Artur da Távola

(Crônicas )

Junho de 2007

 

 

SALVE O AMOR PLATÔNICO - Artur da Távola
 
        
         Existem palavras e expressões desgastadas e infelicitadas pelo mau uso, em todos os idiomas. Volta e meia elas ficam a rodar em minha cabeça a pedir socorro e compreensão e busco curar-lhes as feridas e descobrir cada vez profundidade e significados que a dita vulgarização se especializa em minimizar.
         O platônico, com sabem vem do grande filósofo grego Platão, que acreditava haver um mundo das idéias puras das quais este mundo é mera projeção. Daí as pessoas pensarem que amor platônico é uma espécie de simpatia anêmica, ou de sentimento que não pode ou não quer corporificar-se no amor pleno, entendido aí o amor físico. E com essa errônea versão a expressão perde força e uma das idéias mais lindas sobre o amor fica limitada, estreita, vira sanduíche misto quente de tão popular.
         Amor platônico é conceito de ampla e belíssima significação. Pouco ou nada tem a ver com amor que não se concretiza em união de corpos. O amor é um enigma que decorre do fato de ser um rio de muitas vertentes, por isso o amor platônico deve ser considerado como das mais belas, poéticas e maduras formas de amar. Possui características de um amor de alma e que diferentemente do amor chamado físico, vive liberto de muitas prisões. Pode porém ter tesão, nada impede. No é isso, porém o essencial.     Assim, por exemplo: o amor platônico não exige fidelidade no sentido comum da palavra: vive da lealdade e da irmandade. Perdoa e compreende. Exerce a misericórdia e a empatia profunda. O amor platônico pode coexistir entre várias pessoas sem a mais leve forma de ciúme no sentido tradicional. Ele não exige a presença física e permanece até quando existe entre uma pessoa viva e outra morta .E entre pessoas que nunca se viram, a não ser de longe, na telas do cinema ou em personagens de livros ou ainda no campo musical. Ou em pessoas conhecidas ou simples desconhecidos íntimos. Existe acima de ser étero, homo ou bi-sexual. Nada tem a ver com essas questões de preferências carnais. Eu posso ter amor por Brahms apenas em função de sua música. Você, mulher, pode amar o Marlon Brando, Gerhard Phillipe ou James Dean mesmo tendo nascido depois da morte deles.
         O amor platônico pertence às formas mais lindas, livres e poéticas de multiplicar e atender a nossa capacidade de amar. Erra quem o considera um amor irrealizado. Nada tem de amor á distância. Esta, não existe nem entre pessoas que nunca se vêem ou se viram. Ele se realiza a vida inteira nesse mistério delicioso de nossa interioridade, essa eterna virgem aberta ao amor eterno.
 

 

 

 

COMO O PETRÓLEO, O BONDINHO É NOSSO

Artur da Távola


          Amo-te, Santa Teresa, porque recompões o ideal de uma cidade na qual o tempo tempera o progresso, fazendo-o servo, jamais senhor.
         Amo-te, por permitires beleza, luz, árvore, timidez e relação direta com o simples que virou raridade no comportamento alucinado dos homens. Amo o teu abrigo e a paz que trazes a este pedaço de um Rio que acabou contudo não desistiu de sonhar com vida possível, bela e o homem viável e solidário, desde que tratado com justiça e muita poesia. Agora que és vítima de tiroteios, agora mais que nunca, proclamo quanto te amo, bairro de Santa Teresa. Mesmo assim, foste e ainda és jardim sem angústia da urbana condição.
         Amo-te, porque abrigas crianças saudáveis, com gato, esquina, pipa, ladeira, carrinho de rolimã, lanches fartos, brincadeiras de São João, vó na janela e já, já, namoro no portão.
         Amo-te, porque ainda tens bruma, casas arrevesadas, fadas, castelos amenos, fantasmas, refugiados de guerra, bruxas, consertadores de sofás, armazéns com conta, dengosas curvas, e um gosto de conspiração em tuas ruas pálidas, oxalá iluminadas a querosene. Tens muros pelos quais passam, segredam e urinam os conspiradores contra a ordem material que enfeou o mundo, matou os rios, endoidou o homem e emparedou o passado.
         E é porque te amo mesmo sem aí morar é que aplaudo e apoio a reunião de sua coletividade, sábado passado, quando se uniu para uma campanha à qual dou minha modesta adesão. Parece que há um projeto para entregar os novos bondinhos do bairro ao transporte exclusivamente de turistas.
         Com razão a comunidade protesta. O bondinho deve ser tanto dos turistas como, principalmente, da população. Um absurdo tirar o morador do seu bondinho, o que resta no Rio de Janeiro de transporte poético, aberto ao vento saudável e ao canto dos passarinhos nas árvores do bairro abençoado. Impedir a população de usar o transporte de viagem mais poética e rápida, além de maldade sem fim é um ato antidemocrático.
Assim como o petróleo, o bondinho também é nosso.

