Artur da Távola

(Crônicas )

Julho de 2007

 

 

NOSSO FUTURO MESTIÇO

Artur da Távola

  

   O Brasil é um país de povo muito pobre e inculto. Nossas elites sempre trataram de enriquecer e entesourar, em vez de procurar construir uma Nação com mais sentido de justiça e igualdade de direitos.

    Os poderes públicos jamais foram fortes o suficiente para garantir educação, saúde, habitação, transporte e alimentação básica a todo o povo. Nossa economia sempre foi dependente e sugada em suas principais riquezas. Além de não-distributiva.

    Conseguimos evoluir tecnológica e empresarialmente, mas os frutos desse desenvolvimento jamais tiveram um sentido social a nortear-lhes o rumo. Não temos tradição democrática. Aqui, tanto matam os bandidos, como os policiais. Possuímos quase nula a consciência dos direitos individuais. Em nosso País, só pobre vai preso, e não há instituições destinadas a operar uma tentativa de equilíbrio social. Nossa “elite” econômica sempre preferiu os surtos democratizantes, até pela violência. E, hoje, só sabe falar de lucro a qualquer preço.

    Somos um País que não tem cultura política para eleger seus representantes. Aqui, qualquer pessoa, até antes da Constituinte de 88, podia ser presa por causa de suas  idéias: bastava um pequeno endurecimento do regime. Falamos em liberdade e criamos um Estado fortíssimo. Apesar de tudo isso ser feito em nome do progresso do País, apresentamos índices gravíssimos de miséria, atraso e doença, que convivem com níveis altos de desenvolvimento material em alguns segmentos da economia. Esse quadro gera a realidade de um povo pobre, ingênuo, sempre passado para trás. Mesmo a nossa aviação, considerada uma das mais seguras do mundo até 2006, em menos de um ano transtornou-se e hoje é a talvez mais desorganizada e perigosa da terra (ou do ar...)

    A partir deste ponto, o que se segue tem a ver com o PAN, diariamente, em nossos lares. Atenção! Quando um representante desse povo, na cor mestiça da pele, no nível cultural e no físico, rompe as limitações seculares e faz de sua fraqueza a grande força através do esporte ou da música, é evidente que o portador desses signos – por encarnar um milagre –, tem de ser um representante poderoso e afetivo das principais dores e esperanças de seu povo. Isso tanto está a se dar agora no Pan, como se dá com gente que vai do Hip Hop, como MV Bill, ao samba como Nelson Sargento, que ontem fez 83 anos... Assim foi Garrincha, assim foi o sonho incompleto do Maguila. E de tantos vitoriosos, a começar por Pelé. Através desse sonho, a Nação, por seu lado pobre, humilde, sem chances de progresso, antevê a possibilidade de êxito, de vitória, de quem não nasceu em berço de ouro e é mestiço como a maioria do povo. As elites brancas e européias falharam. Idem, políticos salvadores da Pátria, tão freqüentes no regime presidencialista. Algo me diz, com toda a clareza, que nosso futuro, se tem esperanças, está ligado à nossa mestiçagem em marcha.

 

 

 

 

       

LEMBRAM-SE DA VARIG, VASP E TRANSBRASIL?

Artur da Távola

 

         Em toda essa história do colapso de nosso sistema aéreo, sobre o qual todo mundo palpita e quem paga é a população, fica evidente que não será um cronista de canto de página o bamba que vai dar a solução. Na idade da sabedoria, a gente se guia por sintomas gerais. Por instinto. Por sinais aparentemente sem importância. Vivemos no mundo do pormenor e da tecnologia, mas os idosos são como aqueles velhos médicos de família, que descobriam as enfermidades no ouvido e sem tantos exames.

         Este viajor de muitas milhas andou demais de avião em sua vida. Já me sentia um comandante, tantas foram as viagens por este Brasil e o Exterior, principalmente nos 16 anos de vida parlamentar, Presidente Nacional de Partido, convidado para palestras e eventos internacionais. Jamais passei momentos dramáticos, exceto duas arremetidas, uma delas apavorante, com centímetros para os pneus tocarem no chão: aliás, aqui no Aeroporto Santos Dumont, em noite de temporal. Mas chega de xaveco, e vamos ao assunto.

         Já repararam que, apesar de combalida, quase falida e perseguida por todos os lados, sobrevivendo milagrosamente, em momento algum se falou ou fala em falhas nos aparelhos da Varig? Por que será que as duas companhias mais recentes, que enriqueceram em pouco tempo, volta e meia apresentam problemas? É só observar. Já houve vôo da TAM em que até a porta do meio da aeronave se abriu e creio que um ou dois passageiros foram ejetados do avião até se espatifarem no chão, um deles atado à poltrona. Até hoje não se apuraram as responsabilidades.

         E a Vasp? Passou anos falindo. Definhando, definhando, perdendo aparelhos em decisões judiciais para pagar dívidas. Morreu. Pois nem nas horas de maior agonia dessa empresa, houve qualquer incidente grave de segurança com seus aparelhos.

