A MULHER CASADA E A ALIANÇA
Existem alguns
deliciosos sinais de timidez, ademais repletos de sutileza. Adoro os ler em
mim e nas pessoas. Mas finjo não perceber. Dá-se quando alguém entra em
lugar onde há outras pessoas (elevadores, consultórios médicos, filas, lojas
etc.) e como que oculta o rosto ou parte deste com a mão. Parece um gesto
natural de coçar a face, a testa, afiar o nariz, fazer o clássico olhar de
paisagem, passar a mão por entre os cabelos ou ar de quem a alguém procura.
Outro dia, no sentido
contrário ao de minha caminhada a flanar pelas ruas do Leblon, vinha uma
bela jovem. Ainda meio longe, senti que me reconheceu. Dei uma disfarçada e
ao nos cruzarmos olhei-a naturalmente, pois na minha idade a admiração não
vem cercada nem de intenção, nem de hipótese de fruição... É puro senso
estético. Ela fez, então o inevitável e defensivo gesto de encabulamento que
consiste simular naturalidade ao arrumar o cabelo e sacudi-lo a partir da
testa e, nesse "distraído" gesto, encontrar a forma de exibir a aliança de
casada.
Ao longo dos anos, acostumei-me a ver esse
gesto que quer dizer: "Olhe, eu sou comprometida". Naquele momento, porém,
em pleno século vinte e um, quando o casamento não tem ou não mais aparenta
os rigores de então, aquela demonstração da aliança comoveu este velho
coração. Ela era do tipo bastante atual, com a roupa airosa que caracteriza
as moças moderninhas, penteado idem, e (ainda a perdurar na memória da breve
passagem) a timidez do gesto de passar a mão pelos cabelos sedosos,
exatamente com a mão esquerda, anel de casada à mostra.
A linguagem dos gestos é rica. Nas mulheres é
milionária. Com que naturalidade passam a mão ao cabelo, jogam-no para trás,
coçam o rosto, disfarçam a timidez, e no caso das mulheres de antigamente,
ao fazê-lo, o sadio e natural orgulho de exibir a "vitória" de uma aliança.
No gesto da moça tímida e bonita (ainda
existem, sabia?) que passou por mim e tantas outras pessoas (bem mais
ávidas) e o repetiu, brilhava um momento insuperável da beleza, recato, e
natural orgulho do eterno feminino. Poesia pura. As mulheres ficam muito
mais belas e atraentes quando cuidam de seus casamentos...

SUGESTÕES DE UM TIO VELHO
Todas as telenovelas
baseiam-se a luta da malignidade contra o bem. É fórmula infalível desde o
velho folhetim. Pois aí está o erro inicial de Paraíso Tropical que andou a
assustar a Globo pela queda de audiência. Gilberto Braga abre a segunda
geração de talentosos telenovelistas do Brasil com Escrava Isaura (sucesso
há quase trinta anos no exterior). Depois estende o seu talento e a
modernização do gênero, com Dancing Days e daí uma sucessão de êxitos
merecidos. Acresça-se o fato de haver sido uma espécie de criador e
modernizador das chamadas Séries Brasileiras, se não me engano com Anos
Dourados. Um grande nome.
O meu parecer pelo não
acerto inicial de Paraíso Tropical, reside em dois fatos: o esquema até
então infalível já cansou. E o começo da novela foi baseado em gritantes
absurdos, difíceis de ser engolidos pelo público e pelos atores e atrizes e
no excesso de coincidências, impossíveis de acontecerem mesmo na
“realidade”da ficção. Resultou um produto artificial, apesar do bom elenco,
da trama ágil e personagens interessantes.
Fosse um autor qualquer
desses que vivem de se basear no insuportável expediente de os “mocinhos”
tirarem a camisa para mostrar o peito quase cabeludo e a musculação de
academia, eu ficaria calado. Mas Gilberto Braga, não! Ele é talentoso,
experiente, sensível e um dramaturgo de verdade (apesar de estar também a
abusar de gente de cuecas e a tirar a camisa. Semana passada não me lembro
qual ator, apareceu na cama, de cueca apertada em semi ereção. Uma
imoralidade! Mas isso é falha da edição ou da direção. Ora, peito cabeludo
por peito cabeludo, por que não colocam o Toni Ramos de cuecas? A doce e
ótima atriz Renée de Vieelmond (bom revê-la), voltaria correndo para seu
maridinho safado.
Minha vontade é dar
um sacudida nesse meu querido sobrinho que é o Gilberto e como velho tio,
dizer-lhe: meu filho,jogue fora a novela por fórmula e solte seu talento
inovador já tantas vezes provado e aprovado. Solte as bruxinhas que lhe voam
dentro e bote pra quebrar.
Só não sei é se ele ainda
me considera seu tio....

