Aurélio Schommer

 

 

Quero Viver

 

Karkaju. Assim me chamava meu pai, pataxó. Nossos inimigos eram os kamakãs. Ouvia dizer que os kamakãs não eram bravos e se vendiam aos brancos, espíritos ruins, gente de males. Ouvia dizer também que os brancos tinham casas grandes, fortes, com coisas bonitas dentro delas, e ganhavam todas as guerras. Queria ser branco, ou melhor, queria ser pataxó, mas queria ser branco também, ou melhor, queria que brancos e pataxós vivessem juntos. Por que a guerra?
Acompanho meu pai e meu tio no mato. Ouvimos barulhos. Agachamo-nos. São os brancos, sim, muitos deles, fazem barulho, pois cortam os cipós quando passam. Vamos embora, penso eu, para que lutar? Meu pai não entende. Arma a flecha no arco. Dispara. Meu tio faz o mesmo. Acerta um. Os brancos gritam. Seguem-se estrondos. O fogo atinge a cabeça de meu pai, de frente. Ele cai. Não grita, não consegue, mas está com dor. Meu tio também está ferido. Não quero morrer. Sinto meu peito respirando, minha barriga mexe, para cima e para baixo, o ar entrando e saindo, sou gente, sou muito novo, ainda vou crescer, quero crescer, quero ser grande, conhecer os kamakãs, os brancos, o mundo todo, não posso morrer.
Arrasto-me, tentando não fazer barulho. Deveria ter raiva por terem atirado em meu pai, mas não tenho, ele procurou isso. Para que flechar os brancos? Era melhor fugir ou fazer como os kamakãs, amigos dos brancos nos aldeamentos, nas roças. Só quero sobreviver. Arrasto-me. Já andei um bocado. Atiram em minha direção. Meu coração dispara. Não sei se ando mais ou paro. Já me viram?
- É um menino. Não atirem.
Eu não sabia língua de branco, mas, depois que aprendi, meu padrinho, Sebastião, branco, contou-me sobre esse dia. Foi ele quem gritou. Seus amigos não queriam me poupar.
- Vai vingar a morte do pai. É bugre. Melhor acabar logo com ele, cortar o mal pela raiz.
Fui morar numa casa de taipa, quase na beira do rio Almada. Sebastião me deixa aos cuidados de Estela, uma negra bonita, muito jovem, de Ilhéus. Quero conhecer a cidade. Ela promete me levar até lá quando o padrinho deixar. Em volta de nossa casa, vão fazendo casas. São grandes, tem uma venda com muita coisa dentro, até doce. Eu gosto do lugar. Chamam Rio do Braço.
Meu nome agora é Baião. Nome ou apelido, não sei, Tião (Sebastião) me chama assim. O povo de Rio do Braço me chama de bugre; os mais amigáveis, de indiozinho. Não me importo, quero só que me chamem, participar de tudo, o povoado crescendo, o cacau, as casas, os móveis, coisas da Europa, muito bonitas.
Tião diz:
- Tá virando homem. Embora mais eu.
Tocaia. O padrinho acerta um homem. A mulher sai correndo, carrega um pequeno nos braços, uma menina e um menino correm atrás. Tião atira de novo. Era para espantar, mas pega no ombro do menino. Corremos para ver. Está sangrando. Olho para a barriga dele. Mexe, para cima e para baixo, o ar entrando e saindo. Ele quer viver.
- Embora levá ele mais nós, padrinho.
- Pode, não, Baião. É deixar rastro.
O menino fica. Eu queria ficar com ele, ajudar para a barriga dele continuar mexendo, para cima e para baixo, ô, dó. Tanta vida pra ver. Ah! Se eu levo um tiro, morro sem ver a cidade. Quero ver Ilhéus antes de morrer. Saber como é.
No caminho, o padrinho me explica. O homem que ele matou era um posseiro. O tiro no menino era só para zunir, espantando-o. Mas pegou. Como acertou, deveria acabar o serviço, não deixar testemunha, mas Tião ficou com pena de fazer na minha frente. Ele explica também que não quer mais ser jagunço, trabalhar para um coronel. Quer uma burara para eu, ele, Estela e os filhos deles trabalharmos.
- Quero ver Ilhéus. Me leva, padrinho?
Ele diz sim. Quer dizer, diz não, não agora, só depois de conseguir a burara. Mas promete, como promete que só precisa fazer mais um trabalho para o coronel, depois ganha o pedaço de chão, e eu vou poder conhecer a cidade.
O capataz do coronel passa lá em casa. É guerra. Nosso povo, o povo do nosso partido, que os brancos, igual aos índios, são divididos, não sabem por que, pois então, nosso povo foi atacado em Mutuns pelos Badaró, do partido do governo. Vão acabar atacando a gente, não temos quem nos socorra, a polícia tá com o partido deles. É guerra.
Numa batalha, Tião, do meu lado, se vai. Tiro certeiro, na testa. É pontaria, é? Sou pataxó, não erro um. Saio da toca, tenho raiva, mataram Tião, meu padrinho. Não erro um. A repetição faz seu trabalho, conto sete homens abatidos, tudo jagunço ou trabalhador da roça transformado em jagunço. Lutavam em troca da promessa da burara. Esses não vão levar. Isso lá é jeito de conseguir terra? Os pataxós não sabem pensar, mas os brancos, às vezes, também não sabem.
De volta a Rio do Braço, fazenda do coronel. Até comida falta, gente demais reunida para se proteger. Estela e os moleques dela e de Tião estão comigo. Agora eu peço, coronel atende, ganhei fama de valente, bom de pontaria.
A guerra continua. Mas agora a gente não se defende, ataca, mata dez, mata cem, bota fogo nas fazendas, nas casas grandes. Dá pena ver tanta cama bonita, tanta mesa sólida, cristais, pianos, coisas da Europa, tudo queimando, labaredas comendo os tetos.
A guerra acaba. Ganho a burara. Vou viver nela com Estela e os meninos. Tenho uma família, uma família de negro com índio, bonita, cheia de gente trabalhando, vivendo, sonhando.
Finalmente, Ilhéus. Acho que me protegi de levar tiros só para ter esse momento. Não poderia morrer sem ver a cidade, o mar, é tão bonito. Sinto algo batendo forte dentro de mim. Olho para baixo e vejo minha barriga, para cima e para baixo, o ar entra e sai acelerado. Estou vivo, quero viver muito mais, é tão bonito.


 

2012

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