Artur da Távola

(Crônicas )

Maio de 2007

 

 

SANTA VICENTA MARIA - Artur da Távola
            


O dia de ontem marcou a data de Santa Vicenta Maria, canonizada por Paulo VI em 1975, exatamente no dia 25 de maio. Uma santa de século vinte. Ela viveu no século dezenove, tendo nascido na Espanha e lá morrido aos 43 anos, em 1890. O espaço não permite falar, em profundidade, sobre a vida santa dessa religiosa. Aludo apenas a duas realidades profundas.
A primeira é a de haver sido uma serva da vontade de Deus a serviço do próximo. Isso de "vontade de Deus" é sentimento e percepção das mais misteriosas ao ser humano. Mais misteriosa, ainda, é a capacidade (sempre proclamada e raramente exercida pelas pessoas) de aceitar a vontade de Deus. Um tema para anos de meditação e prática. As Escrituras apontam caminhos para descobrir a vontade de Deus, porém ninguém nem crença alguma têm o monopólio dessa descoberta. Misteriosamente, ela é intuída por quem faz o bem.
            A segunda foi entregar-se ao serviço das jovens. Santa Vicenta Maria fundou uma Ordem, "As Religiosas de Maria Imaculada", dedicada a jovens necessitadas, material ou espiritualmente. Mais de cem anos depois, as freirinhas de sua ordem prosseguem no labor, em vários países. Cá, no Rio, possuem seu heróico educandário na Rua Joaquim Murtinho 641, Santa Tereza.
            Imaginem, leitor e leitora, o que significa dedicar a vida à recepção amorosa e acolhedora e ofertar amparo, formação e construção de uma vida sólida para as jovens que, segundo os desígnios de Deus, um dia precisaram, precisam ou precisarão de quem olhe por elas com incomensurável amor e transforme esse olhar em gesto de solidariedade. Isto, na complexidade dos dias de hoje, com todas as contradições de uma verdadeira revolução existencial no mundo, tanta miséria, tanta  criança nascida da prostituição infanto-juvenil; e com um contexto, no Brasil, de tragédia social sem precedentes.
            Entenderão, então, o sentido profundo da vida de Santa Vicenta Maria, a quem envio, por algum desses mistérios da empatia, sei lá por que, mas constantemente e por intuição (com resposta silenciosa), fluidos, pensamentos e orações, desde que soube dela. Esta é, aliás, a minha forma de rezar.
            Depoimento pessoal: Não houve uma vez na qual eu tenha vivido momentos de aflição e susto e que, pedindo-lhe a presença, tenha deixado de fazer fluir, suavemente,  ou a solução ou a paz interior até mim.

 

 

         POEMA PARA ROMÁRIO
 
       
        Quando,  há anos, cortaram Romário da seleção, escrevi um poema para ele e que não teve qualquer repercussão. Nenhuma pessoa gostou. Aquilo me animou. E não morreu ali. O poeta é como o goleador: insiste resiste por isso existe. Passada a festa do gol mil, fui ao poema e nele alterei o bastante. Em geral, o escritor gosta de textos seus para os quais ninguém liga e acha meio chatos os seus escritos mais apreciados. Capricorniano insistente comemoro abaixo minha visão poética, profética e cinética do baixinho, o rei do movimento.
 

            Soslaio, fagulha, viés tinhoso,
            corte, zás trás, diagonal
            capeta, cutelo, catimba
            raio, fulcro, ratchimbum
            pimenta, tiro, subitaneidade
            visão alerta de um sagüí.
 
            Vento espantoso, rinha, aparição.
            Brasil real, povo sofrido, catiripapo,
            adestrado caipora, pixote, milgol,
            piá, saci genial, pinimba, golmil
            flash, fervor, flagrante, sacatrapa.
            Sonso na área, sincero na vida,
            funda, estilingue, bodoque, baladeira.
            Deus olhou e disse: Esteéocara.
 
            Menino livre, bola ou burica.
            Pitaco, pitomba, pé no chão, carisma.
            Cambeta, caramba, carambola,
            Cambaio, campeão!
            Lanceiro do gol, herói faceiro,
            auto-suficiente guerreiro
            do povo vencedor.
 

