ALEXANDRA LINS DA SILVEIRA BECCON DE OLIVEIRA

 


LÍNGUA  LUSA
 
Amélia Luz – Pirapetinga/MG

Minha língua lusa é um laço,
É um traço, é o meu espaço!
Esdrúxula, confusa, pessoal,
Abusa das palavras
Num mesmo ritual
Lambendo a poesia
No sabor sublime do ofício,
Dia após dia!...
Minha sina, minha musa,
Herança do meu Portugal,
Ortográfica ou gramatical...
Erudita, culta, acadêmica,
Polêmica ou irreverente,
Luz que brota livre na nossa boca
Sedenta de versos...
Popular, simples, corriqueira,
Língua de muitos “falares”,
Língua dos sete mares,
Atravessando os oceanos
Na força dos ventos,
Seguindo o caminho mágico
Das ousadas caravelas portuguesas...
Identidade cultural do baú de Camões,
Com heranças ibéricas próprias e definidas,
Trânsito poético da linguagem que liberta.
Temos nossas raízes próprias
Ao partilhar a palavra viva
Saída do ovário da "última flor do Lácio",
Brotada em terras brasileiras...
Resmungo o âmago da minha latinidade,
Afinal, quem sou, quem somos?
Eu sou, nós somos: cidadãos Portugueses,
Brasileiros, Angolanos, Moçambicanos
Caboverdianos, Guineeenses, Goeses,
Macaenses,  Sãotomenses ou Timorenses...
NÓS  SOMOS SOBRETUDO
A  LÍNGUA  PORTUGUESA!!!

 

Crônica: Ofício de Escrever - Amélia Luz 

 

          O velho professor ficou pensativo! O acordo agora era o mandachuva, de nada adiantaria conservar antigas idéias. Fez uma ultrassonografia no Documento Oficial, comprovou os dados para se situar e caiu de paraquedas na ortografia. Pensou, já não lêem, nem crêem. Hoje, modernamente, todos leem e creem na Língua Portuguesa, no voo objetivo rumo ao futuro, obedecendo fielmente o tique-taque da vida.
          Da circum-navegação aos nossos dias muita coisa mudou no “vernaculus” de Camões, com K,W e Y incorporadas ao alfabeto. Vale lembrar que tudo se modifica e a língua é viva transformando-se ao passar do tempo.
          Portugal, de tantos heróis, no “Navegar é preciso” deixou-nos esse país quase continente onde nada poderá deixar de ser respeitado na assembléia geral das letras.
          Para o Brasil para estudar as novas regras. Não adianta para-choques!!! Temos que estar na vanguarda e apaziguar todo mau entendimento. Povoo meu texto de novidades ortográficas. A língua tem nova forma que forma o seu uso atualizado, de Coimbra ao Chuí. Além-fronteiras, no dizer bem humorado dos lusitanos, bem-vinda seja a reforma. Ziguezagueando estamos todos nós, no aprendizado diário das normas estabelecidas para as famílias das palavras e todos os seus agregados.
          Regras são para bem escrever, não adianta discutir, dentro de tão amplo domínio geográfico em que as naus descobridoras chegaram. Precisávamos de um guia orientador que nos permitisse, mesmo com alguns desacertos iniciais, chegar às vantagens de um só Português para todos os países lusófonos.
          Apostos, nós estamos, cães de guarda da nossa língua, escritores que somos, nas inconstâncias dessa travessia.
          A sala de jantar, as cortinas cor de vinho, um fim de semana prolongado no salve-se quem puder dos erros ortográficos. Assim, estaremos no mesmo disse me disse, construindo conscientemente, com dedicação e esforço o novo escrever, sem ser um maria vai com as outras.
          Somos coautores da reforma preestabelecida e coerdeiros da língua lusa revirando o baú de Camões, de Eça ou de Pessoa, verdadeiro arco-íris verbal da humanidade, trazido pelos bem-ditosos navegadores portugueses.
          Não importa se sou António ou Antônio, se moro na Amazónia ou na Amazônia, ouvindo o canto do uirapuru da minha terra. Não quero escrever blasfémia ou blasfêmia lingüística, aqui no trópico. É que, por estranho que nos pareça somos irmãos de sangue e somos gémeos ou gêmeos em todas as nossas raízes culturais.
          Assinamos então, académicos ou não acadêmicos, rendendo-nos ao encanto das palavras. Não as sequestramos, nem as prendemos em masmorras... Espalhamo-nas aos quatro ventos, na força das caravelas descobridoras.
 

 
 
 
 
Procura
 
Amélia Luz

 

Procuro o espelho
a imagem-miragem,
o vestido vermelho,
o perfume  de malva
e o carmim na pele alva...
Procuro a anágua de renda,
o velho livro de lenda,
o homem de branco,
 o rosto, o jogo
e o olhar de fogo!
Procuro a pintura
a enfeitar envelhecidas paredes...
Procuro a canastra de sedas
a preciosa cesta de costuras
o crivo, o matiz, o bordado,
o tempo guardado em retalhos de vida...
E o vestido vermelho,
dependurado, mudo, agora desbotado,
roto, puído, rasgado,
surrado pelos maus tratos da lida,
continua contando histórias perdidas...
Na minha solidão,
procuro o trilho, o caminho,
e a volta ao encantado ninho...
Vejo tuas mãos sensíveis
ansiosas buscando as minhas,
lembro então teus suaves carinhos...
E a cadeira de balanço, vazia,
continua noite adentro,
embalando os nossos sonhos...
 

2011

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