Artur da Távola

(Crônicas )

Abril de 2007

 

 

A MULHER  CASADA E A ALIANÇA

Existem alguns deliciosos sinais de timidez, ademais repletos de sutileza. Adoro os ler em mim e nas pessoas. Mas finjo não perceber. Dá-se quando alguém entra em lugar onde há outras pessoas (elevadores, consultórios médicos, filas, lojas etc.) e como que oculta o rosto ou parte deste com a mão. Parece um gesto natural de coçar a face, a testa, afiar o nariz, fazer o clássico olhar de paisagem, passar a mão por entre os cabelos ou ar de quem a alguém procura.

Outro dia, no sentido contrário ao de minha caminhada a flanar pelas ruas do Leblon, vinha uma bela jovem. Ainda meio longe, senti que me reconheceu. Dei uma disfarçada e ao nos cruzarmos olhei-a naturalmente, pois na minha idade a admiração não vem cercada nem de intenção, nem de hipótese de fruição... É puro senso estético. Ela fez, então o inevitável e defensivo gesto de encabulamento que consiste simular naturalidade ao arrumar o cabelo e sacudi-lo a partir da testa e, nesse "distraído" gesto, encontrar a forma de exibir a aliança de casada.

Ao longo dos anos, acostumei-me a ver esse gesto que quer dizer: "Olhe, eu sou comprometida". Naquele momento, porém, em pleno século vinte e um, quando o casamento não tem ou não mais aparenta os rigores de então, aquela demonstração da aliança comoveu este velho coração. Ela era do tipo bastante atual, com a roupa airosa que caracteriza as moças moderninhas, penteado idem, e (ainda a perdurar na memória da breve passagem) a timidez do gesto de passar a mão pelos cabelos sedosos, exatamente com a mão esquerda, anel de casada à mostra.

A linguagem dos gestos é rica. Nas mulheres é milionária. Com que naturalidade passam a mão ao cabelo, jogam-no para trás, coçam o rosto, disfarçam a timidez, e no caso das mulheres de antigamente, ao fazê-lo, o sadio e natural orgulho de exibir a "vitória" de uma aliança.

No gesto da moça tímida e bonita (ainda existem, sabia?) que passou por mim e tantas outras pessoas (bem mais ávidas) e o repetiu, brilhava um momento insuperável da beleza, recato, e natural orgulho do eterno feminino. Poesia pura. As mulheres ficam muito mais belas e atraentes quando cuidam de seus casamentos...

SUGESTÕES DE UM TIO VELHO

Todas as telenovelas baseiam-se a luta da malignidade contra o bem. É fórmula infalível desde o velho folhetim. Pois aí está o erro inicial de Paraíso Tropical que andou a assustar a Globo pela queda de audiência. Gilberto Braga abre a segunda geração de talentosos telenovelistas do Brasil com Escrava Isaura (sucesso há quase trinta anos no exterior). Depois estende o seu talento e a modernização do gênero, com Dancing Days e daí uma sucessão de êxitos merecidos. Acresça-se o fato de haver sido uma espécie de criador e modernizador das chamadas Séries Brasileiras, se não me engano com Anos Dourados. Um grande nome.

O meu parecer pelo não acerto inicial de Paraíso Tropical, reside em dois fatos: o esquema até então infalível já cansou. E o começo da novela foi baseado em gritantes absurdos, difíceis de ser engolidos pelo público e pelos atores e atrizes e no excesso de coincidências, impossíveis de acontecerem mesmo na “realidade”da ficção. Resultou um produto artificial, apesar do bom elenco, da trama ágil e personagens interessantes.

Fosse um autor qualquer desses que vivem de se basear no insuportável expediente de os “mocinhos” tirarem a camisa para mostrar o peito quase cabeludo e a musculação de academia, eu ficaria calado. Mas Gilberto Braga, não! Ele é talentoso, experiente, sensível e um dramaturgo de verdade (apesar de estar também a abusar de gente de cuecas e a tirar a camisa. Semana passada não me lembro qual ator, apareceu na cama, de cueca apertada em semi ereção. Uma imoralidade! Mas isso é falha da edição ou da direção. Ora, peito cabeludo por peito cabeludo, por que não colocam o Toni Ramos de cuecas? A doce e ótima atriz Renée de Vieelmond (bom revê-la), voltaria correndo para seu maridinho safado.

        Minha vontade é dar um sacudida nesse meu querido sobrinho que é o Gilberto e como velho tio, dizer-lhe: meu filho,jogue fora a novela por fórmula e solte seu talento inovador já tantas vezes provado e aprovado. Solte as bruxinhas que lhe voam dentro e bote pra quebrar.

Só não sei é se ele ainda me considera seu tio....

