hormonais, jamais ganhassem o timbre masculino, unindo-se assim a força vocal de pulmões masculinos a vozes muito altas e agudas, como as das mulheres. Essa prática começou creio que na segunda metade do século 16 e, até os anos de 1800, há notícias desses “castrati”, palavra italiana que quer dizer castrados. Ainda resiste uma gravação de 1902, das primitivas, com a voz do último castrado de quem se tem notícia.
            Em julho de 2006, li no noticiário da BBC de Londres e estou há tempos para comentar, que os adiantamentos da ciência levaram o Centro de Estudos Farinelli a abrir o túmulo do mais famoso, rico e temperamental dos castrados(ele, Farinelli), para estudar, via DNA, algumas singularidades. Recordo-me de um pensamento de Pope, que me foi mencionado pelo José Roberto Whitaker. Ele (Pope) dizia: “Diversão é a felicidade dos que não pensam”. Grande verdade. Consta do noticiário da BBC que, somente na Itália, chegaram a existir cerca de quatro mil castrados ao longo do tempo.
            A ciência do século vinte quer descobrir, através do DNA de Farinelli (considerado o melhor dos “castrati”), como era a sua constituição, qual a alimentação, seu processo hormonal etc. Imagino que outros e mais nobres sejam os interesses da ciência, porque estes já citados pela BBC representam apenas a expressão viva da cultura inútil, além de trazerem à tona o caráter macabro de atos humanos de grande covardia e vileza.
É verdade, por outro lado, que, como pregavam os cátaros há quase mil anos, o ser humano vive a dualidade entre o bem e o mal. Esta vida pertence simbolicamente ao mal e só a prática da espiritualidade crescente o aproximaria do Bem Absoluto que residia em outro plano, atingido pela sobrevivência da alma, da reencarnação e expiação das culpas. Os cátaros ou albigenses eram cristãos verdadeiros e puros, que foram trucidados pelas cruzadas, na França, na Itália, na Alemanha e na Inglaterra...
 Confesso temor por essa profanação do túmulo de Farinelli. Quantas experiências científicas foram aproveitadas para o mal!  Ademais, o Brasil e o mundo andam repletos de castrados mentais. Já pensaram se a moda pega...

A RIVALIDADE NO AMOR 

Artur da Távola

          Costumo dizer que o ciúme é uma loucura repleta de razão. Ou uma razão repleta de loucura...
Pessoas em estado de rivalidade tendem a diminuir o antagonista. Fosse, porém, cada ser humano aberto e inteligente o suficiente para aceitar o rival e compreendê-lo (compreender-se através dele) em profundidade, muito descobriria acerca de si próprio.
O poeta Walmyr Ayala, em verso belíssimo, dizia: "O lobo, no espelho, reconhece-se na vítima". Tem razão.
Algo se completa nos antagonistas em função da disputa do mesmo objeto amoroso. Cessada a disputa, pode vir compreensão e até amizade. Por alguma razão oculta e profunda, quase nunca nítida, pessoas tornadas rivais envolveram-se entre si. O que as separa é o começo primitivo e belicoso da descoberta do que as une. Mas quem aceitará esta verdade na prática da vida, feita de choques primários?
Houvesse coragem de prosseguir, descobrir, aceitar e seríamos melhores e mais evoluídos. Há muito em comum entre os que se desavêm...
Esta mistura de raiva, ressentimento e ao mesmo tempo curiosidade e procura (ocultas), entre pessoas tornadas rivais, revela a natureza intrincada e engenhosa do psiquismo humano.
Pessoas que se odeiam enquanto em disputa de um mesmo amor seriam até capazes de se entender e mutuamente se admirar, cessada a disputa.
O impulso - às vezes expresso de modo agressivo - de conhecer o ou a rival, é um disfarce de ânsia mais funda de auto-conhecimento através de alguém que se interessou pelo mesmo objeto amoroso e de certa forma o conquistou.
A curiosidade é a forma preliminar (e, às vezes, distorcida) da necessidade de comunhão com o outro. Fácil de entender mas difícil de aceitar na vigência de uma relação...

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