Revista "HAIKAI - com Amor" Ano III - Nº 09
Setembro de 2008

 

Editora: Benedita Azevedo

Arte Final: Iara Melo

 

Caros leitores, 2008, ano do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, prestamos a nossa homenagem a todos os imigrantes e seus descendentes. Agradecemos ao Diretor do Portal CEN, Carlos Leite Ribeiro e sua webmaster, Iara Melo, pela concessão deste espaço para a divulgação de nossos trabalhos, com bela formatação.

Seção  01  -  Os mestres do Haikai

Nesta seção apresentaremos alguns dados sobre H. Masuda  Goga, mestre nascido no Japão que veio para o Brasil e dedicou-se à composição de haicai em japonês e português.

Seção 02 –  Grêmios de Haicai
Na revista Nº 06 de janeiro de 2007 dedicamos ao Grêmio Haicai Ipê e ao 18º Encontro Brasileiro de Haicai. Este número será dedicaremos aos Grêmios Sabiá e “Águas de Março” do Rio de Janeiro.

Seção 03 – Notícias
Nesta seção mostraremos os eventos que acontecem em função do haicai brasileiro.

 

SEÇÃO 01 – Mestre H. Masuda Goga
 

 H. Masuda Goga
 


O haicai e o homem

H. Masuda Goga nasceu no Japão, na província de Kagawa, cidade de Zentsûji em 8 de agosto de 1911 e faleceu em São Paulo, de causas naturais em 28 de maio de 2008.

Embora já escrevesse a seu modo, foi ao conhecer o mestre Nempuku Sato, em 1935, que verdadeiramente mergulhou na prática do haicai. Nempuku foi um imigrante como Goga, encarregado de cultivar a arte do haicai entre os imigrantes japoneses no Brasil por ninguém menos que Kyoshi Takahama, a figura dominante do haicai japonês durante toda a primeira metade do século 20.
Prontamente, Goga mostrou ser um discípulo dedicado e, ao lado de tornar-se um poeta de haicai, colaborou intimamente com seu mestre na divulgação do haicai entre os imigrantes, especialmente depois da Segunda Guerra, quando se tornou jornalista na então florescente imprensa nipo-brasileira.
Apesar de batalhar pelo haicai em japonês, Goga nunca se confinou aos limites da comunidade nipo-brasileira e sempre manteve intensa troca de informações com poetas e intelectuais brasileiros sobre a possibilidade de se escrever haicai em português.
O haicai foi trazido ao Brasil através da leitura de orientalistas europeus (especialmente franceses) e foi a partir disso que poetas brasileiros começaram a escrever haicais nas primeiras décadas do século 20. Naquele tempo, o haicai foi entendido como uma forma fixa breve, de 5-7-5 sílabas. Era um pequeno molde poético a ser preenchido com uma pequena porção de sentimentalismo, graça ou sabedoria (e, em décadas recentes, de iluminação zen).
Contra essa concepção, Goga sempre pregou a necessidade de observar os valores tradicionais do haicai japonês, tais como objetividade e kigo (palavra de estação) aos não-japoneses que vinham a ele em busca de orientação. Mas ele não estava apto a reunir um número significante de seguidores até 1987, com o surgimento do Grêmio Haicai Ipê. Goga, inicialmente um de seus fundadores, foi rapidamente elevado à categoria de mestre do grêmio, impondo naturalmente sua liderança e visão estética ao resto dos membros.
Desde sua fundação e sob a orientação de Goga, o Grêmio Haicai Ipê tem sido uma referência para o estudo e a reflexão sobre o haicai em português no Brasil. Através do trabalho de seus membros, os conceitos do haicai tradicional japonês têm sido adaptados e divulgados pelo país, com atenção especial para a identificação e uso dos kigos nacionais, considerados por Goga como o núcleo do haicai em qualquer língua.
Na verdade, pela concepção de Goga, o haicai é uma poesia de características universais e adapta-se a qualquer cultura do mundo, tornando-se poesia nacional através da aplicação de kigos locais. Neste sentido, ele considera que o haicai escrito em japonês por imigrantes japoneses vivendo no Brasil é poesia brasileira, por causa dos kigos brasileiros que utilizam.
Como seu mestre Nempuku, Goga entendeu a necessidade de aclimatar o haicai original a sua nova terra, percebendo que Brasil e Japão são perfeitamente antípodas e que a direção dos ventos, as estações, os pássaros e as flores eram em tudo diferentes de seu país de origem. Em 1995, Goga publicou "Shizen Fûei", um dicionário de kigos brasileiros, seguido por sua contraparte em português, "Natureza, berço do haicai", em 1996. Este é o primeiro dicionário de kigos em português e é hoje uma referência do haicai brasileiro.
Por muitos anos, Goga também selecionou haicais para publicação, quer em japonês ou em português, em revistas e jornais, permitindo o surgimento de uma cultura de haicai entre os leitores, sempre baseada nos valores tradicionais do haicai e na cuidadosa observação da natureza, com a identificação subseqüente dos kigos brasileiros, que Goga defendeu por toda a sua vida.
Goga também co-organizou uma importante antologia de haicais brasileiros (100 haicaístas brasileiros) e a primeira antologia de haicai latino-americano de que se tem notícia (Antologia do haicai latino-americano).
Em paralelo às atividade no campo do haicai, Goga introduziu com sucesso a prática dos versos encadeados ("renku" ou "renga") no Brasil. Ele o fez inicialmente em japonês, entre poetas imigrantes japoneses, a partir de 1984. Até 1997, este grupo terminou cerca de 60 seqüências de versos encadeados em japonês. Em 1994, Goga introduziu a prática em língua portuguesa junto a um grupo de poetas brasileiros, que hoje continua produzindo independentemente do mestre.
Não podemos esquecer a importante contribuição de Goga à historiografia do haicai brasileiro. Seu livro "O haicai no Brasil", publicado em 1988 como um trabalho pioneiro rastreando a história do haicai em língua portuguesa no Brasil, é hoje um clássico, citado em todas as bibliografias sobre o assunto.
Hoje, graças ao trabalho de membros do Grêmio Haicai Ipê, diretamente inspirado por Goga, conceitos como "kigo" e "aqui-e-agora" são bem conhecidos e estão no centro das discussões sobre o fazer do haicai e dos versos encadeados no Brasil. Desde então, muitos haicaístas talentosos têm sido revelados. A prática do haicai em português finalmente atingiu um bom paradigma, longe de ser apenas uma forma poética exótica e afetada.
Todos esses resultados não teriam sido possíveis sem o trabalho de Goga, que entendeu como romper barreiras, unir culturas e fazer amigos através do haicai. 
Fonte: www.kakinet.com

