Artur da Távola

(Crônicas )

Novembro de 2006

 

   RESCALDO DO INCÊNDIO  ELEITORAL

Artur da Távola

 

 

 ·        Poucos repararam, porém há um dado que merece reflexão: Tivemos 125.913.479 eleitores neste pleito. Houve quase 19% de abstenções. 4,72 % de votos nulos.E 1,33% de votos em branco. Isso deu um total pouco mais de 30 milhões de eleitores que de alguma forma rejeitaram o pleito. Para ser exato, 30.310.693 , o que corresponde quase à votação do segundo colocado (Alckmim). Ora uma eleição em que 34% desistem de votar é número relativo ao desencanto de grande parte do eleitorado com a classe política, Oxalá esta possa meditar no que isso significa.

·        Nada contra o Requião. Mas foi uma pena o Paraná não fazer uma experiência com o Osmar Dias com quem convivi oito anos no Senado e posso atestar a seriedade, o equilíbrio, o espírito público e o conhecimento de problemas reais de e seu estado e do País. Um homem público de grande valor, que por não fazer espetáculos de mídia, talvez tenha sido prejudicado.

·        Não agüento mais tanta entrevista de “cientista político” na TV... 70% entendem de ciência e até de história: porém não de política. E supõem ter imparcialidade quando esta não existe em ninguém. Mas falam difícil e isso impressiona.

·          Ademais política não é ciência: é arte.

·        Ainda no domingo da eleição, este jardineiro de palavras aqui, conversava com uma competente cientista política, Professora Ely Diniz, pessoa muito séria, estudiosa e que não se exibe: apenas dá aulas e não pára de pesquisar. E ambos concordávamos em que a ciência política existe para estudar o que aconteceu anos antes e, não o que acontece no momento e muito menos sacar para o futuro, como deseja a mídia.

·        Quem entende de política é político ponderado e sem paixão. Concordo que é raro. Mas existe.

·        Em matéria de entrevistas de vitoriosos, (claro que é impossível ouvir todas), a que mais me impressionou em matéria de serenidade, seriedade e menção a soluções concretas foi a de Sérgio Cabral ontem na rádio CBN.

·         Curioso (mas explicável): os dois partidos mais fortes do Brasil, PT e PSDB, no caso do Rio de Janeiro foram os maiores fracassados: um desastre.

·        Há muitos anos digo que o PMDB é ao mesmo tempo o herói e o vilão da política brasileira. Trata-se de um partido que não existe e no entanto é o mais forte. Vive de uma ambigüidade esperta, que embora sem coluna vertebral nem princípios doutrinários e nenhum grande líder nacional é o que sempre se sai melhor nas eleições. O que comprova a esperteza de seus membros e a despolitização alarmante do Brasil.

·        Um dia este País se dará conta de que presidencialismo é um atraso de vida. Mas quando, meu Deus? Quando?


 

 

MUTRETA, INSTITUIÇÃO NACIONAL - Artur da Távola

 

 

             Noticiário de ontem indica que a entidade Transparência Internacional, que examina os países, entre outros ângulos, pelo grau de corrupção neles existente, coloca o Brasil neste 2006 em posição ainda mais negativa que no ano anterior. Está no lugar número setenta em uma quantidade de cento e tantos partidos. Em suma. Está no lote dos mais corruptos do mundo.

            Não pensem que isso é uma crônica contra o governo. Nem contra nem a favor. É que a análise não trata de corrupção governamental apenas, mas da corrupção que permeia todos os níveis no dia a dia dos países.

            Como dizia meu pai: “ponhamos as mãos na cabeça”. Com isso ele queria dizer: “Paremos para pensar”. E é verdade. Por mais acendrado seja meu amor pelo Brasil e o reconhecimentos de suas grandezas, a criatividade formidável, convivência pluri racial e pluri religiosa, a capacidade de luta por sobrevivência de nosso povo, sua força vital e seu amor pela paz internacional, forçoso é reconhecer: somos um país repleto de jabaculê Estamos entre os principais do mundo.

            Em tudo, há mutreta: nos governos; nas eleições; no Congresso; no Judiciário; no esporte; no comércio; nas fiscalizações oficiais; nas concessões e aposentadoria; nos exames médicos de avaliação funcional; na compra de material para hospitais; nas vans; nas concessões de linhas para ônibus; no desmonte de carros roubados; nas farmácias de muito hospitais; no preço de alimentos; Nos remédios falsificados; agora a mutreta chegou ao pão francês vendido a peso; no bromato que os padeiros colocam no pão; no preço das frutas como melancias e outras nos quais pagamos o peso da casca; nas balanças farjutas; na entrada de armas no País; idem na entrada de drogas; nas concessionárias de automóveis a cada vez em que o carro entra para fazer nem que seja a coisa mais simples (inventam defeitos); nos consertos de televisão, de instalações ou correções elétricas, de aquecedores; descupinização; aparelhos hidráulicos; impressoras de computador; carregadores de cartuchos. Até no preço de estrume para jardins, titica há...