 

 

 

 O MUNDO DOS PARANÓICOS – Artur da Távola


 


Vejo na televisão o repúdio não à presença do presidente norteamericano (este sempre será bem-vindo)  mas especificamente ao genocida Bush e lamento não mais ter vinte anos para estar lá com a rapaziada com um big cartaz de “Go Home Bush” e levar borrachada da polícia. Esse homem desorganizou a ordem mundial. Só defende interesses, jamais direitos. Só age por imposição em um mundo que é interdependente. Por sua ação morreram milhões de pessoas. Guerras fratricidas se estabeleceram. Há -também milhões - de aleijados, cegos, loucos, crianças marcadas para o resto da vida. Com o que gasta em material de guerra e deslocamento de tropas dava para salvar a África inteira e ajudar o mundo a ser um jardim de paz. Todo chefe de governo que prefere ser temido a ser querido é um cretino.
Um poema do poeta parnasiano brasileiro, Luis Carlos, diz, com razão: “Olha o mundo com os olhos virgens dos relances da ira.”
Tá bem. Guardo a ira. Conseguirei?
Porém não posso deixar de lamentar e sofrer pela decadência sofrida pelo mundo nos últimos anos. Vivemos um dos momentos bárbaros da história da humanidade, já de si pejada de atrocidades ao longo dos séculos. Num certo sentido, o lado primitivo do bicho-homem lateja e vem à tona dentro de povos, religiões e credos de toda espécie e rituais. E esse Anticristo no comando.
         Procurando superar a névoa do noticiário como espetáculo, que nos envolve, pergunto: pode haver sinal mais evidente de loucura (ou se quiserem, palhaçada) do que a do aparato militar montado pela paranóia norte-americana para essa “viagem” (?) do Bush ao Brasil? É tudo um caso de loucura coletiva . Será que eles acham, mesmo, que é necessário o presidente só beber água norte-americana? Onde o arrogante pensa que veio? A inteligência (?) militar dos Estados Unidos não compreende que as dezenas de atos basbaques como este, só servem para humilhar o povo que recebe seu presidente, o talvez pior,  mais desalmado servo da indústria bélica (que o elegeu) e o menos inteligente presidente da história daquele grande país? É de chorar. O Presidencialismo é esta loucura, mesmo. Fazer o quê ante a cegueira política?
         E para mim chega! Precisava desabafar, escrevi esta crônica desordenada, eu sei, porém sincera. Não pretendo perder mais tempo com assassinos desse jaez. E salve o etanol brasileiro desde que o Brasil organize cooperativas onde os trabalhadores rurais participem em vez de entregar tudo a empresas, empresários e usineiros medievais.
           Hoje é sábado e agora vou é tratar das coisas e das pessoas a quem amo. Com este artigo destrambelhado já cumpri o dever com os berros de minha consciência cidadã e humana. E não retiro nenhum adjetivo, embora isto seja contra as boas regras do escrever.

 

 

A MÚSICA NA EVOLUÇÃO HUMANA – Artur da Távola

 

 

Como também trabalho com música em rádio e TV, recebi há tempos uma carta de Brasília, assinava-a Rosa Torres (rosatorres@apis.com.br). Ela diz com grande agudeza e síntese:

“Aproveito para agradecer-lhe o serviço socialmente prestado à evolução do homem através da música. Apesar de que pouco saibamos sobre o valor de uma peça musical de qualidade, todos conhecemos o efeito perverso sobre nosso ânimo ( vem de ânima, alma)  de um som desarmonioso, estridente. Dependendo de sua longitude de onda, uma certa nota tonal pode transportar a alma para um nível onde conhece uma expansão não costumeira em nosso dia a dia no planeta.  Para resumir a importância da música, numa escala de valores de 1 a 7, iniciando-se, na base com a Verdade ( que todos buscamos), o segundo nível será a Esperança; posto que, quando há Verdade, há Esperança. E se Verdade e Esperança estão presentes, então, há VIDA. Se houver Vida, haverá Paz. Se há Paz há Harmonia, porque a Harmonia reina onda a Paz se alcança.. Sendo Harmônico, é Belo. E se há Beleza, então, soa a Música das Esferas.”

E respondo.

Rosa:

Muito grato pelas sábias palavras. Hoje o mundo é envolto por  enorme bolha mercadológica que envolve a maioria das pessoas e serve aos interesses da indústria do disco e da estratégia de audiência das rádios e TVs. Essa bolha engloba o lado desarmônico e fragmentado herança recebida do século vinte. Veja o rock. É a música do feio. Em todos os sentidos. Nada obstante é representativo de um mundo feio por suas desarmonias e confusão de valores de vida entre os de natureza materialista e econômica e a resistência dos valores da harmonia e do espírito. É a estética da desconstrução. Acho que vale como sociologia, jamais como música. Precisamos urgentemente mudar os padrões musicais da mídia, principalmente a do rádio que é um formador diário, permanente, teimoso, penetrante, da cultura da alma, tão importante como a da inteligência. E pena que também esta anda desaparecendo da mídia, principalmente a eletrônica. Pena que poucos se preocupem com isso.