SEÇÃO 02

GRÊMIO HAICAI SABIÁ COMPLETA 02 ANOS

Sentido horário: De pé: Edson Kenji Iura, Guin  Ga, Teruko e o Sr. Oda.
Sentados: Iraí Verdan, Sérgio, Juliana e Benedita Azevedo

 


RESUMO HISTÓRICO
 
Em 2005, quase 90% das oficinas de redação da professora Benedita Azevedo nas escolas, foi de haicai, algumas visando ao Concurso Brasileiro de Haicai Infanto-Juvenil, fato que despertou grande interesse junto aos alunos e professores.
 
Em razão disso, juntou-se a um grupo de professores e escritores e fundou o Grêmio Haicai Sabiá para oferecer oficinas nas escolas e reuniões mensais em sua sede.
 
Inaugurado oficialmente em 17 e 18 de junho de 2006, com a presença dos haicaístas do Grêmio Haicai Ipê, de São Paulo e de haicaístas de Magé e Rio de Janeiro, o Grêmio tem como objetivo levar o haicai às crianças e adolescentes, nas escolas, incentivando, ensinando e orientando. Aos que desejam se aprofundar no estudo e composição de haicais, o Grêmio oferece suas reuniões mensais.
 
FUNDADORES: O convite de Benedita Silva de Azevedo aos professores: Demétrio Sena, Iraí Verdan, Maria Madalena Ferreira e Regina Célia de Andrade resultou na formação do grupo.
 
Endereço: GRÊMIO HAICAI SABIÁ

Rua Carlos Franco, 179, Praia do Anil
25.930- 000 Guia de Pacobaíba, Magé, RJ - Brasil

RESPONSÁVEL: Benedita Silva de Azevedo (coordenadora)
 
Contatos: bsazevedo@uol.com.br
www.beneditaazevedo.com Meu diário
 
 
HAICAIS DO GRÊMIO HAICAI SABIÁ

Manhã de domingo –
Junto ao canto do sabiá
lembranças da infância.
 
