António José Barradas Barroso

 
 

 Momentos


Desde madrugada, que o dia tem sido uma contínua e monocórdica sucessão de chuva branda, entrecortada, de quando em vez, por algumas bátegas um pouco mais fortes, que ricocheteiam nas vidraças. Quando essa mudança ocorre, provoca logo, nos meus netos, uma correria apressada em direcção à janela do meu escritório, onde me encontro, para melhor apreciarem estes normais fenómenos da natureza, enquanto resguardados e ao abrigo dos seus incómodos, e que vêm quebrar a rotina dos seus divertimentos, ou esquecer a luta pela posse dum determinado brinquedo.
Para trás, jazem, espalhados e dispersos pelo chão, os variados e inúmeros despojos das muitas e vitoriosas batalhas travadas nas horas antecedentes, as espadas de papelão, os capacetes confeccionados com folhas de jornais, os papeis rasgados com muitos desenhos incompletos, as coloridas peças de plástico das construções inacabadas, ou os lápis com que tentaram reproduzir cenas dos seus imaginários.
A irrequieta despreocupação da juventude contrasta com a rotina dos arrumos e a meticulosidade que o tempo e a idade me foram trazendo.
A ribeira, nas traseiras da minha casa, que já corria caudalosa durante a noite, foi engrossando, ainda mais, ao longo do dia. Em vez do lânguido ronronar, suave e prazenteiro, do gato mimado no colo do dono, quando o caudal corre suave e ligeiro, ouve-se, agora, na brusca corrente que se foi formando, e que teve origem na serra, de onde provém, o prolongado e rouco rosnar do cão acicatado.
Alegres, alvoroçados e despreocupados, sem se darem conta das consequências, abrem, de repente, a janela de par em par, para melhor escutarem os ruídos que os despertaram dos seus entretenimentos, e eu, sentindo uma brisa bem fresca penetrar na sala, em vez de invocar a minha incontestada autoridade de adulto friorento e interrompido nos seus afazeres, dirijo-me em sua direcção, e dou por mim a sentir também os pingos de chuva molharem-me a cara sulcada de rugas.
É tão bom, por vezes, podermo-nos sentir, novamente, crianças!...
Apenas, e tão só, crianças!...
Salpicados, mas unidos num abraço que nos possibilita a estadia, simultânea, na janela escancarada, somos quatro ouvintes contemplativos e atentos a todos os barulhos exteriores e, enquanto eles, felizes, deliciados e risonhos, estendem as pequenas mãos para sentirem os pingos desfazerem-se nas palmas e escorrerem por entre os dedos, como ilusões dum sonho, eu olho, em silêncio, ao longo do quintal sobranceiro, a folha da oliveira, que não dobra, antes acolhe a chuva com a sofreguidão do faminto.
A vida continua com o somatório de todos os momentos e, por entre os ramos, os pardais e os melros saltitam à espera duma acalmia, mesmo que passageira.
Aponto-lhos e eles, vislumbrando-os, logo encetam uma série ininterrupta de questões a que não consigo responder, totalmente, tal a intensidade com que são formuladas. E, se algumas respostas satisfazem o seu apetite original, outras aguçam-lhes a imaginação e transformam-se em nova catadupa de interrogações a que é difícil dar cabal satisfação, tal a cadência a que são produzidas. Então, por vezes, o silêncio entrecortado por um ou outro monossílabo, é a solução mais prudente, porque as respostas já não se exigem, na busca incessante de novas perguntas.
Por fim o silêncio chega e permanece na muda contemplação deste desabafo da natureza, e a chuva teima em salpicar-nos.
Mais tarde, passada a euforia do instante, na solidão dos meus momentos íntimos, dou por mim a pensar que a verdadeira felicidade, de que tanto se fala e apregoa e que apenas uns poucos conseguem alcançar, parece consistir, tão somente, neste quadro singelo dum avô abraçado a três netos, todos debruçados numa janela escancarada, indiferentes à chuva que lhes molha os rostos.



