Artur da Távola

(Crônicas )

Agosto de 2007

 

 

PENSANDO EM VOZ ALTA

Artur da Távola


    O ser que nos causa danos, num certo sentido, é alguém que sofre o mal que nos faz. Escolhe-nos mais por desespero e espera de compreensão, do que por maldade. Mas se nos encontra igualmente carentes e sem condições de percebê-lo em sua necessidade, revolta-se ainda mais, ferindo de forma aguda e intensa, por causa dessa frustração. Tal mecanismo não é percebido pelo agressor. Domina-o e ilude-o. Fornece-lhe argumentos, justificativas e razões aparentemente lógicas para abonar seus sentimentos e impulsos agressivos.
    O que existe em mim que estimula a agressão do meu desafeto? – devemos perguntar-nos sempre. Talvez a resposta seja: uma parte muito parecida com a dele. Uma espécie de espelho no qual, ao olhar, ele me vê para não se ver. E para não se detestar, detesta-me.
    A vida está cheia de amor destratado. Exigente, possessivo, aprisionador. Amor que não libera, que prende, cobra, reclama, pede, suga, ofende, machuca, obriga. Um amor que se utiliza do ódio como mecanismo de sua manutenção ou exigência. È assim, mas é amor, uma forma desastrada de amor. E ódio, também. É raiva.
    Quem for capaz de conhecer o próprio impulso de ódio poderá talvez aplacá-los, ou diminuir o seu efeito destrutivo.
    Quem for capaz de controlar o próprio impulso de ódio talvez aproveite a energia que lateja dentro (como nas forças da natureza), canalizando-a para obras e ações criadoras e positivas.
    Quem for capaz de dirigir o próprio impulso de ódio, talvez despeje a força dele numa atividade artística ou empresarial, desviando-a do objeto amado passível de ser destruído. 
 

 

       

NO DIA DA ASSUNÇÃO DE MARIA

Artur da Távola


            Ontem, 15 de agosto, os católicos comemoraram a data da festa da Assunção de Maria aos céus. Conhecem a palavra dormição? Pois o dogma da Assunção, isto é subida aos céus é composto da Dormição (a religião não fala em morte). Ressurreição e Assunção. Pensava este cronista em escrever sobre o mistérios dos Símbolos das religiões e no arquétipo do inconsciente coletivo que Jung chamou de a Grande Mãe, quando tive de interromper a escrita para acalmar  um neto que dera um cortezinho no dedo e urrava. Ao voltar ao computador, a pensar nas crianças, sei lá porque, lembrei-me de mim mesmo menino e de canções que haviam dormido na memória e desandaram a ser entoadas na imaginação. Estas:
 
 “Com Minha mãe estarei/ Na Santa Glória um dia/ Junto à virgem Maria/ No céu triunfarei.’’
Ou
“Coração santo/ Tu reinarás/ Tu nosso encanto/ Sempre serás.’’
Ou
‘’Oh, Maria concebida / Sem pecado original/ Quero amar-Vos toda a vida/ Com ternura filial.’’
Ou
‘’Queremos Deus, homens ingratos/ Ao Pai supremo, ao Redentor/ Zombam da fé os insensatos/Erguem-se em vão contra o senhor.’’
    Estes cantos gravaram-se na minha memória na época do que há de mais maravilhoso e quiçá verdadeiro: o Deus de nossa infância. Quem é o Deus da infância? Ele talvez esteja muito mais perto de uma concepção da divindade, da transcendência do que todas as teologias e mitos adultos. Ele é vago, total, pacificador. Traz calma, a resposta para tudo, pode ser a simples presença da mãe. Pode ser a proteção do pai. Pode ser a  calma da amamentação após a angústia da morte antes de se saber que esta existe.    Ele é algo que está mais próximo de onde a gente veio antes de nascer. Proximidade do nada (tudo) de onde saímos para viver (encarnar). Dá-nos, pois, uma recordação mais possível desse território misterioso. Cresce-se, envelhece-se e a memória enfraquece. Já não se sabe ou pouco se sabe do antes. Só se pensa, às vezes com terror, na morte e o mergulho no nada.  Paz? Trevas? Sobrevivência da alma? Reencarnação? Quem sabe?
    Vivendo numa civilização que faz da morte o supremo terror, esta domina de maneira escondida  e até solerte todos os nossos atos, meros disfarces e  passatempos em vez de atos criadores do viver. O medo da morte atrapalha a vida. Por isso, repito: eu quero o Deus da Infância!
   Após colocar mertiolato no dedo de meu neto eu  re-encontrei aquele Deus simples da infância. Ele estava ali a soar em meus ouvidos. E eu, que nem mais me lembrava dele, fui tomado de assalto por uma  emoção forte e cega confiança nos desígnios. Deus sem teologia. O Deus que se encontra quando renunciamos á sua procura, como predizia San Juan de La Cruz.. O Deus da confiança com a qual a criança se abriga nos braços protetores da mãe. E como sempre a figura do Princípio Feminino . Maria, a grande mediadora, A grande mãe da paz.   
 

QUAL É A SUA VISÃO DO QUE É CARIDADE?

