Adelina Velho da Palma 

 
 

 

A EXTRAVAGÂNCIA


Gosto de ti - mas quero-te à distância
Fora do Tempo e Espaço que me assiste
Na dimensão em que o amor resiste
E tudo o resto não tem importância...

Gosto de ti - mas noutra circunstância
Alheia a toda a memória triste
Onde as feridas dos golpes que desferiste
Cicatrizaram em primeira instância...

Gosto de ti - num limbo sem substância
Como ideia com lastro que persiste
De um sonho acalentado na infância...

Amo-te - mas meu amor destruíste
Por isso agora eu vivo a extravagância
De um sentimento amar que não existe!...

Adelina Velho da Palma

 

DESENCONTRO


Foi preciso viver esta saudade
esta ausência que ora me acompanha
p’ra perceber que eras tu a entranha
donde provinha a minha identidade!...

Foi mister encarar fatalidade
atravessar o deserto em campanha
submergir-me numa sede tamanha
p’ra sentir a tua necessidade!...

Foi preciso conquanto acompanhada
encontrar-me de vazio rodeada
p’ra ver ao longe uma luz a brilhar...

Foi preciso perder-te para ter-te
foi preciso sofrer para entender-te
foi preciso morrer para te amar!...

Adelina Velho da Palma

 