Uma história simples


É uma história simples, uma história que começa com um poema à vida e termina num hino à natureza. É uma pequena história de amor, mas o amor quando, na verdade, existe, brota com espontaneidade e manifesta-se em todos os sentidos, deixando-nos, depois, a recordação saudosa de momentos passados.



Mas vamos à história.


Há cerca de seis ou sete anos, por altura da primavera, trouxeram a minha mulher um pequeno ninho encontrado abandonado pela mãe, o que é de estranhar pois as aves não abandonam os seus filhotes a não ser que algo lhes tenha sucedido. Dentro encontravam-se dois pequenos pardais, um deles com uma pata que parecia partida, e que viria a morrer mais tarde. As boquitas, de bico ainda amarelo (teriam, no máximo, três a quatro dias de vida), ora se abriam num angustiante pedido de alimento, ou permaneciam fechadas numa apatia que lhes era transmitida pelo abandono.
Contrariamente às opiniões fornecidas de todos os quadrantes (onde a minha se incluía), minha mulher resolveu empenhar-se na salvação daqueles pequenos animais e, desde logo os começou a tratar com todo o carinho e desvelo, com a minha ajuda, pese embora estar ainda céptico sobre o desenlace final.
Primeiro colocou-os num pequeno cesto de vime devidamente limpo e almofadado, deveras aconchegante, e longe das tentações do gato que, então, tínhamos. Depois, como alimentação, inventou uma papa feita à base de leite e de farinha para aves, comprada numa casa da especialidade, a que misturava uns pequenos e muito ligeiros fiapos de carne raspada. De seguida, com uma pequena pipeta, ou conta gotas, começou a habituá-los a engolir a ração que lhes era fornecida a espaços regulares.
Passados dois dias, fosse pela anomalia que trazia de nascença, fosse pela falta de alimento até à altura em que foram encontrados, um deles não conseguiu sobreviver. Entretanto, o outro começava a dar sinais de resistência e a piar por comida de meia em meia hora, numa pujante exigência que só terminava quando satisfeita a gula.
Os dias foram passando, passando, e a dada altura, a pequena ave começou a mudar a espalmada forma de bico para um elegante apêndice de pardal, ao mesmo tempo que as penas também iam alterando o colorido. As suas esperas entre refeições processavam-se, muitas vezes, já empoleirado no rebordo do cesto que minha mulher tinha o cuidado de manter sempre asseado. Então, batia as asas, freneticamente, num prelúdio de voo que ninguém tinha forma de lhe ensinar, e que ele teria de aprender por si próprio, e voltava a piar, até ver surgir a pequena pipeta que, desde bebé, substituía o bico materno.
Durante toda a fase de crescimento era vulgar ver-se a mãe adoptiva a fazer-lhe festas e a conversar com ele a todo o instante, correndo apressada com a papa quando lhe ouvia o mais pequeno chamamento.
De um momento para o outro, sem aviso prévio, começou a voar. A sua primeira experiência foi para cima do meu peito, quando me encontrava deitado, observando a sua movimentação. Depois, nos dias seguintes, começou a inspecção de toda a casa e era curioso vê-lo voar em direcção de minha mulher ou de mim quando se lhe fazia um pequeno assobio característico, que ele assimilou de imediato, estivesse em que sítio fosse.
Curiosa foi também a adopção feita pelo gato, pois até permitia que lhe depenicasse na comida, lhe puxasse os bigodes ou andasse a saltitar em cima do seu farto pelo.
Passaram-se os meses, e porque sentíamos que a liberdade de que desfrutava era apenas relativa, tentámos libertá-lo, mas logo que voava dois ou três metros para além da janela onde o colocávamos, regressava de imediato. Assim, acabou por se tornar naquilo que sucedera desde o início, um novo membro da família.
Quando nos via sentados à mesa, aterrava no meu ombro, descia pelo braço e exigia-me sempre um bago de arroz que saboreava com prazer. Se queria fazer uma sesta, picava-me a costa da mão para que eu a semi abrisse. De seguida, instalava-se no côncavo formado pelos dedos e a palma. Outras vezes, voava directamente para o cabelo de minha mulher onde se aninhava e dormitava o tempo que julgava necessário.
Curioso era vê-lo tomar o seu banho diário. Num pequeno recipiente de barro, começava por saltitar molhando o peito para, a dado momento, mergulhar todo o corpo no líquido, onde permanecia largos minutos. Quando dava o banho por terminado, não conseguia voar tal o estado em que pusera as asas. Então, com muito cuidado, iam-se-lhe enxugando as penas, aos poucos, até começar com pequenos voos.
Na altura, um amigo nosso cedia-nos amiúde um pequeno apartamento no Algarve e, quando nos deslocávamos, levávamo-lo sempre connosco, no carro, absolutamente livre. Apenas havia o cuidado de manter os vidros fechados o que, no verão, era por vezes, difícil de suportar. A sua posição predilecta era encavalitado no meu ombro o que originava que muitos outros carros fossem longo tempo atrás de nós a apreciar a insólita cena.
Um dia, saímos para tratar de vários assuntos e, como era hábito, ficou com a casa toda por sua conta. O gato, esse, embora merecesse a nossa confiança, mas para nosso completo descanso, ficou encerrado numa outra dependência, não fosse, num mau momento, esquecer-se da amizade recente.
De repente, o tempo que já ameaçava borrasca, acentuou a sua violência com rajadas quase ciclónicas, o que nos obrigou a regressar um pouco mais cedo do que pretendíamos e, logo que abrimos a porta, não o sentimos acorrer ao chamamento habitual. Alarmados, corremos todas as dependências em sua busca até que reparámos que, por acção do vento forte, se tinha aberto uma pequena clarabóia por cima da janela da cozinha. Dado o seu receio em voar para o exterior, deduzimos que a sua curiosidade o tenha levado até ao rebordo da clarabóia e que os ventos ciclónicos o tenham arrastado para longe.
Longo tempo percorri, debaixo de chuva, todos os arredores emitindo o assobio característico. Tudo em vão.
Nos dias seguintes, ainda me chegava com cuidado a todos os pardais que via poisados em qualquer lugar, mas eles logo fugiam à minha aproximação.
Daquele “filho” adoptivo que connosco conviveu durante quase dois anos, ficou uma grande saudade.
Esta é uma história real, bem simples.
Afinal, uma pequena história de amor.