 

   

 

SABORES, SAUDADES E ESPERTEZAS

Artur da Távola


       E não é que deu saudade do tempo em que mergulhava o Biscoito Maria, aquele de maisena, na xícara farta do café com leite? Contrariei restrições médicas, fui ao armário, achei o pacote e, com alegria de travessura infantil, afundei dois biscoitos. Desilusão! O sabor era outro, não porque deixei de ser criança, mas a qualidade do
produto, era muito inferior ao sabor do velho biscoito Maria.
       Fiquei a pensar em antigas delícias que por sua popularidade ou popularização, depois caíram na desqualificação. Já nem falo do Polenguinho que misteriosamente foi diminuindo de tamanho na relação inversa ao preço (qualquer dia desaparece...), nem no antes maravilhoso Catupiry que hoje parece sebo.  Em compensação Catupiry virou metonímia e faz sucesso. Tudo hoje “tem” Catupiry, já repararam: empadas, pastéis, coxinhas de frango. É mais caro e tome coleterol. Tampouco aludo aos saquinhos de queijo ralado que sabem a tudo menos a parmesão... Já não falo nas garrafas de guaraná que diminuíram ou nas caixinhas do sorvete "diet" da Kibon que igualmente minguaram. Até produtos Diet alternativos ficam menores, muito mais caros e nada “alternativos”... Lojas alternativas tipo Mundo Verde são muito mais caras que qualquer supermercado.... Espertezas da indústria em País no qual o consumidor ainda não aprendeu a se defender. Cafezinho cheiroso de coador? Este sumiu por ser mais barato que o mal feito “expresso”, tosca imitação do italiano e em geral mal feito e amargo.
        Isso sem falar na diminuição do tamanho dos frangos à venda (há quanto tempo você não come uma boa e gorda galinha?). Ainda no Natal de 2006 eu observava a diminuição do tamanho dos perus. Mas o Chester resultou em saborosa travessura tecnológica, sei lá com que anabolizantes.... Aves abatidas antes de um tamanho razoável custam o mesmo preço mas economizam ração, aumentando os lucros: galinha virou frango que aos poucos é quase pinto.... E ainda há os preços dos remédios que dispararam e o tamanho dos tubos de tudo quanto é pomada.
Quero, também falar-lhes de antigas delícias que se tornaram insípidas em qualquer bar ou botequim, como pastéis, empadas, quibes fritos e pizzas. Neguinho come para matar a fome, não mais pelo sabor. O mesmo se deu com alguns produtos de lata como salsichas e os outrora deliciosos pêssegos em calda, hoje mirrados e sem graça.
Vejam no que deu um simples mergulho do biscoito da infância no café com leite. Trouxe à memória gustativa dezenas de sabores que o progresso vai maltratando e o diabetes proibindo. Por falar nisso: há quanto tempo você não come uma broa de milho, um autêntico bolo de aipim ou um doce de batata rôxa?