TIAGO


Antes de mais nada, achava-te belo. Admirava a tua figura de estátua de deus grego, que um fortuito raio cósmico houvesse dotado do sopro vital. Quando os teus olhos de pupilas azuladas, de caleidoscópio, caíam sobre os meus, ficava sem fôlego. Nunca vira nada tão bonito. Claro que eu era tola e insegura. Demasiado magra, desengonçada, com uma dessas caras banais para as quais não se olha duas vezes, nunca, nem nos meus sonhos mais loucos, imaginaria que um dia pudesses vir a interessar-te por mim. Contudo, sabia-me inteligente e merecedora de afeto. Mas, serviriam tais predicados para atrair o parceiro idealizado?
Não obstante, assim veio a acontecer. Durante aquele jantar (lembras-te?) o acaso colocou-te ao meu lado. Começamos a conversar e o fio condutor foi fácil, fluido. Mas houve algo mais. Como a manifestação de uma predestinada afinidade, qualquer coisa indefinível nos tocara, bem fundo.
Chamavas-te Tiago. Tiago. O nome assentava-te como uma luva. Como Iago, Iacobus ou Jacob, aquele que vence, que dá segurança e em quem se pode confiar.
O que se seguiu não foi uma paixão súbita, repentina, mas um amor lenta e solidamente construído. Ambos gostávamos daquilo que íamos apreendendo sobre o outro. E ambos sabíamos, de relações anteriores, que a paixão tem uma estranha forma de se evaporar, deixando um sabor amargo na boca dos seus protagonistas. Por isso, nenhum de nós se iria envolver com alguém que não soubesse digno de tal.
Mas, no que me dizia respeito, não havia esse perigo. À medida que te ia conhecendo, descobria o mais digno dos seres humanos. A ponto de, por vezes, chegar a considerar-te bom demais para mim. Eras de uma isenção sem limites, de uma integridade total, incapaz de pactuar com qualquer coisa que fosse contra os teus princípios. Qualidades que eu não tinha a certeza de possuir. Por outro lado, não te furtavas ao combate ideológico. Inteligente, às vezes brilhante, defendias os teus pontos de vista até à exaustão, sem contudo perder a sensatez. De opiniões muito próprias, encarnavas o lutador nato, feito da mesma massa dos grandes homens, incorruptíveis, que deixam rasto na História.
Evidentemente, tinhas defeitos. Eras rígido e intransigente, pouco dado a desculpar as fraquezas alheias. A não ser às pessoas do teu sangue, o que era compreensível. O teu sentido de humor, apuradíssimo, era, por vezes, demasiado cáustico. Aceitavas uma derrota com parcimónia mas, se vitorioso, fosse qual fosse o objeto da contenda, não te coibias de humilhar o adversário. Sabias perder, mas não sabias ganhar. Por outro lado, eras vaidoso. Não propriamente da tua figura de Adónis, mas da tua maneira de estar na vida e do teu intelecto privilegiado. E não disfarçavas o desprezo a que votavas aqueles que consideravas estúpidos ou pervertidos.
Não eras interesseiro. Pelo contrário. Nunca conheci ninguém tão desprendido em relação ao dinheiro. O que eu, uma vez mais, não era. Nenhum de nós era rico mas, enquanto tu tinhas rasgos de generosidade, eu aforrava todos os cêntimos. Se um amigo estivesse aflito, não hesitarias em despir a própria camisa para o ajudar. No entanto, não eras gastador. Para viver, pouco te bastava.
Tinhas uma particularidade curiosa. Detestavas surpresas. Qualquer notícia inesperada, mesmo que boa, provocava-te uma instantânea reação negativa. Hipersensível, precisavas de tempo para amortecer cada dado novo. Ninguém te convidasse para um jantar de última hora, pois escusar-te-ias. Tudo na tua vida tinha de ser planeado com antecedência. Porém, ao invés de enfraquecer a tua imagem, estas tuas facetas eram de molde a tornarem-te ainda mais sólido, mais digno de confiança, aos meus olhos.
O nosso casamento processou-se em total conformidade com a tua maneira de ser, idealizado, pensado e programado em pormenor com vários meses de distância.
Escusado será dizer que me fizeste felicíssima. Aliás, melhor dizendo, (penso poder falar por ti nesta matéria). fizemo-nos felicíssimos um ao outro. Eu amava-te como não pensava ser possível amar alguém. Até adorava o chão que tu pisavas. E acreditava estar casada com o melhor homem do mundo.
Tiago. Sentia-me orgulhosa quando passeava contigo ao lado e percebia os olhares que as outras mulheres te lançavam. As minhas amigas invejavam-me. E elas não podiam saber que, na intimidade, eras carinhoso e apaixonado como nenhum outro. Os teus olhos azuis, de que eu tanto gostava, eram testemunhas do imenso amor que batia no teu peito. E era eu o objeto desse amor.
Tiago. Tão forte e perene como uma rochedo. Quaisquer que fossem as dificuldades e vicissitudes que atravessássemos, seriam sempre resolúveis, pois tu eras meu marido. Habituada desde sempre a contar só comigo, tinha agora um companheiro cuja inteligência e bom senso superariam todo e qualquer obstáculo que se nos deparasse no caminho.
Claro que o casamento é uma dura prova para o amor. Até aí, a relação amorosa alimenta-se exclusivamente de aspetos gratificantes. Tudo é esperança e enlevo. Mas a vida é dura. Lentamente, o cansaço vai-se insinuando no espírito dos cônjuges. Começam a conhecer-se demasiado bem. Cada um dá e espera receber algo em troca. O egoísmo instala-se. A magia desaparece. E o que resta é o cesto da roupa suja, as contas por pagar e o domingo desportivo.
Mas eu acreditava que nós os dois (agora vejo a presunção de que estava imbuída) seríamos diferentes. A inteligência tinha de servir para alguma coisa. E as histórias alheias, díspares nos pormenores mas coincidentes no âmago, seriam o paradigma a evitar. Com raciocínio e empenho, qualquer crise seria debelada aos primeiros sintomas.
Todavia, o destino trocar-me-ia as voltas. Nada viria a ser consonante com o que eu previra ou temera. Passar-se-ia tudo como por mero acaso. Agora percebo como foi estranho que um encadeamento de acontecimentos fortuitos tivesse tido consequências tão drásticas na nossa vida. Bastaria ter falhado um dos elos da cadeia, para as coisas terem terminado doutra maneira? Ou o fado encarregar-se-ia de nos impelir por um atalho alternativo, conducente ao mesmo resultado final?