 

 

 

 

                     REFLEXÕES ACERCA DA POLÍTICA – Artur da Távola
 
           

               Quando nos tornamos maduros, só então descobrimos não ser tão seguros, aptos e acabados como, quando moços, imaginávamos serem os mais velhos. Ao contrário, aumentamos o conhecimento de nossas limitações. E verificamos que eles possuíam as mesmas deficiências e acertos nossos. Há uma tendência de se hiper valorizar o passado. Essa tendência vive a nos assaltar a mente. Em compensação, idealizamos menos a vida, os seres humanos, e ganha-se, aí sim, a madura relatividade no julgamento de coisas e pessoas. Diminuem as opiniões, aumentam as análises. Idosos cheios de opiniões e “verdades” são pessoas que não evoluíram. Ou só evoluíram no interior do tubo de idéias dentro no qual já pensavam. Estes são os verdadeiros conservadores. Em qualquer idade...
Na política dá-se o mesmo, quando nela amadurecemos, descobrimos que pessoas consideradas aptas e competentes, possuem as mesmas deficiências do que nós. O que varia é o campo da competência e da incompetência de cada um.
           

               Quem só conhece política através do noticiário (o verdadeiro conhecimento só vem com a militância) não tem a menor noção de quem são e como são os políticos, salvo os casos extremos de bom e mau caráter. Um político pode ser ótimo parlamentar em Brasília que isso não tem qualquer correspondência com o que dele se sabe em seu Estado. O mesmo se aplica aos malandros e aos desonestos. Eleitoralmente a realidade de Brasília é uma, e a do Estado (domicílio eleitoral da fera), outra. Daí a importância do voto distrital, acompanhado do distrital mixto mas isso é assunto para outra crônica.
 
               Um bom político eleitoralmente falando é aquele que não se esquece de se fazer presente em seu local de votação. Salvo quando se torna um nome nacional e o noticiário da mídia as ele constantemente se refere. Quer fazer uma prova? Lembre-se de quinze nomes de Deputados federais de seu Estado.
 
            Na esmagadora maioria dos casos (raríssimas e meritórias exceções) o comportamento do político é comandado por interesses e complexidades do lugar onde faz política. Raros têm uma visão abrange nte do País, da situação internacional e um conhecimento da história das idéias políticas e sua aparente evolução;
 
Já opinião (que é quase sempre superficial), esta, é que não falta. Quanto menos conhecimento, mais opinião, já repararam?

 

 

 

A IMPORTÂNCIA DO VALE DO PARAíBA – Artur da Távola

 

 

Um monge meu amigo, eminente professor e, na fé, um pensador de alta sutileza e erudição, vive o conflito entre o que sabe, estudou, intui em suas vivências particulares, e entre o sacrifício de dar aulas para alunos que chegam à sua classe despreparados ou desinteressados ou então intoxicados por uma cultura superficial que lhes é imposta pela mídia, sem que percebam.

Tudo isso acaba por provocar nos alunos  e alunas um desamor ao livro, ao pensamento, à reflexão. O sábio monge estende a sua experiência pessoal para todo o País e deplora profundamente as deficiências de nosso sistema educativo, que todos os governos se esforçam por diminuir e não conseguem. No fundo, no fundo, concluo eu, não conseguem, porque realmente os gastos estatais com a formação de quadros competentes para o futuro (educação) são substituídos com o que se gasta na prioridade dada às questões econômicas.

            Pois esse monge me relatou uma história que repasso a vocês, ligada, segundo consta, a um colégio do Rio de Janeiro, na prova final do terceiro ano.

            O professor solicitou uma redação com a seguinte proposta:

 

"Faça uma análise sobre a importância do Vale do Paraíba"

 

            Resposta de um aluno:

 

            "O Vale do Paraíba é de suma importância, pois, não podemos discriminar
esses importantes cidadãos. Já que existem o  Vale-Transporte e o Vale do Idoso, por que não existir também o Vale do Paraíba?
            Além disso sabemos que os Paraíbas, de um modo geral, trabalham em obras ou portarias de edifícios e ganham pouco. Então, o dinheiro que entra no meio do mês (que é o Vale), é muito importante para ele equilibrar sua economia familiar."

 

 Índice Revista Artur da Távola