O MUNDO DOS PARANÓICOS
– Artur da Távola
Vejo na televisão o repúdio não à presença do
presidente norteamericano (este sempre será bem-vindo) mas
especificamente ao genocida Bush e lamento não mais ter vinte anos para
estar lá com a rapaziada com um big cartaz de “Go Home Bush” e levar
borrachada da polícia. Esse homem desorganizou a ordem mundial. Só
defende interesses, jamais direitos. Só age por imposição em um mundo
que é interdependente. Por sua ação morreram milhões de pessoas. Guerras
fratricidas se estabeleceram. Há -também milhões - de aleijados, cegos,
loucos, crianças marcadas para o resto da vida. Com o que gasta em
material de guerra e deslocamento de tropas dava para salvar a África
inteira e ajudar o mundo a ser um jardim de paz. Todo chefe de governo
que prefere ser temido a ser querido é um cretino.
Um poema do poeta parnasiano brasileiro, Luis Carlos, diz, com razão:
“Olha o mundo com os olhos virgens dos relances da ira.”
Tá bem. Guardo a ira. Conseguirei?
Porém não posso deixar de lamentar e sofrer pela decadência sofrida pelo
mundo nos últimos anos. Vivemos um dos momentos bárbaros da história da
humanidade, já de si pejada de atrocidades ao longo dos séculos. Num
certo sentido, o lado primitivo do bicho-homem lateja e vem à tona
dentro de povos, religiões e credos de toda espécie e rituais. E esse
Anticristo no comando.
Procurando superar a névoa do noticiário como espetáculo, que
nos envolve, pergunto: pode haver sinal mais evidente de loucura (ou se
quiserem, palhaçada) do que a do aparato militar montado pela paranóia
norte-americana para essa “viagem” (?) do Bush ao Brasil? É tudo um caso
de loucura coletiva . Será que eles acham, mesmo, que é necessário o
presidente só beber água norte-americana? Onde o arrogante pensa que
veio? A inteligência (?) militar dos Estados Unidos não compreende que
as dezenas de atos basbaques como este, só servem para humilhar o povo
que recebe seu presidente, o talvez pior, mais desalmado servo da
indústria bélica (que o elegeu) e o menos inteligente presidente da
história daquele grande país? É de chorar. O Presidencialismo é esta
loucura, mesmo. Fazer o quê ante a cegueira política?
E para mim chega! Precisava desabafar, escrevi esta crônica
desordenada, eu sei, porém sincera. Não pretendo perder mais tempo com
assassinos desse jaez. E salve o etanol brasileiro desde que o Brasil
organize cooperativas onde os trabalhadores rurais participem em vez de
entregar tudo a empresas, empresários e usineiros medievais.
Hoje é sábado e agora vou é tratar das coisas e das pessoas a
quem amo. Com este artigo destrambelhado já cumpri o dever com os berros
de minha consciência cidadã e humana. E não retiro nenhum adjetivo,
embora isto seja contra as boas regras do escrever.

A
MÚSICA NA EVOLUÇÃO HUMANA – Artur da Távola
Como
também trabalho com música em rádio e TV, recebi há tempos uma carta de
Brasília, assinava-a Rosa Torres (rosatorres@apis.com.br).
Ela diz com grande agudeza e síntese:
“Aproveito para agradecer-lhe o serviço socialmente prestado à evolução
do homem através da música. Apesar de que pouco saibamos sobre o valor
de uma peça musical de qualidade, todos conhecemos o efeito perverso
sobre nosso ânimo ( vem de ânima, alma) de um som desarmonioso,
estridente. Dependendo de sua longitude de onda, uma certa nota tonal
pode transportar a alma para um nível onde conhece uma expansão não
costumeira em nosso dia a dia no planeta. Para resumir a importância da
música, numa escala de valores de 1 a 7, iniciando-se, na base com a
Verdade ( que todos buscamos), o segundo nível será a Esperança; posto
que, quando há Verdade, há Esperança. E se Verdade e Esperança estão
presentes, então, há VIDA. Se houver Vida, haverá Paz. Se há Paz há
Harmonia, porque a Harmonia reina onda a Paz se alcança.. Sendo
Harmônico, é Belo. E se há Beleza, então, soa a Música das Esferas.”
E
respondo.
Rosa:
Muito
grato pelas sábias palavras. Hoje o mundo é envolto por enorme bolha
mercadológica que envolve a maioria das pessoas e serve aos interesses
da indústria do disco e da estratégia de audiência das rádios e TVs.
Essa bolha engloba o lado desarmônico e fragmentado herança recebida do
século vinte. Veja o rock. É a música do feio. Em todos os sentidos.
Nada obstante é representativo de um mundo feio por suas desarmonias e
confusão de valores de vida entre os de natureza materialista e
econômica e a resistência dos valores da harmonia e do espírito. É a
estética da desconstrução. Acho que vale como sociologia, jamais como
música. Precisamos urgentemente mudar os padrões musicais da mídia,
principalmente a do rádio que é um formador diário, permanente, teimoso,
penetrante, da cultura da alma, tão importante como a da inteligência. E
pena que também esta anda desaparecendo da mídia, principalmente a
eletrônica. Pena que poucos se preocupem com isso.