Navegava eu num dia a dia sem nuvens no horizonte, à exceção do vago receio (quando se ama, quem não o tem?) de que viesses a deixar de me amar. Apesar de saber que nunca me serias infiel (isso era contra os teus princípios) não podia escamotear o facto daquela possibilidade existir. Afinal, todo o sentimento, mesmo o assente em afinidade e reconhecimento, está sujeito à condição de inconstância da própria vida. Mas não perdia um minuto de sono a pensar nisso. No presente, sabia-te tanto meu como eu tua.
Com o primeiro dinheiro que conseguimos juntar, propus-te irmos a Paris. Eu nunca havia viajado. E tinha o velho sonho de subir ao cimo da Torre Eiffel, observar os pintores na Place du Tetre, ajoelhar-me e rezar na catedral de Notre Dame. Apesar de já conheceres a cidade, fizeste-me a vontade. E lá embarcámos os dois num charter em classe turística, aproveitando uma tarifa especial de fim de semana prolongado.
Foram dias maravilhosos. De sapatos de ténis e mochilas às costas, calcorreámos os grandes boulevards, apreciámos os monumentos, visitámos os museus. As nossas pausas resumiam-se ao estritamente necessário para repor as calorias. O tempo era pouco para o muito que havia para ver.
Andávamos quilómetros. Só parávamos à noite quando nos recolhíamos ao nosso quarto num hotel de duas estrelas no Quartier Latin. Na véspera do nosso regresso, aguentei duas horas na fila para entrar na Catedral e poder recolher-me ao pé da estátua da donzela de Orléans. Acendi uma vela e fiquei por uns minutos a observar a chama a tremeluzir. O meu coração estava cheio de gratidão para com Deus, o Deus que me proporcionara o amor de um homem bom e digno de confiança. E os meus olhos encheram-se de lágrimas de comoção.
Saímos para a rua e dirigimo-nos para o nosso hotel, metendo por umas ruas estreitas. Eu ia nas nuvens. Tu seguias à minha frente. Poucos transeuntes se cruzavam connosco e não havia trânsito automóvel. De repente, senti uma estranha impressão nas minhas costas. Um rapaz que caminhava atrás de mim atravessou a rua e parou no passeio do outro lado. Atacada por um súbito pressentimento, joguei a mão à minha mochila. O fecho da bolsa exterior estava aberto e a minha carteira havia desaparecido. Acabara de ser roubada! Gritei imediatamente:
- Tiago! – tu paraste e voltaste-te para mim. Eu repeti:
- Tiago, fui roubada! – continuaste sem reagir. Eu insisti:
- Fui roubada! E foi agora mesmo! Levaram-me a carteira!...
Permaneceste parado e mudo. Olhei em volta num relance e vi o rapaz do outro lado do passeio com um mapa na mão. Parecia observá-lo atentamente. E percebi que só podia ter sido ele o autor do furto. Apontei-o sem pejo e gritei novamente:
- Foi aquele ali! Não pode ter sido mais ninguém!...
Continuaste sem reação. Os teus olhos encontraram os meus e afastaram-se. O meu coração disparou. Perder a carteira significava ficar sem identificação, sem documentos... Não! Eu não podia conformar-me com uma situação dessas sem dar luta! Num impulso, atravessei a rua e arranquei o mapa das mãos do rapaz. A minha carteira caiu ao chão. Estivera oculta nas dobras do mapa. Olhei o ladrão furiosa e, sem saber se ele perceberia o meu francês medíocre, invetivei-o:
- Bandit! Voleur!...
O rapaz desatou a correr. As minhas pernas tremiam. Não tentei persegui-lo. Tu também não. Entretanto, alguns passantes haviam-se apercebido do essencial da cena, e solidarizavam-se comigo:
- Vous avez eu de la chance! Il faut faire très attention!
Finalmente pareceste acordar. Aproximaste-te de mim e passaste o braço pelos meus ombros, num tardio gesto protetor:
- Não podes levar a carteira na mochila. Vês? Podes ser roubada...
Não te respondi. O episódio, que no total não durara mais do que quinze segundos, havia-me deixado arrasada.
No dia seguinte, regressámos. E, durante o voo, recordei o que se havia passado na véspera. Não podia deixar de me sentir ufana da minha atuação:
- Não foi mesmo ótimo eu ontem ter conseguido reaver a carteira? Já imaginaste o que seria ficar sem ela no estrangeiro?...
- Chega! Não fales mais sobre isso! Vamos esquecer esse assunto. Sobretudo, não o contes a ninguém.
Estranhei a tua reação. E, pela primeira vez, raciocinei sobre a maneira como te havias comportado (até aí, a alegria por ter impedido o roubo, monopolizara os meus pensamentos sobre o assunto). E fiquei enregelada. Tu tinhas tido medo. Quando te apontara o presumível ladrão fingiras-te desentendido mas, na realidade, havias-te acobardado. Por detrás da tua aparente estupefação, houvera simplesmente fraqueza. Por isso, tinhas afastado os teus olhos dos meus. Sabias que eu lia neles como num livro aberto. E tinhas perfeita consciência do papel deplorável que havias desempenhado.
Foi como se um raio me atingisse. Olhei para as tuas pupilas azuladas e percebi que a segurança que me inspiravam havia desaparecido. Eras um estranho para mim. E não se pode confiar num estranho.
É lícito que te espantes com o acaso que jogou em tudo isto. Eu também me espanto. Parece até que o destino estava contra nós. Foi preciso irmos a Paris, enveredarmos por uma viela pouco movimentada e cruzarmo-nos com um ladrão inexperiente (caso contrário eu não o teria identificado), para pôr verdadeiramente à prova o nosso amor. Se não tivéssemos ido a Paris, se não tivéssemos enveredado por uma viela pouco movimentada... Todavia, tinha acontecido. E agora, eu não podia esquecer uma só décima de segundo do episódio fatídico.
Quando aterrámos eu já tinha decidido deixar-te. Não havia a mais leve possibilidade de continuar a viver contigo. Agora, não podia tolerar que me tocasses.
Sei que te magoei para além do suportável e peço-te que me perdoes. Mas não podia fazer outra coisa. O nosso casamento era baseado no respeito e no reconhecimento mútuo, lembras-te?
Mas, Tiago, consola-te, como eu me consolo. O amor é mortal. E pode morrer de duas maneiras. De morte morrida e de morte matada, como dizem os brasileiros. Ao nosso foi poupado o suplício de uma agonia lenta, feita de um dia a dia de questiúnculas e desilusões. Foi preferível assim, um final glorioso, fulminado por um olhar teu, numa obscura viela do Quartier Latin.

2012

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