SALVE O AMOR
PLATÔNICO - Artur da Távola
Existem palavras e expressões desgastadas e infelicitadas pelo
mau uso, em todos os idiomas. Volta e meia elas ficam a rodar em minha
cabeça a pedir socorro e compreensão e busco curar-lhes as feridas e
descobrir cada vez profundidade e significados que a dita vulgarização
se especializa em minimizar. O platônico, com sabem vem do grande filósofo grego Platão, que
acreditava haver um mundo das idéias puras das quais este mundo é mera
projeção. Daí as pessoas pensarem que amor platônico é uma espécie de
simpatia anêmica, ou de sentimento que não pode ou não quer
corporificar-se no amor pleno, entendido aí o amor físico. E com essa
errônea versão a expressão perde força e uma das idéias mais lindas
sobre o amor fica limitada, estreita, vira sanduíche misto quente de tão
popular. Amor platônico é conceito de ampla e belíssima significação.
Pouco ou nada tem a ver com amor que não se concretiza em união de
corpos. O amor é um enigma que decorre do fato de ser um rio de muitas
vertentes, por isso o amor platônico deve ser considerado como das mais
belas, poéticas e maduras formas de amar. Possui características de um
amor de alma e que diferentemente do amor chamado físico, vive liberto
de muitas prisões. Pode porém ter tesão, nada impede. No é isso, porém o
essencial. Assim, por exemplo: o amor platônico não exige fidelidade
no sentido comum da palavra: vive da lealdade e da irmandade. Perdoa e
compreende. Exerce a misericórdia e a empatia profunda. O amor platônico
pode coexistir entre várias pessoas sem a mais leve forma de ciúme no
sentido tradicional. Ele não exige a presença física e permanece até
quando existe entre uma pessoa viva e outra morta .E entre pessoas que
nunca se viram, a não ser de longe, na telas do cinema ou em personagens
de livros ou ainda no campo musical. Ou em pessoas conhecidas ou simples
desconhecidos íntimos. Existe acima de ser étero, homo ou bi-sexual.
Nada tem a ver com essas questões de preferências carnais. Eu posso ter
amor por Brahms apenas em função de sua música. Você, mulher, pode amar
o Marlon Brando, Gerhard Phillipe ou James Dean mesmo tendo nascido
depois da morte deles. O amor platônico pertence às formas mais lindas, livres e
poéticas de multiplicar e atender a nossa capacidade de amar. Erra quem
o considera um amor irrealizado. Nada tem de amor á distância. Esta, não
existe nem entre pessoas que nunca se vêem ou se viram. Ele se realiza a
vida inteira nesse mistério delicioso de nossa interioridade, essa
eterna virgem aberta ao amor eterno.

COMO O PETRÓLEO, O
BONDINHO É NOSSO
Artur da Távola
Amo-te, Santa Teresa, porque recompões o ideal de uma cidade na
qual o tempo tempera o progresso, fazendo-o servo, jamais senhor.
Amo-te, por permitires beleza, luz, árvore, timidez e relação
direta com o simples que virou raridade no comportamento alucinado dos
homens. Amo o teu abrigo e a paz que trazes a este pedaço de um Rio que
acabou contudo não desistiu de sonhar com vida possível, bela e o homem
viável e solidário, desde que tratado com justiça e muita poesia. Agora
que és vítima de tiroteios, agora mais que nunca, proclamo quanto te
amo, bairro de Santa Teresa. Mesmo assim, foste e ainda és jardim sem
angústia da urbana condição.
Amo-te, porque abrigas crianças saudáveis, com gato, esquina,
pipa, ladeira, carrinho de rolimã, lanches fartos, brincadeiras de São
João, vó na janela e já, já, namoro no portão.
Amo-te, porque ainda tens bruma, casas arrevesadas, fadas,
castelos amenos, fantasmas, refugiados de guerra, bruxas, consertadores
de sofás, armazéns com conta, dengosas curvas, e um gosto de conspiração
em tuas ruas pálidas, oxalá iluminadas a querosene. Tens muros pelos
quais passam, segredam e urinam os conspiradores contra a ordem material
que enfeou o mundo, matou os rios, endoidou o homem e emparedou o
passado.