Artur da Távola


            A caridade pode (e deve) atenuar, porém não resolve a causa dos problemas alheios. Já, a falta de caridade, esta sim, a nada atenuará e muito menos chances haverá de mitigar as dores alheias. Logo, a caridade, mesmo se incompleta, é melhor do que a não-caridade. Estamos nestes dias a assistir um evento na maior rede de televisão brasileira, a Globo, em que a caridade pública é exercitada: o Criança Esperança. Ainda neste fim de semana, tivemos um mega evento para milhões de pessoas. Vale meditar sobre o tema.
O cristianismo elevou a caridade ao centro de sua ação temporal. Mas o conceito é anterior ao cristianismo. Já os estóicos tinham-no como representante da mais alta virtude humana. Idem a religião judaica: para esta,  “os ricos eram apenas administradores dos seus bens, visto que Deus era o único proprietário”.
A caridade é, pois, para o cristianismo, uma virtude (São Tomás de Aquino coloca-a como a terceira virtude teologal). Está muito relacionada com a Justiça, pois ambas são  “modalidades da obrigação moral”. E o conceito é muito bonito e profundo: “ A caridade é uma das mais completas formas de amor a Deus.”
A caridade, que foi o centro da ação temporal de todas as religiões, doutrinas (se não me engano, é uma das colunas do templo Rosa Cruz dos maçons) e organizações públicas ou secretas voltadas para o bem, a caridade, eu dizia, depois de atravessar os tempos como uma atitude revolucionária (alguém duvida de que São Francisco de Assis tenha sido um revolucionário?), veio, no Século  XX principalmente, a ser vista (de modo ambíguo) como um conceito quase reacionário, senão reacionário por inteiro.
Despida de seu sentido de entrega, amor, dedicação e afeição, a caridade passou a ser para alguns ricos a forma de aplacar a consciência através de uma função assistencial piedosa, que opera sobre as conseqüências da miséria, sempre que fiquem mantidas as causas, as razões profundas das diferenças sociais, racionais, econômicas, classistas, etc. Este é o seu sentido reacionário.
Diante desse quadro contraditório, é possível ver nitidamente duas linhas paralelas no tocante à caridade.
Uma, no plano pessoal, a da virtude de quem, por amor a Deus através do próximo, ou apenas por amor ao próximo, dá, efetivamente de si, entregando coração, músculos, energia, vida e recursos para minorar o sofrimento alheio.  Nela estão os que dedicam a sua vida ao próximo  mais do que a si mesmos. Essas pessoas existem, e são muitas, dentro das religiões formais, ou não.
A outra, a de quem estende o conceito de caridade ultrapassando o plano de ajuda pessoal e dedica sua vida à construção de uma ordem social, igualitária, democrática e justa, na qual educação, saúde e trabalho sejam direitos de todos e dever de cada um. Esta também significa fazer caridade no mais alto sentido, porque é trabalhar para que o homem não mais tenha necessidade de viver da caridade pessoal alheia.
Pessoal e/ou social, a idéia de caridade está no centro do desafio ético do ser humano.
Qual é a sua posição? Eu defendo ambas.
 

 

 

 
UMA PRAÇA QUE FOI PRAÇA E HOJE É PASSA...

Artur da Távola


     O padre Ávila, ilustre professor da PUC, grande sociólogo, santo e querido amigo, costuma dizer: ‘’O que caracterizava a sociedade tradicional era que os valores determinavam comportamentos e estes, por sua vez, determinavam o consumo. Na  sociedade industrial de hoje, deu-se  uma inversão: o consumo determina comportamentos, e estes determinam os valores.’’
     É verdade!
    A vida de uma cidade e seus bairros, a cada dia mais, vai sendo determinada pelo consumo. Ele invade até as concepções urbanísticas, a tudo impregnando. O consumo impõe arquiteturas, modos de vida, formas de lazer, concepções de artes e modos de viver.
    O caso da Praça Saenz Pena é sintomático. Na reforma depois do Metrô, a não ser o calçadão de um de seus lados, em todo o resto ela perdeu as características de praça como centro poética e de lazer de um bairro. Um hiato de paz na agitação da cidade.
    A Tijuca tem outra praça que é (ou já foi, mas resiste) ótimo exemplo como local de harmonia través da natureza espaço não ansioso na vida da cidade: a Praça Xavier de Brito. Ali, sim, estamos numa praça e ainda dá para nos recompormos da loucura e agitação da vida de hoje.
    A Praça Saenz Pena bem que poderia voltar a ser o centro humanizado da Tijuca. Os comerciantes do local, se pensarem em associar beleza e marketing, poderiam se cotizar e convocar e ajudar  a Prefeitura a devolver à praça as suas características de lugar agradável para nada fazer. Sim, praça é lugar de ‘’perder tempo’’, isto é, ‘’ganhá-lo’’ para a contemplação, o lazer, a meditação.
    O conceito utilitário das coisas a tudo invade: na sociedade do ter e do comprar. A cidade, as praças, a estética, os valores, a vida, em suma, transformam-se em expressão dos seus ditames. É o império do funcional, do prático, do funcional e vazio de beleza, humanidade, natureza e poesia.
    Até as praças sucumbem a esse pensar que nos pensa, também chamado ideologia. Elas cedem a essa lógica do funcional e do utilitário. De lugar de perder tempo e viver o ócio criativo, as praças transformam-se em logradouros de passagem, vitrine de comércio, locais vazios de ofertas para crianças, pouco vegetal, muito cimento, tudo feito para não quebrar, para não sujar, para não chatear.
   A Praça Saenz Pena me dá pena com trocadilho e tudo e faz pensar, tristonho: ou voltamos a ter uma cidade onde os valores precedem os interesses do consumo, ou nunca mais viveremos de maneira civilizada! Praça é lugar de criança, árvore, grama e de lazer, e não de passagem.   

 

 

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