Artur da Távola

(Crônicas )

Outubro de 2006

 

A MORTE DA FILHA DE PELÉ

Artur da Távola

Sandra Regina Machado Arantes do Nascimento Felinto


Não sou juiz de pessoas. Cada ser humano tem direito a seu mistério e à sua subjetividade. Por isso, não escrevo para julgar o Pelé, como tenho lido fartamente por aí.
Quero apenas traduzir um sentimento especial que me dominou, quando soube da morte de sua filha, em Santos, precoce, por câncer fulminante. Sempre que a vi na televisão, impressionou-me a semelhança com o pai e com os traços de Pelé atenuados e arredondados. Pelé tem olhos mongólicos. Ela os possuía redondos, tristes e belos. Pelé é e está sempre a sorrir, devolvendo à vida o que esta lhe deu em milagre e dádivas. Essa moça, não. Apesar de bonita de rosto, padecia de uma solidão adivinhada, precisou do exame do DNA para ser reconhecida como filha, o pai nunca ou quase nunca a visitou. E mandou uma coroa a seu enterro. Não compareceu (compadeceu?)
            Há mistérios empáticos entre os seres humanos. No rosto daquela quase menina, como diz o samba do Sérgio Bittencourt sobre seu pai Jacob do Bandolim, ficou “a saudade dele a doer em mim”. Desconheço causas, intimidades, pormenores da vida dela. E as razões do pai. Apenas sei que havia sido reeleita Vereadora, o que já é sinal de trabalho aprovado.
            Como vivem as pessoas que procuram um pai ou a mãe por toda uma vida? Digo-o por mim. Meu pai não me abandonou. Ao contrário, amava-me profundamente. Porém morreu quando eu tinha recém feito onze anos de idade. Entrei na puberdade, adolescência, juventude, na vida, sem pai. Um dia, muitos anos depois, li em Freud que a perda de um pai nesta fase constitui-se em irreparável tragédia. Por sorte, minha mãe soube ser “mãepai”. Mas a verdade é que, aos setenta anos, ainda procuro meu pai nas dobras da memória, nos esconderijos do Mistério. E, desde rapaz, sempre selecionei inconscientemente alguns pais optativos nas pessoas com quem convivi, admirei e muito me influenciaram: Anísio Teixeira, Marcial Dias Pequeno, Dr. Américo Piquet Carneiro, Orizon Carneiro Muniz, Dr. Pedro Figueiredo Ferreira, Dr. Domício de Arruda Câmara, meu tio Geraldo Moretzsohn e meus outros tios Mario Gonçalves Ramos e Willy Koff. Sem falar em dezenas de escritores. Suspendo as menções, pois levaria a crônica inteira a citar nomes, mas sempre gente mais velha constituiu o meu rol de admirações filiais.
            Acalento e acalanto em minha empatia a solidão desta moça a quem o pai (por motivos que só ele deve saber) jamais a quis como filha. E sinto a sua dor como se minha fosse. Corrói saber de uma solidão cósmica e irreparável.
É... acho que Freud tinha razão: perder um pai desde cedo, ou nunca tê-lo, é a dor de uma tragédia existencial que se leva para o túmulo. Em vida, jamais desaparece. Quem souber responder de modo cabal a este sortilégio do destino, por favor, cartas para o endereço de meu site publicado logo aqui abaixo. E, desde já, agradeço a iluminação que vier a receber.

IDÉIAS SOLTAS AO LENTO E AO VENTO

Artur da Távola
 

* Quando um não quer dois jamais serão amigos.

*  É preciso saber separar o jogo do trago...

* A mídia como é exercida atualmente é um processo de dominação. Aumenta o nível da participação da população na mesma medida em que lhe diminui o grau de consciência. Exacerba as opiniões e inibe a capacidade de analisar fatos.

* A palavra dissolve tudo o que a vida não resolve.

* O poeta vê um óbvio oculto aos demais e deixa de ver o óbvio que todos vêem. São desgraçados benditos. Seu olhar de amor percorre o acaso deslumbrante do verso da vida.