REFLEXÕES ACERCA DA POLÍTICA – Artur da Távola
Quando nos tornamos maduros, só então descobrimos não ser tão seguros, aptos
e acabados como, quando moços, imaginávamos serem os mais velhos. Ao
contrário, aumentamos o conhecimento de nossas limitações. E verificamos que
eles possuíam as mesmas deficiências e acertos nossos. Há uma tendência de
se hiper valorizar o passado. Essa tendência vive a nos assaltar a mente. Em
compensação, idealizamos menos a vida, os seres humanos, e ganha-se, aí sim,
a madura relatividade no julgamento de coisas e pessoas. Diminuem as
opiniões, aumentam as análises. Idosos cheios de opiniões e “verdades” são
pessoas que não evoluíram. Ou só evoluíram no interior do tubo de idéias
dentro no qual já pensavam. Estes são os verdadeiros conservadores. Em
qualquer idade...
Na política dá-se o mesmo, quando nela amadurecemos, descobrimos que pessoas
consideradas aptas e competentes, possuem as mesmas deficiências do que nós.
O que varia é o campo da competência e da incompetência de cada um.
Quem só conhece política através do noticiário (o verdadeiro conhecimento só
vem com a militância) não tem a menor noção de quem são e como são os
políticos, salvo os casos extremos de bom e mau caráter. Um político pode
ser ótimo parlamentar em Brasília que isso não tem qualquer correspondência
com o que dele se sabe em seu Estado. O mesmo se aplica aos malandros e aos
desonestos. Eleitoralmente a realidade de Brasília é uma, e a do Estado
(domicílio eleitoral da fera), outra. Daí a importância do voto distrital,
acompanhado do distrital mixto mas isso é assunto para outra crônica.
Um bom político eleitoralmente falando é aquele que não se esquece de se
fazer presente em seu local de votação. Salvo quando se torna um nome
nacional e o noticiário da mídia as ele constantemente se refere. Quer fazer
uma prova? Lembre-se de quinze nomes de Deputados federais de seu Estado.
Na esmagadora maioria dos casos (raríssimas e meritórias
exceções) o comportamento do político é comandado por interesses e
complexidades do lugar onde faz política. Raros têm uma visão abrange nte do
País, da situação internacional e um conhecimento da história das idéias
políticas e sua aparente evolução;
Já opinião (que é quase sempre superficial), esta, é que não falta. Quanto
menos conhecimento, mais opinião, já repararam?

A IMPORTÂNCIA DO
VALE DO PARAíBA – Artur da Távola
Um monge meu
amigo, eminente professor e, na fé, um pensador de alta
sutileza e erudição, vive o conflito entre o que sabe,
estudou, intui em suas vivências particulares, e entre o
sacrifício de dar aulas para alunos que chegam à sua classe
despreparados ou desinteressados ou então intoxicados por
uma cultura superficial que lhes é imposta pela mídia, sem
que percebam.
Tudo isso acaba
por provocar nos alunos e alunas um desamor ao livro, ao
pensamento, à reflexão. O sábio monge estende a sua
experiência pessoal para todo o País e deplora profundamente
as deficiências de nosso sistema educativo, que todos os
governos se esforçam por diminuir e não conseguem. No fundo,
no fundo, concluo eu, não conseguem, porque realmente os
gastos estatais com a formação de quadros competentes para o
futuro (educação) são substituídos com o que se gasta na
prioridade dada às questões econômicas.
Pois
esse monge me relatou uma história que repasso a vocês,
ligada, segundo consta, a um colégio do Rio de Janeiro, na
prova final do terceiro ano.
O
professor solicitou uma redação com a seguinte proposta:
"Faça uma análise
sobre a importância do Vale do Paraíba"
Resposta de um aluno:
"O
Vale do Paraíba é de suma importância, pois, não podemos
discriminar
esses importantes cidadãos. Já que existem o
Vale-Transporte e o Vale do Idoso, por que não existir
também o Vale do Paraíba?
Além disso sabemos que os Paraíbas, de um modo
geral, trabalham em obras ou portarias de edifícios e ganham
pouco. Então, o dinheiro que entra no meio do mês (que é o
Vale), é muito importante para ele equilibrar sua economia
familiar."

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