E é porque te amo mesmo sem aí morar é que aplaudo e apoio a
reunião de sua coletividade, sábado passado, quando se uniu para uma
campanha à qual dou minha modesta adesão. Parece que há um projeto para
entregar os novos bondinhos do bairro ao transporte exclusivamente de
turistas.
Com razão a comunidade protesta. O bondinho deve ser tanto dos
turistas como, principalmente, da população. Um absurdo tirar o morador
do seu bondinho, o que resta no Rio de Janeiro de transporte poético,
aberto ao vento saudável e ao canto dos passarinhos nas árvores do
bairro abençoado. Impedir a população de usar o transporte de viagem
mais poética e rápida, além de maldade sem fim é um ato antidemocrático.
Assim como o petróleo, o bondinho também é nosso.

SABORES,
SAUDADES E ESPERTEZAS
Artur da Távola
E não é que deu saudade do tempo em que mergulhava o Biscoito
Maria, aquele de maisena, na xícara farta do café com leite?
Contrariei restrições médicas, fui ao armário, achei o pacote e, com
alegria de travessura infantil, afundei dois biscoitos. Desilusão! O
sabor era outro, não porque deixei de ser criança, mas a qualidade
do produto, era muito inferior ao sabor do velho
biscoito Maria. Fiquei a pensar em antigas delícias que por sua popularidade
ou popularização, depois caíram na desqualificação. Já nem falo do
Polenguinho que misteriosamente foi diminuindo de tamanho na relação
inversa ao preço (qualquer dia desaparece...), nem no antes
maravilhoso Catupiry que hoje parece sebo. Em compensação Catupiry
virou metonímia e faz sucesso. Tudo hoje “tem” Catupiry, já
repararam: empadas, pastéis, coxinhas de frango. É mais caro e tome
coleterol. Tampouco aludo aos saquinhos de queijo ralado que sabem a
tudo menos a parmesão... Já não falo nas garrafas de guaraná que
diminuíram ou nas caixinhas do sorvete "diet" da Kibon que
igualmente minguaram. Até produtos Diet alternativos ficam menores,
muito mais caros e nada “alternativos”... Lojas alternativas tipo
Mundo Verde são muito mais caras que qualquer supermercado....
Espertezas da indústria em País no qual o consumidor ainda não
aprendeu a se defender. Cafezinho cheiroso de coador? Este sumiu por
ser mais barato que o mal feito “expresso”, tosca imitação do
italiano e em geral mal feito e amargo. Isso sem falar na diminuição do tamanho dos frangos à venda
(há quanto tempo você não come uma boa e gorda galinha?). Ainda no
Natal de 2006 eu observava a diminuição do tamanho dos perus. Mas o
Chester resultou em saborosa travessura tecnológica, sei lá com que
anabolizantes.... Aves abatidas antes de um tamanho razoável custam
o mesmo preço mas economizam ração, aumentando os lucros: galinha
virou frango que aos poucos é quase pinto.... E ainda há os preços
dos remédios que dispararam e o tamanho dos tubos de tudo quanto é
pomada. Quero, também falar-lhes de antigas delícias que se tornaram
insípidas em qualquer bar ou botequim, como pastéis, empadas, quibes
fritos e pizzas. Neguinho come para matar a fome, não mais pelo
sabor. O mesmo se deu com alguns produtos de lata como salsichas e
os outrora deliciosos pêssegos em calda, hoje mirrados e sem graça.
Vejam no que deu um simples mergulho do biscoito da infância no café
com leite. Trouxe à memória gustativa dezenas de sabores que o
progresso vai maltratando e o diabetes proibindo. Por falar nisso:
há quanto tempo você não come uma broa de milho, um autêntico bolo
de aipim ou um doce de batata rôxa?

MALDITA BALA PERDIDA -
Artur da Távola
Eras raridade, bala perdida. Hoje, tua torpe
existência ceifa mais e mais e mais e mais vidas úteis e
inocentes a cada dia. Maldita sejas, bala perdida, tão
maldita quanto a bala que, não perdida, acha o seu
destino. Assassina, maldito seja quem te fabrica, quem
te venera, quem te vende e quem te detona.
Expressão corriqueira do noticiário da
atualidade surges nas notícias sempre acompanhada dos
efeitos perversos de tua trajetória. Crianças, velhos,
pessoas em suas casas pobres, trabalhadores honrados,
policiais em serviço, estudantes, vítimas são de tua
sanha, bala perdida.
