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Momentos
Desde madrugada, que o dia tem sido
uma contínua e monocórdica sucessão de chuva branda, entrecortada,
de quando em vez, por algumas bátegas um pouco mais fortes, que
ricocheteiam nas vidraças. Quando essa mudança ocorre, provoca logo,
nos meus netos, uma correria apressada em direcção à janela do meu
escritório, onde me encontro, para melhor apreciarem estes normais
fenómenos da natureza, enquanto resguardados e ao abrigo dos seus
incómodos, e que vêm quebrar a rotina dos seus divertimentos, ou
esquecer a luta pela posse dum determinado brinquedo.
Para trás, jazem, espalhados e dispersos pelo chão, os variados e
inúmeros despojos das muitas e vitoriosas batalhas travadas nas
horas antecedentes, as espadas de papelão, os capacetes
confeccionados com folhas de jornais, os papeis rasgados com muitos
desenhos incompletos, as coloridas peças de plástico das construções
inacabadas, ou os lápis com que tentaram reproduzir cenas dos seus
imaginários.
A irrequieta despreocupação da juventude contrasta com a rotina dos
arrumos e a meticulosidade que o tempo e a idade me foram trazendo.
A ribeira, nas traseiras da minha casa, que já corria caudalosa
durante a noite, foi engrossando, ainda mais, ao longo do dia. Em
vez do lânguido ronronar, suave e prazenteiro, do gato mimado no
colo do dono, quando o caudal corre suave e ligeiro, ouve-se, agora,
na brusca corrente que se foi formando, e que teve origem na serra,
de onde provém, o prolongado e rouco rosnar do cão acicatado.
Alegres, alvoroçados e despreocupados, sem se darem conta das
consequências, abrem, de repente, a janela de par em par, para
melhor escutarem os ruídos que os despertaram dos seus
entretenimentos, e eu, sentindo uma brisa bem fresca penetrar na
sala, em vez de invocar a minha incontestada autoridade de adulto
friorento e interrompido nos seus afazeres, dirijo-me em sua
direcção, e dou por mim a sentir também os pingos de chuva
molharem-me a cara sulcada de rugas.
É tão bom, por vezes, podermo-nos sentir, novamente, crianças!...
Apenas, e tão só, crianças!...
Salpicados, mas unidos num abraço que nos possibilita a estadia,
simultânea, na janela escancarada, somos quatro ouvintes
contemplativos e atentos a todos os barulhos exteriores e, enquanto
eles, felizes, deliciados e risonhos, estendem as pequenas mãos para
sentirem os pingos desfazerem-se nas palmas e escorrerem por entre
os dedos, como ilusões dum sonho, eu olho, em silêncio, ao longo do
quintal sobranceiro, a folha da oliveira, que não dobra, antes
acolhe a chuva com a sofreguidão do faminto.
A vida continua com o somatório de todos os momentos e, por entre os
ramos, os pardais e os melros saltitam à espera duma acalmia, mesmo
que passageira.
Aponto-lhos e eles, vislumbrando-os, logo encetam uma série
ininterrupta de questões a que não consigo responder, totalmente,
tal a intensidade com que são formuladas. E, se algumas respostas
satisfazem o seu apetite original, outras aguçam-lhes a imaginação e
transformam-se em nova catadupa de interrogações a que é difícil dar
cabal satisfação, tal a cadência a que são produzidas. Então, por
vezes, o silêncio entrecortado por um ou outro monossílabo, é a
solução mais prudente, porque as respostas já não se exigem, na
busca incessante de novas perguntas.
Por fim o silêncio chega e permanece na muda contemplação deste
desabafo da natureza, e a chuva teima em salpicar-nos.
Mais tarde, passada a euforia do instante, na solidão dos meus
momentos íntimos, dou por mim a pensar que a verdadeira felicidade,
de que tanto se fala e apregoa e que apenas uns poucos conseguem
alcançar, parece consistir, tão somente, neste quadro singelo dum
avô abraçado a três netos, todos debruçados numa janela escancarada,
indiferentes à chuva que lhes molha os rostos.