         O mesmo se pode dizer da Transbrasil. Já anêmica, a manutenção jamais deixou em perigo a vida dos viajantes.

         Daí minha dúvida: na tentativa de consertar os erros seguidos, esses dados gerais e sintomáticos não devem ser postos de lado ou ignorados. E agora que a aviação é um oligopólio da GOL e da TAM, a segurança de vôo entrou em crise. Claro que há outros fatores inegáveis. Mas que essa coincidência deve ser considerada, disso não duvidem meus inteligentes leitores e leitoras. Tem caroço debaixo desse angu.

 

MINHA QUERIDA PROFESSORA

Artur da Távola
 

Falo com você em nome de todas as professoras e professores de crianças e jovens. Eu sei de seus esforços e dos salários infames. E sei também que meu pedido é desnecessário. Vocês estão cansadas e cansados de saber o que lhes peço abaixo.
Percebo em adolescentes e jovens atuais, dois pontos que parecem haver ficado esquecidos nesta era dos eletrônicos e da tecnologia alucinante: o modo de falar e a simpatia sem bajulação (ou o fim da indiferença com o próximo).
1) Os jovens falam de modo tão rápido, que é impossível entender. Ainda bem que entre si se comunicam. Eles, hoje, emitem sons que correspondem àquelas simplificações das palavras que escrevem ao computador, economizando milhares de letras (“vc”, em vez de você; “qqr”, em vez de qualquer, etc,), e o fazem, ademais, a exercitar uma insuperável velocidade de digitação. Tudo é veloz, gritado ou cacofônico.
2) Os jovens e adolescentes, com raras exceções, perderam a noção de simpatia como um bem desejável no relacionamento humano.
Não pensem que, como toda pessoa idosa (em qualquer época do mundo), estou a dizer que os jovens estão perdidos. Isso se fala há séculos e o mundo continua mundo, atado ao conflito fundamental, o da tentativa de harmonização dos opostos que latejam em todos nós. E assim seguirá.
         Em criança, eu quase era reprovado em caligrafia. Verdade! Cresci com uma letra horrorosa até hoje, porém, felizmente, legível, e, mais, fácil de ser entendida. Hoje aula de caligrafia acabou. Sei lá. Quero é falar de califasia. Meus queridos professores e professoras: califasia é a caligrafia da fala... Por favor, ensinem a meninada a falar, a articular as sílabas e descobrir a elegância de uma fala em velocidade normal e respiração harmônica: em suma, uma boa dicção. Acho que hoje se ensina muita coisa importante, mas a ler e a falar, neca.
         O espaço acaba, mas se ainda tiverem tempo para ler o final da crônica, por favor, comecem a mostrar-lhes aos poucos que a simpatia com adultos e com gente da sua idade não é uma babaquice, nem diminuição da liberdade de alguém. É um bem a ser preservado, importante e fundamental para as relações humanas.
Muito obrigado.

 

 

AMOR É O ENCONTRO COM A VERDADE DÉCADA UM

Artur da Távola

 

            Escolher o amor é encontrar e descobrir quem é para nós. Isto não quer dizer apontar quem pode ser um bom marido, uma boa esposa, o amante, a namorada. Tem a ver com intuição e eleição. E independência.

Sim, escolher o amor é exercer a independência.  E, em nome desta independência, serão aceitas todas as dependências naturais, aderentes à relação. Parece contraditório, contudo não é. Só quem está inteiro na sua escolha e é total na direção de seu destino aceita as inevitáveis dependências naturais na vida e no amor. É que, na escolha do amor, está o encontro com a verdade individual e profunda de cada ser, uma verdade sem disfarces, que liberta.

 Quem chegou ao amor por independência terá aceito a carga de sofrimentos, sustos, solidão e agressões aí originados. Não considera dependentes certos atos em prol do ser amado que, em outro contexto, seriam feitos com sacrifício, ou pareceriam servidão. E, assim livre, consegue ser feliz nas dependências naturais do amor.

Como o amor, a independência é filha da crise. Escolher caminhos ou pessoas é sempre crise, é conflito. Implica abrir mão, deixar, renunciar, abandonar, para operar a (nova) escolha. E o que se deixa, larga ou abandona, também dói, fere, dá culpa, sobretudo se não nos é indiferente ou descartável.   

Escolher é, pois, viver a crise. Também. O verdadeiro sentido da palavra crise é dividir, separar. Provém do grego krisis. Krisis é o ato de escolher, de separar, de julgar. È escolha, julgamento, eleição, divisão. Ao ter que escolher, somos tomados por uma crise, vale dizer, por uma divisão. O fato de estar divido, fragmentado pelos vários pólos de cada escolha é um ato crítico. Crise é, portanto, uma situação completa de escolha de caminhos ou decisões.

Não há independência sem crise. Logo, não há amor sem crise.  E o amor só se torna feliz, se pode escolher e ser escolhido num misterioso ato completo de liberdade.