Benedita Azevedo
 
Dos cachos em flor
exala perfume intenso!
Frésia amarela.
Iraí Verdan
 
Tarde em calmaria —
Apenas um sabiá
quebrando o silêncio.
Maria Madalena Ferreira
 
Leque natural
da árvore do viajante
enfeita a paisagem.
Regina Célia de Andrade
 
Estrelas de seda
rebolam no azul do céu.
Pipas multicores.
Demétrio Sena 
 


 Breve histórico do Grêmio
 
Após participar de Oficinas de Haicai oferecidas pelo Grêmio Haicai Sabiá, de Magé, em parceria com o Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, um grupo de escritores cariocas sugeriu a mudança do Sabiá para a cidade do Rio de Janeiro, pois desejavam aprofundar o estudo sobre o assunto, mas achavam fora de mão ir até Magé para as reuniões mensais.
 
A coordenadora do Sabiá, Benedita Azevedo, em conversa com o coordenador do Grêmio Haicai Ipê, de São Paulo, Edson Kenji Iura,  e com a professora Teruko Oda,  colocou a possibilidade de fundar um  grêmio na cidade do Rio de Janeiro e recebeu apoio incondicional.
 
Tomando conhecimento do projeto, haicaístas cariocas apoiaram a iniciativa e aderiram ao grupo, ficando, assim, decidida a sua fundação, com o objetivo de praticar e discutir o haicai como forma poética; divulgar os haicais dos membros do Grêmio; promover encontros e discussões sobre o haicai, no Rio de Janeiro, e intercambiar idéias e experiências com os demais grêmios de haicai.
 
Assim, o “Águas de Março” foi inaugurado em 16 de fevereiro de 2008, em cerimônia realizada nas dependências da Fundação Roberto Marinho, ocasião em que Edson Kenji Iura brindou a todos com uma palestra sobre o haicai de Bashô.
 
Tem, entre seus fundadores, Benedita Silva de Azevedo, Celso Pestana, Djalda Winter Santos, Douglas Eden Brotto, Marilza Albuquerque de Castro, Nelson Savioli e Vanise Buarque.
 
As reuniões mensais acontecem às terceiras quartas–feiras de cada mês, das 16 às 18horas,  à rua Evaristo da Veiga, 83 / 401, Centro.

Endereço: Rua Evaristo da Veiga, 83 / 401, Lapa, Rio de Janeiro - RJ
E-mail: benedita_azevedo@yahoo.com.br
CEP 20031 - 040

Responsável: Benedita Silva de Azevedo (coordenadora)


 
HAICAIS  do Grêmio Haicai “Águas de Março”
 

Chegada do outono —
Na canoa abandonada
vulto solitário.
Benedita Azevedo
 
Início de março – 
As jacas apodrecidas
ainda no pé.
Celso Pestana
 
Formigas em fila
carregam folhinhas verdes -
Dia do trabalho
Djalda Winter
 
Vento de inverno -
A penugem de um pardal
pousa no jardim.
Douglas Eden Brotto
 
Sol à beira mar
doura o corpo da morena
de biquini azul.
Iraí Verdan
 
Banho de mar, não!
Tiritando os meninos
no banho de sol.
Lourdes Fontes
 
Madrugada longa...
Os pés cansados repousam
Na meia de lã.
Maria Nascimento
 
Nos bancos da praça
banho de sol coletivo...
Lazer dos velhinhos
Marilza de Castro
 
Lá fora, lua fria.
Leve balanço do trem
lembra minha mãe.
(Nelson Savioli)
 
Bolo de fubá
No centro de mesa farta...
Festa no arraia.
Vanise Buarque
 


Discurso de Edson Kenji Iura, coordenador do Grêmio Haicai Ipê-SP, por ocasião da fundação de Grêmio Haicai Águas de Março.
 
Amigos
 
Já estive em muitos lugares do Brasil e posso relatar uma experiência interessante: não há lugar onde eu me sinta mais estrangeiro do que no Rio. Em nenhuma cidade do Brasil os vendedores ambulantes assediam-me tanto como se eu fosse um turista de um país distante. E em nenhuma outra cidade encontro tantos nativos amáveis tentando conquistar minha amizade dirigindo-me simpáticas palavras em língua inglesa.
 