Uma história simples
É uma história simples, uma história que começa com um poema à vida
e termina num hino à natureza. É uma pequena história de amor, mas o
amor quando, na verdade, existe, brota com espontaneidade e
manifesta-se em todos os sentidos, deixando-nos, depois, a
recordação saudosa de momentos passados.
Mas vamos à história.
Há cerca de seis ou sete anos, por altura da primavera, trouxeram a
minha mulher um pequeno ninho encontrado abandonado pela mãe, o que
é de estranhar pois as aves não abandonam os seus filhotes a não ser
que algo lhes tenha sucedido. Dentro encontravam-se dois pequenos
pardais, um deles com uma pata que parecia partida, e que viria a
morrer mais tarde. As boquitas, de bico ainda amarelo (teriam, no
máximo, três a quatro dias de vida), ora se abriam num angustiante
pedido de alimento, ou permaneciam fechadas numa apatia que lhes era
transmitida pelo abandono.
Contrariamente às opiniões fornecidas de todos os quadrantes (onde a
minha se incluía), minha mulher resolveu empenhar-se na salvação
daqueles pequenos animais e, desde logo os começou a tratar com todo
o carinho e desvelo, com a minha ajuda, pese embora estar ainda
céptico sobre o desenlace final.
Primeiro colocou-os num pequeno cesto de vime devidamente limpo e
almofadado, deveras aconchegante, e longe das tentações do gato que,
então, tínhamos. Depois, como alimentação, inventou uma papa feita à
base de leite e de farinha para aves, comprada numa casa da
especialidade, a que misturava uns pequenos e muito ligeiros fiapos
de carne raspada. De seguida, com uma pequena pipeta, ou conta
gotas, começou a habituá-los a engolir a ração que lhes era
fornecida a espaços regulares.
Passados dois dias, fosse pela anomalia que trazia de nascença,
fosse pela falta de alimento até à altura em que foram encontrados,
um deles não conseguiu sobreviver. Entretanto, o outro começava a
dar sinais de resistência e a piar por comida de meia em meia hora,
numa pujante exigência que só terminava quando satisfeita a gula.
Os dias foram passando, passando, e a dada altura, a pequena ave
começou a mudar a espalmada forma de bico para um elegante apêndice
de pardal, ao mesmo tempo que as penas também iam alterando o
colorido. As suas esperas entre refeições processavam-se, muitas
vezes, já empoleirado no rebordo do cesto que minha mulher tinha o
cuidado de manter sempre asseado. Então, batia as asas,
freneticamente, num prelúdio de voo que ninguém tinha forma de lhe
ensinar, e que ele teria de aprender por si próprio, e voltava a
piar, até ver surgir a pequena pipeta que, desde bebé, substituía o
bico materno.
Durante toda a fase de crescimento era vulgar ver-se a mãe adoptiva
a fazer-lhe festas e a conversar com ele a todo o instante, correndo
apressada com a papa quando lhe ouvia o mais pequeno chamamento.
De um momento para o outro, sem aviso prévio, começou a voar. A sua
primeira experiência foi para cima do meu peito, quando me
encontrava deitado, observando a sua movimentação. Depois, nos dias
seguintes, começou a inspecção de toda a casa e era curioso vê-lo
voar em direcção de minha mulher ou de mim quando se lhe fazia um
pequeno assobio característico, que ele assimilou de imediato,
estivesse em que sítio fosse.
Curiosa foi também a adopção feita pelo gato, pois até permitia que
lhe depenicasse na comida, lhe puxasse os bigodes ou andasse a
saltitar em cima do seu farto pelo.
Passaram-se os meses, e porque sentíamos que a liberdade de que
desfrutava era apenas relativa, tentámos libertá-lo, mas logo que
voava dois ou três metros para além da janela onde o colocávamos,
regressava de imediato. Assim, acabou por se tornar naquilo que
sucedera desde o início, um novo membro da família.
Quando nos via sentados à mesa, aterrava no meu ombro, descia pelo
braço e exigia-me sempre um bago de arroz que saboreava com prazer.
Se queria fazer uma sesta, picava-me a costa da mão para que eu a
semi abrisse. De seguida, instalava-se no côncavo formado pelos
dedos e a palma. Outras vezes, voava directamente para o cabelo de
minha mulher onde se aninhava e dormitava o tempo que julgava
necessário.