            Isso sem falar nos polenguinhos que a cada ano diminuem de tamanho; nas latas de leite em pó e produtos semelhantes que já chegam quase pela metade; um litro de Coca Cola custa mais caro que um litro de gasolina. Por falar em gasolina, nos preços desta; nas ridículas garrafinhas que inventaram para a água mineral; no “couvert”, sucos e sobremesas dos restaurantes; até o preço dos produtos chamados alternativos, tipo Mundo Verde, é mais caro que os demais. Acabaram como nosso cafezinho, impuseram o expresso que é mais caro, mal feito e amargo pra chuchu

Tudo isso na arraia miúda. Se pensarmos, porém, nas mutretas do grande capital... Bem... nesse caso o jornal inteiro não caberia para colocar todos os exemplo.

Sim, a mutreta é uma instituição nacional.

 

COBRAS E LAGARTOS

Artur da Távola 

 

            Durante quase vinte anos, escrevi em jornais e revistas, diariamente, sobre televisão. Fui crítico e analista. Além disso, havia trabalhado na televisão chilena, quando exilado político e, até hoje, faço um programa de música clássica na TV Senado. Esse período me permitiu escrever quatro livros sobre televisão e comunicação, hoje esgotados e nunca mais editados: A Liberdade do Ver; O Ator na TV; Comunicação é Mito (meu melhor trabalho) e A Telenovela Brasileira. Não escrevo estas linhas para falar de mim por vaidade ou auto-referência doentia, mas para dizer que tenho um trato de análise do fenômeno televisão desde 1968. Quase quarenta anos.

Pois nesses quarenta anos tentando entender o fenômeno, analisar, aprofundar o olhar crítico e até realizar uma semiologia dessa mídia, até hoje nenhuma telenovela fundiu a minha cuca mais do que Cobras e Lagartos ora em fase final, porque a Rede Globo meteu o Pé na Jaca. Confesso meu fracasso. Nem sei se é possível chamar Cobras e Lagartos, de novela. Nada tem com o gênero. Talvez seja conto de fadas, chanchada, besteirol, psicodrama de hospício, obra corajosa e renovadora, fábula, gozação nos telespectadores. Ou então é um marco na história do gênero no Brasil, daí provocar estranheza. Jamais vi loucura igual na televisão, ao mesmo tempo em que, para meu espanto e confusão, senti ser uma obra simpática e atraente. Tanto que fez subir a audiência da Globo. E o povo não se engana. Nesse caso, o doido não é ele, somos nós. Foi uma crítica implacável à ambição humana. Seus valores, todos niilistas, baseados na total descrença na condição humana. No mundo só existe ambição. O resto é lorota. Esta é a moral da obra. Cobras e Lagartos teve a história mais alucinada e inverossímil, ridícula mesmo, jamais apresentada na TV brasileira. Nenhum clichê do gênero ao lado de todos os clichês do gênero.

            Agora o outro lado. Os atores foram formidáveis. Conseguiram dar verossimilhança a delírios. Espetaculares! Alguns diálogos e situações igualmente irresistíveis. Gostaria de citar um a um os prodígios feitos pelos atores, mas necessitaria de outra crônica para citar todos. Notáveis! Aplausos prolongados. Para tal, a invenção dos personagens foi criativa e, repito, a qualidade de alguns diálogos revelou um autor que é uma promessa. Os atores  - e repito para frisar - conseguiram a proeza de dar credibilidade àquele despautério de manicômio e às mais absurdas situações. Tudo, porém, resultava certo e simpático. Dava vontade de ver, rir, acompanhar. Erro mesmo, só um. E foi da direção: não precisava transformar os já divertidos núcleos cômicos em palhaçada; bastava ficar no humor, que já seria ótimo.     

 Em suma: estou derrotado, vencido. Ou ali se estreou uma forma pós-moderna e livre de fazer novela e constitui um marco na história da TV, ou foi uma chanchada tão louca, mas tão louca, que acabou por agradar, pois lá em seu manicômio diário conseguiu sacudir os clichês do gênero. Permito-me ficar com esta última impressão. Sempre fui um homem de boa vontade. E bem que vou sentir saudades daquela turma.

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