PENSANDO EM VOZ ALTA
Artur da Távola
O ser que nos causa danos, num certo sentido, é alguém que sofre o
mal que nos faz. Escolhe-nos mais por desespero e espera de compreensão, do
que por maldade. Mas se nos encontra igualmente carentes e sem condições de
percebê-lo em sua necessidade, revolta-se ainda mais, ferindo de forma aguda
e intensa, por causa dessa frustração. Tal mecanismo não é percebido pelo
agressor. Domina-o e ilude-o. Fornece-lhe argumentos, justificativas e
razões aparentemente lógicas para abonar seus sentimentos e impulsos
agressivos.
O que existe em mim que estimula a agressão do meu desafeto? – devemos
perguntar-nos sempre. Talvez a resposta seja: uma parte muito parecida com a
dele. Uma espécie de espelho no qual, ao olhar, ele me vê para não se ver. E
para não se detestar, detesta-me.
A vida está cheia de amor destratado. Exigente, possessivo, aprisionador.
Amor que não libera, que prende, cobra, reclama, pede, suga, ofende,
machuca, obriga. Um amor que se utiliza do ódio como mecanismo de sua
manutenção ou exigência. È assim, mas é amor, uma forma desastrada de amor.
E ódio, também. É raiva.
Quem for capaz de conhecer o próprio impulso de ódio poderá talvez
aplacá-los, ou diminuir o seu efeito destrutivo.
Quem for capaz de controlar o próprio impulso de ódio talvez aproveite a
energia que lateja dentro (como nas forças da natureza), canalizando-a para
obras e ações criadoras e positivas.
Quem for capaz de dirigir o próprio impulso de ódio, talvez despeje a
força dele numa atividade artística ou empresarial, desviando-a do objeto
amado passível de ser destruído.

NO DIA DA ASSUNÇÃO DE
MARIA
Artur da Távola
Ontem, 15 de agosto, os católicos comemoraram a data da festa da
Assunção de Maria aos céus. Conhecem a palavra dormição? Pois o dogma da
Assunção, isto é subida aos céus é composto da Dormição (a religião não
fala em morte). Ressurreição e Assunção. Pensava este cronista em escrever
sobre o mistérios dos Símbolos das religiões e no arquétipo do inconsciente
coletivo que Jung chamou de a Grande Mãe, quando tive de interromper a
escrita para acalmar um neto que dera um cortezinho no dedo e urrava. Ao
voltar ao computador, a pensar nas crianças, sei lá porque, lembrei-me de
mim mesmo menino e de canções que haviam dormido na memória e desandaram a
ser entoadas na imaginação. Estas:
“Com Minha mãe estarei/ Na Santa Glória um dia/ Junto à virgem Maria/ No
céu triunfarei.’’
Ou
“Coração santo/ Tu reinarás/ Tu nosso encanto/ Sempre serás.’’
Ou
‘’Oh, Maria concebida / Sem pecado original/ Quero amar-Vos toda a vida/ Com
ternura filial.’’
Ou
‘’Queremos Deus, homens ingratos/ Ao Pai supremo, ao Redentor/ Zombam da fé
os insensatos/Erguem-se em vão contra o senhor.’’
Estes cantos gravaram-se na minha memória na época do que há de mais
maravilhoso e quiçá verdadeiro: o Deus de nossa infância. Quem é o Deus da
infância? Ele talvez esteja muito mais perto de uma concepção da divindade,
da transcendência do que todas as teologias e mitos adultos. Ele é vago,
total, pacificador. Traz calma, a resposta para tudo, pode ser a simples
presença da mãe. Pode ser a proteção do pai. Pode ser a calma da
amamentação após a angústia da morte antes de se saber que esta existe.
Ele é algo que está mais próximo de onde a gente veio antes de nascer.
Proximidade do nada (tudo) de onde saímos para viver (encarnar). Dá-nos,
pois, uma recordação mais possível desse território misterioso. Cresce-se,
envelhece-se e a memória enfraquece. Já não se sabe ou pouco se sabe do
antes. Só se pensa, às vezes com terror, na morte e o mergulho no nada.
Paz? Trevas? Sobrevivência da alma? Reencarnação? Quem sabe?
Vivendo numa civilização que faz da morte o supremo terror, esta domina
de maneira escondida e até solerte todos os nossos atos, meros disfarces e
passatempos em vez de atos criadores do viver. O medo da morte atrapalha a
vida. Por isso, repito: eu quero o Deus da Infância!
Após colocar mertiolato no dedo de meu neto eu re-encontrei aquele Deus
simples da infância. Ele estava ali a soar em meus ouvidos. E eu, que nem
mais me lembrava dele, fui tomado de assalto por uma emoção forte e cega
confiança nos desígnios. Deus sem teologia. O Deus que se encontra quando
renunciamos á sua procura, como predizia San Juan de La Cruz.. O Deus da
confiança com a qual a criança se abriga nos braços protetores da mãe. E
como sempre a figura do Princípio Feminino . Maria, a grande mediadora, A
grande mãe da paz.