 
 

MALDITA BALA PERDIDA - Artur da Távola


          Eras raridade, bala perdida. Hoje, tua torpe existência ceifa mais e mais e mais e mais vidas úteis e inocentes a cada dia. Maldita sejas, bala perdida, tão maldita quanto a bala que, não perdida, acha o seu destino. Assassina, maldito seja quem te fabrica, quem te venera, quem te vende e quem te detona.
         Expressão corriqueira do noticiário da atualidade surges nas notícias sempre acompanhada dos efeitos perversos de tua trajetória. Crianças, velhos, pessoas em suas casas pobres, trabalhadores honrados, policiais em serviço, estudantes, vítimas são de tua sanha, bala perdida.
         Marca de um tempo de delírio e aflição, de crime banalizado, de desamor e desvalorização da vida, és símbolo da crueldade dos fabricantes de armamentos e da estupidez de quem os usa, ainda que a pretexto de se defender. Cega, podes atingir a qualquer um, mas tens uma terrível preferência: os inocentes.
         Maldita sejas, bala perdida ou achada bala, bala de qualquer calibre ou ambição, inimiga da vida, do amor e da fraternidade, expressão boçal das ilusões de poder. Que o tempo sobre ti se abata, varrendo tua mortal história de pavor, doença e morte moral. Que fiques como a recordação assombrada da loucura do poder; da maldição do dinheiro como fator de tragédia, e do crime como ilusão da grandeza.
         Que tua falange de desgraças amaldiçoe os seus causadores e horror que disseminaste em tuas vítimas, não apenas as que morreram, mas as que ficaram com o berro de dor da perda de filhos, maridos, esposas, amigos, companheiros de trabalho. Que esta maldição ecoe através dos tempos, tornando infames todos os teus súditos e consumidores por toda a eternidade. Eles e todos os que contribuem para a tua existência, bala perdida, sórdida mensagem de dor e destruição. Vitória quase final da abominável indústria de armamentos.

 

 

A POESIA PERCUTIDA DAS BATERIAS

Artur da Távola


        Faz uns dias, vi na televisão uma breve reportagem de noticiário, que por certo passou despercebida. Era um maestro, desses com Escola de Música, Doutorado etc. em contato com membros da bateria da Mangueira, a aplicar seus estudos técnicos sobre ritmo e, assim, reinventar artifícios e novidades de natureza técnica e completa.
Essa aula era acompanhada com a maior atenção pelos ritmistas presentes. Possivelmente no próximo carnaval, a Mangueira aparecerá com novidades digamos musicalmente científicas no dia do grande desfile. Tudo dando certo vai ser uma nova e surpreendente atração de uma bateria que, juntamente com a mais popular das escolas de samba, inevitavelmente levanta o povão da arquibancada.
Fiquei a pensar no mistério das baterias das escolas de samba. Nelas  implodem os deuses escondidos das raças oprimidas, a força que mora guardada no povo brasileiro à espera do dia em que o País seja de quem o faz e não de quem o aproveita. Hoje percutem de modo admirável milhares de mãos pobres batendo na miséria e na injustiça, não com golpes de destruição, mas com a percussão da harmonia. É a vibração maior da alegria de criar em conjunto sem, por isso, anular-se cada indivíduo. Nelas, o coração do samba bate o compasso da marcha do povo para um futuro de igualdade e justiça. Com liberdade, é claro.
Ora é o tamborim que se alvoroça no nervosismo da busca. Ou o tarol que se mostra tinhoso e exato, apontando os caminhos. E bumbam os surdos, lembram que tudo no cosmos possui uma pulsação misteriosa. Todos os contrastes cessam e se harmonizam ao ritmo exemplar da bateria de escola de samba. Ela recorda o pé descalço, a boca sem dentes, o cabelo por pentear ou super penteado, na beleza transfigurada do povo do Brasil. É o sonho ritmado da vida que um dia há de construir um reino de liberdade, apesar do lamento doloroso das cuícas. O apego nosso pelo ritmo representa o coração da mãe desde que somos feto: uma batida e uma síncope. Uma pulsação e uma parada. Analogia com a vida. O que pulsa é vivo e o que é síncope lembra o silêncio da morte. Tudo em frações de segundos. O ritmo interrompe a parada (síncope). Vida e morte pulsando, eternamente se contrapondo. O importante é pulsar. Neste momento, lembro-me da famosa paradinha do falecido e nunca esquecido mestre André. Da paradinha, mergulho na morte - salta a vida no repenico dos tamborins.
           Salve a bateria das escolas de samba. O povo a criou e, agora, maestros eruditos decompõem seus compassos e a estudam a fundo para aperfeiçoar ainda mais o que nasceu e cresceu lindo, límpido, criativo, como só este mesmo povo sabe ser.

 

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