 

          

           SÓ ÉTICA NÃO EXISTE: HÁ ÉTICAS


         O grande Buda, chamava-se Siddharta Gautama. Vendo os escândalos de corrupção devassados semana passada pela Polícia Federal oriundas de uma Construtora chamada Gautama pensei comigo: o Buda com a sua força moral vai puni-los por usar seu nome em vão. Tudo isso traz de volta a discussão sobre a questão ética. Tenho a esse respeito a idéia de que Ética em seu sentido profundo só existe onde se integram pelo menos quatro formas de “ética”. Vai em síntese pois o assunto é interminável. Sim, há quatro níveis que devem operar de modo integrado, integrante e integrador: a) a ética do comportamento individual; b) a ética do comportamento público; c) a ética das responsabilidades; e d) a ética dos objetivos ou das finalidades.                             
        
         Não se pode, portanto, tomar o comportamento ético por uma de
  suas vertentes. Visão evoluída, madura e equilibrada do problema
  levar-nos-á a buscar a adequada integração entre as várias formas
  através das quais o comportamento ético se manifesta. Assim:
  A ÉTICA DO COMPORTAMENTO INDIVIDUAL:
         Tanto regula os atos individuais externos como as formas psicológicas e interiores de tratar e conceber a individualidade, o ser, a espiritualidade.  Exige intenso e diário trabalho interior e seus problemas e conflitos em geral aparecem sobre a forma de enigma.
                                   
  A ÉTICA DO COMPORTAMENTO PÚBLICO:
         Cabe a pessoas direta ou indiretamente relacionadas com a coletividade. Ela junta os padrões da ética de comportamento individual com os aspectos legais, regulamentares e a subordinação sempre crítica (e reflexiva) aos postulados do bem comum.
                                   
  A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE :
         É de difícil caracterização verbal. Implica na energia necessária ao cumprimento dos deveres e tarefas pessoais ou públicas, compatíveis com o nível de responsabilidade característicos de cada vida. Exemplos: paternidade, maternidade, chefias, postos de mando ou condições de influência (políticos, jornalistas, comunicadores, sacerdotes). Há uma ou várias responsabilidades relacionadas com compromissos assumidos ao longo da vida.
A ÉTICA DOS OBJETIVOS:
         É das mais complexas e profundas. Representa a escala de valores dentro da   qual o indivíduo seleciona as finalidades e os objetivos tanto da própria vida quanto de sua ação pública. Representa a subordinação aos grandes princípios da vida: a liberdade, a fé, a justiça, o amor. Quanto maior a compreensão temos, maior a escala dos compromissos éticos com as finalidades e objetivos de cada vida.

 

 

 

          O TERRITÓRIO DESCONHECIDO DO AMOR


         Vivemos tempos de muita ciência e muito pragmatismo. Fazem parte da dinâmica interna da sociedade industrial, e a tudo e todos invadiram. A ciência, a tecnologia, o pragmatismo jogaram luz em inúmeros e notáveis campos do conhecimento, mas jamais esgotaram ou esgotarão o real.
         A psicanálise, por exemplo, deu forma e conceito às situações e impulsos da libido. Idem a sexologia, mais recentemente, especializando e diferenciando (ainda mais) os conceitos psicanalíticos. Porém o amor, que é mito por ser superior ao homem e é um deus da mitologia (Eros), o amor é sempre superior e mais complexo que qualquer apropriação que dele se faça. Mesmo as "científicas".
         O amor espraia-se por um território (felizmente!) desconhecido pela mais evoluída ciência. Ele se mantém dentro de uma névoa de surpresa e enigma, sempre desafiador, porque morando num mundo próprio, do qual podemos ter vislumbres, percepções ou breves iluminações, jamais conhecimento.
         Esse território carregado de magia, mistério, sortilégio e perfume existencial transforma o amor em matéria sagrada. Os cientistas do século XX, em seu santo labor de lançar luz, ciência e conhecimento onde havia resistência e tabu, deixaram quase sempre de considerar o lado misterioso que escapa ao seu controle, negando-o até.
         A ciência serve para iluminar a aproximação do mistério, não para ter a pretensão de elucidá-lo, o que significaria destruí-lo. Resolver é matar. Nem entender, nem desistir, eis o único caminho possível ao labor humano. Trabalhar sobre o conhecido para novas sombras e novas iluminações, num processo constante. Pobre de quem acha que sabe o amor! Ai de quem supõe esgotar o sexo com a visão científica! São tão dignos de pena como quem nada sabe ou quem vive na ignorância e no preconceito.
         O mundo de hoje, entupido de pragmatismo e do cientificismo, tornou-se um mundo voraz, que pretende se apropriar de todos os conhecimentos, reduzindo-os a fórmulas e conceitos. Inutiliza, assim, o mesmo mundo que pretende salvar. E salva, em muitos casos, mas, ao mesmo tempo, complica-o, logo o afoga. Salva e afoga. Agride e afaga.
Dá para compreender esta desafiadora dualidade?
 

 

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