Marca de um tempo de delírio e aflição, de
crime banalizado, de desamor e desvalorização da vida,
és símbolo da crueldade dos fabricantes de armamentos e
da estupidez de quem os usa, ainda que a pretexto de se
defender. Cega, podes atingir a qualquer um, mas tens
uma terrível preferência: os inocentes.
Maldita sejas, bala perdida ou achada bala,
bala de qualquer calibre ou ambição, inimiga da vida, do
amor e da fraternidade, expressão boçal das ilusões de
poder. Que o tempo sobre ti se abata, varrendo tua
mortal história de pavor, doença e morte moral. Que
fiques como a recordação assombrada da loucura do poder;
da maldição do dinheiro como fator de tragédia, e do
crime como ilusão da grandeza.
Que tua falange de desgraças amaldiçoe os seus
causadores e horror que disseminaste em tuas vítimas,
não apenas as que morreram, mas as que ficaram com o
berro de dor da perda de filhos, maridos, esposas,
amigos, companheiros de trabalho. Que esta maldição ecoe
através dos tempos, tornando infames todos os teus
súditos e consumidores por toda a eternidade. Eles e
todos os que contribuem para a tua existência, bala
perdida, sórdida mensagem de dor e destruição. Vitória
quase final da abominável indústria de armamentos.

A POESIA
PERCUTIDA DAS BATERIAS
Artur da Távola
Faz uns dias, vi na televisão uma breve reportagem de
noticiário, que por certo passou despercebida. Era um maestro,
desses com Escola de Música, Doutorado etc. em contato com
membros da bateria da Mangueira, a aplicar seus estudos técnicos
sobre ritmo e, assim, reinventar artifícios e novidades de
natureza técnica e completa.
Essa aula era acompanhada com a maior atenção pelos ritmistas
presentes. Possivelmente no próximo carnaval, a Mangueira
aparecerá com novidades digamos musicalmente científicas no dia
do grande desfile. Tudo dando certo vai ser uma nova e
surpreendente atração de uma bateria que, juntamente com a mais
popular das escolas de samba, inevitavelmente levanta o povão da
arquibancada.
Fiquei a pensar no mistério das baterias das escolas de samba.
Nelas implodem os deuses escondidos das raças oprimidas, a
força que mora guardada no povo brasileiro à espera do dia em
que o País seja de quem o faz e não de quem o aproveita. Hoje
percutem de modo admirável milhares de mãos pobres batendo na
miséria e na injustiça, não com golpes de destruição, mas com a
percussão da harmonia. É a vibração maior da alegria de criar em
conjunto sem, por isso, anular-se cada indivíduo. Nelas, o
coração do samba bate o compasso da marcha do povo para um
futuro de igualdade e justiça. Com liberdade, é claro.
Ora é o tamborim que se alvoroça no nervosismo da busca. Ou o
tarol que se mostra tinhoso e exato, apontando os caminhos. E
bumbam os surdos, lembram que tudo no cosmos possui uma pulsação
misteriosa. Todos os contrastes cessam e se harmonizam ao ritmo
exemplar da bateria de escola de samba. Ela recorda o pé
descalço, a boca sem dentes, o cabelo por pentear ou super
penteado, na beleza transfigurada do povo do Brasil. É o sonho
ritmado da vida que um dia há de construir um reino de
liberdade, apesar do lamento doloroso das cuícas. O apego nosso
pelo ritmo representa o coração da mãe desde que somos feto: uma
batida e uma síncope. Uma pulsação e uma parada. Analogia com a
vida. O que pulsa é vivo e o que é síncope lembra o silêncio da
morte. Tudo em frações de segundos. O ritmo interrompe a parada
(síncope). Vida e morte pulsando, eternamente se contrapondo. O
importante é pulsar. Neste momento, lembro-me da famosa
paradinha do falecido e nunca esquecido mestre André. Da
paradinha, mergulho na morte - salta a vida no repenico dos
tamborins.
Salve a bateria das escolas de samba. O povo a criou
e, agora, maestros eruditos decompõem seus compassos e a estudam
a fundo para aperfeiçoar ainda mais o que nasceu e cresceu
lindo, límpido, criativo, como só este mesmo povo sabe ser.
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