QUAL É A SUA VISÃO DO
QUE É CARIDADE?
Artur da Távola
A caridade pode (e deve) atenuar, porém não resolve a causa dos
problemas alheios. Já, a falta de caridade, esta sim, a nada atenuará e
muito menos chances haverá de mitigar as dores alheias. Logo, a caridade,
mesmo se incompleta, é melhor do que a não-caridade. Estamos nestes dias a
assistir um evento na maior rede de televisão brasileira, a Globo, em que a
caridade pública é exercitada: o Criança Esperança. Ainda neste fim de
semana, tivemos um mega evento para milhões de pessoas. Vale meditar sobre o
tema.
O cristianismo elevou a caridade ao centro de sua ação temporal. Mas o
conceito é anterior ao cristianismo. Já os estóicos tinham-no como
representante da mais alta virtude humana. Idem a religião judaica: para
esta, “os ricos eram apenas administradores dos seus bens, visto que Deus
era o único proprietário”.
A caridade é, pois, para o cristianismo, uma virtude (São Tomás de Aquino
coloca-a como a terceira virtude teologal). Está muito relacionada com a
Justiça, pois ambas são “modalidades da obrigação moral”. E o conceito é
muito bonito e profundo: “ A caridade é uma das mais completas formas de
amor a Deus.”
A caridade, que foi o centro da ação temporal de todas as religiões,
doutrinas (se não me engano, é uma das colunas do templo Rosa Cruz dos
maçons) e organizações públicas ou secretas voltadas para o bem, a caridade,
eu dizia, depois de atravessar os tempos como uma atitude revolucionária
(alguém duvida de que São Francisco de Assis tenha sido um revolucionário?),
veio, no Século XX principalmente, a ser vista (de modo ambíguo) como um
conceito quase reacionário, senão reacionário por inteiro.
Despida de seu sentido de entrega, amor, dedicação e afeição, a caridade
passou a ser para alguns ricos a forma de aplacar a consciência através de
uma função assistencial piedosa, que opera sobre as conseqüências da
miséria, sempre que fiquem mantidas as causas, as razões profundas das
diferenças sociais, racionais, econômicas, classistas, etc. Este é o seu
sentido reacionário.
Diante desse quadro contraditório, é possível ver nitidamente duas linhas
paralelas no tocante à caridade.
Uma, no plano pessoal, a da virtude de quem, por amor a Deus através do
próximo, ou apenas por amor ao próximo, dá, efetivamente de si, entregando
coração, músculos, energia, vida e recursos para minorar o sofrimento
alheio. Nela estão os que dedicam a sua vida ao próximo mais do que a si
mesmos. Essas pessoas existem, e são muitas, dentro das religiões formais,
ou não.
A outra, a de quem estende o conceito de caridade ultrapassando o plano de
ajuda pessoal e dedica sua vida à construção de uma ordem social,
igualitária, democrática e justa, na qual educação, saúde e trabalho sejam
direitos de todos e dever de cada um. Esta também significa fazer caridade
no mais alto sentido, porque é trabalhar para que o homem não mais tenha
necessidade de viver da caridade pessoal alheia.
Pessoal e/ou social, a idéia de caridade está no centro do desafio ético do
ser humano.
Qual é a sua posição? Eu defendo ambas.

UMA PRAÇA QUE FOI PRAÇA E
HOJE É PASSA...
Artur da Távola
O padre Ávila, ilustre professor da PUC, grande sociólogo,
santo e querido amigo, costuma dizer: ‘’O que caracterizava a sociedade
tradicional era que os valores determinavam comportamentos e estes, por
sua vez, determinavam o consumo. Na sociedade industrial de hoje,
deu-se uma inversão: o consumo determina comportamentos, e estes
determinam os valores.’’
É verdade!
A vida de uma cidade e seus bairros, a cada dia mais, vai sendo
determinada pelo consumo. Ele invade até as concepções urbanísticas, a
tudo impregnando. O consumo impõe arquiteturas, modos de vida, formas de
lazer, concepções de artes e modos de viver.
O caso da Praça Saenz Pena é sintomático. Na reforma depois do Metrô,
a não ser o calçadão de um de seus lados, em todo o resto ela perdeu as
características de praça como centro poética e de lazer de um bairro. Um
hiato de paz na agitação da cidade.
A Tijuca tem outra praça que é (ou já foi, mas resiste) ótimo
exemplo como local de harmonia través da natureza espaço não ansioso na
vida da cidade: a Praça Xavier de Brito. Ali, sim, estamos numa praça e
ainda dá para nos recompormos da loucura e agitação da vida de hoje.
A Praça Saenz Pena bem que poderia voltar a ser o centro humanizado
da Tijuca. Os comerciantes do local, se pensarem em associar beleza e
marketing, poderiam se cotizar e convocar e ajudar a Prefeitura a
devolver à praça as suas características de lugar agradável para nada
fazer. Sim, praça é lugar de ‘’perder tempo’’, isto é, ‘’ganhá-lo’’ para
a contemplação, o lazer, a meditação.
O conceito utilitário das coisas a tudo invade: na sociedade do ter
e do comprar. A cidade, as praças, a estética, os valores, a vida, em
suma, transformam-se em expressão dos seus ditames. É o império do
funcional, do prático, do funcional e vazio de beleza, humanidade,
natureza e poesia.
Até as praças sucumbem a esse pensar que nos pensa, também chamado
ideologia. Elas cedem a essa lógica do funcional e do utilitário. De
lugar de perder tempo e viver o ócio criativo, as praças transformam-se
em logradouros de passagem, vitrine de comércio, locais vazios de
ofertas para crianças, pouco vegetal, muito cimento, tudo feito para não
quebrar, para não sujar, para não chatear.
A Praça Saenz Pena me dá pena com trocadilho e tudo e faz pensar,
tristonho: ou voltamos a ter uma cidade onde os valores precedem os
interesses do consumo, ou nunca mais viveremos de maneira civilizada!
Praça é lugar de criança, árvore, grama e de lazer, e não de
passagem.

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