* Cultura não é filha do saber dirigido, mas da sensibilidade e da busca interior. O saber, porém, impede a cultura de se isolar e fenecer. Permite que ela seja compreendida e preservada. A partir daí o saber cria uma nova cultura. E esta é que permite o maior dos bens: a vida interior.

*  A sabedoria nasce da articulação da sensibilidade com o saber.

*  O mundo não é dos indiscretos. Porém é dos medianos.

* Os meios de comunicação deprimem a população através do noticiário e a publicidade comercial cria um mundo apenas eufórico, feliz e vitorioso. Geram, assim, na população, o ódio ao que é do Poder Público e a fascinação por tudo o que vem do consumo.

* O bem só conseguirá vencer o mal no dia em que souber o que é, quem é, como é e onde está.

* Lucidez só adianta depois, quando descobrem que havíamos sido lúcidos, e ninguém prestou atenção.

* A criança é um adulto que não verbaliza. O adulto que não verbaliza, criança é.

* A mulher vive para a casa, o homem para a caça.

* O poema jamais diz como gostaria de ser.

* Penso, logo, exausto...

* A superficialidade das coisas e pessoas é o que primeiro nos ilude e também o que primeiro nos desilude.

* Quem não te adivinha não te merece.

* O rock é o protesto da feiúra.

* Só o poema me faz calar.

* Abaixo o Presidencialismo. Salve o Parlamentarismo.

A TRAGÉDIA DO PRESIDENCIALISMO

Artur da Távola

             A coisa vem dos gregos, há milênios. E estamos a repeti-la nesta quase véspera das eleições. Platão e Sócrates atacavam os sofistas. Até hoje existe a expressão ‘fulano está sofismando’, para significar o uso de um argumento aparente, ou verossimilhante,   porém não real. Havia um tal de Górgias, que era sofista e “gorjeava” seus discursos e sua retórica. Para combatê-lo, dizia Sócrates por si e também interpretando Platão: “Não é necessário, para ele (Górgias) conhecer o que é realmente justo, ele se basta com falar  o que parece justo à multidão.” Platão e, depois,  Sócrates condenavam a retórica. Ela seria a arte do engano e um veneno para a alma e a filosofia.
            Passaram-se milênios e nada mudou Em uma eleição presidencialista é exatamente isso o que se vê e se ouve, e que ilude a população. Poucos falam para afirmar valores. A maioria fala para dizer o que o auditório quer ouvir. Sofismas, pois.
            Há anos clamo no deserto que o presidencialismo é a causa da tragédia política brasileira. No presidencialismo, ainda mais com as medidas provisórias e a exigência de quorum alto para derrubar os vetos do Presidente, este (refiro-me a todos os presidentes) é o chefe de uma ditadura legal. O Congresso é quase uma ficção. Isso não acontece agora. Sempre foi assim (é assim) no Presidencialismo.
            Neste sistema de governo, apenas uma pessoa decide em nome de milhões. O resultado, por exemplo, é um Bush da vida que agora enlouqueceu de vez - e não quero perder tempo com esse assassino. O presidencialismo brasileiro ainda concentra mais poderes em uma só pessoa que o norte-americano, no qual se baseou. A maioria dos países sérios e estáveis do mundo é parlamentarista, seja com um rei como poder moderador, seja com presidente eleito. Mas o chefe de governo é o Primeiro Ministro. Este governa, enquanto tem maioria no Congresso. E o Rei ou o Presidente, conforme a situação, possui, entre outros, o poder de dissolver o Congresso, sempre que haja uma crise insolúvel (como a que vive o Brasil no momento). Ou, se o Congresso merece o repúdio da população ou é palco de escândalos, casos em que é dissolvido e novas eleições são imediatamente marcadas para dois meses depois. Ou, quando haja um voto de desconfiança no primeiro Ministro que, então, perde o cargo. No Parlamentarismo, a atual crise brasileira estaria resolvida há mais de um ano.
            O Presidencialismo corrói os partidos, gera a corrupção na busca da maioria congressual e, se o Presidente não andar bem, há que permanecer com ele por quatro ou cinco anos, conforme o país. O resultado é a fúria que vemos nos debates, o culto à personalidade, a exaltação de formas simbólicas e reais, em lugar de escolhas serenas e com predominância do elemento racional. Tudo fora da paixão.

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