 

 Permita-se

Permita-se

que p´ra sempre, o homem se liberte das amarras,
que, nos rios do pensamento, haja mais nascentes,
que se erga com ira, com raiva, rangendo os dentes,
que distenda os membros e que afie as garras
e que enfrente, com coragem, quem lhe faz frente.

Permita-se
que, com meia de senhora, se faça bola de trapos
para as crianças jogarem, na defesa ou no ataque,
e, para verem ópera ou um concerto em destaque,
que todos os mendigos transformem seus farrapos
num fato de cerimónia, ou em garboso fraque.

Permita-se
que banquete, de mesa farta, possa matar a fome
aquele que sempre mendiga com o olhar no chão
e a quem, tantas, mas tantas vezes, respondem não,
que, envergonhado, não ousa pronunciar o nome
e que, à noite, p’ra se aquecer, só tem papelão.

Permita-se
que se faça lei a decretar o fim de qualquer guerra,
que haja só risos de alegria, que haja liberdade,
que os homens se abracem com amor e amizade
com seus credos, suas raças, por toda a terra,
para que, então, se possa permitir, mais à vontade.

 

Luar

O sol já lá vai, chega o luar,
Dá boa noite, ajeita os prateados,
Promete cobertura aos namorados
Com sombras oportunas p’ra os tapar

De olhos profanos que andem a espreitar
Esses incautos pares, tão enlaçados,
Que, sem pudor, se beijam, descansados,
Confiantes na protecção lunar.

E a lua vai rodando em toda a terra,
Corre pelos vales, trepa à serra.
Na sua eterna ronda de vigia.

E, enquanto vai sorrindo, de prazer,
Ela aguarda, com calma, o amanhecer,
Para entregar, ao sol, a poesia.

 

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