Berenice Guedes

 

O Anjo do Amor Imortal

Berenice Guedes


Escuto.
Não falo.
Silencio enquanto tudo gira
Ao redor de mim.
É hora de buscar o Silêncio.
- É preciso ouvir a Voz do Silêncio!...
Não aquele silêncio ensurdecedor
Que abala, fere, angustia,
Mas o Silêncio que é Suave,
Que fala mansamente, mas firme...

Estou cansada do barulho das gentes
Que falam sem ter sentido e atordoam
E nada constroem em mim!

Silencio para ouvir Voz diferente
Que tranquilize a alma
E acalme o coração
E, de certa forme,
Me ressuscite.

Silêncio...

Sinto-me abandonada e só.
Estou quase cansando de procurar ouvir.

Mas... talvez eu não ouça
Porque “penso” que silencio,
Mas na verdade eu estou
Apenas aguardando, insistindo ouvir!
E assim minh’alma não silencia de todo...

Esvazio-me de mim...

Vazio...

Ele chega então, docemente,
Com um sorriso como só Ele tem
E diz:
- Levanta, preciso de ti!
Vem e canta comigo!... –

O mundo em Música se erigiu
E em Música tudo o que há de Bom foi feito.

A voz é Música pra mim!
O olhar foi até minh’alma
E me consolou
E fortaleceu.

E Sua Luz me amou.

Minhas forças voltaram
E a Música que vinha DEle me invadiu.
Paz...
Muita Paz!...
Que me consumiu
A dor e a tristeza
E a solidão opressiva.

Então eu cantei...
E ele ouviu!...

Um Anjo...
Um Anjo chegou perto de mim
E me tomou pela mão
E levou-me muito longe
Onde a Plena Paz habita,
Uma Paz sem fim...
Comunhão...

Bem-aventurados os Anjos
Que nos tomam pela mão
E nos elevam!

Os Anjos são assim...

Berenice Guedes

ALMA INQUIETA DE POETA...

Berenice Guedes


Almas inquietas, solitárias, mudas,
Que falam com as mãos em poesias
E com elas cantam o sol e as maresias
Falando com seus olhos...
Poeta, tu transmudas
Para a verve os anseios de tua alma
Escondidos sob a capa de uma calma
E de um jeito que é só teu, do teu sorrir
Indecifrável, como olhos feiticeiros,
À procura de um eterno vir a ser...
A essência
Do Amor que buscas com loucura...

Falas em “lembranças que tremulam”
Anunciando “o despertar das flores...”
Elas já desabrocharam em ti! São teus amores
Rubros como o tinto vinho nos cristais
Onde as taças tilintam sem rivais
E o vinho cor de sangue e qual rubi
Faz escorrer uma lágrima... E sorri...
Ah! As “escondidas emoções”
Que tentas sepultar no esquecimento...

Mas não consegues! É “eterna a despedida”
Que ensaias no palco do presente
Mas que jamais farão parte do passado...

Berenice Guedes

 

 AMANHECE...

Berenice Guedes


Amanhece...
As sombras dissipam-se e, ao longe,
A “barra do dia”* vem se achegando
E a Estrela Matutina ainda brilha no Céu...
Os tons vão-se misturando na Palheta Divina
Com matizes de rosa, azul, vermelho...
Indescritível beleza!...
O farfalhar das folhas agita-se nas árvores
E de seus ninhos saem os pássaros cantores...
Renasce a Vida! Renasce a Esperança...
Vêm-nos à lembrança todos os amores...

Amanhece...
E meus sonhos acordam com novas visões...
Um caminho se abre e na fonte, escondida,
Sacia-se a sede de mil anos então...
Vem-me a saudade, mas com nova versão:
Sei que meus sonhos se cumprirão
No momento da ceifa do trigo e do grão...
Aguardo o momento; há uma antevisão...

Por esta razão não me pesa a saudade.
Espero... E, no amanhecer há uma nova visão:
Estou em ti e tu estás em mim... Um no Amor...
Ah! Como será lindo este nosso verão
Que desponta no inverno em meiga canção...

Amanhece...
-Vem!...
Tudo é pura emoção...

Berenice Guedes

 

AS NOITES DO PAMPA

Berenice Guedes


Aqui, neste recanto brasileiro,
Onde o Minuano chicoteia no inverno
E a geada, de manhã, queima quem anda,
Esconde-se um feitiço traiçoeiro:
As mulheres amam mais e sofrem muito
E ficam quietas sorvendo o seu mate,
Chimarrão companheiro das matinas,
Amigo que aquece as vespertinas
Horas da noite em que elas estão sós...

As noites do pampa têm estrelas
E cada estrela é uma lágrima que canta
Junto ao luzeiro do céu, a sua dor...
Essas mulheres, mesmo frágeis são guerreiras,
E silenciam ante todo o mundo inteiro
O abandono de quem lhes é o amor...
Cada lágrima que rola em seu silêncio
Transforma-se no céu em uma estrela
E é por isso, que as noites, no Rio Grande,
Curvam-se sempre, piedosas, ao Cruzeiro...

As mulheres do sul não foram feitas
Para ser feliz na solidão...
E, normalmente, esta é a companheira
Das que amaram muito e em vão...
A mulher do Sul ama demais
E se doa por uma vida afora
E nas noites estreladas deste chão
São incontáveis suas lágrimas lá fora
Enfeitando as noites de ébano pintadas
Por sofridas mãos...

Nas noites do pampa, as mulheres,
São com certeza, mui melhor amantes...
Nascem livres sob o som das cachoeiras
Cortando umbigos com tesouras de esquilar...
Tomam banho nas águas dos riachos
E nas sangas, lavam suas pobres roupas,
Tem em suas lágrimas o mais forte alvejante
Pois são mulheres que não param de sonhar
Com o Cavaleiro andante...

Sonham com os homens dos romances
Lidos à luz de velas e lampiões;
Acreditam nas palavras de amor
E se entregam às delícias do calor
Que vem das chamas que estalam nas lareiras
Tendo por colchão os seus pelegos
E ao seu homem entregam seu ardor...

Mas este homem, que mata pelos campos,
Acostumado aos combates pela terra,
Não é fiel nem luta só por elas:
Interessam-lhes mais, as que mais dote,
Ainda tenham a ofertar! Por mais status!...
E a gauchinha humilde da Campanha
É trocada pela “senhora dos salões,”
E espera em vão que seu gaúcho volte...

As noites do pampa são ardentes
Como as mulheres, que, apesar de suas correntes,
Arriscam a vida e honra por amor...
São fogaréus de paixão e de desejo
Mas, descartadas, sem que haja nenhum pejo
Pelas “madames ricas, que tem Nome”
E estas amargam a vida de seus homens,
Que gastam com modismos e invenções
E os tratam mal, como se fossem suas donas,
Pois os compraram a preços de peões...

E a gauchinha, humilde, no seu rancho,
Ardendo em febre de amor e de saudade
Fica esquecida... Mas ela não esquece!...
E envelhece olhando o horizonte
À espera que um vulto conhecido
Se apeie do cavalo e entre beijos
Aplaque seu desejo incontido...
E se acontece, ela perdoa, ela entende,
E o enche de carícias sem igual...
Até que ele, não mais que de repente,
Se ausente... E não volte nunca mais...

As noites do pampa despertam desejos...
Mas guardam segredos
Das que amaram demais...

Berenice Guedes

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