 

 
 

O PÃO DELES DE CADA DIA

Artur da Távola

 

    Sempre que é domingo recordo os tempos da infância, quando a mãe pedia que eu fosse comprar o pão cedinho. Era um amanhecer ameno e calmo, pouca gente e carros na rua.

    Antigamente o pão era saboroso. São famosas certas padarias e confeitarias das décadas de 30 e 40. Era um comércio de classe e respeito. A ambição não era tão fundamental para viver. As padarias disputavam, então, as preferências, para as quais contribuíam deliciosos doces. Lembro dos “sonhos”, aquela bola açucarada, deixando escorrer aquela parte amarelada, suave secreção gemada de sua delícia. Anos depois, jovem boêmio, eu sentia o cheiro do pão no ar ao voltar para casa ao amanhecer. Eram as padarias, que acordam cedo na madrugada a preparar o pão na fase do forno. Ameno odor. Quem não sentiu cheiro de pão no ar da madrugada, bom boêmio não foi...

    Tudo isso acabou, conseqüência da produção em série e da desnecessidade de agradar à freguesia, porque hoje mora tanta gente no local que, tratando bem ou nada fazendo, todo mundo compra igual.

    Lembro-me neste momento do tempo da guerra. Eu era criança. Faltava trigo e as padarias, durante algum tempo, fizeram o pão de milho. Posso garantir: no começo se estranhava e depois se descobria o sabor maravilhoso do pão de milho. Quentinho, era delícia! A manteiga a derreter-se, dengosa.

        As padarias caíram muito de qualidade. Salvam-se, isto sim, comércios inteligentes especializados em pão. Já uma padaria estilo tradicional hoje em dia não vive só do pão francês. Ganha – e muito – com vários outros produtos, nos quais desconta fartamente a margem de lucro que não tira do chamado pão francês. Alguns padeiros embromam (e bromam, porque carregam no bromato) e mentem quando entregam um pão infame e dizem fazê-lo por causa do preço da farinha e do prejuízo.

    Antigamente as padarias tinham orgulho de seus produtos. Muitas delas, depois, transformaram-se em ótimas fábricas de bolos, tortas, pães e massas, vendendo os seus produtos para toda a cidade. Hoje, as padarias são mais lanchonetes que fabricantes especializadas de pães e confeitos.

        Ah, tempos de decadência! Saudades de um Rio melhor, no qual comprar pão era trazer o alimento verdadeiro e bíblico: trigo, ovo, fermentos, e não a massa indigesta, feita e insípida que nos impingem e vira goma no bucho da gente.

 

 

 

ESPORTE, AGRESSIVIDADE E PAZ

Artur da Távola


Chega de horror! Vamos falar de desporto, ainda que com os olhos úmidos.
O esporte emerge e fulge em épocas de paz, por ser uma forma de canalizar a agressão, produtivamente, através do mito. Quanto mais paz, mais esporte.
A ânsia de paz deixou de ser mera expressão de filosofias humanistas, para transformar-se em objeto do instinto conservador do homem. Se antes se condenava a guerra por sua estupidez e falta de sentido, hoje o homem sabe que deve condená-la também como imperativo de sua sobrevivência como espécie.
Frente a este quadro, o esporte, vivenciado em comum pelas multidões do mundo, deixa o seu caráter lúdico para ser uma corrente cultural ascendente e poderosa. No fluxo desta corrente, avulta a convicção de que a única saída para a humanidade está no entendimento e na união, no trabalho e na solidariedade entre os povos – daí sua força simbólica – e na canalização positiva dos impulsos agressivos. E para dar vazão à agressividade tornada civilizada, o ser humano descobriu, pratica e cultua o esporte.
Não estavam longe da sabedoria os gregos, quando faziam política através do esporte, ou esgotavam os impulsos agressivos dos povos nas práticas lúdicas. Sabiam que quem sacia seus ânimos em disputa lúdico-energética não precisa fazê-lo através da guerra ou da destruição. Daí a beleza catártica e educativa do desporto.
A agressividade é um dado da psicologia do animal-homem. Suas estruturas arcaicas de comportamento perduram sob formas as mais variadas, ainda que lapidadas pela cultura. A agressividade é, todavia, um dos componentes psíquicos também positivos, se direcionada a atividades criativas. Reprimi-la, negá-la, como se não existisse, é erro, pois acaba saindo sob formas patológicas, assassinas. O caminho é dirigir os impulsos para situações que sirvam para descarregá-la de maneira construtiva e útil. Outro exemplo? A arte! Quando a criança e o adulto transportam para pinturas, formas ou cores os símbolos do problema que os oprimem, estão descarregando a agressividade que se voltaria contra si ou contra outros. Com o esporte se dá o mesmo, talvez até de forma ainda mais intensa. É ele expressão simbólica da agressividade animal elaborada por mecanismos associativos, intelectuais e artísticos e voltada para atividades fraternas. É o exame de tudo isso, chegando a nós através do modo simbólico do jogo, o que encanta e deslumbra a humanidade. 
 

 

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