Sou brasileiro nascido em São Paulo, uma cidade que se transformou numa das maiores metrópoles do mundo, graças ao sangue e ao suor de milhões de pessoas que não nasceram lá, mas para lá se mudaram, vindas de todos os lugares da Terra. Essa coabitação razoavelmente pacífica de sotaques e culturas teve suas conseqüências boas, e uma delas é justamente a minha presença aqui hoje. Mas tenho medo que o multiculturalismo e a globalização, turbinados pelo poder das relações econômicas, acabem colocando à sombra uma coisa muito preciosa, que é a alma brasileira.
 
Que alma brasileira é essa? Não sei definir intelectualmente, mas é aquilo que nos enche de emoção ao vermos pela TV as imagens arquetípicas do Cristo e do Pão de Açúcar, lermos em Machado de Assis as mais profundas observações sobre os tipos humanos e o cotidiano na antiga capital do Império, ou ouvirmos um samba de Noel Rosa exaltando a vida boêmia e a malandragem cariocas. Entendi que a causa de eu me sentir um estrangeiro em meu próprio país é o choque do contato, tão raro, com essa alma brasileira, que só tenho aqui no Rio. Para ir direto ao assunto, a alma brasileira tem endereço. Que me perdoem gaúchos, amazonenses e baianos, mas a alma brasileira tem sotaque carioca e mora num ponto qualquer entre os morros e as praias do Rio de Janeiro. O resto é regionalismo ou exotismo.
 
Enfim, estar hoje na cidade-maravilhosa, no coração do Brasil, cercado de amigos, me enche de confiança para augurar que o haicai brasileiro, não apenas escrito em português, mas o verdadeiro haicai de alma brasileira, só pode nascer aqui, entre os confrades do Grêmio Haicai Águas de Março. Em nome do seu grêmio-irmão paulista, aceitem os nossos votos de vida longa e produtiva.
 
Edson Kenji Iura
Rio, 16 de fevereiro de 2008

 


Em sentido horário: Marilza de Castro, Vanise Buarque, Benedita Azevedo, Márcia Soares, Carol Ribeiro, Teruko Oda, Guin Ga, Nelson Savioli e Celso Pestana, de camisa vermelha.
 

 

Seção 03 – Notícias

 

1 - 20º ENCONTRO BRASILEIRO DE HAICAI
A 08 de novembro de 2008 acontecerá o 20º Encontro Brasileiro de Haicai,  promovido pelo Grêmio Haicai Ipê – SP – Brasil . Este ano será no Colégio Santo Agostinho, Praça Santo Agostinho, 79 São Paulo, Brasil.
 
2 - 7º Concurso Brasileiro de
Haicai Infanto-Juvenil (2008)
 
O Grêmio Haicai Ipê, o mais tradicional grupo de estudos e prática de haicai no Brasil, promoveu durante o primeiro semestre de 2008 o 7º Concurso Brasileiro de Haicai Infanto-Juvenil com o intuito de incentivar e difundir o haicai, a menor forma poética do mundo, largamente difundida em todos os países e veículo ideal para introduzir a poesia entre as crianças. O tema deste ano foi "Flores do meu caminho”.
 
 A Comissão Julgadora foi composta por Edson Kenji Iura, Hazel de São Francisco, Luci Tiho Ikari e Teruko Oda, haicaístas do Grêmio Haicai Ipê.
 
A entrega dos prêmios será realizada durante o 20º Encontro Brasileiro de Haicai, previsto para 08 de novembro de 2008, na cidade de São Paulo.
 
Foram recebidos 2.375 trabalhos (um por criança) de 69 escolas (107 professores), englobando 36 municípios de quatro estados. Em virtude da participação de grande número de alunos da faixa etária inferior a dez anos, e do excelente nível dos trabalhos apresentados, a comissão organizadora dividiu o concurso em duas categorias:
 
Infantil: Até 10 anos de idade
Juvenil: 11 a 14 anos de idade
 
 O Grêmio Haicai Sabiá colaborou realizando oficinas em 06 escolas e selecionou 163 trabalhos que foram enviados ao concurso. Uma de nossas alunas foi classificada em 10º lugar. No próximo número transcreveremos a relação de vencedores.
 
Praia do Anil, Magé, RJ – Brasil, 03.09.2008
Benedita Silva de Azevedo

 

 

FORMATAÇÃO E ARTE FINAL: IARA MELO