Curioso era vê-lo tomar o seu banho diário. Num pequeno recipiente
de barro, começava por saltitar molhando o peito para, a dado
momento, mergulhar todo o corpo no líquido, onde permanecia largos
minutos. Quando dava o banho por terminado, não conseguia voar tal o
estado em que pusera as asas. Então, com muito cuidado, iam-se-lhe
enxugando as penas, aos poucos, até começar com pequenos voos.
Na altura, um amigo nosso cedia-nos amiúde um pequeno apartamento no
Algarve e, quando nos deslocávamos, levávamo-lo sempre connosco, no
carro, absolutamente livre. Apenas havia o cuidado de manter os
vidros fechados o que, no verão, era por vezes, difícil de suportar.
A sua posição predilecta era encavalitado no meu ombro o que
originava que muitos outros carros fossem longo tempo atrás de nós a
apreciar a insólita cena.
Um dia, saímos para tratar de vários assuntos e, como era hábito,
ficou com a casa toda por sua conta. O gato, esse, embora merecesse
a nossa confiança, mas para nosso completo descanso, ficou encerrado
numa outra dependência, não fosse, num mau momento, esquecer-se da
amizade recente.
De repente, o tempo que já ameaçava borrasca, acentuou a sua
violência com rajadas quase ciclónicas, o que nos obrigou a
regressar um pouco mais cedo do que pretendíamos e, logo que abrimos
a porta, não o sentimos acorrer ao chamamento habitual. Alarmados,
corremos todas as dependências em sua busca até que reparámos que,
por acção do vento forte, se tinha aberto uma pequena clarabóia por
cima da janela da cozinha. Dado o seu receio em voar para o
exterior, deduzimos que a sua curiosidade o tenha levado até ao
rebordo da clarabóia e que os ventos ciclónicos o tenham arrastado
para longe.
Longo tempo percorri, debaixo de chuva, todos os arredores emitindo
o assobio característico. Tudo em vão.
Nos dias seguintes, ainda me chegava com cuidado a todos os pardais
que via poisados em qualquer lugar, mas eles logo fugiam à minha
aproximação.
Daquele “filho” adoptivo que connosco conviveu durante quase dois
anos, ficou uma grande saudade.
Esta é uma história real, bem simples.
Afinal, uma pequena história de amor.
Permita-se
Permita-se
que p´ra sempre, o homem se liberte das amarras,
que, nos rios do pensamento, haja mais nascentes,
que se erga com ira, com raiva, rangendo os dentes,
que distenda os membros e que afie as garras
e que enfrente, com coragem, quem lhe faz frente.
Permita-se
que, com meia de senhora, se faça bola de trapos
para as crianças jogarem, na defesa ou no ataque,
e, para verem ópera ou um concerto em destaque,
que todos os mendigos transformem seus farrapos
num fato de cerimónia, ou em garboso fraque.
Permita-se
que banquete, de mesa farta, possa matar a fome
aquele que sempre mendiga com o olhar no chão
e a quem, tantas, mas tantas vezes, respondem não,
que, envergonhado, não ousa pronunciar o nome
e que, à noite, p’ra se aquecer, só tem papelão.
Permita-se
que se faça lei a decretar o fim de qualquer guerra,
que haja só risos de alegria, que haja liberdade,
que os homens se abracem com amor e amizade
com seus credos, suas raças, por toda a terra,
para que, então, se possa permitir, mais à vontade. |

Luar
O sol já lá vai, chega o luar,
Dá boa noite, ajeita os prateados,
Promete cobertura aos namorados
Com sombras oportunas p’ra os tapar
De olhos profanos que andem a espreitar
Esses incautos pares, tão enlaçados,
Que, sem pudor, se beijam, descansados,
Confiantes na protecção lunar.
E a lua vai rodando em toda a terra,
Corre pelos vales, trepa à serra.
Na sua eterna ronda de vigia.
E, enquanto vai sorrindo, de prazer,
Ela aguarda, com calma, o amanhecer,
Para entregar, ao sol, a poesia. |

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